2 de setembro de 2005

O POLVO

Neste período estival, como vai sendo hábito, tem sido o inferno, grassando a destruição e também algumas mortes, no Continente, face à onda infernal de incêndios.
Não se compreende tamanha catástrofe, num país reduzido no seu espaço territorial, face a outros de maior dimensão.
É necessário o grito de Ipiranga. Basta! Vamos atacar o fogo de frente, os incendiários, quem lhes sorri!
Na comunicação social, mormente na imprensa, surgem alvitres, geram-se polémicas, propõem-se acções de combate, e lá aparece um ou outro a levantar o véu da sua imaginação, mas, chegado o fim dos fogos, regressa-se ao sono dos deuses.
Este país de desempregados e de reformas antecipadas; de pobreza envergonhada em contraste com a formação de riquezas; de sinais exteriores de riqueza sem causa plausível e sem que ninguém lhes pegue; de atentados à fuga fiscal; é propiciador da manutenção dos mesmos comportamentos e no grassar de dificuldades para quem o infortúnio lhes bateu à porta.
Não há governo que resista aos tentáculos do polvo, surja ele de qualquer área partidária.
E isto tem vindo a surgir em todos os governos, com mais incidência nuns que noutros, onde o povo, confiante nas promessas eleitorais, começa a já não ir em cantigas.
Basta estar um pouco atento para podermos ver como nestes últimos governos, pantanosos de ambiente político, do qual não é alheio o governo de Sócrates, o polvo aplica bem as ventosas nos seus tentáculos.
Os políticos mais bem intencionados acabam por ser vítimas do mesmo, indefinível dos aparelhos partidários.
Chega-se ao ponto de nem o voto popular, mesmo ao propiciar maiorias absolutas, ter mais força que o polvo, onde as lideranças partidárias são, em grande parte, constituídas por gente emanadas do “aparelho”.
Os seus tentáculos permitem afastar os melhores que não aceitam trabalhar por interesses particulares, e dá guarida aos dependentes de troca de favores, onde persistem os jobs for the boys and the girls.
Assim, como é possível levar por diante qualquer reforma impopular?
O polvo estende os tentáculos e força as suas ventosas quando as dependências das benesses do Estado são de flagrante evidência, não obstante se mostrar a necessidade de levar por diante a eliminação ou redução das mesmas.
E a forma tentacular do bloqueamento da acção governativa, em dados momentos como os inerentes aos receios de castigos eleitorais, tanto pode ser branda como mais cerrada, segundo as conveniências de ocasião.
Penso que a correcção do défice não se consegue só com legislação administrativa ou medidas económicas, porquanto o grande mal também é político.
A perversidade entre chefias e o grande aparelho, sem a intervenção, no momento, com o voto, dos eleitores poderem dizer de sua justiça, é mais uma forma de levar ao desânimo dos portugueses, cuja esperança começa a ficar de um verde demasiado claro.
Valerá a pena dar exemplos? Eles são de uma clarividência nos noticiários e imprensa diária, onde o espanto já pouco se evidencia, passando à banalidade. Depois, não digam que o maior partido passará a ser a abstenção.
A justiça no nosso País tem que ser profundamente alterada, com mais celeridade que as pretensões da OTA e TGV, eliminando-se uma boa parte dos brandos costumes.
Nos tempos que correm somos um País de vergonha, à frente dos primeiros lugares no que é mau; na retaguarda daquilo em que os outros países desenvolvidos evoluem.
Vejamos, no caso dos incêndios, segundo o DN de 14 de Agosto, “só um por cento dos incendiários chega a tribunal. Nos últimos oito anos nenhum autor de fogo posto foi sujeito a prisão efectiva”.
Afinal, o que estão os militares a fazer nos quartéis, agora que não há guerras coloniais? Não poderão ajudar incondicionalmente os bombeiros e, muito antes da lamentável romaria aos fogos, exercer tarefas de prevenção?


(In “Notícias da Covilhã”, de 02/09/2005; e diário digital Kaminhos)

29 de julho de 2005

COVILHÃ CULTURAL

De há muito que o concelho da Covilhã tem o maior número de agentes culturais do distrito de Castelo Branco.
A UBI veio dar um impulso forte à dinâmica cultural, e salvar a Covilhã, que, face à vastíssima crise laneira, passaria a integrar uma região desértica, onde apenas se verificaria a existência de alguns oásis daquela que foi a sua indústria secular. Passou então a ser a Covilhã universitária.
Estamos num país onde a literacia ainda tem índices baixos, e o interesse pela leitura é reduzido, havendo mais a apetência pelos jornais desportivos, e também na Covilhã, apesar de tudo, não existe excepção à regra.
No entanto, é com agrado que verificamos, de tempos a tempos, a chama cultural, emanante de pessoas simples, num amor à Covilhã, como Terra de origem ou de adopção, mostrando verdadeiros pergaminhos desta cidade de outrora, que já era linda, e nos veio trazer a memorização nostálgica de património que um dia deu lugar a outras construções, fruto das necessidades do desenvolvimento.
Reporto-me à exposição de programas do Teatro Covilhanense, colecção do entusiasta e amigo da Covilhã, Carlos Monteiro Ribeiro, exposição digna de ser vista na galeria da biblioteca municipal.
Reconheço que fiquei encantado com o que ali vi, sobre a história do Teatro Covilhanense, sucedâneo do Hermínios Terrasse, como lá é referido. Era o tempo do cinema mudo. Mais tarde, já com o sonoro, viriam a surgir transformações e o aparecimento do actual Teatro, mais conhecido pelo “Pina Bicho”.
Programas em exposição, diversificados no âmbito musical, comédia, comédia burlesca, romance, drama, aventura, histórico, ficção, espionagem, récitas domésticas, assim como em português, não pude deixar de recordar filmes que eu vi, na minha juventude, na década de sessenta, como “Rapazes de Táxis”, e “Sarilho de Fraldas”, o primeiro filme colorido, com Madalena Iglésias e António Calvário. E, também, na mesma década, as festas de finalistas, recordando a do meu Curso da Escola Industrial.
Mas a cidade da Covilhã esteve envolvida num grande evento cultural, no sábado, 16 de Julho, no Pólo das Engenharias da UBI, com a presença de meia centena de notáveis escritores, num Congresso Literário designado como Primeiras Jornadas de Literatura.
Uma feliz ideia de Carlos Pinto, presidente da edilidade covilhanense que, convidando o conhecido escritor da Covilhã, Manuel da Silva Ramos, para coordenar toda a acção destas Jornadas, se tornou num êxito cultural, jamais visto fora de Lisboa e Porto.
Além dum encontro de colegas escritores, foi também oportunidade para o público covilhanense, e não só, poder assistir, e participar com perguntas nas mesas redondas.
Lá estive, com imenso prazer, nas salas dos temas “Literatura e Memória”, e, depois, “O Futuro do Romance Português”.
Fernando Dacosta, Mário Ventura, Baptista-Bastos, Fernando Campos, José Freire Antunes, José Viale Moutinho, Maria de Fátima Marinho, Agustina Bessa-Luís, Mário Claúdio, Catherine Dumas e Pedro Mexia, foram escritores que o público gostou de ouvir, do qual surgiram algumas interpelações.
Foi um acontecimento na vida citadina de primordial importância, projectando culturalmente a Covilhã, como haveria de dizer Manuel da Silva Ramos.
Na apreciação crítica a alguns jovens escritores seria lançada uma polémica que viria a ser dissipada na continuação dos trabalhos, e, na mesa que haveria de despertar maior interesse – Literatura e Memória – muito do que ali se falou veio direccionar-se para a responsabilidade ética do escritor, da Literatura no jornalismo, onde, segundo se afirmou, as redacções estão a ficar sem memória.
Na voz vibrante de Baptista-Bastos soou a convicção duma “amnésia programada” e dos despedimentos nos jornais nos tempos áureos do cavaquismo; com Fernando Dacosta a dizer que o “jornalismo morreu, hoje existe uma coisa chamada comunicação social cujo objectivo é, apenas, ganhar dinheiro”.
Muito haveria a dizer destas Jornadas de Literatura, que não cabem numa simples crónica, pela grandeza dos debates com excelentes escritores, jamais vistas na Covilhã, e até na província, pelo que deixaram já rastos de alguma saudade mas também a esperança para que se venham a repetir no próximo ano.
Posso mesmo referir que, para assemelhar um evento de tal natureza como este que se verificou, é necessário recuar no tempo mais de sete décadas para encontrar um espaço com um acervo cultural importante como foi o III Congresso Nacional de Bombeiros, realizado na Covilhã, em Julho de 1932, época em que não se vivia o flagelo dos fogos florestais.
Por último, uma palavra pela omissão de alguns escritores da Covilhã que ficaram de fora, que considero de certo modo com alguma injustiça, e cuja situação deveria ser revista no futuro. A Associação Portuguesa de Poetas, presidida pela covilhanense Maria Ivone Vairinho, é um dos exemplos.
Como nem tudo se pode fazer de uma vez só, fica a satisfação de que a Covilhã cultural ficou feliz pela inédita iniciativa destas jornadas na cidade.


(In “Notícias da Covilhã”, de 29/07/2005)

1 de julho de 2005

A VÍRGULA E O SARGENTO PAULUS

Ele era solteirão; eu, casado de fresco. Ele metera o “chico”; eu era miliciano. Ambos trabalhávamos na mesma repartição, parte da secretaria do extinto Regimento de Infantaria nº. 12, na Guarda. O sargento Paulos era de Panóias, concelho da Guarda; eu fazia parte do grupo de quatro furriéis milicianos que, todos os dias, vínhamos para a Covilhã, no Fiat 600 do Bicho Nogueira. Os outros eram o Eduardo Prata e o Rato, do Teixoso.
O sargento Paulos era deficiente das FA e partilhava comigo o quarto que a unidade militar tinha, para a classe, na Rua Afonso V, quarto que utilizava quando não podia vir à Covilhã.
Éramos amigos e tínhamos um gosto comum – redigir bem e executar atempadamente as tarefas que nos eram confiadas, não gostando de demoras nas respostas.
Certo dia, o sargento Paulos redigira um ofício que necessitava da assinatura urgente do comandante, para ainda seguir, nesse dia, já em cima da hora, para outra unidade militar. Qual não foi o seu espanto, algo de revolta, quando o mesmo lhe é devolvido, pelo comandante, a fim de colocar uma vírgula, em determinada frase do mesmo ofício.
É aí que Paulos não pára de mostrar a sua insatisfação, a coxear de um lado para o outro, na sua prótese, dizendo, com alguma ironia: “se calhar foi por faltar uma vírgula que eu fiquei sem a perna. Certamente foi por ofício que requisitaram o helicóptero para me evacuarem da Guiné, voltou para trás porque faltava uma vírgula, e com a demora fiquei sem a perna!”
Vem esta nota preambular para referir um tema actual, e servir de feedback a propósito das reivindicações dos professores que provocaram greves em plenos exames.
Todos já sabemos que, não obstante direitos adquiridos, este estado de coisas em que o país vive banhado não pode continuar a manter-se. “A cidadania não é só direitos adquiridos e benesses garantidas eternamente, sem relação com a produtividade, o crescimento, a competitividade, a qualidade daquilo que se faz e se produz” (Miguel Sousa Tavares, in Público de 24/06/05).
Sabemos que o Estado português vive, há longo tempo, gastando mais do que tem e gerando o endividamento para as gerações futuras.
Diz-se mesmo que os professores trabalham poucas horas em comparação com os seus colegas europeus, e ganham proporcionalmente mais, reformando-se mais cedo.
Sabe-se que a Educação consome recursos desproporcionados e com resultados muito medíocres.
Um em cada três alunos chumba ao chegar ao ensino secundário.
Há bons professores, mas também há outros que...valha-nos Santo António!
Nestas colunas tenho feito evidenciar a excelência de quantos mestres do ensino me marcaram e deixaram rastos indeléveis da sua acção na vida desta cidade, numa eterna saudade.
Ao verificarmos o reiniciar, após três décadas, das provas nacionais do 9.º ano para acabar a escolaridade obrigatória, que, a meu ver, jamais deveriam ter terminado, vem-me a memorização da década de cinquenta em que se faziam os exames das antigas 3.ª e 4.ª classes; e quem quisesse singrar para o ensino secundário ainda tinha que fazer o chamado exame de admissão, com professores do secundário a efectuar exames aos que terminavam o ensino primário, a antiga 4.ª classe.
Era uma época de frenesim, sem reivindicações, pois vivia-se em ditadura, com exames da primária nas antigas instalações da Escola Central, para onde se deslocavam os alunos de todas as freguesias do concelho.
Ainda recordo todos os professores que me fizeram os exames, como recordo o nascer do penúltimo pavilhão da Escola Industrial, assim como a destruição das Quintas da D. Nazaré Carrola e D. Glória, para aí se erguerem as instalações do então novo Liceu.
Do tempo das reguadas da escola primária (e reguadas no rabo, como as do professor Raul, no Asilo), atitudes que condeno e nunca deveriam ter existido, à benevolência e alguma má educação dos dias de hoje, vai uma diferença muito grande, com uma conduta que é preciso procurar nas bases do verdadeiro ensino, para que não se verifique que quase um em cada três portugueses venha a sofrer, como actualmente se verifica, de insónia moderada a severa.
E, para terminar, registo o grande encontro de saudade, num grande convívio que se realizou entre antigos alunos e professores da Escola Industrial e Comercial Campos Melo, no passado sábado, nas Penhas da Saúde, onde os bons ensinamentos de outrora também foi tema no diálogo de alguns antigos colegas.
Numa troca de olhares, pensativos, procurando memorizar os nomes esvaídos de alguma amnésia, o reencontro de um antigo colega de há quarenta anos – um forte abraço do José Manuel Espinho!

(In “Notícias da Covilhã”, de 01/07/2005)

10 de junho de 2005

VIAGEM PELO TEMPO

Já lá vai o tempo em que me considerava um “cidadão de terceira”, naqueles longínquos anos dos princípios da década de sessenta, então iniciando uma carreira no funcionalismo público, o tal emprego de futuro, aquele que poderia ser vitalício, o que não era de perder. Exigiam-se habilitações mínimas do antigo quinto ano liceal, ou equivalente (a universidade era só para os ricos, e a mais perto era em Coimbra), e, para se ganharem mais uns 200 ou 300 paus (muito bom para a época) era necessário concorrer, sair a classificação no Diário do Governo (como então se designava), e competir com outros, muitas vezes com ultrapassagens pela direita...Paradoxalmente, as empresas da região respiravam de prosperidade, com a indústria laneira como rainha, onde muitos dos seus quadros administrativos, alguns de habilitações literárias reduzidas à antiga 4ª. Classe, absorviam pessoal nos seus escritórios ou armazéns, com salários que dobravam os dos funcionários públicos.
O contraste entre quem não tinha direito a qualquer pinga de assistência médica (ela não existia no funcionalismo público, e só mais tarde surgiu a ADSE), a reforma era só aos 70 anos, embora a 100%, traduzia-se numa abissal diferença “com os cidadãos de primeira” que residiam no sector privado, onde tinham direito a previdência, no Posto Médico; reforma aos 65 anos, sobre 80% da média de salários; existindo ainda, neste sector, os “cidadãos de segunda” – o operariado que vivia com sacrificados salários, mas tinha direito a assistência médica.
Os funcionários públicos, se quisessem ir a um médico, tinham que pagar uma consulta do seu bolso, muitas vezes ficando com as receitas nas suas algibeiras rotas, ou então endividando-se; outras vezes era a bondade de médicos que conheciam esses problemas e não levavam nada pelas consultas, como o Dr. Baltazar; outros só o faziam quando perguntavam qual era a sua profissão.
Nestes tempos, de brandos costumes, carregados de ditadura, era plenamente justificável a incidência da reforma a 100% para os funcionários públicos.
Com o decorrer dos anos e após a Revolução do 25 de Abril, as muitas reivindicações do funcionalismo público vieram provocar a troca de papéis, agora já todos beneficiando de assistência médica e medicamentosa, continuando com regalias de 100% de reforma sobre o último salário auferido, e outras mais, passado a “cidadãos de primeira”, retirando para segundo plano o sector privado, que passou a manter-se na cepa torta, agora atirados para “cidadãos de segunda”.
Esta guerra-fria jamais encontrara timoneiro do governo com coragem para enfrentar, de vez, a resolução dum problema, a todos os títulos moral.
Coube ao actual Primeiro-Ministro esta tarefa arrojada, difícil e melindrosa, na perspectiva de dividir os sacrifícios por todos os cidadãos, deixando assim de haver filhos de Deus e filhos do diabo.
Só empurrados por um negro défice se conseguem chegar a reformas na administração pública deste jaez, as quais, mesmo assim, deixam Portugal continuar a crescer pouco e a afastar-se da Europa, embora a União Europeia se encontre à beira da desorientação total. Portugal é o país mais pobre da Zona Euro.
No entanto, continua e continuará a haver anuências e discordâncias às decisões de Sócrates. E o mesmo será preso por ter cão e preso por o não ter. Se o Primeiro-Ministro não tomasse medidas deste tipo seria apelidado de irresponsável; mas ao tomá-las, é considerado não cumpridor de promessas.
Da maneira como se encontra o País é que este não pode continuar, dificultado com uma Europa sem europeus, ou, pelo menos parte decisiva deles.
Com a China a entrar, directa ou indirectamente, nas nossas casas, nos nossos locais de trabalho, para onde vai esta Europa e este Portugal? A China é, presentemente, a explicação de todos os nossos males e muito principalmente dos da indústria têxtil, mas muitos sabem perfeitamente que o mundo não muda a correr e, assim, a competitividade foi uma palavra mal vista.
Enquanto redijo este texto, levantei o rato do computador e, na base, verifico na etiqueta “made in China”.
Quando é que um dia podemos ver a mais pequenina peça com a etiqueta a identificar “made in Portugal”?
Choramos agora sobre o leite derramado, o mau aproveitamento, e a engorda de muitos, com a má aplicação dos fundos europeus, com grande culpa dos vários governos, do PSD e do PS, todos quantos nos governaram, onde imperou uma autêntica falta de fiscalização.
Só se houve falar do défice e mais défice, continuando a surgir surpresas desagradáveis com as reformas de luxo de quem deveria dar o exemplo, e outras condutas deploráveis, pelo que é bem verdade o ditado de que “Bem prega Frei Tomás, olhai para que o ele diz mas não para o que ele faz”!


(In “Notícias da Covilhã”, de 10/06/2005; e gazeta digital Kaminhos)

1 de junho de 2005

OS 82 ANOS DO SPORTING DA COVILHÃ

Tudo se encaminha para que o clube do coração da maioria dos covilhanenses comemore o seu aniversário com a subida à II Liga, lugar onde minimamente se deve situar.
É o clube mais representativo da região desde que, há mais de oito décadas, algumas figuras da colectividade de maior poder económico, ligadas ao meio industrial – o Estrela Futebol Clube – aceitou o convite de dirigentes do SCP, que vivia uma euforia de criação de filiais, para se fundir com a denominação de Sporting Clube da Covilhã.
Havia outras colectividades, mais de cariz operário, como o Montes Hermínios e o Clube de Futebol “Os Covilhanenses” que optaram pelas cores do Belenenses.
A partir de 1935, as Direcções de então resolveram deixar as formas rudimentares como se jogava a bola, abrir os cordões à bolsa e contratar o primeiro treinador (Pedro Costa), que acumulava como jogador.
O clube serrano, sempre campeão da Província da Beira Baixa, entra na II Divisão Nacional, e, na época de 1937/38, dá o primeiro sinal de que queria outros voos – a então I Divisão Nacional – o que só não conseguiu, por um triz, na final com o Carcavelinhos Futebol Clube, em Santarém.
Viria a concretizar-se a sua entrada na divisão maior do futebol português, na época de 1947/48, com o delírio das gentes covilhanenses e de toda a região beirã.
De seguida, a conquista da Taça “O Século”, e a final da Taça de Portugal, em 2 de Junho de 1957, em data de aniversário; época em que descia de divisão, quando, na época anterior, havia atingido a maior classificação de sempre – 5.º lugar.
Depois, nova subida de divisão, por quatro épocas, para, de seguida, um longo interregno entre as II e III divisões; e só na década de 80 do século passado teve duas efémeras passagens pela I Divisão.
Com estes eventos, e na longevidade de um clube histórico do futebol português, é pena que não esteja tão presente a vertente cultural, pois há muitas formas de a inserir; para que os sócios e as gentes covilhanenses usufruam também de um pouco mais que os jogos, compreendendo-se perfeitamente que as preocupações prementes vão, quase sempre, para a resolução das dívidas e dos problemas do dia a dia.
Os sócios são a pedra basilar da catedral leonina, e parece que vão receber diplomas de 25 e 50 anos, o que se apraz registar.
Mas também é preciso não esquecer figuras dirigentes de outros tempos, longos anos no dirigismo leonino, longos anos a sacrificar a sua família em prol do clube, muitos já afastados do mundo do futebol, face às contingências da vida.
Há que esquecer conflitos e algumas divergências; dar as mãos em prol do clube de todos nós.
No futebol, os que hoje são ovacionados e levados em ombros, amanhã podem ser vexados e acusados de isto ou daquilo; mas é necessário ter presente que, muito ou pouco, todos tiveram quota-parte no engrandecimento do maior clube da região.
Muitos clubes, felizmente, têm as suas bandeiras e os seus símbolos – aquelas figuras marcantes na vida desportiva da colectividade.
Temos visto no nosso Clube de sempre, o reconhecimento em duas figuras símbolo dos Leões da Serra – João Lanzinha e Francisco Manteigueiro.
No entanto, penso, que outros símbolos que vivem na Covilhã, há muitos anos, foram votados ao ostracismo, e eles foram marcantes nas épocas florescentes do SCC, como na melhor classificação de sempre, em 1955/56, e na final da Taça de Portugal, em 1957, entre outras. Refiro-me ao Jorge Nicolau e Fernando Pires; e mesmo Fernando Cabrita.
Dos participantes na final da Taça de Portugal, já faleceram: Rita, Martin e Carlos Ferreira.
Nas festividades, interessante seria, e justo, o reconhecimento, em forma de alternância (por haver muitas figuras a merecerem o destaque), de antigos atletas e dirigentes.
No entanto, muitos dos que deram o seu melhor, muitos anos, ao seu único clube de sempre, e que, se tivessem seguido para outros clubes, certamente teriam sucesso, como se evidenciaram na Covilhã; não me recordo de terem sido objecto de homenagem.
Menciono apenas um nome, entre outros – António José Fernandes FAZENDA.
O Sporting da Covilhã estará em festa e todos os obreiros que contribuíram para a mesma merecem lhes sejam endereçados os parabéns.

(In “Notícias da Covilhã”, de 20/05/2005; e “Gazeta do Interior”, de 01/06/2005)

13 de maio de 2005

AS VERTENTES DA POBREZA

Segundo um estudo que, há dois meses, veio a lume no Público, actualmente em Portugal há mais pessoas a passar fome.
No espaço de um ano a situação piorou, sabendo-se que em 2004 já se apontava para 200 mil pessoas com fome.
A erradicação da pobreza é preocupação secular da Igreja, do Estado, dos altruístas, mas o certo é que ainda ninguém conseguiu resolver este grave problema.
O caso atemorizador de se verem crianças, nalguns pontos do País, a entrarem nas escolas, após o fim-de-semana, esfomeadas, é uma situação gritante. A mendicidade infantil continua a aumentar em Portugal.
Existe agora a “nova pobreza”, a acrescentar aos anteriores casos de indigência. Basta por vezes que um dos membros do agregado fique sem emprego, com as rendas de casa altas, para precisarem de ajuda. Por outro lado, existem, muitas vezes, os casos de um dos membros da família ser toxicodependente ou alcoólico.
A pobreza envergonhada, a fome real, a crueza das histórias que se repetem e até se desenvolvem, é demasiado superior à crise que tem tocado a cada um de nós. A protecção social, para muitos idosos, começou mais tarde; muitos nunca descontaram para a Segurança Social porque no seu tempo não se descontava.
Por mais subsídios que se paguem, existe uma fronteira de pouca consistência entre uma vida descansada e o cair numa situação de insolvência.
A muita gente falta-lhe a auto-estima e a motivação para enfrentar uma nova vida, fruto do desemprego em idade já incompatível para o acesso ao mundo do trabalho.
Escrevo estas linhas precisamente quando se procede ao peditório para o Banco Alimentar Contra a Fome; nesta região, através do Banco Alimentar da Cova da Beira, sediado na Covilhã.
Há idosos que não sofreram os efeitos da pobreza propriamente dita, mas sentem na solidão a necessidade da procura de lares. O desemprego cresceu, também entre os imigrantes. Na Covilhã, é 240,9 por cento superior à taxa média na Região Centro.
As Conferências de S. Vicente de Paulo abraçam todas as facetas deste mundo de preocupações locais, pois todos os dias chegam pedidos de ajuda, na maioria de cariz urgente. Com o Banco Alimentar e a Segurança Social foram feitas parcerias.
Enquanto que muitos dos que passeiam pelas ruas da nossa cidade, reformados ou em situação de subsídio de desemprego, ainda com possibilidades de ocuparem os seus tempos livres, evitando o tédio, preferem andar com uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma; outros esticam o seu tempo em prol destas causas humanitárias.
O actual agravamento da pobreza em Portugal, nas várias vertentes, preencheria um espaço grande que não se pode globalizar nesta simples crónica; o sintoma de agravamento tende a manter-se, pois basta ler o Relatório do Banco de Portugal sobre o último semestre de 2004 que quase parece o retrato de um país falido, com o desemprego a aumentar, com o consumo público e privado sem controlo, vivendo ambos – Estado e cidadão – acima das suas possibilidades, com dois milhões de portugueses a viver abaixo do limiar da pobreza, o que significa que há 600 mil crianças pobres.
Entretanto, o “Público” de 4 de Maio, trazia uma listagem dos 10 treinadores mais bem pagos, com o português José Mourinho à cabeça, auferindo a modesta quantia de 7,5 milhões de euros; e os 20 futebolistas mais bem remunerados; com o inglês David Beckham, a jogar no Real Madrid, à cabeça, com a insignificante quantia de 25 milhões de euros. Que dizer destes gritantes contrastes?
E como é possível ainda haver escravidão em Portugal, conforme nos deparou a Comunicação Social nas últimas semanas?! E as flores deste mundo – as criancinhas – a serem objecto da mais repugnante violação e morte, como a Joana, a Catarina, a Vanessa; estas as que saltaram para a ribalta da Comunicação Social porquanto outras estão envolvidas em silêncio sepulcral.
Isto também é pobreza, a pobreza moral encarnada em carniceiros demoníacos que deveriam estar no outro lado do mundo para onde lançaram, às feras, as inocentes criaturas.
Pobreza é também a proliferação da prostituição em Portugal; e na Covilhã, onde parece termos voltado às décadas de 50 e 60, com a então cognominada “rua das prostitutas”, quase no centro da cidade.
Hoje é tudo feito a dar nas vistas. Basta ir à Rua Mateus Fernandes, onde o descaramento existe, com porta permanentemente aberta, mesmo em frente duma igreja evangélica.
E, se alguns já são pobres, também o próprio Estado, nas suas estruturas, contribui para sacrificar os cidadãos com a sua burocracia, originando, nalguns casos, enormes transtornos. Porque motivo, por exemplo, a Conservatória do Registo Predial e Comercial, para a legalização de alguns actos – exemplo, o envio de pagamentos para Conservatória do Registo Automóvel – exige categoricamente cheque, em vez de numerário, causando, quantas vezes, o embaraço de pessoas idosas, outras iletradas, das aldeias rurais do concelho da Covilhã? Autêntica aberração, que é preciso combater.


(In “Notícias da Covilhã”, de 13/05/2005)

8 de abril de 2005

SUMOS PONTÍFICES

Quando esta crónica sair já se terá realizado o funeral do grande Papa João Paulo II. Todo o mundo reconheceu as excelsas qualidades deste Homem, que deixou a terra que pisou bem lavrada com a sua acção, numa grande sementeira direccionada para a paz, defesa dos mais pobres e aproximação de todas as religiões.
O Sumo Pontífice, controverso, paradoxal, que combateu tanto o nazismo como o comunismo; de teimosia contra o cansaço; sem medo, duma humildade extrema ao pedir perdão pelos erros da Igreja, e a perdoar a quem o pretendeu assassinar; deixou no mundo cristão e não cristão, e de outras religiões, crentes e agnósticos, o sentimento profundo de um grande Homem de bem, onde no seu íntimo apenas existiu a palavra amor.
Foi grande no seu pontificado, foi grande na sua evangelização, foi grande no seu humanismo, foi grande na sua bênção, foi grande na defesa dos mais pobres, foi grande no seu perdão, foi grande no seu sofrimento.
Foi o Papa mais poliglota de sempre, o que fez mais canonizações, o que ordenou mais bispos, o que correu mais mundo.
Muito já se disse de João Paulo II, desta figura ímpar que o mundo perdeu, na opinião de muitos governantes deste planeta Terra. E muitas páginas ainda se continuaram a escrever, pelo que me dispenso do repisar de acontecimentos, sobejamente conhecidos de todos.
Recordo-me do primeiro falecimento de um Papa, o que conheci na minha infância e adolescência – Pio XII – há quase 47 anos. Aquilo que João Paulo II previamente definiu “não ser lícito a ninguém fotografar nem captar imagens, seja pelo meio que for, do Sumo Pontífice, quer doente na cama, quer já defunto”, surgiram na imprensa de então – Diário de Notícias, Diário Popular, revista Flama, entre outros – com imagens do Papa defunto, na cama, “no seu leito de morte”, como então se referiam.
Depois, nos números seguintes, fotografias de muitos cardeais, e a sua origem, como os principais elegíveis. Lá figuravam também os cardeais Roncalli e Montini, que, por sinal, viriam a ser os Papas seguintes: João XXIII e Paulo VI; além do cardeal de barbas compridas, Tisserand.
Divergem os números que se referem ao total de Papas, até este último, mesmo eliminando os anti-Papas, face aos Cismas havidos. O Diário de Notícias refere-se a 246, mas outros mencionam 264.
João Paulo II viveu o terceiro Pontificado mais longo, sendo que o maior foi o de Pio IX, com 32 anos.
Também o DN refere que o mais curto pontificado foi de Urbano VII, em 1590, com 12 dias por ter morrido de malária; mas outra fonte diz que foi o de Estêvão II, no ano 752, de um só dia.
S. Pedro foi o primeiro Papa, nascido em Batbsaida, na Galileia. Morreu crucificado, com a cabeça para baixo, em 29 de Junho do ano 67. Seguiu-se-lhe S. Lino, natural de Volterra, que morreu em 23 de Setembro do ano 76. Foi ele que criou os primeiros 15 bispos e ordenou que as mulheres só pudessem entrar na Igreja com as cabeças cobertas, uso que se verificava até há uns anos atrás, com os véus na cabeça. Durante o pontificado deste segundo Papa foram martirizados os evangelistas Marcos e Lucas. O terceiro Papa foi Santo Anacleto ou Cleto que morreu no ano 88, como mártir. Definiu os hábitos eclesiásticos. O quarto Papa foi S. Clemente, também mártir, que morreu no ano 97. Exilado pelo imperador Trajano foi lançado ao mar com uma âncora atada ao corpo. Empregou o uso nas cerimónias religiosas da palavra “Amén”. O quinto Papa foi S. Evaristo, grego, que morreu no ano 105. Dado que os cristãos aumentavam, dividiu as cidades em paróquias e instituiu as primeiras dioceses. O sexto Papa foi Santo Alexandre I que morreu no ano 115. A este Papa se deve a instituição da água benzida nas igrejas. O sétimo Papa foi S. Sisto I, romano, que viria a falecer no ano 125. Ordenou que o retazo do cálice fosse de linho e que o mesmo e os paramentos fossem tocados solenemente pelos sacerdotes. Estabeleceu que se cantasse o Trisagio antes da Missa. O oitavo Papa foi S. Telésforo, mártir, que faleceu no ano 136. Compôs o hino “Glória in Excelsis Deo”. Ordenou que na noite de Natal cada sacerdote pudesse celebrar três Missas e introduziu na missa novas orações. O nono Papa foi Santo Higino, ateniense e mártir, que faleceu no ano 140. Determinou várias atribuições ao clero e definiu os graus da hierarquia eclesiástica. Instituiu o padrinho e a madrinha no baptismo dos recém nascidos. O décimo Papa foi S. Pio I, nascido em Aquiles e que também foi mártir, tendo morrido no ano 155. A ele se atribui a celebração da Páscoa, depois do primeiro domingo de Março, e importantes normas para a conversão dos judeus.
Como principais Papas, citam-se S. Pedro, um dos discípulos de Jesus Cristo, o primeiro bispo de Roma e uma das figuras fundamentais do cristianismo; Adriano I (772-795) que iniciou a ligação política com Carlos Magno, dando de facto início ao Sacro Império Romano; Inocêncio III (1198-1216) que foi um dos Papas mais poderosos da História, tendo influenciado toda a política europeia do seu tempo, incluindo em Portugal. Interveio em numerosos conflitos e abençoou uma das cruzadas mais violentas; Clemente XIV (1769-1774) foi incapaz de resistir à pressão das principais monarquias europeias e foi obrigado a dissolver a Companhia de Jesus; Pio VII (1800-1823) restaurou a Sociedade de Jesus mas sofreu uma forte pressão dos poderes europeus. Os franceses ocuparam os Estados papais (1809) e Pio VII ficou prisioneiro de Napoleão. Apesar desta humilhação, viria a proteger a família Bonaparte, após a queda do imperador.
O único Papa português foi João XXI, de curto reinado (1276-1277), chamava-se Pedro Hispanp. Era um intelectual do seu tempo, tendo deixado forte marca.
Como se chamará o próximo Papa? O que é certo é que no maior número de nomes consta: João, 23 vezes; Gregório, 16 vezes; e Benedito, 15 vezes.
A esperança vai para que surja um Papa que siga os passos do já saudoso João Paulo II.


(In “Notícias da Covilhã”, de 08/04/2005)

18 de março de 2005

O CASAL CASTRO MARTINS – PROFESSORES DE EXCELÊNCIA

O tempo tem a sua passagem. É veloz, para umas coisas, as que menos desejamos, como a velhice, a doença, ou a crise económica; é vagaroso, para as que mais ansiamos, como a solução no emprego, o fim das convulsões sociais ou o regresso da chuva.
Para o escrevinhador destas linhas, este fim-de-semana não foi muito diferente do anterior. Perto do final da manhã de sábado, um esforço para não perder a “Alma Nostra”, de Carlos Magno e Professor Carlos Amaral Dias, na Antena 1.
Tempo também para a leitura mais tranquila do “Público”, “Diário de Notícias”, “Notícias da Covilhã”, “Jornal do Fundão”, “O Interior” e, esta semana, também a vez da “Vida Económica”.
Uma alegria: a portuguesa, e também “leoa”, Naide Gomes, vê-lhe feita justiça – ganha a medalha de ouro no salto em comprimento nos Campeonatos Europeus de pista coberta, realizados em Madrid.
Uma tristeza: o meu clube de sempre estende-se ao comprido e perde três pontos. Paciência! Já estou habituado. Prefiro continuar a manter, nas análises clínicas, o meu sangue verde, em vez do azul.
Uma surpresa: O CDS vai retirar a fotografia do seu 1º. Presidente, Diogo Freitas do Amaral, e enviá-la ao PS, irritado por ter aceite ser Ministro dos Negócios Estrangeiros. É ludibriar a sua própria história. É quase como termos que eliminar da História de Portugal, D. João III porque deixou Portugal aos Castelhanos; os Filipes de Espanha que governaram Portugal, Salazar, etc. Enfim, como nós andamos!
No entanto, domingo, foi a vez de ouvir “As Escolhas de Marcelo”, na RDP.
Só então me predispus a redigir esta crónica. Com um ar de nostalgia, melhor, de saudade.
O Dr. Manuel de Castro Martins e sua esposa, Drª. Edite Maria Arriaga de Castro, foram meus professores; ele, na disciplina de Português; ela, na cadeira de Francês, na então Escola Industrial e Comercial Campos Melo, nas já distantes décadas de 50 e 60.
As lacunas de reconhecimento, do covilhanense de excelência que foi o Dr. Castro Martins, fazendo jus à sua memória, como refiro numa das páginas do Notícias da Covilhã, de 7/11/1997, e no Jornal do Fundão, de 12/12/1997, foram dissipadas com a atribuição do seu nome a uma das ruas da cidade – a Rua Dr. Manuel de Castro Martins – numa das zonas novas.
Tal se deve à acção dum homem de sensibilidade e visão – o presidente da Câmara, Carlos Pinto – que, conhecendo as várias gentes da Covilhã, soube seleccionar, para que o seu nome fosse perpetuado na cidade onde deixou marcas da sua vida docente, com dedicação à cidade. Ele, Carlos Pinto, que tal como o autor deste trabalho, foram alunos da Escola Campos Melo, na mesma geração, ao tempo do saudoso professor.
O ensino hoje é diferente. Outrora, nos tempos do Dr. Castro Martins, e da Drª. Edite Arriaga, não havia os meios tecnológicos que hoje existem; ainda não tinha surgido a informática, a Internet, o telemóvel, o fax, a fotocopiadora, e nem mesmo a máquina calculadora. A televisão havia acabado de surgir, a preto e branco, com um só canal para esta região, no ano de 1957. Canais diversos, temáticos e não só, para todos os gostos, nem vê-los. O homem nem sequer ainda tinha chegado à Lua. No entanto aprendia-se e obtinham-se cursos com acesso quase imediato nas empresas e instituições da cidade. Universidade não existia por estas paragens, por imperativos ditatoriais dos Governos de Salazar, já que o conhecimento era uma arma e arremesso para o Estado.
E, com todas estas lacunas, que não se adivinhavam numa evolução rápida do seu desenvolvimento, aprendia-se e formavam-se homens e mulheres para a vida.
Aí, além de outros grandes mestres nesta grande fábrica do ensino que foi a Escola Industrial, emergiu este casal.
Quando, nos finais da década de cinquenta, pela primeira vez subi os degraus da escadaria que deu acesso à primeira aula de Língua e História Pátria (então no Ciclo Preparatório), e, depois, Português, no Curso Geral do Comércio, naquela Escola, fui encontrar um homem de faces rosadas, afável, que me marcaria o gosto pelas letras. Mais tarde, agora em período nocturno, voltaria a ter a mestria das suas aulas.
O Dr. Castro Martins nasceu na freguesia do Teixoso em 19 de Setembro de 1915 e viria a falecer, no dia de Natal de 1971, com apenas 56 anos, quando muito ainda tinha a dar ao ensino.
Depois de se ter licenciado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, iniciou a sua actividade docente no Liceu de Braga, passando depois por vários Colégios de Lisboa. Daqui desloca-se para a Covilhã onde exerceu uma notável acção docente, no extinto Colégio Moderno, durante mais de duas décadas, passando a dirigir mesmo como Director, com grandes dificuldades.
Cumulativamente, a partir de 1951 e durante 16 anos, foi professor de Português na Então Escola Industrial. Nos vários estabelecimentos de ensino leccionou também latim e grego.
Foi um lutador nos tempos difíceis antes da Revolução do 25 de Abril de 1974, onde a coragem e o seu espírito de luta em relação a toda e qualquer adversidade eram as mais marcantes qualidades do seu multifacetado carácter.
A sua força moral não se compadecia com a injustiça, com autoritarismos, opressões, viessem de quem viessem, arriscando, nesses tempos difíceis em que viveu, atitudes corajosas de denúncias, de apoio a amigos politicamente perseguidos.
Era um comunicador por excelência. Apesar do seu ritmo de vida alucinante, havia sempre tempo para conversar com os amigos, no Café Montalto, em casa, com a família, na escola, com os colegas.
Além de professor, foi uma pessoa com uma força moral que os alunos captavam sem se aperceberem. Daí que não esquecem o seu antigo professor, cujo nome respeitam.
O Dr. Castro Martins deixou a Covilhã, a Escola Industrial e o Colégio moderno em 1967 para continuar a exercer funções docentes na Escola Industrial Marquês de Pombal, em Lisboa.
A Drª. Edite Arriaga de Castro, sua esposa, natural de Lisboa, onde fez toda a sua preparação académica, licenciou-se em Filosofia e História, em 1947, tendo iniciado a sua carreira docente em 1951 por impedimentos da PIDE. Os seus pais haviam falecido quando tinha apenas seis anos. Foi um tio materno, advogado republicano e maçon que a viria a criar. Era familiar do 1º. Presidente da República Portuguesa, Dr. Manuel Arriaga. Veio para a Covilhã onde acompanhou o marido, no Colégio Moderno, e na Escola Campos Melo. Daqui regressou a Lisboa, tendo sido colocada na Escola Técnica Paula Vicente, onde exerceu as suas funções docentes e directivas até à sua aposentação.
A Drª. Edite também já faleceu. O casal amigo deixou saudades a todos quantos o conheceram, com eles lidaram ou foram seus discípulos


(In “Notícias da Covilhã”, de 18/03/2005)

18 de fevereiro de 2005

O ÓBVIO E A VERDADE

Escrevo estas linhas interrompidas momentaneamente pelos “directos” das campanhas eleitorais nos canais de televisão.
Gostaria de redigir outros temas que, em catadupa, tenho memorizados, mas a situação política que se vive, sem precedentes, jamais nos pode deixar silenciados, imunes à displicência, no deixar para que os outros resolvam as situações, no óbvio do estado calamitoso do país, na acusação de que o mal vem sempre dos outros, no faz o que eu digo mas não olhes para o que eu faço.
E o país aí está, ao invés de acompanhar o ritmo dos nossos parceiros europeus, passou a uma velocidade como a do comboio da Beira Baixa, e na carruagem da cauda.
E, se alguns apeadeiros foram eliminados, os actuais governantes vieram recriá-los, produzindo mais demora no destino.
Tantos governantes! Muitas promessas havidas antes da subida ao palanque! A condição de vítima quando o tiro sai pela culatra! Se não foste tu que me sujaste a água, foi teu pai, como na história do lobo e do cordeiro!
E se a culpa não morreu solteira, ela é de todos quantos permutam a atenção constante e atitudes de desagrado pela inacção desenvolvida e pelo comodismo.
Neste país, que, apesar de tudo, ainda é de brandos costumes, há gentes, muito boas gentes, que vivem obcecadas pelos seus correligionários, ainda que reconhecendo o rumo abismal do seu país, com influências dum negativismo inconfundível.
Mas, vamos aos acontecimentos: como é possível querer a manutenção dum primeiro-ministro, à frente dos destinos do país, depois dos factos surgidos, só próprios dum ingénuo, sobejamente do conhecimento de todos quantos têm ouvidos para ouvir e olhos para ver?
A sua fluência, os seus dotes oratórios são um autêntico paradoxo em relação ao desempenho da sua tarefa governamental, onde, até no pormenor, deixou marcas da forma como o país não deve nem pode ser governado. Falta de atenção, logo na tomada de posse do governo; depois, foram várias facetas, do conhecimento público, passando, afrontado, com o selo da vitimização.
Até nas sondagens – por que não favoráveis – emergiu a ameaça de participação judicial já “que havia uma deplorável promiscuidade entre a política e as empresas de sondagens”, isto numa mente mórbida de quem pensou tratar-se duma “megafraude” aos “portugueses e portuguesas”.
Ao longo da campanha eleitoral, não tem feito mais que se queixar das “traições”, das “facadas”, e dos “tiros” que os seus correligionários dispararam na sua própria trincheira.
O apóstolo de Sá Carneiro pretendia que toda a gente corresse a exaltá-lo. Mas o povo não está louco
É que, conforme expressa Vasco Pulido Valente, no Público de 11/2/2005, “o PSD não precisa de um “bom” resultado em 20 de Fevereiro, precisa de um resultado que o livre de Santana”.
E, já José Manuel Fernandes, no mesmo diário, do dia seguinte, refere que “Santana tem oferecido menos que nada pois, apesar de ainda ser primeiro-ministro, consegue a proeza de não ter uma só ideia, uma só proposta, uma singela medida capaz de mostrar aos eleitores que não merece apenas ser varrido de São Bento por uma questão e higiene pública”.
E, depois, depois...o boato, esta arma dos cobardes, porque é anónima mas atinge quem não é anónimo. E porque é difícil de enfrentar. Boatos sobre líderes políticos sempre houve, no passado, como continuará a haver no futuro.
Já quando estive no serviço militar existiam alguns quadros distribuídos por paredes de salas ou refeitórios com os dizeres “o boato fere como uma lâmina”.
Nesta campanha eleitoral o boato ganhou um protagonismo só possível no momento em que veio à superfície sob a forma de insinuação, num comício e na boca de um candidato.
Vamos para as eleições. É preciso não ter medo de atravessar a ponte e votar, embora com cepticismo. Retirar o cachecol partidário e votar.
Também sou pela convicção de que, actualmente, o melhor é uma maioria absoluta. E para tal também vou contribuir.
É óbvio, para a situação actual, mas vou pelo lado de quem me transmite mais verdade.
Não espero que Sócrates retire tão depressa o país da mediocridade em que se atolou, mas espero que afaste Santana, e venha a restituir à vida política um módico de normalidade. Não preciso de saltar o muro, nem de atravessar a ponte porque há muito que optei.
Depois, sejamos exigentes, sempre alerta, rigorosos, para que jamais existam trapalhadas mas antes possamos viver como dos melhores europeus, pois temos muitas dificuldades a enfrentar, numa constante, uma delas a China, que vem afrontar as empresas, sem excepção das da Covilhã e nossa região.
Esperemos um novo timoneiro que venha liderar os destinos de um novo governo, para unir Portugal contra a baixa educação, a falta de civismo, de rigor e de profissionalismo, contra uma cultura de superficialidade, de irresponsabilidade, de esperteza saloia, de interesses de legitimidade duvidosa, contra a injustiça social e fiscal, contra as desigualdades de oportunidades.
E, como no DNA de 11/2/2005, “vou disparar uma prece, rebentar uma súplica, explodir a angústia, implodir a esperança, detonar a alegria, accionar a alma”- e desejo efusivamente que, no dia 20 de Fevereiro, regresse de vez a ESPERANÇA.

(In “Notícias da Covilhã”, de 18/02/2005)

28 de janeiro de 2005

D. QUIXOTE E OS SANCHOS-PANÇAS

No domingo, 16 de Janeiro, lá estivemos na Catedral da Guarda, na cerimónia da tomada de posse de D. Manuel da Rocha Felício, como Bispo coadjutor, com direito de sucessão a D. António dos Santos.
O templo estava repleto. Era a grande festa, com forasteiros de todas as zonas da diocese da Guarda. As pessoas baixinhas a empurrarem para a frente as mais altas, procurando um espaço, um pequeno ângulo, tentar sobrepor-se às cabeleiras mais elevadas, algumas ainda a cheirar a cabeleireiro, numa ânsia de poderem ver o novo Bispo, e o restante cortejo, já que lhes ofuscavam as suas vistas, mesmo pondo-se nos bicos dos pés.
Vários presidentes de câmaras dos concelhos da diocese da Guarda, e outras entidades, assistiram, como nós, ao grande cortejo de vários Bispos, liderados pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, com dezenas e dezenas de padres.
E vieram gentes, muitas gentes, algumas com os fatos a cheirar a naftalina; gentes dos meios rurais aos citadinos; alguma comunicação social atrasada; seminaristas engravatados; pessoas com cartazes das suas terras; davam uma vivência forte ao acto, há muito não vista.
Desejamos, de facto, uma voz que se faça ouvir, num grande eco, como algumas excelências reverendíssimas o fizeram em determinadas regiões do País, assim tendo contribuído para que ficassem marcas vincadas das suas personalidades, não só nessas cidades, como em todo o País, porque as suas vozes não doíam.
Uma palmada nas costas, e, Manuel Lúcio, de Manteigas, falou-nos do Noticias da Covilhã, ali mesmo na catedral.
Afinal, Notícias da Covilhã já completou 92 anos no passado dia 12 de Janeiro, e, quando este Semanário – o mais antigo da Região – havia ultrapassado meio século, iniciámos o primeiro contacto escrito, com um texto publicado no dia 14/11/1964, já lá vão 41 anos! Parabéns, Notícias da Covilhã.
Começámos o ano de 2005, como numa triste e leda madrugada. Enquanto uns acordaram com sonhos lindos, um formigueiro de cidadãos levantou-se atarantado. Que mal fizemos nós, Senhor?!
Mas, neste ano, há várias efemérides: a morte do escritor Miguel Torga, há dez anos, em 17 de Janeiro de 1995, deixando uma obra com meia centena de títulos; e também a morte de Inês de Castro, acontecida há 650 anos, em 7 de Janeiro de 1355.
Sobre o que se está a passar no País, com o Cortejo de Oferendas a favor do dia 20 de Fevereiro, continuam as trapalhadas, as gaffes, as promessas, os avisos, os insultos, as ironias, as admirações, as estranhezas, o insólito; as contradições; o que hoje é verdade, amanhã é mentira; alvoroçam-se os boys e as girls, todos querendo pegar na caldeirinha do Sr. Prior, nesta aldeia grande – que este ano a Páscoa é mais cedo.
E, por isso, nada mais apropriada que uma efeméride mais para este ano: a morte do criador do Zé Povinho, Rafael Bordalo Pinheiro, há 100 anos, na madrugada de 23 de Janeiro de 1905. Hoje seria de oportunidade o seu semanário “A Paródia”.
Mas, também os 400 anos de “D. Quixote de La Mancha”, por Miguel de Cervantes, constituem uma outra efeméride para este ano.
Com o País suspenso numa das maiores crises da sua existência, navegando na fronteira entre a esperança e o desespero, esperemos que D. Quixote, que chegará à Mancha em 20 de Fevereiro, não tome os moinhos por gigantes, e com “choque de gestão” ou “plano tecnológico”possa encontrar o caminho certo para a sua Dulcineia.
Durante a marcha de D. Quixote, com o seu cavalo Rocinante, e com os pensamentos naquela sua dama, já não encontramos um único Sancho Pança, mas vários sanchos-panças, servos fiéis de D. Quixote.
Esperamos que D. Quixote encontre o rumo certo, e que os sanchos-panças possam, de facto, ser os fiéis escudeiros, pois necessitamos que La Mancha prospere, mas antes, recupere, em marcha acelerada.
Para ultimar esta crónica, de novo um recado à Câmara da Covilhã: quando é que intervém na limpeza da cidade, tornando-a mais limpa, eliminando, de vez, com as cagadelas dos cães e dos gatos, que grassam pelos passeios, e não só, de toda a cidade, agora em que se inicia a despoluição das nossas ribeiras.
Crie-se legislação adequada, como sucedeu em Braga, e noutros concelhos do País, obrigando os donos dos canídeos e felinos a respeitarem o ambiente. Ou é necessário chamar D. Quixote?

(In “Notícias da Covilhã”, de 28/01/2005)

14 de janeiro de 2005

A GÉNESE DO NATAL

Quando estas linhas forem lidas já passou o Natal. O bulício dos preparativos para a grande noite, em alternância com os votos de Festas Felizes; o encontro dos familiares e amigos; a alegria de juntar os filhos e os netos; mas também o inconformismo por um salário ainda por receber; o não ter podido comprar tudo o que desejava; o emprego perdido ou ainda não conseguido; o familiar doente; a cadeira que perpetuamente ficou vazia; tudo isto não altera o sentido da quadra natalícia.
É também a altura mais propícia para a solidariedade, procurando-se auxiliar um pouco mais os carecidos de bens materiais, não só os duma perene indigência, mas todos quantos foram envolvidos numa pobreza envergonhada, ou apanhados na rede de uma doença.
A pobreza não reside somente na falta de recursos para a subsistência física, é também na insuficiência de meios para participar na vida humanizada da comunidade: falta de casa, falta de trabalho, falta de educação, falta de saúde, falta de desenvolvimento sustentado. E, em contraste, pode ser pobre quem tem tudo, mas vive no desespero da solidão.
A par das carências materiais, outros males emergem e ressaltam neste período natalício, de maiores dificuldades – que, há três ou quatro décadas era de inexistente preocupação – como a droga e um acentuar da profissão mais velha do mundo, a par de problemas de índole psíquica, difíceis de solucionar.
O dilúvio de divórcios, por dá cá aquela palha, em tempos duma modernidade muitas vezes não adaptável ao sentido da condição humana, reduz drasticamente os anos de uma união a dois, de tal forma que cada vez há mais Natais em que os dias 24 e 25 estão possuídos do forte desejo para que surja bem depressa o dia seguinte.
Se é certo que, felizmente, vemos surgir com alguma frequência quem procure dar um pouco do seu tempo em prol de instituições de solidariedade social, impregnados dum verdadeiro espírito de ajuda a outrem, alguns há que não passam duns verdadeiros mercenários da caridade, no evidente desejo do protagonismo, com actos farisaicos, pondo em xeque as próprias instituições onde se encontram inseridos.
O Natal de outrora tinha outros cambiantes; o Natal de hoje virou num festival de consumo, onde as crianças se vêem rodeadas de inúmeros brinquedos, que bem depressa os colocam de lado.
Mas, afinal, quais as origens do Natal?
As versões são variadas, mas tudo gira à volta do solstício de Inverno, como anúncio do Sol triunfante sobre a noite e o frio. O Sol era então a fonte e símbolo de vida que, ciclicamente, desaparecia cada vez mais cedo no horizonte. Segundo o Diário de Notícias, em tempos remotos os povos temiam a estação do Inverno e, ignorantes dos movimentos da natureza, interrogavam-se se não mais voltasse o verde que dá vida aos campos; e se não mais acordasse o Sol, estendendo-se uma eterna noite? Com ansiedade os povos buscavam um sinal de esperança no renascer da vegetação, da vida.
A míngua dos dias levava os povos a temerem as noites do solstício de Inverno e a acenderem fogueiras e madeiros, chamas vivas de luz, apelando à aurora. Quando passava a noite mais longa e a manhã nascia, os povos saudavam o sol. A pressão dos cultos pagãos, e de correntes no seio na Igreja, levou esta a assumir como celebração o nascimento de Cristo ao mundo, havendo a dificuldade da sua data. É então estabelecida a data de 25 de Dezembro, por volta do século IV, num desejo de dar um sentido cristão a uma festa pagã. Somente S. Lucas fala dos pastores e dos seus rebanhos, vindo saudar o Menino, o que, obviamente se enquadraria na Primavera. Foram fixados o dia 25 de Março, equinócio da Primavera e até o dia 20 de Maio. Adaptando como estratégia contra a popularidade do culto de Mitra, a Igreja apropriou-se do simbolismo do imaginário popular e escolheu para assinalar o nascimento de Jesus, que passa a ser festejado a partir do século IV, depois do cristianismo ser declarado religião oficial do Estado pela conversão do Imperador Constantino. Não houve unanimidade nos cristãos que se dividiram em duas datas, ambas cobrindo o calendário das festas pagãs. A Igreja do Oriente escolhe para nascimento e simultaneamente para adoração pelos Reis Magos e baptismo de Jesus o 6 de Janeiro, Dia da Epifania, data que, no calendário juliano, encerrava o solstício de Inverno. A Igreja do Ocidente escolhe o 25 de Dezembro, fundamentando esta opção na data considerada como concepção de Cristo a 25 de Março, o que perfaz exactamente nove meses. E, assim, no ano 336 surge a primeira referência escrita ao Natal – 25 de Dezembro, nascimento de Cristo, dia fixado definitivamente em 354 pelo calendário fitocaliano, e, a partir de 379, imposto por Roma a todo o Império. O Sol cedia assim o lugar ao Menino. Santo Agostinho, admitindo, implicitamente, a origem pagã da data natalícia, exortou os cristãos a festejarem a 25 de Dezembro, não o Sol, mas aquele que criou o Sol.

(In “Notícias da Covilhã”, de 14/01/2005)

8 de outubro de 2004

MEMÓRIAS DO PADRE JOSÉ NABAIS

Também lá estive. Fui dar um abraço ao Padre Nabais.
Foi no domingo, 3 de Outubro, que este sacerdote também quis comemorar na sua antiga paróquia – Aldeia do Carvalho (hoje Vila) – as suas Bodas de Ouro sacerdotais.
Foi meu professor de música (disciplina então designada de “Canto Coral”) na Escola Industrial Campos Melo, na década de sessenta.
Mas já antes o conhecia como coadjutor da Paróquia da Conceição, sendo a sua característica a grande jovialidade, e com gosto pelo futebol.
Sei que tinha ido para o Brasil e do mesmo não soubera mais notícias.
Exerceu, ou iniciou a sua missão apostólica na Covilhã, no tempo em que, nesta cidade, eram responsáveis pelas quatro paróquias, padres que deixaram marcas indeléveis de persistente trabalho, sob a hierarquia de D. Policarpo da Costa Vaz.
O quarteto era então formado pelo Padre José Andrade (Conceição); José Domingues Carreto (S. Pedro); Joaquim Santos Morgadinho (S. Martinho); e José Batista Fernandes (Santa Maria), todos já fora do mundo dos vivos.
Nesse tempo, e noutra vertente, o então jovem padre – Fernando Brito dos Santos – exercia, entre outras tarefas, uma dinâmica acção (que duraria muitos anos) junto dos jovens, inseridos na Juventude Operária Católica, em tempos difíceis do anterior regime político do país.
E, na Aldeia do Carvalho, acumulava com a Paróquia dos Penedos Altos, e Borralheira, um outro padre de grande dinamismo – António de Oliveira Pita – que, nos primórdios da década de sessenta, em que poucos tinham automóvel, ele se deslocava de moto.
Foi exactamente o Padre Pita que viria a ser substituído, em Aldeia do Carvalho, pelo Padre José Nabais Pereira, onde esteve durante dez anos, deixando um trabalho de continuidade, que iniciou, de grande mérito.
Foi muito agradável ver o carinho que a Vila lhe dispensou, no dia 3 de Outubro, não esquecendo a sua acção em várias vertentes daquela paróquia e freguesia, sem omitir o desporto.
Foram-lhe entregues várias prendas, mas, de grande significado, também os actuais jovens recordaram o que os seus progenitores lhe disseram do Padre Nabais, sobre o desporto, e, no final da Eucaristia, ofereceram-lhe uma bola de futebol. O Padre Nabais, ao desembrulhá-la, cheio de alegria, deu de imediato uma cabeçada na redondinha.
Vou memorizar, para o final, esta passagem com o Padre José Nabais, jovial e muito amigo do futebol, que se reporta a Fevereiro de 1962, portanto, no início do seu trabalho à frente da Paróquia de Aldeia do Carvalho:
Participei no baptizado dum primo, em Aldeia do Carvalho; foi um domingo que, por sinal, coincidiu com um dia grande para o futebol na Covilhã – o Benfica vinha jogar ao Santos Pinto com os Leões da Serra, então na Primeira Divisão (como se designava na altura). Meus pais foram os padrinhos e, tal como aos pais do neófito, a todos lhes foi recomendado pelo Padre Nabais para que não chegassem atrasados à igreja (pois iam da Pousadinha para Aldeia do Carvalho), porque ele queria ir ver o Benfica.
Terminado a cerimónia, logo um táxi esperava o Padre Nabais para o levar ao estádio de futebol e, se bem se recordam, o Sporting da Covilhã ganhou por 2-1 (golos de José Augusto, pelo Benfica; de Amílcar e Chacho, pelo Sp. Covilhã).
Foi o “milagre” do padre Nabais...

(In “Notícias da Covilhã”, de 08/10/2004)

FICÇÃO OU REALIDADE?

“Avô, isto é ficção, não é?”- eis a pergunta que o Gonçalo, de três anos, me coloca quando vê algumas cenas em programas de televisão, ao compreender que saem do campo da realidade.
Nestas últimas semanas temos assistido a uma agitação da sociedade portuguesa, muito pela culpabilidade dum governo que é ingovernável – um governo de ficção.
Vejamos a vergonha nacional, com a colocação dos professores agora prometida até 30 de Setembro. Há quase quarenta anos as aulas tinham, de facto, o seu início sempre em Outubro. Não podemos fazer comparação entre esses tempos de meia dúzia de universidades – só para alguns – e com o tecto do secundário que se ficava pelo antigo quinto ano, na sua generalidade; ou equivalente, através dos cursos comerciais ou industriais, de forte enriquecimento de conhecimentos para o ingresso no mundo do trabalho; e os tempos actuais.
Porquê a realidade deste descalabro duma dita reforma educativa?
Ao ouvir no programa na RTP 1, “Prós e Contras”, da jornalista de excelência, Fátima Campos Ferreira, a reportagem apresentada pelo jornalista António Esteves Martins, na Bélgica, onde um responsável pelo ensino deste país informou que a situação que se está a passar em Portugal seria inadmissível na Bélgica, onde tudo é tratado minuciosamente e no devido tempo, mais nos leva a pensar que, apesar das três décadas após a libertação da ditadura, ainda estamos muito longe da realidade para se deixar a cauda da cultura, dos que ensinam e dos que aprendem, no seio da Comunidade. Parece que vivemos num mundo de ficção, onde os méritos ficam longe da realidade!
Mesmo os que pouco se interessam pela causa cultural, os indiferentes, ou os ausentes das realidades actuais, já não deixam fazer o ninho atrás da orelha.
E muito menos os jovens, na vivência da sociedade portuguesa mais evoluída, agora que estamos muito mais inseridos da Europa.
Pensar em caminhar em regime de igualdade com todos os parceiros europeus, era uma autêntica ficção nos períodos salazarista e mesmo marcelista. Com o desaparecimento da guerra-fria, a integração na UE, a revolução informática, entre outros pontos de referência, foram tantas formas que nos forçaram a evoluir. Evolução forçada para muitos dos não jovens, pois que a oposição à mudança apenas seria um tiro a sair pela culatra.
Seria tão cómico, como hilariante foi a forma como um colega do meu tempo de estudante enfiou o barrete ao pai, homem de poucas letras, que, vendo um teste de francês em cima da mesa com uma anotação no canto superior direito, a encarnado, preocupado, pergunta ao filho: “Tens a folha toda riscada a vermelho, e aqui está um “P”, o que é isto? O espertalhão do filho (um dos que vinha todos os dias de comboio para a Escola Industrial), num rasgo de imaginação, diz-lhe: “Não vês, pai, que tive um porreiro”?! (quando o “P” era de péssimo...).
Os portugueses, hoje, estão esclarecidos, e sentem na carne os malefícios das incompetências.
Mas neste pequeno grande País em que se dá relevo às traquinices dum Zé Maria, do Big Brother, para gáudio de muitos, com mais uma “grande” notícia para a imprensa cor-de-rosa que adorna as bancas de jornais e tabacarias, por esse País fora; como a avidez de uma “grande” informação dum canal televisivo, ao anunciar que a tartaruga que estava a ser tratada no Algarve, já está a comer sozinha, parece que em vez de vivermos a realidade dum país evolutivo, existimos no retrocesso dum mundo de ficção.
Só com a consciencialização entre todos os que trabalham, numa doação entre trabalhadores e entidades patronais, todos obreiros da mesma causa, o nosso mundo poderá ser a realidade duma vida de bem-estar e não num mundo de ficção, este sempre com a realidade cada vez mais distante.
Também hão-de vir ministros das Finanças a falar das preocupações fiscais, com mais intenções, outras decisões e incompreensões, mas a classe média há-de continuar a suportar a maior fatia das crises, os pobres a ser cada vez mais pobres e os ricos a ver mais ousadas as suas engenharias financeiras.
A média dos salários da função pública é de 380 contos (disse o Ministro das Finanças na entrevista com Judite de Sousa, no passado dia 16 de Setembro, na RTP), salário que a média dos trabalhadores privados não aufere, bem como a forma de contagem e incidência das suas reformas.
A facilitação e o oportunismo são também causas da forma como se chegou a esta catastrófica situação financeira, onde os sinais exteriores de riqueza continuam a passar ao lado, independentemente de declararem unicamente o salário mínimo nacional.
Mas, como sói dizer-se, o exemplo vem do alto, e é do alto dos nossos governantes, candidatos a governantes ou ex-governantes, que muitas vezes vêm os maus exemplos. E...depois...as coisas acontecem, levando a uma situação paradoxal, com o Zé-povinho em vez de se encorajar a contribuir para a Nação, reforça a forma de pensar que “tirar ao Estado não é pecado”. Ficção ou realidade?

(In “Notícias da Covilhã”, de 8/10/2004)

27 de agosto de 2004

TEMPO DE FÉRIAS

Este Verão, tanto de quente como de molhado, veio pregar uma partida aos incendiários que vêem retardadas as suas malévolas intenções. Já ardeu 25% de floresta portuguesa no último decénio, e, considerando toda a área ardida, no mesmo período, verifica-se um cenário dramático equivalente a 15% do território nacional. É confrangedor.
Mas a época convida a espairecer e ao descanso, sem propiciar o empenhamento em grandes tarefas, nas várias vertentes.
A maioria dos portugueses fazem tudo para gozar férias nos meses de Verão, sendo Agosto o mês eleito para as mesmas, tanto no sector público como no privado. O País praticamente pára, como que numa anestesia.
Há classes profissionais que são obrigadas a parar em Agosto e outras, de quem se espera uma disponibilidade total, nesta época do ano, ficam também a funcionar a meio gás, como sói dizer-se.
Também fomos carregar as baterias, neste Agosto instável. Chegou uma semana para quem não está habituado a muito descanso.
Depois de assentar arraiais no local previamente seleccionado, foi a vez de chegar a uma das bancas para reservar o jornal diário, preferido de há muitos anos. Como sempre, a simpatia de quem vende.
Uma boa caldeirada, um bom robalo grelhado ou qualquer outro prato da zona pesqueira, bem regado com tinto, de preferência, ou verde, fazem as delícias dos dias de descanso.
Numa pastelaria, um cafezinho. Junto à caixa registadora, uma caixinha com os dizeres: “Não guarde para amanhã o que pode fazer hoje – gorjeta”. À nossa pergunta, a resposta: “É para um jantar”.
Passado o reparo, também é a altura de se lerem com mais vagar, os temas de articulistas que nos passam à margem, no quotidiano, por incompatibilidade com a escassez de tempo.
E, uma das coisas que nos apercebemos, sem necessidade de recorrer a notícias, foi que o sector da restauração tem sentido no prato a garfada da crise, sendo que assim se pode aceitar que o volume de negócios do sector registou uma quebra de 25%.
Falando só dos assuntos nacionais, o panorama é desolador: 27 mil microempresas podem fechar as portas em 2005 face à nova lei das sociedades comerciais; o desenvolvimento humano em Portugal desce no “ranking” da ONU, estagnando e voltando a ser o pior dos antigos 15 países da EU; temos as empresas mais endividadas, atingindo um recorde de 105% do PIB em 2002, do endividamento à banca, justificando a forte quebra do investimento privado e o atraso na retoma da economia (segundo um estudo do FMI embora, segundo o Instituto Nacional de Estatística, no mês de Junho, viesse a informar que os portugueses estavam mais confiantes face ao futuro, de harmonia com o resultado dos inquéritos de Maio perante a percepção dos agentes económicos); a inflação subiu para 2,8% em Julho, e a taxa de desemprego, para 6,3%; segundo relatório da ONU, a economia portuguesa deverá crescer 1,1%, este ano, o valor mais baixo dos 25 Estados membros da UE.
E, também preocupante, no tema económico, é o receio de como garantir a sustentabilidade financeira da Segurança Social para pagar as futuras pensões de reforma, de acordo com o sistema actualmente em vigor (embora os defensores desta tese não consigam demonstrá-la de uma forma fundamentada e tecnicamente consistente), pelo que, empreender terá que ser com reflexão.
E a nossa região sente, como ninguém, os efeitos nocivos da crise, onde as fábricas laneiras se passaram a contar pelos dedos das mãos, e as confecções de vestuário em situação preocupante, agora com a sina de a China vir a “esmagar” o resto que remanesce dos têxteis. As notícias menos boas continuam a surgir com as pensões de velhice que aumentaram mais no País que na região beirã.
E, para ultimar este período de breves férias, a missiva de um bom amigo de Valbom, que há 36 anos viveu na Covilhã: “Os tempos de hoje são de raiva contida pois não há a certeza de que, se a raiva explodisse, servisse para alguma coisa, enquanto há vinte ou trinta anos, ao explodir, criava-se comoção e havia uma mudança. Hoje, temos a sensação de que nada serve para nada, como se estivéssemos num momento de paralisia da sociedade, num impasse. Se há raiva, cada um engole-a e ao fazê-lo nem sequer tem direito à indignação. De vez em quando há umas manifestações de bandeiras que deviam ser símbolos de uma nação e passam a ser pendões de circo, esquecendo a caldeirinha. Logo a seguir o costume, o é hábito, a paz de um quase cemitério de falências, desemprego e do salve-se quem puder”.

(In “Notícias da Covilhã”, de 27/08/2004)

30 de julho de 2004

EMBANDEIRADOS

As gentes andavam cabisbaixas, deprimidas, duma melancolia por vezes aterradora. Nunca tanto se olhou para o chão. Nalguns casos até parecia que andavam a contar as pedras da calçada.
De quando em vez lá se ia coçando a orelha, ou melhor, contactando o invisível; aí, surgiam por vezes gestos exuberantes, risos, vozes de negócios programados, concretizados ou frustrados, do salário que já tardara, da factura que não foi paga, mas também um cumprimento alargado ao amigo ou familiar, um recado não recatado mas bem apalavrado.
A retoma tarda, o Zé-Povinho, farto de esperar, inspira-se de novo em Rafael Bordalo Pinheiro e faz o manguito.
Até que, depois de tanto berrar por ver os estádios que andaram a construir com o nosso dinheiro, com tantas pessoas na pobreza, na miséria, no desemprego, e com o acréscimo de resultados pouco conseguidos, e não convincentes, na preparação para o Euro, eis que surge o primeiro dia.
A “scolarização” não foi palavra vã, e o brasileirão, inspirado nas suas ideias, é um mobilizador e transmite esperança. Com as suas palavras de ordem, as gentes das cidades, das vilas, das aldeias ou burgos revestiram-se das cores nacionais, cores físicas mas também as cores dum forte ânimo, dum sentimento de dar o pontapé de saída, de raiva na malfadada crise.
Bandeiras, muitas bandeiras, nas janelas, tanto voltadas para as ruas principais como para qualquer travessa ou beco; nos automóveis ou servindo de lenço na cabeça, à cintura, ao peito e sei lá que mais!
Jamais isto foi visto em tempo algum, nem mesmo na época dos “magriços”, há 38 anos, onde outro brasileiro, com um consagrado seleccionador português, nos dava enormes alegrias. Nessa altura, em tempo de guerra no Ultramar, era a época das vedetas Eusébio, Coluna, Torres, Simões, José Augusto, Hilário, Vicente, José Pereira, entre tantos outros.
Hoje, os meus netos, já sabem o Hino Nacional, os nomes de todas as vedetas, do Figo, Rui Costa, Ricardo, Nuno Gomes, todos eles!
Os jogos do Euro 2004 foram seguidos por 2,5 mil milhões de pessoas, no total, com a final vista por cerca de 130 a 150 milhões, com uma audiência média feminina de 30%, é o que nos diz a comunicação social.
Apesar de tudo, um estado de espírito bastante diferente, para melhor, daquele que se viveu em 1966, também em tempos difíceis, de alguma penúria, assolados com a Guerra do Ultramar.
Recorda quem escreve estas linhas, o célebre 0-3 do Portugal – Coreia, que o “pantera negra” ajudou a dar a reviravolta para 5-3, visto da esplanada do Primor, quando foi, com alguns Colegas, a casa do Prof. Passas – o mestre Passas, que morava num dos andares do mesmo edifício, saber o resultado do exame de Dactilografia, pois era o único que restava para podermos fazer o exame final de Aptidão Profissional, para se concluir, na sua plenitude, o Curso Geral do Comércio. Era o João Nunes, o Manuel José Torrão, o Nina Duarte, o Tomé, de Abrantes.
Mas a festa de Junho de 2004 foi boa, foi feita contra a adversidade, contra o medo. Andavam todos em pânico. Valeu a pena esta transformação momentânea, que ainda perdura, esperando agora pelos Olímpicos da Grécia.
Esquecemos o termos sido os primeiros a perdermos o jogo inaugural, como anfitriões, contra a Grécia; e, bem assim, contra a mesma selecção (que raio de sina!) a sermos igualmente o primeiro anfitrião a cair na final. Todas as anteriores selecções que jogaram em casa atingiram o jogo decisivo levantando o troféu.
Os brasileiros, como povo alegre, apesar das dificuldades e muitas vezes excessivo nas suas exaltações, vieram trazer, através de Felipe Scolari, a alegria que já não existia, ao povo português, que já parecia ter recuado ao tempo do povo de marinheiros, habituado outrora à nostalgia, ao hábito dos fatos pretos, pelo infortúnio.
No fim de contas, a festa do futebol aliviou a tristeza. Descrito pela UEFA como “o melhor Europeu de sempre”, houve fair play, muito civismo e bom convívio entre os milhões de adeptos que se deslocaram a Portugal.
O Euro 2004 correu muito bem naquilo que mais importava para a imagem de Portugal: organização, segurança, acolhimento de estrangeiros. Desportivamente foi um campeonato bem disputado, sem “casos” de arbitragem, com desafios emocionantes e vencedores inesperados.
A selecção portuguesa não ganhou mas foi bem mais longe do que se esperava, depois dos decepcionantes jogos de preparação e do jogo inaugural.
Resta-nos agora, o jogo futebolístico da política em que a sorte de Portugal foi decidida por uma grande penalidade a cargo do Presidente da República, face a uma falta, na grande área, por Durão Barroso, por ter rasteirado os seus concidadãos, após ter recebido o cartão amarelo dos portugueses nas eleições para o Parlamento Europeu.
Desta rasteira, em vez de ser o povo a mostrar-lhe o cartão vermelho, foi o próprio que o mostrou a si mesmo, mas, desta vez, saiu do rectângulo político a rir-se.


(In “Notícias da Covilhã”, de 30/07/2004)

25 de junho de 2004

COMO UM RELÂMPAGO

A vida é um ai que mal soa, segundo o poeta João de Deus.
Antes de passarmos o testemunho por sermos forçados à travessia além fronteiras, desta própria vida, muitas coisas nos vão surgindo.
O ímpeto, a espontaneidade, um sopro de alegria, a profundidade de uma tristeza, um desejo traído, um ódio manifestado, um riso ridículo, uma hilariante anedota, podem traduzir-se em atitudes irreflectidas que vão marcar indelevelmente a própria vida dum vivente; um lenitivo para um humano; ou a íntima satisfação de bem-estar na paz dos anjos, da vida do habitante deste planeta.
Ainda continuamos com a famosa trilogia salazarista, acentuada, do “Fado, Futebol e Fátima”, nesta democracia onde por vezes se vê “mais injustiça que justiça, mais ignorância que educação, mais crime sem castigo do que castigo no crime, mais doença do que saúde, mais negligência do que empenho, mais folclore do que concretização”, como opina, no DNA de 4 de Junho, o prestigiado jornalista Pedro Rolo Duarte.
O campo da democracia tornou-se vasto para a expressão do pensamento, em liberdade, mas tal liberdade por vezes faz do insulto o projéctil da arma a utilizar no momento próprio.
Na campanha eleitoral para as recentes eleições europeias, se houve normais e óbvias críticas políticas, o mesmo não se pode dizer das ofensas a um adversário, referindo-se a uma sua deficiência física.
Ana Manso, do PSD da Guarda, certamente terá recolhido da lição do seu provável remorso (ainda que tenha havido posterior pedido de desculpas) que nem sempre quando vem ao pensamento um determinado relâmpago se podem lançar atoardas deste jaez.
Ao malogrado Dr. António Sousa Franco, também não lhe chegaria este insulto para, junto dos seus próprios correligionários, envolvidos em interesses partidários, lhe originarem um aceleramento da sua passagem para o outro lado da vida.
Outro relâmpago surgido na mente dum estadista veio cair em Xanana Gusmão, quem diria, numa imagem impensável há uns anos atrás, através do abraço acontecido em 29 de Maio passado, em Timor, dado ao seu anterior inimigo e inimigo dos timorenses – o agora candidato à presidência da República da Indonésia, general Wiranto (com um mandato de captura por um juiz internacional por alegados crimes contra a humanidade, praticados em Timor-Leste). Que traição para os muitos timorenses que morreram em autênticos massacres, alguns dos quais vistos na televisão. Que traição para os muitos portugueses que gritaram em grupo frente da embaixada americana, e aos que choraram em directo perante o massacre do Cemitério de Santa Cruz. Que memória foi a sua?! Autêntica hipocrisia, ou acto de irreflexão?
O autor desta crónica também se sente indignado, pois alvitrou, diligenciou e concretizou, com a Direcção a que presidia, a vinda de um grupo de timorenses, a exibir o seu folclore à Covilhã, em 17 de Junho de 1995, nas Comemorações do 12º. Convívio da APAE Campos Melo, tendo sido apresentada um belíssima exposição de objectos e utensílios timorenses, envolvendo-nos então numa amizade com a Biblioteca por Timor, pertencente à Câmara de Lisboa, então presidida pelo Dr. Jorge Sampaio, com cuja edilidade tivemos alguns contactos.
E, quando o general Wiranto e seus homens perseguiam Timor, manifestámos a nossa solidariedade a Xanana Gusmão, para a Cadeia de Cipinang, ao comemorar os seus 50 anos de vida.
Como um relâmpago surgiram as notícias dos homens supostamente envolvidos nos negócios fraudulentos do futebol, onde a corrupção se presume atingiu pontos elevados (há muito que saltavam aos olhos de todos, menos a quem não queria ver ou se fazia ingénuo, estas atitudes da arbitragem), e ainda continuam sem estarem bem definidos e identificados os que se envolveram nos meandros dos “negócios escuros” no mundo do futebol, em Portugal.
Como num relâmpago, deixou de se falar nos saturados assuntos da pedofilia, das fraudes do futebol, e as eleições realizadas com um forte cartão amarelo ao fragilizado Governo passaram ao lado, com o povo a abster-se, pensando-se agora e unicamente no Euro 2004.
Foi assim uma tristeza menos triste por ser tão triste.
Bandeiras de Portugal, mesmo com pagodes em vez de castelos, flutuam patrioticamente nas janelas de muitas, muitas casas, nos muitos e muitos automóveis. Aqui há patriotismo.
Depois do desencanto contra a Grécia, em que a selecção portuguesa se tornou a primeira anfitriã a perder o jogo de abertura de um Euro, surgiu a empolgante vitória contra a Espanha!
Com uma certa “Ala dos Namorados” conseguimos vencer mais uma Batalha de Aljubarrota.


(In “Notícias da Covilhã”, de 25/06/2004)

23 de abril de 2004

30 ANOS DE ABRIL

Após três décadas muitas coisas mudaram no nosso país. No dia da grande reviravolta ainda não tínhamos 30 anos mas não esquecemos o longo período antecedente à Revolução dos Cravos.
Para os jovens de hoje, o 25 de Abril talvez seja apenas uma data histórica de âmbito escolar, como a Implantação da República, a Restauração de Portugal, a Fundação da Nacionalidade.
Se do “antes”, alguns quadros das empresas privadas tinham remunerações sustentáveis, o operariado fugia do país ou limitava-se a uma vida de fortes dificuldades económicas, refugiando-se nas tabernas, durante os seus tempos livres, ou pelos clubes de bairro, como o Campos Melo, o Rodrigo, o Oriental, o Estrela de S. Pedro, o Arsenal, o Águias de Santa Maria, os Leões (onde, nalgumas destas colectividades, se destacaram pessoas simples, mas grandes de índole cultural e humana); e, aos domingos, pelos campos de futebol, onde o Sporting da Covilhã também sofria de maleita, entre as subidas e descidas da 2ª. à 3ª. Divisão, de permeio com os Torneiros de Competência. O “Pina Bicho”, ou o Cine-Centro, era outro ponto de distracção.
Chegada a idade militar, os jovens iam-se conformando com as contrariedades que se avizinhavam, não só pelos muitos meses que iam passar nos quartéis, atrasando a sua vida profissional e constituição de família, como o espectro de serem integrados nos contingentes militares para combater nas Colónias.
Quanto aos emigrantes, só mais tarde, quando alguns regressavam para férias, dos países para onde emigraram, já com as algibeiras recheadas, pronunciavam de forma exibicionista um francês macarrónico, e se expressavam, antes, de revolta, agora quase num ar de “vingança”: “Vamos tomar uma boisson ao Montalto. Agora já tenho argent. Os patrões não são mais do que eu!”.
Mesmo os que tinham ocupações na função pública – “os chamados empregos seguros, para toda a vida” – só poucos anos antes começaram a beneficiar da assistência médica, com a criação de CATs e ADSE, que até então era inexistente.
Mas, talvez pior que a penúria de muitos, e a necessidade de recursos financeiros da maioria, a falta de liberdade de expressão, aliada à chamada “guerra subversiva no Ultramar Português”, em tempo de guerra fria no mundo, eram vivências de constante insatisfação, neste Portugal “orgulhosamente só”, na expressão do ditador.
Quando surgia um pequeno aumento salarial, logo o Diário de Notícias, o Diário Popular, o Diário da Manhã, A Voz, o Novidades, o Comércio do Porto, o Diário de Lisboa, bem como outros periódicos da época, anunciavam os aumentos em letras garrafais.
O servidor do Estado, ao fazer as suas contas, comparando o aumento de salário, duma forma aberrante, da sua categoria de letra com a dos quadros – os primeiros – desabafava ironicamente: “Dai-me, Senhor, o vosso aumento, que eu dou-vos o meu vencimento”.
Algumas vezes, chegados aos empregos, logo nos surgiam as notícias: “Ontem a Pide levou o fulano, ou o sicrano”.
Além do Café Montalto, frequentado por uma determinada classe social, havia outros, como o Café Leitão, onde predominava a classe de oposicionistas ao regime (por detrás do balcão, às escondidas, alguns molhavam a palavra, com uma taça de tinto); assim como a ainda Pastelaria Lisbonense, com a peculiar simpatia do proprietário, Sr. José; o Café Montanha, do Laranjo; assim como o Danúbio, do Caninhas.
Frequentávamos algumas vezes o desaparecido Café Central, do Neve Hotel, e recordamos que estávamos vendo o telejornal, quando o locutor José Gomes Ferreira anunciava a morte súbita de Nasser, presidente do Egipto, nos acontecimentos da Guerra dos Seis Dias, com Israel contra os países árabes. Ao ouvido chegava-nos o recado, de pessoa avisada: “cuidado com as conversas porque há aqui bufos da Pide”.
À noite, em segredo, podíamos ouvir a “Rádio Liberdade” ou “Rádio Portugal Livre”, de Argel, que teve a sua primeira emissão em 12 de Março de 1962, pela voz de Stela Piteira Santos.
O temor da guerra levava alguns jovens a arranjar subterfúgios para conseguirem livrar-se da tropa, além dos “amparos de mãe”, tomando, alguns, o rumo da deserção.
Nas longas viagens de comboio, no regresso aos quartéis, após um pequeno fim-de-semana com a família e namorada (quando era possível), não faltavam as imagens de abraços e choros dos que se despediam dos familiares e namoradas, nas estações de caminhos-de-ferro, já com a guia de marcha para a Guiné, Angola, Moçambique, ou outras “Províncias Ultramarinas”. Alguns regressaram sem vida.
Nem o “adeus, até ao meu regresso”, nas mensagens de Natal e Ano Novo, nem as madrinhas de guerra, nem as senhoras do Movimento Nacional Feminino, organização feminina que acompanhou os treze anos de guerra colonial, fundada em 28 de Abril de 1961, em dia de aniversário de Salazar, que mais não fosse para distribuir aerogramas, ou fazer algumas visitas aos soldados, eram suficientes para fazer afastar a grande saudade e os tempos terríveis duma guerra da qual não se conhecia o fim.
Aos quartéis, perto das fronteiras, como o RI 12, da Guarda, frequentemente surgia a polícia política entregando “compelidos e refractários”, algemados, que apanhavam nas fronteiras. Os desertores, esses, geralmente eram mais difíceis encontrá-los.
Os regressados do serviço militar, muitos deles das colónias, após 3 ou quase 4 anos penosos, deparavam-se com problemas de integração na vida profissional, como primeiro emprego, mas alguns lá se iam encaixando nos bancos e na segurança social (mesmo com cursos industriais).
Aproximava-se o 25 de Abril mas, já antes, a oposição ao regime salazarista e marcelista preparava-se para não participar em eleições fantoches e havia vindo do Congresso de Aveiro com ânimo. Estávamos em 1973 e a oposição enviava uma moção de repúdio pela morte de Salvador Allende, presidente Argentino, face ao golpe militar do general Pinochet.
No Teatro-Cine, os homens e as mulheres afectos ao regime de Marcelo Caetano ouviam as vozes vibrantes dos seus oradores, entre os quais o entusiasta deputado pelo círculo de Castelo Branco, Dr. Rui Pontífice de Sousa, do Tortosendo, que pouco depois viria a falecer num acidente de viação, em Ponte de Sor. Num raio de alguns metros, também no Pelourinho, num andar perto do Neve Hotel e onde mais tarde arderam os prédios aí existentes, mais conhecidos dos partidos políticos, reunia-se um grupo de oposicionistas, da Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Para espanto geral, só conhecido após o 25 de Abril, quem secretariava a reunião da oposição e até se manifestava de forte opositor ao regime, era exactamente um informador da Pide.
Valeu o 25 de Abril. Fomos também envolvidos nessa alegria.
A democracia implantou-se, felizmente, mas muitos abusaram dela. Jamais desejaríamos assistir a um cortejo de desempregados e ao grassar da indigência, do consumo de drogas, do aumento da criminalidade, da continuação dos sem abrigo e de novas doenças.
Todos os sistemas políticos são sempre ocasião para os oportunistas, mormente para aqueles que mudam como um cata-vento e os que sobem para cima do muro, aguardando para que lado hão-de saltar.
Mas, 30 anos de Abril, apesar das vicissitudes e das grandes diferenças abissais que ainda subsistem, entre a pobreza envergonhada, e os que, como Saramago, se dão ao luxo de ter três casas para residir, valeu a pena; apesar de algo ir mal na intelectualidade, quando se aconselha ao voto em branco e se integra uma lista para as europeias, valeu a pena 30 anos de Abril, valeu a pena a LIBERDADE.

(In “Notícias da Covilhã”, de 23/04/2004)

27 de fevereiro de 2004

O PARADOXO

Segundo as estatísticas, os imigrantes são já cinco por cento da população portuguesa, tendo atingido 500 mil no final do ano transacto, com supremacia para os brasileiros.
Por todas as cidades e aldeias deste nosso País encontramos também ucranianos, moldávios, romenos, russos, búlgaros, bielorussos, lituanos, georgianos, húngaros, polacos, indianos, e espanhóis; argelinos e muitos outros africanos, de várias paragens desse grande continente, e outros gentílicos.
Já não estranhamos os trajes dos muçulmanos, dos indianos e outros, por essas ruas fora, o que não acontecia há cinquenta anos. Só se via um africano, na província, geralmente ligado ao futebol.
E este número é só o respeitante aos legalizados, já que mais de 250 mil imigrantes esperam a legalização.
Esta enorme mão-de-obra tem ajudado a criar riqueza para Portugal, lucrando o Estado 128 milhões de euros só com os 92 mil imigrantes dos países de Leste, segundo nos relatam os jornais, desenvolvendo as suas actividades mormente na construção, agricultura e restauração, sectores estes com mais peso.
O que se passa nos dias de hoje, e há já uns anos atrás, é exactamente paradoxal ao que aconteceu nos finais da década de cinquenta e início da de sessenta, onde um forte índice de emigração surgiu, com muita gente a caminho de outros países da Europa, onde nos encontramos inseridos, com destinos preferenciais a França, Alemanha, Suíça e Luxemburgo.
Nas Câmaras Municipais era o andar num rodopio diário, para os que pretendiam partir legalizados, onde as vigarices nos contratos de trabalho não eram tão abundantes, contrastando com os ilegais que se aventuravam a atravessar as fronteiras, de assalto, muitas vezes em condições infra-humanas, mas que a esperança de encontrar o eldorado ultrapassava essas enormes dificuldades e sacrifícios.
O concelho da Covilhã também não ficou incólume a essa avalanche de gente a contribuir para a desertificação das suas terras, mas, por outro lado, a avolumar as remessas dos emigrantes que caíam muito bem nos cofres do Estado Novo.
Esse formigueiro humano vinha principalmente das freguesias rurais, a norte e a sul do concelho.
As funcionárias da Câmara Municipal, e um funcionário, da altura, batiam incessantemente as teclas das máquinas de escrever, tratando da documentação dos que pretendiam emigrar, os quais, algumas vezes, faziam fila pelo corredor do município, ao tempo do Dr. Baltazar e Engº. Vicente Borges Terenas.
Cá fora, havia a recompensa para as incansáveis funcionárias, pelo menos algumas... Eram alguns cabazes com produtos das terras, onde não faltavam coelhos ou galinhas, queijos ou presuntos, dos que pretendiam ver a sua documentação na frente, bem depressa, que o país das patacas, ou a terra prometida estava à espera.
Eles vinham das Minas da Panasqueira, de Cebola (hoje S. Jorge da Beira), Casegas, de Sobral de Casegas (hoje Sobral de S. Miguel), de Unhais da Serra, do Paúl e Ourondo, como também de Aldeia do Mato (hoje Vale Formoso), de Aldeia do Souto, Orjais, e, mais perto, Teixoso e Aldeia do Carvalho (hoje Vila do Carvalho), não esquecendo da própria cidade, e por aí fora.
Estas recompensas davam ânimo e um certo dinamismo às senhoras funcionárias da edilidade, encarregadas da emigração, enquanto Manuel Matias – o Sr. Matias – um dos “donos” da Câmara de então, que apenas com a escolaridade obrigatória era chefe da contabilidade, passava grande parte do tempo com os empreiteiros – de preferência o Bom Jesus – com a sua secretária de madeira, repleta de montões de facturas, ordens de pagamento, orçamentos, e um mar sem fim de papéis e mais papéis.
Pacheco Lança – o 3º. Oficial – que isto de se chegar ao poleiro não era como nos dias de hoje, preocupava-se com as actas das escrituras camarárias, e, aos domingos à tarde, “botava” notícia dos relatos do Sporting da Covilhã para os jornais de que era correspondente.
O Chefe da Secretaria, que também era o responsável pela censura, impunha respeito – o Sr. Laurentinho – e lá passava horas sem fim no seu gabinete, preparando os trabalhos para as sessões camarárias, e não só, que geralmente não eram públicas.
E outro dia chegava, nova agitação pelos corredores camarários, novo matraquear das máquinas de escrever para os serviços da emigração, mais cabazes, alcofas e sacos camuflados à porta da Câmara.
E um dia até, entusiasmado, o único funcionário encarregado da emigração, resolve também emigrar. E até o porteiro finta o Sr. Matias, a quem devia obediência, e dá o salto para França, com subtileza, prometendo ao “dono” da Câmara que regressaria... pois ia com passaporte turístico e, nessa altura, era necessária uma autorização especial para os funcionários públicos se deslocarem ao estrangeiro. Foi a risada posterior de quem já adivinhava esta cena, entre os quais o oficial de diligências, Américo Santos.
Fora das paredes do município, a emigração continuava, mesmo sem papéis legais, onde os “passadores” cumpriam a sua missão, muitas vezes a par dos contrabandistas.
E, alguma rapaziada, em vésperas de ingressar na tropa, dava também o ar da sua graça, e, fugindo à guerra, desertava, sendo hoje uns heróis.
Hoje é o reverso da medalha da migração.


(In “Notícias da Covilhã”, de 27/02/2004)

26 de dezembro de 2003

QUANDO OS CÃES PASSAM

A Covilhã é indubitavelmente a cidade da Beira Interior com mais acentuados melhoramentos, a vários níveis, numa perspectiva de brevemente se verem outros horizontes, transformando ainda mais o seu rosto.
Aqui se deve à inteligência dos seus mentores, aliada a uma dinâmica de intervenção que leva a dar-lhes a certeza da confiança do voto para o reforço dum trabalho de continuidade, mesmo por muitos dos não correligionários.
Se bem nos recordamos, em tempos a Cidade chegou a ser reconhecida como das mais limpas do País.
Não sendo contudo das mais sujas, muito há que fazer para que seja uma autêntica cidade limpa.

É que de sujidade, bastam os cães que os seus donos levam a arejar, para, os próprios, permitirem que os dejectos fiquem em cima dos passeios.
Várias ruas da cidade, agora com os passeios disponíveis para as pessoas e não para servirem de casas de banho para canídeos, encontram-se numa autêntica vergonha, além de originarem uma poluição citadina.
Não raro é verem-se pessoas praguejando, ao pisarem ou saltarem por tal imundice.
Até as crianças quando se deslocam para as escolas têm que passar por estes lamentáveis obstáculos, começando desde logo, no seu subconsciente, a lidarem com as coisas nauseabundas. Cada vez há mais pessoas com cães de estimação, mesmo sem quintais, nos prédios de propriedade horizontal.
Se bem que há alguns proprietários conscienciosos, que sabem levar os seus cãezinhos a fazer as necessidades para locais devidos, na sua maioria fecham os olhos e até aproveitam o virar de costas de quem passa, e a horas menos propícias dos olhares, como é a noite, para deixarem os dejectos na rua, quase sempre nos passeios, repetimos, tal é o caso de certas ruas da cidade, desde os prédios novos dos Penedos Altos à Rua Mateus Fernandes, entre outras.
É uma autêntica falta de civismo, mesmo de pessoas que nos levam a uma prolongada interjeição.
Há que pôr cobro a este atentado à urbanidade, à higiene, à saúde e bem-estar dos cidadãos.
Crie-se legislação como noutros países, proibindo estes atentados, obrigando os proprietários a irem munidos de sacos para os dejectos dos cãezinhos, na rua pública, sendo os infractores fortemente penalizados com coimas.
Aqui a Câmara tem um primordial papel, criando condições de policiamento ou alterando o Código de Posturas Municipais, se é que ainda assim se intitula, a fim de banir, de uma vez por todas, a falta de civismo e a porcaria que grassa por esta Cidade.
Certamente que os Covilhanenses reconhecerão do Município estas normas de conduta como meritórias.
É que, infelizmente, muitas vezes é necessário ensinar o cidadão a ser civilizado.

(In “Notícias da Covilhã” de 12/12/2003; “Diário XXI”, de 10/12/2003; “Jornal do Fundão”; de 26/12/2003)

19 de dezembro de 2003

NATAL!

Ainda haverá quem se mantém à margem desta época do ano?
Na generalidade, toda a gente sente chegado este período dos 365 dias de mais uma passagem da nossa vida, tanto na alegria de uma reunião de família, como, quantas vezes, paradoxalmente, na tristeza da ausência de um ente querido, no negrume dum inesperado desemprego ou duma doença que espreitou e se enraizou.
Há, efectivamente, tristes e ledas madrugadas!
Mas infelizmente ainda existem muitos indiferentes ao Natal, que nada lhes diz, a não ser o forçado envolvimento diário no mesmo, face aos meios de comunicação social, às ruas decoradas a pretexto, ao bulício das compras, com a prévia preparação dos estabelecimentos comerciais, e o anúncio de publicidade, quantas vezes duma forma exagerada e enfadonha, que emerge nos jornais, canais de televisão, e não só. São assim, indiferentes, os isolados, os sem abrigo, os de infortúnio, os que não encontram neles outra forma de se verem senão como marginalizados da sociedade onde vivem todo o ano, no período de frio e de calor, de chuva e de sol, apesar de este, quando vem, é para todos.
Natal! Festa anual cristã que comemora o nascimento de Cristo e que tem lugar no dia 25 de Dezembro, é do conhecimento de toda a gente, já se sabe, vivida ou reconhecida em quase todos os cantos do nosso planeta.
Em redor daquela palavra muito se faz, muito se conta, muito há que dizer.
Recordar o Natal de há 50 anos não será o mesmo da actualidade, não obstante ter existido também a tradição do presépio, o comprar de uma peça de vestuário que já se necessitava há muito, a alegria dos brinquedos de criança, geralmente feitos em madeira, cartão, lata ou plástico. Existia também a missa do galo e as fogueiras, numa perene tradição.
O Natal de hoje é um Natal de consumismo, onde os brinquedos são cada vez mais sofisticáveis, chegando-se ao ponto de, nalguns casos, surgir proibição da sua venda face aos efeitos nocivos da sua construção. Hoje, as crianças perdem-se num mar de presentes, para todos os gostos e feitios.
É decerto nesta quadra do ano que mais se fala na mesma palavra – NATAL – O Natal em família; Votos de Feliz Natal; Dia, Semana ou Mês do Natal; Férias de Natal; Presentes de Natal; Cânticos de Natal; Iluminação de Natal; Compras de Natal; Ceia de Natal; Missa de Natal; Espírito de Natal; Árvore de Natal; Pai Natal; Cabaz do Natal; Noite de Natal; Pinheiro de Natal; o Subsídio de Natal.
Isto para, noutro contexto, outros também poderem dizer que “vou passar o Natal à minha terra natal”.
E, pasme-se, até com ironia, há bem poucos anos, de um certo clube desportivo se dizia que corria para o título só até ao Natal, uma vez que, a partir daqui, se deixava ultrapassar pelos seus habituais parceiros da concorrência. Felizmente que outros ventos têm soprado noutro sentido...
Christmas, Noel e Weihnachten têm o mesmo significado e a mesma força como festividade de excelência, nas línguas inglesa, francesa e alemã.
Desde tempos imemoriais que o verdadeiro espírito de Natal se associou também na ajuda aos mais necessitados, aqueles que por razões diversas sentiram as agruras da vida retirando-lhes o pão, o agasalho, e os meios de adquirir os medicamentos.
Mas a pobreza nos dias de hoje é muito mais lata, onde a droga, o álcool, a má orientação, levam, quantas vezes, à maior das pobrezas.
A todos nós pode um dia bater o infortúnio, como tem acontecido a tantas famílias covilhanenses, às quais lhes surgiu o desemprego não previsto; ou fruto duma catástrofe natural, como os incêndios, as derrocadas, as inundações, um acidente de viação. Aí está a pobreza envergonhada.
Outros ainda há que, vivendo isolados, e não necessitando sequer de ajuda porquanto os seus regulares proventos são suficientes, emaranham-se em desilusões e caem no álcool ou droga e, quando chega o dia do recebimento da pensão, tudo se desfaz num ápice. Urge então que alguém responsável lhes possa gerir o que é suficiente para o seu sustento. É outra forma menos peculiar de pobreza.
Outros, ainda, com base nesta palavra, usam e abusam dela, num oportunismo à sombra duma disfarçada pobreza, num disfarce que leva ao cepticismo de quem já lhes passa ao lado.
Mais revoltante que aqueles que não fazem esforço para sair da pobreza, são alguns “fazedores” da caridade, que utilizam em benefício próprio, ou de terceiros, os recursos disponibilizados, ou ainda por outras formas os subtraem aos devidos destinatários, num contraste com o real e dignificante trabalho que outras pessoas, de boas intenções, se envolvem no trabalho das instituições de solidariedade social, procurando ajudar e direccionar os recursos conseguidos na distribuição aos verdadeiros necessitados.
São esses desavergonhados pobres de Cristo que muitas vezes levam ao descrédito das instituições onde muitos trabalham arduamente, com sacrifício após dias de trabalho intensivo, em prol da autêntica caridade, numa verdadeira ajuda ao seu semelhante.
Por isso há que haver todo um sentido responsável em procurar sanar os males e as feridas de quem sofre da pobreza, que um dia lhes bateu à porta, ou que da mesma jamais se libertaram.
É que o Natal não deverá existir só em Dezembro, mas todos os dias do ano!

(In “Notícias da Covilhã”, de 19/12/2003)