12 de outubro de 2010

CONTENDA FORA DOS ESTÁDIOS

Pela primeira vez, a principal colectividade desportiva desta região beirã, vai apresentar-se a eleições, com dois candidatos. Realça-se assim a maior importância dedicada ao histórico Sporting Clube da Covilhã (SCC).

Que seja um acto dignificante para a nossa Cidade, já que de tudo o que se passar é o nome da Covilhã que ganha ou perde.

As atitudes indignas de alguns intervenientes, na última Assembleia-Geral do SCC, vieram a passar de “bestial a besta” o Presidente da Assembleia-Geral.

O SCC foi o meu Clube de sempre, desde os tempos em que, gaiato, não tinha dinheiro para ir ao futebol e aguardava pelos vinte minutos finais de abertura dos portões para entrar no “Santos Pinto”. Cá fora sofria com o resultado, e, depois, aguardava que os jogadores forasteiros saíssem. Era o tempo da antiga Primeira Divisão.

Como covilhanense, e sócio do Clube, não devo alhear-me dos seus problemas. Tenho pena que este desentendimento, que não é crise, tenha acontecido, já que sou amigo e tenho consideração pelas duas partes envolvidas – Presidentes da Assembleia-Geral e da Direcção do SCC.

Tenho a minha visão própria do Clube em geral e das suas pessoas. Não somos todos iguais. Vivemos em democracia e em democracia se devem resolver as questões.

Um dos actos que sei estar presente na mente dos Homens da contenda é a manutenção e desenvolvimento da formação das camadas jovens do SCC, pelo que há esperança.

O SCC merece voos mais altos direccionados para a I Liga, com pedras basilares que sejam activos do próprio Clube para poderem vir a ser mais-valias no futuro. Não podemos andar com situações latentes entre a manutenção e a descida de divisão do SCC. Será nesta visão que vou escolher o candidato.

É, no entanto, de lamentar que um Homem que deu muito ao Clube, em termos financeiros, nos tempos que correm – e poderá continuar a dar – tenha sido “apedrejado”, num esquecimento de que estes Homens não surgem com facilidade. E ele, do clube, nada necessita.

Quando eu procurava arranjar fundos para satisfazer a despesa tipográfica com o meu quarto livro sobre o SCC, foi António Lopes que, espontaneamente, se dispôs assumir o pagamento das suas despesas. Pagou as verbas em falta e o produto da venda reverte a favor do SCC.

António Lopes será sempre sócio benemérito, por mais escorraçado que seja, apesar de ter devolvido ao SCC todas as distinções que lhe foram concedidas.

Outros clubes, como soe dizer-se, andariam com o Homem nas “palminhas das mãos”.

E, como também é hábito dizer-se que “Santos da porta não fazem milagres”, cumpre-me, entristecido com a última Assembleia-Geral, apresentar parte do currículo de António Lopes:

- Conhecido sindicalista na Covilhã, aquando da grave crise por que passaram as Minas da Panasqueira, com grande actuação, alguns dias, junto á Câmara Municipal da Covilhã, durante a greve daquele sector mineiro; passou depois a empresário de sucesso, e é reconhecido pelo governo brasileiro – Estado do Rio de Janeiro –, com a atribuição da Honorífica Medalha Tiradentes – a mais alta condecoração do Estado brasileiro –, em 2001, registando mesmo a expressão de “humilde em sua grandeza e grande em sua humildade”, “importante cidadão do mundo”; título de “Cidadão do Estado do Rio de Janeiro”, em 2001; título de “Cidadão Campista de “Campos dos Goytacazes” – Brasil; sócio Benemérito da “Associação de garantia ao Atleta Profissional/RJ (Rio de Janeiro); reconhecido pelo Governo da Madeira, de Alberto João Jardim; Presidente da Assembleia Municipal de Oliveira do Hospital. Podem ainda ver o seu nome numa rua – Rua António Santos Lopes – Vila Franca da Beira.

Enfim, para além de muita acção benemérita noutros clubes e associações, nomeadamente de Unhais da Serra (e actualmente na Associação de Futebol de Castelo Branco), a sua benemerência estendeu-se também a algumas Associações de Bombeiros Voluntários.

E, com tudo isto, é este Homem desprezado e insultado?

Não consigo comentar tais condutas.

Aqui fica a minha contribuição para o esclarecimento das mentes desinformadas.


(In “Tribuna Desportiva”, de 12/10/2010 e “Notícias da Covilhã”, de 14/10/2010)

1 de outubro de 2010

Dignificação do Mediador Profissional de Seguros


(In Vida Económica – Separata de Seguros, em 1 de Outubro de 2010; e no Boletim Digital “Essencial Seguros”, respeitante ao mês de Outubro 2010)

AS MINAS DA PANASQUEIRA, SITAS NO CONCELHO DA COVILHÃ, EXISTEM HÁ 115 ANOS

O trabalho das minas é um dos mais difíceis e de grande perigosidade, em qualquer parte do mundo.

E, de vez em quando, surgem as notícias catastróficas em minas, com a perda de muitas vidas.

Há já algumas semanas que mais de trinta mineiros chilenos aguardam, num sopro de esperança, que possam ser salvos, a mais de setecentos metros de profundidade, enquanto que, por um pequeno tubo, e face às novas tecnologias, vão recebendo alimentação, roupa e o que é possível fazer lá chegar, já que são necessários alguns meses para que, com a perfuração para uma abertura, possam ser retirados, um a um, num acto hercúleo, todos os mineiros.

E, independentemente destes perigos, outra situação atraiçoa os mineiros, através das doenças inerentes a esta actividade, como a silicose, que afecta os pulmões destes trabalhadores, incapacitando-os para o trabalho, pois é a mais antiga e mais grave das doenças pulmonares, sendo a mais predominante à inalação de poeiras minerais.

Nas freguesias do concelho da Covilhã, vizinhas das Minas da Panasqueira, como São Jorge da Beira, Aldeia de S. Francisco de Assis, Sobral de Casegas e Casegas, e, por isso, com muitos dos seus habitantes a trabalhar naquela actividade, viam-se muitas famílias, nos primeiros anos da década de setenta, confrontados com a incapacidade, e até a morte, de muitos dos seus familiares, que ali ganhavam o sustento da família. Lá iam aguardando que chegasse o fim do mês para receberam as pequenas pensões vitalícias das Seguradoras, onde então as doenças profissionais se incluíam no âmbito dos acidentes de trabalho. Isso depois acabou e passou a Segurança Social a ser a responsável pelas pensões.

Após o 25 de Abril, com a reivindicação dos trabalhadores, não só da indústria de lanifícios, como de toda as outras actividades, chegou também a altura de forte contestação, com uma grande greve, prolongada, dos mineiros das Minas da Panasqueira, tendo-se deslocado à sede do concelho, e, junto da Câmara Municipal da Covilhã, permaneceram alguns dias, chegando a dormir em frente ao município, com a RTP, de um único canal (ainda aqui não chegava o 2.º canal) a fazer a reportagem. Ainda não existiam as televisões privadas, mas havia muitos jornalistas não só nacionais como estrangeiros.

À frente desses mineiros encontrava-se um forte delegado sindical, de nome António dos Santos Lopes. Esta figura haveria de ser, mais tarde, um grande empresário, tendo partido para a Madeira e Brasil, onde exerceu o seu negócio, sendo um empresário de sucesso, nos tempos difíceis que se atravessam.

Na Madeira chegou a ser presidente do clube de futebol, União da Madeira, e, actualmente, é o Presidente da Assembleia-Geral do Sporting Clube da Covilhã e seu segundo sócio benemérito.

Além do SCC, também aos bombeiros e outras colectivas, desportivas e não só, tem apoiado financeiramente, num acto de benemerência.

As Minas da Panasqueira haviam encerrado no ano de 1993 mas, após dias difíceis, surgiram novas perspectivas laborais, precisamente no ano em que completaram um século de laboração, em 1995, tendo reaberto uma vez que o valor do tungsténio, no mercado mundial de volfrâmio, atingiu um preço compensatório e favorável à exploração do minério.

Segundo um interessante trabalho de Fabião Baptista, inserido no “Notícias da Covilhã” de 21-04-1995, verificamos como tudo começou.



Com o Carvão vem o Volfrâmio



Decorria o ano de 1895.

O Inverno ia agreste. Lufadas de vento siberiano eram coadas pelas acerosas agulhas dos frondosos pinhais. Bátegas de água, fustigadas pela ventania, tamborilavam nas vidraças das janelas quase a desconjuntar-se. O rio Zêzere, esse apresentava enorme cheia, alargando as courelas e tapadas adjacentes ao leito do rio.

Indiferente a tudo isto, Manuel dos Santos, com os pés estirados em direcção ao calor acariciador que vinha da braseira, lia atentamente o “Diário de Notícias” .

A leitura era interrompida pela abrupta entrada de uma das suas filhas, que lhe anuncia a chegada do carvoeiro, o Pescão de Casegas. Manuel dos Santos manda entrar de imediato o homem, pois tem grande necessidade de falar com o Pescão.

“Olha lá, ó Pescão, nas terras onde costumas fazer carvão, nunca encontraste pedras reluzentes?”

- “Por sinal, patrão – retorquiu o carvoeiro – tanto na Panasqueira, como no Cabeço do Pião, tanto na Madorrada, como no Vale Torto, quando faço as “torgas”, aparecem sempre uns calhaus negros, lascados, muito luzidios e pesados e outros transparentes como o vidro. Todos eles brilham bastante à luz do sol. Se o patrão quiser, posso trazer-lhe uma “taleigada” deles, quando voltar com a nova saca de carvão”.

Manuel dos Santos, que vivia numa solarenga casa na Barroca do Zêzere, ao fundo do Povo e muito próximo da capela de S. Romão, indagou deste modo o seu solícito fornecedor de carvão, porque momentos antes havia lido no “Diário de Notícias” um anúncio chamando a atenção para a provável hipótese de existência em solo português de importantes jazigos de minérios, ainda por explorar.

Deste modo, no próximo fornecimento de carvão, o Pescão de Casegas lá trazia a prometida sacola, repleta de pedras negras, esverdeadas, amareladas, translúcidas, brancas, brilhantes e transparentes.

Manuel dos Santos era um abastado proprietário rural, homem muito vivido, deveras perspicaz e sempre metido em negócios.

Logo que teve na sua posse as tão ambicionadas “pedras”, foi de imediato a Lisboa, à direcção que vinha indicada no anúncio do “Diário de Notícias”, tendo-se avistado com o eng.º Silva Pinto, professor catedrático em mineralogia.

Procedendo às necessárias análises clínicas e laboratoriais, veio a saber-se que se estava na presença de enorme riqueza, pois o subsolo daquela região da Panasqueira escondia no seu seio um precioso jazigo de volfrâmio (as pedras negras, pesadas, lascadas e reluzentes), cassiterites, pirites e calcopirites (os penedos amarelo-esverdeados) e quartzo hialino (os minerais transparentes e parecidos com o vidro).

Aconselhado pelos analistas, Manuel dos Santos, ao regressar à Barroca do Zêzere, trata logo de comprar uma boa porção de terreno, registando de seguida uma concessão de minérios, em seu nome, com a denominação de Minas da Panasqueira.

Seria interessante ver o desenvolvimento desde grande negócio, que transcendeu Manuel dos Santos, deu trabalho a milhares de mineiros, por esses anos fora, com períodos áureos, mas temos que respeitar o espaço deste jornal.

No entanto, não quero deixar de registar que, no sítio designado “Mina Cimeira” se rasgaram as primeiras galerias, antes de 1910, e se em 1934, o número de operários era de apenas 759, subiu rapidamente para 2000. Em 1942, já era de 4457 e em 1943, de 5790. Se somarmos a estes números mais 4780 operários que se empregavam nos trabalhos do “quilo” (trabalhadores por conta própria, vendendo depois o minério à mina), as Minas da Panasqueira chegou a empregar 10.750 trabalhadores.

De 1942 a 1944, altura da II Grande Guerra Mundial, novamente a volframite conhece uma procura nunca dantes vista. O mercado mineiro desenvolve-se. É a época do “salta-e-pilha”.

Depois foi a grande crise. No dia 12 de Julho de 1944, o Governo proíbe, em território nacional, toda a exploração e exportação de volfrâmio. É o despedimento geral. Apenas ficam alguns operários para vigilância, conservação e reparação de todo o espólio que ficou inerte e paralisado.

Posteriormente, até aos dias de hoje, as minas voltaram a funcionar em pleno, com os “homens toupeiras” a arrancar às entranhas o precioso mineral, seguindo-se novamente crises e períodos de alguma estabilidade, como já foi referido.

(In Jornal O Olhanense, de 1 de Outubro de 2010)

23 de setembro de 2010

VASOS COMUNICANTES

Não é fácil competir no mundo do trabalho – seja do ponto de vista da entidade patronal ou no âmbito do trabalhador – com um sentido verdadeiramente honesto, enfrentando a direcção do sucesso, quando pelo caminho se deparam facilmente situações de ultrapassagens pela direita: oportunismo, jogos de influências, promiscuidade, corrupção, duplos empregos, a própria política em si, injustiças, temas que, aliás, são da actualidade, caindo numa banalidade face à sua predominância e incapacidade para os fazer dissipar.

Tal situação não existe só no nosso País, mas também na Europa, e em todo o Planeta, continuando a emergir cada vez mais, neste mundo globalizado.

Trabalhar com honestidade, num ambiente de rectidão, de verdade, seriedade e probidade de homens e mulheres verdadeiramente empenhados, como o define o substantivo, leva, como no sistema de vasos comunicantes, a uma harmonia no trabalho que inevitavelmente conduz à alegria de viver.

Mas, nos meandros desta vida do trabalho, da sociedade, do serviço cívico, vamos também encontrar a outra face da moeda, numa outra vertente, onde o assédio, o chico-espertismo, o aproveitamento político, a ganância, a sobranceria, e outros casos libertinos levam a que se harmonizem muito mais rápido – a serpente tentadora faz reluzir a maçã – como, também, no sistema de vasos comunicantes, os sinais exteriores de riqueza, os lucros ilegais, as benesses, a subida dos degraus do poder a qualquer preço, o não olhar a meios para atingir fins, o tráfico de influências.

“Há muita gente com vergonha da falta de vergonha que por aí impera. A vergonha é um dissuasor de comportamentos sociais pouco éticos”, nas palavras de Luís Campos e Cunha”. E continuou: “Quem não sente vergonha é porque não tem vergonha. É mau, mesmo muito mau, para a democracia e para todos nós. A vergonha, quando existe, é um dissuasor moral muito eficaz. Nesse sentido, penso que Portugal era menos corrupto há dez ou quinze anos do que é hoje em dia. A falta de resposta e a morosidade por parte da justiça e da investigação é embaraçante e conduz à impunidade”. (in “Público” de 20/08/2010).

Assim, segundo as previsões do FMI, o PIB per capita português ocupará em 2015 o pior lugar no ranking desde a adesão à UE. Em apenas dois anos foram destruídos mais de 200 mil empregos na economia portuguesa, de acordo com um relatório do Instituto Nacional de Estatística.

“É preciso que se saiba que os portugueses que têm trabalho ganham cerca de metade do que se ganha na zona euro, mas os nossos gestores recebem, em média, mais 32% do que os americanos, mais 22,5% do que os franceses, mais 55% do que os finlandeses, mais 56,5% do que os suecos, e são estas “inteligências” que chamam a nossa atenção afirmando que os portugueses gastam acima das suas possibilidades” (Manuel António Pina, in Jornal de Notícias, de 24/10/2009).

Depois, foi a bandalheira na atribuição do Rendimento Social de Inserção, sem controlo nem vigilância, e, assim, andámos todos nós a contribuir, durante muitos meses, para que os marginais, os toxicodependentes e outros afins beneficiassem sem contrapartidas do RSI. Li recentemente algures de que um burlão de seguradoras e alegado cabecilha de rede desmantelada por simular e provocar acidentes conseguiu apoio estatal. Até onde é que vamos com este estado de condutas?

Esperemos que o bom senso prevaleça em todo o sistema de vasos comunicantes deste nosso Portugal, para que tanto os que vivem na planície, como os que habitam no planalto, possam comer do mesmo pão, para que não seja mole para uns e duro para outros.

 
(In Notícias de Gouveia, de 20/9/2010, Notícias da Covilhã e Jornal do Fundão, de 23/9/2010)

16 de setembro de 2010

DEVASSIDÃO

Finalmente, e só após oito anos de assistirmos nos canais de televisão, ouvirmos pelas rádios, e pela leitura da diversa imprensa, os já enfadonhos relatos dos acontecimentos, denúncias verdadeiras ou infundadas, desculpas esfarrapadas ou não, revoltas de queixosos ou defesas de “tristes” inocentes, se chegou à leitura da sentença do famigerado Processo Casa Pia.

Ainda que as prisões a que foram condenados os cinco de seis arguidos fiquem suspensas face ao recurso para tribunais superiores, o facto é que, finalmente, se fez justiça.

Pessoalmente, face ao desencontro de vozes no seio dos diversos órgãos do aparelho forense, não acreditei que se chegasse às condenações dos arguidos, na forma em que surgiu a decisão do colectivo de juízes. Penso, também, que outros mais ali deveriam ser sentenciados.

Este julgamento marcou indiscutivelmente e, para sempre, a vida nacional.

Esperemos que agora a justiça, de quem o povo português colocava como das principais preocupações na vida de todos nós, em termos de credibilidade, possa dar um volte-face, fazendo mesmo justiça, sem casos judiciários, em tempo muito mais célere, deixando de ser uma das vergonhas nacionais.

Sabemos que existem muitos outros casos de abusos sexuais de menores não detectados e não denunciados, nomeadamente no seio das famílias.

Não compreendo como é que tendo o casapiano Américo Henriques denunciado, durante anos, os abusos sexuais na Casa Pia, só há oito anos, por força de uma notícia publicada no Expresso, é feito prisioneiro o primeiro de um dos cinco agora condenados – Carlos Silvino.

Depois de tudo o que aconteceu, com tanto de decisões como de indecisões, morosidade, a existência de condenações terá sido a melhor forma do sistema judicial se redimir perante a opinião pública na sua credibilidade.

Será que o Código Penal não terá de ser alterado na parte que diz respeito ao tempo de duração das penas, que, para casos graves, como estes, traduzem-se em hilariantes condenações face ao número exíguo de tempo a cumprir? E, nestes casos, não deveriam ser reduzidas face ao bom comportamento dos condenados, ao longo do tempo de prisão, mas tão só cumpridas globalmente?

Este País deixou de ser de brandos costumes. É ver o aumento de casos deste tipo, e outros, para os quais nem o exemplo de condenações serve para recear novas condenações.

E, depois, ainda surge o caso dos reincidentes, após cumprimento das penas.

Tem que haver mais severidade na sua aplicação, sem apelo nem agravo.

As notícias que nos fazem chegar os jornais são aterradoras sobre o que se passa em várias zonas, mormente de Lisboa, iniciando-se no crepúsculo, no Parque Eduardo VII, com a prostituição masculina e feminina, e ainda de menores.

Mas será que não é possível conseguir legislação no sentido de dar uma vassourada nesta desgraça toda?

Sinto confrangedoramente que os políticos actuais, quer do governo quer da oposição, não têm essa coragem, e, mais preocupados, em quem lhes dá votos, como os famigerados ridículos casamentos gays, para os quais até o católico Presidente da República seguiu o exemplo de Pilatos.

Será que as fotos de vítimas, como o exemplo que surgiu no Correio da Manhã de 1/09/2010, vendo-se apontar uma faca ao pescoço da vítima, são um exemplo dissuasor, ou de instigação à violência, para os jovens?

E, no mesmo jornal, na sua separata de Classificados, de vinte páginas, constatei que cinco são destinadas exclusivamente a publicidade ao sexo – os chamados “convívios”, com e sem fotos “delas”, num total de mais de um milhar, com predominância em Lisboa, Algarve e até onze na Covilhã.

Comentários para quê?

As vozes da moral e dos bons costumes que se pronunciem.



(In “Notícias de Gouveia”, de 10/09/2010; Jornal “Olhanense”, de 15/09/2010; e “Notícias da Covilhã” e “Jornal do Fundão” de 16/09/2010.

 

1 de setembro de 2010

CIDADE DA COVILHÃ: PORTA PRINCIPAL PARA A SERRA DA ESTRELA

Júlio César, Conde D. Julião, D. Rodrigo e a formosíssima Florinda – a CAVA – nome atribuído pelos mouros, são referências sobre a origem desta cidade laneira, fundada, segundo uns, no ano 41 antes de Cristo.

Na opinião de outros, a sua fundação remontará durante a dominação romana na Lusitânia, pelos anos 202 antes de Cristo a 409 depois de Cristo, na Costa dos Hermínios (Serra da Estrela).

Aqui foram lançados os fundamentos de muitas povoações em volta do Hermínio maior, a fim de atrair para as planícies os sucessores dos Celtas que, a exemplo de Viriato, resistiam com tenacidade à dominação romana.

Terá sido na planície – zona de Mártir-In-Colo – que a Covilhã surgira, com o nome de Sila Ermia ou Hermínia, origem, talvez, do nome dum dos famosos generais romanos – Silius, ignorando-se então as modificações que terá tido Sila Ermia.

Consta que nascera nesta terra, pelos anos 692, a formosíssima Florinda, filha do Conde Julião, que foi violada por D. Rodrigo, último rei godo.

D. Julião, pai de Florinda, prometeu vingar-se e abriu as portas aos mouros que tomaram a região e passaram a chamar CAVA (mulher perdida) a Florinda.

O povo, juntando o nome de CAVA a JULIANA, deu origem a CAVA JULIANA ou COVALLIANA e, com a evolução dos tempos, COVELIANA, COVILIANA, COVILLÃ, COVILHAN e COVILHÃ.

É esta terra ancestral capital portuguesa da indústria de lanifícios que sempre marcou presença activa no País, ao longo dos tempos.

Cidade laneira, com Homens da rija têmpera de Viriato, puseram em relevo sua acção, nos vários domínios, desde a literatura à arte, à ciência, ao trabalho e até ao martírio: Pêro da Covilhã, Frei Heitor Pinto, Francisco Álvares, Mateus Fernandes, Eduardo Malta, Morais do Convento, José Maria Veiga da Silva Campos Melo, entre outros.

São figuras muito importantes da Covilhã. Ultrapassando o centenário como Cidade (vai comemorar 140 anos no dia 20 de Outubro), mas milenária como Terra de trabalho e luta; importantes são também os trabalhadores e empresários covilhanenses que têm conhecido, aos longo dos tempos, dias difíceis, de grande sacrifício durante as várias crises que surgiram.

No entanto, estão empenhados num trabalho árduo mas eficiente que fez singrar para a ribalta europeia, empresas da cidade (muitas delas já extintas), salientando-se actualmente a grande empresa de lanifícios Paulo de Oliveira, Lda.

Da Covilhã medieval, fabricante de burel, à Covilhã de hoje, produtora dos mais finos tecidos de lã, há uma obra admirável, cimentada por sucessivas gerações de gente laboriosa e empreendedora.

Em Portugal, outra indústria não há que possa competir em antiguidade com a de lanifícios.

No entanto, as graves crises por que passamos, fizeram dissipar do mapa covilhanense e da sua região, centenas de fábricas, levando um formigueiro humano para o desemprego.

Ainda há poucos anos existia a 1.ª Fábrica Real, fundada por D. Pedro II, denominada Fábrica Velha, tendo pertencido à firma Campos Mello & Irmão. Sofreu várias remodelações ao longo do tempo, e até um incêndio, tendo sido fundada entre 1671 e 1681. Fora adquirida por José Maria Veiga da Silva Campos Melo, de ideias republicanas, em 1835.

Através da inteligência e preponderante acção deste Homem, criou condições sociais para os trabalhadores e, no plano cultural, fundou a Biblioteca Heitor Pinto, tendo sido a primeira biblioteca pública aberta fora de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora.

José Maria Veiga Campos Melo aproveitou a oportunidade de ter como colega do colégio, em Lisboa, António Augusto de Aguiar, que era então Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, para que fosse fundada, em 3 de Janeiro de 1884 aquela que foi a primeira escola industrial do País, que viria a designar-se Escola Industrial e Comercial Campos Melo.

A 2.ª Fábrica Real/Fábrica Nova ou Real Fábrica de Panos, para a distinguir da Fábrica Velha, foi fundada pelo Marquês de Pombal, após a construção do edifício pombalino, em 1755.

As suas raízes ainda hoje existem. Os edifícios encontram-se completamente remodelados, pois existiram ali o Quartel de Infantaria 21 e, mais tarde, o Batalhão de Caçadores 2, sendo actualmente património, com instalações de excelência, da Universidade da Beira Interior, a qual se encontra ramificada por vários pólos e pela Faculdade de Medicina.

Esta “fábrica do ensino”, conforme referi no meu último texto, veio dar um grande contributo para absorção de muita gente que, em termos normais, poderia ocupar as fábricas de lanifícios, se a crise não fizesse desaparecer as mesmas.

A Universidade trouxe à Covilhã e Região avanços tecnológicos que são notórios nas várias empresas. Foram estabelecidos protocolos de cooperação com empresas da região, em estágios de obrigação curricular, sendo uma das principais vias de acesso ao mercado de trabalho para jovens que terminam o curso.

A Covilhã, “Cidade-Granja, Cidade Fábrica”, como lhe chamou Manuel Nunes Giraldes, é uma cidade de passado histórico invejável. Possui vários museus, entre os quais o Museu dos Lanifícios, na UBI.

Além das fábricas que outrora existiram em grande número, como a parte cultural (Escola Industrial, Biblioteca, UBI, associações culturais, com o maior número de agentes culturais do distrito de Castelo Branco), são o baluarte da Cidade-Lã.

O seu turismo, com um grande esforço para o seu aproveitamento, integra a Região de Turismo da Serra da Estrela, com sede na Covilhã, como o são outras organizações de âmbito nacional, caso do Clube Nacional de Montanhismo.

Com a Serra-Rainha junto de si, e em colaboração com o Parque Nacional da Serra da Estela é, e pode reforçar, a entrada para a grande montanha. Para isso, já existem muitas condições hoteleiras na Covilhã e região, de excelente qualidade e requinte. Já abriu o ano passado mas foi inaugurado este ano, um Hotel de excelência, na zona termal de Unhais da Serra.

Os visitantes, e não só, podem praticar os desportos de Inverno no maciço central, e não só, com a neve como atractivo, e, no Verão, o campismo de altitude e escaladas nas escarpas dos Cântaros, além de usufruírem de sossego paradisíaco de algumas zonas de montanha.

Motivado pelas excelentes condições de montanha, foi aqui que a Selecção Nacional iniciou a sua preparação para o Mundial 2010. E outras colectividades da I Liga já optaram também por esta região.

A Covilhã deixou de ter o inimigo natural – a sua interioridade – face a ter sido construída a auto-estrada A23. Necessita, contudo, duma outra com destino a Coimbra.

O visitante pode deslocar-se à Covilhã, e, aproveitando o ar puro da montanha, na sua deslocação à Serra da Estrela, apreciar a cozinha regional e deliciar-se com a sua paisagem, através dos vários miradouros, embora já quase não possa visitar fábricas de lanifícios, face aos seus muitos encerramentos, mas admirar as ribeiras, a cultura da sua região e as inovações, com praias fluviais e outros melhoramentos implantados por todo o concelho.

Na parte desportiva, existe a prática de várias modalidades, como o basquetebol, voleibol, futebol de salão, integrando alguns clubes os campeonatos nacionais, com destaque para o desporto-rei, através do seu maior representante – o Sporting Clube da Covilhã.

E, porque a pena com que redijo estas linhas se esquece do tempo e do espaço, fico por aqui, embora muito mais houvesse a dizer sobre a “Manchester Lusitana”.

 
(In Jornal “O Olhanense”, de 01 de Setembro 2010)

19 de agosto de 2010

COVILHÃ NA MÚSICA, NAS TRADIÇÕES E NA POESIA

Jamais se poderá afastar a realidade de uma Covilhã cultural, em vários domínios. Uma quase permuta imposta pela sociedade, quando ainda não se falava de globalização, surgida entre as fábricas laneiras de então, e, hoje, a grande fábrica do ensino – a Universidade da Beira Interior.

E, se desta cidade serrana brotam afluentes para engrossar o caudal do Zêzere, como as Ribeiras da Goldra e da Carpinteira, que integram a história da excelente panorâmica citadina, indo dar uma ajuda ao Tejo, também muitos jovens oriundos das várias escolas secundárias da Cidade, como a centenária Campos Melo, e, também, a Frei Heitor Pinto e das Palmeiras, foram grandes obreiros na sua passagem pela UBI, concluindo os seus cursos.

Alguns, emergiram como pirilampos, e hoje vingam no meio empresarial da região e nacional.

Dentre várias actividades, quer de âmbito municipal, quer de programa próprio das instituições, quero destacar, sem sombra de dúvida, a Banda Sinfónica da Covilhã, com uma centena de jovens músicos, vindos de vários pontos do País, e em grande parte naturais da região, que no dia 29 de Julho deram vida ao Pelourinho, sob a direcção do maestro convidado, Reinaldo Guerreiro. Mas a alma desta instituição é indubitavelmente o Prof. da UBI, Eduardo Cavaco, presidente e director artístico da Banda da Covilhã, com o apoio do Município Covilhanense.

Em plena noite de verão, foi um show que me fez recordar um concerto sinfónico a que assisti, também à noite, em frente ao Município de Viena de Áustria.

Outro espectacular evento, surgido no Parque da Boidobra, na noite de 31 de Julho, foi o FestiBoidobra – Tradições do Mundo, onde a freguesia e a cidade da Covilhã puderam assistir a um autêntico festival de cores e sons, com folclore internacional, e a presença, entre outros, dos Ranchos da Geórgia (excelente) e do México, os quais permaneceram por cá uma semana, período das festas promovidas pelo Rancho Folclórico da Boidobra, sobejamente conhecido pela sua alta qualidade, para a qual contribui o grande esforço e carinho da sua Direcção, liderada por Paulo Alexandre Machado Jerónimo.

A Covilhã é também uma Terra de poetas. Uns, covilhanenses de raiz, outros pelo coração.

Entre outros, José Corceiro Mendes, natural de Fóios, Sabugal, exerceu professorado na Covilhã e tirou o curso de debuxador na Escola Campos Melo, tendo fundado na Covilhã a Livraria CCC, que viria a ser extinta. Em 1971 emigrou para a Alemanha e, actualmente, acometido de doença grave, encontra-se num Lar em Setúbal.

Publicou três livros. Em 2009, o terceiro de poesia – “Farpas Neutrais”.

Maria Alice Mangana Monteiro é uma poetisa covilhanense. Apesar da sua idade avançada e doença do marido, encontra-se sempre de semblante sorridente e, de imediato, se lhe soltam uns espontâneos versos, bem ao jeito de quem sabe o que quer.

Publicou vários livros de poesia, e à mesma se dedicou desde jovem. Desde os cinco anos que declama poesia. Há cerca de 15 anos, por sugestão duma amiga, professora na Universidade de Coimbra, aproveitou alguns poemas que, introduzidos numas pastinhas, eram vendidos pelos estudantes, por altura da Queima de Fitas, a favor duma casa de infância.

Sempre que passa pelo meu escritório, vai um sorriso e uma poesia.

Maria Ivone de Jesus Pinto Manteigueiro Vairinho, já várias vezes referida nos meus textos, é uma poetisa nata covilhanense, radicada em Lisboa. É irmã do antigo atleta do SCC, Francisco Manteigueiro.

Tem um vasto currículo, que pode ser visto na Internet, tendo já publicado vários livros de prosa e poesia. Desde os 15 anos começou a escrever contos, peças de teatro, autos de Natal e poemas que foram publicados em diversos jornais e revistas, tendo ganho vários prémios.

Dá aulas na Universidade Sénior, de “Ler…e Dizer – Nove Séculos de Literatura Portuguesa/Poesia”.

Desde 2002 que é Presidente da Direcção da Associação Portuguesas de Poetas e Directora do Boletim.

Esteve recentemente no meu escritório, com o marido, Victor Vairinho. Por falta de espaço não posso desenvolver mais sobre a vida desta poetisa covilhanense.



(In Jornal Olhanense, de 15 de Agosto, Jornal do Fundão de 19 de Agosto e no próximo Notícias da Covilhã, de 2 de Setembro.)

22 de julho de 2010

A ACTA

Umas breves férias. Notícias do País, pela RTP Internacional. Tempo também para a leitura de um livro que é mais difícil fazer ao longo do ano – desta vez um de Saramago.
No barco, conseguimos ver o Portugal-Espanha, numa sala só para o nosso grupo de portugueses. Não invalidou, no final, uma ligeira provocação de um pequeno grupo de espanhóis; afinal iriam ser os campeões do mundial de futebol.
No regresso, já no avião, um ligeiro olhar por alguns jornais – La Tribune e El País. Sobre Portugal, só no espanhol se viu uma referência às divergências no norte do País com fotos de bandeiras de Espanha em Valença do Minho. Mas também uma notícia sobre o filho de Cristiano Ronaldo, com uma foto deste.
Uma observação nos fica dos motivos por que também os gregos se encontram em situação difícil: os seus campos de cultivo maltratados e uma indisciplina nas estradas, onde até nem o uso do capacete para os veículos de duas rodas é exigível, e, nos semáforos, o sinal vermelho é pouco respeitado. Mas a sua riqueza monumental é enorme, assim como os valores das figuras da sua antiguidade. Ficou-me na memória aquela expressão de Sócrates: “Só sei que nada sei”.
No meu carro fui encontrar o “Vida Económica”. Numa leitura em diagonal, registei algumas linhas do texto de António Vilar: “Compreende-se que os tempos não estão de feição para grandes alegrias e felicidades. Mas também é verdade que nós, portugueses, temos uma queda nefasta, permanente, para a depressão. (…) Esta realidade evidencia-se, designadamente, na leitura dos jornais e das notícias da comunicação social em geral, sobretudo dos artigos de opinião que se vão publicando. (…) Ora, é na pia em que todos andam a chafurdar que se cria a depressão da generalidade do país, de resto também pouco interessado, enquanto sociedade civil, quanto ao nosso destino colectivo e alheio. (…) Os portugueses só se mexem e apenas se mobilizam, ou reagem, perante a festa ou a tragédia. No entretanto cultiva-se o medo e a resignação por entre dias de crescentes dificuldades. (…) Vivemos num tempo de decadência. Um novo paradigma de vida há-de, porém, nascer, tem que nascer. Talvez das cinzas, no final, de uma vida a “fazer de conta”, egoísta e sem valores onde só contam interesses individuais ou corporativos, o lucro a qualquer preço e a gratificação imediata”.
Foi por isso que sugeri o título desta crónica. Por vezes, o medo ou a displicência levam a pouca reflexão, sobre os actos que devem ficar em registo para a posteridade.
Efectivamente, uma acta, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia de Ciências de Lisboa é o registo escrito dos actos ocorridos e das deliberações ou determinações tomadas numa sessão de qualquer assembleia.
Nos trabalhos de pesquisa, ao longo dos anos, sempre me debati com o grande problema de enormes omissões, sobre assuntos importantes, registados duma forma sintética, algo despercebida, por vezes contraditória, outras vezes sem princípio nem fim, o que deixa ao sabor dos ventos e das interpretações, os poucos registos existentes.
Uma acta deve registar com rigor o que se passou numa determinada reunião ou assembleia e, depois, aquando da sua aprovação, o registo das alterações julgadas pertinentes.
Também a acta tem por obrigatoriedade ser objecto de autenticidade, sendo sustentada pelo número de
elementos que dão lugar ao mínimo para que a mesma possa ser aprovada.
Vejamos o exemplo, hilariante, da elaboração de parte de uma acta (sem qualquer valor) durante o tempo de uma das várias crises por que passaram, neste caso, os nossos Bombeiros Voluntários da Covilhã, então no ano 1977: “Existindo vários assuntos para serem tratados, foi esta reunião deliberada somente pelo Director-Tesoureiro: (… ) pontos a deliberar: a), b),c),d), e), f), g), h), i), j)”. Como se pode verificar, foi efectuada uma reunião fantasma, pois não pôde ter qualquer valor, por falta de quórum. Existência de um único elemento da Direcção entre as paredes da sala onde foi redigida… Mas as suas deliberações, de um único e exclusivo elemento, presente na reunião, pelo mesmo marcada, não tiveram qualquer repercussão, já que, na acta seguinte, não foi feita qualquer rectificação.
A acta é, pois, um documento de primordial importância, para a história de um determinado organismo, pelo que os seus registos, além de mostrarem a face dos acontecimentos, devem também ser revestidos de autenticidade.


(In Notícias de Gouveia, de 20/07/2010, Notícias da Covilhã, de 22/07/2010, e Jornal “O Olhanense”.)

18 de junho de 2010

EXEMPLARIDADE

Na catadupa de temas que gostaria de apresentar neste espaço, por vezes o mais difícil é saber como começar. Lançando um olhar para as resmas de recortes de jornais, revistas e apontamentos, num amontoado mais ou menos cronológico, faz luz uma ideia, depois de banir outras que ficarão a aguardar oportunidade.

É que também no quotidiano nos surgem panóplias de assuntos que já nos entram por um ouvido e saem pelo outro, tal o descrédito por que vai o trabalho dos nossos políticos.

E, mesmo de alguns em quem pensávamos acreditar, ocupem eles os lugares com mais ou menos degraus na vida da Nação, já não nos dão espaço possível no pensamento para neles confiarmos, como povo pacífico e farto de esperar por uma vida que se projectara na esperança dum 25 de Abril.

A “exemplaridade” de atitudes, desde homens dos Partidos Políticos, Governo ou mesmo pelos “habitantes” da Assembleia da República, e seus periódicos “visitantes” ou “convidados” sob pressão, na defesa deste povo tão bem personificado nos Lusíadas, de Camões, traduz-se naquela frase proverbial de “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”.

Exemplos? Milhentos! Desde os que vão às televisões, com semblante de defensores dos mais necessitados, e, depois, por detrás da sua cortina de falsidade na argumentação, aí estão as reformas luxuosas, que, só de cada um, davam para dezenas de salários mínimos nacionais; dos subsídios e prémios atentatórios da dignidade do pobre povo, que os vê por um canudo, e que tão acarinhado e apregoado é nas épocas de eleições.

Daquelas “migalhas douradas”, na maioria dos casos, muitos dos cidadãos têm uma sombra em salários anuais de um décimo das suas reformas ou vencimentos mensais.

Eles são um formigueiro de apaniguados, desde a direita à esquerda e ao centro. Eles são reformados, na política, com reformas de pasmar, algumas por invalidez, e, depois, surgem novamente em cargos políticos, com novos luxuosos salários, como se o Zé Povo se esquecesse.

Eles são familiares dos Srs. Presidentes da República, dos Srs. Primeiros-Ministros, dos Srs. Secretários de Estado, dos motoristas, dos assessores dos Srs. Ministros, dos Srs. Louçãs, que tiveram a dita de pertencerem a esses ditos cujos e “não têm culpa” que lhes arranjassem um tachinho tão a calhar, nos tempos que correm, que, isso da vozearia dos colegas, amigos ou vizinhos, é tão só aquela inveja habitual, pelo que o conselho para os afortunados é deixar passar a caravana.

Por isso, é preciso que o Zé-povinho volte a pronunciar-se e…”Toma! Que levas com o manguito!”

As utopias e os sonhos continuam por ser realizados.

Ainda sou, aquando da escolaridade, dos tempos dos “Quadros de Honra”, sem saudosismo dos mesmos tempos, mas, com saudade, sim, dos tempos em que os homens gostavam de mulheres, e estas gostavam dos homens.

E, nesta época de festa dos Santos Populares, cá vamos cantando e rindo, como outrora, e esperançados que os futebóis nos tragam alegria, com a nossa Selecção Portuguesa em terras sul-africanas – altura para o Governo das nossas desesperanças folgar um pouco – sem os energúmenos a chateá-lo.

Como é natural que eu esteja equivocado com tudo o que passei à pena, dita agora computador, vou ficar por aqui, e vou apoiar a Selecção. Viva a Selecção de Portugal!

 
(In Notícias da Covilhã, de 17/06/2010, Notícias de Gouveia, de 18/06/2010  e a sair também no Jornal “O Olhanense”)

3 de junho de 2010

“NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE A RAÍZ AO PENSAMENTO”

Foi num clima de transbordante entusiasmo que no passado dia 27 de Maio se reuniu num jantar, no Centro Cultural e Social da Covilhã, um grupo de 34 antigos jocistas (movimento da Juventude Operária Católica), de várias gerações, organizado por actuais elementos da LOC/MTC (Liga Operária Católica/Movimento dos Trabalhadores Cristãos), para “interpretar o sentimento de amizade e reconhecimento”.

Este sentimento teve como único alvo a pessoa de um grande Covilhanense pelo coração – o Padre Fernando Brito dos Santos – que durante mais de três décadas foi assistente diocesano destes movimentos, em tempos difíceis da ditadura, tendo deixado bem vincada a sua personalidade de grande Homem, amigo, defensor dos mais pobres e desprotegidos e da classe trabalhadora.

Reunidos em ambiente de simplicidade, onde todos eram amigos, tal acto deixou marcas indeléveis para memorizar os movimentos operários católicos.

Tendo o Padre Fernando Brito celebrado as bodas de ouro sacerdotais em Agosto de 2009, os antigos e actuais militantes dos referidos movimentos desejaram manifestar-lhe o sincero agradecimento e a grande amizade.

Presentes dois coordenadores nacionais daquele movimento – Maria de Fátima Almeida (Braga) e José Rodrigues (Lisboa) – também marcou presença amiga Serafim Vieira, antigo dirigente livre da JOC, natural do Porto.

Estiveram ainda presentes, o Assistente Nacional do Movimento, Padre Emanuel Valadão e o Assistente Diocesano, Padre Joaquim António.

Foi esta manifestação tão importante quão sentida, a seguir à da despedida e substituição do Padre Fernando Brito, de Assistente deste Movimento, em 24/11/2001, no Seminário do Tortosendo, reunindo então centena e meia de amigos.

Interessantes terem sido passados dois álbuns recordando algumas fotografias de actividades e participações dos antigos jocistas, verificando-se algumas notícias de jornais com a intervenção em assembleias de antigos elementos, de há quase meio século, e ali presentes.

E também as peripécias por que passaram alguns elementos, nas décadas de sessenta e setenta do século passado, reunidos no Centro Cultural, no 1.º de Maio, tratando de assuntos do movimento operário católico, e com a Pide a entrar-lhes pela sala dentro, tendo o Padre Fernando conseguido dar-lhes a volta, passando a conversar num tema totalmente descabido para o assunto que tratavam mas que os presentes logo compreenderam ser a forma de ludibriar os homens da PIDE.

Nas conversas de cada um – e vieram de várias zonas da região, como Unhais da Serra, Tortosendo, Teixoso – foram recordados alguns antigos elementos dos movimentos operários católicos, já falecidos, como a Irene Pereira.

O Padre Fernando agradeceu, na sua simplicidade, deixando o seu desejo de que aquela reunião de amigos ao menos servisse para reforçar a abertura do caminho na continuação do movimento baseado nos valores cristãos.

Depois de efusivamente entoarem cânticos jocistas, todos de despediram com grande entusiasmo pelo que se passou neste memorável encontro de amigos.


In Notícias da Covilhã de 3 de Junho de 2010

29 de maio de 2010

ENTRE A ESCOLA E O SERVIÇO MILITAR



 
Semana de Campo - Tavira (04-07-1968)

                                                                           RI 12 - Guarda (1970)


Corria o mês de Outubro do ano da graça de mil novecentos e cinquenta e oito quando entrei, pela primeira vez, como muitos outros rapazes e raparigas, na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, como estudante, então a iniciar o Ciclo Preparatório. Éramos muitos Colegas.

Depois, na continuidade, os respectivos cursos: Geral do Comércio, Debuxo, Tintureiro Acabador, Electricista, entre outros, sem esquecer o da Formação Feminina.

Já conhecia a Escola sobejamente por fora. Assisti ainda ao final da construção do segundo pavilhão, e à respectiva inauguração, edifício então destinado aos cursos industriais. Morava paredes-meias com os muros da Escola.

No entanto, antes de continuar a minha vida de estudante, pós-prímária, efectuei ali o exame de admissão ao ensino secundário, que era obrigatório naqueles tempos de outrora, já lá vai mais de meio século – mais de metade da vida de uma pessoa.

Os rapazes não se podiam misturar com as raparigas, pelo que havia um terraço destinado às mesmas.

Muito haveria que contar, por cada um de nós, tanto de bom, como de alguma contrariedade. Foram tempos inesquecíveis. Memorizam-se a vertente do estudo, os Colegas, os Professores, as amizades, passageiras umas, mas duradouras outras, que se prolongaram pelos tempos fora.

Nesta efemeridade da vida, ficou a nostalgia do jogo da bola, no campo de futebol triangular, areado sob alcatrão, que dava uma ajuda aos sapateiros; das traquinices com os Colegas, os Contínuos e os Professores, para além da vida alegre com as raparigas, Colegas do mesmo espaço estudantil.

Recorda-se também a rapaziada da Escola, que fazia grupos junto ao portão principal, tapando quase o acesso para a casa do ferrador, aguardando a vinda e/ou saída dos Colegas e Professores, no início e termo das aulas. Era um formigueiro de juventude, dispersando-se pela Rua Vasco da Gama, no sentido do Serrado, ou em direcção à Avenida Salazar, hoje Av. 25 de Abril.

Mas foi também com os nossos Professores que tivemos partes interessantes da vida académica.

Para preâmbulo de alguns episódios que vou contar, quero deixar o registo de ter o privilégio de ainda poder contar com amigos desse tempo de Escola, que, desde sempre, com mais ou menos regularidade, temos vindo a falar dessa mesma Escola, e, obviamente, das suas figuras, algumas delas que nos deixaram marcas indeléveis para reforço da formação da nossa personalidade,

Conversar com regularidade, pela voz dos meios tecnológicos hoje colocados à disposição de qualquer humano, e transportando as memórias sem qualquer amnésia, com grande entusiasmo, para os tempos de hoje, é revelador do que foi e é a amizade desses tempos.

A partida feita numa aula da disciplina de Noções de Comércio, ao professor Guedes da Costa, do Porto, que tinha um certo charme, e costumava tirar os maços de tabaco aos alunos que os levavam para a aula, considerando uma certa indisciplina, levou a que o Nuno Alegria Ribeiro – um dos lesados – tivesse uma ideia genial.

Na aula seguinte, antes de entramos, contou-nos a partida que iria fazer. Levava um maço de tabaco cheio, mas de palha, com o mesmo peso, muito bem cintado, devidamente disfarçado. Vai de provocar a evidência do maço de tabaco dentro da aula. O professor, num gesto enérgico, manda recolher o maço e colocá-lo em cima da secretária que, depois, mete na gaveta. Na aula seguinte constatámos, pelo sorriso do professor, que ele reconheceu ter sido enganado, quando um dos alunos mais atrevidos se lhe dirigiu e perguntou se lhe podia dar o maço de tabaco.

Do amigo Fernando Dias Pedrosa Gonçalves, antigo Colega na Escola Campos Melo, vai um respigo de muitas das suas missivas sobre a Escola, e esta é de Junho de 2005: «“Os três Padres”. “Padre Nabais – Foi nosso professor de Canto Coral. Baixo, sobre o forte cabelo à escovinha, (…) quando não estávamos atentos acordava-nos com um toque subtil através dos nós dos dedos, com a mão fechada, nas nossas cabecinhas.

Padre Morgadinho – Professor de Religião e Moral, abusávamos da sua bondade, e a aula de Religião e Moral era sempre mal amada e ele sabia disso” (…).

Padre Acácio – Professor de Religião e Moral e Assistente Religioso da Mocidade Portuguesa. (…) Tinha um Opel Kapitan e andava sempre atrasado. (…) Como era costume, nós estávamos junto do portão e eis que chega o padre em cima da hora. Havia uma brecha entre dois automóveis já estacionados mas, para meter o Opel no espaço vago iria levar algum tempo, aumentando o atraso. Não perdeu tempo e enfiou o carro de frente, deixando a traseira completamente fora do alinhamento. – “Eu vou lá acima e já venho arrumar melhor” – disse-nos, em jeito de desculpa pela transgressão que estávamos a testemunhar. Alguém se levantou e sugeriu: – “E se levantássemos em peso a traseira do carro e a encostássemos de forma a ficar correctamente estacionado?” – Uma meia dúzia de nós elevou, a pulso, a traseira do Opel e arrastou-a até bem junto do muro. Quando o Padre Acácio veio para melhor estacionar o carro, já estava. Não presenciámos a reacção mas o Sr. Pereira Nina, chefe dos contínuos, disse-nos ter visto o padre a dar voltas ao carro e a falar sozinho” .»

«“Da Dr.ª Fernanda Bandeira lembro-me da sua exigência quando corrigia as nossas redacções/composições. Era rigorosa na análise do uso do “que”, da vírgula e no tamanho dos períodos literários. Não facilitava muito na gramática e era implacável na conjugação dos verbos. O pouco que sei de Português muito o devo a ela.

A Dr.ª Maria do Céu Proença tinha uma forma diferente de lidar connosco. Era mais chegada, gostava de ouvir e quando não gostava fazia de conta que quem falou nada disse. Quando íamos comprar livros para a nossa famosa biblioteca eu sugeria livros um pouco avançados e quando se virava para mim dizia: “Esse não, Pedrosa!” Eu partia para outro e não obtinha nem gesto nem resposta, só um olhar e a pergunta: “Trouxeste dinheiro?” Naquele dia as compras estavam terminadas.”»

«“Andias foi professor de Cálculo Comercial e tivemos um problema na turma, pois ele explicava a matéria de costas para os alunos enquanto resolvia um problema como exemplo e sempre com a mão esquerda no bolso. Era curto nas palavras, rápido nas soluções e quando se virava, a pergunta sacramental: “Percebido?”. O Zé Carlos Marques foi um dos mais revoltados, pois não conseguia perceber patavina e na aula do Dr. Oliveira Dias, que era o Director de Turma, o assunto foi falado e na aula seguinte o homem justificou-se que ao fazer a pergunta, como ninguém se manifestava, avançava na matéria. Quanto à mão no bolso, tinha um defeito na mão e era uma forma de esconder o aleijão”».

«“O Prof. Policarpo era professor de Ginástica. Foi um caso especial por três razões: 1 – Apresentou-se na Escola com um BMW que só tinha uma porta e era toda a frente do carro que abria para que o condutor entrasse. 2 – Foi dos primeiros professores de ginástica licenciados pelo INEF, daí que aquando da sua apresentação à malta, o engenheiro, Director da Escola, tenha dito que na Escola tínhamos de facto um professor de ginástica, doutor. “Podem chamar-lhe doutor à vontade porque é mesmo”. 3 – O eng.º conseguiu convencê-lo a dar uma ajuda na Mocidade Portuguesa. Aceitou e teve um baptismo de fogo. Fizemos um acampamento e o almoço de Domingo foi arroz de chouriço com nabiças confeccionadas pelo Zé Rodrigues. O prof. foi convidado, apareceu para o almoço e foi servido o arroz da ordem. O homem quando viu do que se tratava ficou mais sério que o costume, mas lá foi petiscando aqui e ali e nós apercebemo-nos de um certo mal-estar. “Então o arroz não estava bom? O Sr. quase só provou”. “– Vocês têm razão mas eu não suporto chouriço e para não ficar mal diante dos miúdos obriguei-me a petiscar alguma coisa”. »

O Amigo Pedrosa, como com muitos dos Colegas que passaram pela Escola Campos Melo, pelo Liceu e pelo Colégio Moderno, cruzaram-se no serviço militar, nas diversas unidades militares do Continente, e, depois, nas Províncias Ultramarinas.

Nos quartéis por onde passei, tive como Colegas, entre outros, o Muxagata, Cunha Rebelo, Berrincha, Agostinho Paiva, Caria (de Alçaria), Luís Morais Fiadeiro, José António Bichinho, Luís Morais, José Marques Abrantes, Eduardo Prata, Bicho Nogueira, Nuno Rato (do Teixoso).

O Pedrosa foi encontrar em Angola, o Franco, o Sampaio, o Braçais e o Ferraz, entre outros. Como todos nós, tivemos vários episódios que encheriam todas as páginas desta revista.

Entre outras, havia o desenrascar de assuntos em situações melindrosas. Por exemplo, o Sampaio lá desenrascou um colega do Pedrosa que lhe faltavam lençóis para os maçaricos que vinham da Metrópole. Como não conseguia, resolveu o problema retirando as mortalhas de caixões que de destinavam aos militares que vinham a falecer. –“ Não são lençóis, são mortalhas que é a mesma coisa” – disse o Sampaio. E também o desenrasque do “cunhete” que era um caixote de munições que o Pedrosa necessitava para desenrascar uma situação melindrosa de falta quando se preparavam para regressar a Portugal.

Mas também de um antigo Colega da Escola, agora encontrado também em serviço militar em Angola – Pedro Pereira Pacheco: «“Era da Panasqueira e vinha no célebre comboio dos estudantes. Pouco expansivo e dado à pacatez. Numa deslocação em serviço, com o jeep (…) saí directo para a Engenharia a pensar como havia de dar a volta ao assunto. Já tinha ouvido falar que havia lá pessoal da Covilhã mas não sabia quem, nem tinha confirmação. Na Porta d’Armas logo perguntei se havia ao serviço alguém da Covilhã, que sim, “havia um Furriel que era desses lados. Sabem o nome?” – “Pacheco? Pedro Pereira Pacheco?” – “Sim” – , confirmou o Sargento da Guarda. – “Precisava de falar com ele?” O Furriel que estava de Sargento da Guarda mandou um militar acompanhar-me. Num dos pavilhões lá estava o homem. Quando me viu ficou surpreso e rapidamente aí estava o abraço da ordem e a pergunta sacramental. – “Precisas de alguma coisa?” (…) E lá desenrascou os sacos de areia. Março de 1970 – A Comissão no Ultramar estava no fim. (…) Eu e o meu companheiro de quarto ainda não tínhamos conseguido arranjar quem nos fizesse o caixote com as medidas exigidas para nele encaixotar todos os nossos haveres. (…) Havia reboliço. Qualquer coisa falhou. (…) Acabaram-se os pregos e agora queremos pregar os caixotes e não temos com quê. (…) “Meu Furriel, só Você nos pode safar. (…) Você arranja?” “Vou tentar. Preciso de papel a pedir a viatura”. (…) O Pacheco torceu o nariz. (…) “Toma lá e não digas a ninguém onde conseguiste o material, senão quem fica à pega sou eu. Tem pregos iguais, maiores e mais pequenos que aquele que me deste”. As despedidas foram rápidas e no regresso à Companhia lá estava o militar à minha espera. (…) As minhas preocupações terminaram. O caixote apareceu, as minhas malas foram devidamente embaladas, o meu nome pintado e entrou no porão na terceira lingada. Obrigado Pacheco!”»

E, no dia 18 de Abril de 1970, este meu amigo Pedrosa chegava a Lisboa, regressado de Luanda – Angola. – “Logo ao nascer do dia fui acordado para que pudesse ver a aproximação do barco a Lisboa. Foi bonito de se ver o Cristo Rei, e a pouco e pouco ficar desenhado no nosso horizonte visual. Depois o atracar ao cais e a procura de um rosto conhecido. E quem estava de braços no ar a acenar para o barco? O Chorão – o nosso amigo Chorão lá estava”.

Pois bem, eu nesta data ainda não tinha terminado o serviço militar, e não fui mobilizado para o Ultramar – aturei 42 meses no Continente – e, tal como o amigo Pedrosa, fui Furriel Miliciano, estava no Regimento de Infantaria 12, na Guarda, depois de ter vindo do Regimento de Artilharia Ligeira 4, em Leiria, onde estive um ano colocado. Quando ele regressou do Ultramar estava eu a 12 dias de me casar. O amigo Pedrosa casaria no Porto, com a Ana Maria, daí por 8 anos.

O Fernando Pedrosa teve uma breve passagem da sua vida profissional comigo, antes do serviço militar, na Câmara Municipal da Covilhã e, então, recordou o Napoleão. «“Horto municipal – Aqui eram semeadas e plantadas todas as flores, árvores e plantas ornamentais que embelezavam os canteiros e jardins municipais. Alguém chegou à conclusão que se gastava demasiado dinheiro com as flores, os vasos e tudo o mais. Era necessário que do horto municipal nascesse alguma receita. O Napoleão foi chamado. Naquele momento ficou sem palavras. – “Vamos vender flores a quem?” Napoleão pensou e descobriu, “Faz-se uma exposição venda de flores criadas no horto municipal”. O local seria a entrada nobre da Câmara que por norma estava fechada. Houve resistências. O Napoleão ornamentou toda aquela entrada e escadarias com flores diversas. Todos os dias lá estava a entregar a receita na tesouraria. Foi um êxito”.»

O Pedrosa acabaria por sair da Covilhã em Setembro de 1966, regressando somente, por força dum convite para o lançamento de uma monografia que publiquei e foi apresentada na Câmara Municipal, em 2004, volvidos 38 anos.

Foram memórias dos tempos da nossa Escola Campos Melo e repercussões verificadas no curso da vida de cada um de nós.


                                          RAL 4 - Leiria (Julho 1969)
JOÃO DE JESUS NUNES

(Antigo Aluno do Curso Geral do Comércio)

Saiu na Revista “ECOS DA APAE”, N.º 18, de Maio de 2010.



28 de maio de 2010

Aniversário do Sporting Clube da Covilhã






Ocorreu 6ª. Feira, dia 28 de Maio, o jantar comemorativo do 87-º Aniversário do Sporting Clube da Covilhã, no novo Hotel das Termas de Unhais da Serra, concelho da Covilhã, onde estiveram presentes cerca de 300 pessoas, entre os quais, como convidados, vários antigos atletas e treinadores do clube, e outros, nomeadamente João Cavaleiro, António Jesus, Manuel Cajuda, Manuel Fernandes, Ulisses Morais.

Também estiveram presentes actuais Presidentes da Direcção de clubes que militaram na época que acabara de findar, na Liga de Honra.

Por exemplo, tive a felicidade de, na minha mesa, ficar com os Presidentes da Direcção do Portimonense, Varzim, Penafiel, Gil Vicente e Oliveirense.

Esteve também um representante do Sporting Clube de Portugal.

Foi num ambiente de festa que se passou este evento, continuando, nos dias 1, com a inauguração da nova Sede do SCC, com instalações próprias, e, depois, no verdadeiro dia do aniversário, dia 2 de Junho, uma missa pelos sócios falecidos e romagem ao cemitério.

Foram entregues dois emblemas de ouro a associados que completaram 50 anos de ligação ao clube, nesta qualidade, muitos em prata, a associados que completaram 25 anos.

Foram ainda entregues alguns diplomas de agradecimento a várias entidades.

Por último, sem que contasse, fui surpreendido com uma homenagem que me prestaram, entregando-me um belíssimo troféu, reconhecendo o meu trabalho, em obras editadas, e divulgação do clube, com o qual fiquei muito sensibilizado.

O troféu foi-me entregue pelo Presidente da Câmara da Covilhã e Presidente da Assembleia-Geral do Sporting Clube da Covilhã.




20 de maio de 2010

COMPARAÇÕES OU CONTRADIÇÕES

Estes dias que passaram foram férteis de distracções, onde predominaram alegrias, reflexões e esperança, e, daí, formas proporcionadoras de algum lenitivo para o governo “socrático”, com a populaça a não o incomodar.
Foi mandada às malvas a malfadada crise.
Milhares de benfiquistas deliraram com a conquista do 1.º lugar, no último dia do Campeonato, entronizando um “Jesus” terreno, cantando, gritando, numa berraria histérica, e surgindo o anedotário, aproveitando, inclusive, a vinda de Bento XVI a Fátima.
O próprio Papa, e figuras da Igreja, seriam caricaturados, por vezes abusivamente, no humor benfiquista.
Por cá, a Selecção Portuguesa tem sido o nosso encanto. E nela a esperança de poder levar dos Hermínios aquela força de Viriato, com os ares puros da montanha, para as bandas sul-africanas.
Um acontecimento o qual Carlos Pinto soube muito bem aproveitar, e preparar, para que a Covilhã surja, durante a permanência dos “maiores” do futebol em Portugal, e não só, nos noticiários diários das várias televisões e restante comunicação social.
Na Taça de Portugal, o FC Porto venceu com exiguidade o Desportivo de Chaves, que, da Liga de Honra, baixou à II Divisão B.
Comparativamente, também acontecera com o Sporting da Covilhã, em 2/6/1957, na final com o Benfica, em que o clube serrano também perdeu e desceu à II Divisão, esta nos moldes antigos.
E, falando no clube covilhanense, pregou-nos um susto. O alívio, surgido só depois do final do último jogo, obrigou os forasteiros na Póvoa de Varzim, face à derrota do SCC com o clube local, a permutarem então os olhos pelos ouvidos como as partes mais importantes do corpo.
E seria a vitória do Fátima em Chaves que iluminaria os corações serranos, que, nem por isso, foram colocar uma velinha no Santuário…
Jogou o Pimenta no SCC, mas faltou o sal, para o tempero completo direccionado a uma dinâmica que faltou no relvado poveiro.
Mas as fases finais, aquelas de decisão nos momentos cruciais, têm faltado ao SCC, com algumas excepções.
Vem a propósito recordar que foi em 1964 que o Sporting da Covilhã, então tendo disputado um grande campeonato, esteve quase com um pé na subida à primeira divisão, em confronto com o Sp. Braga.
Recordo os nomes dessa valorosa equipa: Arnaldo, Rodrigues, Nogueira, Graça, Coureles, Couceiro, Lanzinha, Hugo, Biu, Carvalho, Manteigueiro, Madaleno, Amílcar, Leite, Osvaldo.
Na 1ª. Volta, em Janeiro de 1964, com a vitória do SCC sobre o Sp. Braga, alcandorou-se no 1.º lugar, num jogo em que rendeu ao SCC a bonita receita, para a época, de 24.825$00.
Só que em Abril desse ano, na última jornada, exactamente contra o Sp. Braga, o SCC viria a sucumbir com a derrota de 4-1. Subiu o Braga à I Divisão, o SCC em 2.º lugar, seguido do Beira-Mar, Feirense, Salgueiros, Leça, Oliveirense, Famalicão, Boavista, Marinhense, Sanjoanense, Espinho, Vianense e Vildemoinhos.
Foi o ano de despedida de Amílcar Cavem e com o guarda-redes covilhanense, Arnaldo, a ganhar a “Baliza de Prata”, seguido de Rocha, do Beira-Mar, e Balacó, do Peniche (II Divisão – Zona Sul).
Nesse ano subiram à I Divisão o Sp. Braga e o Torriense, em troca com o Olhanense e Barreirense.
A Braga foi uma comitiva de 3.000 adeptos, em cerca de 55 autocarros, numa situação análoga, embora em menor número, à que se deslocou ao Varzim.
Só que a comunicação social, nomeadamente a escrita, da altura, era totalmente diferente da de hoje, com pouco noticiário, em contraste com a exuberância da dos dias de hoje.
Fazemos votos para que este ano, quer a Selecção Nacional, quer o Sporting da Covilhã, sejam bafejados pela sorte.

(In Notícias da Covilhã, de 20/05/2010 e vai sair no Jornal O Olhanense, de 01/06/2010)

1 de maio de 2010

NOVO PRESIDENTE NACIONAL DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO DE PORTUGAL É DA COVILHÃ

D. Carlos Azevedo e o novo Presidente Nacional da SSVP, Correia Saraiva.
Foi no dia 17 de Abril a tomada de posse dos órgãos nacionais que vão ter a responsabilidade pela condução dos destinos das Conferências da Sociedade de São Vicente de Paulo em Portugal (SSVP).
A Assembleia que se realizou no Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima, teve o mesmo repleto, com perto de três mil peregrinos que se integraram na Peregrinação Nacional ao Santuário de Fátima. Ali ouvirem vários oradores, entre os quais o Padre Nóbrega – Assistente Nacional, o Prof. Doutor Alfredo Bruto da Costa – Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, e D. Carlos Azevedo – Bispo Auxiliar de Lisboa. Vieram de todos os recantos do País, pertencentes aos 22 Conselhos Centrais.
Nas primeiras filas do grande anfiteatro lá se posicionou o Conselho Central da Guarda que integrou mais de três dezenas de confrades do Conselho de Zona da Covilhã, que, por sua vez engloba várias Conferências, não só da Cidade como da Região. Mostraram assim o seu apoio ao novo Presidente Nacional, há muitos anos radicado na Covilhã.
Efectivamente, António Correia Saraiva, bancário aposentado, de 64 anos, natural da Região, tornara-se há muitos anos covilhanense pelo coração, e veio-se a dedicar, ao longo de 38 anos, à vida da solidariedade, no âmbito das Conferências da SSVP.
O Presidente Nacional Correia Saraiva iniciou-se nas Conferências da SSVP, em S. José – Penedos Altos, foi Presidente da Conferência da SSVP de S. Pedro, da Covilhã, Presidente do Conselho de Zona (antigo Conselho Particular), Presidente do Conselho Central da Guarda, tendo ainda sido Presidente do Conselho Fiscal Nacional.
O agora investido nas novas funções, substituindo uma Comissão de Gestão, e sendo sucessor dum grande Presidente Nacional – Torres da Silva, retirado por doença, propôs-se desde já dinamizar as Conferências, proporcionando espaço aos jovens, conhecedor que o índice de confrades se situa em idades já muito avançadas.
Também se comemoram 350 anos da morte do patrono das Conferências – São Vicente de Paulo – nascido duma família pobre e que viria a chamar-se “O Pai dos Pobres”.
As Conferências da SSVP iniciaram-se em 1833 em Paris, pelo italiano António Frederico Ozanam, que as colocou sob o patrocínio de S. Vicente de Paulo, e, desde logo, se irradiaram por todo o mundo, chegando a vez de Portugal criar a sua primeira Conferência, em 1859, na cidade de Lisboa.
«Desde a simples oferta de “umas achas de lenha” – oferta inicial de Ozanam às famílias que primeiro visitou em Paris – às ofertas de roupa, livros, medicamentos, ajuda na procura de empregos e internamentos, visitas a lares, hospitais, cadeias, a acção vicentina procura dar resposta mais ou menos imediata ou simples encaminhamento das situações mais difíceis para as vias possíveis de resolução, inquietando consciências indiferentes, apesar de responsáveis mas com possibilidade de resposta à situação de pobreza e sofrimento».
Na Covilhã há três Conferências centenárias. Foram elas que deram origem à criação de instituições antigas como o Albergue dos Inválidos do Trabalho (actualmente com a designação de Lar de São José), A Cozinha Económica e o Património dos Pobres.
Actualmente, face às grandes crises que grassam no nosso País, e novas formas de pobreza, as Conferencias de S. Vicente de Paulo exercem uma grande acção humanitária e da solidariedade, substituindo-se ao Estado.

(In Jornal Notícias da Covilhã, de 29/04/2010 e Jornal O Olhanense, de 01/05/2010)

21 de abril de 2010

ACIDENTE COM AVIONETA HÁ MAIS DE SEIS DÉCADAS

Mais um acidente de aviação surgiu no dia 10 de Abril vitimando 97 pessoas, entre as quais a elite política da Polónia. A principal vítima foi o seu Presidente, Lech Kaczynski.
Os desastres aéreos com figuras do Estado ou na liderança de instituições mundiais também já haviam acontecido anteriormente, quer em Portugal quer noutras partes do globo.
Nos últimos anos ocorreram vários acidentes com aeronaves, só no distrito de Castelo Branco.
Em 17 de Novembro de 1978 desapareciam 131 pessoas, dum total de 164 ocupantes do avião, que se despenhara no Aeroporto do Funchal, entre as quais uma equipa de arbitragem de futebol que se deslocava à Madeira e que, na semana anterior, havia arbitrado um jogo, no Estádio Santos Pinto, na Covilhã, com o Sporting local, para o Campeonato Nacional da II Divisão.
Em 1994 mais um desastre aéreo, vitimando 56 pessoas, numa aterragem dum avião no Aeroporto de Faro, duma companhia holandesa, e, em 2000, despenhava-se na Ilha de S. Jorge, nos Açores, mais um avião provocando 35 mortos.
Na zona da Serra da Estrela, junto a Loriga, em 22 de Fevereiro de 1944, em plena II Guerra Mundial, despenhou-se um avião com seis aviadores, que vinha de Gibraltar e seguiam em direcção a Inglaterra, onde iam passar o Carnaval. Ficaram sepultados no cemitério de Loriga.
Mas é em 27 de Novembro de 1949 que se iria dar um acidente de aviação, cuja notícia correu todo o País. Foi a morte de dois industriais covilhanenses, pilotos aviadores António Matos Soares, solteiro, de 37 anos, e José Moura e Silva, casado, de 30 anos.
Era um domingo, num lindo dia de sol. Partiram de manhã, na avioneta particular de Matos Soares, tudo levando a crer que seria para tratarem de assuntos em Aveiro, onde a avioneta aterraria. Seguiriam depois para o Porto a fim de assistirem ao jogo de futebol entre o F.C.Porto e o Sporting da Covilhã, de que eram fervorosos adeptos. O SCC fazia um bom Campeonato na Primeira Divisão e emergiam na sua equipa valorosos atletas, como André Simonyi. Iria ser o maior goleador do seu Clube, ficando em terceiro lugar, como melhor marcador do Campeonato Nacional da Primeira Divisão. Marcou 22 golos em 23 jogos. O SCC havia ganho em casa ao FC Porto, por 4-2, e acabaria por perder o segundo jogo, no Porto, por 5-1.
Na base aérea de São Jacinto, em Aveiro, os dois pilotos levantaram voo, com destino à Covilhã, face a terem sido avisados de que na Serra da Estrela as condições meteorológicas não seriam as melhores.
Iniciada a viagem de regresso, tudo estaria a correr dentro do que seria normal até que, ao voarem sobre Folgozinho, em plena Serra da Estrela, lhes surgiu um intenso e forte nevoeiro, cuja intensidade provocou uma enorme diminuição de visibilidade. Em virtude de também se aproximar a noite, fez com que eles tivessem tomado a decisão de ou mudar de rumo ou tentar aterrar em qualquer possível local, invertendo o sentido de voo. O avião não estando a voar a altura conveniente foi embater num monte chamado o Cabeço dos Cleros. Do choque resultou a destruição do avião e a morte dos dois pilotos covilhanenses.
Foi um pastor que andava nas imediações que se apercebeu do desastre. Na Covilhã havia enormes apreensões e só se adivinhava o pior. Nessa noite, na Covilhã pouca gente dormiu. Muitos se deslocaram para a Serra da Estrela a fim de tentar descobrir os aviadores. Mas, por dificuldades na rede telefónica, a notícia trágica somente chegou à Covilhã na manhã de 2.ª Feira.
Em virtude da muita neve e o difícil acesso onde se encontravam os corpos, foi com enorme dificuldade que os transportaram daquele cabeço desarborizado e escalvado.
No dia dos funerais, a Cidade da Covilhã quase que parou. Entidades oficiais, religiosas e militares, além de muitos pilotos civis, muitas instituições da cidade e milhares de pessoas vindas de todo o distrito e representando todas as categorias sociais, participaram no funeral.
Foi o primeiro acontecimento lutuoso da história da aeronáutica da cidade da Covilhã.
Muito haveria para contar, mais em pormenor, sobre este trágico acontecimento, mas o espaço do jornal tem limites. Foi noticiado em todos os jornais da época: Diário de Notícias, O Século, Diário da Manhã, Diário Popular, Diário de Lisboa, República, A Voz, A Guarda, Notícias da Covilhã, Jornal do Fundão, Notícias de Gouveia e Revista do Ar.


(In Noticias da Covilhã e Jornal do Fundão, de 21/04/2010, Notícias de Gouveia, de 20/04/2010 e Jornal “Porta da Estrela”, de 21/04/2010)

25 de março de 2010

O PEC

Podia ter sido “Portugueses Em Cidadania”, tal foi a aderência de milhares de cidadãos portugueses unidos numa missão colectiva contra o lixo, num dos maiores movimentos de sempre em torno de uma causa ambiental. Foi o erradicar de milhares de lixeiras.
Mas este PEC, cuja sigla é versátil, também podia ser “Portugueses Enervados Clamam”, face ao estado lastimoso da Nação a que nos predestinaram os responsáveis pela condução da política portuguesa.
Mas este PEC também podia ser “Portugal Em Contaminação”, pois cada vez há mais senhores da política, ou sob a capa da mesma, num grande apadrinhamento, onde as mordomias e os escandalosos “direitos” a subsídios, compensações, complementos e outras coisas mais, são o retrato de quem nos (des) governa.
Mas este PEC podia ainda ser “Porquê Este Condão?” com tantos a beneficiar de luxuosos vencimentos e outros arredados para uma pobreza envergonhada.
Mas este PEC também ainda podia ser “Parlamento Em Cúmulo”, com os seus 230 deputados, num “esforço titânico”, “casa” sempre cheia, com o “suor” a correr-lhes pelas faces, onde poucos bocejam ou dormem, a contribuírem para um dos maiores orçamentos da Nação. Com metade deles era mais que suficiente para que as suas ideias e inteligência postas ao serviço de quem neles confiaram o seu voto, trouxessem o lenitivo para todos nós, para que não houvesse portugueses de primeira, portugueses de segunda e portugueses de terceira.
Esperemos, contudo, que a UE não venha trazer outra interpretação para o nosso País – “Portugal Em Confusão” ou, pior ainda, “Portugal Em Colapso”. Seria trágico e ver-nos-íamos “gregos”.
Mas com este País, num “Portugal Em Combustão”, tudo pode servir para classificar o inclassificável, num povo de brandos costumes que há muito já detém funestas atitudes de uma franja da sua população, porque a ordem redundou em desordem, o exemplo que vinha do alto permutou pela baixeza da mentira, a credibilidade substituiu a incerteza.
Mas, finalmente, o “Plano de Estabilidade e Crescimento”aí está, com toda a sua vertente de injustiças e manutenção de privilégios para muitos dos apaniguados, depois de uma despudorada ocultação da verdadeira situação económica e financeira do País, aliada à não menos vergonhosa cumplicidade do Governador do Banco de Portugal.
O aumento de impostos, dissimulado na redução ou supressão de deduções fiscais, e na diminuição das prestações sociais, é mais uma forma de fazer acrescentar o último furo ao já esticado cinto dos portugueses.
Mas é escandaloso que continuem a ser intocáveis as reformas dos deputados da Nação. E escandaloso também é que muitos administradores de empresas públicas, próximos do Poder vigente, em que foram apanhados pelos “célebres processos”e se viram obrigados a renunciar aos seus cargos, sejam chorudamente recompensados. Temos que continuar a aguentar toda esta pulhice!
É imprescindível encurtar o Estado, acabando, entre outras coisas, com muitos serviços que de nada servem se não para manter empregos e privilégios, por exemplo, os Governos Civis.
Outra situação que se reveste necessária para aquele espírito de que nos serviços públicos os servidores do Estado não se servem de outros meios que possam pôr em causa o favorecimento, é a proibição do exercício de outras actividades privadas, que possam colocar em perigo a isenção dos funcionários do Estado. Mas continuam a ver-se situações de práticas de ocupações privadas, “complementares” das da função pública, em vários dos seus funcionários, mormente na mediação de seguros, que vão desde o escriturário ao engenheiro camarário.
A brutalidade do que aí vem é inevitável e a nossa reputação está mais arruinada do que nunca com os mercados a não estarem nada bem.
O PEC parece que foi recebido com complacência pela Europa e pelos mercados, mas os portugueses vão pagar caro as más políticas dos seus governos.

(In Noticias da Covilha, em 25/03/2010)

4 de março de 2010

KUTNÁ HORA



Demasiadas notícias do enfado político. Arrasadoras umas, estranhas outras. Não alheias da conversa comum. Levam-nos a vociferar, em nevralgias com direito à indignação, do que se sabe e do que se desconhece. Mas mormente de quem nos vilipendia, engana, desprestigia.
As pedradas de arremesso não chegam aos ossos dos visados.
É pungente o pressentir quem mente, o reconhecer quem encobre, o surgir de tantos meandros sustentadores da morosidade, fazendo perder no tempo a culpabilidade do infractor, e o poder judicial a não conseguir transmitir a sua credibilidade.
Com este Inverno tão rigoroso, algumas vezes se ficou enregelado até aos ossos. Mesmo com alguns safanões, as zonas vertebrais de muitos senhores continuam incólumes de qualquer esforço, porque do seu trabalho só a sua mente dá sinal, na tentativa de ludibriar todos.
E se de ossos vamos continuando a falar, os mesmos pouco se comprimem para aqueles que, recostados no sofá, não sentem a parte nervosa a incomodar, já que na sua conta bancária os saldos engordam, em contraste com aqueles que os vêem limpos, porque do último bolso da sua samarra, ou sobretudo, já não há resto do que deixaram na praça.
De tantos “casos”, só uma ínfima percentagem dos infractores malhou com os ossos na choldra.
É que isto de falar de cadeia é um ultraje. Por isso, na mesma existem tarimbas para uns e “gabinetes” prisionais para que os de excepção possam ter os seus ossinhos mais reconfortados.
Passou o Carnaval. No dia seguinte, a 4.ª Feira de Cinzas –“ Lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar”, como se referia anteriormente nas citações bíblicas.
Independentemente da religiosidade de cada um, esta é uma certeza, uma verdade insofismável. Ainda que haja a preservação de alguns ossos, quer por mumificação, dos tempos ancestrais, quer por depósito tumular, com embalsamamento, como os do faraó Tutankhamon, dos Papas, Reis e outras figuras de mérito, isso não é para todos, optando muitos pela cremação.
São de mau gosto as fantásticas, tenebrosas e macabras “decorações” feitas com ossos humanos, em igrejas e capelas deste País e do estrangeiro. É uma falta de respeito pelo ser humano.
Quando visitei, em 1968, pela primeira vez, a Capela dos Ossos, em Évora, situada na Igreja de S. Francisco, construída no Séc. XVII, por iniciativa de três monges, fiquei triste por ver que, afinal, na minha perspectiva, se estava a “brincar” com os ossos humanos, “decorando” a capela com milhares de crânios, tíbias, vértebras e fémures de humanos, dispostos nas paredes, nas colunas e no tecto, em macabra arquitectura. E também lá estão os ossos, pendurados, de um bebé, no conjunto do seu corpo. Discordo destas exposições, mesmo tendo em conta que, no espírito dos criadores, foi a mensagem da transitoriedade da vida, tal como indica o aviso à entrada da capela: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Calculam-se em cerca de 5.000, provenientes dos cemitérios situados nas igrejas e conventos da cidade.
Fora de Évora, sabemos que também existem capelas dos ossos em Campo Maior, Faro, Silves, e noutras zonas do País, assim como por esse mundo fora.
A que mais me marcou, e que visitei em Agosto de 2006, na deslocação que fizemos de automóvel, de Praga para a capital austríaca, a cerca de 65 quilómetros da capital checa, foi a de Kutná Hora. Impressionante! Aterrador! Depois de procurarmos a estrada que nos levaria ao rumo certo, já que teimava em surgir a direcção de Brno, que não desejávamos, e não íamos munidos de GPS, poisamos para almoçar, sem que antes visitássemos, no coração da Boémia Central, a três quilómetros do centro da cidade, uma das mais macabras fantasias à face da terra – a capela de Todos os Santos, mais conhecida por Igreja dos Ossos, com toda a espécie de ossos, entre 40 e 70 mil. Segundo a revista “Fugas” (Público), de 23/01/2010, “a capela foi plantada no centro do cemitério desde que foi fundado, em 1278, com terra colhida em Golgotha, o sítio da crucificação de Cristo. Ou seja, o cemitério foi promovido a terra santa e toda a gente de Kutná Hora passou a elegê-lo para última morada. Depois veio a peste no século XIV, as não menos letais guerras hussitas no século seguinte e o exíguo recinto ficou a rebentar pelas costuras, com muitos cadáveres a descoberto. Primeiro o andar superior da capela e depois o seu subsolo foram então convertidos em armazém de ossos em excesso. (...) Há quatro enormes pilhas de ossos em forma de sinos nos quatro cantos da capela, do centro pende um monumental candelabro que integra todos os ossos do corpo humano, os tectos abobadados são decorados com grinaldas de caveiras. Para além dos depósitos onde milhares de ossos estão simplesmente empilhados, há muitos outros recriados para efeitos “artísticos”.
Todas estas figuras decorativas mais parecem ferir as regras do bom gosto e até do respeito pelos mortos.
Será que um dia os meus ossos podem servir para decorar uma qualquer capela ou objectos artísticos? Prefiro a cremação.




(In “Gazeta do Interior”, de 24/02/2010; “Notícias de Gouveia”, de 26/02/2010; “Notícias da Covilhã”, de 04/03/2010; e Jornal “Olhanense”, em 15/03/2010)