18 de abril de 2012

ESTORIAS DO FUTEBOL – DOIS CLUBES NA SUA HISTÓRIA

O futebol é ainda, independentemente das crises – e já atravessou várias – uma maneira de se dar azo à expressão de sentimentos, num bairrismo, algumas vezes desenfreado, sobre as terras e os países, estendendo-se esse entusiasmo além fronteiras, onde os ídolos já não são só os da mesma nacionalidade, sendo muitos deles reconhecidos como génios do esférico, verdadeiros malabaristas na arte de jogar.

É também um tempo e um espaço de alguns momentos de lenitivo pelos enfados do dia a dia, quer eles sejam do trabalho quer se envolvam no negrume de alguma solidão, momentos pensativos, tristes, desoladores.

Também uma forma de dar o grito de Ipiranga, para dentro do campo, exprimindo-se em condutas que muitas vezes não o podem fazer no emprego, na família, nos outros meios sociais.

E, por esse mundo fora, e no nosso próprio mundo, vão sendo enumeradas datas, eventos, figuras que desfraldaram as bandeiras das suas coletividades ou que, na rotina do tempo, foram absorvendo os ventos e marés de tudo o que rodeou/rodeia as suas coletividades e apaniguadas gentes. Sim, é que sem gentes não há clubes, não há eventos, não há sorrisos nem desalentos.

Outrora, nos saudosos tempos do futebol de primeira – I Divisão Nacional entenda-se – eu calcorreava a pé, como muitos, desde ao pé da Escola Industrial, até ao cimo do antigo Hospital da Misericórdia, para no velho “Santos Pinto”, ainda pelado, ver os jogos do Sporting Clube da Covilhã (SCC). Eram as velhas glórias de hoje, na sua generalidade já desaparecidas, que entravam na luta por um desfecho favorável para as cores que representavam, ainda naquele espírito de “mens sana in corpore sano”, talvez já abstraído da realidade de hoje: Simony, Tomé, Suarez, Martin, Cabrita, Pires, Manteigueiro, Lanzinha, os irmãos Cavem, Rita, Helder, Tonho, Lourenço, Amílcar, Porcel, Couceiro, Carlos Ferreira, Patiño, Chacho, Adventino e Palmeiro Antunes, entre outros.

Aos domingos, tempos de fato e gravata para os homens, mesmo no verão, como era usual; e as senhoras de vestidos como indumentária (ainda sem o uso das calças, e muito menos calções), passeavam em grupos pelas ruas mais movimentadas da cidade para verem o formigueiro de gente a caminho do campo porque “hoje há bola!”. E, se era “dia do clube” e vinham os forasteiros a acompanhar o Benfica ou o Sporting, contavam-se as dezenas e dezenas de autocarros que, com as cores garridas dos seus clubes e o entusiasmo das suas gentes, se espalhavam estacionando em todo o espaço do “Campo das Festas” e ao longo da rua do Jardim Municipal até ao Sineiro.

Depois, no final, era vê-los partir em procissão acelerada a caminho do comboio especial, destinado a estes adeptos.

Mas, independentemente dos “clubes grandes” do futebol, outros havia da simpatia dos serranos, nomeadamente o Belenenses, com o seu “Matateu”, que ainda detém muitos adeptos por estas bandas, assim como a Académica.

Pela parte que me toca, ficou na minha sensibilidade a memória de outros clubes que emparceiraram com o SCC, na I Divisão, de menor notoriedade na ribalta desportiva, como o Atlético Clube de Portugal, o Oriental, o Lusitano de Évora, o Torriense, o Caldas e o Sporting Clube Olhanense, entre outros, sendo certos que alguns destes estão a tentar ressuscitar para os grandes palcos e, lamentavelmente, outros vivem com balões de oxigénio.

Mas a base deste texto reporta-se ao clube da minha simpatia – considerado o meu terceiro clube – o Sporting Clube Olhanense (SCO) que vai completar um século de existência no próximo dia 27 de abril.

Quando o SCC foi criado, da sua fusão com o Estrela Futebol Clube e, simultaneamente, como filial do Sporting Clube de Portugal, em 1923, já era adolescente o SCO e, bem cedo, viria a ser Campeão de Portugal, nessa época de 1923/24.Tornaram-se ambos clubes ecléticos e históricos do futebol português.

Alguns atletas que vestiram as camisolas do SCO mais tarde viriam a representar as cores do SCC: Eminêncio, Fernando Cabrita, Palmeiro e o guarda-redes Rita.

Os dois clubes defrontaram-se várias vezes, em momentos importante do mundo do futebol, como na antiga I Divisão Nacional; na II Divisão por via do Torneio de Apuramento para a Primeira; na Taça de Portugal; na Taça Ribeiro dos Reis e na Divisão de Honra, deixando sempre rastos de simpatia, aquele fair-play tão necessário nos meios desportivos.

O registo de todos os encontros entre estes dois clubes e alguns pormenores dos mesmos podem ser lidos no blog http://www.entre-as-brumas-da-memoria.blogspot.pt já que, por falta de espaço, aqui não podem ser inseridos.

(In Tribuna Desportiva, de 17.04.2012 e Notícias da Covilhã, de 18.04.2012)

21 de março de 2012

A NÃO-NOTÍCIA

Têm vindo a lume preocupações sobre o futuro do jornalismo face à avalanche de novas tecnologias que poderão substituir o jornal em papel, dentre de outras alterações de fundo do setor jornalístico na futurologia.

Efetivamente, o jornalismo do cidadão, a que se poderá também chamar jornalismo participativo, ganhou força nos últimos anos a partir do advento das ferramentas de edição e publicação na Internet como wikies, blogs e a popularização dos celulares equipamentos com câmaras digitais, além de outras novas tecnologias de informação e comunicação.

Há assim uma onda de jornalismo paralelo representada nos blogs onde o cidadão se pode refugiar e escrever sobre algo que não seja publicado nos restantes media, inclusive, falando com mais gentes o tempo todo e interpretando melhor e mais depressa desejos e necessidades do leitor.

Foi assim que tive o ensejo de poder participar no passado dia 15 de março, na Universidade da Beira Interior, no fórum sobre o futuro do jornalismo, com muito prazer, a convite da UBI.

Para além do grande interesse manifestado com muitas presenças e mais de uma dezena de jornalistas, com temas diversificados nas três mesas dos intervenientes, trabalho da universidade local para um serviço global no País, coordenado pelo sobejamente conhecido jornalista Adelino Gomes, surgiram esperanças de uma forte contribuição para que surjam ideias inovadoras para a solução que terá que se impor no futuro do setor jornalístico.

Do tema que me coube falar - O Jornalismo e a Cidadania -, na qualidade de cidadão, face ao limitado tempo previamente destinado, muito ficou na espuma do tempo, mas o que é certo é que as virtudes e defeitos da comunicação social acabaram por ficar evidenciados, sabendo-se que o jornalismo permanece como atividade essencial, experimentando mutações tecnológicas mas que não afetam a sua essência cognitiva. Ele permanece como atividade vital. Pensamos que os jornalistas já não se podem encerrar no palácio de Gutemberg porque de outro modo seriam superados por quantos frequentam, e de que maneira, a catedral de Bill Gates.

"Verdade" e "sensacionalismo" são as atitudes que o cidadão mais exige, mas também mais detesta, respetivamente. Estas palavras foram as mais referidas, dum conjunto de opiniões, que recolhi de vários cidadãos empenhados e atentos da sociedade portuguesa, da região e não só.

Tenho a minha maneira de ver o jornalismo e a restante comunicação social, não só como um crítico, mas, paradoxalmente, apaixonado por todos aqueles que, na mesma comunicação social, primam pelos valores da vida.

Mas, se há notícias que são ocultadas (algumas do seio da própria União Europeia!) e que deveriam ser do conhecimento do cidadão, pelas vias normais da comunicação social, outras não passam de verdadeiras anedotas do caricato jornalístico de quem se serve duma situação normal da vida duma pessoa para a considerar notícia. Exemplo recente foi uma das televisões ter noticiado que o automóvel do Cristiano Ronaldo havia avariado e sido rebocado...Santo Deus! Até onde vamos? 

No entanto, sabemos que por baixo da informação, dos números e das estatísticas surgem inúmeros acontecimentos que até condicionam a nossa vida. Por exemplo, com a longa e duríssima crise, sem luz no fundo do túnel, estarão provavelmente imensas doenças psíquicas, e não só. Esta é uma situação de outro tipo de não-notícia.

Seria possível conhecer a corrupção dos políticos (de alguns até conhecemos, em demasiado), o que a acontecer levaria de imediato a ser colocado em causa o regime democrático. Na política a ausência de números oficiais dos corruptos é uma não-notícia.

Alguns dirão: isso é uma verdade de La Palice. Mas que há não-notícias, lá isso há! E, para memória de quem goste, o nobre e militar francês Jacques de la Palice (ou de La Palisse), também conhecido por Jacques II de Chabanes, nasceu em 1470 e morreu em 23 de fevereiro de 1525.

(In Notícias da Covilhã de 21.03.2012)

15 de março de 2012

Fórum "O Futuro do Jornalismo" realizado na Universidade da Beira Interior

Foi um sucesso o fórum de hoje, sobre “O Futuro do Jornalismo”, realizado na Universidade da Beira Interior, coordenado, a nível nacional, pelos jornalistas Adelino Gomes e José Bizarro.
 As boas-vindas e apresentação do projeto ficou a cargo dos professores doutores João Canavilhas (organização local) e Paulo Serra (Presidente da Faculdade de Artes e Letras).
A mesa 1, com o desenvolvimento do tema “O Jornalismo é diferente de outras formas de comunicação?” foi constituída por um aluno de jornalismo, da UBI, que apresentou o tema; pela professora doutora Anabela Gradim (presidente do Departamento de Comunicação e Artes) e pelo Dr. Luís Batista Martins (director do Jornal “O Interior” e “Interior TV”, da Guarda).
A mesa 2, com o desenvolvimento do tema “Que princípios e valores essenciais devem ser preservados no next journalism?” foi igualmente constituído por um aluno, que apresentou o tema; pelo professor doutor José Ricardo Carvalheiro (director da licenciatura em Comunicação Social) e pelo Dr. Fernando Paulouro, director do Jornal do Fundão.


A mesa 3, com o desenvolvimento do tema “Jornalismo e Cidadania” não teve a presença do aluno, mas intervieram o Professor Doutor João Carlos Correia (coordenador do projecto Labcom Media Cidadania e Proximidade) e João de Jesus Nunes, cuja palestra desenvolvi na qualidade de cidadão perante o jornalismo.
O professor doutor João Canavilhas, que me fez o convite em nome da UBI, participou e coordenou em todas as mesas.
Estiveram presentes perto de 100 pessoas inicialmente e 13 jornalistas.
O jornalista, sobejamente conhecido a nível nacional, e nesta qualidade coordenador, Adelino Gomes, que nas fotos se encontra a meu lado enquanto não fui para a mesa, ia intervindo e incitando os alunos na participação com perguntas.
Embora com algum receio porquanto foi a primeira vez que me vi envolvido numa participação de âmbito académico, e de jornalismo, sem possuir esses dotes, tive o prazer de ver o meu trabalho, apresentado em powerpoint, com grande sucesso, e atenção por parte de todos (alguns risos face a alguns casos que apresentei), chegando o jornalista Adelino Gomes a pedir-me para lhe enviar os testemunhos dos vários cidadãos, cujos elementos apresentei no powerpoint, mas que não puderam ler na totalidade, por serem extensos. Achou interessantíssimo esse trabalho, e desejava integrá-lo nas recolhas que vem fazendo por todo o País.




É exactamente nesta parte que eu quero agradecer, mais uma vez, a todos quantos colaboraram comigo, com as suas achegas.

7 de março de 2012

ZECA E A VILA MORENA

Há pessoas que se tornam imortais. No mundo dos vivos, neste caminhar até à fronteira da margem divisória dos dois mundos, Zeca deixou marcas indeléveis da sua ação: “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos – Zeca Afonso – nascido em Aveiro há 82 anos, partiu para o além, fez no dia 23 de fevereiro um quarto de século. Vivia em Setúbal.

Cantor e compositor português de excelência, as suas baladas e trovas continuam a ser de entusiasmo retumbante nas coletividades e associações, tendo em conta que, não obstante a queda da ditadura, há quase quatro décadas, ainda hoje continuam as injustiças a subsistir, reforçadas no descaramento.

Muitos de nós conhecemos este Homem na Covilhã, onde se deslocou a cantar, no pós 25 de Abril, exigindo sempre gratuitidade nos seus espetáculos. Algumas vezes o seu palanque de atuação situava-se num reboque de trator ou em largos das aldeias e cidades.

O cantor teve raízes no Fundão, pela parte do pai, e Tortosendo, pelos avós paternos. Depois, nesta região, viveu ainda em Belmonte, com um tio, onde frequentou a instrução primária.

A sua primeira esposa era de Mortágua e a segunda de Olhão (Fuzeta).

Se nos tempos salazaristas e marcelistas sempre houve a falta daquela “virtude moral que inspira o respeito pelos direitos de cada pessoa e a atribuição do que a cada um é devido”, conforme definem os dicionários, a par da perda de liberdade, mais estranho, ou talvez não, é o descaramento com que os nossos governantes, em democracia, dos vários quadrantes políticos, praticam, ainda mais, a injustiça.

Será que, no meu “talvez não” de estranheza seja devido à liberdade o descaramento da prática da injustiça?

Se, na infelicidade de muitos humildes casais, apanhados nas redes do desemprego, por que jamais pensaram ser atingidos, não houvesse, paradoxalmente, a felicidade de existirem homens e mulheres do voluntariado, para, no âmbito das instituições de solidariedade, muitas vezes fazerem das tripas coração, para colmatar a fome, o frio, a ajuda nos medicamentos e no material escolar dos filhos, das rendas de casa, água, luz e gás, entre outras mais, com o cada vez aumento de necessitados, a injustiça teria em vez de um caminho, uma grande autoestrada.

Por isso, cada vez mais, as canções de Zeca Afonso, e de Adriano Correia de Oliveira, que vai completar trinta anos da sua morte, têm atualidade.

È na vida política que muitos vão beber a água que enche os potes das suas satisfações financeiras, da engorda para uma vida de fausto, apregoada num trabalho esforçado em nome do povo.

Se, a começar pelas autarquias, tudo fosse realizado duma forma de voluntariado, sem benesses, de certeza de que não haveria tantos boys e girls.

Se houvesse um verdadeiro serviço de justiça, não permitindo o oportunismo de luxuosas reformas antecipadas a esses boys e girls, findas as suas forçadas “missões”, na capital e outras regiões, a executar serviços que nunca foram explicados, não estaria este País a necessitar, cada vez mais, das vibrantes vozes expressivas numa canção como “Grândola, Vila Morena”.

Voltai, pois, Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, através das vozes sentidas nas vossas canções.

Há 25 anos, aquando da morte de Zeca Afonso, foi registado pelo Vereador da Cultura da Câmara Municipal da Covilhã, na ata da sessão camarária, o seguinte: “Na falta de melhor destinatário para um voto de pesar, pela morte de Zeca Afonso, penso que não poderá haver melhor endereço do que simplesmente – Portugal.

Portugal perdeu, efetivamente um expoente raro da cultura contemporânea. (…)

- Morreu o grande músico, poeta e lutador dos desprotegidos, José Afonso! (…) Como poeta, tanto o encontramos a tecer ritos paralelísticos, numa enorme liberdade de fantasia enternecida, solidária ou sarcástica, onde perpassa toda a gama extraordinariamente rica de temperamento deste segrel, como pensa a pátria cinzenta, a clara mágoa do tempo e a sua tristíssima alegria. (…) Como lutador teríamos que escrevê-lo com letras do tamanho da CORAGEM, do SOFRIMENTO, do ÓDIO à GUERRA e à VIOLÊNCIA, da OPRESSÃO!

Zeca Afonso tornou-se pela sua obra, literária e de ação, um incómodo para todos os que, bem instalados na vida, nos respondem: -  “Quem não está bem, mude-se…” (,,,) E a Grândola, Vila Morena. Só esta seria suficiente para imortalizar qualquer compositor, qual hino de libertação, porque foi o santo e a senha da madrugada de esperança do Portugal de abril! (…)”

(In Notícias da Covilhã de 07.03.2012)

22 de fevereiro de 2012

PARA NÃO PENSAR NA CRISE, OS CONVÍVIOS

As tradições mantêm-se, independentemente das ondas dos tempos que correm.

E, um dos meios para uma convivência sadia é em redor de um evento que, genérica ou forçosamente, tem de permeio um manjar.

Há uns dias, João Rodrigues vem-me convidar para o “Convívio do Feijão-Frade”, no Tortosendo, realizado no sábado, 18 de fevereiro.

Era-me alheio este acontecimento. Mas quis experimentar, e conhecer o ambiente.

O dia seria longo mas quedei-me somente pelo almoço… já que a tarde estava comprometida com outros afazeres.

No café-esplanada do jardim do Tortosendo foi o nosso ponto de encontro. Lá estava já o Manuel João e o Costa, com o João Rodrigues.

Depois de pormos algumas conversas em dia, seguimos para o lugar do repasto – a Escola do Ciclo Preparatório.

Envolvidos no ultimar dos preparativos para que nada corresse mal, e o “Convívio do Feijão-Frade” continuasse a ser um êxito, lá andavam os organizadores Tó Gabriel, José Barbaças, José Rabasquinho, Fernando Canhoto e o Trindade.

A bola de carne, os enchidos, os queijos e o vinho estavam de plena aprovação, enquanto iam chegando mais uns quantos participantes, conhecidos, amigos, outros desconhecidos, dos vários pontos da região covilhanense, na envolvente de uma tradição que, afinal, já se realiza sem interrupção, há dezenas de anos, geralmente no último sábado do mês de fevereiro.

Na cozinha, os três cozinheiros esmeravam-se por dar cumprimento ao anseio dos que continuavam a chegar, e já atingiam o número superior à centena de participantes inscritos.

Surge a chamada, por ordem de inscrição, e lá se vai recolhendo, duma forma muito bem ordenada, o feijão-frade, a hortaliça, o enchido, a carne, o tempero, e não só…

As mesas enchem-se de homens que convivem, mais um ano, em redor de uma mesa bem guarnecida e, principalmente, de manter uma tradição, na convivência amena, num belíssimo dia soalheiro.

E o dia lá continuou, que iria culminar, em termos de “comes e bebes” com a célebre sopa de feijão-frade.

(In Notícias da Covilhã, de 22-02-2012)

8 de fevereiro de 2012

O ESPLENDOR DE PORTUGAL


- Toninho, come um pastelinho de nata e toma um chazinho de tília. Acalma os teus nervos!

- Maria, já te esqueceste do teu Aníbal?

- Aníbal António não é, afinal, o meu amor querido?

E não é que o homem de Boliqueime lá foi conseguindo dormir o primeiro sono, mas, levado em sonhos fora do mundo dourado, levanta-se, estremunhado.

E Maria, sua companheira dos bons e maus momentos, resolve o problema com um sal de fruta.

- Foi o pastelinho de nata, Toninho, mais valia teres comido bolo-rei.

O bolo-rei estava entretanto na arca e, conquanto a situação estomacal regressasse ao normal, o grande homem das lides lusitanas prossegue a conversa num tom mais tranquilizante.

- Ora vamos lá, Toninho, o facto de teres dito que eu tenho uma reforma de cerca de oitocentos e tal euros à populaça, eu não levei a mal, amor. Mas quanto aos mil e trezentos euros da tua reforma, mil e trezentos euros como repetiste, podias ter aumentado mais um bocadinho, para calares aqueles malditos que se esqueceram das estradas que lhes destes, dos subsídios que lhes concedestes, das admissões nos serviços públicos, de confiares nos formadores sem reservas, dos catorze meses que destes aos pensionistas…

- Maria, meu encanto, só queria que ao menos um jornal, uma televisão ou uma rádio, deste meu querido Portugal, deitasse água na fervura e me ajudasse a resolver o problema…

- Ainda não recebemos o jornalzinho da Paróquia. E se formos falar com o prior?

Depois duma combinação de pensamentos, e tendo verificado na comunicação social que no barómetro relativo a um estudo sobre a qualidade da democracia se verificou que já só 56% verificaram que a mesma é preferível a qualquer outra forma de governo; que o maior defeito da democracia em Portugal é a falta de confiança nos políticos e no governo; que quem dá voz às preocupações dos portugueses, a maior percentagem cabe ao Presidente da República; que, da avaliação dos políticos e das decisões, 78% estão de acordo que “os políticos preocupam-se apenas com os seus próprios interesses”; o cidadão de Boliqueime quebra o silêncio quanto às declarações que fizera: “Não foi obviamente meu propósito eximir-me aos sacrifícios que os portugueses estão a fazer nos dias de hoje, tendo mesmo insistido que o meu caso pessoal não estava em questão”.

Ora, o excelentíssimo senhor Presidente da República Portuguesa, ex-Portugal d’Aquém e d’Além-Mar em África, mas agora ainda do Minho, Trás-os-Montes, Douro, Beiras, Estremadura, Alentejo e Algarve, e também, quando o deixam, dos Arquipélagos dos Açores e Madeira, tem dificuldades de expressão quer oral quer escrita, com evidentes limitações nesta área. Sempre foi difícil entender o que diz o atual Presidente da República Portuguesa. Quando Cavaco se afasta das constatações mais óbvias e evidentes, lança a confusão entre a população.

E de quem é a culpa, Zé Povo?! A pergunta pode parecer estranha mas é evidente: Como foi e tem sido possível que o cidadão Aníbal José Cavaco Silva venha a desempenhar os altos cargos no destino da nação que lhe têm sido confiados, através dos processos normais da democracia?

Agora que já não há mais nada para alargar territorialmente, como no tempo dos nossos monarcas do passado; nem descobertas a fazer, como nos tempos henriquinos; já não temos batalhas no campo como no tempo dos besteiros; nem as guerras das colónias, ditas ultramarinas, para a então defesa da integridade nacional; haveria que por à prova as reais capacidades de alargamento dos horizontes na também defesa dos portugueses, dos seus grandes valores em muitíssimos domínios, sem se ser dominado pela febre do ego, dos seus pertences, património, ou vencimentos conquistados num aglutinar de várias tarefas.

Aníbal José é um dos governantes com maior influência nos caminhos percorridos pelo nosso País, desde a integração europeia até à situação atual, nesta queda pantanosa, abismal.

E, com a sua inexistente eloquência, lá disse o que ninguém percebeu: “a sua intenção foi de ilustrar, com o seu próprio exemplo, que acompanha a situação dos portugueses que atravessam dificuldades”.

E, quando primeiro-ministro, era o homem que não lia jornais, nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, pelo que conseguiu desgovernar o País, contribuindo para que, possivelmente, vamos passar a ser uma colónia dum dos países que já colonizámos.

(In “Kaminhos Magazine”, de 01-02-2012 e  no “Notícias da Covilhã”, de 08-02-2012)

19 de janeiro de 2012

O CENTENÁRIO MONUMENTO DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO


Em local aprazível, na zona do Bairro de Santo António, perto da reitoria da Universidade da Beira Interior, onde in illo tempore existiu o Convento de Santo António, ergue-se, imponente, saudando a cidade da Covilhã, a Rainha Padroeira da Cidade e de Portugal, num monumento que veio a ser inaugurado no dia 10 de Outubro do ano da graça de 1904.

Aconteceria então esse evento, nas comemorações do 50.º aniversário da proclamação dogmática da Imaculada Conceição de Maria, cujo dogma de fé foi definido em 08.12.1854, pelo Papa Pio IX.

E, tendo em 1858 acontecido as aparições de Nossa Senhora de Lourdes, em França, onde a Virgem confirmou que era a Imaculada Conceição à vidente Bernadette Soubiroug, veio originar que, tendo a imagem sido encomendada em França, foi entregue com as feições de Nossa Senhora de Lourdes, embora seja considerada pelos covilhanenses Nossa Senhora da Conceição.

Já escrevi, neste mesmo espaço, precedendo as comemorações do centenário da inauguração do monumento, reportando no texto vários eventos importantes, a alguns dos quais assisti, adolescente e jovem, como na data de 26 a 30 de Maio de 1954 em que a Diocese da Guarda promoveu, na Covilhã, um Congresso Mariano, no centenário da definição dogmática da Imaculada Conceição, com a apoteose de dezenas de milhar de pessoas.

Depois, as festas comemorativas do Centenário de Lourdes, de 27 a 29 de Junho de 1958, na Covilhã, tiveram a presença do Núncio Apostólico, D. Fernando Cento. Recordo que, como estudante, esperámos por ele e pela sua comitiva, junto á Igreja de S. João de Malta, com bandeirinhas amarelas e brancas, alusivas às cores da Santa Sé. Num daqueles dias, no grande salão que existia no r/chão do bloco mais antigo da Escola Industrial, ali também fora recebido o Núncio Apostólico, juntamente com o Bispo da Guarda, D. Policarpo da Costa Vaz, Presidente da Câmara, Director da Escola, Eng.º Ernesto Melo e Castro e outras entidades civis, religiosas e militares, para uma conferência alusiva ao acto que se vivia.

Mas o forte das comemorações aconteceu no Monumento de Nossa Senhora da Conceição.

Mais tarde, aquando da vinda das relíquias do Santo Condestável à Covilhã, com pompa e circunstância, em 20 de Maio de 1961, foi, mais uma vez, o monumento em causa objecto de festividade, nomeadamente com a colocação no mesmo, algum tempo depois, duma réplica da espada de Nun’Álvares, que se manteve durante vários anos até que um dia foi retirada, lamentavelmente, por indicações do pároco da freguesia de S. Martinho. Lá apareceu a réplica da espada, mais tarde, encontrando-se actualmente à guarda da Fraternidade Nun’Álvares.

Todas estas festividades eram palco de grandes iluminações públicas, quer no edifício dos Paços do Concelho, quer na envolvente das igrejas da cidade, e não só, fruto do trabalho inteligente e artístico, que sabia coordenar, o responsável de então pelo organismo municipal, Alexandre Galvão Aibéo.

Algumas fotografias deste trabalho, que embelezaram as aludidas comemorações, podem ser consultadas no 2.º volume do meu livro “Vida e Obra dos Bombeiros Voluntários da Covilhã”, fruto da prestimosa colaboração de D. Isabel Maria Aibeo.

Também do monumento se desfruta uma excelente panorâmica da cidade e região, assim como da Serra da Estrela. Lugar de silêncio que se traduz também numa tranquilidade de espírito, onde muita gente faz visitas diárias ou periódicas, algumas no cumprimento de promessas.

Em tempos houve a preocupação de efectuar uma escadaria que desse acesso à parte sul para integrar mais o monumento dentro da cidade, tendo este semanário servido de recolha de subscrições para comparticiparem no melhoramento do local e do monumento, o que veio a acontecer, durante várias semanas.

E foi Mário do Carmo Martins que me fez recordar a generosidade dos covilhanenses, iniciada com o número de 6 de Dezembro de 1991, do “Notícias da Covilhã”, então num apelo do Padre José Batista Fernandes, entregando-me um conjunto de documentação deste jornal, fazendo questão da sua entrega se verificar exactamente no dia em que se completavam 20 anos desse evento, ou seja, no dia 06/12/2011.

Depois, numa demonstração de quanto o lugar do monumento, e o espaço envolvente, são acolhedores, e geradores da esperança, agradecimento e uma certa tranquilidade de espírito, junto de Nossa Senhora, Padroeira dos Covilhanenses, foi-me feito reparo, algo de alguma preocupação, por quem o visita regularmente, dado o facto de, na zona do acendimento das velas, o seu específico espaço não se encontrar devidamente protegido, com as mesmas a tombarem, algumas caindo.

Penso que a edilidade poderá dar uma ajudinha no sentido de resolver a situação, pois o local bem o merece, e só o não terá feito por desconhecimento.

(In “Notícias da Covilhã” de 19.01.2012)

5 de janeiro de 2012

CRÓNICA PARA INÍCIO DO ANO

No alvorecer do ano findo, o covilhanense Paulo Pimentel, radicado no Brasil, convidou os seus conterrâneos a levar o ano a rir, com a apresentação do seu primeiro livro, cheio de histórias engraçadas, geradas no humor citadino de figuras que, algumas, já desapareceram desta terra laneira de então, universitária de hoje.
Era então de risos, e de muitos sorrisos, que vínhamos a necessitar, qual lenitivo para as angústias de um ano inteiro.
Depois, foi a continuidade de um manancial de várias vertentes da cultura, com expoentes elevados em muitos campos do conhecimento, dos costumes, da música, da arte sacra e não só, e da educação, na urbe, que constituem a herança da nossa comunidade.
E, esta laboriosa Cidade, sofredora como o País inteiro, pelos quatro pontos cardeais do seu rectângulo, soube atrair a si vários cafés literários, acções culturais de vária índole, com eventos muito interessantes, fazendo elevar a nossa auto-estima, abalada por muitos nababos da política portuguesa.
Recentemente, mas ainda em 2011, tive o prazer de acolher na Covilhã um antigo colega de profissão, viajante de quatro costados pelos cinco continentes –Vasco Callixto – que, neste ano findo, apresentou o seu quinquagésimo livro sobre viagens, e, no momento em que redigia  esta crónica, via passar na RTP, em rodapé, o anúncio da apresentação de “50 Anos de Viagens”, na Casa da América Latina, em Lisboa.
Mas, no crepúsculo de 2011, um outro covilhanense, João Morgado, quis brindar-nos com o seu livro de contos –  “Meio-Rico” –  que fez memorizar os tempos de outrora.
Eram tempos sem tecnologias, sem penumbra de maleitas da desgovernação dos dias de hoje.
Eram também tempos de pobreza mas não havia, como hoje, a abastança descontrolada de muitos dos aflitos de agora, conducentes a um país dependente de auxílios, nos caminhos da indigência.
Vemos a cidade a acolher estes acontecimentos culturais, fora das paredes de pompa e circunstância dos Paços do Concelho.
E, assim, no peculiar da sua hospitalidade, e no que já vai sendo um hábito, foi o Café Jardim que proporcionou mais uma tarde cultural, bem expressa nas palavras do seu proprietário, Joaquim Almeida, orgulhoso de mais este evento.
Mas João Morgado trouxe à memória, nalguns contos inseridos no seu livro, a vivência de outrora, em aspectos como, por exemplo, o comércio tradicional de então. Nesses tempos ainda não tinham surgido as grandes superfícies nem entidades públicas como a ASAE.
Havia a mercearia da aldeia ou da cidade, onde se vendia de tudo, desde o açúcar e da manteiga, ao peso; do bacalhau, cortado por meio de uma faca fixa no balcão; do azeite, vendido ao litro; do petróleo, para os candeeiros e fogareiros a petróleo… como também do sabão rosa e sabão amarelo, vendidos em barras e ao quilo; mercadoria e produtos pesados nas balanças Avery; e do “sabão macaco”…
Li o livro, de fio a pavio, e, em 2011 já no ocaso, prenúncio de um 2012 de maus augúrios, recordei a mercearia de José Soares Cruto, na Rua dos Combatentes da Grande Guerra, já desaparecida, um dos estabelecimentos que servia uma grande clientela da zona, onde também se vendiam louças de alumínio, e era local de conversa de muitos amigos do seu proprietário, que sabia acolher as pessoas, assim como o seu humilde e simpático empregado, José Simões. O Padre Nabais era um desses amigos, assim como o Belmiro, da Subdelegação de Saúde; e Filipe Roberto e Runa, então funcionários dos SMC. Pela Páscoa também se vendiam as amêndoas, e, pelo Natal, os chocolates alusivos, quase sempre os mesmos tipos, geralmente bonecos, ou tabletes.
E, assim, assistimos à apresentação de mais um livro, escrito ainda sem as regras do novo acordo ortográfico.
Já não nos chegavam os grandes problemas económicos que se agigantam para 2012, quanto mais a obrigatoriedade do novo acordo ortográfico, que me desculpe o amigo professor Malaca Casteleiro.
Mas tenhamos fé, esperança e uma inabalável garra de dar a volta ao texto, e na denúncia perene dos malfeitores.
(In Noticias da Covilhã de 05.01.2012)

7 de dezembro de 2011

E TUDO ISTO É FADO

“Perguntaste-me outro dia se eu sabia o que era fado. Disse-te que não sabia, tu ficaste admirado” – No meio da situação pantanosa em que caímos, e nos deixámos empurrar para o precipício, com culpa de todos nós, porque adormecemos com as canções de embalar, vai-nos valendo agora o FADO, proposto à Unesco para um dos sete Patrimónios Imateriais da Humanidade, e, na Indonésia, eleito com indubitável mérito.

Na indolência dos que, enlevados pelos “direitos adquiridos”, foram mandando às malvas todos quantos lhes sopravam aos ouvidos os exemplos dos políticos que enriqueciam depois de saírem do Governo; e aqueles que, com subterfúgios, levaram o que, duma forma geral, foi subtraído à classe média; vêm os mesmos a assustar-se só quando se aperceberam da mexida nas suas algibeiras, retirando os referidos “direitos”. E, então, a sua raiva pelo inaudito de muitos dos nossos políticos, numa autêntica forma de ganhar a lotaria.

“Sem saber o que dizia, eu menti naquela hora, disse-te que não sabia mas vou-te dizer agora” – Já anteriormente, numa então era de “scolarização”, quando o navio da nossa imaginação começava a mergulhar demasiado nas águas profundas do oceano da nossa impaciência, foi necessário um impulso de embandeirados, com a nossa selecção de futebol, para nos fazer levantar a cabeça e mostrar uns sorrisos, mais que não fosse para reaver a nossa auto-estima, perante os iluminados governantes, que então preferiram deitar fora a bússola e guiar-se pela estrela polar das suas visões mais convenientes. Fomos também caindo na canção do ceguinho, e, no nosso ego, desfraldámos e recalcámos o “direito a ter direitos”, mas esquecendo que, no reverso, também havia a faceta do “dever de cumprir os seus deveres”.

“Almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras” – Mas, por mais voltas que se dêem, não descortinámos como solucionar preocupações constantes, e delas ressaltam, por exemplo, as das injustiças, num vasto campo de várias vertentes, entre as quais o porquê de continuar a haver portugueses de primeira, portugueses de segunda e portugueses de lixo, na forma como têm direito a ser tratados nas suas doenças: uns não pagam nada, outros pagam uma parte e outros pagam tudo, ainda que fruto dos tais “direitos adquiridos” das suas actividades profissionais.

“Na Mouraria, canta um rufia, choram guitarras; amor, ciúme, cinzas e lume, dor e pecado, tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado” – E isto para já não nos referirmos às empresas de transportes – Carris, Refer, Metro, e por aí fora –, denunciadas com altas regalias, algumas no luxo de serem extensíveis a outros familiares já fora da sua esfera de agregado familiar, numa vergonha nacional, agora com incomensuráveis dívidas.

“Se queres ser meu senhor, e teres-me sempre a teu lado, não me fales só de amor, fala-me também do fado” – Não houve nenhum dos nossos ilustres governantes que cumprisse a sua palavra. Alguns, economistas de meia-tijela, doutores à pressa para ficarem bem na fotografia, que diziam conhecer bem os dossiers antes de integrarem as suas funções governativas, apanharam-se no poleiro, e, bem depressa, as promessas foram dissipadas, porque, no já habitual “viemos encontrar uma situação diferente da que esperávamos”, levaram à tentativa de deitar areia para os olhos, aos parolos das suas mentes, mas que já não passam por ceguinhos… As contas públicas a apresentarem défice todos os anos, num endividamento diário, a que os portugueses se haviam vencido num hábito de convivência pacífica com esta realidade, tentaram desviar-nos da atenção deste país real.

“É o fado que é o meu castigo; só nasceu p’ra me perder. O fado é tudo o que digo, mais o que eu não sei dizer” – Viver acima das possibilidades era já uma normalidade. E agora, com a “troika”, ao se verificar que a Europa Unida afinal não é tão solidária como parecia ser, quando nos chegam verdadeiramente ao pêlo com os cortes salariais, se levantam as consciências do que andámos a fazer ou não andámos a fazer.

 Depois do deixa andar, da inveja do parceiro que fez pela vida, das lágrimas daqueles “pobres envergonhados” que o infortúnio lhes bateu à porta, do mouro de trabalho que, num ápice, viu surgir o fim do seu emprego; no sofrimento dos que não conseguem tratamento para os seus males porque não têm dinheiro para fazer face a um direito que lhe é negado, resta-nos deste embrenhado nesta amálgama de infortúnio, dizer que tudo isto é triste, tudo isto é fado.

(In “Notícias da Covilhã”, de 07.12.2011, e n’ ”O Combatente da Estrela”, n.º 89, de Dezembro 2011)

24 de novembro de 2011

NEM SEMPRE O TEMPO SIGNIFICA MUDANÇA

Beco das Lages, nº. 6

Tão perto mas paradoxalmente tão longe…

Vai já distante, no tempo, a data de 12 de Fevereiro de 1955, altura em que vim residir para a Covilhã, com nove anos, do lugar onde nasci – Pousadinha –, bem altaneiro, muito perto do pinhal, de ares menos carregados de poluição; árvores de fruto, sossego, contacto com a natureza, ainda no tempo da malha do trigo (o pão, como se designava) com mangual.

Electricidade inexistente, durante muitos anos. Resolvia-se o problema primitivo com fogões e candeeiros a petróleo ou a carboneto; lareiras em cozinhas graníticas, de tecto muito elevado, separadas da moradia, donde pendiam grandes correntes para pendurar as panelas de ferro, sobre os cavacos a arderem. Aqui se coziam alguns alimentos e se fazia o caldo; e também se aquecia comida para os animais (o “vivo”, como linguagem popular).

A família reunia-se à noite, em redor da lareira, para conversar, mas a “civilização” era um pouco mais adiante, alguns quilómetros, para as bandas da cidade, e aí se verificava a instrução.

Viemos, algo precipitadamente, residir para uma casa modesta, de um só piso, na Covilhã, freguesia de Santa Maria – o Beco das Lajes, n.º 6.

Mas, de tão degradada, mais não nos restou que solucionar o problema, com a saída para a zona sul da cidade, juntinho à Escola Industrial, no dia 5 de Junho de 1955, ainda não eram concluídos quatro meses.

Tão perto mas paradoxalmente tão longe…por falta de vontade ou, diga-se, de não haver necessidade de visitar o local.

Na correria louca do tempo, na quase permanente utilização do automóvel em substituição da caminhada do dia, aquela zona, de ruas estreitas e casario antigo, não mais voltara a ser por mim visitada, não obstante ter o meu local de trabalho a uns trezentos metros…ainda que muitas vezes percorresse as suas redondezas.

Resolvi que surgisse a proximidade, visitando há algumas semanas aquele local, numa de nostalgia, de máquina fotográfica em punho, volvidos que foram 56 anos, mais de meio século!

Recordei-me de, criança que era, na Igreja de Santa Maria, ouvir cantar a Juventude Operária Católica (JOC) o seu hino jocista: “Sentido à voz de Cristo, avante! Jocista, em frente e sem temor; Responde em coro a voz pujante: Contigo, ó Deus Trabalhador”.

Mas também os estudantes do Liceu e da Escola Industrial, fardados da Mocidade Portuguesa, perfilados, para se integrarem na procissão que do mesmo templo saía, esperavam à porta, cantando o hino do tempo da outra senhora: “Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados sim, pela voz do som tremendo, das tubas, clangor sem fim”.

Nem sempre com o tempo significa haver mudança…

Quando esperava já não encontrar a casa onde residi, e as do seu reduto; quando deduzi ir ver o local com as casas demolidas de tão degradadas; encontrei o mesmo com quase tudo como há mais de meio século. Lá se encontrava, bem visível, o n.º 6 do Beco das Lajes, e as casas onde vivia a D. Ritinha e os Melchiores, vizinhança simpática e acolhedora ao nosso agregado familiar de sete pessoas, naquele altura.

Efectivamente, por ser uma zona de lajes, como o próprio nome indica, conseguiu manter intacta a degradação, ao longo destes anos, em plena zona urbana da cidade, ainda que aquele Beco se encontre quase num esconderijo. Até o Padre Pina, que tão perto ali vivia, se fosse vivo, ficaria estranho. No entanto, a edilidade, na sua transformação estrutural de melhoramentos na cidade e concelho, e de inovações, substituiu, e bem, algumas lajes por escadaria em pedra.

Mesmo assim, nesta indubitável revolução, alguns espaços próximos, como aquele, ficaram incólumes de qualquer transformação.

Embora nem tudo seja possível como se pensa, lá que há coisas que são de estranhar, lá isso há.

(In Notícias da Covilhã de 24.11.2011)

17 de novembro de 2011

MALOGRADA GLÓRIA DO SPORTING DA COVILHÃ – FRANCISCO MANTEIGUEIRO

Francisco Pinto Manteigueiro

Foi a sepultar na sua terra natal, no dia de S. Martinho, o covilhanense Francisco Pinto Manteigueiro, de 78 anos, velha glória do Sporting Clube da Covilhã (SCC).
Acometido de doença, há já algum tempo, em Elvas, onde vivia há vinte e cindo anos, veio a deixar de ter a sua presença amiga, entre nós. Era encontrado, várias vezes, nos eventos da colectividade serrana, e mormente tendo como origem as boas memórias da sua passagem pelo clube serrano. Representou o mesmo durante muitos anos, duma forma quão alegre como aguerrida, deixando marcas vincadas do seu real valor de atleta de excelência.


Iniciou-se no futebol num clube da então FNAT (hoje Inatel) – o extinto Estrela de S. Pedro, da Covilhã.

Em 1951 inscreveu-se nos juniores do SCC, tendo efectuado um único jogo. Dando de imediato nas vistas, no ano seguinte jogou logo na primeira equipa.

Com vinte anos ganhou um lugar na equipa principal do SCC, então na Primeira Divisão Nacional, emparceirando com atletas de renome, nomeadamente os irmãos Cavem (o Domiciano iria para o Benfica), Cabrita, Carlos Ferreira, Simony, Martin, Nicolau e Lanzinha.

E, assim, nas épocas áureas do SCC na I Divisão Nacional, desde 1953/54 a 1961/62, não deixou de ser escolhido para integrar as equipas principais, inclusive, participou na Final da Taça de Portugal, com o Benfica, em 02-06-1957, sendo um dos esteios da sua equipa.

Depois, seria ainda Campeão Nacional da II Divisão Nacional, na época 1957/58, e uma das suas pedras basilares, a par de Cabrita, Suarez, Rita, e outros.

Marcou 16 golos durante a I Divisão, não obstante ter grandes goleadores como seus parceiros, nomeadamente Simonyi. Domiciano Cavem e Suarez, mas, já na fase derradeira do SCC na I Divisão Nacional, Francisco Manteigueiro ainda ajudaria a sua equipa com golos, sendo o melhor marcador, com seis, na época 1960/61.

Veio depois a dar um grande contributo na II Divisão Nacional, jogando então com colegas mais novos, a quem terá incutido a sua garra e o seu exemplo, nomeadamente ao grande goleador, durante vários anos, do clube serrano – Fazenda.

Para além da final da Taça de Portugal, já referida, integrou quase todas as equipas nos jogos da Taça, desde a época de 1954/55 a 1969/70, tendo marcado alguns golos, como o do empate, a uma bola, contra o F C Porto, no Estádio Santos Pinto, no dia 27 de Março de 1960.

Foi pretendido pelos chamados clubes grandes do futebol nacional, com os quais não chegaria a acordo. Chegou a ser-lhe prometida a internacionalização pelo seleccionador Dr. Tavares da Silva, que, entretanto, falecera.

Terminou a sua carreira de atleta, sempre ao serviço do SCC, em 1972, após 21 anos de envergar a sua camisola, pela qual sempre teve grande amor.

Manteigueiro é o último, de pé curvado

A sua acção teve papel influente no comportamento da equipa. E, com todo este grande empenhamento, duma carreira brilhante, onde conheceu bons e maus momentos com a única camisola verde-branca, não teve qualquer festa de homenagem, depois de muitos anos de bons serviços, logo após terminar a carreira, ao contrário do que aconteceu com alguns dos seus colegas.

Mas, não obstante este injusto esquecimento, Francisco Manteigueiro ainda serviu o SCC como treinador e dirigente, em vários mandatos, sempre de semblante alegre, como lhe era peculiar.

Viria ainda a treinar o Desportivo de Castelo Branco, o Belmonte, Teixosense, Benfica e Castelo Branco, Benfica do Tortosendo, Unhais da Serra e Associação Desportiva da Guarda.

Esteve também envolvido na vida autárquica e associativa, onde sempre granjeou muitos amigos..

Manteigueiro e Marcelino numa festa da APAE de homenagem

Manteigueiro e Lanzinha numa homenagem do SCC

O seu funeral, apesar de sentido pelos seus bons amigos e alguns colegas do futebol serrano, que marcaram presença – Pires, Lanzinha, Fazenda e Prata – e também duma voz do Brasil, que ocasionalmente foi objecto de um telefonema, durante o velório – Vitoriano Suarez Montero –merecia que tivesse mais covilhanenses, e por que não a edilidade covilhanense, para além de mais dirigentes antigos e actuais do clube serrano, sendo que alguns estiveram presentes e colocaram sobre a sua urna a bandeira do seu clube de sempre – o Sporting Clube da Covilhã.

( In “Tribuna Desportiva” de 15.11.2011, e no “Notícias da Covilhã” e “Jornal do Fundão” de 17.11.2011)

9 de novembro de 2011

QUANDO O PRIMEIRO AUTOMÓVEL SUBIU À SERRA DA ESTRELA



Há sempre uma primeira vez. E, assim, o primeiro automóvel a chegar a Portugal – um Panhard-Levassor, importado de Paris – ocorreu em 1895. Logo na primeira viagem, entre Lisboa e Santiago do Cacém, teve um acidente – o primeiro acidente de viação ocorrido em Portugal – tendo sido atropelado um burro.

As estradas, in illo tempore, estavam muito longe das comodidades de hoje.

Volvidos meia dúzia de anos, entrou na Covilhã o primeiro automóvel, em 1901, pelas mãos do comerciante João Alves da Silva, então com 21 anos, tendo nascido em Abrantes mas constituído família na Covilhã, onde se radicou.

Foi um homem de influência no meio citadino, tendo presidido à Comissão Administrativa da Câmara Municipal da Covilhã, e depois como vogal, em Janeiro de 1912. Foi delegado e sócio fundador do Automóvel Clube de Portugal e fez parte da “Sociedade de Propaganda de Portugal”, do “Turismo – Comissão de Iniciativa Estância da Serra da Estrela” e do “Grupo de Propaganda da Serra da Estrela”.

Mas é ainda João Alves da Silva que em 1906, com um automóvel, Darracq de 10 HP e 2 cilindros, sobe, pela primeira vez, à Serra da Estrela, quando não havia ainda estradas, mas antes caminhos. Foi a primeira escalada à Serra, em automóvel, sem qualquer via de acesso a “não ser alguns escabrosos caminhos de pé feito, que dificilmente se trilhavam”, conforme referiu o meu antigo colega de profissão, Vasco Callixto, na revista ACP de Novembro/Dezembro de 1965.

“Façanha com foros de sensacional, rodeada hoje de todo o pitoresco dos feitos heróicos dos primeiros tempos entre nós, ficou a dever-se a um dedicado pioneiro do automobilismo, que foi também um incansável propagandista das belezas naturais da sua região, quando o turismo era ainda letra morta em Portugal. João Alves da Silva ousou meter ombros a um cometimento de vulto, que muito boa gente não hesitou em condenar a completo malogro. Se encosta acima só havia calhaus e penedos, como poderia um “carro sem cavalos” levar a bom porto essa aventura?”, continuou assim a referir-se Vasco Callixto na revista do ACP.



Naquela viagem de automóvel, João Alves da Silva levou como passageiros três amigos: António Pereira Barata, Diamantino Henriques Pereira e António Lopes Fazendeiro, igualmente grandes entusiastas do automobilismo.

Antes de iniciar a marcha, contactou o mecânico Gregório da Fonseca Mimoso, conhecido por “Marroca”, um dos mais hábeis mecânicos da Beira Baixa.

Preparado o “Darracq”, com maior ou menor dificuldade saiu vitorioso da espinhosa missão que lhe havia sido confiada. Serra acima, através de caminhos e veredas pedregosas e havendo-se com rampas muito respeitáveis chegou como um herói às Penhas da Saúde. João Alves da Silva e os seus companheiros de aventura deram largas à sua alegria, por terem levado a bom termo a sua façanha, não se fazendo esperar as felicitações.

No entanto, não tinham contado com as dificuldades da descida, tendo o regresso à Covilhã sido a parte mais penosa da jornada, ameaçando o automóvel, a todo o momento, despenhar-se no abismo com os seus destemidos ocupantes. Foi uma odisseia que constituiu a primeira descida da Serra da Estrela em automóvel.

Em 1912, os entusiastas beirões do automobilismo fizeram disputar uma prova que ficou conhecida por “Corridas da Covilhã”, embora lhe chamassem também, mais apropriadamente, “Circuito da Serra da Estrela”. Estas “Corridas” foram integradas nas Festas da Cidade.

Mas, este jovem de 86 anos – Vasco Callixto – esteve recentemente na Covilhã, com a esposa, cujo casal tive o prazer de o acompanhar numa visita à cidade e à Serra da Estrela, e foi, para além da sua profissão, jornalista e escritor. Escreveu recentemente o seu 50º livro sobre viagens, tendo percorrido o mundo em automóvel. E, na nossa região, donde já sentia uma nostalgia, Vasco Callixto havia visitado a mesma há muitos anos, tendo pernoitado na antiga Colónia Infantil da Montanha (actualmente Pousada da Juventude), a convite do professor António Esteves Lopes que leccionou na Escola Industrial e foi um homem que se dedicou ao turismo e à Serra da Estrela.

Estava longe de saber que um antigo colega de profissão, de outros tempos, ainda se mantinha com um grande vigor pelas letras.




( In Notícias da Covilhã de 09.11.2011)

3 de novembro de 2011


(In Noticias da Covilhã, de 03.11.2011)

PRAXES ACADÉMICAS

Sempre me irritaram. Não acho piada alguma. Deixo-me rir com a estupidez das mesmas, ou seja, dos seus artistas.

Há sessenta anos não havia ainda universidade na cidade. E, no País, só sabíamos da existência das mesmas em Coimbra, Lisboa, Porto e Évora. A sapiência até era outra. As oportunidades de continuar os estudos também só eram possíveis para quem tivesse possibilidades financeiras. Não havia as facilidades de hoje, com “Novas Oportunidades” pelo meio. Os estudantes do antigo 7.º ano do Liceu e do Colégio Moderno preocupavam-se também com o latim,

Mas já havia praxes no secundário, onde obrigavam os caloiros a beijar a colher de pau, e, na Escola Industrial, aos alunos nocturnos, depois de os agarrarem levavam-nos aos ombros, em algazarra, numa grande tropelia, para as râmolas da Escola, que ficavam à direita do edifício, frente à oficina de tecelagem, e aí infligiam o sacrifício ao caloiro, abrindo-lhe as calças pela portinhola e introduzindo pela abertura toda a sorte de detritos, sobretudo terra amassada com água.

A única praxe que suportei foi no Regimento de Artilharia Ligeira n.º 4, em Leiria, aquando da apresentação naquela unidade militar, juntamente com os restantes colegas “caloiros”, concretamente designados de “maçaricos”, depois da conclusão do Curso de Sargentos Milicianos, por obrigação. Para além do almoço intragável, com tomates podres de sobremesa, na messe, antecedido dum teste estúpido, que serviu para depois nos ridicularizarem, seguiu-se um exercício de campo nocturno, com fogo a apavorar os agricultores de Marrazes, que pensavam que andávamos a afugentar a caça.

Se muitos dos pais que, com sacrifício, lá longe, suportam as despesas com os seus filhos, vissem o espectáculo em que os mesmos se envolvem, muitos deles contrariados, num uníssono de asneiras e atitudes obscenas, com bebedeiras pelo meio, a que são forçados, certamente se sentiriam constrangidos.  

E são estes os homens e as mulheres de amanhã!...

As praxes académicas que, no seu sentido de práticas que se pretendem relacionadas com a integração dos novos estudantes nas instituições de ensino superior, humilham os novos alunos, no mote de Dura Praxis, Sed Praxis, baseado no latim Dura Lex, sed Lex, poderiam revestir-se, na sua tradição ancestral (com a sua génese na Universidade de Coimbra), por “sacrifícios” moderados, evitando assim atitudes comportamentais que levaram alguns caloiros à morte e alguns veteranos a serem sentenciados em tribunal, como já foi do conhecimento público, em Outubro de 2001 e Outubro de 2002, para além de lesões corporais irreversíveis noutros caloiros.

Já em 1727, devido à morte de um aluno no ano anterior, D. João V proibiu as investidas feitas pelos veteranos, deliberando: “Mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos”. E, já em Dezembro de 1916, no jornal “A Resistência” se lia o título, “Abaixo as praxes ridículas e inoportunas!”.

As contestações à praxe não deixaram de existir e já o antigo Presidente da República, Teófilo Braga, dizia que os estudantes do seu tempo faltavam às aulas para fugir à praxe, sendo certo que em 1903, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão assinaram, em conjunto com outros estudantes, um “manifesto anti-praxe”.

E, mais recentemente, em 2008 e 2009, o então Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, enviou uma carta a todas as universidades afirmando que “a degradação física e psicológica dos mais novos como rito de iniciação é uma afronta aos valores da própria educação e à razão de ser das instituições de ensino superior e deve pois ser eficazmente combatida (…)” e, depois, que “embora afirmando uma intenção de integração dos novos alunos, mais não são que práticas de humilhação e de agressão física e psicológica de índole manifestamente fascista e boçal, indignas de uma sociedade civilizada e inconcebíveis em instituições de educação”.

Já há universidades que apertam o cerco às praxes e admitem instaurar processos disciplinares. Dentre essas seis universidades, também se encontra a UBI, proibindo as mesmas dentro do campus universitário.

E, se em vez de muitos dos mandões bacocos das tradicionais praxes, alguns de ar boçal, envolvendo-se em bebedeiras, pensassem o quanto lhes reserva de sacrifícios este pobre País, despedaçado, e, antes de mais, se direccionassem nas preocupações de contribuir para um Portugal melhor, certamente que no amanhã poderiam evitar as mãos à cabeça, agora tonta, de terem tirado um curso para nada.


(In “Notícias da Covilhã” e “Jornal do Fundão” de 03.11.2011)

19 de outubro de 2011

MAIS UMA CONFERÊNCIA DA SOCIEDADE DE S. VICENTE DE PAULO DA COVILHÃ NO SEU CENTENÁRIO



A Covilhã, desde longos anos, mostrou ser solidária e com uma forte dedicação aos mais necessitados, já do tempo da monarquia, e, depois, no regime republicano vigente.

A Sociedade de S. Vicente de Paulo, no seu objectivo de “testemunhar a fé em obras, através de uma acção pessoal veiculada pela visita, em espírito de Justiça e Caridade” foi fundada em Paris, no ano de 1833, por um grupo de sete jovens universitários, entre os quais Frederico Ozanan, sendo patrono S. Vicente de Paulo.

Esta sociedade, de enorme mérito solidário, encontra-se disseminada pelo globo, em cerca de 150 países, e, em Portugal, desde 1859.

Na Covilhã, já quatro destas Conferências atingiram o centenário. A primeira foi a de Santa Maria, fundada em 12/11/1899; seguiu-se a da Conceição, fundada em 19/03/1903; depois a de S. Pedro, fundada em 29/06/1905; e, por último, a de S. Martinho, que no corrente ano está a celebrar o seu centenário, fundada em 22/05/1911.

Existem mais conferências vicentinas na Covilhã, e noutras freguesias do Concelho, e não só, que agrupam um designado Conselho de Zona, do Arciprestado da Covilhã.

Já é sobejamente conhecida a acção humanitária destas Conferências, com um meritório trabalho dos seus obreiros – os confrades – que, somando muitas horas de voluntariado, aí desenvolvem a sua acção na assistência à doença, problemas familiares e sociais, carências económicas, solidão dos idosos, desamparo das crianças, álcool e droga, marginalidade e desajustamento social, apoio a busca de colocações no trabalho, pagamento de rendas, água, luz, gás, material escolar, medicamentos, géneros alimentícios, peças de roupa, e material diverso, num vasto leque da sua presença de solidariedade humana.

A Conferência de S. Vicente de Paulo da Paróquia de S. Martinho da Covilhã, no âmbito das comemorações do seu centenário, reuniu vários elementos de outras Conferências do Conselho de Zona onde se insere, no passado domingo, dia 16 de Outubro, numa Eucaristia de acção de graças, na igreja de Nossa Senhora de Fátima, celebrada pelo assistente espiritual, Padre Agostinho Rafael, que, na sua homilia, referenciou a actividade das conferências, mormente nos dias difíceis que se atravessam, lembrando também quantos já partiram e que deram o seu melhor em prol dos necessitados.

Seguiu-se um almoço de confraternização.

Neste evento esteve presente o Presidente do Conselho Nacional, que há muitos anos se encontra radicado na Covilhã, e o Presidente do Conselho de Zona,

Memorizaram-se tempos e figuras antigas, no âmbito da longa actividade vicentina.
Neste formular de votos de parabéns à Conferência centenária, certamente que também irá o sentir de muitas famílias que aguardam pela sua acção benéfica na ajuda humanitária e que, mais não seja, uma palavra amiga de alento para os dias ainda mais difíceis que se aproximam.






(In Notícias da Covilhã, de 19.10.2011)