Há celebrações de efemérides, todos os anos, em Portugal, na Europa ou no Mundo. Memorizam figuras importantes de Portugal ou da própria Humanidade; eventos, no âmbito científico, do desenvolvimento ou, paradoxalmente, das adversidades no nosso Planeta, às quais o Homem é impotente; e mesmo daquelas em que o homem emprega a força das armas, sejam de que tipo forem, incluindo as do mal.
Para a história portuguesa fica o início de mais um novo Presidente da República – Cavaco Silva – como também o fim de outro – Jorge Sampaio.
Quer queiram quer não, estas duas figuras irão permanecer para sempre, nas páginas da história portuguesa, ainda que no amarelecimento do papel; adulterada ou não.
Para Jorge Sampaio, a sua presidência, à luz do país que encontrou e do país que deixou arrisca-se a ser sombria, com dois mandatos de paradoxos. Fez o inevitável contra o que gostaria de evitar (recordemos o anterior “pseudo” governo, de espectáculo circense); no entanto, com rectidão e sentido de Estado. A sua imagem futura indubitavelmente irá depender muito do que Cavaco fará, ou não fará.
No entanto, uma apreciação global é positiva, na opinião de Marcelo Rebelo de Sousa. Lamentamos ver, na comunicação social “da nossa praça”, certos senhores a opinar, num ódio frontal, de certo facciosismo, a década presidencial de Jorge Sampaio, como se fosse o pior de tudo e de todos.
Portugal atravessa a crise mais prolongada dos últimos 25 anos. Em vez de uma doença súbita, a actual crise tem sido de uma agonia prolongada. Sabemos, contudo, que ao contrário do que aconteceu em outras décadas, Portugal pertence hoje ao sistema monetário europeu e já não pode desvalorizar a sua moeda para estimular as exportações (recordam-se quando, na década de 60 e grande parte da de 70, do século XX, comprávamos uma peseta por menos de cinquenta centavos?..); também a concorrência internacional é maior, com os novos Estados-membros da União Europeia e das novas potências asiáticas, pese embora a Europa também atravessar um período prolongado de crescimento muito reduzido.
Pois bem, este ano também não ficou aquém dos precedentes; e celebram-se vários acontecimentos, entre os quais, os 100 anos do nascimento de Arlindo Vicente que foi candidato à Presidência da República, tendo desistido a favor de Humberto Delgado, em 1958; os 20 anos da adesão de Portugal à União Europeia; os 100 anos do nascimento do filósofo Agostinho da Silva, conhecido por “cidadão do mundo; os 300 anos do nascimento de Benjamim Franklim, um dos pais fundadores dos Estados Unidos; os 500 anos da Guarda Suíça, veteranos do mais antigo e colorido exército do mundo, que chegaram a Roma para proteger o Papa Júlio II e depois ficaram; entre outros eventos.
Contudo, eu preferi falar sobre outra efeméride – os 50 anos do XX Congresso do PC da União Soviética – data em que Nikita Krustchev denunciou Estaline para salvar o regime soviético, acusando-o de ter chegado ao poder à custa da eliminação física dos colaboradores próximos de Lenine. Há 50 anos o “discurso secreto” de Krustchev deixou sementes que germinaram com Gorbatchov.
Este evento é um pretexto para saltar para o ano 1961, altura em que se vivia a guerra-fria, com o presidente americano, John Kennedy, a manter os EU mergulhados no pântano vietnamita e no fracasso da Baía dos Porcos, em Cuba, na crise dos mísseis nucleares, vendo-se obrigado a adoptar uma política internacional mais beligerante para mostrar, tanto aos críticos internos como aos soviéticos, que tinha mão firme.
Era a altura das grandes vedetas internacionais: Marilyn Monroe, Elvis Presley, Brigite Bardot, Elizabeth Taylor, entre outras; e o mundo ainda não tinha atingido os 6,5 mil milhões de pessoas, cujos números foram atingidos em Fevereiro deste ano.
Em Portugal, vivia-se a ditadura e o mundo exigia, na ONU, a independência das colónias portuguesas. Nikita Krutchev, numa ida às Nações Unidas, para se fazer ouvir, proporcionou um espectáculo hilariante ao descalçar o sapato e bater com ele na mesa donde pretendia falar. Esta notícia correu mundo; e, em Portugal, cada vez mais pressionado para entregar as colónias, vê-se confrontado com Nehru a mandar invadir Goa. Surgem grandes manifestações patrióticas contra a invasão da Índia Portuguesa, por todo o lado. Também na Covilhã. Da Escola Industrial, o director Ernesto Melo e Castro dá ordens: “todos ao Pelourinho”. Eu também lá estou no meio da maralha. Bandeiras, cartazes improvisados, tudo serve para a manifestação e bradar que Goa é nossa – o que já não era.
Tinha surgido a publicidade ao “tody”, incluindo na televisão (de um só canal para esta região, a preto e branco), com uma bela moça, de vestido comprido, meio transparente, proporcionando as pernas ao léu, cantando: “todo o mundo toma tody, para se alimentar; tome tody, frio ou quente; tome tody para fortificar”. No Pelourinho, em plena multidão, surge um estudante empunhando um cartaz, improvisado, em cartão, com a caricatura de Nikita Krustchev, com o sapato na mão, que dizia: “dêem tody ao Krustchev”. Esse jovem, estudante do Liceu ou do Colégio Moderno, era João Rosa Lã; hoje é Embaixador de Portugal em Rabat, depois de exercer o mesmo cargo em Paris e, antes, em Madrid.
Nessa altura, e durante vários anos, durante a ditadura, rezava-se nas igrejas pela conversão da Rússia; e, com grande temor, falava-se que ainda não tinha sido revelado o 3.º Segredo de Fátima.
(In “Notícias da Covilhã”, de 23/03/2006; e diário digital Kaminhos)
23 de março de 2006
16 de fevereiro de 2006
BOLIQUEIME
Corria o ano de 1968, não me recordando se o homem de Santa Comba Dão já tinha caído da cadeira, pois sei que foi nesse ano, a 28 de Setembro, que Marcello Caetano substituiu Salazar, e iniciava as suas “conversas em família”.
Mas antes, no dia 15 de Janeiro, iniciámos uma viagem (por dever patriótico, para uns; por obrigatoriedade, para outros), a caminho de Tavira, para o serviço militar que era de obrigação, e passámos, pela primeira vez, por uma estação de caminho de ferro de nome Boliqueime, onde chegámos já de noite.
Tal nome nada nos dizia. Mesmo no campo da instrução militar – a Atalaia –; onde nós, instruendos do 1.º ciclo do curso de sargentos milicianos, ouvíamos falar das terras vizinhas: Conceição de Tavira, Luz de Tavira, Boliqueime, donde eram alguns vendedores ambulantes que acompanhavam os pelotões nos períodos da instrução, para, nos intervalos, venderem as suas bebidas, sandes, amendoins, chocolates; Boliqueime surgia várias vezes nos nossos ouvidos.
O 1.º cabo miliciano Santa Rita, que era um dos nossos monitores, e jogava futebol no Farense; assim como a Ti Almerinda, que também acompanhava a malta com a sua cesta de bebidas; eram de Boliqueime.
Alguns, como eu, tentámos safar-nos da tropa, mas o meu chico espertismo não deu resultado, viajando, por conta da Fazenda Pública (que isto em tempo de guerra no Ultramar não era para brincar, e, nos dias de hoje, quem quiser ser mercenário que o seja), para a Região Militar de Évora, e para o Hospital Militar Principal, da Estrela, em Lisboa (aí encontrei a estagiar, como enfermeiro militar, o António João Poupinho, antigo colega da Campos Melo); e, vai daí, regresso, após várias semanas, a Tavira; e lá vem novamente Boliqueime de enfadar.
As deslocações à Covilhã, de comboio, para um fim-de-semana, eram impossíveis, face à distância. Salvou-se, uma vez, a viagem de automóvel, de Tavira à Covilhã, no mini do Agostinho Paiva, dos Penedos Altos, juntamente com o Luís Fiadeiro (nós, a repetir o 1.º ciclo do referido curso, por não nos termos livrado da tropa; e o Agostinho, terminando o 2.º ciclo como atirador de infantaria). Foi só o azar de dois furos no mini, o que nos atrasou a chegada a casa.
E a única vez que nos livrámos de Boliqueime...cuja “repercussão” , desconhecíamos, na futurologia.
Isto de futurologia até tem muito que se lhe diga. Tenho a certeza que se me candidatasse a Presidente da República ganhava as eleições, na 2.ª volta… Que raio, porque é que não hei-de poder dizer que tenho a certeza, se os outros candidatos também o disseram?!
À tangente, ou próximo do empate – como quiserem – o homem de Boliqueime ganhou; os ânimos serenaram.
Não irá haver milagres, como também não irá haver perturbações. O povo é sereno.
Mas voltamos a Boliqueime. O senhor professor “chumbou” no mesmo, e num só ano, do Curso Geral do Comércio, como eu também. Que coincidência...
O Senhor de Boliqueime coleccionou, no seu currículo político “primeiras vezes”. Foi o primeiro governante a conseguir uma maioria absoluta; foi o primeiro homem da direita portuguesa a ser eleito Presidente da República; conseguiu logo à primeira volta. Não conseguiu, contudo, transformar Manuel Alegre em Manuel Triste, mas antes num Manuel Conformado.
Mário Soares, primeiro, aclamado como na entrada triunfal de Cristo em Jerusalém; depois, a crucifixão. Mas, não sendo homem de rancores, no seu íntimo certamente estará desenhado o pensamento de “perdoo-vos, porque não soubestes o que fizestes”. O retrato que a história vai guardar de si não vai ser diminuído por esta aventura, que nem chegou a ser uma Alcácer Quibir.
Em tempo de balanço, e sem muro das lamentações, com ou sem OPAS hostis, e sem pensar sequer na lenta dissolução dos partidos, urge a coabitação entre vencedores e vencidos, evitando-se eufemismos hilariantes.
Portugal não pode continuar a ver a banda passar, seja em Boliqueime ou em Melgaço, na açoriana Rabo de Peixe ou em Alcafozes; no interior ou no litoral.
A colaboração prometida entre presidência da República e governo deseja-se, na perspectiva de se rectificar o que está menos bom, e conseguirmos apanhar não o comboio para Tavira do meu tempo, passando por Boliqueime, frio ou demasiado quente, mas antes a carruagem da frente com ar condicionado.
(In “ Notícias da Covilhã”, de 16/02/2006; e diário digital Kaminhos)
Mas antes, no dia 15 de Janeiro, iniciámos uma viagem (por dever patriótico, para uns; por obrigatoriedade, para outros), a caminho de Tavira, para o serviço militar que era de obrigação, e passámos, pela primeira vez, por uma estação de caminho de ferro de nome Boliqueime, onde chegámos já de noite.
Tal nome nada nos dizia. Mesmo no campo da instrução militar – a Atalaia –; onde nós, instruendos do 1.º ciclo do curso de sargentos milicianos, ouvíamos falar das terras vizinhas: Conceição de Tavira, Luz de Tavira, Boliqueime, donde eram alguns vendedores ambulantes que acompanhavam os pelotões nos períodos da instrução, para, nos intervalos, venderem as suas bebidas, sandes, amendoins, chocolates; Boliqueime surgia várias vezes nos nossos ouvidos.
O 1.º cabo miliciano Santa Rita, que era um dos nossos monitores, e jogava futebol no Farense; assim como a Ti Almerinda, que também acompanhava a malta com a sua cesta de bebidas; eram de Boliqueime.
Alguns, como eu, tentámos safar-nos da tropa, mas o meu chico espertismo não deu resultado, viajando, por conta da Fazenda Pública (que isto em tempo de guerra no Ultramar não era para brincar, e, nos dias de hoje, quem quiser ser mercenário que o seja), para a Região Militar de Évora, e para o Hospital Militar Principal, da Estrela, em Lisboa (aí encontrei a estagiar, como enfermeiro militar, o António João Poupinho, antigo colega da Campos Melo); e, vai daí, regresso, após várias semanas, a Tavira; e lá vem novamente Boliqueime de enfadar.
As deslocações à Covilhã, de comboio, para um fim-de-semana, eram impossíveis, face à distância. Salvou-se, uma vez, a viagem de automóvel, de Tavira à Covilhã, no mini do Agostinho Paiva, dos Penedos Altos, juntamente com o Luís Fiadeiro (nós, a repetir o 1.º ciclo do referido curso, por não nos termos livrado da tropa; e o Agostinho, terminando o 2.º ciclo como atirador de infantaria). Foi só o azar de dois furos no mini, o que nos atrasou a chegada a casa.
E a única vez que nos livrámos de Boliqueime...cuja “repercussão” , desconhecíamos, na futurologia.
Isto de futurologia até tem muito que se lhe diga. Tenho a certeza que se me candidatasse a Presidente da República ganhava as eleições, na 2.ª volta… Que raio, porque é que não hei-de poder dizer que tenho a certeza, se os outros candidatos também o disseram?!
À tangente, ou próximo do empate – como quiserem – o homem de Boliqueime ganhou; os ânimos serenaram.
Não irá haver milagres, como também não irá haver perturbações. O povo é sereno.
Mas voltamos a Boliqueime. O senhor professor “chumbou” no mesmo, e num só ano, do Curso Geral do Comércio, como eu também. Que coincidência...
O Senhor de Boliqueime coleccionou, no seu currículo político “primeiras vezes”. Foi o primeiro governante a conseguir uma maioria absoluta; foi o primeiro homem da direita portuguesa a ser eleito Presidente da República; conseguiu logo à primeira volta. Não conseguiu, contudo, transformar Manuel Alegre em Manuel Triste, mas antes num Manuel Conformado.
Mário Soares, primeiro, aclamado como na entrada triunfal de Cristo em Jerusalém; depois, a crucifixão. Mas, não sendo homem de rancores, no seu íntimo certamente estará desenhado o pensamento de “perdoo-vos, porque não soubestes o que fizestes”. O retrato que a história vai guardar de si não vai ser diminuído por esta aventura, que nem chegou a ser uma Alcácer Quibir.
Em tempo de balanço, e sem muro das lamentações, com ou sem OPAS hostis, e sem pensar sequer na lenta dissolução dos partidos, urge a coabitação entre vencedores e vencidos, evitando-se eufemismos hilariantes.
Portugal não pode continuar a ver a banda passar, seja em Boliqueime ou em Melgaço, na açoriana Rabo de Peixe ou em Alcafozes; no interior ou no litoral.
A colaboração prometida entre presidência da República e governo deseja-se, na perspectiva de se rectificar o que está menos bom, e conseguirmos apanhar não o comboio para Tavira do meu tempo, passando por Boliqueime, frio ou demasiado quente, mas antes a carruagem da frente com ar condicionado.
(In “ Notícias da Covilhã”, de 16/02/2006; e diário digital Kaminhos)
23 de dezembro de 2005
AS CERTEZAS DESTE NATAL
Uma “couvada”, em Casegas, reuniu cerca de setenta convidados, no dia 16, onde César, e o filho, fortaleceram amizades num ambiente de tradição natalícia.
No lagar, junto ao rio, numa noite gélida, uma grande panela, repleta de couves, bacalhau e batatas, tudo bem regado com azeite, aquecia nossas almas, onde não faltou bom vinho, chouriça e outras coisas mais.
Aumentaram os amigos. Afinal, quem redige estas linhas, carvalhense por nascimento, poderia ter as suas origens em Casegas. Há quase seis décadas, ainda no ventre de minha mãe, deixei esta aldeia para ir nascer na Pousadinha.
O professor Octávio, e a mulher, Mariana; o padre Nicolau; o Zeca Craveiro e a mulher, professora Agostinha; ainda sugeriram aos meus progenitores para eu ali nascer. Viviam junto ao cruzeiro e o pai dava aulas na primária.
Não querendo ali ficar, lá foi a bagagem no dorso de uma égua; e a família num carro de bois, atravessando a ribeira, até ao Ourondo, onde pernoitaram em casa de familiares; depois foi tomar a camioneta para Aldeia do Carvalho.
Como eram as acessibilidades e os tempos de outrora!...para já não falar das dificuldades de outra natureza, como a escassez de recursos materiais e financeiros, no final da II Grande Guerra!
No entanto, nos dias de hoje, com muitas estradas rasgadas, mais facilidades de vida, com autênticas revoluções tecnológicas; o aparecimento da televisão, a evolução da rádio, o surgimento de meios auxiliares para o trabalho e vivência, como os aparelhos electrodomésticos, das máquinas de lavar ao micro-ondas; depois, da máquina de calcular à informática; do computador ao telemóvel; mesmo assim ainda persistem dificuldades.
As últimas gerações, pós 25 de Abril de 1974, não vieram encontrar a escassez de meios de viver, como antes; mas tão só um mundo de uma diversidade de ofertas, aliadas a forte publicidade, atraindo muitas mentes ao despesismo, e, daí, um passo para muitos endividamentos.
Mas, na esperança de melhores dias, no horizonte de um país melhor, nas expectativas de emparceiramos com os melhores da Europa, chegámos a ser o exemplo de como se faz uma revolução com flores, como sentimos que já não estávamos orgulhosamente sós. Respirámos por já não sermos os últimos.
Surge a integração na elite europeia, recebemos fundos comunitários e, logo aqui, há alguma desonestidade na sua utilização, numa ausência de rigor pelo controle dos serviços estatais, em vários quadrantes da sociedade portuguesa. Seguimos o caminho da tartaruga, enquanto há dinheiro da Comunidade. Outros países, companheiros do mesmo horizonte, levaram a sério as “ofertas” postas à disposição, evitaram alguns conflitos na governação, e, hoje, são um exemplo duma salutar economia.
O Leste vê o “seu” muro derrubado. Alguns países, mais frágeis, juntam-se ao nosso grupo comunitário. São caloiros! Contudo, sabem aproveitar a vitaminação; a nós falta-nos o ferro e somos ultrapassados até por alguns desses caloiros!...
Os vários governos vão deixando rastos de alguma inoperância e, alguns, de uma vergonhosa situação do quase país ingovernável.
O resultado é chegarmos a mais um Natal, e não termos conseguido acautelar o confrangedor número de empresas a encerrar; muitas delas inevitáveis face às conjunturas do mercado e aos efeitos da globalização, com os papões da China e da Indía, além dos já caloiros de Leste!
O formigueiro dos que ficaram sem trabalho avolumou-se; as universidades não conseguem colocar todos os licenciados; muitas famílias, outrora a viverem desafogadamente, entram no rol duma pobreza envergonhada; o país quase que sobrevive.
Neste Natal não vão faltar as certezas: o número de desempregados aumentou, em contraste com a zona euro, onde diminuiu; a quantidade de cidadãos a reformar-se, assustados, engrossou; há autarquias onde, desde o presidente aos vereadores, quase todos usufruíram das benesses do Estado providência, e são Câmaras de reformados com reformas de luxo! Muitos cidadãos vão encobrir as suas lágrimas, neste Natal, por vergonha, num desespero pela perda de empregos de quase toda a família; As instituições de solidariedade social vão ter mais trabalho.
E vai haver o desatino com as eleições presidenciais, com guerras civis entre partidos, na certeza, também, neste Natal, de que qualquer dos três potenciais candidatos que possa vir a ganhar, em nada vai alterar o estado da democracia, pois a ditadura já foi riscada dos dicionários.
E, nesta “apagada e vil tristeza” em que ousamos sobreviver, as certezas deste Natal também vão de algum contentamento pelas decisões últimas da UE com a atribuição dos fundos europeus a Portugal; e, pensamos, que as certezas existem da necessidade das reformas de fundo a empreender pelo actual governo, com sacrifícios globais, e não só de alguns. Temos que sair da cauda da Europa e do mundo, para que o desânimo se transforme na esperança da esperança.
(In “Notícias da Covilhã”, de 23/12/2005; e diário digital Kaminhos)
No lagar, junto ao rio, numa noite gélida, uma grande panela, repleta de couves, bacalhau e batatas, tudo bem regado com azeite, aquecia nossas almas, onde não faltou bom vinho, chouriça e outras coisas mais.
Aumentaram os amigos. Afinal, quem redige estas linhas, carvalhense por nascimento, poderia ter as suas origens em Casegas. Há quase seis décadas, ainda no ventre de minha mãe, deixei esta aldeia para ir nascer na Pousadinha.
O professor Octávio, e a mulher, Mariana; o padre Nicolau; o Zeca Craveiro e a mulher, professora Agostinha; ainda sugeriram aos meus progenitores para eu ali nascer. Viviam junto ao cruzeiro e o pai dava aulas na primária.
Não querendo ali ficar, lá foi a bagagem no dorso de uma égua; e a família num carro de bois, atravessando a ribeira, até ao Ourondo, onde pernoitaram em casa de familiares; depois foi tomar a camioneta para Aldeia do Carvalho.
Como eram as acessibilidades e os tempos de outrora!...para já não falar das dificuldades de outra natureza, como a escassez de recursos materiais e financeiros, no final da II Grande Guerra!
No entanto, nos dias de hoje, com muitas estradas rasgadas, mais facilidades de vida, com autênticas revoluções tecnológicas; o aparecimento da televisão, a evolução da rádio, o surgimento de meios auxiliares para o trabalho e vivência, como os aparelhos electrodomésticos, das máquinas de lavar ao micro-ondas; depois, da máquina de calcular à informática; do computador ao telemóvel; mesmo assim ainda persistem dificuldades.
As últimas gerações, pós 25 de Abril de 1974, não vieram encontrar a escassez de meios de viver, como antes; mas tão só um mundo de uma diversidade de ofertas, aliadas a forte publicidade, atraindo muitas mentes ao despesismo, e, daí, um passo para muitos endividamentos.
Mas, na esperança de melhores dias, no horizonte de um país melhor, nas expectativas de emparceiramos com os melhores da Europa, chegámos a ser o exemplo de como se faz uma revolução com flores, como sentimos que já não estávamos orgulhosamente sós. Respirámos por já não sermos os últimos.
Surge a integração na elite europeia, recebemos fundos comunitários e, logo aqui, há alguma desonestidade na sua utilização, numa ausência de rigor pelo controle dos serviços estatais, em vários quadrantes da sociedade portuguesa. Seguimos o caminho da tartaruga, enquanto há dinheiro da Comunidade. Outros países, companheiros do mesmo horizonte, levaram a sério as “ofertas” postas à disposição, evitaram alguns conflitos na governação, e, hoje, são um exemplo duma salutar economia.
O Leste vê o “seu” muro derrubado. Alguns países, mais frágeis, juntam-se ao nosso grupo comunitário. São caloiros! Contudo, sabem aproveitar a vitaminação; a nós falta-nos o ferro e somos ultrapassados até por alguns desses caloiros!...
Os vários governos vão deixando rastos de alguma inoperância e, alguns, de uma vergonhosa situação do quase país ingovernável.
O resultado é chegarmos a mais um Natal, e não termos conseguido acautelar o confrangedor número de empresas a encerrar; muitas delas inevitáveis face às conjunturas do mercado e aos efeitos da globalização, com os papões da China e da Indía, além dos já caloiros de Leste!
O formigueiro dos que ficaram sem trabalho avolumou-se; as universidades não conseguem colocar todos os licenciados; muitas famílias, outrora a viverem desafogadamente, entram no rol duma pobreza envergonhada; o país quase que sobrevive.
Neste Natal não vão faltar as certezas: o número de desempregados aumentou, em contraste com a zona euro, onde diminuiu; a quantidade de cidadãos a reformar-se, assustados, engrossou; há autarquias onde, desde o presidente aos vereadores, quase todos usufruíram das benesses do Estado providência, e são Câmaras de reformados com reformas de luxo! Muitos cidadãos vão encobrir as suas lágrimas, neste Natal, por vergonha, num desespero pela perda de empregos de quase toda a família; As instituições de solidariedade social vão ter mais trabalho.
E vai haver o desatino com as eleições presidenciais, com guerras civis entre partidos, na certeza, também, neste Natal, de que qualquer dos três potenciais candidatos que possa vir a ganhar, em nada vai alterar o estado da democracia, pois a ditadura já foi riscada dos dicionários.
E, nesta “apagada e vil tristeza” em que ousamos sobreviver, as certezas deste Natal também vão de algum contentamento pelas decisões últimas da UE com a atribuição dos fundos europeus a Portugal; e, pensamos, que as certezas existem da necessidade das reformas de fundo a empreender pelo actual governo, com sacrifícios globais, e não só de alguns. Temos que sair da cauda da Europa e do mundo, para que o desânimo se transforme na esperança da esperança.
(In “Notícias da Covilhã”, de 23/12/2005; e diário digital Kaminhos)
2 de dezembro de 2005
O RANGEL DAS BICICLETAS
Por quase todo o Portugal encontramos figuras populares que dão vida às localidades onde se encontram inseridas. Por vezes, deixam a memorização de façanhas que vieram a proporcionar, evidência de que a popularidade gera simpatia numa salutar vivência. Um dos meios por que surgiu uma das envolventes populares dá pelo nome de “bicicleta”. A sua génese está num veículo criado em 1790 pelo francês De Sivrac. O registo da “paternidade” da bicicleta, ou seja, da introdução do ciclismo em Portugal, atribui-se a Artur Seabra e Herbert Dagge, português, filho de estrangeiros, entre 1878 e 1895. Mas é em 1894 que surge o primeiro herói português em velocipedia – o figueirense José Bento Pessoa – a ganhar uma medalha de ouro, fazendo deste jovem a primeira grande figura do ciclismo português. A partir daqui, e depois com o início da Volta a Portugal, em 1927, emergiram uma série de craques, alguns com a sua categoria na internacionalização; e, outros, representando equipas estrangeiras de grande gabarito, sobressaindo nomes sobejamente conhecidos da grande maioria dos portugueses.
Em 14 de Dezembro de 1899 foi criada a União Velocipédica Portuguesa, presidindo à Comissão Instaladora o segundo Conde de Caria, pois, até essa data, o ciclismo português estava sujeito às regras da Real União Velocipédica Espanhola; mas só em 1 de Julho de 1901, por despacho da Secretaria do Estado dos Negócios do Reino, a União Velocipédica Portuguesa é legalmente constituída, até que em 1944 é transformada na Federação Portuguesa de Ciclismo.
É assim que, entre o ciclismo e o futebol, que também ainda era adolescente em Portugal, surgem opções da sua prática e entusiasmo, ou mesmo no entrelaçar de ambas as modalidades.
Vem a propósito, esta nota preambular, para uma eventual justificação pelo entusiasmo da popularidade por que emergiram estas modalidades do desporto, às quais a Covilhã e a nossa região não foram alheias.
Ainda há pouco mais de uma década, um jovem covilhanense, natural da Pousadinha, dava cartas na Covilhã, pelo seu grande entusiasmo pela bicicleta, ganhando corridas na região, e envolvendo-se em grandes passeios de bicicleta; quais desafios, como o percorrer distâncias em cima do velocípede, da Covilhã para Itália, e da Itália para a Covilhã. Uma vez foi ovacionado, ao chegar ao Pelourinho, onde o aguardavam alguns jornalistas, entre os quais do “Correio da Manhã” .
O João Rato licenciou-se na UBI, e arranjou trabalho na Itália, onde conheceu a Cristina Mazza, bonita e simpática italiana, com quem casou. Sempre que vem a Portugal não deixa de me visitar, como recentemente aconteceu.
Entretanto, uma outra figura popular covilhanense, simples quanto amável, modesta quanto simpática, também natural da Vila do Carvalho – Fernando Costa Carvalho –, mais conhecido por Fernando Rangel, há uns anos atrás era o rei da bicicleta, na cidade, e na região, com uma força entusiasmante entre as duas rodas e um pedal, e o futebol da sua terra, que a ambos acarinhou. Desde os 5 anos que se agarrou a uma bicicleta. Era então tecelão numa das fábricas da cidade, e, ao mesmo tempo, mecânico de bicicletas na oficina de seu pai, João Rangel, em Aldeia do Carvalho.
Vivia-se também a emoção do futebol, onde singravam alguns clubes de nomeada na Covilhã, além dos Leões da Serra. Um deles, que aglutinou uma boa mão cheia de adeptos, originário do meio fabril, optou por representar as cores do Belenenses e, nele se filiou, com a designação de Clube de Foot-Ball “Os Covilhanenses”. Aí jogava João Rangel, pai do Fernando. Entretanto, era o filho que dava cartas na região, ganhando corridas, chegando a Campeão da Beira Baixa. Corria sempre individualmente.
Fernando Rangel era aventureiro e não olhava aos perigos. Chegava a andar de bicicleta em cima das grades das pontes de S. Domingos e de Mártir-In-Colo.
Mas uma das muitas curiosidades de Rangel resida no facto de se montar na sua bicicleta, às seis da manhã, a caminho do Campo das Falésias, em Lisboa, sempre que o Sporting da Covilhã (então na I Divisão), ia jogar com o Belenenses. Após o jogo, regressava à Covilhã, novamente na sua bicicleta, até anoitecer, altura em que apanhava o comboio. Eram onze horas a pedalar.
Muitos se recordam de ir dar uma voltinha de bicicleta, alugando uma ao Rangel, no Campo das Festas.
Pois, ainda hoje, com 74 anos, Fernando Rangel dá umas voltinhas, durante duas horas, aos domingos, na sua bicicleta.
Pessoas simples, talentosas, que, entretanto, vivem no anonimato, e se orgulham de ser covilhanenses.
(In “Notícias da Covilhã”, de 02/12/2005”)
4 de novembro de 2005
PEQUENOS NADAS DE GRANDES VIRTUDES
No rodopio quotidiano de muitos covilhanenses, e de outras gentes, que por cá se radicaram, mas também na tranquilidade das férias vitalícias de muitos outros, nem nos damos conta da exemplaridade por que muitos cidadãos aproveitam os valores da vida.
Nos dias que correm, de frustrações para uma mão cheia de gente, mas, paradoxalmente, de combate à crise, na intencionalidade e acção de um bom punhado de cidadãos, não conseguimos a convergência necessária para, num encontro de boas vontades, podermos sorrir num Portugal melhor.
Nos meandros em que nos envolvemos, cada um canta a sua vitória, e cada qual apregoa a derrota do adversário; os amigos tornam-se inimigos, e, depois, quando se é preciso juntar ao “inimigo”, dizem que se viram forçados a tomar um calmante.
Os sacrifícios são generalizados e cada vez mais se fazem sentir, já não sendo necessária a aproximação do Natal para nos lembrarmos dos mais desprotegidos, tal a evidência das suas carências. Os senhores do “pântano”, da “tanga”, e também o da “boa e má moeda” desbarataram oportunidades, não tiveram, ou não souberam encontrar caminhos para a reconstrução deste país. Como no futebol há os treinadores de bancada, também agora surgem vários salvadores da pátria amada.
Quase todos somos de acordo que tem que haver sacrifícios, embora alguns os atirem somente para os seus vizinhos.
Nesta vivência, também na Covilhã, onde já não há só covilhanenses, mas gentes de outras partes do globo, vamos encontrar os “teimosos” na persistência das suas actividades, tentando dar sopros fortes à já enfadonha crise.
Casa Diniz, Casa Fael, Casa Cardona, Casa Lenita, Pastelaria Lisbonense, Casa João Duarte, entre outras, são estabelecimentos de décadas na cidade, que honram a Covilhã pela sua tenacidade.
Face às indústrias de confecções que surgiram por toda a região, agora em sérias dificuldades, houve outrora uma indústria personalizada que quase foi desaparecendo, surgindo apenas dois “teimosos” na Covilhã, e é José Ascensão Mendes o costureiro mais antigo que mantém ainda a sua arte, em grande aventura para os dias de hoje.
E aqueles que se encontram na última rampa da vida? Gostosamente vemos uma pessoa, nonagenária, pouco faladora mas de um coração bom, ainda a caminhar pela cidade, indiferente a outra “crise”, esta da longevidade. É João Matias Ranito, há mais de cinco décadas a residir na Rua Vasco da Gama. Optámos por, na sua pessoa, dos mais antigos reformados covilhanenses, saudarmos todos quantos já assistiram a várias gerações e ainda conseguem sorrir.
Na Covilhã, de cinco paróquias (onde há uns bons anos atrás houve um “quinteto” de párocos saudosos, os padres José Andrade, Domingues Carreto, Morgadinho, José Batista Fernandes e José de Oliveira Pita, e depois, em S. Pedro, o padre Lacerda, todos falecidos) tem o seu pároco mais antigo, Fernando Brito dos Santos, da paróquia da Conceição, que tem sido um incansável pastor, depois de muitos anos em prol dos jovens e da classe operária, e de uma excessiva humildade.
E, para que muitos leitores da imprensa diária possam adquirir o seu jornal, é Fernando Lopes da Silva, na Tabacaria do C. C. da Estação, o mais antigo, não esquecendo também a Papelaria Neves, pela sua antiguidade.
Mas o título desta crónica repercute-se em todos aqueles que, exercendo as suas actividades profissionais, ou já nas suas reformas, conseguem dedicar-se, de alma e coração, décadas sem fim, ao serviço dos outros, em várias vertentes, ou souberam encontrar o caminho de uma mente sã, em movimento.
Algumas são pessoas anónimas que exercem trabalho profícuo, há décadas, na cidade. Outras haverá que, não sendo do nosso conhecimento, se poderiam também incluir no rol de quem merece o reconhecimento deste espírito de cidadania.
Na solidariedade, não podemos esquecer, há várias décadas, o Dr. José Luís de Brito Rocha, à frente dos destinos do Lar de S. José; e, nos BVC, o bombeiro mais antigo da Corporação, no activo, é Honorato Nogueira Berto (Chefe), a par de Adolfo Gomes Bernardino Gato (2.º Comandante).
Na cultura, Manuel Dias Henriques, homem simples mas culto e de forte personalidade, é o leitor mais antigo da Biblioteca Municipal da Covilhã, a qual frequenta há mais de 50 anos!
Maria Ivone Manteigueiro Vairinho, embora radicada em Lisboa, é a poetisa mais antiga da Covilhã que nas suas poesias não a esquece a sua Terra; mantém-se activa, e é, há já alguns anos, a Presidente da Associação de Poetas Portugueses.
Na religiosidade, João de Matos é o confrade mais antigo da Conferência de S. Vicente de Paulo (instituição mundial que na Covilhã desenvolve uma acção muito importante junto dos mais desfavorecidos), contando com a sua participação há mais de 60 anos; e Maria Odete Inácio, a catequista mais antiga da cidade, há mais de 40 anos.
Poderá haver muitos mais, e noutras vertentes, como o associativismo, mas são elementos como estes que constituem, muitas vezes, despercebidos, as pedras basilares da nossa sociedade onde nos encontramos inseridos.
(In “Notícias da Covilhã”, de 04/11/2005)
Nos dias que correm, de frustrações para uma mão cheia de gente, mas, paradoxalmente, de combate à crise, na intencionalidade e acção de um bom punhado de cidadãos, não conseguimos a convergência necessária para, num encontro de boas vontades, podermos sorrir num Portugal melhor.
Nos meandros em que nos envolvemos, cada um canta a sua vitória, e cada qual apregoa a derrota do adversário; os amigos tornam-se inimigos, e, depois, quando se é preciso juntar ao “inimigo”, dizem que se viram forçados a tomar um calmante.
Os sacrifícios são generalizados e cada vez mais se fazem sentir, já não sendo necessária a aproximação do Natal para nos lembrarmos dos mais desprotegidos, tal a evidência das suas carências. Os senhores do “pântano”, da “tanga”, e também o da “boa e má moeda” desbarataram oportunidades, não tiveram, ou não souberam encontrar caminhos para a reconstrução deste país. Como no futebol há os treinadores de bancada, também agora surgem vários salvadores da pátria amada.
Quase todos somos de acordo que tem que haver sacrifícios, embora alguns os atirem somente para os seus vizinhos.
Nesta vivência, também na Covilhã, onde já não há só covilhanenses, mas gentes de outras partes do globo, vamos encontrar os “teimosos” na persistência das suas actividades, tentando dar sopros fortes à já enfadonha crise.
Casa Diniz, Casa Fael, Casa Cardona, Casa Lenita, Pastelaria Lisbonense, Casa João Duarte, entre outras, são estabelecimentos de décadas na cidade, que honram a Covilhã pela sua tenacidade.
Face às indústrias de confecções que surgiram por toda a região, agora em sérias dificuldades, houve outrora uma indústria personalizada que quase foi desaparecendo, surgindo apenas dois “teimosos” na Covilhã, e é José Ascensão Mendes o costureiro mais antigo que mantém ainda a sua arte, em grande aventura para os dias de hoje.
E aqueles que se encontram na última rampa da vida? Gostosamente vemos uma pessoa, nonagenária, pouco faladora mas de um coração bom, ainda a caminhar pela cidade, indiferente a outra “crise”, esta da longevidade. É João Matias Ranito, há mais de cinco décadas a residir na Rua Vasco da Gama. Optámos por, na sua pessoa, dos mais antigos reformados covilhanenses, saudarmos todos quantos já assistiram a várias gerações e ainda conseguem sorrir.
Na Covilhã, de cinco paróquias (onde há uns bons anos atrás houve um “quinteto” de párocos saudosos, os padres José Andrade, Domingues Carreto, Morgadinho, José Batista Fernandes e José de Oliveira Pita, e depois, em S. Pedro, o padre Lacerda, todos falecidos) tem o seu pároco mais antigo, Fernando Brito dos Santos, da paróquia da Conceição, que tem sido um incansável pastor, depois de muitos anos em prol dos jovens e da classe operária, e de uma excessiva humildade.
E, para que muitos leitores da imprensa diária possam adquirir o seu jornal, é Fernando Lopes da Silva, na Tabacaria do C. C. da Estação, o mais antigo, não esquecendo também a Papelaria Neves, pela sua antiguidade.
Mas o título desta crónica repercute-se em todos aqueles que, exercendo as suas actividades profissionais, ou já nas suas reformas, conseguem dedicar-se, de alma e coração, décadas sem fim, ao serviço dos outros, em várias vertentes, ou souberam encontrar o caminho de uma mente sã, em movimento.
Algumas são pessoas anónimas que exercem trabalho profícuo, há décadas, na cidade. Outras haverá que, não sendo do nosso conhecimento, se poderiam também incluir no rol de quem merece o reconhecimento deste espírito de cidadania.
Na solidariedade, não podemos esquecer, há várias décadas, o Dr. José Luís de Brito Rocha, à frente dos destinos do Lar de S. José; e, nos BVC, o bombeiro mais antigo da Corporação, no activo, é Honorato Nogueira Berto (Chefe), a par de Adolfo Gomes Bernardino Gato (2.º Comandante).
Na cultura, Manuel Dias Henriques, homem simples mas culto e de forte personalidade, é o leitor mais antigo da Biblioteca Municipal da Covilhã, a qual frequenta há mais de 50 anos!
Maria Ivone Manteigueiro Vairinho, embora radicada em Lisboa, é a poetisa mais antiga da Covilhã que nas suas poesias não a esquece a sua Terra; mantém-se activa, e é, há já alguns anos, a Presidente da Associação de Poetas Portugueses.
Na religiosidade, João de Matos é o confrade mais antigo da Conferência de S. Vicente de Paulo (instituição mundial que na Covilhã desenvolve uma acção muito importante junto dos mais desfavorecidos), contando com a sua participação há mais de 60 anos; e Maria Odete Inácio, a catequista mais antiga da cidade, há mais de 40 anos.
Poderá haver muitos mais, e noutras vertentes, como o associativismo, mas são elementos como estes que constituem, muitas vezes, despercebidos, as pedras basilares da nossa sociedade onde nos encontramos inseridos.
(In “Notícias da Covilhã”, de 04/11/2005)
7 de outubro de 2005
ASSEMBLEIA DE RATOS
Naquele tempo ouvia-se dizer que havia uns gatos fedorentos que estavam a invadir o país das maravilhas, com batalhas de versão napoleónicas, onde já assentara arraiais, há alguns anos, um profeta de nomeada, que afugentava todos os ratinhos das bandas da Pérola do Oceano.
Mas no país das maravilhas já se haviam preparado para festejar o dia D (designativo de Desilusão, Descrédito) mais três fedorentos gatos, e uma gata (tipo padeira de Aljubarrota; ou Maria Pita, da Corunha), em territórios das províncias de Gondomar, Amarante, Felgueiras; e, em terras mais a sul, na província de Oeiras; todos eles capitães de nomeada, com elevados serviços prestados à nação, em prejuízo das suas frágeis economias pessoais.
No entanto, cada rato, no seu buraco, começava a ficar irrequieto.
- Também queremos o nosso queijo, pois os senhores gatos vão engordando, sem que se dê conta, ou até se faz de conta.
Juntaram-se então os ratos do campo com os ratos da cidade e combinaram fazer uma assembleia que procurasse encontrar uma solução para o tremedouro que envolvia os ratos, já aborrecidos com tanto desassossego.
E, vai daí que, em vésperas do dia D, num arrabalde das faldas dos Hermínios, se realizou a magna assembleia de ratos – os do campo com os da cidade.
O dinamizador da assembleia sobe ao palanque e esclarece das razões da mesma:
- Senhores ratos, estamos aqui a fim de encontrar uma solução para que nós, ratos da cidade e ratos do campo, possamos colocar um travão às ameaças dos senhores gatos, no poder deste território, não nos deixando comer o queijo em sossego, o nosso e o dos nossos filhos ratinhos. Vou chamar o primeiro orador.
Este, depois de melhor adaptar a si o microfone, inicia desta forma:
- Senhores ratos da cidade, vós que sofreis das insuficiências de sossego, talvez mais que nós, os ratos do campo, vamos vibrantemente aplaudir a retirada de alguns gatos do poder deste território, no dia D, e meter lá alguns dos nossos ratos, que são mais afoitos que nós, aqui reunidos nesta assembleia clandestina, motivada pelos nossos filhos se encontrarem na catedral onde estão os gatos e poderem ser expulsos pelo gato grão-mestre, se tiverem conhecimento do nosso envolvimento.
Chega o segundo orador, sobe à tribuna, ajeita a gravata e diz assim:
- Fazendo uso das palavras do meu ilustre antecessor nesta tribuna, quero deixar bem vincado nesta assembleia clandestina de que é preciso encontrar o meio e a forma para a substituição dos governantes deste território dos Hermínios, ou, pelo menos, que deixem de ficar em maioria na catedral, ficando lá alguns dos nossos irmãos ratos mais afoitos, que não nós, porque, além de termos na catedral os nossos filhos ratinhos, e as nossas mulheres ratinhas, também alguns de nós estamos nos clubes que precisam de obras para reparar alguns buracos dos nossos esconderijos, e, se sabem que nos envolvemos nesta assembleia, o gato grão-mestre retira-nos o queijo.
Segue-se o terceiro e último orador que, depois de ter subido à tribuna, pigarreou e disse assim:
- Meus senhores e irmãos ratos, estamos aqui para encontrar a solução para que o gato grão-mestre nos deixe mais sossegados, e os seus gatos correligionários possam ser substituídos por alguns dos nossos irmãos ratos. Já viram que alguns dos que aqui deviam estar presentes foram traidores e se deixaram transformar em ratos-gatos? Olhai para os outdoors! E, lá em cima, nos Hermínios, a colocação da luz nos acessos e nas casas levou alguns dos nossos irmãos ratos, clandestinos, a fazer vénias ao gato grão-mestre e a botarem no jornal o agradecimento ao mesmo, para, assim, no dia D não entrarmos nós, ratos do campo e ratos da cidade, na catedral.
- Meus senhores e irmãos, ratos do campo e ratos da cidade! Não vamos permitir mais traidores, vamos ajudar, com todas as forças, com todas as vontades, os nossos irmãos ratos mais afoitos, para que façam parte da catedral; mas nós, ratos do campo e ratos da cidade, que temos os nossos filhos ratinhos e as nossas mulheres ratinhas a trabalhar no queijo da catedral, não nos podemos mostrar. Proponho!: A fim de que não sejamos vistos e os nossos filhos ratinhos e as nossas mulheres ratinhas não fiquem sem o queijo da catedral, vamos colocar um guizo no pescoço do gato grão-mestre. Assim, quando se aproximar destas assembleias clandestinas, vamo-nos poder esconder, e, desta forma, os nossos filhos, ratinhos do campo e ratinhos da cidade, bem como as nossas mulheres, ratinhas do campo e ratinhas da cidade, poderão trabalhar na catedral e ficar sossegados; e os nossos irmãos ratos mais afoitos poderão entrar para a catedral sem serem transformados em ratos-gatos.
Todos, num vibrante aplauso, soltaram gritos de: Apoiado!, Apoiado!, Apoiado!, interrompidos quando um rato do campo, de pequena estatura, com uma tatuagem no corpo e um piercing na orelha, pede a palavra e diz: E quem é que põe o guizo no pescocinho do gato grão-mestre?
(In “Notícias da Covilhã”, de 07/10/2005)
Mas no país das maravilhas já se haviam preparado para festejar o dia D (designativo de Desilusão, Descrédito) mais três fedorentos gatos, e uma gata (tipo padeira de Aljubarrota; ou Maria Pita, da Corunha), em territórios das províncias de Gondomar, Amarante, Felgueiras; e, em terras mais a sul, na província de Oeiras; todos eles capitães de nomeada, com elevados serviços prestados à nação, em prejuízo das suas frágeis economias pessoais.
No entanto, cada rato, no seu buraco, começava a ficar irrequieto.
- Também queremos o nosso queijo, pois os senhores gatos vão engordando, sem que se dê conta, ou até se faz de conta.
Juntaram-se então os ratos do campo com os ratos da cidade e combinaram fazer uma assembleia que procurasse encontrar uma solução para o tremedouro que envolvia os ratos, já aborrecidos com tanto desassossego.
E, vai daí que, em vésperas do dia D, num arrabalde das faldas dos Hermínios, se realizou a magna assembleia de ratos – os do campo com os da cidade.
O dinamizador da assembleia sobe ao palanque e esclarece das razões da mesma:
- Senhores ratos, estamos aqui a fim de encontrar uma solução para que nós, ratos da cidade e ratos do campo, possamos colocar um travão às ameaças dos senhores gatos, no poder deste território, não nos deixando comer o queijo em sossego, o nosso e o dos nossos filhos ratinhos. Vou chamar o primeiro orador.
Este, depois de melhor adaptar a si o microfone, inicia desta forma:
- Senhores ratos da cidade, vós que sofreis das insuficiências de sossego, talvez mais que nós, os ratos do campo, vamos vibrantemente aplaudir a retirada de alguns gatos do poder deste território, no dia D, e meter lá alguns dos nossos ratos, que são mais afoitos que nós, aqui reunidos nesta assembleia clandestina, motivada pelos nossos filhos se encontrarem na catedral onde estão os gatos e poderem ser expulsos pelo gato grão-mestre, se tiverem conhecimento do nosso envolvimento.
Chega o segundo orador, sobe à tribuna, ajeita a gravata e diz assim:
- Fazendo uso das palavras do meu ilustre antecessor nesta tribuna, quero deixar bem vincado nesta assembleia clandestina de que é preciso encontrar o meio e a forma para a substituição dos governantes deste território dos Hermínios, ou, pelo menos, que deixem de ficar em maioria na catedral, ficando lá alguns dos nossos irmãos ratos mais afoitos, que não nós, porque, além de termos na catedral os nossos filhos ratinhos, e as nossas mulheres ratinhas, também alguns de nós estamos nos clubes que precisam de obras para reparar alguns buracos dos nossos esconderijos, e, se sabem que nos envolvemos nesta assembleia, o gato grão-mestre retira-nos o queijo.
Segue-se o terceiro e último orador que, depois de ter subido à tribuna, pigarreou e disse assim:
- Meus senhores e irmãos ratos, estamos aqui para encontrar a solução para que o gato grão-mestre nos deixe mais sossegados, e os seus gatos correligionários possam ser substituídos por alguns dos nossos irmãos ratos. Já viram que alguns dos que aqui deviam estar presentes foram traidores e se deixaram transformar em ratos-gatos? Olhai para os outdoors! E, lá em cima, nos Hermínios, a colocação da luz nos acessos e nas casas levou alguns dos nossos irmãos ratos, clandestinos, a fazer vénias ao gato grão-mestre e a botarem no jornal o agradecimento ao mesmo, para, assim, no dia D não entrarmos nós, ratos do campo e ratos da cidade, na catedral.
- Meus senhores e irmãos, ratos do campo e ratos da cidade! Não vamos permitir mais traidores, vamos ajudar, com todas as forças, com todas as vontades, os nossos irmãos ratos mais afoitos, para que façam parte da catedral; mas nós, ratos do campo e ratos da cidade, que temos os nossos filhos ratinhos e as nossas mulheres ratinhas a trabalhar no queijo da catedral, não nos podemos mostrar. Proponho!: A fim de que não sejamos vistos e os nossos filhos ratinhos e as nossas mulheres ratinhas não fiquem sem o queijo da catedral, vamos colocar um guizo no pescoço do gato grão-mestre. Assim, quando se aproximar destas assembleias clandestinas, vamo-nos poder esconder, e, desta forma, os nossos filhos, ratinhos do campo e ratinhos da cidade, bem como as nossas mulheres, ratinhas do campo e ratinhas da cidade, poderão trabalhar na catedral e ficar sossegados; e os nossos irmãos ratos mais afoitos poderão entrar para a catedral sem serem transformados em ratos-gatos.
Todos, num vibrante aplauso, soltaram gritos de: Apoiado!, Apoiado!, Apoiado!, interrompidos quando um rato do campo, de pequena estatura, com uma tatuagem no corpo e um piercing na orelha, pede a palavra e diz: E quem é que põe o guizo no pescocinho do gato grão-mestre?
(In “Notícias da Covilhã”, de 07/10/2005)
15 de setembro de 2005
DOIS HISTÓRICOS DO FUTEBOL PORTUGUÊS
O Sporting da Covilhã (SCC) e o Sporting Olhanense (SCO) vão encontrar-se no complexo desportivo, no próximo Domingo, 11 de Setembro, para a disputa de um jogo oficial de futebol da Liga de Honra, onde militam as duas prestigiosas colectividades.
Espera-se que este encontro seja oportunidade para a vivência de um ambiente de amizade entre as duas cores e suas gentes, numa saudável disputa desportiva.
O SCO, fundado em 17 de Abril de 1912; e o SCC, fundado em 2 de Junho de 1923; tornaram-se as 4.ª e 8.ª filiais do Sporting Clube de Portugal, respectivamente.
A história entre os dois clubes, ambos salpicados de êxitos e crises, é também possuidora de gentes de garra que conseguiram ultrapassar as vicissitudes no seio dos seus emblemas. Mais uma página de estória, no próximo domingo, vai acontecer para a história das duas colectividades.
Foi há precisamente 43 anos que o SCC e o SCO se encontraram, pela última vez, para um Campeonato Nacional (I Divisão), no “Santos Pinto”, no ano de 1962, tendo os serranos vencido os algarvios por 2-0. Recordamos as equipas:
Sporting da Covilhã: Alves Pereira; Patiño, Cavém e Lourenço; Lanzinha e Carlos Alberto; Manteigueiro, Adriano, Adventino, Chacho e Amílcar. Olhanense: António Paulo; Rui, Luciano e Nunes; Madeira e Reina; Matias, Campos, Cardoso, Mateus e Armando.
O árbitro foi o conhecido internacional, Dr. Décio de Freitas, de Lisboa.
O SCC viu-se forçado a alinhar com alguns suplentes, caso do guarda-redes, em substituição de Rita, face aos castigos impostos a alguns atletas devido ao triste caso, celebrizado nos jornais, do Leixões-SCC. A corrupção na arbitragem já existia nesses tempos, tendo sido protagonista, em prejudicar os serranos, um juiz aveirense interessado na protecção do Beira-Mar.
Muito haveria a escrever sobre estas duas colectividades, pela importância das suas histórias, ou na simples memorização dos encontros disputados, no pormenor de coincidências nas suas atitudes, feitos, factos, gentes emblemáticas, mas o espaço de um jornal tem de ser respeitado, pelo que, possuindo os dois clubes as suas vidas e obras escritas em livro, aí poderão procurar interessantes fontes de informação.
Os jogos disputados entre o SCC e o SCO, no Campeonato Nacional da Primeira Divisão (1948/49; 1949/50; 1950/51 e 1961/62) redundaram num pendor para o Olhanense.
Para a Taça de Portugal (1960/61; 1974/75 e 1995/96) também o SCO lidera, com a eliminação de duas vezes o seu rival, contra uma. O SCC, na época de 1974/75, então a militar na 3ª. Divisão, eliminou o SCO, que se encontrava na 1ª. Divisão, onde actuava o antigo guarda-redes serrano, Arnaldo. Já antes, no final da época 1963/1964, o SCC vencera o SCO para os 3.º e 4.º lugares da Taça Ribeiro dos Reis.
O Sporting Olhanense foi Campeão de Portugal em 1923-1924; e, mais tarde, também da 2.ª Liga, 2.ª e 3.ª Divisões, Finalista da Taça de Portugal e 14 vezes Campeão do Algarve.
O Sporting da Covilhã teve também o seu palmarés invejável, sobejamente conhecido: mais de uma vez campeão da 2ª. Divisão, Finalista da Taça de Portugal, honrosos lugares na I Divisão (5.º e vários 6.ºs), vencedor da Taça “O Século”.
Se o SCO teve no avançado centro “Tamanqueiro”, no seu sucessor Grazina, ou no Mestre Cassiano, ou mesmo Abraão, as suas glórias das décadas de 20 e 30; o SCC não pode esquecer todos quantos já não são da memória dos mais novos: Pedro Costa, Mestre Zé, Cesário, Reynolds; para, na década de 40, Szabo, Craveiro, Franklim, José Pedro, entre outros, já fora do mundo dos vivos, serem pedras basilares das equipas serranas.
Depois, nas décadas seguintes, foi a passagem indelével de tantos como Simonyi, Suarez, Martin, Lanzinha, Manteigueiro, como baluartes da fortaleza serrana.
Mas entre ambas as colectividades houve atletas de craveira que representaram as duas turmas: Eminêncio, Fernando Cabrita, Francisco Palmeiro, José Rita, Robério, Victor Santos, Adventino, Arnaldo, Paulino.
Foi precisamente o internacional Fernando Cabrita, aquele cuja excelência das suas qualidades de atleta e treinador mais marcaram as duas colectividades. Continua a ser cartaz noticioso, sempre que a oportunidade o permite, nas páginas do órgão oficial do SCO – o quinzenário “O Olhanense”. É superiormente dirigido por Herculano Valente, sócio de mérito da colectividade olhanense, cujo órgão completou 42 anos em 15 de Maio passado, um ano depois do Olhanense se ter deslocado à Covilhã para um Campeonato Nacional, conforme já referimos.
(In “Notícias da Covilhã” e “Jornal do Fundão”, de 9/9/2005; “Diário XXI”, de 8/9/2005; e “O Olhanense”, de 15/09/2005)
Espera-se que este encontro seja oportunidade para a vivência de um ambiente de amizade entre as duas cores e suas gentes, numa saudável disputa desportiva.
O SCO, fundado em 17 de Abril de 1912; e o SCC, fundado em 2 de Junho de 1923; tornaram-se as 4.ª e 8.ª filiais do Sporting Clube de Portugal, respectivamente.
A história entre os dois clubes, ambos salpicados de êxitos e crises, é também possuidora de gentes de garra que conseguiram ultrapassar as vicissitudes no seio dos seus emblemas. Mais uma página de estória, no próximo domingo, vai acontecer para a história das duas colectividades.
Foi há precisamente 43 anos que o SCC e o SCO se encontraram, pela última vez, para um Campeonato Nacional (I Divisão), no “Santos Pinto”, no ano de 1962, tendo os serranos vencido os algarvios por 2-0. Recordamos as equipas:
Sporting da Covilhã: Alves Pereira; Patiño, Cavém e Lourenço; Lanzinha e Carlos Alberto; Manteigueiro, Adriano, Adventino, Chacho e Amílcar. Olhanense: António Paulo; Rui, Luciano e Nunes; Madeira e Reina; Matias, Campos, Cardoso, Mateus e Armando.
O árbitro foi o conhecido internacional, Dr. Décio de Freitas, de Lisboa.
O SCC viu-se forçado a alinhar com alguns suplentes, caso do guarda-redes, em substituição de Rita, face aos castigos impostos a alguns atletas devido ao triste caso, celebrizado nos jornais, do Leixões-SCC. A corrupção na arbitragem já existia nesses tempos, tendo sido protagonista, em prejudicar os serranos, um juiz aveirense interessado na protecção do Beira-Mar.
Muito haveria a escrever sobre estas duas colectividades, pela importância das suas histórias, ou na simples memorização dos encontros disputados, no pormenor de coincidências nas suas atitudes, feitos, factos, gentes emblemáticas, mas o espaço de um jornal tem de ser respeitado, pelo que, possuindo os dois clubes as suas vidas e obras escritas em livro, aí poderão procurar interessantes fontes de informação.
Os jogos disputados entre o SCC e o SCO, no Campeonato Nacional da Primeira Divisão (1948/49; 1949/50; 1950/51 e 1961/62) redundaram num pendor para o Olhanense.
Para a Taça de Portugal (1960/61; 1974/75 e 1995/96) também o SCO lidera, com a eliminação de duas vezes o seu rival, contra uma. O SCC, na época de 1974/75, então a militar na 3ª. Divisão, eliminou o SCO, que se encontrava na 1ª. Divisão, onde actuava o antigo guarda-redes serrano, Arnaldo. Já antes, no final da época 1963/1964, o SCC vencera o SCO para os 3.º e 4.º lugares da Taça Ribeiro dos Reis.
O Sporting Olhanense foi Campeão de Portugal em 1923-1924; e, mais tarde, também da 2.ª Liga, 2.ª e 3.ª Divisões, Finalista da Taça de Portugal e 14 vezes Campeão do Algarve.
O Sporting da Covilhã teve também o seu palmarés invejável, sobejamente conhecido: mais de uma vez campeão da 2ª. Divisão, Finalista da Taça de Portugal, honrosos lugares na I Divisão (5.º e vários 6.ºs), vencedor da Taça “O Século”.
Se o SCO teve no avançado centro “Tamanqueiro”, no seu sucessor Grazina, ou no Mestre Cassiano, ou mesmo Abraão, as suas glórias das décadas de 20 e 30; o SCC não pode esquecer todos quantos já não são da memória dos mais novos: Pedro Costa, Mestre Zé, Cesário, Reynolds; para, na década de 40, Szabo, Craveiro, Franklim, José Pedro, entre outros, já fora do mundo dos vivos, serem pedras basilares das equipas serranas.
Depois, nas décadas seguintes, foi a passagem indelével de tantos como Simonyi, Suarez, Martin, Lanzinha, Manteigueiro, como baluartes da fortaleza serrana.
Mas entre ambas as colectividades houve atletas de craveira que representaram as duas turmas: Eminêncio, Fernando Cabrita, Francisco Palmeiro, José Rita, Robério, Victor Santos, Adventino, Arnaldo, Paulino.
Foi precisamente o internacional Fernando Cabrita, aquele cuja excelência das suas qualidades de atleta e treinador mais marcaram as duas colectividades. Continua a ser cartaz noticioso, sempre que a oportunidade o permite, nas páginas do órgão oficial do SCO – o quinzenário “O Olhanense”. É superiormente dirigido por Herculano Valente, sócio de mérito da colectividade olhanense, cujo órgão completou 42 anos em 15 de Maio passado, um ano depois do Olhanense se ter deslocado à Covilhã para um Campeonato Nacional, conforme já referimos.
(In “Notícias da Covilhã” e “Jornal do Fundão”, de 9/9/2005; “Diário XXI”, de 8/9/2005; e “O Olhanense”, de 15/09/2005)
2 de setembro de 2005
O POLVO
Neste período estival, como vai sendo hábito, tem sido o inferno, grassando a destruição e também algumas mortes, no Continente, face à onda infernal de incêndios.
Não se compreende tamanha catástrofe, num país reduzido no seu espaço territorial, face a outros de maior dimensão.
É necessário o grito de Ipiranga. Basta! Vamos atacar o fogo de frente, os incendiários, quem lhes sorri!
Na comunicação social, mormente na imprensa, surgem alvitres, geram-se polémicas, propõem-se acções de combate, e lá aparece um ou outro a levantar o véu da sua imaginação, mas, chegado o fim dos fogos, regressa-se ao sono dos deuses.
Este país de desempregados e de reformas antecipadas; de pobreza envergonhada em contraste com a formação de riquezas; de sinais exteriores de riqueza sem causa plausível e sem que ninguém lhes pegue; de atentados à fuga fiscal; é propiciador da manutenção dos mesmos comportamentos e no grassar de dificuldades para quem o infortúnio lhes bateu à porta.
Não há governo que resista aos tentáculos do polvo, surja ele de qualquer área partidária.
E isto tem vindo a surgir em todos os governos, com mais incidência nuns que noutros, onde o povo, confiante nas promessas eleitorais, começa a já não ir em cantigas.
Basta estar um pouco atento para podermos ver como nestes últimos governos, pantanosos de ambiente político, do qual não é alheio o governo de Sócrates, o polvo aplica bem as ventosas nos seus tentáculos.
Os políticos mais bem intencionados acabam por ser vítimas do mesmo, indefinível dos aparelhos partidários.
Chega-se ao ponto de nem o voto popular, mesmo ao propiciar maiorias absolutas, ter mais força que o polvo, onde as lideranças partidárias são, em grande parte, constituídas por gente emanadas do “aparelho”.
Os seus tentáculos permitem afastar os melhores que não aceitam trabalhar por interesses particulares, e dá guarida aos dependentes de troca de favores, onde persistem os jobs for the boys and the girls.
Assim, como é possível levar por diante qualquer reforma impopular?
O polvo estende os tentáculos e força as suas ventosas quando as dependências das benesses do Estado são de flagrante evidência, não obstante se mostrar a necessidade de levar por diante a eliminação ou redução das mesmas.
E a forma tentacular do bloqueamento da acção governativa, em dados momentos como os inerentes aos receios de castigos eleitorais, tanto pode ser branda como mais cerrada, segundo as conveniências de ocasião.
Penso que a correcção do défice não se consegue só com legislação administrativa ou medidas económicas, porquanto o grande mal também é político.
A perversidade entre chefias e o grande aparelho, sem a intervenção, no momento, com o voto, dos eleitores poderem dizer de sua justiça, é mais uma forma de levar ao desânimo dos portugueses, cuja esperança começa a ficar de um verde demasiado claro.
Valerá a pena dar exemplos? Eles são de uma clarividência nos noticiários e imprensa diária, onde o espanto já pouco se evidencia, passando à banalidade. Depois, não digam que o maior partido passará a ser a abstenção.
A justiça no nosso País tem que ser profundamente alterada, com mais celeridade que as pretensões da OTA e TGV, eliminando-se uma boa parte dos brandos costumes.
Nos tempos que correm somos um País de vergonha, à frente dos primeiros lugares no que é mau; na retaguarda daquilo em que os outros países desenvolvidos evoluem.
Vejamos, no caso dos incêndios, segundo o DN de 14 de Agosto, “só um por cento dos incendiários chega a tribunal. Nos últimos oito anos nenhum autor de fogo posto foi sujeito a prisão efectiva”.
Afinal, o que estão os militares a fazer nos quartéis, agora que não há guerras coloniais? Não poderão ajudar incondicionalmente os bombeiros e, muito antes da lamentável romaria aos fogos, exercer tarefas de prevenção?
(In “Notícias da Covilhã”, de 02/09/2005; e diário digital Kaminhos)
Não se compreende tamanha catástrofe, num país reduzido no seu espaço territorial, face a outros de maior dimensão.
É necessário o grito de Ipiranga. Basta! Vamos atacar o fogo de frente, os incendiários, quem lhes sorri!
Na comunicação social, mormente na imprensa, surgem alvitres, geram-se polémicas, propõem-se acções de combate, e lá aparece um ou outro a levantar o véu da sua imaginação, mas, chegado o fim dos fogos, regressa-se ao sono dos deuses.
Este país de desempregados e de reformas antecipadas; de pobreza envergonhada em contraste com a formação de riquezas; de sinais exteriores de riqueza sem causa plausível e sem que ninguém lhes pegue; de atentados à fuga fiscal; é propiciador da manutenção dos mesmos comportamentos e no grassar de dificuldades para quem o infortúnio lhes bateu à porta.
Não há governo que resista aos tentáculos do polvo, surja ele de qualquer área partidária.
E isto tem vindo a surgir em todos os governos, com mais incidência nuns que noutros, onde o povo, confiante nas promessas eleitorais, começa a já não ir em cantigas.
Basta estar um pouco atento para podermos ver como nestes últimos governos, pantanosos de ambiente político, do qual não é alheio o governo de Sócrates, o polvo aplica bem as ventosas nos seus tentáculos.
Os políticos mais bem intencionados acabam por ser vítimas do mesmo, indefinível dos aparelhos partidários.
Chega-se ao ponto de nem o voto popular, mesmo ao propiciar maiorias absolutas, ter mais força que o polvo, onde as lideranças partidárias são, em grande parte, constituídas por gente emanadas do “aparelho”.
Os seus tentáculos permitem afastar os melhores que não aceitam trabalhar por interesses particulares, e dá guarida aos dependentes de troca de favores, onde persistem os jobs for the boys and the girls.
Assim, como é possível levar por diante qualquer reforma impopular?
O polvo estende os tentáculos e força as suas ventosas quando as dependências das benesses do Estado são de flagrante evidência, não obstante se mostrar a necessidade de levar por diante a eliminação ou redução das mesmas.
E a forma tentacular do bloqueamento da acção governativa, em dados momentos como os inerentes aos receios de castigos eleitorais, tanto pode ser branda como mais cerrada, segundo as conveniências de ocasião.
Penso que a correcção do défice não se consegue só com legislação administrativa ou medidas económicas, porquanto o grande mal também é político.
A perversidade entre chefias e o grande aparelho, sem a intervenção, no momento, com o voto, dos eleitores poderem dizer de sua justiça, é mais uma forma de levar ao desânimo dos portugueses, cuja esperança começa a ficar de um verde demasiado claro.
Valerá a pena dar exemplos? Eles são de uma clarividência nos noticiários e imprensa diária, onde o espanto já pouco se evidencia, passando à banalidade. Depois, não digam que o maior partido passará a ser a abstenção.
A justiça no nosso País tem que ser profundamente alterada, com mais celeridade que as pretensões da OTA e TGV, eliminando-se uma boa parte dos brandos costumes.
Nos tempos que correm somos um País de vergonha, à frente dos primeiros lugares no que é mau; na retaguarda daquilo em que os outros países desenvolvidos evoluem.
Vejamos, no caso dos incêndios, segundo o DN de 14 de Agosto, “só um por cento dos incendiários chega a tribunal. Nos últimos oito anos nenhum autor de fogo posto foi sujeito a prisão efectiva”.
Afinal, o que estão os militares a fazer nos quartéis, agora que não há guerras coloniais? Não poderão ajudar incondicionalmente os bombeiros e, muito antes da lamentável romaria aos fogos, exercer tarefas de prevenção?
(In “Notícias da Covilhã”, de 02/09/2005; e diário digital Kaminhos)
29 de julho de 2005
COVILHÃ CULTURAL
De há muito que o concelho da Covilhã tem o maior número de agentes culturais do distrito de Castelo Branco.
A UBI veio dar um impulso forte à dinâmica cultural, e salvar a Covilhã, que, face à vastíssima crise laneira, passaria a integrar uma região desértica, onde apenas se verificaria a existência de alguns oásis daquela que foi a sua indústria secular. Passou então a ser a Covilhã universitária.
Estamos num país onde a literacia ainda tem índices baixos, e o interesse pela leitura é reduzido, havendo mais a apetência pelos jornais desportivos, e também na Covilhã, apesar de tudo, não existe excepção à regra.
No entanto, é com agrado que verificamos, de tempos a tempos, a chama cultural, emanante de pessoas simples, num amor à Covilhã, como Terra de origem ou de adopção, mostrando verdadeiros pergaminhos desta cidade de outrora, que já era linda, e nos veio trazer a memorização nostálgica de património que um dia deu lugar a outras construções, fruto das necessidades do desenvolvimento.
Reporto-me à exposição de programas do Teatro Covilhanense, colecção do entusiasta e amigo da Covilhã, Carlos Monteiro Ribeiro, exposição digna de ser vista na galeria da biblioteca municipal.
Reconheço que fiquei encantado com o que ali vi, sobre a história do Teatro Covilhanense, sucedâneo do Hermínios Terrasse, como lá é referido. Era o tempo do cinema mudo. Mais tarde, já com o sonoro, viriam a surgir transformações e o aparecimento do actual Teatro, mais conhecido pelo “Pina Bicho”.
Programas em exposição, diversificados no âmbito musical, comédia, comédia burlesca, romance, drama, aventura, histórico, ficção, espionagem, récitas domésticas, assim como em português, não pude deixar de recordar filmes que eu vi, na minha juventude, na década de sessenta, como “Rapazes de Táxis”, e “Sarilho de Fraldas”, o primeiro filme colorido, com Madalena Iglésias e António Calvário. E, também, na mesma década, as festas de finalistas, recordando a do meu Curso da Escola Industrial.
Mas a cidade da Covilhã esteve envolvida num grande evento cultural, no sábado, 16 de Julho, no Pólo das Engenharias da UBI, com a presença de meia centena de notáveis escritores, num Congresso Literário designado como Primeiras Jornadas de Literatura.
Uma feliz ideia de Carlos Pinto, presidente da edilidade covilhanense que, convidando o conhecido escritor da Covilhã, Manuel da Silva Ramos, para coordenar toda a acção destas Jornadas, se tornou num êxito cultural, jamais visto fora de Lisboa e Porto.
Além dum encontro de colegas escritores, foi também oportunidade para o público covilhanense, e não só, poder assistir, e participar com perguntas nas mesas redondas.
Lá estive, com imenso prazer, nas salas dos temas “Literatura e Memória”, e, depois, “O Futuro do Romance Português”.
Fernando Dacosta, Mário Ventura, Baptista-Bastos, Fernando Campos, José Freire Antunes, José Viale Moutinho, Maria de Fátima Marinho, Agustina Bessa-Luís, Mário Claúdio, Catherine Dumas e Pedro Mexia, foram escritores que o público gostou de ouvir, do qual surgiram algumas interpelações.
Foi um acontecimento na vida citadina de primordial importância, projectando culturalmente a Covilhã, como haveria de dizer Manuel da Silva Ramos.
Na apreciação crítica a alguns jovens escritores seria lançada uma polémica que viria a ser dissipada na continuação dos trabalhos, e, na mesa que haveria de despertar maior interesse – Literatura e Memória – muito do que ali se falou veio direccionar-se para a responsabilidade ética do escritor, da Literatura no jornalismo, onde, segundo se afirmou, as redacções estão a ficar sem memória.
Na voz vibrante de Baptista-Bastos soou a convicção duma “amnésia programada” e dos despedimentos nos jornais nos tempos áureos do cavaquismo; com Fernando Dacosta a dizer que o “jornalismo morreu, hoje existe uma coisa chamada comunicação social cujo objectivo é, apenas, ganhar dinheiro”.
Muito haveria a dizer destas Jornadas de Literatura, que não cabem numa simples crónica, pela grandeza dos debates com excelentes escritores, jamais vistas na Covilhã, e até na província, pelo que deixaram já rastos de alguma saudade mas também a esperança para que se venham a repetir no próximo ano.
Posso mesmo referir que, para assemelhar um evento de tal natureza como este que se verificou, é necessário recuar no tempo mais de sete décadas para encontrar um espaço com um acervo cultural importante como foi o III Congresso Nacional de Bombeiros, realizado na Covilhã, em Julho de 1932, época em que não se vivia o flagelo dos fogos florestais.
Por último, uma palavra pela omissão de alguns escritores da Covilhã que ficaram de fora, que considero de certo modo com alguma injustiça, e cuja situação deveria ser revista no futuro. A Associação Portuguesa de Poetas, presidida pela covilhanense Maria Ivone Vairinho, é um dos exemplos.
Como nem tudo se pode fazer de uma vez só, fica a satisfação de que a Covilhã cultural ficou feliz pela inédita iniciativa destas jornadas na cidade.
(In “Notícias da Covilhã”, de 29/07/2005)
A UBI veio dar um impulso forte à dinâmica cultural, e salvar a Covilhã, que, face à vastíssima crise laneira, passaria a integrar uma região desértica, onde apenas se verificaria a existência de alguns oásis daquela que foi a sua indústria secular. Passou então a ser a Covilhã universitária.
Estamos num país onde a literacia ainda tem índices baixos, e o interesse pela leitura é reduzido, havendo mais a apetência pelos jornais desportivos, e também na Covilhã, apesar de tudo, não existe excepção à regra.
No entanto, é com agrado que verificamos, de tempos a tempos, a chama cultural, emanante de pessoas simples, num amor à Covilhã, como Terra de origem ou de adopção, mostrando verdadeiros pergaminhos desta cidade de outrora, que já era linda, e nos veio trazer a memorização nostálgica de património que um dia deu lugar a outras construções, fruto das necessidades do desenvolvimento.
Reporto-me à exposição de programas do Teatro Covilhanense, colecção do entusiasta e amigo da Covilhã, Carlos Monteiro Ribeiro, exposição digna de ser vista na galeria da biblioteca municipal.
Reconheço que fiquei encantado com o que ali vi, sobre a história do Teatro Covilhanense, sucedâneo do Hermínios Terrasse, como lá é referido. Era o tempo do cinema mudo. Mais tarde, já com o sonoro, viriam a surgir transformações e o aparecimento do actual Teatro, mais conhecido pelo “Pina Bicho”.
Programas em exposição, diversificados no âmbito musical, comédia, comédia burlesca, romance, drama, aventura, histórico, ficção, espionagem, récitas domésticas, assim como em português, não pude deixar de recordar filmes que eu vi, na minha juventude, na década de sessenta, como “Rapazes de Táxis”, e “Sarilho de Fraldas”, o primeiro filme colorido, com Madalena Iglésias e António Calvário. E, também, na mesma década, as festas de finalistas, recordando a do meu Curso da Escola Industrial.
Mas a cidade da Covilhã esteve envolvida num grande evento cultural, no sábado, 16 de Julho, no Pólo das Engenharias da UBI, com a presença de meia centena de notáveis escritores, num Congresso Literário designado como Primeiras Jornadas de Literatura.
Uma feliz ideia de Carlos Pinto, presidente da edilidade covilhanense que, convidando o conhecido escritor da Covilhã, Manuel da Silva Ramos, para coordenar toda a acção destas Jornadas, se tornou num êxito cultural, jamais visto fora de Lisboa e Porto.
Além dum encontro de colegas escritores, foi também oportunidade para o público covilhanense, e não só, poder assistir, e participar com perguntas nas mesas redondas.
Lá estive, com imenso prazer, nas salas dos temas “Literatura e Memória”, e, depois, “O Futuro do Romance Português”.
Fernando Dacosta, Mário Ventura, Baptista-Bastos, Fernando Campos, José Freire Antunes, José Viale Moutinho, Maria de Fátima Marinho, Agustina Bessa-Luís, Mário Claúdio, Catherine Dumas e Pedro Mexia, foram escritores que o público gostou de ouvir, do qual surgiram algumas interpelações.
Foi um acontecimento na vida citadina de primordial importância, projectando culturalmente a Covilhã, como haveria de dizer Manuel da Silva Ramos.
Na apreciação crítica a alguns jovens escritores seria lançada uma polémica que viria a ser dissipada na continuação dos trabalhos, e, na mesa que haveria de despertar maior interesse – Literatura e Memória – muito do que ali se falou veio direccionar-se para a responsabilidade ética do escritor, da Literatura no jornalismo, onde, segundo se afirmou, as redacções estão a ficar sem memória.
Na voz vibrante de Baptista-Bastos soou a convicção duma “amnésia programada” e dos despedimentos nos jornais nos tempos áureos do cavaquismo; com Fernando Dacosta a dizer que o “jornalismo morreu, hoje existe uma coisa chamada comunicação social cujo objectivo é, apenas, ganhar dinheiro”.
Muito haveria a dizer destas Jornadas de Literatura, que não cabem numa simples crónica, pela grandeza dos debates com excelentes escritores, jamais vistas na Covilhã, e até na província, pelo que deixaram já rastos de alguma saudade mas também a esperança para que se venham a repetir no próximo ano.
Posso mesmo referir que, para assemelhar um evento de tal natureza como este que se verificou, é necessário recuar no tempo mais de sete décadas para encontrar um espaço com um acervo cultural importante como foi o III Congresso Nacional de Bombeiros, realizado na Covilhã, em Julho de 1932, época em que não se vivia o flagelo dos fogos florestais.
Por último, uma palavra pela omissão de alguns escritores da Covilhã que ficaram de fora, que considero de certo modo com alguma injustiça, e cuja situação deveria ser revista no futuro. A Associação Portuguesa de Poetas, presidida pela covilhanense Maria Ivone Vairinho, é um dos exemplos.
Como nem tudo se pode fazer de uma vez só, fica a satisfação de que a Covilhã cultural ficou feliz pela inédita iniciativa destas jornadas na cidade.
(In “Notícias da Covilhã”, de 29/07/2005)
1 de julho de 2005
A VÍRGULA E O SARGENTO PAULUS
Ele era solteirão; eu, casado de fresco. Ele metera o “chico”; eu era miliciano. Ambos trabalhávamos na mesma repartição, parte da secretaria do extinto Regimento de Infantaria nº. 12, na Guarda. O sargento Paulos era de Panóias, concelho da Guarda; eu fazia parte do grupo de quatro furriéis milicianos que, todos os dias, vínhamos para a Covilhã, no Fiat 600 do Bicho Nogueira. Os outros eram o Eduardo Prata e o Rato, do Teixoso.
O sargento Paulos era deficiente das FA e partilhava comigo o quarto que a unidade militar tinha, para a classe, na Rua Afonso V, quarto que utilizava quando não podia vir à Covilhã.
Éramos amigos e tínhamos um gosto comum – redigir bem e executar atempadamente as tarefas que nos eram confiadas, não gostando de demoras nas respostas.
Certo dia, o sargento Paulos redigira um ofício que necessitava da assinatura urgente do comandante, para ainda seguir, nesse dia, já em cima da hora, para outra unidade militar. Qual não foi o seu espanto, algo de revolta, quando o mesmo lhe é devolvido, pelo comandante, a fim de colocar uma vírgula, em determinada frase do mesmo ofício.
É aí que Paulos não pára de mostrar a sua insatisfação, a coxear de um lado para o outro, na sua prótese, dizendo, com alguma ironia: “se calhar foi por faltar uma vírgula que eu fiquei sem a perna. Certamente foi por ofício que requisitaram o helicóptero para me evacuarem da Guiné, voltou para trás porque faltava uma vírgula, e com a demora fiquei sem a perna!”
Vem esta nota preambular para referir um tema actual, e servir de feedback a propósito das reivindicações dos professores que provocaram greves em plenos exames.
Todos já sabemos que, não obstante direitos adquiridos, este estado de coisas em que o país vive banhado não pode continuar a manter-se. “A cidadania não é só direitos adquiridos e benesses garantidas eternamente, sem relação com a produtividade, o crescimento, a competitividade, a qualidade daquilo que se faz e se produz” (Miguel Sousa Tavares, in Público de 24/06/05).
Sabemos que o Estado português vive, há longo tempo, gastando mais do que tem e gerando o endividamento para as gerações futuras.
Diz-se mesmo que os professores trabalham poucas horas em comparação com os seus colegas europeus, e ganham proporcionalmente mais, reformando-se mais cedo.
Sabe-se que a Educação consome recursos desproporcionados e com resultados muito medíocres.
Um em cada três alunos chumba ao chegar ao ensino secundário.
Há bons professores, mas também há outros que...valha-nos Santo António!
Nestas colunas tenho feito evidenciar a excelência de quantos mestres do ensino me marcaram e deixaram rastos indeléveis da sua acção na vida desta cidade, numa eterna saudade.
Ao verificarmos o reiniciar, após três décadas, das provas nacionais do 9.º ano para acabar a escolaridade obrigatória, que, a meu ver, jamais deveriam ter terminado, vem-me a memorização da década de cinquenta em que se faziam os exames das antigas 3.ª e 4.ª classes; e quem quisesse singrar para o ensino secundário ainda tinha que fazer o chamado exame de admissão, com professores do secundário a efectuar exames aos que terminavam o ensino primário, a antiga 4.ª classe.
Era uma época de frenesim, sem reivindicações, pois vivia-se em ditadura, com exames da primária nas antigas instalações da Escola Central, para onde se deslocavam os alunos de todas as freguesias do concelho.
Ainda recordo todos os professores que me fizeram os exames, como recordo o nascer do penúltimo pavilhão da Escola Industrial, assim como a destruição das Quintas da D. Nazaré Carrola e D. Glória, para aí se erguerem as instalações do então novo Liceu.
Do tempo das reguadas da escola primária (e reguadas no rabo, como as do professor Raul, no Asilo), atitudes que condeno e nunca deveriam ter existido, à benevolência e alguma má educação dos dias de hoje, vai uma diferença muito grande, com uma conduta que é preciso procurar nas bases do verdadeiro ensino, para que não se verifique que quase um em cada três portugueses venha a sofrer, como actualmente se verifica, de insónia moderada a severa.
E, para terminar, registo o grande encontro de saudade, num grande convívio que se realizou entre antigos alunos e professores da Escola Industrial e Comercial Campos Melo, no passado sábado, nas Penhas da Saúde, onde os bons ensinamentos de outrora também foi tema no diálogo de alguns antigos colegas.
Numa troca de olhares, pensativos, procurando memorizar os nomes esvaídos de alguma amnésia, o reencontro de um antigo colega de há quarenta anos – um forte abraço do José Manuel Espinho!
(In “Notícias da Covilhã”, de 01/07/2005)
O sargento Paulos era deficiente das FA e partilhava comigo o quarto que a unidade militar tinha, para a classe, na Rua Afonso V, quarto que utilizava quando não podia vir à Covilhã.
Éramos amigos e tínhamos um gosto comum – redigir bem e executar atempadamente as tarefas que nos eram confiadas, não gostando de demoras nas respostas.
Certo dia, o sargento Paulos redigira um ofício que necessitava da assinatura urgente do comandante, para ainda seguir, nesse dia, já em cima da hora, para outra unidade militar. Qual não foi o seu espanto, algo de revolta, quando o mesmo lhe é devolvido, pelo comandante, a fim de colocar uma vírgula, em determinada frase do mesmo ofício.
É aí que Paulos não pára de mostrar a sua insatisfação, a coxear de um lado para o outro, na sua prótese, dizendo, com alguma ironia: “se calhar foi por faltar uma vírgula que eu fiquei sem a perna. Certamente foi por ofício que requisitaram o helicóptero para me evacuarem da Guiné, voltou para trás porque faltava uma vírgula, e com a demora fiquei sem a perna!”
Vem esta nota preambular para referir um tema actual, e servir de feedback a propósito das reivindicações dos professores que provocaram greves em plenos exames.
Todos já sabemos que, não obstante direitos adquiridos, este estado de coisas em que o país vive banhado não pode continuar a manter-se. “A cidadania não é só direitos adquiridos e benesses garantidas eternamente, sem relação com a produtividade, o crescimento, a competitividade, a qualidade daquilo que se faz e se produz” (Miguel Sousa Tavares, in Público de 24/06/05).
Sabemos que o Estado português vive, há longo tempo, gastando mais do que tem e gerando o endividamento para as gerações futuras.
Diz-se mesmo que os professores trabalham poucas horas em comparação com os seus colegas europeus, e ganham proporcionalmente mais, reformando-se mais cedo.
Sabe-se que a Educação consome recursos desproporcionados e com resultados muito medíocres.
Um em cada três alunos chumba ao chegar ao ensino secundário.
Há bons professores, mas também há outros que...valha-nos Santo António!
Nestas colunas tenho feito evidenciar a excelência de quantos mestres do ensino me marcaram e deixaram rastos indeléveis da sua acção na vida desta cidade, numa eterna saudade.
Ao verificarmos o reiniciar, após três décadas, das provas nacionais do 9.º ano para acabar a escolaridade obrigatória, que, a meu ver, jamais deveriam ter terminado, vem-me a memorização da década de cinquenta em que se faziam os exames das antigas 3.ª e 4.ª classes; e quem quisesse singrar para o ensino secundário ainda tinha que fazer o chamado exame de admissão, com professores do secundário a efectuar exames aos que terminavam o ensino primário, a antiga 4.ª classe.
Era uma época de frenesim, sem reivindicações, pois vivia-se em ditadura, com exames da primária nas antigas instalações da Escola Central, para onde se deslocavam os alunos de todas as freguesias do concelho.
Ainda recordo todos os professores que me fizeram os exames, como recordo o nascer do penúltimo pavilhão da Escola Industrial, assim como a destruição das Quintas da D. Nazaré Carrola e D. Glória, para aí se erguerem as instalações do então novo Liceu.
Do tempo das reguadas da escola primária (e reguadas no rabo, como as do professor Raul, no Asilo), atitudes que condeno e nunca deveriam ter existido, à benevolência e alguma má educação dos dias de hoje, vai uma diferença muito grande, com uma conduta que é preciso procurar nas bases do verdadeiro ensino, para que não se verifique que quase um em cada três portugueses venha a sofrer, como actualmente se verifica, de insónia moderada a severa.
E, para terminar, registo o grande encontro de saudade, num grande convívio que se realizou entre antigos alunos e professores da Escola Industrial e Comercial Campos Melo, no passado sábado, nas Penhas da Saúde, onde os bons ensinamentos de outrora também foi tema no diálogo de alguns antigos colegas.
Numa troca de olhares, pensativos, procurando memorizar os nomes esvaídos de alguma amnésia, o reencontro de um antigo colega de há quarenta anos – um forte abraço do José Manuel Espinho!
(In “Notícias da Covilhã”, de 01/07/2005)
10 de junho de 2005
VIAGEM PELO TEMPO
Já lá vai o tempo em que me considerava um “cidadão de terceira”, naqueles longínquos anos dos princípios da década de sessenta, então iniciando uma carreira no funcionalismo público, o tal emprego de futuro, aquele que poderia ser vitalício, o que não era de perder. Exigiam-se habilitações mínimas do antigo quinto ano liceal, ou equivalente (a universidade era só para os ricos, e a mais perto era em Coimbra), e, para se ganharem mais uns 200 ou 300 paus (muito bom para a época) era necessário concorrer, sair a classificação no Diário do Governo (como então se designava), e competir com outros, muitas vezes com ultrapassagens pela direita...Paradoxalmente, as empresas da região respiravam de prosperidade, com a indústria laneira como rainha, onde muitos dos seus quadros administrativos, alguns de habilitações literárias reduzidas à antiga 4ª. Classe, absorviam pessoal nos seus escritórios ou armazéns, com salários que dobravam os dos funcionários públicos.
O contraste entre quem não tinha direito a qualquer pinga de assistência médica (ela não existia no funcionalismo público, e só mais tarde surgiu a ADSE), a reforma era só aos 70 anos, embora a 100%, traduzia-se numa abissal diferença “com os cidadãos de primeira” que residiam no sector privado, onde tinham direito a previdência, no Posto Médico; reforma aos 65 anos, sobre 80% da média de salários; existindo ainda, neste sector, os “cidadãos de segunda” – o operariado que vivia com sacrificados salários, mas tinha direito a assistência médica.
Os funcionários públicos, se quisessem ir a um médico, tinham que pagar uma consulta do seu bolso, muitas vezes ficando com as receitas nas suas algibeiras rotas, ou então endividando-se; outras vezes era a bondade de médicos que conheciam esses problemas e não levavam nada pelas consultas, como o Dr. Baltazar; outros só o faziam quando perguntavam qual era a sua profissão.
Nestes tempos, de brandos costumes, carregados de ditadura, era plenamente justificável a incidência da reforma a 100% para os funcionários públicos.
Com o decorrer dos anos e após a Revolução do 25 de Abril, as muitas reivindicações do funcionalismo público vieram provocar a troca de papéis, agora já todos beneficiando de assistência médica e medicamentosa, continuando com regalias de 100% de reforma sobre o último salário auferido, e outras mais, passado a “cidadãos de primeira”, retirando para segundo plano o sector privado, que passou a manter-se na cepa torta, agora atirados para “cidadãos de segunda”.
Esta guerra-fria jamais encontrara timoneiro do governo com coragem para enfrentar, de vez, a resolução dum problema, a todos os títulos moral.
Coube ao actual Primeiro-Ministro esta tarefa arrojada, difícil e melindrosa, na perspectiva de dividir os sacrifícios por todos os cidadãos, deixando assim de haver filhos de Deus e filhos do diabo.
Só empurrados por um negro défice se conseguem chegar a reformas na administração pública deste jaez, as quais, mesmo assim, deixam Portugal continuar a crescer pouco e a afastar-se da Europa, embora a União Europeia se encontre à beira da desorientação total. Portugal é o país mais pobre da Zona Euro.
No entanto, continua e continuará a haver anuências e discordâncias às decisões de Sócrates. E o mesmo será preso por ter cão e preso por o não ter. Se o Primeiro-Ministro não tomasse medidas deste tipo seria apelidado de irresponsável; mas ao tomá-las, é considerado não cumpridor de promessas.
Da maneira como se encontra o País é que este não pode continuar, dificultado com uma Europa sem europeus, ou, pelo menos parte decisiva deles.
Com a China a entrar, directa ou indirectamente, nas nossas casas, nos nossos locais de trabalho, para onde vai esta Europa e este Portugal? A China é, presentemente, a explicação de todos os nossos males e muito principalmente dos da indústria têxtil, mas muitos sabem perfeitamente que o mundo não muda a correr e, assim, a competitividade foi uma palavra mal vista.
Enquanto redijo este texto, levantei o rato do computador e, na base, verifico na etiqueta “made in China”.
Quando é que um dia podemos ver a mais pequenina peça com a etiqueta a identificar “made in Portugal”?
Choramos agora sobre o leite derramado, o mau aproveitamento, e a engorda de muitos, com a má aplicação dos fundos europeus, com grande culpa dos vários governos, do PSD e do PS, todos quantos nos governaram, onde imperou uma autêntica falta de fiscalização.
Só se houve falar do défice e mais défice, continuando a surgir surpresas desagradáveis com as reformas de luxo de quem deveria dar o exemplo, e outras condutas deploráveis, pelo que é bem verdade o ditado de que “Bem prega Frei Tomás, olhai para que o ele diz mas não para o que ele faz”!
(In “Notícias da Covilhã”, de 10/06/2005; e gazeta digital Kaminhos)
O contraste entre quem não tinha direito a qualquer pinga de assistência médica (ela não existia no funcionalismo público, e só mais tarde surgiu a ADSE), a reforma era só aos 70 anos, embora a 100%, traduzia-se numa abissal diferença “com os cidadãos de primeira” que residiam no sector privado, onde tinham direito a previdência, no Posto Médico; reforma aos 65 anos, sobre 80% da média de salários; existindo ainda, neste sector, os “cidadãos de segunda” – o operariado que vivia com sacrificados salários, mas tinha direito a assistência médica.
Os funcionários públicos, se quisessem ir a um médico, tinham que pagar uma consulta do seu bolso, muitas vezes ficando com as receitas nas suas algibeiras rotas, ou então endividando-se; outras vezes era a bondade de médicos que conheciam esses problemas e não levavam nada pelas consultas, como o Dr. Baltazar; outros só o faziam quando perguntavam qual era a sua profissão.
Nestes tempos, de brandos costumes, carregados de ditadura, era plenamente justificável a incidência da reforma a 100% para os funcionários públicos.
Com o decorrer dos anos e após a Revolução do 25 de Abril, as muitas reivindicações do funcionalismo público vieram provocar a troca de papéis, agora já todos beneficiando de assistência médica e medicamentosa, continuando com regalias de 100% de reforma sobre o último salário auferido, e outras mais, passado a “cidadãos de primeira”, retirando para segundo plano o sector privado, que passou a manter-se na cepa torta, agora atirados para “cidadãos de segunda”.
Esta guerra-fria jamais encontrara timoneiro do governo com coragem para enfrentar, de vez, a resolução dum problema, a todos os títulos moral.
Coube ao actual Primeiro-Ministro esta tarefa arrojada, difícil e melindrosa, na perspectiva de dividir os sacrifícios por todos os cidadãos, deixando assim de haver filhos de Deus e filhos do diabo.
Só empurrados por um negro défice se conseguem chegar a reformas na administração pública deste jaez, as quais, mesmo assim, deixam Portugal continuar a crescer pouco e a afastar-se da Europa, embora a União Europeia se encontre à beira da desorientação total. Portugal é o país mais pobre da Zona Euro.
No entanto, continua e continuará a haver anuências e discordâncias às decisões de Sócrates. E o mesmo será preso por ter cão e preso por o não ter. Se o Primeiro-Ministro não tomasse medidas deste tipo seria apelidado de irresponsável; mas ao tomá-las, é considerado não cumpridor de promessas.
Da maneira como se encontra o País é que este não pode continuar, dificultado com uma Europa sem europeus, ou, pelo menos parte decisiva deles.
Com a China a entrar, directa ou indirectamente, nas nossas casas, nos nossos locais de trabalho, para onde vai esta Europa e este Portugal? A China é, presentemente, a explicação de todos os nossos males e muito principalmente dos da indústria têxtil, mas muitos sabem perfeitamente que o mundo não muda a correr e, assim, a competitividade foi uma palavra mal vista.
Enquanto redijo este texto, levantei o rato do computador e, na base, verifico na etiqueta “made in China”.
Quando é que um dia podemos ver a mais pequenina peça com a etiqueta a identificar “made in Portugal”?
Choramos agora sobre o leite derramado, o mau aproveitamento, e a engorda de muitos, com a má aplicação dos fundos europeus, com grande culpa dos vários governos, do PSD e do PS, todos quantos nos governaram, onde imperou uma autêntica falta de fiscalização.
Só se houve falar do défice e mais défice, continuando a surgir surpresas desagradáveis com as reformas de luxo de quem deveria dar o exemplo, e outras condutas deploráveis, pelo que é bem verdade o ditado de que “Bem prega Frei Tomás, olhai para que o ele diz mas não para o que ele faz”!
(In “Notícias da Covilhã”, de 10/06/2005; e gazeta digital Kaminhos)
1 de junho de 2005
OS 82 ANOS DO SPORTING DA COVILHÃ
Tudo se encaminha para que o clube do coração da maioria dos covilhanenses comemore o seu aniversário com a subida à II Liga, lugar onde minimamente se deve situar.
É o clube mais representativo da região desde que, há mais de oito décadas, algumas figuras da colectividade de maior poder económico, ligadas ao meio industrial – o Estrela Futebol Clube – aceitou o convite de dirigentes do SCP, que vivia uma euforia de criação de filiais, para se fundir com a denominação de Sporting Clube da Covilhã.
Havia outras colectividades, mais de cariz operário, como o Montes Hermínios e o Clube de Futebol “Os Covilhanenses” que optaram pelas cores do Belenenses.
A partir de 1935, as Direcções de então resolveram deixar as formas rudimentares como se jogava a bola, abrir os cordões à bolsa e contratar o primeiro treinador (Pedro Costa), que acumulava como jogador.
O clube serrano, sempre campeão da Província da Beira Baixa, entra na II Divisão Nacional, e, na época de 1937/38, dá o primeiro sinal de que queria outros voos – a então I Divisão Nacional – o que só não conseguiu, por um triz, na final com o Carcavelinhos Futebol Clube, em Santarém.
Viria a concretizar-se a sua entrada na divisão maior do futebol português, na época de 1947/48, com o delírio das gentes covilhanenses e de toda a região beirã.
De seguida, a conquista da Taça “O Século”, e a final da Taça de Portugal, em 2 de Junho de 1957, em data de aniversário; época em que descia de divisão, quando, na época anterior, havia atingido a maior classificação de sempre – 5.º lugar.
Depois, nova subida de divisão, por quatro épocas, para, de seguida, um longo interregno entre as II e III divisões; e só na década de 80 do século passado teve duas efémeras passagens pela I Divisão.
Com estes eventos, e na longevidade de um clube histórico do futebol português, é pena que não esteja tão presente a vertente cultural, pois há muitas formas de a inserir; para que os sócios e as gentes covilhanenses usufruam também de um pouco mais que os jogos, compreendendo-se perfeitamente que as preocupações prementes vão, quase sempre, para a resolução das dívidas e dos problemas do dia a dia.
Os sócios são a pedra basilar da catedral leonina, e parece que vão receber diplomas de 25 e 50 anos, o que se apraz registar.
Mas também é preciso não esquecer figuras dirigentes de outros tempos, longos anos no dirigismo leonino, longos anos a sacrificar a sua família em prol do clube, muitos já afastados do mundo do futebol, face às contingências da vida.
Há que esquecer conflitos e algumas divergências; dar as mãos em prol do clube de todos nós.
No futebol, os que hoje são ovacionados e levados em ombros, amanhã podem ser vexados e acusados de isto ou daquilo; mas é necessário ter presente que, muito ou pouco, todos tiveram quota-parte no engrandecimento do maior clube da região.
Muitos clubes, felizmente, têm as suas bandeiras e os seus símbolos – aquelas figuras marcantes na vida desportiva da colectividade.
Temos visto no nosso Clube de sempre, o reconhecimento em duas figuras símbolo dos Leões da Serra – João Lanzinha e Francisco Manteigueiro.
No entanto, penso, que outros símbolos que vivem na Covilhã, há muitos anos, foram votados ao ostracismo, e eles foram marcantes nas épocas florescentes do SCC, como na melhor classificação de sempre, em 1955/56, e na final da Taça de Portugal, em 1957, entre outras. Refiro-me ao Jorge Nicolau e Fernando Pires; e mesmo Fernando Cabrita.
Dos participantes na final da Taça de Portugal, já faleceram: Rita, Martin e Carlos Ferreira.
Nas festividades, interessante seria, e justo, o reconhecimento, em forma de alternância (por haver muitas figuras a merecerem o destaque), de antigos atletas e dirigentes.
No entanto, muitos dos que deram o seu melhor, muitos anos, ao seu único clube de sempre, e que, se tivessem seguido para outros clubes, certamente teriam sucesso, como se evidenciaram na Covilhã; não me recordo de terem sido objecto de homenagem.
Menciono apenas um nome, entre outros – António José Fernandes FAZENDA.
O Sporting da Covilhã estará em festa e todos os obreiros que contribuíram para a mesma merecem lhes sejam endereçados os parabéns.
(In “Notícias da Covilhã”, de 20/05/2005; e “Gazeta do Interior”, de 01/06/2005)
É o clube mais representativo da região desde que, há mais de oito décadas, algumas figuras da colectividade de maior poder económico, ligadas ao meio industrial – o Estrela Futebol Clube – aceitou o convite de dirigentes do SCP, que vivia uma euforia de criação de filiais, para se fundir com a denominação de Sporting Clube da Covilhã.
Havia outras colectividades, mais de cariz operário, como o Montes Hermínios e o Clube de Futebol “Os Covilhanenses” que optaram pelas cores do Belenenses.
A partir de 1935, as Direcções de então resolveram deixar as formas rudimentares como se jogava a bola, abrir os cordões à bolsa e contratar o primeiro treinador (Pedro Costa), que acumulava como jogador.
O clube serrano, sempre campeão da Província da Beira Baixa, entra na II Divisão Nacional, e, na época de 1937/38, dá o primeiro sinal de que queria outros voos – a então I Divisão Nacional – o que só não conseguiu, por um triz, na final com o Carcavelinhos Futebol Clube, em Santarém.
Viria a concretizar-se a sua entrada na divisão maior do futebol português, na época de 1947/48, com o delírio das gentes covilhanenses e de toda a região beirã.
De seguida, a conquista da Taça “O Século”, e a final da Taça de Portugal, em 2 de Junho de 1957, em data de aniversário; época em que descia de divisão, quando, na época anterior, havia atingido a maior classificação de sempre – 5.º lugar.
Depois, nova subida de divisão, por quatro épocas, para, de seguida, um longo interregno entre as II e III divisões; e só na década de 80 do século passado teve duas efémeras passagens pela I Divisão.
Com estes eventos, e na longevidade de um clube histórico do futebol português, é pena que não esteja tão presente a vertente cultural, pois há muitas formas de a inserir; para que os sócios e as gentes covilhanenses usufruam também de um pouco mais que os jogos, compreendendo-se perfeitamente que as preocupações prementes vão, quase sempre, para a resolução das dívidas e dos problemas do dia a dia.
Os sócios são a pedra basilar da catedral leonina, e parece que vão receber diplomas de 25 e 50 anos, o que se apraz registar.
Mas também é preciso não esquecer figuras dirigentes de outros tempos, longos anos no dirigismo leonino, longos anos a sacrificar a sua família em prol do clube, muitos já afastados do mundo do futebol, face às contingências da vida.
Há que esquecer conflitos e algumas divergências; dar as mãos em prol do clube de todos nós.
No futebol, os que hoje são ovacionados e levados em ombros, amanhã podem ser vexados e acusados de isto ou daquilo; mas é necessário ter presente que, muito ou pouco, todos tiveram quota-parte no engrandecimento do maior clube da região.
Muitos clubes, felizmente, têm as suas bandeiras e os seus símbolos – aquelas figuras marcantes na vida desportiva da colectividade.
Temos visto no nosso Clube de sempre, o reconhecimento em duas figuras símbolo dos Leões da Serra – João Lanzinha e Francisco Manteigueiro.
No entanto, penso, que outros símbolos que vivem na Covilhã, há muitos anos, foram votados ao ostracismo, e eles foram marcantes nas épocas florescentes do SCC, como na melhor classificação de sempre, em 1955/56, e na final da Taça de Portugal, em 1957, entre outras. Refiro-me ao Jorge Nicolau e Fernando Pires; e mesmo Fernando Cabrita.
Dos participantes na final da Taça de Portugal, já faleceram: Rita, Martin e Carlos Ferreira.
Nas festividades, interessante seria, e justo, o reconhecimento, em forma de alternância (por haver muitas figuras a merecerem o destaque), de antigos atletas e dirigentes.
No entanto, muitos dos que deram o seu melhor, muitos anos, ao seu único clube de sempre, e que, se tivessem seguido para outros clubes, certamente teriam sucesso, como se evidenciaram na Covilhã; não me recordo de terem sido objecto de homenagem.
Menciono apenas um nome, entre outros – António José Fernandes FAZENDA.
O Sporting da Covilhã estará em festa e todos os obreiros que contribuíram para a mesma merecem lhes sejam endereçados os parabéns.
(In “Notícias da Covilhã”, de 20/05/2005; e “Gazeta do Interior”, de 01/06/2005)
13 de maio de 2005
AS VERTENTES DA POBREZA
Segundo um estudo que, há dois meses, veio a lume no Público, actualmente em Portugal há mais pessoas a passar fome.
No espaço de um ano a situação piorou, sabendo-se que em 2004 já se apontava para 200 mil pessoas com fome.
A erradicação da pobreza é preocupação secular da Igreja, do Estado, dos altruístas, mas o certo é que ainda ninguém conseguiu resolver este grave problema.
O caso atemorizador de se verem crianças, nalguns pontos do País, a entrarem nas escolas, após o fim-de-semana, esfomeadas, é uma situação gritante. A mendicidade infantil continua a aumentar em Portugal.
Existe agora a “nova pobreza”, a acrescentar aos anteriores casos de indigência. Basta por vezes que um dos membros do agregado fique sem emprego, com as rendas de casa altas, para precisarem de ajuda. Por outro lado, existem, muitas vezes, os casos de um dos membros da família ser toxicodependente ou alcoólico.
A pobreza envergonhada, a fome real, a crueza das histórias que se repetem e até se desenvolvem, é demasiado superior à crise que tem tocado a cada um de nós. A protecção social, para muitos idosos, começou mais tarde; muitos nunca descontaram para a Segurança Social porque no seu tempo não se descontava.
Por mais subsídios que se paguem, existe uma fronteira de pouca consistência entre uma vida descansada e o cair numa situação de insolvência.
A muita gente falta-lhe a auto-estima e a motivação para enfrentar uma nova vida, fruto do desemprego em idade já incompatível para o acesso ao mundo do trabalho.
Escrevo estas linhas precisamente quando se procede ao peditório para o Banco Alimentar Contra a Fome; nesta região, através do Banco Alimentar da Cova da Beira, sediado na Covilhã.
Há idosos que não sofreram os efeitos da pobreza propriamente dita, mas sentem na solidão a necessidade da procura de lares. O desemprego cresceu, também entre os imigrantes. Na Covilhã, é 240,9 por cento superior à taxa média na Região Centro.
As Conferências de S. Vicente de Paulo abraçam todas as facetas deste mundo de preocupações locais, pois todos os dias chegam pedidos de ajuda, na maioria de cariz urgente. Com o Banco Alimentar e a Segurança Social foram feitas parcerias.
Enquanto que muitos dos que passeiam pelas ruas da nossa cidade, reformados ou em situação de subsídio de desemprego, ainda com possibilidades de ocuparem os seus tempos livres, evitando o tédio, preferem andar com uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma; outros esticam o seu tempo em prol destas causas humanitárias.
O actual agravamento da pobreza em Portugal, nas várias vertentes, preencheria um espaço grande que não se pode globalizar nesta simples crónica; o sintoma de agravamento tende a manter-se, pois basta ler o Relatório do Banco de Portugal sobre o último semestre de 2004 que quase parece o retrato de um país falido, com o desemprego a aumentar, com o consumo público e privado sem controlo, vivendo ambos – Estado e cidadão – acima das suas possibilidades, com dois milhões de portugueses a viver abaixo do limiar da pobreza, o que significa que há 600 mil crianças pobres.
Entretanto, o “Público” de 4 de Maio, trazia uma listagem dos 10 treinadores mais bem pagos, com o português José Mourinho à cabeça, auferindo a modesta quantia de 7,5 milhões de euros; e os 20 futebolistas mais bem remunerados; com o inglês David Beckham, a jogar no Real Madrid, à cabeça, com a insignificante quantia de 25 milhões de euros. Que dizer destes gritantes contrastes?
E como é possível ainda haver escravidão em Portugal, conforme nos deparou a Comunicação Social nas últimas semanas?! E as flores deste mundo – as criancinhas – a serem objecto da mais repugnante violação e morte, como a Joana, a Catarina, a Vanessa; estas as que saltaram para a ribalta da Comunicação Social porquanto outras estão envolvidas em silêncio sepulcral.
Isto também é pobreza, a pobreza moral encarnada em carniceiros demoníacos que deveriam estar no outro lado do mundo para onde lançaram, às feras, as inocentes criaturas.
Pobreza é também a proliferação da prostituição em Portugal; e na Covilhã, onde parece termos voltado às décadas de 50 e 60, com a então cognominada “rua das prostitutas”, quase no centro da cidade.
Hoje é tudo feito a dar nas vistas. Basta ir à Rua Mateus Fernandes, onde o descaramento existe, com porta permanentemente aberta, mesmo em frente duma igreja evangélica.
E, se alguns já são pobres, também o próprio Estado, nas suas estruturas, contribui para sacrificar os cidadãos com a sua burocracia, originando, nalguns casos, enormes transtornos. Porque motivo, por exemplo, a Conservatória do Registo Predial e Comercial, para a legalização de alguns actos – exemplo, o envio de pagamentos para Conservatória do Registo Automóvel – exige categoricamente cheque, em vez de numerário, causando, quantas vezes, o embaraço de pessoas idosas, outras iletradas, das aldeias rurais do concelho da Covilhã? Autêntica aberração, que é preciso combater.
(In “Notícias da Covilhã”, de 13/05/2005)
No espaço de um ano a situação piorou, sabendo-se que em 2004 já se apontava para 200 mil pessoas com fome.
A erradicação da pobreza é preocupação secular da Igreja, do Estado, dos altruístas, mas o certo é que ainda ninguém conseguiu resolver este grave problema.
O caso atemorizador de se verem crianças, nalguns pontos do País, a entrarem nas escolas, após o fim-de-semana, esfomeadas, é uma situação gritante. A mendicidade infantil continua a aumentar em Portugal.
Existe agora a “nova pobreza”, a acrescentar aos anteriores casos de indigência. Basta por vezes que um dos membros do agregado fique sem emprego, com as rendas de casa altas, para precisarem de ajuda. Por outro lado, existem, muitas vezes, os casos de um dos membros da família ser toxicodependente ou alcoólico.
A pobreza envergonhada, a fome real, a crueza das histórias que se repetem e até se desenvolvem, é demasiado superior à crise que tem tocado a cada um de nós. A protecção social, para muitos idosos, começou mais tarde; muitos nunca descontaram para a Segurança Social porque no seu tempo não se descontava.
Por mais subsídios que se paguem, existe uma fronteira de pouca consistência entre uma vida descansada e o cair numa situação de insolvência.
A muita gente falta-lhe a auto-estima e a motivação para enfrentar uma nova vida, fruto do desemprego em idade já incompatível para o acesso ao mundo do trabalho.
Escrevo estas linhas precisamente quando se procede ao peditório para o Banco Alimentar Contra a Fome; nesta região, através do Banco Alimentar da Cova da Beira, sediado na Covilhã.
Há idosos que não sofreram os efeitos da pobreza propriamente dita, mas sentem na solidão a necessidade da procura de lares. O desemprego cresceu, também entre os imigrantes. Na Covilhã, é 240,9 por cento superior à taxa média na Região Centro.
As Conferências de S. Vicente de Paulo abraçam todas as facetas deste mundo de preocupações locais, pois todos os dias chegam pedidos de ajuda, na maioria de cariz urgente. Com o Banco Alimentar e a Segurança Social foram feitas parcerias.
Enquanto que muitos dos que passeiam pelas ruas da nossa cidade, reformados ou em situação de subsídio de desemprego, ainda com possibilidades de ocuparem os seus tempos livres, evitando o tédio, preferem andar com uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma; outros esticam o seu tempo em prol destas causas humanitárias.
O actual agravamento da pobreza em Portugal, nas várias vertentes, preencheria um espaço grande que não se pode globalizar nesta simples crónica; o sintoma de agravamento tende a manter-se, pois basta ler o Relatório do Banco de Portugal sobre o último semestre de 2004 que quase parece o retrato de um país falido, com o desemprego a aumentar, com o consumo público e privado sem controlo, vivendo ambos – Estado e cidadão – acima das suas possibilidades, com dois milhões de portugueses a viver abaixo do limiar da pobreza, o que significa que há 600 mil crianças pobres.
Entretanto, o “Público” de 4 de Maio, trazia uma listagem dos 10 treinadores mais bem pagos, com o português José Mourinho à cabeça, auferindo a modesta quantia de 7,5 milhões de euros; e os 20 futebolistas mais bem remunerados; com o inglês David Beckham, a jogar no Real Madrid, à cabeça, com a insignificante quantia de 25 milhões de euros. Que dizer destes gritantes contrastes?
E como é possível ainda haver escravidão em Portugal, conforme nos deparou a Comunicação Social nas últimas semanas?! E as flores deste mundo – as criancinhas – a serem objecto da mais repugnante violação e morte, como a Joana, a Catarina, a Vanessa; estas as que saltaram para a ribalta da Comunicação Social porquanto outras estão envolvidas em silêncio sepulcral.
Isto também é pobreza, a pobreza moral encarnada em carniceiros demoníacos que deveriam estar no outro lado do mundo para onde lançaram, às feras, as inocentes criaturas.
Pobreza é também a proliferação da prostituição em Portugal; e na Covilhã, onde parece termos voltado às décadas de 50 e 60, com a então cognominada “rua das prostitutas”, quase no centro da cidade.
Hoje é tudo feito a dar nas vistas. Basta ir à Rua Mateus Fernandes, onde o descaramento existe, com porta permanentemente aberta, mesmo em frente duma igreja evangélica.
E, se alguns já são pobres, também o próprio Estado, nas suas estruturas, contribui para sacrificar os cidadãos com a sua burocracia, originando, nalguns casos, enormes transtornos. Porque motivo, por exemplo, a Conservatória do Registo Predial e Comercial, para a legalização de alguns actos – exemplo, o envio de pagamentos para Conservatória do Registo Automóvel – exige categoricamente cheque, em vez de numerário, causando, quantas vezes, o embaraço de pessoas idosas, outras iletradas, das aldeias rurais do concelho da Covilhã? Autêntica aberração, que é preciso combater.
(In “Notícias da Covilhã”, de 13/05/2005)
8 de abril de 2005
SUMOS PONTÍFICES
Quando esta crónica sair já se terá realizado o funeral do grande Papa João Paulo II. Todo o mundo reconheceu as excelsas qualidades deste Homem, que deixou a terra que pisou bem lavrada com a sua acção, numa grande sementeira direccionada para a paz, defesa dos mais pobres e aproximação de todas as religiões.
O Sumo Pontífice, controverso, paradoxal, que combateu tanto o nazismo como o comunismo; de teimosia contra o cansaço; sem medo, duma humildade extrema ao pedir perdão pelos erros da Igreja, e a perdoar a quem o pretendeu assassinar; deixou no mundo cristão e não cristão, e de outras religiões, crentes e agnósticos, o sentimento profundo de um grande Homem de bem, onde no seu íntimo apenas existiu a palavra amor.
Foi grande no seu pontificado, foi grande na sua evangelização, foi grande no seu humanismo, foi grande na sua bênção, foi grande na defesa dos mais pobres, foi grande no seu perdão, foi grande no seu sofrimento.
Foi o Papa mais poliglota de sempre, o que fez mais canonizações, o que ordenou mais bispos, o que correu mais mundo.
Muito já se disse de João Paulo II, desta figura ímpar que o mundo perdeu, na opinião de muitos governantes deste planeta Terra. E muitas páginas ainda se continuaram a escrever, pelo que me dispenso do repisar de acontecimentos, sobejamente conhecidos de todos.
Recordo-me do primeiro falecimento de um Papa, o que conheci na minha infância e adolescência – Pio XII – há quase 47 anos. Aquilo que João Paulo II previamente definiu “não ser lícito a ninguém fotografar nem captar imagens, seja pelo meio que for, do Sumo Pontífice, quer doente na cama, quer já defunto”, surgiram na imprensa de então – Diário de Notícias, Diário Popular, revista Flama, entre outros – com imagens do Papa defunto, na cama, “no seu leito de morte”, como então se referiam.
Depois, nos números seguintes, fotografias de muitos cardeais, e a sua origem, como os principais elegíveis. Lá figuravam também os cardeais Roncalli e Montini, que, por sinal, viriam a ser os Papas seguintes: João XXIII e Paulo VI; além do cardeal de barbas compridas, Tisserand.
Divergem os números que se referem ao total de Papas, até este último, mesmo eliminando os anti-Papas, face aos Cismas havidos. O Diário de Notícias refere-se a 246, mas outros mencionam 264.
João Paulo II viveu o terceiro Pontificado mais longo, sendo que o maior foi o de Pio IX, com 32 anos.
Também o DN refere que o mais curto pontificado foi de Urbano VII, em 1590, com 12 dias por ter morrido de malária; mas outra fonte diz que foi o de Estêvão II, no ano 752, de um só dia.
S. Pedro foi o primeiro Papa, nascido em Batbsaida, na Galileia. Morreu crucificado, com a cabeça para baixo, em 29 de Junho do ano 67. Seguiu-se-lhe S. Lino, natural de Volterra, que morreu em 23 de Setembro do ano 76. Foi ele que criou os primeiros 15 bispos e ordenou que as mulheres só pudessem entrar na Igreja com as cabeças cobertas, uso que se verificava até há uns anos atrás, com os véus na cabeça. Durante o pontificado deste segundo Papa foram martirizados os evangelistas Marcos e Lucas. O terceiro Papa foi Santo Anacleto ou Cleto que morreu no ano 88, como mártir. Definiu os hábitos eclesiásticos. O quarto Papa foi S. Clemente, também mártir, que morreu no ano 97. Exilado pelo imperador Trajano foi lançado ao mar com uma âncora atada ao corpo. Empregou o uso nas cerimónias religiosas da palavra “Amén”. O quinto Papa foi S. Evaristo, grego, que morreu no ano 105. Dado que os cristãos aumentavam, dividiu as cidades em paróquias e instituiu as primeiras dioceses. O sexto Papa foi Santo Alexandre I que morreu no ano 115. A este Papa se deve a instituição da água benzida nas igrejas. O sétimo Papa foi S. Sisto I, romano, que viria a falecer no ano 125. Ordenou que o retazo do cálice fosse de linho e que o mesmo e os paramentos fossem tocados solenemente pelos sacerdotes. Estabeleceu que se cantasse o Trisagio antes da Missa. O oitavo Papa foi S. Telésforo, mártir, que faleceu no ano 136. Compôs o hino “Glória in Excelsis Deo”. Ordenou que na noite de Natal cada sacerdote pudesse celebrar três Missas e introduziu na missa novas orações. O nono Papa foi Santo Higino, ateniense e mártir, que faleceu no ano 140. Determinou várias atribuições ao clero e definiu os graus da hierarquia eclesiástica. Instituiu o padrinho e a madrinha no baptismo dos recém nascidos. O décimo Papa foi S. Pio I, nascido em Aquiles e que também foi mártir, tendo morrido no ano 155. A ele se atribui a celebração da Páscoa, depois do primeiro domingo de Março, e importantes normas para a conversão dos judeus.
Como principais Papas, citam-se S. Pedro, um dos discípulos de Jesus Cristo, o primeiro bispo de Roma e uma das figuras fundamentais do cristianismo; Adriano I (772-795) que iniciou a ligação política com Carlos Magno, dando de facto início ao Sacro Império Romano; Inocêncio III (1198-1216) que foi um dos Papas mais poderosos da História, tendo influenciado toda a política europeia do seu tempo, incluindo em Portugal. Interveio em numerosos conflitos e abençoou uma das cruzadas mais violentas; Clemente XIV (1769-1774) foi incapaz de resistir à pressão das principais monarquias europeias e foi obrigado a dissolver a Companhia de Jesus; Pio VII (1800-1823) restaurou a Sociedade de Jesus mas sofreu uma forte pressão dos poderes europeus. Os franceses ocuparam os Estados papais (1809) e Pio VII ficou prisioneiro de Napoleão. Apesar desta humilhação, viria a proteger a família Bonaparte, após a queda do imperador.
O único Papa português foi João XXI, de curto reinado (1276-1277), chamava-se Pedro Hispanp. Era um intelectual do seu tempo, tendo deixado forte marca.
Como se chamará o próximo Papa? O que é certo é que no maior número de nomes consta: João, 23 vezes; Gregório, 16 vezes; e Benedito, 15 vezes.
A esperança vai para que surja um Papa que siga os passos do já saudoso João Paulo II.
(In “Notícias da Covilhã”, de 08/04/2005)
O Sumo Pontífice, controverso, paradoxal, que combateu tanto o nazismo como o comunismo; de teimosia contra o cansaço; sem medo, duma humildade extrema ao pedir perdão pelos erros da Igreja, e a perdoar a quem o pretendeu assassinar; deixou no mundo cristão e não cristão, e de outras religiões, crentes e agnósticos, o sentimento profundo de um grande Homem de bem, onde no seu íntimo apenas existiu a palavra amor.
Foi grande no seu pontificado, foi grande na sua evangelização, foi grande no seu humanismo, foi grande na sua bênção, foi grande na defesa dos mais pobres, foi grande no seu perdão, foi grande no seu sofrimento.
Foi o Papa mais poliglota de sempre, o que fez mais canonizações, o que ordenou mais bispos, o que correu mais mundo.
Muito já se disse de João Paulo II, desta figura ímpar que o mundo perdeu, na opinião de muitos governantes deste planeta Terra. E muitas páginas ainda se continuaram a escrever, pelo que me dispenso do repisar de acontecimentos, sobejamente conhecidos de todos.
Recordo-me do primeiro falecimento de um Papa, o que conheci na minha infância e adolescência – Pio XII – há quase 47 anos. Aquilo que João Paulo II previamente definiu “não ser lícito a ninguém fotografar nem captar imagens, seja pelo meio que for, do Sumo Pontífice, quer doente na cama, quer já defunto”, surgiram na imprensa de então – Diário de Notícias, Diário Popular, revista Flama, entre outros – com imagens do Papa defunto, na cama, “no seu leito de morte”, como então se referiam.
Depois, nos números seguintes, fotografias de muitos cardeais, e a sua origem, como os principais elegíveis. Lá figuravam também os cardeais Roncalli e Montini, que, por sinal, viriam a ser os Papas seguintes: João XXIII e Paulo VI; além do cardeal de barbas compridas, Tisserand.
Divergem os números que se referem ao total de Papas, até este último, mesmo eliminando os anti-Papas, face aos Cismas havidos. O Diário de Notícias refere-se a 246, mas outros mencionam 264.
João Paulo II viveu o terceiro Pontificado mais longo, sendo que o maior foi o de Pio IX, com 32 anos.
Também o DN refere que o mais curto pontificado foi de Urbano VII, em 1590, com 12 dias por ter morrido de malária; mas outra fonte diz que foi o de Estêvão II, no ano 752, de um só dia.
S. Pedro foi o primeiro Papa, nascido em Batbsaida, na Galileia. Morreu crucificado, com a cabeça para baixo, em 29 de Junho do ano 67. Seguiu-se-lhe S. Lino, natural de Volterra, que morreu em 23 de Setembro do ano 76. Foi ele que criou os primeiros 15 bispos e ordenou que as mulheres só pudessem entrar na Igreja com as cabeças cobertas, uso que se verificava até há uns anos atrás, com os véus na cabeça. Durante o pontificado deste segundo Papa foram martirizados os evangelistas Marcos e Lucas. O terceiro Papa foi Santo Anacleto ou Cleto que morreu no ano 88, como mártir. Definiu os hábitos eclesiásticos. O quarto Papa foi S. Clemente, também mártir, que morreu no ano 97. Exilado pelo imperador Trajano foi lançado ao mar com uma âncora atada ao corpo. Empregou o uso nas cerimónias religiosas da palavra “Amén”. O quinto Papa foi S. Evaristo, grego, que morreu no ano 105. Dado que os cristãos aumentavam, dividiu as cidades em paróquias e instituiu as primeiras dioceses. O sexto Papa foi Santo Alexandre I que morreu no ano 115. A este Papa se deve a instituição da água benzida nas igrejas. O sétimo Papa foi S. Sisto I, romano, que viria a falecer no ano 125. Ordenou que o retazo do cálice fosse de linho e que o mesmo e os paramentos fossem tocados solenemente pelos sacerdotes. Estabeleceu que se cantasse o Trisagio antes da Missa. O oitavo Papa foi S. Telésforo, mártir, que faleceu no ano 136. Compôs o hino “Glória in Excelsis Deo”. Ordenou que na noite de Natal cada sacerdote pudesse celebrar três Missas e introduziu na missa novas orações. O nono Papa foi Santo Higino, ateniense e mártir, que faleceu no ano 140. Determinou várias atribuições ao clero e definiu os graus da hierarquia eclesiástica. Instituiu o padrinho e a madrinha no baptismo dos recém nascidos. O décimo Papa foi S. Pio I, nascido em Aquiles e que também foi mártir, tendo morrido no ano 155. A ele se atribui a celebração da Páscoa, depois do primeiro domingo de Março, e importantes normas para a conversão dos judeus.
Como principais Papas, citam-se S. Pedro, um dos discípulos de Jesus Cristo, o primeiro bispo de Roma e uma das figuras fundamentais do cristianismo; Adriano I (772-795) que iniciou a ligação política com Carlos Magno, dando de facto início ao Sacro Império Romano; Inocêncio III (1198-1216) que foi um dos Papas mais poderosos da História, tendo influenciado toda a política europeia do seu tempo, incluindo em Portugal. Interveio em numerosos conflitos e abençoou uma das cruzadas mais violentas; Clemente XIV (1769-1774) foi incapaz de resistir à pressão das principais monarquias europeias e foi obrigado a dissolver a Companhia de Jesus; Pio VII (1800-1823) restaurou a Sociedade de Jesus mas sofreu uma forte pressão dos poderes europeus. Os franceses ocuparam os Estados papais (1809) e Pio VII ficou prisioneiro de Napoleão. Apesar desta humilhação, viria a proteger a família Bonaparte, após a queda do imperador.
O único Papa português foi João XXI, de curto reinado (1276-1277), chamava-se Pedro Hispanp. Era um intelectual do seu tempo, tendo deixado forte marca.
Como se chamará o próximo Papa? O que é certo é que no maior número de nomes consta: João, 23 vezes; Gregório, 16 vezes; e Benedito, 15 vezes.
A esperança vai para que surja um Papa que siga os passos do já saudoso João Paulo II.
(In “Notícias da Covilhã”, de 08/04/2005)
18 de março de 2005
O CASAL CASTRO MARTINS – PROFESSORES DE EXCELÊNCIA
O tempo tem a sua passagem. É veloz, para umas coisas, as que menos desejamos, como a velhice, a doença, ou a crise económica; é vagaroso, para as que mais ansiamos, como a solução no emprego, o fim das convulsões sociais ou o regresso da chuva.
Para o escrevinhador destas linhas, este fim-de-semana não foi muito diferente do anterior. Perto do final da manhã de sábado, um esforço para não perder a “Alma Nostra”, de Carlos Magno e Professor Carlos Amaral Dias, na Antena 1.
Tempo também para a leitura mais tranquila do “Público”, “Diário de Notícias”, “Notícias da Covilhã”, “Jornal do Fundão”, “O Interior” e, esta semana, também a vez da “Vida Económica”.
Uma alegria: a portuguesa, e também “leoa”, Naide Gomes, vê-lhe feita justiça – ganha a medalha de ouro no salto em comprimento nos Campeonatos Europeus de pista coberta, realizados em Madrid.
Uma tristeza: o meu clube de sempre estende-se ao comprido e perde três pontos. Paciência! Já estou habituado. Prefiro continuar a manter, nas análises clínicas, o meu sangue verde, em vez do azul.
Uma surpresa: O CDS vai retirar a fotografia do seu 1º. Presidente, Diogo Freitas do Amaral, e enviá-la ao PS, irritado por ter aceite ser Ministro dos Negócios Estrangeiros. É ludibriar a sua própria história. É quase como termos que eliminar da História de Portugal, D. João III porque deixou Portugal aos Castelhanos; os Filipes de Espanha que governaram Portugal, Salazar, etc. Enfim, como nós andamos!
No entanto, domingo, foi a vez de ouvir “As Escolhas de Marcelo”, na RDP.
Só então me predispus a redigir esta crónica. Com um ar de nostalgia, melhor, de saudade.
O Dr. Manuel de Castro Martins e sua esposa, Drª. Edite Maria Arriaga de Castro, foram meus professores; ele, na disciplina de Português; ela, na cadeira de Francês, na então Escola Industrial e Comercial Campos Melo, nas já distantes décadas de 50 e 60.
As lacunas de reconhecimento, do covilhanense de excelência que foi o Dr. Castro Martins, fazendo jus à sua memória, como refiro numa das páginas do Notícias da Covilhã, de 7/11/1997, e no Jornal do Fundão, de 12/12/1997, foram dissipadas com a atribuição do seu nome a uma das ruas da cidade – a Rua Dr. Manuel de Castro Martins – numa das zonas novas.
Tal se deve à acção dum homem de sensibilidade e visão – o presidente da Câmara, Carlos Pinto – que, conhecendo as várias gentes da Covilhã, soube seleccionar, para que o seu nome fosse perpetuado na cidade onde deixou marcas da sua vida docente, com dedicação à cidade. Ele, Carlos Pinto, que tal como o autor deste trabalho, foram alunos da Escola Campos Melo, na mesma geração, ao tempo do saudoso professor.
O ensino hoje é diferente. Outrora, nos tempos do Dr. Castro Martins, e da Drª. Edite Arriaga, não havia os meios tecnológicos que hoje existem; ainda não tinha surgido a informática, a Internet, o telemóvel, o fax, a fotocopiadora, e nem mesmo a máquina calculadora. A televisão havia acabado de surgir, a preto e branco, com um só canal para esta região, no ano de 1957. Canais diversos, temáticos e não só, para todos os gostos, nem vê-los. O homem nem sequer ainda tinha chegado à Lua. No entanto aprendia-se e obtinham-se cursos com acesso quase imediato nas empresas e instituições da cidade. Universidade não existia por estas paragens, por imperativos ditatoriais dos Governos de Salazar, já que o conhecimento era uma arma e arremesso para o Estado.
E, com todas estas lacunas, que não se adivinhavam numa evolução rápida do seu desenvolvimento, aprendia-se e formavam-se homens e mulheres para a vida.
Aí, além de outros grandes mestres nesta grande fábrica do ensino que foi a Escola Industrial, emergiu este casal.
Quando, nos finais da década de cinquenta, pela primeira vez subi os degraus da escadaria que deu acesso à primeira aula de Língua e História Pátria (então no Ciclo Preparatório), e, depois, Português, no Curso Geral do Comércio, naquela Escola, fui encontrar um homem de faces rosadas, afável, que me marcaria o gosto pelas letras. Mais tarde, agora em período nocturno, voltaria a ter a mestria das suas aulas.
O Dr. Castro Martins nasceu na freguesia do Teixoso em 19 de Setembro de 1915 e viria a falecer, no dia de Natal de 1971, com apenas 56 anos, quando muito ainda tinha a dar ao ensino.
Depois de se ter licenciado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, iniciou a sua actividade docente no Liceu de Braga, passando depois por vários Colégios de Lisboa. Daqui desloca-se para a Covilhã onde exerceu uma notável acção docente, no extinto Colégio Moderno, durante mais de duas décadas, passando a dirigir mesmo como Director, com grandes dificuldades.
Cumulativamente, a partir de 1951 e durante 16 anos, foi professor de Português na Então Escola Industrial. Nos vários estabelecimentos de ensino leccionou também latim e grego.
Foi um lutador nos tempos difíceis antes da Revolução do 25 de Abril de 1974, onde a coragem e o seu espírito de luta em relação a toda e qualquer adversidade eram as mais marcantes qualidades do seu multifacetado carácter.
A sua força moral não se compadecia com a injustiça, com autoritarismos, opressões, viessem de quem viessem, arriscando, nesses tempos difíceis em que viveu, atitudes corajosas de denúncias, de apoio a amigos politicamente perseguidos.
Era um comunicador por excelência. Apesar do seu ritmo de vida alucinante, havia sempre tempo para conversar com os amigos, no Café Montalto, em casa, com a família, na escola, com os colegas.
Além de professor, foi uma pessoa com uma força moral que os alunos captavam sem se aperceberem. Daí que não esquecem o seu antigo professor, cujo nome respeitam.
O Dr. Castro Martins deixou a Covilhã, a Escola Industrial e o Colégio moderno em 1967 para continuar a exercer funções docentes na Escola Industrial Marquês de Pombal, em Lisboa.
A Drª. Edite Arriaga de Castro, sua esposa, natural de Lisboa, onde fez toda a sua preparação académica, licenciou-se em Filosofia e História, em 1947, tendo iniciado a sua carreira docente em 1951 por impedimentos da PIDE. Os seus pais haviam falecido quando tinha apenas seis anos. Foi um tio materno, advogado republicano e maçon que a viria a criar. Era familiar do 1º. Presidente da República Portuguesa, Dr. Manuel Arriaga. Veio para a Covilhã onde acompanhou o marido, no Colégio Moderno, e na Escola Campos Melo. Daqui regressou a Lisboa, tendo sido colocada na Escola Técnica Paula Vicente, onde exerceu as suas funções docentes e directivas até à sua aposentação.
A Drª. Edite também já faleceu. O casal amigo deixou saudades a todos quantos o conheceram, com eles lidaram ou foram seus discípulos
(In “Notícias da Covilhã”, de 18/03/2005)
Para o escrevinhador destas linhas, este fim-de-semana não foi muito diferente do anterior. Perto do final da manhã de sábado, um esforço para não perder a “Alma Nostra”, de Carlos Magno e Professor Carlos Amaral Dias, na Antena 1.
Tempo também para a leitura mais tranquila do “Público”, “Diário de Notícias”, “Notícias da Covilhã”, “Jornal do Fundão”, “O Interior” e, esta semana, também a vez da “Vida Económica”.
Uma alegria: a portuguesa, e também “leoa”, Naide Gomes, vê-lhe feita justiça – ganha a medalha de ouro no salto em comprimento nos Campeonatos Europeus de pista coberta, realizados em Madrid.
Uma tristeza: o meu clube de sempre estende-se ao comprido e perde três pontos. Paciência! Já estou habituado. Prefiro continuar a manter, nas análises clínicas, o meu sangue verde, em vez do azul.
Uma surpresa: O CDS vai retirar a fotografia do seu 1º. Presidente, Diogo Freitas do Amaral, e enviá-la ao PS, irritado por ter aceite ser Ministro dos Negócios Estrangeiros. É ludibriar a sua própria história. É quase como termos que eliminar da História de Portugal, D. João III porque deixou Portugal aos Castelhanos; os Filipes de Espanha que governaram Portugal, Salazar, etc. Enfim, como nós andamos!
No entanto, domingo, foi a vez de ouvir “As Escolhas de Marcelo”, na RDP.
Só então me predispus a redigir esta crónica. Com um ar de nostalgia, melhor, de saudade.
O Dr. Manuel de Castro Martins e sua esposa, Drª. Edite Maria Arriaga de Castro, foram meus professores; ele, na disciplina de Português; ela, na cadeira de Francês, na então Escola Industrial e Comercial Campos Melo, nas já distantes décadas de 50 e 60.
As lacunas de reconhecimento, do covilhanense de excelência que foi o Dr. Castro Martins, fazendo jus à sua memória, como refiro numa das páginas do Notícias da Covilhã, de 7/11/1997, e no Jornal do Fundão, de 12/12/1997, foram dissipadas com a atribuição do seu nome a uma das ruas da cidade – a Rua Dr. Manuel de Castro Martins – numa das zonas novas.
Tal se deve à acção dum homem de sensibilidade e visão – o presidente da Câmara, Carlos Pinto – que, conhecendo as várias gentes da Covilhã, soube seleccionar, para que o seu nome fosse perpetuado na cidade onde deixou marcas da sua vida docente, com dedicação à cidade. Ele, Carlos Pinto, que tal como o autor deste trabalho, foram alunos da Escola Campos Melo, na mesma geração, ao tempo do saudoso professor.
O ensino hoje é diferente. Outrora, nos tempos do Dr. Castro Martins, e da Drª. Edite Arriaga, não havia os meios tecnológicos que hoje existem; ainda não tinha surgido a informática, a Internet, o telemóvel, o fax, a fotocopiadora, e nem mesmo a máquina calculadora. A televisão havia acabado de surgir, a preto e branco, com um só canal para esta região, no ano de 1957. Canais diversos, temáticos e não só, para todos os gostos, nem vê-los. O homem nem sequer ainda tinha chegado à Lua. No entanto aprendia-se e obtinham-se cursos com acesso quase imediato nas empresas e instituições da cidade. Universidade não existia por estas paragens, por imperativos ditatoriais dos Governos de Salazar, já que o conhecimento era uma arma e arremesso para o Estado.
E, com todas estas lacunas, que não se adivinhavam numa evolução rápida do seu desenvolvimento, aprendia-se e formavam-se homens e mulheres para a vida.
Aí, além de outros grandes mestres nesta grande fábrica do ensino que foi a Escola Industrial, emergiu este casal.
Quando, nos finais da década de cinquenta, pela primeira vez subi os degraus da escadaria que deu acesso à primeira aula de Língua e História Pátria (então no Ciclo Preparatório), e, depois, Português, no Curso Geral do Comércio, naquela Escola, fui encontrar um homem de faces rosadas, afável, que me marcaria o gosto pelas letras. Mais tarde, agora em período nocturno, voltaria a ter a mestria das suas aulas.
O Dr. Castro Martins nasceu na freguesia do Teixoso em 19 de Setembro de 1915 e viria a falecer, no dia de Natal de 1971, com apenas 56 anos, quando muito ainda tinha a dar ao ensino.
Depois de se ter licenciado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, iniciou a sua actividade docente no Liceu de Braga, passando depois por vários Colégios de Lisboa. Daqui desloca-se para a Covilhã onde exerceu uma notável acção docente, no extinto Colégio Moderno, durante mais de duas décadas, passando a dirigir mesmo como Director, com grandes dificuldades.
Cumulativamente, a partir de 1951 e durante 16 anos, foi professor de Português na Então Escola Industrial. Nos vários estabelecimentos de ensino leccionou também latim e grego.
Foi um lutador nos tempos difíceis antes da Revolução do 25 de Abril de 1974, onde a coragem e o seu espírito de luta em relação a toda e qualquer adversidade eram as mais marcantes qualidades do seu multifacetado carácter.
A sua força moral não se compadecia com a injustiça, com autoritarismos, opressões, viessem de quem viessem, arriscando, nesses tempos difíceis em que viveu, atitudes corajosas de denúncias, de apoio a amigos politicamente perseguidos.
Era um comunicador por excelência. Apesar do seu ritmo de vida alucinante, havia sempre tempo para conversar com os amigos, no Café Montalto, em casa, com a família, na escola, com os colegas.
Além de professor, foi uma pessoa com uma força moral que os alunos captavam sem se aperceberem. Daí que não esquecem o seu antigo professor, cujo nome respeitam.
O Dr. Castro Martins deixou a Covilhã, a Escola Industrial e o Colégio moderno em 1967 para continuar a exercer funções docentes na Escola Industrial Marquês de Pombal, em Lisboa.
A Drª. Edite Arriaga de Castro, sua esposa, natural de Lisboa, onde fez toda a sua preparação académica, licenciou-se em Filosofia e História, em 1947, tendo iniciado a sua carreira docente em 1951 por impedimentos da PIDE. Os seus pais haviam falecido quando tinha apenas seis anos. Foi um tio materno, advogado republicano e maçon que a viria a criar. Era familiar do 1º. Presidente da República Portuguesa, Dr. Manuel Arriaga. Veio para a Covilhã onde acompanhou o marido, no Colégio Moderno, e na Escola Campos Melo. Daqui regressou a Lisboa, tendo sido colocada na Escola Técnica Paula Vicente, onde exerceu as suas funções docentes e directivas até à sua aposentação.
A Drª. Edite também já faleceu. O casal amigo deixou saudades a todos quantos o conheceram, com eles lidaram ou foram seus discípulos
(In “Notícias da Covilhã”, de 18/03/2005)
18 de fevereiro de 2005
O ÓBVIO E A VERDADE
Escrevo estas linhas interrompidas momentaneamente pelos “directos” das campanhas eleitorais nos canais de televisão.
Gostaria de redigir outros temas que, em catadupa, tenho memorizados, mas a situação política que se vive, sem precedentes, jamais nos pode deixar silenciados, imunes à displicência, no deixar para que os outros resolvam as situações, no óbvio do estado calamitoso do país, na acusação de que o mal vem sempre dos outros, no faz o que eu digo mas não olhes para o que eu faço.
E o país aí está, ao invés de acompanhar o ritmo dos nossos parceiros europeus, passou a uma velocidade como a do comboio da Beira Baixa, e na carruagem da cauda.
E, se alguns apeadeiros foram eliminados, os actuais governantes vieram recriá-los, produzindo mais demora no destino.
Tantos governantes! Muitas promessas havidas antes da subida ao palanque! A condição de vítima quando o tiro sai pela culatra! Se não foste tu que me sujaste a água, foi teu pai, como na história do lobo e do cordeiro!
E se a culpa não morreu solteira, ela é de todos quantos permutam a atenção constante e atitudes de desagrado pela inacção desenvolvida e pelo comodismo.
Neste país, que, apesar de tudo, ainda é de brandos costumes, há gentes, muito boas gentes, que vivem obcecadas pelos seus correligionários, ainda que reconhecendo o rumo abismal do seu país, com influências dum negativismo inconfundível.
Mas, vamos aos acontecimentos: como é possível querer a manutenção dum primeiro-ministro, à frente dos destinos do país, depois dos factos surgidos, só próprios dum ingénuo, sobejamente do conhecimento de todos quantos têm ouvidos para ouvir e olhos para ver?
A sua fluência, os seus dotes oratórios são um autêntico paradoxo em relação ao desempenho da sua tarefa governamental, onde, até no pormenor, deixou marcas da forma como o país não deve nem pode ser governado. Falta de atenção, logo na tomada de posse do governo; depois, foram várias facetas, do conhecimento público, passando, afrontado, com o selo da vitimização.
Até nas sondagens – por que não favoráveis – emergiu a ameaça de participação judicial já “que havia uma deplorável promiscuidade entre a política e as empresas de sondagens”, isto numa mente mórbida de quem pensou tratar-se duma “megafraude” aos “portugueses e portuguesas”.
Ao longo da campanha eleitoral, não tem feito mais que se queixar das “traições”, das “facadas”, e dos “tiros” que os seus correligionários dispararam na sua própria trincheira.
O apóstolo de Sá Carneiro pretendia que toda a gente corresse a exaltá-lo. Mas o povo não está louco
É que, conforme expressa Vasco Pulido Valente, no Público de 11/2/2005, “o PSD não precisa de um “bom” resultado em 20 de Fevereiro, precisa de um resultado que o livre de Santana”.
E, já José Manuel Fernandes, no mesmo diário, do dia seguinte, refere que “Santana tem oferecido menos que nada pois, apesar de ainda ser primeiro-ministro, consegue a proeza de não ter uma só ideia, uma só proposta, uma singela medida capaz de mostrar aos eleitores que não merece apenas ser varrido de São Bento por uma questão e higiene pública”.
E, depois, depois...o boato, esta arma dos cobardes, porque é anónima mas atinge quem não é anónimo. E porque é difícil de enfrentar. Boatos sobre líderes políticos sempre houve, no passado, como continuará a haver no futuro.
Já quando estive no serviço militar existiam alguns quadros distribuídos por paredes de salas ou refeitórios com os dizeres “o boato fere como uma lâmina”.
Nesta campanha eleitoral o boato ganhou um protagonismo só possível no momento em que veio à superfície sob a forma de insinuação, num comício e na boca de um candidato.
Vamos para as eleições. É preciso não ter medo de atravessar a ponte e votar, embora com cepticismo. Retirar o cachecol partidário e votar.
Também sou pela convicção de que, actualmente, o melhor é uma maioria absoluta. E para tal também vou contribuir.
É óbvio, para a situação actual, mas vou pelo lado de quem me transmite mais verdade.
Não espero que Sócrates retire tão depressa o país da mediocridade em que se atolou, mas espero que afaste Santana, e venha a restituir à vida política um módico de normalidade. Não preciso de saltar o muro, nem de atravessar a ponte porque há muito que optei.
Depois, sejamos exigentes, sempre alerta, rigorosos, para que jamais existam trapalhadas mas antes possamos viver como dos melhores europeus, pois temos muitas dificuldades a enfrentar, numa constante, uma delas a China, que vem afrontar as empresas, sem excepção das da Covilhã e nossa região.
Esperemos um novo timoneiro que venha liderar os destinos de um novo governo, para unir Portugal contra a baixa educação, a falta de civismo, de rigor e de profissionalismo, contra uma cultura de superficialidade, de irresponsabilidade, de esperteza saloia, de interesses de legitimidade duvidosa, contra a injustiça social e fiscal, contra as desigualdades de oportunidades.
E, como no DNA de 11/2/2005, “vou disparar uma prece, rebentar uma súplica, explodir a angústia, implodir a esperança, detonar a alegria, accionar a alma”- e desejo efusivamente que, no dia 20 de Fevereiro, regresse de vez a ESPERANÇA.
(In “Notícias da Covilhã”, de 18/02/2005)
Gostaria de redigir outros temas que, em catadupa, tenho memorizados, mas a situação política que se vive, sem precedentes, jamais nos pode deixar silenciados, imunes à displicência, no deixar para que os outros resolvam as situações, no óbvio do estado calamitoso do país, na acusação de que o mal vem sempre dos outros, no faz o que eu digo mas não olhes para o que eu faço.
E o país aí está, ao invés de acompanhar o ritmo dos nossos parceiros europeus, passou a uma velocidade como a do comboio da Beira Baixa, e na carruagem da cauda.
E, se alguns apeadeiros foram eliminados, os actuais governantes vieram recriá-los, produzindo mais demora no destino.
Tantos governantes! Muitas promessas havidas antes da subida ao palanque! A condição de vítima quando o tiro sai pela culatra! Se não foste tu que me sujaste a água, foi teu pai, como na história do lobo e do cordeiro!
E se a culpa não morreu solteira, ela é de todos quantos permutam a atenção constante e atitudes de desagrado pela inacção desenvolvida e pelo comodismo.
Neste país, que, apesar de tudo, ainda é de brandos costumes, há gentes, muito boas gentes, que vivem obcecadas pelos seus correligionários, ainda que reconhecendo o rumo abismal do seu país, com influências dum negativismo inconfundível.
Mas, vamos aos acontecimentos: como é possível querer a manutenção dum primeiro-ministro, à frente dos destinos do país, depois dos factos surgidos, só próprios dum ingénuo, sobejamente do conhecimento de todos quantos têm ouvidos para ouvir e olhos para ver?
A sua fluência, os seus dotes oratórios são um autêntico paradoxo em relação ao desempenho da sua tarefa governamental, onde, até no pormenor, deixou marcas da forma como o país não deve nem pode ser governado. Falta de atenção, logo na tomada de posse do governo; depois, foram várias facetas, do conhecimento público, passando, afrontado, com o selo da vitimização.
Até nas sondagens – por que não favoráveis – emergiu a ameaça de participação judicial já “que havia uma deplorável promiscuidade entre a política e as empresas de sondagens”, isto numa mente mórbida de quem pensou tratar-se duma “megafraude” aos “portugueses e portuguesas”.
Ao longo da campanha eleitoral, não tem feito mais que se queixar das “traições”, das “facadas”, e dos “tiros” que os seus correligionários dispararam na sua própria trincheira.
O apóstolo de Sá Carneiro pretendia que toda a gente corresse a exaltá-lo. Mas o povo não está louco
É que, conforme expressa Vasco Pulido Valente, no Público de 11/2/2005, “o PSD não precisa de um “bom” resultado em 20 de Fevereiro, precisa de um resultado que o livre de Santana”.
E, já José Manuel Fernandes, no mesmo diário, do dia seguinte, refere que “Santana tem oferecido menos que nada pois, apesar de ainda ser primeiro-ministro, consegue a proeza de não ter uma só ideia, uma só proposta, uma singela medida capaz de mostrar aos eleitores que não merece apenas ser varrido de São Bento por uma questão e higiene pública”.
E, depois, depois...o boato, esta arma dos cobardes, porque é anónima mas atinge quem não é anónimo. E porque é difícil de enfrentar. Boatos sobre líderes políticos sempre houve, no passado, como continuará a haver no futuro.
Já quando estive no serviço militar existiam alguns quadros distribuídos por paredes de salas ou refeitórios com os dizeres “o boato fere como uma lâmina”.
Nesta campanha eleitoral o boato ganhou um protagonismo só possível no momento em que veio à superfície sob a forma de insinuação, num comício e na boca de um candidato.
Vamos para as eleições. É preciso não ter medo de atravessar a ponte e votar, embora com cepticismo. Retirar o cachecol partidário e votar.
Também sou pela convicção de que, actualmente, o melhor é uma maioria absoluta. E para tal também vou contribuir.
É óbvio, para a situação actual, mas vou pelo lado de quem me transmite mais verdade.
Não espero que Sócrates retire tão depressa o país da mediocridade em que se atolou, mas espero que afaste Santana, e venha a restituir à vida política um módico de normalidade. Não preciso de saltar o muro, nem de atravessar a ponte porque há muito que optei.
Depois, sejamos exigentes, sempre alerta, rigorosos, para que jamais existam trapalhadas mas antes possamos viver como dos melhores europeus, pois temos muitas dificuldades a enfrentar, numa constante, uma delas a China, que vem afrontar as empresas, sem excepção das da Covilhã e nossa região.
Esperemos um novo timoneiro que venha liderar os destinos de um novo governo, para unir Portugal contra a baixa educação, a falta de civismo, de rigor e de profissionalismo, contra uma cultura de superficialidade, de irresponsabilidade, de esperteza saloia, de interesses de legitimidade duvidosa, contra a injustiça social e fiscal, contra as desigualdades de oportunidades.
E, como no DNA de 11/2/2005, “vou disparar uma prece, rebentar uma súplica, explodir a angústia, implodir a esperança, detonar a alegria, accionar a alma”- e desejo efusivamente que, no dia 20 de Fevereiro, regresse de vez a ESPERANÇA.
(In “Notícias da Covilhã”, de 18/02/2005)
28 de janeiro de 2005
D. QUIXOTE E OS SANCHOS-PANÇAS
No domingo, 16 de Janeiro, lá estivemos na Catedral da Guarda, na cerimónia da tomada de posse de D. Manuel da Rocha Felício, como Bispo coadjutor, com direito de sucessão a D. António dos Santos.
O templo estava repleto. Era a grande festa, com forasteiros de todas as zonas da diocese da Guarda. As pessoas baixinhas a empurrarem para a frente as mais altas, procurando um espaço, um pequeno ângulo, tentar sobrepor-se às cabeleiras mais elevadas, algumas ainda a cheirar a cabeleireiro, numa ânsia de poderem ver o novo Bispo, e o restante cortejo, já que lhes ofuscavam as suas vistas, mesmo pondo-se nos bicos dos pés.
Vários presidentes de câmaras dos concelhos da diocese da Guarda, e outras entidades, assistiram, como nós, ao grande cortejo de vários Bispos, liderados pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, com dezenas e dezenas de padres.
E vieram gentes, muitas gentes, algumas com os fatos a cheirar a naftalina; gentes dos meios rurais aos citadinos; alguma comunicação social atrasada; seminaristas engravatados; pessoas com cartazes das suas terras; davam uma vivência forte ao acto, há muito não vista.
Desejamos, de facto, uma voz que se faça ouvir, num grande eco, como algumas excelências reverendíssimas o fizeram em determinadas regiões do País, assim tendo contribuído para que ficassem marcas vincadas das suas personalidades, não só nessas cidades, como em todo o País, porque as suas vozes não doíam.
Uma palmada nas costas, e, Manuel Lúcio, de Manteigas, falou-nos do Noticias da Covilhã, ali mesmo na catedral.
Afinal, Notícias da Covilhã já completou 92 anos no passado dia 12 de Janeiro, e, quando este Semanário – o mais antigo da Região – havia ultrapassado meio século, iniciámos o primeiro contacto escrito, com um texto publicado no dia 14/11/1964, já lá vão 41 anos! Parabéns, Notícias da Covilhã.
Começámos o ano de 2005, como numa triste e leda madrugada. Enquanto uns acordaram com sonhos lindos, um formigueiro de cidadãos levantou-se atarantado. Que mal fizemos nós, Senhor?!
Mas, neste ano, há várias efemérides: a morte do escritor Miguel Torga, há dez anos, em 17 de Janeiro de 1995, deixando uma obra com meia centena de títulos; e também a morte de Inês de Castro, acontecida há 650 anos, em 7 de Janeiro de 1355.
Sobre o que se está a passar no País, com o Cortejo de Oferendas a favor do dia 20 de Fevereiro, continuam as trapalhadas, as gaffes, as promessas, os avisos, os insultos, as ironias, as admirações, as estranhezas, o insólito; as contradições; o que hoje é verdade, amanhã é mentira; alvoroçam-se os boys e as girls, todos querendo pegar na caldeirinha do Sr. Prior, nesta aldeia grande – que este ano a Páscoa é mais cedo.
E, por isso, nada mais apropriada que uma efeméride mais para este ano: a morte do criador do Zé Povinho, Rafael Bordalo Pinheiro, há 100 anos, na madrugada de 23 de Janeiro de 1905. Hoje seria de oportunidade o seu semanário “A Paródia”.
Mas, também os 400 anos de “D. Quixote de La Mancha”, por Miguel de Cervantes, constituem uma outra efeméride para este ano.
Com o País suspenso numa das maiores crises da sua existência, navegando na fronteira entre a esperança e o desespero, esperemos que D. Quixote, que chegará à Mancha em 20 de Fevereiro, não tome os moinhos por gigantes, e com “choque de gestão” ou “plano tecnológico”possa encontrar o caminho certo para a sua Dulcineia.
Durante a marcha de D. Quixote, com o seu cavalo Rocinante, e com os pensamentos naquela sua dama, já não encontramos um único Sancho Pança, mas vários sanchos-panças, servos fiéis de D. Quixote.
Esperamos que D. Quixote encontre o rumo certo, e que os sanchos-panças possam, de facto, ser os fiéis escudeiros, pois necessitamos que La Mancha prospere, mas antes, recupere, em marcha acelerada.
Para ultimar esta crónica, de novo um recado à Câmara da Covilhã: quando é que intervém na limpeza da cidade, tornando-a mais limpa, eliminando, de vez, com as cagadelas dos cães e dos gatos, que grassam pelos passeios, e não só, de toda a cidade, agora em que se inicia a despoluição das nossas ribeiras.
Crie-se legislação adequada, como sucedeu em Braga, e noutros concelhos do País, obrigando os donos dos canídeos e felinos a respeitarem o ambiente. Ou é necessário chamar D. Quixote?
(In “Notícias da Covilhã”, de 28/01/2005)
O templo estava repleto. Era a grande festa, com forasteiros de todas as zonas da diocese da Guarda. As pessoas baixinhas a empurrarem para a frente as mais altas, procurando um espaço, um pequeno ângulo, tentar sobrepor-se às cabeleiras mais elevadas, algumas ainda a cheirar a cabeleireiro, numa ânsia de poderem ver o novo Bispo, e o restante cortejo, já que lhes ofuscavam as suas vistas, mesmo pondo-se nos bicos dos pés.
Vários presidentes de câmaras dos concelhos da diocese da Guarda, e outras entidades, assistiram, como nós, ao grande cortejo de vários Bispos, liderados pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, com dezenas e dezenas de padres.
E vieram gentes, muitas gentes, algumas com os fatos a cheirar a naftalina; gentes dos meios rurais aos citadinos; alguma comunicação social atrasada; seminaristas engravatados; pessoas com cartazes das suas terras; davam uma vivência forte ao acto, há muito não vista.
Desejamos, de facto, uma voz que se faça ouvir, num grande eco, como algumas excelências reverendíssimas o fizeram em determinadas regiões do País, assim tendo contribuído para que ficassem marcas vincadas das suas personalidades, não só nessas cidades, como em todo o País, porque as suas vozes não doíam.
Uma palmada nas costas, e, Manuel Lúcio, de Manteigas, falou-nos do Noticias da Covilhã, ali mesmo na catedral.
Afinal, Notícias da Covilhã já completou 92 anos no passado dia 12 de Janeiro, e, quando este Semanário – o mais antigo da Região – havia ultrapassado meio século, iniciámos o primeiro contacto escrito, com um texto publicado no dia 14/11/1964, já lá vão 41 anos! Parabéns, Notícias da Covilhã.
Começámos o ano de 2005, como numa triste e leda madrugada. Enquanto uns acordaram com sonhos lindos, um formigueiro de cidadãos levantou-se atarantado. Que mal fizemos nós, Senhor?!
Mas, neste ano, há várias efemérides: a morte do escritor Miguel Torga, há dez anos, em 17 de Janeiro de 1995, deixando uma obra com meia centena de títulos; e também a morte de Inês de Castro, acontecida há 650 anos, em 7 de Janeiro de 1355.
Sobre o que se está a passar no País, com o Cortejo de Oferendas a favor do dia 20 de Fevereiro, continuam as trapalhadas, as gaffes, as promessas, os avisos, os insultos, as ironias, as admirações, as estranhezas, o insólito; as contradições; o que hoje é verdade, amanhã é mentira; alvoroçam-se os boys e as girls, todos querendo pegar na caldeirinha do Sr. Prior, nesta aldeia grande – que este ano a Páscoa é mais cedo.
E, por isso, nada mais apropriada que uma efeméride mais para este ano: a morte do criador do Zé Povinho, Rafael Bordalo Pinheiro, há 100 anos, na madrugada de 23 de Janeiro de 1905. Hoje seria de oportunidade o seu semanário “A Paródia”.
Mas, também os 400 anos de “D. Quixote de La Mancha”, por Miguel de Cervantes, constituem uma outra efeméride para este ano.
Com o País suspenso numa das maiores crises da sua existência, navegando na fronteira entre a esperança e o desespero, esperemos que D. Quixote, que chegará à Mancha em 20 de Fevereiro, não tome os moinhos por gigantes, e com “choque de gestão” ou “plano tecnológico”possa encontrar o caminho certo para a sua Dulcineia.
Durante a marcha de D. Quixote, com o seu cavalo Rocinante, e com os pensamentos naquela sua dama, já não encontramos um único Sancho Pança, mas vários sanchos-panças, servos fiéis de D. Quixote.
Esperamos que D. Quixote encontre o rumo certo, e que os sanchos-panças possam, de facto, ser os fiéis escudeiros, pois necessitamos que La Mancha prospere, mas antes, recupere, em marcha acelerada.
Para ultimar esta crónica, de novo um recado à Câmara da Covilhã: quando é que intervém na limpeza da cidade, tornando-a mais limpa, eliminando, de vez, com as cagadelas dos cães e dos gatos, que grassam pelos passeios, e não só, de toda a cidade, agora em que se inicia a despoluição das nossas ribeiras.
Crie-se legislação adequada, como sucedeu em Braga, e noutros concelhos do País, obrigando os donos dos canídeos e felinos a respeitarem o ambiente. Ou é necessário chamar D. Quixote?
(In “Notícias da Covilhã”, de 28/01/2005)
14 de janeiro de 2005
A GÉNESE DO NATAL
Quando estas linhas forem lidas já passou o Natal. O bulício dos preparativos para a grande noite, em alternância com os votos de Festas Felizes; o encontro dos familiares e amigos; a alegria de juntar os filhos e os netos; mas também o inconformismo por um salário ainda por receber; o não ter podido comprar tudo o que desejava; o emprego perdido ou ainda não conseguido; o familiar doente; a cadeira que perpetuamente ficou vazia; tudo isto não altera o sentido da quadra natalícia.
É também a altura mais propícia para a solidariedade, procurando-se auxiliar um pouco mais os carecidos de bens materiais, não só os duma perene indigência, mas todos quantos foram envolvidos numa pobreza envergonhada, ou apanhados na rede de uma doença.
A pobreza não reside somente na falta de recursos para a subsistência física, é também na insuficiência de meios para participar na vida humanizada da comunidade: falta de casa, falta de trabalho, falta de educação, falta de saúde, falta de desenvolvimento sustentado. E, em contraste, pode ser pobre quem tem tudo, mas vive no desespero da solidão.
A par das carências materiais, outros males emergem e ressaltam neste período natalício, de maiores dificuldades – que, há três ou quatro décadas era de inexistente preocupação – como a droga e um acentuar da profissão mais velha do mundo, a par de problemas de índole psíquica, difíceis de solucionar.
O dilúvio de divórcios, por dá cá aquela palha, em tempos duma modernidade muitas vezes não adaptável ao sentido da condição humana, reduz drasticamente os anos de uma união a dois, de tal forma que cada vez há mais Natais em que os dias 24 e 25 estão possuídos do forte desejo para que surja bem depressa o dia seguinte.
Se é certo que, felizmente, vemos surgir com alguma frequência quem procure dar um pouco do seu tempo em prol de instituições de solidariedade social, impregnados dum verdadeiro espírito de ajuda a outrem, alguns há que não passam duns verdadeiros mercenários da caridade, no evidente desejo do protagonismo, com actos farisaicos, pondo em xeque as próprias instituições onde se encontram inseridos.
O Natal de outrora tinha outros cambiantes; o Natal de hoje virou num festival de consumo, onde as crianças se vêem rodeadas de inúmeros brinquedos, que bem depressa os colocam de lado.
Mas, afinal, quais as origens do Natal?
As versões são variadas, mas tudo gira à volta do solstício de Inverno, como anúncio do Sol triunfante sobre a noite e o frio. O Sol era então a fonte e símbolo de vida que, ciclicamente, desaparecia cada vez mais cedo no horizonte. Segundo o Diário de Notícias, em tempos remotos os povos temiam a estação do Inverno e, ignorantes dos movimentos da natureza, interrogavam-se se não mais voltasse o verde que dá vida aos campos; e se não mais acordasse o Sol, estendendo-se uma eterna noite? Com ansiedade os povos buscavam um sinal de esperança no renascer da vegetação, da vida.
A míngua dos dias levava os povos a temerem as noites do solstício de Inverno e a acenderem fogueiras e madeiros, chamas vivas de luz, apelando à aurora. Quando passava a noite mais longa e a manhã nascia, os povos saudavam o sol. A pressão dos cultos pagãos, e de correntes no seio na Igreja, levou esta a assumir como celebração o nascimento de Cristo ao mundo, havendo a dificuldade da sua data. É então estabelecida a data de 25 de Dezembro, por volta do século IV, num desejo de dar um sentido cristão a uma festa pagã. Somente S. Lucas fala dos pastores e dos seus rebanhos, vindo saudar o Menino, o que, obviamente se enquadraria na Primavera. Foram fixados o dia 25 de Março, equinócio da Primavera e até o dia 20 de Maio. Adaptando como estratégia contra a popularidade do culto de Mitra, a Igreja apropriou-se do simbolismo do imaginário popular e escolheu para assinalar o nascimento de Jesus, que passa a ser festejado a partir do século IV, depois do cristianismo ser declarado religião oficial do Estado pela conversão do Imperador Constantino. Não houve unanimidade nos cristãos que se dividiram em duas datas, ambas cobrindo o calendário das festas pagãs. A Igreja do Oriente escolhe para nascimento e simultaneamente para adoração pelos Reis Magos e baptismo de Jesus o 6 de Janeiro, Dia da Epifania, data que, no calendário juliano, encerrava o solstício de Inverno. A Igreja do Ocidente escolhe o 25 de Dezembro, fundamentando esta opção na data considerada como concepção de Cristo a 25 de Março, o que perfaz exactamente nove meses. E, assim, no ano 336 surge a primeira referência escrita ao Natal – 25 de Dezembro, nascimento de Cristo, dia fixado definitivamente em 354 pelo calendário fitocaliano, e, a partir de 379, imposto por Roma a todo o Império. O Sol cedia assim o lugar ao Menino. Santo Agostinho, admitindo, implicitamente, a origem pagã da data natalícia, exortou os cristãos a festejarem a 25 de Dezembro, não o Sol, mas aquele que criou o Sol.
(In “Notícias da Covilhã”, de 14/01/2005)
É também a altura mais propícia para a solidariedade, procurando-se auxiliar um pouco mais os carecidos de bens materiais, não só os duma perene indigência, mas todos quantos foram envolvidos numa pobreza envergonhada, ou apanhados na rede de uma doença.
A pobreza não reside somente na falta de recursos para a subsistência física, é também na insuficiência de meios para participar na vida humanizada da comunidade: falta de casa, falta de trabalho, falta de educação, falta de saúde, falta de desenvolvimento sustentado. E, em contraste, pode ser pobre quem tem tudo, mas vive no desespero da solidão.
A par das carências materiais, outros males emergem e ressaltam neste período natalício, de maiores dificuldades – que, há três ou quatro décadas era de inexistente preocupação – como a droga e um acentuar da profissão mais velha do mundo, a par de problemas de índole psíquica, difíceis de solucionar.
O dilúvio de divórcios, por dá cá aquela palha, em tempos duma modernidade muitas vezes não adaptável ao sentido da condição humana, reduz drasticamente os anos de uma união a dois, de tal forma que cada vez há mais Natais em que os dias 24 e 25 estão possuídos do forte desejo para que surja bem depressa o dia seguinte.
Se é certo que, felizmente, vemos surgir com alguma frequência quem procure dar um pouco do seu tempo em prol de instituições de solidariedade social, impregnados dum verdadeiro espírito de ajuda a outrem, alguns há que não passam duns verdadeiros mercenários da caridade, no evidente desejo do protagonismo, com actos farisaicos, pondo em xeque as próprias instituições onde se encontram inseridos.
O Natal de outrora tinha outros cambiantes; o Natal de hoje virou num festival de consumo, onde as crianças se vêem rodeadas de inúmeros brinquedos, que bem depressa os colocam de lado.
Mas, afinal, quais as origens do Natal?
As versões são variadas, mas tudo gira à volta do solstício de Inverno, como anúncio do Sol triunfante sobre a noite e o frio. O Sol era então a fonte e símbolo de vida que, ciclicamente, desaparecia cada vez mais cedo no horizonte. Segundo o Diário de Notícias, em tempos remotos os povos temiam a estação do Inverno e, ignorantes dos movimentos da natureza, interrogavam-se se não mais voltasse o verde que dá vida aos campos; e se não mais acordasse o Sol, estendendo-se uma eterna noite? Com ansiedade os povos buscavam um sinal de esperança no renascer da vegetação, da vida.
A míngua dos dias levava os povos a temerem as noites do solstício de Inverno e a acenderem fogueiras e madeiros, chamas vivas de luz, apelando à aurora. Quando passava a noite mais longa e a manhã nascia, os povos saudavam o sol. A pressão dos cultos pagãos, e de correntes no seio na Igreja, levou esta a assumir como celebração o nascimento de Cristo ao mundo, havendo a dificuldade da sua data. É então estabelecida a data de 25 de Dezembro, por volta do século IV, num desejo de dar um sentido cristão a uma festa pagã. Somente S. Lucas fala dos pastores e dos seus rebanhos, vindo saudar o Menino, o que, obviamente se enquadraria na Primavera. Foram fixados o dia 25 de Março, equinócio da Primavera e até o dia 20 de Maio. Adaptando como estratégia contra a popularidade do culto de Mitra, a Igreja apropriou-se do simbolismo do imaginário popular e escolheu para assinalar o nascimento de Jesus, que passa a ser festejado a partir do século IV, depois do cristianismo ser declarado religião oficial do Estado pela conversão do Imperador Constantino. Não houve unanimidade nos cristãos que se dividiram em duas datas, ambas cobrindo o calendário das festas pagãs. A Igreja do Oriente escolhe para nascimento e simultaneamente para adoração pelos Reis Magos e baptismo de Jesus o 6 de Janeiro, Dia da Epifania, data que, no calendário juliano, encerrava o solstício de Inverno. A Igreja do Ocidente escolhe o 25 de Dezembro, fundamentando esta opção na data considerada como concepção de Cristo a 25 de Março, o que perfaz exactamente nove meses. E, assim, no ano 336 surge a primeira referência escrita ao Natal – 25 de Dezembro, nascimento de Cristo, dia fixado definitivamente em 354 pelo calendário fitocaliano, e, a partir de 379, imposto por Roma a todo o Império. O Sol cedia assim o lugar ao Menino. Santo Agostinho, admitindo, implicitamente, a origem pagã da data natalícia, exortou os cristãos a festejarem a 25 de Dezembro, não o Sol, mas aquele que criou o Sol.
(In “Notícias da Covilhã”, de 14/01/2005)
8 de outubro de 2004
MEMÓRIAS DO PADRE JOSÉ NABAIS
Também lá estive. Fui dar um abraço ao Padre Nabais.
Foi no domingo, 3 de Outubro, que este sacerdote também quis comemorar na sua antiga paróquia – Aldeia do Carvalho (hoje Vila) – as suas Bodas de Ouro sacerdotais.
Foi meu professor de música (disciplina então designada de “Canto Coral”) na Escola Industrial Campos Melo, na década de sessenta.
Mas já antes o conhecia como coadjutor da Paróquia da Conceição, sendo a sua característica a grande jovialidade, e com gosto pelo futebol.
Sei que tinha ido para o Brasil e do mesmo não soubera mais notícias.
Exerceu, ou iniciou a sua missão apostólica na Covilhã, no tempo em que, nesta cidade, eram responsáveis pelas quatro paróquias, padres que deixaram marcas indeléveis de persistente trabalho, sob a hierarquia de D. Policarpo da Costa Vaz.
O quarteto era então formado pelo Padre José Andrade (Conceição); José Domingues Carreto (S. Pedro); Joaquim Santos Morgadinho (S. Martinho); e José Batista Fernandes (Santa Maria), todos já fora do mundo dos vivos.
Nesse tempo, e noutra vertente, o então jovem padre – Fernando Brito dos Santos – exercia, entre outras tarefas, uma dinâmica acção (que duraria muitos anos) junto dos jovens, inseridos na Juventude Operária Católica, em tempos difíceis do anterior regime político do país.
E, na Aldeia do Carvalho, acumulava com a Paróquia dos Penedos Altos, e Borralheira, um outro padre de grande dinamismo – António de Oliveira Pita – que, nos primórdios da década de sessenta, em que poucos tinham automóvel, ele se deslocava de moto.
Foi exactamente o Padre Pita que viria a ser substituído, em Aldeia do Carvalho, pelo Padre José Nabais Pereira, onde esteve durante dez anos, deixando um trabalho de continuidade, que iniciou, de grande mérito.
Foi muito agradável ver o carinho que a Vila lhe dispensou, no dia 3 de Outubro, não esquecendo a sua acção em várias vertentes daquela paróquia e freguesia, sem omitir o desporto.
Foram-lhe entregues várias prendas, mas, de grande significado, também os actuais jovens recordaram o que os seus progenitores lhe disseram do Padre Nabais, sobre o desporto, e, no final da Eucaristia, ofereceram-lhe uma bola de futebol. O Padre Nabais, ao desembrulhá-la, cheio de alegria, deu de imediato uma cabeçada na redondinha.
Vou memorizar, para o final, esta passagem com o Padre José Nabais, jovial e muito amigo do futebol, que se reporta a Fevereiro de 1962, portanto, no início do seu trabalho à frente da Paróquia de Aldeia do Carvalho:
Participei no baptizado dum primo, em Aldeia do Carvalho; foi um domingo que, por sinal, coincidiu com um dia grande para o futebol na Covilhã – o Benfica vinha jogar ao Santos Pinto com os Leões da Serra, então na Primeira Divisão (como se designava na altura). Meus pais foram os padrinhos e, tal como aos pais do neófito, a todos lhes foi recomendado pelo Padre Nabais para que não chegassem atrasados à igreja (pois iam da Pousadinha para Aldeia do Carvalho), porque ele queria ir ver o Benfica.
Terminado a cerimónia, logo um táxi esperava o Padre Nabais para o levar ao estádio de futebol e, se bem se recordam, o Sporting da Covilhã ganhou por 2-1 (golos de José Augusto, pelo Benfica; de Amílcar e Chacho, pelo Sp. Covilhã).
Foi o “milagre” do padre Nabais...
(In “Notícias da Covilhã”, de 08/10/2004)
Foi no domingo, 3 de Outubro, que este sacerdote também quis comemorar na sua antiga paróquia – Aldeia do Carvalho (hoje Vila) – as suas Bodas de Ouro sacerdotais.
Foi meu professor de música (disciplina então designada de “Canto Coral”) na Escola Industrial Campos Melo, na década de sessenta.
Mas já antes o conhecia como coadjutor da Paróquia da Conceição, sendo a sua característica a grande jovialidade, e com gosto pelo futebol.
Sei que tinha ido para o Brasil e do mesmo não soubera mais notícias.
Exerceu, ou iniciou a sua missão apostólica na Covilhã, no tempo em que, nesta cidade, eram responsáveis pelas quatro paróquias, padres que deixaram marcas indeléveis de persistente trabalho, sob a hierarquia de D. Policarpo da Costa Vaz.
O quarteto era então formado pelo Padre José Andrade (Conceição); José Domingues Carreto (S. Pedro); Joaquim Santos Morgadinho (S. Martinho); e José Batista Fernandes (Santa Maria), todos já fora do mundo dos vivos.
Nesse tempo, e noutra vertente, o então jovem padre – Fernando Brito dos Santos – exercia, entre outras tarefas, uma dinâmica acção (que duraria muitos anos) junto dos jovens, inseridos na Juventude Operária Católica, em tempos difíceis do anterior regime político do país.
E, na Aldeia do Carvalho, acumulava com a Paróquia dos Penedos Altos, e Borralheira, um outro padre de grande dinamismo – António de Oliveira Pita – que, nos primórdios da década de sessenta, em que poucos tinham automóvel, ele se deslocava de moto.
Foi exactamente o Padre Pita que viria a ser substituído, em Aldeia do Carvalho, pelo Padre José Nabais Pereira, onde esteve durante dez anos, deixando um trabalho de continuidade, que iniciou, de grande mérito.
Foi muito agradável ver o carinho que a Vila lhe dispensou, no dia 3 de Outubro, não esquecendo a sua acção em várias vertentes daquela paróquia e freguesia, sem omitir o desporto.
Foram-lhe entregues várias prendas, mas, de grande significado, também os actuais jovens recordaram o que os seus progenitores lhe disseram do Padre Nabais, sobre o desporto, e, no final da Eucaristia, ofereceram-lhe uma bola de futebol. O Padre Nabais, ao desembrulhá-la, cheio de alegria, deu de imediato uma cabeçada na redondinha.
Vou memorizar, para o final, esta passagem com o Padre José Nabais, jovial e muito amigo do futebol, que se reporta a Fevereiro de 1962, portanto, no início do seu trabalho à frente da Paróquia de Aldeia do Carvalho:
Participei no baptizado dum primo, em Aldeia do Carvalho; foi um domingo que, por sinal, coincidiu com um dia grande para o futebol na Covilhã – o Benfica vinha jogar ao Santos Pinto com os Leões da Serra, então na Primeira Divisão (como se designava na altura). Meus pais foram os padrinhos e, tal como aos pais do neófito, a todos lhes foi recomendado pelo Padre Nabais para que não chegassem atrasados à igreja (pois iam da Pousadinha para Aldeia do Carvalho), porque ele queria ir ver o Benfica.
Terminado a cerimónia, logo um táxi esperava o Padre Nabais para o levar ao estádio de futebol e, se bem se recordam, o Sporting da Covilhã ganhou por 2-1 (golos de José Augusto, pelo Benfica; de Amílcar e Chacho, pelo Sp. Covilhã).
Foi o “milagre” do padre Nabais...
(In “Notícias da Covilhã”, de 08/10/2004)
FICÇÃO OU REALIDADE?
“Avô, isto é ficção, não é?”- eis a pergunta que o Gonçalo, de três anos, me coloca quando vê algumas cenas em programas de televisão, ao compreender que saem do campo da realidade.
Nestas últimas semanas temos assistido a uma agitação da sociedade portuguesa, muito pela culpabilidade dum governo que é ingovernável – um governo de ficção.
Vejamos a vergonha nacional, com a colocação dos professores agora prometida até 30 de Setembro. Há quase quarenta anos as aulas tinham, de facto, o seu início sempre em Outubro. Não podemos fazer comparação entre esses tempos de meia dúzia de universidades – só para alguns – e com o tecto do secundário que se ficava pelo antigo quinto ano, na sua generalidade; ou equivalente, através dos cursos comerciais ou industriais, de forte enriquecimento de conhecimentos para o ingresso no mundo do trabalho; e os tempos actuais.
Porquê a realidade deste descalabro duma dita reforma educativa?
Ao ouvir no programa na RTP 1, “Prós e Contras”, da jornalista de excelência, Fátima Campos Ferreira, a reportagem apresentada pelo jornalista António Esteves Martins, na Bélgica, onde um responsável pelo ensino deste país informou que a situação que se está a passar em Portugal seria inadmissível na Bélgica, onde tudo é tratado minuciosamente e no devido tempo, mais nos leva a pensar que, apesar das três décadas após a libertação da ditadura, ainda estamos muito longe da realidade para se deixar a cauda da cultura, dos que ensinam e dos que aprendem, no seio da Comunidade. Parece que vivemos num mundo de ficção, onde os méritos ficam longe da realidade!
Mesmo os que pouco se interessam pela causa cultural, os indiferentes, ou os ausentes das realidades actuais, já não deixam fazer o ninho atrás da orelha.
E muito menos os jovens, na vivência da sociedade portuguesa mais evoluída, agora que estamos muito mais inseridos da Europa.
Pensar em caminhar em regime de igualdade com todos os parceiros europeus, era uma autêntica ficção nos períodos salazarista e mesmo marcelista. Com o desaparecimento da guerra-fria, a integração na UE, a revolução informática, entre outros pontos de referência, foram tantas formas que nos forçaram a evoluir. Evolução forçada para muitos dos não jovens, pois que a oposição à mudança apenas seria um tiro a sair pela culatra.
Seria tão cómico, como hilariante foi a forma como um colega do meu tempo de estudante enfiou o barrete ao pai, homem de poucas letras, que, vendo um teste de francês em cima da mesa com uma anotação no canto superior direito, a encarnado, preocupado, pergunta ao filho: “Tens a folha toda riscada a vermelho, e aqui está um “P”, o que é isto? O espertalhão do filho (um dos que vinha todos os dias de comboio para a Escola Industrial), num rasgo de imaginação, diz-lhe: “Não vês, pai, que tive um porreiro”?! (quando o “P” era de péssimo...).
Os portugueses, hoje, estão esclarecidos, e sentem na carne os malefícios das incompetências.
Mas neste pequeno grande País em que se dá relevo às traquinices dum Zé Maria, do Big Brother, para gáudio de muitos, com mais uma “grande” notícia para a imprensa cor-de-rosa que adorna as bancas de jornais e tabacarias, por esse País fora; como a avidez de uma “grande” informação dum canal televisivo, ao anunciar que a tartaruga que estava a ser tratada no Algarve, já está a comer sozinha, parece que em vez de vivermos a realidade dum país evolutivo, existimos no retrocesso dum mundo de ficção.
Só com a consciencialização entre todos os que trabalham, numa doação entre trabalhadores e entidades patronais, todos obreiros da mesma causa, o nosso mundo poderá ser a realidade duma vida de bem-estar e não num mundo de ficção, este sempre com a realidade cada vez mais distante.
Também hão-de vir ministros das Finanças a falar das preocupações fiscais, com mais intenções, outras decisões e incompreensões, mas a classe média há-de continuar a suportar a maior fatia das crises, os pobres a ser cada vez mais pobres e os ricos a ver mais ousadas as suas engenharias financeiras.
A média dos salários da função pública é de 380 contos (disse o Ministro das Finanças na entrevista com Judite de Sousa, no passado dia 16 de Setembro, na RTP), salário que a média dos trabalhadores privados não aufere, bem como a forma de contagem e incidência das suas reformas.
A facilitação e o oportunismo são também causas da forma como se chegou a esta catastrófica situação financeira, onde os sinais exteriores de riqueza continuam a passar ao lado, independentemente de declararem unicamente o salário mínimo nacional.
Mas, como sói dizer-se, o exemplo vem do alto, e é do alto dos nossos governantes, candidatos a governantes ou ex-governantes, que muitas vezes vêm os maus exemplos. E...depois...as coisas acontecem, levando a uma situação paradoxal, com o Zé-povinho em vez de se encorajar a contribuir para a Nação, reforça a forma de pensar que “tirar ao Estado não é pecado”. Ficção ou realidade?
(In “Notícias da Covilhã”, de 8/10/2004)
Nestas últimas semanas temos assistido a uma agitação da sociedade portuguesa, muito pela culpabilidade dum governo que é ingovernável – um governo de ficção.
Vejamos a vergonha nacional, com a colocação dos professores agora prometida até 30 de Setembro. Há quase quarenta anos as aulas tinham, de facto, o seu início sempre em Outubro. Não podemos fazer comparação entre esses tempos de meia dúzia de universidades – só para alguns – e com o tecto do secundário que se ficava pelo antigo quinto ano, na sua generalidade; ou equivalente, através dos cursos comerciais ou industriais, de forte enriquecimento de conhecimentos para o ingresso no mundo do trabalho; e os tempos actuais.
Porquê a realidade deste descalabro duma dita reforma educativa?
Ao ouvir no programa na RTP 1, “Prós e Contras”, da jornalista de excelência, Fátima Campos Ferreira, a reportagem apresentada pelo jornalista António Esteves Martins, na Bélgica, onde um responsável pelo ensino deste país informou que a situação que se está a passar em Portugal seria inadmissível na Bélgica, onde tudo é tratado minuciosamente e no devido tempo, mais nos leva a pensar que, apesar das três décadas após a libertação da ditadura, ainda estamos muito longe da realidade para se deixar a cauda da cultura, dos que ensinam e dos que aprendem, no seio da Comunidade. Parece que vivemos num mundo de ficção, onde os méritos ficam longe da realidade!
Mesmo os que pouco se interessam pela causa cultural, os indiferentes, ou os ausentes das realidades actuais, já não deixam fazer o ninho atrás da orelha.
E muito menos os jovens, na vivência da sociedade portuguesa mais evoluída, agora que estamos muito mais inseridos da Europa.
Pensar em caminhar em regime de igualdade com todos os parceiros europeus, era uma autêntica ficção nos períodos salazarista e mesmo marcelista. Com o desaparecimento da guerra-fria, a integração na UE, a revolução informática, entre outros pontos de referência, foram tantas formas que nos forçaram a evoluir. Evolução forçada para muitos dos não jovens, pois que a oposição à mudança apenas seria um tiro a sair pela culatra.
Seria tão cómico, como hilariante foi a forma como um colega do meu tempo de estudante enfiou o barrete ao pai, homem de poucas letras, que, vendo um teste de francês em cima da mesa com uma anotação no canto superior direito, a encarnado, preocupado, pergunta ao filho: “Tens a folha toda riscada a vermelho, e aqui está um “P”, o que é isto? O espertalhão do filho (um dos que vinha todos os dias de comboio para a Escola Industrial), num rasgo de imaginação, diz-lhe: “Não vês, pai, que tive um porreiro”?! (quando o “P” era de péssimo...).
Os portugueses, hoje, estão esclarecidos, e sentem na carne os malefícios das incompetências.
Mas neste pequeno grande País em que se dá relevo às traquinices dum Zé Maria, do Big Brother, para gáudio de muitos, com mais uma “grande” notícia para a imprensa cor-de-rosa que adorna as bancas de jornais e tabacarias, por esse País fora; como a avidez de uma “grande” informação dum canal televisivo, ao anunciar que a tartaruga que estava a ser tratada no Algarve, já está a comer sozinha, parece que em vez de vivermos a realidade dum país evolutivo, existimos no retrocesso dum mundo de ficção.
Só com a consciencialização entre todos os que trabalham, numa doação entre trabalhadores e entidades patronais, todos obreiros da mesma causa, o nosso mundo poderá ser a realidade duma vida de bem-estar e não num mundo de ficção, este sempre com a realidade cada vez mais distante.
Também hão-de vir ministros das Finanças a falar das preocupações fiscais, com mais intenções, outras decisões e incompreensões, mas a classe média há-de continuar a suportar a maior fatia das crises, os pobres a ser cada vez mais pobres e os ricos a ver mais ousadas as suas engenharias financeiras.
A média dos salários da função pública é de 380 contos (disse o Ministro das Finanças na entrevista com Judite de Sousa, no passado dia 16 de Setembro, na RTP), salário que a média dos trabalhadores privados não aufere, bem como a forma de contagem e incidência das suas reformas.
A facilitação e o oportunismo são também causas da forma como se chegou a esta catastrófica situação financeira, onde os sinais exteriores de riqueza continuam a passar ao lado, independentemente de declararem unicamente o salário mínimo nacional.
Mas, como sói dizer-se, o exemplo vem do alto, e é do alto dos nossos governantes, candidatos a governantes ou ex-governantes, que muitas vezes vêm os maus exemplos. E...depois...as coisas acontecem, levando a uma situação paradoxal, com o Zé-povinho em vez de se encorajar a contribuir para a Nação, reforça a forma de pensar que “tirar ao Estado não é pecado”. Ficção ou realidade?
(In “Notícias da Covilhã”, de 8/10/2004)
27 de agosto de 2004
TEMPO DE FÉRIAS
Este Verão, tanto de quente como de molhado, veio pregar uma partida aos incendiários que vêem retardadas as suas malévolas intenções. Já ardeu 25% de floresta portuguesa no último decénio, e, considerando toda a área ardida, no mesmo período, verifica-se um cenário dramático equivalente a 15% do território nacional. É confrangedor.
Mas a época convida a espairecer e ao descanso, sem propiciar o empenhamento em grandes tarefas, nas várias vertentes.
A maioria dos portugueses fazem tudo para gozar férias nos meses de Verão, sendo Agosto o mês eleito para as mesmas, tanto no sector público como no privado. O País praticamente pára, como que numa anestesia.
Há classes profissionais que são obrigadas a parar em Agosto e outras, de quem se espera uma disponibilidade total, nesta época do ano, ficam também a funcionar a meio gás, como sói dizer-se.
Também fomos carregar as baterias, neste Agosto instável. Chegou uma semana para quem não está habituado a muito descanso.
Depois de assentar arraiais no local previamente seleccionado, foi a vez de chegar a uma das bancas para reservar o jornal diário, preferido de há muitos anos. Como sempre, a simpatia de quem vende.
Uma boa caldeirada, um bom robalo grelhado ou qualquer outro prato da zona pesqueira, bem regado com tinto, de preferência, ou verde, fazem as delícias dos dias de descanso.
Numa pastelaria, um cafezinho. Junto à caixa registadora, uma caixinha com os dizeres: “Não guarde para amanhã o que pode fazer hoje – gorjeta”. À nossa pergunta, a resposta: “É para um jantar”.
Passado o reparo, também é a altura de se lerem com mais vagar, os temas de articulistas que nos passam à margem, no quotidiano, por incompatibilidade com a escassez de tempo.
E, uma das coisas que nos apercebemos, sem necessidade de recorrer a notícias, foi que o sector da restauração tem sentido no prato a garfada da crise, sendo que assim se pode aceitar que o volume de negócios do sector registou uma quebra de 25%.
Falando só dos assuntos nacionais, o panorama é desolador: 27 mil microempresas podem fechar as portas em 2005 face à nova lei das sociedades comerciais; o desenvolvimento humano em Portugal desce no “ranking” da ONU, estagnando e voltando a ser o pior dos antigos 15 países da EU; temos as empresas mais endividadas, atingindo um recorde de 105% do PIB em 2002, do endividamento à banca, justificando a forte quebra do investimento privado e o atraso na retoma da economia (segundo um estudo do FMI embora, segundo o Instituto Nacional de Estatística, no mês de Junho, viesse a informar que os portugueses estavam mais confiantes face ao futuro, de harmonia com o resultado dos inquéritos de Maio perante a percepção dos agentes económicos); a inflação subiu para 2,8% em Julho, e a taxa de desemprego, para 6,3%; segundo relatório da ONU, a economia portuguesa deverá crescer 1,1%, este ano, o valor mais baixo dos 25 Estados membros da UE.
E, também preocupante, no tema económico, é o receio de como garantir a sustentabilidade financeira da Segurança Social para pagar as futuras pensões de reforma, de acordo com o sistema actualmente em vigor (embora os defensores desta tese não consigam demonstrá-la de uma forma fundamentada e tecnicamente consistente), pelo que, empreender terá que ser com reflexão.
E a nossa região sente, como ninguém, os efeitos nocivos da crise, onde as fábricas laneiras se passaram a contar pelos dedos das mãos, e as confecções de vestuário em situação preocupante, agora com a sina de a China vir a “esmagar” o resto que remanesce dos têxteis. As notícias menos boas continuam a surgir com as pensões de velhice que aumentaram mais no País que na região beirã.
E, para ultimar este período de breves férias, a missiva de um bom amigo de Valbom, que há 36 anos viveu na Covilhã: “Os tempos de hoje são de raiva contida pois não há a certeza de que, se a raiva explodisse, servisse para alguma coisa, enquanto há vinte ou trinta anos, ao explodir, criava-se comoção e havia uma mudança. Hoje, temos a sensação de que nada serve para nada, como se estivéssemos num momento de paralisia da sociedade, num impasse. Se há raiva, cada um engole-a e ao fazê-lo nem sequer tem direito à indignação. De vez em quando há umas manifestações de bandeiras que deviam ser símbolos de uma nação e passam a ser pendões de circo, esquecendo a caldeirinha. Logo a seguir o costume, o é hábito, a paz de um quase cemitério de falências, desemprego e do salve-se quem puder”.
(In “Notícias da Covilhã”, de 27/08/2004)
Mas a época convida a espairecer e ao descanso, sem propiciar o empenhamento em grandes tarefas, nas várias vertentes.
A maioria dos portugueses fazem tudo para gozar férias nos meses de Verão, sendo Agosto o mês eleito para as mesmas, tanto no sector público como no privado. O País praticamente pára, como que numa anestesia.
Há classes profissionais que são obrigadas a parar em Agosto e outras, de quem se espera uma disponibilidade total, nesta época do ano, ficam também a funcionar a meio gás, como sói dizer-se.
Também fomos carregar as baterias, neste Agosto instável. Chegou uma semana para quem não está habituado a muito descanso.
Depois de assentar arraiais no local previamente seleccionado, foi a vez de chegar a uma das bancas para reservar o jornal diário, preferido de há muitos anos. Como sempre, a simpatia de quem vende.
Uma boa caldeirada, um bom robalo grelhado ou qualquer outro prato da zona pesqueira, bem regado com tinto, de preferência, ou verde, fazem as delícias dos dias de descanso.
Numa pastelaria, um cafezinho. Junto à caixa registadora, uma caixinha com os dizeres: “Não guarde para amanhã o que pode fazer hoje – gorjeta”. À nossa pergunta, a resposta: “É para um jantar”.
Passado o reparo, também é a altura de se lerem com mais vagar, os temas de articulistas que nos passam à margem, no quotidiano, por incompatibilidade com a escassez de tempo.
E, uma das coisas que nos apercebemos, sem necessidade de recorrer a notícias, foi que o sector da restauração tem sentido no prato a garfada da crise, sendo que assim se pode aceitar que o volume de negócios do sector registou uma quebra de 25%.
Falando só dos assuntos nacionais, o panorama é desolador: 27 mil microempresas podem fechar as portas em 2005 face à nova lei das sociedades comerciais; o desenvolvimento humano em Portugal desce no “ranking” da ONU, estagnando e voltando a ser o pior dos antigos 15 países da EU; temos as empresas mais endividadas, atingindo um recorde de 105% do PIB em 2002, do endividamento à banca, justificando a forte quebra do investimento privado e o atraso na retoma da economia (segundo um estudo do FMI embora, segundo o Instituto Nacional de Estatística, no mês de Junho, viesse a informar que os portugueses estavam mais confiantes face ao futuro, de harmonia com o resultado dos inquéritos de Maio perante a percepção dos agentes económicos); a inflação subiu para 2,8% em Julho, e a taxa de desemprego, para 6,3%; segundo relatório da ONU, a economia portuguesa deverá crescer 1,1%, este ano, o valor mais baixo dos 25 Estados membros da UE.
E, também preocupante, no tema económico, é o receio de como garantir a sustentabilidade financeira da Segurança Social para pagar as futuras pensões de reforma, de acordo com o sistema actualmente em vigor (embora os defensores desta tese não consigam demonstrá-la de uma forma fundamentada e tecnicamente consistente), pelo que, empreender terá que ser com reflexão.
E a nossa região sente, como ninguém, os efeitos nocivos da crise, onde as fábricas laneiras se passaram a contar pelos dedos das mãos, e as confecções de vestuário em situação preocupante, agora com a sina de a China vir a “esmagar” o resto que remanesce dos têxteis. As notícias menos boas continuam a surgir com as pensões de velhice que aumentaram mais no País que na região beirã.
E, para ultimar este período de breves férias, a missiva de um bom amigo de Valbom, que há 36 anos viveu na Covilhã: “Os tempos de hoje são de raiva contida pois não há a certeza de que, se a raiva explodisse, servisse para alguma coisa, enquanto há vinte ou trinta anos, ao explodir, criava-se comoção e havia uma mudança. Hoje, temos a sensação de que nada serve para nada, como se estivéssemos num momento de paralisia da sociedade, num impasse. Se há raiva, cada um engole-a e ao fazê-lo nem sequer tem direito à indignação. De vez em quando há umas manifestações de bandeiras que deviam ser símbolos de uma nação e passam a ser pendões de circo, esquecendo a caldeirinha. Logo a seguir o costume, o é hábito, a paz de um quase cemitério de falências, desemprego e do salve-se quem puder”.
(In “Notícias da Covilhã”, de 27/08/2004)