29 de maio de 2010

ENTRE A ESCOLA E O SERVIÇO MILITAR



 
Semana de Campo - Tavira (04-07-1968)

                                                                           RI 12 - Guarda (1970)


Corria o mês de Outubro do ano da graça de mil novecentos e cinquenta e oito quando entrei, pela primeira vez, como muitos outros rapazes e raparigas, na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, como estudante, então a iniciar o Ciclo Preparatório. Éramos muitos Colegas.

Depois, na continuidade, os respectivos cursos: Geral do Comércio, Debuxo, Tintureiro Acabador, Electricista, entre outros, sem esquecer o da Formação Feminina.

Já conhecia a Escola sobejamente por fora. Assisti ainda ao final da construção do segundo pavilhão, e à respectiva inauguração, edifício então destinado aos cursos industriais. Morava paredes-meias com os muros da Escola.

No entanto, antes de continuar a minha vida de estudante, pós-prímária, efectuei ali o exame de admissão ao ensino secundário, que era obrigatório naqueles tempos de outrora, já lá vai mais de meio século – mais de metade da vida de uma pessoa.

Os rapazes não se podiam misturar com as raparigas, pelo que havia um terraço destinado às mesmas.

Muito haveria que contar, por cada um de nós, tanto de bom, como de alguma contrariedade. Foram tempos inesquecíveis. Memorizam-se a vertente do estudo, os Colegas, os Professores, as amizades, passageiras umas, mas duradouras outras, que se prolongaram pelos tempos fora.

Nesta efemeridade da vida, ficou a nostalgia do jogo da bola, no campo de futebol triangular, areado sob alcatrão, que dava uma ajuda aos sapateiros; das traquinices com os Colegas, os Contínuos e os Professores, para além da vida alegre com as raparigas, Colegas do mesmo espaço estudantil.

Recorda-se também a rapaziada da Escola, que fazia grupos junto ao portão principal, tapando quase o acesso para a casa do ferrador, aguardando a vinda e/ou saída dos Colegas e Professores, no início e termo das aulas. Era um formigueiro de juventude, dispersando-se pela Rua Vasco da Gama, no sentido do Serrado, ou em direcção à Avenida Salazar, hoje Av. 25 de Abril.

Mas foi também com os nossos Professores que tivemos partes interessantes da vida académica.

Para preâmbulo de alguns episódios que vou contar, quero deixar o registo de ter o privilégio de ainda poder contar com amigos desse tempo de Escola, que, desde sempre, com mais ou menos regularidade, temos vindo a falar dessa mesma Escola, e, obviamente, das suas figuras, algumas delas que nos deixaram marcas indeléveis para reforço da formação da nossa personalidade,

Conversar com regularidade, pela voz dos meios tecnológicos hoje colocados à disposição de qualquer humano, e transportando as memórias sem qualquer amnésia, com grande entusiasmo, para os tempos de hoje, é revelador do que foi e é a amizade desses tempos.

A partida feita numa aula da disciplina de Noções de Comércio, ao professor Guedes da Costa, do Porto, que tinha um certo charme, e costumava tirar os maços de tabaco aos alunos que os levavam para a aula, considerando uma certa indisciplina, levou a que o Nuno Alegria Ribeiro – um dos lesados – tivesse uma ideia genial.

Na aula seguinte, antes de entramos, contou-nos a partida que iria fazer. Levava um maço de tabaco cheio, mas de palha, com o mesmo peso, muito bem cintado, devidamente disfarçado. Vai de provocar a evidência do maço de tabaco dentro da aula. O professor, num gesto enérgico, manda recolher o maço e colocá-lo em cima da secretária que, depois, mete na gaveta. Na aula seguinte constatámos, pelo sorriso do professor, que ele reconheceu ter sido enganado, quando um dos alunos mais atrevidos se lhe dirigiu e perguntou se lhe podia dar o maço de tabaco.

Do amigo Fernando Dias Pedrosa Gonçalves, antigo Colega na Escola Campos Melo, vai um respigo de muitas das suas missivas sobre a Escola, e esta é de Junho de 2005: «“Os três Padres”. “Padre Nabais – Foi nosso professor de Canto Coral. Baixo, sobre o forte cabelo à escovinha, (…) quando não estávamos atentos acordava-nos com um toque subtil através dos nós dos dedos, com a mão fechada, nas nossas cabecinhas.

Padre Morgadinho – Professor de Religião e Moral, abusávamos da sua bondade, e a aula de Religião e Moral era sempre mal amada e ele sabia disso” (…).

Padre Acácio – Professor de Religião e Moral e Assistente Religioso da Mocidade Portuguesa. (…) Tinha um Opel Kapitan e andava sempre atrasado. (…) Como era costume, nós estávamos junto do portão e eis que chega o padre em cima da hora. Havia uma brecha entre dois automóveis já estacionados mas, para meter o Opel no espaço vago iria levar algum tempo, aumentando o atraso. Não perdeu tempo e enfiou o carro de frente, deixando a traseira completamente fora do alinhamento. – “Eu vou lá acima e já venho arrumar melhor” – disse-nos, em jeito de desculpa pela transgressão que estávamos a testemunhar. Alguém se levantou e sugeriu: – “E se levantássemos em peso a traseira do carro e a encostássemos de forma a ficar correctamente estacionado?” – Uma meia dúzia de nós elevou, a pulso, a traseira do Opel e arrastou-a até bem junto do muro. Quando o Padre Acácio veio para melhor estacionar o carro, já estava. Não presenciámos a reacção mas o Sr. Pereira Nina, chefe dos contínuos, disse-nos ter visto o padre a dar voltas ao carro e a falar sozinho” .»

«“Da Dr.ª Fernanda Bandeira lembro-me da sua exigência quando corrigia as nossas redacções/composições. Era rigorosa na análise do uso do “que”, da vírgula e no tamanho dos períodos literários. Não facilitava muito na gramática e era implacável na conjugação dos verbos. O pouco que sei de Português muito o devo a ela.

A Dr.ª Maria do Céu Proença tinha uma forma diferente de lidar connosco. Era mais chegada, gostava de ouvir e quando não gostava fazia de conta que quem falou nada disse. Quando íamos comprar livros para a nossa famosa biblioteca eu sugeria livros um pouco avançados e quando se virava para mim dizia: “Esse não, Pedrosa!” Eu partia para outro e não obtinha nem gesto nem resposta, só um olhar e a pergunta: “Trouxeste dinheiro?” Naquele dia as compras estavam terminadas.”»

«“Andias foi professor de Cálculo Comercial e tivemos um problema na turma, pois ele explicava a matéria de costas para os alunos enquanto resolvia um problema como exemplo e sempre com a mão esquerda no bolso. Era curto nas palavras, rápido nas soluções e quando se virava, a pergunta sacramental: “Percebido?”. O Zé Carlos Marques foi um dos mais revoltados, pois não conseguia perceber patavina e na aula do Dr. Oliveira Dias, que era o Director de Turma, o assunto foi falado e na aula seguinte o homem justificou-se que ao fazer a pergunta, como ninguém se manifestava, avançava na matéria. Quanto à mão no bolso, tinha um defeito na mão e era uma forma de esconder o aleijão”».

«“O Prof. Policarpo era professor de Ginástica. Foi um caso especial por três razões: 1 – Apresentou-se na Escola com um BMW que só tinha uma porta e era toda a frente do carro que abria para que o condutor entrasse. 2 – Foi dos primeiros professores de ginástica licenciados pelo INEF, daí que aquando da sua apresentação à malta, o engenheiro, Director da Escola, tenha dito que na Escola tínhamos de facto um professor de ginástica, doutor. “Podem chamar-lhe doutor à vontade porque é mesmo”. 3 – O eng.º conseguiu convencê-lo a dar uma ajuda na Mocidade Portuguesa. Aceitou e teve um baptismo de fogo. Fizemos um acampamento e o almoço de Domingo foi arroz de chouriço com nabiças confeccionadas pelo Zé Rodrigues. O prof. foi convidado, apareceu para o almoço e foi servido o arroz da ordem. O homem quando viu do que se tratava ficou mais sério que o costume, mas lá foi petiscando aqui e ali e nós apercebemo-nos de um certo mal-estar. “Então o arroz não estava bom? O Sr. quase só provou”. “– Vocês têm razão mas eu não suporto chouriço e para não ficar mal diante dos miúdos obriguei-me a petiscar alguma coisa”. »

O Amigo Pedrosa, como com muitos dos Colegas que passaram pela Escola Campos Melo, pelo Liceu e pelo Colégio Moderno, cruzaram-se no serviço militar, nas diversas unidades militares do Continente, e, depois, nas Províncias Ultramarinas.

Nos quartéis por onde passei, tive como Colegas, entre outros, o Muxagata, Cunha Rebelo, Berrincha, Agostinho Paiva, Caria (de Alçaria), Luís Morais Fiadeiro, José António Bichinho, Luís Morais, José Marques Abrantes, Eduardo Prata, Bicho Nogueira, Nuno Rato (do Teixoso).

O Pedrosa foi encontrar em Angola, o Franco, o Sampaio, o Braçais e o Ferraz, entre outros. Como todos nós, tivemos vários episódios que encheriam todas as páginas desta revista.

Entre outras, havia o desenrascar de assuntos em situações melindrosas. Por exemplo, o Sampaio lá desenrascou um colega do Pedrosa que lhe faltavam lençóis para os maçaricos que vinham da Metrópole. Como não conseguia, resolveu o problema retirando as mortalhas de caixões que de destinavam aos militares que vinham a falecer. –“ Não são lençóis, são mortalhas que é a mesma coisa” – disse o Sampaio. E também o desenrasque do “cunhete” que era um caixote de munições que o Pedrosa necessitava para desenrascar uma situação melindrosa de falta quando se preparavam para regressar a Portugal.

Mas também de um antigo Colega da Escola, agora encontrado também em serviço militar em Angola – Pedro Pereira Pacheco: «“Era da Panasqueira e vinha no célebre comboio dos estudantes. Pouco expansivo e dado à pacatez. Numa deslocação em serviço, com o jeep (…) saí directo para a Engenharia a pensar como havia de dar a volta ao assunto. Já tinha ouvido falar que havia lá pessoal da Covilhã mas não sabia quem, nem tinha confirmação. Na Porta d’Armas logo perguntei se havia ao serviço alguém da Covilhã, que sim, “havia um Furriel que era desses lados. Sabem o nome?” – “Pacheco? Pedro Pereira Pacheco?” – “Sim” – , confirmou o Sargento da Guarda. – “Precisava de falar com ele?” O Furriel que estava de Sargento da Guarda mandou um militar acompanhar-me. Num dos pavilhões lá estava o homem. Quando me viu ficou surpreso e rapidamente aí estava o abraço da ordem e a pergunta sacramental. – “Precisas de alguma coisa?” (…) E lá desenrascou os sacos de areia. Março de 1970 – A Comissão no Ultramar estava no fim. (…) Eu e o meu companheiro de quarto ainda não tínhamos conseguido arranjar quem nos fizesse o caixote com as medidas exigidas para nele encaixotar todos os nossos haveres. (…) Havia reboliço. Qualquer coisa falhou. (…) Acabaram-se os pregos e agora queremos pregar os caixotes e não temos com quê. (…) “Meu Furriel, só Você nos pode safar. (…) Você arranja?” “Vou tentar. Preciso de papel a pedir a viatura”. (…) O Pacheco torceu o nariz. (…) “Toma lá e não digas a ninguém onde conseguiste o material, senão quem fica à pega sou eu. Tem pregos iguais, maiores e mais pequenos que aquele que me deste”. As despedidas foram rápidas e no regresso à Companhia lá estava o militar à minha espera. (…) As minhas preocupações terminaram. O caixote apareceu, as minhas malas foram devidamente embaladas, o meu nome pintado e entrou no porão na terceira lingada. Obrigado Pacheco!”»

E, no dia 18 de Abril de 1970, este meu amigo Pedrosa chegava a Lisboa, regressado de Luanda – Angola. – “Logo ao nascer do dia fui acordado para que pudesse ver a aproximação do barco a Lisboa. Foi bonito de se ver o Cristo Rei, e a pouco e pouco ficar desenhado no nosso horizonte visual. Depois o atracar ao cais e a procura de um rosto conhecido. E quem estava de braços no ar a acenar para o barco? O Chorão – o nosso amigo Chorão lá estava”.

Pois bem, eu nesta data ainda não tinha terminado o serviço militar, e não fui mobilizado para o Ultramar – aturei 42 meses no Continente – e, tal como o amigo Pedrosa, fui Furriel Miliciano, estava no Regimento de Infantaria 12, na Guarda, depois de ter vindo do Regimento de Artilharia Ligeira 4, em Leiria, onde estive um ano colocado. Quando ele regressou do Ultramar estava eu a 12 dias de me casar. O amigo Pedrosa casaria no Porto, com a Ana Maria, daí por 8 anos.

O Fernando Pedrosa teve uma breve passagem da sua vida profissional comigo, antes do serviço militar, na Câmara Municipal da Covilhã e, então, recordou o Napoleão. «“Horto municipal – Aqui eram semeadas e plantadas todas as flores, árvores e plantas ornamentais que embelezavam os canteiros e jardins municipais. Alguém chegou à conclusão que se gastava demasiado dinheiro com as flores, os vasos e tudo o mais. Era necessário que do horto municipal nascesse alguma receita. O Napoleão foi chamado. Naquele momento ficou sem palavras. – “Vamos vender flores a quem?” Napoleão pensou e descobriu, “Faz-se uma exposição venda de flores criadas no horto municipal”. O local seria a entrada nobre da Câmara que por norma estava fechada. Houve resistências. O Napoleão ornamentou toda aquela entrada e escadarias com flores diversas. Todos os dias lá estava a entregar a receita na tesouraria. Foi um êxito”.»

O Pedrosa acabaria por sair da Covilhã em Setembro de 1966, regressando somente, por força dum convite para o lançamento de uma monografia que publiquei e foi apresentada na Câmara Municipal, em 2004, volvidos 38 anos.

Foram memórias dos tempos da nossa Escola Campos Melo e repercussões verificadas no curso da vida de cada um de nós.


                                          RAL 4 - Leiria (Julho 1969)
JOÃO DE JESUS NUNES

(Antigo Aluno do Curso Geral do Comércio)

Saiu na Revista “ECOS DA APAE”, N.º 18, de Maio de 2010.



28 de maio de 2010

Aniversário do Sporting Clube da Covilhã






Ocorreu 6ª. Feira, dia 28 de Maio, o jantar comemorativo do 87-º Aniversário do Sporting Clube da Covilhã, no novo Hotel das Termas de Unhais da Serra, concelho da Covilhã, onde estiveram presentes cerca de 300 pessoas, entre os quais, como convidados, vários antigos atletas e treinadores do clube, e outros, nomeadamente João Cavaleiro, António Jesus, Manuel Cajuda, Manuel Fernandes, Ulisses Morais.

Também estiveram presentes actuais Presidentes da Direcção de clubes que militaram na época que acabara de findar, na Liga de Honra.

Por exemplo, tive a felicidade de, na minha mesa, ficar com os Presidentes da Direcção do Portimonense, Varzim, Penafiel, Gil Vicente e Oliveirense.

Esteve também um representante do Sporting Clube de Portugal.

Foi num ambiente de festa que se passou este evento, continuando, nos dias 1, com a inauguração da nova Sede do SCC, com instalações próprias, e, depois, no verdadeiro dia do aniversário, dia 2 de Junho, uma missa pelos sócios falecidos e romagem ao cemitério.

Foram entregues dois emblemas de ouro a associados que completaram 50 anos de ligação ao clube, nesta qualidade, muitos em prata, a associados que completaram 25 anos.

Foram ainda entregues alguns diplomas de agradecimento a várias entidades.

Por último, sem que contasse, fui surpreendido com uma homenagem que me prestaram, entregando-me um belíssimo troféu, reconhecendo o meu trabalho, em obras editadas, e divulgação do clube, com o qual fiquei muito sensibilizado.

O troféu foi-me entregue pelo Presidente da Câmara da Covilhã e Presidente da Assembleia-Geral do Sporting Clube da Covilhã.




20 de maio de 2010

COMPARAÇÕES OU CONTRADIÇÕES

Estes dias que passaram foram férteis de distracções, onde predominaram alegrias, reflexões e esperança, e, daí, formas proporcionadoras de algum lenitivo para o governo “socrático”, com a populaça a não o incomodar.
Foi mandada às malvas a malfadada crise.
Milhares de benfiquistas deliraram com a conquista do 1.º lugar, no último dia do Campeonato, entronizando um “Jesus” terreno, cantando, gritando, numa berraria histérica, e surgindo o anedotário, aproveitando, inclusive, a vinda de Bento XVI a Fátima.
O próprio Papa, e figuras da Igreja, seriam caricaturados, por vezes abusivamente, no humor benfiquista.
Por cá, a Selecção Portuguesa tem sido o nosso encanto. E nela a esperança de poder levar dos Hermínios aquela força de Viriato, com os ares puros da montanha, para as bandas sul-africanas.
Um acontecimento o qual Carlos Pinto soube muito bem aproveitar, e preparar, para que a Covilhã surja, durante a permanência dos “maiores” do futebol em Portugal, e não só, nos noticiários diários das várias televisões e restante comunicação social.
Na Taça de Portugal, o FC Porto venceu com exiguidade o Desportivo de Chaves, que, da Liga de Honra, baixou à II Divisão B.
Comparativamente, também acontecera com o Sporting da Covilhã, em 2/6/1957, na final com o Benfica, em que o clube serrano também perdeu e desceu à II Divisão, esta nos moldes antigos.
E, falando no clube covilhanense, pregou-nos um susto. O alívio, surgido só depois do final do último jogo, obrigou os forasteiros na Póvoa de Varzim, face à derrota do SCC com o clube local, a permutarem então os olhos pelos ouvidos como as partes mais importantes do corpo.
E seria a vitória do Fátima em Chaves que iluminaria os corações serranos, que, nem por isso, foram colocar uma velinha no Santuário…
Jogou o Pimenta no SCC, mas faltou o sal, para o tempero completo direccionado a uma dinâmica que faltou no relvado poveiro.
Mas as fases finais, aquelas de decisão nos momentos cruciais, têm faltado ao SCC, com algumas excepções.
Vem a propósito recordar que foi em 1964 que o Sporting da Covilhã, então tendo disputado um grande campeonato, esteve quase com um pé na subida à primeira divisão, em confronto com o Sp. Braga.
Recordo os nomes dessa valorosa equipa: Arnaldo, Rodrigues, Nogueira, Graça, Coureles, Couceiro, Lanzinha, Hugo, Biu, Carvalho, Manteigueiro, Madaleno, Amílcar, Leite, Osvaldo.
Na 1ª. Volta, em Janeiro de 1964, com a vitória do SCC sobre o Sp. Braga, alcandorou-se no 1.º lugar, num jogo em que rendeu ao SCC a bonita receita, para a época, de 24.825$00.
Só que em Abril desse ano, na última jornada, exactamente contra o Sp. Braga, o SCC viria a sucumbir com a derrota de 4-1. Subiu o Braga à I Divisão, o SCC em 2.º lugar, seguido do Beira-Mar, Feirense, Salgueiros, Leça, Oliveirense, Famalicão, Boavista, Marinhense, Sanjoanense, Espinho, Vianense e Vildemoinhos.
Foi o ano de despedida de Amílcar Cavem e com o guarda-redes covilhanense, Arnaldo, a ganhar a “Baliza de Prata”, seguido de Rocha, do Beira-Mar, e Balacó, do Peniche (II Divisão – Zona Sul).
Nesse ano subiram à I Divisão o Sp. Braga e o Torriense, em troca com o Olhanense e Barreirense.
A Braga foi uma comitiva de 3.000 adeptos, em cerca de 55 autocarros, numa situação análoga, embora em menor número, à que se deslocou ao Varzim.
Só que a comunicação social, nomeadamente a escrita, da altura, era totalmente diferente da de hoje, com pouco noticiário, em contraste com a exuberância da dos dias de hoje.
Fazemos votos para que este ano, quer a Selecção Nacional, quer o Sporting da Covilhã, sejam bafejados pela sorte.

(In Notícias da Covilhã, de 20/05/2010 e vai sair no Jornal O Olhanense, de 01/06/2010)

1 de maio de 2010

NOVO PRESIDENTE NACIONAL DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO DE PORTUGAL É DA COVILHÃ

D. Carlos Azevedo e o novo Presidente Nacional da SSVP, Correia Saraiva.
Foi no dia 17 de Abril a tomada de posse dos órgãos nacionais que vão ter a responsabilidade pela condução dos destinos das Conferências da Sociedade de São Vicente de Paulo em Portugal (SSVP).
A Assembleia que se realizou no Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima, teve o mesmo repleto, com perto de três mil peregrinos que se integraram na Peregrinação Nacional ao Santuário de Fátima. Ali ouvirem vários oradores, entre os quais o Padre Nóbrega – Assistente Nacional, o Prof. Doutor Alfredo Bruto da Costa – Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, e D. Carlos Azevedo – Bispo Auxiliar de Lisboa. Vieram de todos os recantos do País, pertencentes aos 22 Conselhos Centrais.
Nas primeiras filas do grande anfiteatro lá se posicionou o Conselho Central da Guarda que integrou mais de três dezenas de confrades do Conselho de Zona da Covilhã, que, por sua vez engloba várias Conferências, não só da Cidade como da Região. Mostraram assim o seu apoio ao novo Presidente Nacional, há muitos anos radicado na Covilhã.
Efectivamente, António Correia Saraiva, bancário aposentado, de 64 anos, natural da Região, tornara-se há muitos anos covilhanense pelo coração, e veio-se a dedicar, ao longo de 38 anos, à vida da solidariedade, no âmbito das Conferências da SSVP.
O Presidente Nacional Correia Saraiva iniciou-se nas Conferências da SSVP, em S. José – Penedos Altos, foi Presidente da Conferência da SSVP de S. Pedro, da Covilhã, Presidente do Conselho de Zona (antigo Conselho Particular), Presidente do Conselho Central da Guarda, tendo ainda sido Presidente do Conselho Fiscal Nacional.
O agora investido nas novas funções, substituindo uma Comissão de Gestão, e sendo sucessor dum grande Presidente Nacional – Torres da Silva, retirado por doença, propôs-se desde já dinamizar as Conferências, proporcionando espaço aos jovens, conhecedor que o índice de confrades se situa em idades já muito avançadas.
Também se comemoram 350 anos da morte do patrono das Conferências – São Vicente de Paulo – nascido duma família pobre e que viria a chamar-se “O Pai dos Pobres”.
As Conferências da SSVP iniciaram-se em 1833 em Paris, pelo italiano António Frederico Ozanam, que as colocou sob o patrocínio de S. Vicente de Paulo, e, desde logo, se irradiaram por todo o mundo, chegando a vez de Portugal criar a sua primeira Conferência, em 1859, na cidade de Lisboa.
«Desde a simples oferta de “umas achas de lenha” – oferta inicial de Ozanam às famílias que primeiro visitou em Paris – às ofertas de roupa, livros, medicamentos, ajuda na procura de empregos e internamentos, visitas a lares, hospitais, cadeias, a acção vicentina procura dar resposta mais ou menos imediata ou simples encaminhamento das situações mais difíceis para as vias possíveis de resolução, inquietando consciências indiferentes, apesar de responsáveis mas com possibilidade de resposta à situação de pobreza e sofrimento».
Na Covilhã há três Conferências centenárias. Foram elas que deram origem à criação de instituições antigas como o Albergue dos Inválidos do Trabalho (actualmente com a designação de Lar de São José), A Cozinha Económica e o Património dos Pobres.
Actualmente, face às grandes crises que grassam no nosso País, e novas formas de pobreza, as Conferencias de S. Vicente de Paulo exercem uma grande acção humanitária e da solidariedade, substituindo-se ao Estado.

(In Jornal Notícias da Covilhã, de 29/04/2010 e Jornal O Olhanense, de 01/05/2010)

21 de abril de 2010

ACIDENTE COM AVIONETA HÁ MAIS DE SEIS DÉCADAS

Mais um acidente de aviação surgiu no dia 10 de Abril vitimando 97 pessoas, entre as quais a elite política da Polónia. A principal vítima foi o seu Presidente, Lech Kaczynski.
Os desastres aéreos com figuras do Estado ou na liderança de instituições mundiais também já haviam acontecido anteriormente, quer em Portugal quer noutras partes do globo.
Nos últimos anos ocorreram vários acidentes com aeronaves, só no distrito de Castelo Branco.
Em 17 de Novembro de 1978 desapareciam 131 pessoas, dum total de 164 ocupantes do avião, que se despenhara no Aeroporto do Funchal, entre as quais uma equipa de arbitragem de futebol que se deslocava à Madeira e que, na semana anterior, havia arbitrado um jogo, no Estádio Santos Pinto, na Covilhã, com o Sporting local, para o Campeonato Nacional da II Divisão.
Em 1994 mais um desastre aéreo, vitimando 56 pessoas, numa aterragem dum avião no Aeroporto de Faro, duma companhia holandesa, e, em 2000, despenhava-se na Ilha de S. Jorge, nos Açores, mais um avião provocando 35 mortos.
Na zona da Serra da Estrela, junto a Loriga, em 22 de Fevereiro de 1944, em plena II Guerra Mundial, despenhou-se um avião com seis aviadores, que vinha de Gibraltar e seguiam em direcção a Inglaterra, onde iam passar o Carnaval. Ficaram sepultados no cemitério de Loriga.
Mas é em 27 de Novembro de 1949 que se iria dar um acidente de aviação, cuja notícia correu todo o País. Foi a morte de dois industriais covilhanenses, pilotos aviadores António Matos Soares, solteiro, de 37 anos, e José Moura e Silva, casado, de 30 anos.
Era um domingo, num lindo dia de sol. Partiram de manhã, na avioneta particular de Matos Soares, tudo levando a crer que seria para tratarem de assuntos em Aveiro, onde a avioneta aterraria. Seguiriam depois para o Porto a fim de assistirem ao jogo de futebol entre o F.C.Porto e o Sporting da Covilhã, de que eram fervorosos adeptos. O SCC fazia um bom Campeonato na Primeira Divisão e emergiam na sua equipa valorosos atletas, como André Simonyi. Iria ser o maior goleador do seu Clube, ficando em terceiro lugar, como melhor marcador do Campeonato Nacional da Primeira Divisão. Marcou 22 golos em 23 jogos. O SCC havia ganho em casa ao FC Porto, por 4-2, e acabaria por perder o segundo jogo, no Porto, por 5-1.
Na base aérea de São Jacinto, em Aveiro, os dois pilotos levantaram voo, com destino à Covilhã, face a terem sido avisados de que na Serra da Estrela as condições meteorológicas não seriam as melhores.
Iniciada a viagem de regresso, tudo estaria a correr dentro do que seria normal até que, ao voarem sobre Folgozinho, em plena Serra da Estrela, lhes surgiu um intenso e forte nevoeiro, cuja intensidade provocou uma enorme diminuição de visibilidade. Em virtude de também se aproximar a noite, fez com que eles tivessem tomado a decisão de ou mudar de rumo ou tentar aterrar em qualquer possível local, invertendo o sentido de voo. O avião não estando a voar a altura conveniente foi embater num monte chamado o Cabeço dos Cleros. Do choque resultou a destruição do avião e a morte dos dois pilotos covilhanenses.
Foi um pastor que andava nas imediações que se apercebeu do desastre. Na Covilhã havia enormes apreensões e só se adivinhava o pior. Nessa noite, na Covilhã pouca gente dormiu. Muitos se deslocaram para a Serra da Estrela a fim de tentar descobrir os aviadores. Mas, por dificuldades na rede telefónica, a notícia trágica somente chegou à Covilhã na manhã de 2.ª Feira.
Em virtude da muita neve e o difícil acesso onde se encontravam os corpos, foi com enorme dificuldade que os transportaram daquele cabeço desarborizado e escalvado.
No dia dos funerais, a Cidade da Covilhã quase que parou. Entidades oficiais, religiosas e militares, além de muitos pilotos civis, muitas instituições da cidade e milhares de pessoas vindas de todo o distrito e representando todas as categorias sociais, participaram no funeral.
Foi o primeiro acontecimento lutuoso da história da aeronáutica da cidade da Covilhã.
Muito haveria para contar, mais em pormenor, sobre este trágico acontecimento, mas o espaço do jornal tem limites. Foi noticiado em todos os jornais da época: Diário de Notícias, O Século, Diário da Manhã, Diário Popular, Diário de Lisboa, República, A Voz, A Guarda, Notícias da Covilhã, Jornal do Fundão, Notícias de Gouveia e Revista do Ar.


(In Noticias da Covilhã e Jornal do Fundão, de 21/04/2010, Notícias de Gouveia, de 20/04/2010 e Jornal “Porta da Estrela”, de 21/04/2010)

25 de março de 2010

O PEC

Podia ter sido “Portugueses Em Cidadania”, tal foi a aderência de milhares de cidadãos portugueses unidos numa missão colectiva contra o lixo, num dos maiores movimentos de sempre em torno de uma causa ambiental. Foi o erradicar de milhares de lixeiras.
Mas este PEC, cuja sigla é versátil, também podia ser “Portugueses Enervados Clamam”, face ao estado lastimoso da Nação a que nos predestinaram os responsáveis pela condução da política portuguesa.
Mas este PEC também podia ser “Portugal Em Contaminação”, pois cada vez há mais senhores da política, ou sob a capa da mesma, num grande apadrinhamento, onde as mordomias e os escandalosos “direitos” a subsídios, compensações, complementos e outras coisas mais, são o retrato de quem nos (des) governa.
Mas este PEC podia ainda ser “Porquê Este Condão?” com tantos a beneficiar de luxuosos vencimentos e outros arredados para uma pobreza envergonhada.
Mas este PEC também ainda podia ser “Parlamento Em Cúmulo”, com os seus 230 deputados, num “esforço titânico”, “casa” sempre cheia, com o “suor” a correr-lhes pelas faces, onde poucos bocejam ou dormem, a contribuírem para um dos maiores orçamentos da Nação. Com metade deles era mais que suficiente para que as suas ideias e inteligência postas ao serviço de quem neles confiaram o seu voto, trouxessem o lenitivo para todos nós, para que não houvesse portugueses de primeira, portugueses de segunda e portugueses de terceira.
Esperemos, contudo, que a UE não venha trazer outra interpretação para o nosso País – “Portugal Em Confusão” ou, pior ainda, “Portugal Em Colapso”. Seria trágico e ver-nos-íamos “gregos”.
Mas com este País, num “Portugal Em Combustão”, tudo pode servir para classificar o inclassificável, num povo de brandos costumes que há muito já detém funestas atitudes de uma franja da sua população, porque a ordem redundou em desordem, o exemplo que vinha do alto permutou pela baixeza da mentira, a credibilidade substituiu a incerteza.
Mas, finalmente, o “Plano de Estabilidade e Crescimento”aí está, com toda a sua vertente de injustiças e manutenção de privilégios para muitos dos apaniguados, depois de uma despudorada ocultação da verdadeira situação económica e financeira do País, aliada à não menos vergonhosa cumplicidade do Governador do Banco de Portugal.
O aumento de impostos, dissimulado na redução ou supressão de deduções fiscais, e na diminuição das prestações sociais, é mais uma forma de fazer acrescentar o último furo ao já esticado cinto dos portugueses.
Mas é escandaloso que continuem a ser intocáveis as reformas dos deputados da Nação. E escandaloso também é que muitos administradores de empresas públicas, próximos do Poder vigente, em que foram apanhados pelos “célebres processos”e se viram obrigados a renunciar aos seus cargos, sejam chorudamente recompensados. Temos que continuar a aguentar toda esta pulhice!
É imprescindível encurtar o Estado, acabando, entre outras coisas, com muitos serviços que de nada servem se não para manter empregos e privilégios, por exemplo, os Governos Civis.
Outra situação que se reveste necessária para aquele espírito de que nos serviços públicos os servidores do Estado não se servem de outros meios que possam pôr em causa o favorecimento, é a proibição do exercício de outras actividades privadas, que possam colocar em perigo a isenção dos funcionários do Estado. Mas continuam a ver-se situações de práticas de ocupações privadas, “complementares” das da função pública, em vários dos seus funcionários, mormente na mediação de seguros, que vão desde o escriturário ao engenheiro camarário.
A brutalidade do que aí vem é inevitável e a nossa reputação está mais arruinada do que nunca com os mercados a não estarem nada bem.
O PEC parece que foi recebido com complacência pela Europa e pelos mercados, mas os portugueses vão pagar caro as más políticas dos seus governos.

(In Noticias da Covilha, em 25/03/2010)

4 de março de 2010

KUTNÁ HORA



Demasiadas notícias do enfado político. Arrasadoras umas, estranhas outras. Não alheias da conversa comum. Levam-nos a vociferar, em nevralgias com direito à indignação, do que se sabe e do que se desconhece. Mas mormente de quem nos vilipendia, engana, desprestigia.
As pedradas de arremesso não chegam aos ossos dos visados.
É pungente o pressentir quem mente, o reconhecer quem encobre, o surgir de tantos meandros sustentadores da morosidade, fazendo perder no tempo a culpabilidade do infractor, e o poder judicial a não conseguir transmitir a sua credibilidade.
Com este Inverno tão rigoroso, algumas vezes se ficou enregelado até aos ossos. Mesmo com alguns safanões, as zonas vertebrais de muitos senhores continuam incólumes de qualquer esforço, porque do seu trabalho só a sua mente dá sinal, na tentativa de ludibriar todos.
E se de ossos vamos continuando a falar, os mesmos pouco se comprimem para aqueles que, recostados no sofá, não sentem a parte nervosa a incomodar, já que na sua conta bancária os saldos engordam, em contraste com aqueles que os vêem limpos, porque do último bolso da sua samarra, ou sobretudo, já não há resto do que deixaram na praça.
De tantos “casos”, só uma ínfima percentagem dos infractores malhou com os ossos na choldra.
É que isto de falar de cadeia é um ultraje. Por isso, na mesma existem tarimbas para uns e “gabinetes” prisionais para que os de excepção possam ter os seus ossinhos mais reconfortados.
Passou o Carnaval. No dia seguinte, a 4.ª Feira de Cinzas –“ Lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar”, como se referia anteriormente nas citações bíblicas.
Independentemente da religiosidade de cada um, esta é uma certeza, uma verdade insofismável. Ainda que haja a preservação de alguns ossos, quer por mumificação, dos tempos ancestrais, quer por depósito tumular, com embalsamamento, como os do faraó Tutankhamon, dos Papas, Reis e outras figuras de mérito, isso não é para todos, optando muitos pela cremação.
São de mau gosto as fantásticas, tenebrosas e macabras “decorações” feitas com ossos humanos, em igrejas e capelas deste País e do estrangeiro. É uma falta de respeito pelo ser humano.
Quando visitei, em 1968, pela primeira vez, a Capela dos Ossos, em Évora, situada na Igreja de S. Francisco, construída no Séc. XVII, por iniciativa de três monges, fiquei triste por ver que, afinal, na minha perspectiva, se estava a “brincar” com os ossos humanos, “decorando” a capela com milhares de crânios, tíbias, vértebras e fémures de humanos, dispostos nas paredes, nas colunas e no tecto, em macabra arquitectura. E também lá estão os ossos, pendurados, de um bebé, no conjunto do seu corpo. Discordo destas exposições, mesmo tendo em conta que, no espírito dos criadores, foi a mensagem da transitoriedade da vida, tal como indica o aviso à entrada da capela: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Calculam-se em cerca de 5.000, provenientes dos cemitérios situados nas igrejas e conventos da cidade.
Fora de Évora, sabemos que também existem capelas dos ossos em Campo Maior, Faro, Silves, e noutras zonas do País, assim como por esse mundo fora.
A que mais me marcou, e que visitei em Agosto de 2006, na deslocação que fizemos de automóvel, de Praga para a capital austríaca, a cerca de 65 quilómetros da capital checa, foi a de Kutná Hora. Impressionante! Aterrador! Depois de procurarmos a estrada que nos levaria ao rumo certo, já que teimava em surgir a direcção de Brno, que não desejávamos, e não íamos munidos de GPS, poisamos para almoçar, sem que antes visitássemos, no coração da Boémia Central, a três quilómetros do centro da cidade, uma das mais macabras fantasias à face da terra – a capela de Todos os Santos, mais conhecida por Igreja dos Ossos, com toda a espécie de ossos, entre 40 e 70 mil. Segundo a revista “Fugas” (Público), de 23/01/2010, “a capela foi plantada no centro do cemitério desde que foi fundado, em 1278, com terra colhida em Golgotha, o sítio da crucificação de Cristo. Ou seja, o cemitério foi promovido a terra santa e toda a gente de Kutná Hora passou a elegê-lo para última morada. Depois veio a peste no século XIV, as não menos letais guerras hussitas no século seguinte e o exíguo recinto ficou a rebentar pelas costuras, com muitos cadáveres a descoberto. Primeiro o andar superior da capela e depois o seu subsolo foram então convertidos em armazém de ossos em excesso. (...) Há quatro enormes pilhas de ossos em forma de sinos nos quatro cantos da capela, do centro pende um monumental candelabro que integra todos os ossos do corpo humano, os tectos abobadados são decorados com grinaldas de caveiras. Para além dos depósitos onde milhares de ossos estão simplesmente empilhados, há muitos outros recriados para efeitos “artísticos”.
Todas estas figuras decorativas mais parecem ferir as regras do bom gosto e até do respeito pelos mortos.
Será que um dia os meus ossos podem servir para decorar uma qualquer capela ou objectos artísticos? Prefiro a cremação.




(In “Gazeta do Interior”, de 24/02/2010; “Notícias de Gouveia”, de 26/02/2010; “Notícias da Covilhã”, de 04/03/2010; e Jornal “Olhanense”, em 15/03/2010)

11 de fevereiro de 2010

FALECEU LUIS PAIVA, ANTIGO GUARDA-REDES DO SPORTING DA COVILHÃ




Mais um antigo atleta do Sporting da Covilhã (SCC) deixou o mundo dos vivos, ainda novo para passar para a outra margem da vida.

Luís Paiva emparceirou com outros antigos guarda-redes do SCC que também já partiram: Guilherme e José Pereira. Jogou ao lado dos covilhanenses, entre outros: Prata, Pinto Dias, Fazenda, Coimbra; e também de Leite, Madaleno e Viseu.

Depois de ter integrado as equipas de juniores do SCC, como guarda-redes titular, várias vezes deu o seu contributo nas equipas seniores, então a militarem nas II e III Divisões Nacionais.

Ainda nos juniores, há que recordar os célebres campeonatos nacionais, onde as equipas jovens do SCC ocupavam lugar de destaque, chegando aos quartos de final. Na década de 60 do século passado, uma dessas equipas, em que Paiva era titular dos Leões da Serra, deu brado a sua participação no Nacional de Juniores, defrontando o FC Porto no Estádio das Antas, os portuenses então com uma equipa aguerrida onde pontificavam antigos atletas como Artur Jorge, que depois foi treinador e seleccionador nacional.

Na equipa do SCC jogavam, ao lado de Luís Paiva, excelentes juniores covilhanenses, como Eduardo Prata, Tó Zé Prata, Victor Campos, Luís Filipe, Ranito, Zeca, entre outros. A equipa era treinada por Couceiro.

Jogou ainda no Arsenal de S. Francisco, e, nos primeiros anos da década de setenta, o seu contributo nas hostes serranos foi importante, numa altura que as finanças do clube não eram famosas.

Estivemos a última vez com Luís Paiva, no dia 1 de Maio último, no jantar de homenagem a antigos atletas, treinadores e dirigentes do SCC, que fica registado nos anais da história do clube serrano.

É referido também nalgumas páginas, e fotos, da história do Sporting da Covilhã.

Paz à sua alma.

(In Tribuna Desportiva de 9/02/2010 e Notícias da Covilhã de 11/02/2010)

21 de janeiro de 2010

O JORNAL



O excelente trabalho que o Pinheiro da Fonseca está a apresentar no Notícias da Covilhã (NC), divulgando os vários museus da cidade, transpôs-me para a retrospectiva de quando iniciei o meu contacto com este meio de comunicação impresso que é o jornal, e precisamente no NC, em 14/11/1964. Surgiu com o texto, sob o título “A Covilhã precisa dum Museu”, quando, na altura, não havia nenhum museu na Covilhã, para além dumas pedras antigas e do canhão que se encontravam no quintal da antiga biblioteca municipal, peças estas actualmente expostas no Museu de Arte e Cultura.
Apaixonado pela escrita, levou-me a memorizar um boletim, duma unidade militar, onde colaborei com um texto, que só tinha em memória e dava já como perdido, quando chegaram às minhas mãos todos os números do boletim e o desejado nº.7, de Maio de 1971, do “Fronteiras da Beira”, do Regimento de Infantaria n.º 12, da Guarda. A crónica “O Mundo do Jogo”, em Las Vegas, e uma outra página de “Curiosidades” eram então assinadas por Furriel Miliciano J. Nunes.
Esta memorização já me tinha feito curto-circuito mental quando li, na revista “Pública”, de 3 de Janeiro deste ano, um artigo – “Vidas no escuro sob os néons de Las Vegas” – o qual me reportou para esta cidade paradisíaca do jogo, paradoxalmente numa situação confrangedora com alguns milhares de elementos da sua população incluídos nos “sem-abrigo”.
É indubitável que os meios de comunicação social, nas últimas décadas sofreram forte expansão e diversidade, numa desenfreada concorrência, chegando ao aparecimento de jornais gratuitos e a pensar-se que o jornal em papel iria extinguir-se, face à grave crise. Não acredito que tal venha a acontecer, pois, com a sua envolvente, desde o “sentir o seu cheiro”, ao folheá-lo e levá-lo para onde quiser, é diferente do digital, e, não obstante a grande revolução planetária da Internet, a tradição jamais terá os dias contados.
O primeiro jornal português terá sido fundado em 1645 – “A Gazeta”, de Lisboa.
Passando revista pelas primeiras páginas dalguns jornais de todo o mundo, na Internet, verificamos que o continente americano é o que domina o mundo dos jornais, depois a Europa, ficando para segundo plano os restantes continentes, com a África em último.
E, lá perdido nos confins do mundo, o “Samoa Observer”, de Samoa.
Pois bem, firmes como rochas mantêm-se como jornais mais antigos em Portugal, o “Açoriano Oriental”, fundado em 1835, e, no Continente, o “Aurora do Lima”, de Viana do Castelo, fundado em 1885, enquanto que o mais antigo do mundo (irá passar a digital) é o sueco The Post Och Inrikes Tidningar.
Mas também já desapareceram algumas referências como o Diário de Lisboa, Diário Popular, O Século, O Comércio do Porto, O Jornal, O Independente, Semanário, República, assim como os desportivos Mundo Desportivo e Gazeta dos Desportos, entre outros, para além de várias revistas, nomeadamente “A Flama”.
A crise também afectou os jornais e a concorrência levou a oferecerem brindes, inseridos nos seus números. O surgimento dos gratuitos é sinal de crise no balão de oxigénio da imprensa, não só em Portugal, como noutros países, segundo a opinião de alguns. Salientamos os gratuitos portugueses, alguns já extintos: Metro, Oje, Destak, Diário Desportivo, Meia Hora, Global Notícias, Sexta, Ripanarapaqueca.
Nesta Região já desapareceu o gratuito “Diário XXI” e mantém-se o “Já Agora”.
Ainda existe romantismo na figura do vendedor de jornais mas será que os distribuidores dos gratuitos são uma espécie de “novos ardinas”?



(In “Notícias da Covilhã “ e “Notícias de Gouveia” de 21/01/2010)

15 de janeiro de 2010



João Nunes com o maior goleador da Selecção Portuguesa de Futebol, de todos os tempos – PAULETA – no jantar anual de mediadores de seguros da Liberty Seguros, num restaurante da Expo, no dia 15 de Janeiro de 2010.

7 de janeiro de 2010

O SPORTING DA COVILHÃ E O IMBRÓGLIO DA SUA SEDE

É do conhecimento público o comunicado da Direcção do Clube leonino, de 9/12/2009, através do qual se fazem algumas considerações sobre a atitude comportamental, não só do proprietário do imóvel da ex-Sede daquela instituição desportiva, como também, e mormente do seu ex-inquilino, ali estabelecido no serviço de restauração.
É assaz estranha a forma como a maior Colectividade, não só do Concelho como de toda a Região desta Beira, tem sido tratada por algumas gentes responsáveis, em vários sectores da sociedade, sem o encontro de um ponto de união de boas vontades, para que o Sporting Clube da Covilhã possa manter o seu emblema a reluzir no meio citadino, e não só, como já foi referido.
Os êxitos destes nossos principais representantes do desporto, a nível nacional, redundam também no reflexo de benefícios para as gentes da Região, quer no âmbito comercial quer no turístico, sobejamente conhecidos de longa data, ainda que por vezes mal aproveitados.
As vicissitudes por que o Clube passa também poderão repercutir-se em menos proveitos para a Região.
O que me trás a este assunto mirabolante, independentemente de eventuais desavenças negociais, ou interesses mesquinhos, é a abissal diferença de números apresentados, denotando-se uma aversão ao Clube serrano por gentes desta Terra, ou aqui radicadas.
Desde a década de cinquenta do século passado que o edifício da Rua do Ginásio, de bonita traça e bem implantado na Cidade, mas com forte degradação, foi Sede do SCC, onde se conheceram muitos êxitos, surgiram grandes alegrias para a Cidade e Região; houve discursos inflamados e eloquentes por gente grada da Covilhã, permitindo-me salientar o Dr. Carlos Coelho, Dr. Ranito Baltazar, Dr. José Calheiros, Conde da Covilhã, os industriais Ernesto Cruz e os Mesquitas Nunes, entre muitos outros. Também algumas vezes os corações dos associados e dirigentes surgiram tristes e apreensivos, mas, no fundo, as paredes daquele imóvel, se falassem, podiam testemunhar as vozes hilariantes e por vezes vociferantes de muitos amigos do SCC, sobre a vida da Colectividade e dos seus obreiros, ao mesmo tempo que ostentavam quadros de Velhas Glórias serranas que o tempo perdurou, muitas delas já fora do mundo dos vivos.
Elementos da família do proprietário do imóvel também integraram com grande dignidade os órgãos dirigentes do Clube de antanho.
Não se compreende, aos olhos de muitos covilhanenses – mas já habituados ao que se passa neste País de muita devassidão – que surja o pedido de venda do imóvel, ao SCC, pelo valor de 625 mil euros; e, posteriormente, vem a ser adquirido pelo arrendatário do restaurante por menos de metade do preço.
Onde está a moralidade do acto? Ou aqui há gato…
Pois bem, negócio feito, compreensível ou incompreensivelmente assumido, chega agora a vez do ex-inquilino e dono do restaurante vir a exigir uma indemnização ao SCC, em tribunal, superior a 200 mil euros!!!
Alguém percebe isto? O Clube emitiu no seu comunicado que se abstém de comentar estas atitudes.
Com franqueza, isto é mesmo razoável, ou é para deitar o Clube abaixo? Esta agremiação desportiva histórica da Cidade, de longa data, já lá teve outros restaurantes, como o do Zé Brazul, donde surgiu a figura popular do empregado “Feijão”.
Vamos dar as mãos, numa brandura de intenções e não brinquem com coisas sérias, tá?


(In Notícias da Covilhã e Jornal do Fundão, de 7/1/2010, e no site do Sporting Clube da Covilhã)

24 de dezembro de 2009

O VENDEDOR DE CASTANHAS ASSADAS


A tradição mantém-se e então vemos o vendedor ancestral de castanhas assadas, geralmente no Pelourinho. Há uns anos atrás havia mais “homens das castanhas” a vender, como popularmente os designamos.
Nos velhos tempos do futebol de “Primeira Divisão”, do nosso Sporting da Covilhã, então no velhinho Estádio José Santos Pinto, mais próximo das estrelas do firmamento que o actual, havia vários vendedores de castanhas, com os seus assadores de barro e jornais para as embrulhar... Um ou dois homens, lá em cima, junto ao campo, e outro ao fundo do antigo hospital...
Nesse tempo, também jogavam no futebol de primeira, o Atlético, o Oriental, o Torriense, o Caldas, e o Olhanense, este actualmente na I Liga ou Liga Sagres (a antiga I Divisão), donde vierem vários atletas que aí jogavam, para o SCC.
Segundo Aquilino Ribeiro, num dos seus romances, “as castanhas são tão bonitas com sua oval fantasia, seu sépia de veludo, tão ternas quando espreitam juntinhas às duas, às três e até às quatro, inclusa a boneca, de ouriço arreganhado”(...). Também Miguel Torga se referia assim: “Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver uma cama fofa e maravilha singular de que falo, tão desafectada que até o próprio nome é doce e modesta – a castanha.
Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua engorda os porcos, com vossa licença...”
Pois bem, actualmente só conhecemos um único vendedor, que aproveita o seu tempo de ócio, e de férias, para dar continuidade à tradição, no Pelourinho, e também, assim, conhecer outro “fruto” do seu trabalho...
José Manuel Pinto é motorista de profissão, actualmente ao serviço do município covilhanense, sendo que antes exercia a mesma actividade na ACM, onde aqui conheceu o desemprego. Foi nesta altura que se agarrou a esta actividade sazonal que não mais largou.
E tem alma para o seu desempenho, numa alegria aliada a uma forma simpática de trabalhar, que lhe faz granjear amizades.
Sou testemunha deste seu entusiasmo na venda de castanhas assadas.
Os assadores são em aço inoxidável, ou barro, e já não podem ser em lata, face à ASAE; também acabaram os “cartuchos” em papel de jornal. Terminou aqui a tradição; ele as embrulha em papel branco, com ou sem saquetas.
Há um ano e meio, viajei até à capital com o motorista José Manuel Pinto, então na apresentação de um projecto que resultaria no “Criar 08”, entre a empresa que represento e a edilidade covilhanense. À saída da reunião de trabalho lá fomos de encontro ao motorista para almoçar e seguir viagem de regresso à Covilhã. Pois bem, José Pinto, aproveitando o tempo inactivo, não ficou sem fazer nada; estava na Rotunda do Marquês de Pombal a ajudar o seu colega, vendedor de castanhas...
Foram-se os magustos, restam as castanhas do amigo José Manuel Pinto, e, para o ano, se Deus quiser, haverá mais.

(in Notícias da Covilhã e Jornal do Fundão, de 24/12/2009; e Jornal Olhanense, de 15/01/2010)

18 de dezembro de 2009

PORTUGAL PANDÉMICO

Chegámos a mais um final de ano. Em plena época natalícia, os rostos de muita gente encontram-se mergulhados numa melancolia. A leda esperança a ofuscar-se – parece que as estrelas não querem brilhar!
Onde estão os homens e as mulheres de Portugal, com talento para desbravar a crise instalada?
Muitos cérebros do nosso País, lá fora têm notoriedade. Então, porque é que não se encontra o antídoto para atrair a procura de soluções?
Alguns dos contrários à corrente dominante não oferecem alternativas convincentes, e, quem se trama, duma forma ou doutra, é o povo que neles confiaram.
Os maus exemplos de enormes retribuições, oriundos lá bem do alto, sem falar já dos fastidiosos “casos”, sobejamente conhecidos, são um atentado para quem, honestamente, sempre procurou exercer as suas actividades profissionais, no espírito de bem servir, e, no horizonte, a perspectiva do reflexo do seu trabalho vir a ser espelhado numa reforma condigna.
Repercutem-se também nas pensões principescas, e demais mordomias, de muitos que falam em nome do povo, e que, com sagacidade lhe sugam parte da esperança de melhores dias.
Se a exorbitância salarial de uns não reflectisse uma abissal diferença no salário da maioria, pensamos que os défices de governação seriam bem diferentes.
Subsídios de reintegração da classe política; ajudas de custo a torto e a direito; senhas de presença nas assembleias; pagamento a autarcas para além dos que permutam a sua profissão pela de servir a tempo inteiro; exercício profissional duplo, com casos atentatórios bem visíveis, a ganharem milhões em detrimento de um leque de homens e mulheres nas filas dos Centros de Emprego, são exemplos do que seria passível de suprir algo do buraco económico em que estamos todos metidos. Depois, despesas estranhas, desmedidas, surgidas em muitos municípios.
Parece não haver interesse em resolver o problema da corrupção. Falam, falam, falam e não os vejo fazer nada, como diziam os do Gato Fedorento. Para um problema tão importante na vida dum país, só agora se prepara a comissão eventual para o combate à corrupção. Por onde andam João Cravinho, António Vitorino e Medeiros Ferreira, por exemplo?
Neste tempo em que vivemos, recrudescem as paixões e os ódios e rarefazem-se os princípios e os valores.
Muita gentinha das instituições estatais a usufruir das benesses referidas, são os mesmos que vão para as televisões, e para os jornais, a lançar ideias para a resolução dos problemas financeiros que assolam o País, como o congelamento de salários por causa da competitividade da economia portuguesa.
Governadores e ex-governadores do Banco de Portugal; ministros, ex-ministros e outros da mesma laia, dão empregos, de mão beijada, em instituições públicas ou privadas, a seus familiares, com vencimentos ambiciosos.
E, como a justiça portuguesa, conforme registou a jornalista Clara Ferreira Alves, no Expresso, “não é apenas cega, mas também surda, coxa e marreca” não vamos a lado nenhum.
A subsidiodependência prevalece e há fome em Portugal, com pobreza envergonhada.
A crise económica, com mais de meio milhão de desempregados, é outra pandemia, pois leva a doenças mentais, associada a reacções depressivas; assim como o desemprego de longa duração, em que, ao fim de algum tempo, a pessoa desmoraliza, sente-se inútil. A ociosidade forçada, segundo o médico, Pedro Afonso, in “Público” acaba por se reflectir negativamente na saúde mental.
E, como o mesmo afirma, “através do progresso tresloucado, a sociedade acaba por criar o seu próprio “vírus social” que vai sofrendo mutações em ciclos progressivamente mais rápidos, impedindo que o nosso organismo reaja, aumentando o número dos inadaptados; ou seja, os que sofrem de depressão e ansiedade”.
As coisas mudam para pior espontaneamente se não forem mudadas, para melhor, de propósito.
Na certeza de que vamos encontrar o próximo ano de grandes dificuldades, resta-nos que todos os políticos, no Governo ou na Assembleia da República, dentro ou fora, pelo menos nos transmitam aquela palavra de que todos estamos famintos como das outras necessidades básicas – a ESPERANÇA!

Votos de um Bom Natal.

(In Notícias da Covilhã, de 17/12/2009; Notícias de Gouveia, de 18/12/2009 e Diário Digital Kaminhos)

3 de dezembro de 2009

NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO PADRE JOSÉ DOMINGUES CARRETO

Foi um dos grandes párocos da freguesia de S. Pedro, da Covilhã, entre o início da década de 40 e finais da de 60, do século passado.
Nasceu na freguesia de Aranhas, concelho de Penamacor, em 19 de Março de 1909, tendo a efeméride do centenário do seu nascimento acontecido já neste ano de 2009.
Viera de paroquiar na freguesia do Teixoso, em 1942, para a de S. Pedro, da Covilhã, onde permaneceu durante vinte e sete anos, até que a sua doença o afastou, em 1969, da sua paróquia, passando a exercer igual missão, na sua Terra, até 1973.
Tanto cá como lá deixou rastos de muita admiração e respeito.
No seu múnus esteve em desigualdade com os seus colegas da cidade, face à exiguidade da igreja – S. João de Malta.
Lutou pela construção de uma nova igreja, com mais frustrações que ânimos face aos poderes instituídos.
Não podendo alargar as paredes da igreja, cavou o salão por debaixo da mesma, onde conseguiu, ao longo do seu tempo, reunir muitos jovens e suas famílias, nas festas e comemorações no exercício da sua acção apostólica.
As então crianças e jovens desse tempo, recordam hoje os filmes e programas de televisão, nos seus primórdios (poucos a possuíam), a preto e branco, de um só canal. Era um pouco de distracção já que muito faltava aos jovens em casa, e uma forma de convívio para os familiares, retirando os pais das tabernas.
O desemprego não era tão acentuado nem havia o flagelo da droga, mas existiam as guerras coloniais, a falta de liberdade e os salários miseráveis.
No 1.º de Maio, em torno da festa de S. José Operário, no salão paroquial manifestavam-se cautelosamente os movimentos operários – JOC e LOC – expressando em palestras as suas ansiedades por uma forma de trabalho mais digna para as famílias.
Nas Conferências de S. Vicente de Paulo e de S. Tarcísio (Obra da Cadeia), exerceu forte presença e animou os confrades. Conseguiu reunir jovens nas mesmas.
Em tempo de iliteracia, que agradava ao Estado Novo, o padre Carreto lançou um interessante boletim paroquial – “ECOS DA PARÓQUIA” – cujo primeiro número veio a surgir em 12 de Setembro de 1956. Era mensal e focava várias secções: A Voz da Igreja, Momento de Reflexão, Noticiário do Mês, Liturgia, Lar de Protecção à Criança, Tribuna dos Novos, entre outras.
Reler agora aquele boletim, é passar por uns momentos nostálgicos, não esquecendo a célebre Festa da Catequese, no período do Natal, com a “compra” de prémios através das senhas que se conseguiam, ao longo do ano, pelas presenças nas missas e sessões de catequese; a notícia das visitas, dos estudantes e muitas curiosidades, o que nos leva a recordar muitos amigos desse tempo, com paradeiros diversos e alguns já fora do mundo dos vivos.
O Lar de Protecção à Criança, que a paróquia sustentava, iniciado em 1955, já não existe.
As festas de S. Pedro e de Santa Luzia, com o cariz desses tempos de antanho, com leilão de ofertas e a Banda da Covilhã a abrilhantarem, há muito que já não existe.
Permanece a festa e procissão de Nª.Sª de Fátima, com a adesão de muitos fiéis.
Recordemos que foi no tempo do padre Carreto que em 1947 se procedeu à coroação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima, com uma coroa de ouro e pedras preciosas, oferecida pelas senhoras da Covilhã, com grande brilho para a cidade covilhanense.
Muito haveria a dizer do padre José Domingues Carreto, nomeadamente a sua veia de escritor, com dois livros sobre teatro – “Dois Caminhos” e “O Beijo do Menino Jesus”, sob o pseudónimo Jodocar dos Santos, tendo ainda sido autor de um filme.
A Câmara da Covilhã reconheceu os méritos deste sacerdote, há uns anos, com a atribuição de um diploma.
Penso que é chegada a altura, no ano do centenário do seu nascimento, que está a decorrer, de lhe ser dado o nome a uma rua, e, essa, seria a substituição do Largo Manuel Pais de Oliveira por Largo Padre José Domingues Carreto.




(In Gazeta do Interior, de 25/11/2009; Notícias da Covilhã e no Jornal do Fundão, de 03/12/2009 e Kaminhos).

5 de novembro de 2009

CONFRARIA DO POLVO

1 – “A vozes loucas, orelhas moucas” talvez seja o provérbio adequado a um intelectualismo mediático que por aí grassa de quando em vez. Tal como a máquina que, não sendo cuidada, por negligência ou ignorância, pode gripar, assim a longevidade humana pode ser alvo de semelhanças, na falta duma lubrificação na sua lucidez.
Só faltou ao Sr. Saramago cuspir em cima da Bíblia, como a artista brasileira Maitê Proença o fez numa fonte dum monumento nacional, em Portugal.
Deliciou-se na expansão do seu ódio contra Deus, no seu monólogo interior, com a sua pena.
Depois, encontrou uma certa brandura, sem retaliações, de outros intelectuais e homens que têm uma visão diferente do ateísmo do Sr. Saramago.
Mas, sobre a Bíblia e, mormente, sobre a divindade que a insere, o Sr. Saramago despejou vómitos da sua estupidez mental; mas questionado sobre o Alcorão, aí, o controverso escritor, assumidamente agnóstico, rejeitou se envolver em polémica. Pudera, brincar com os islamitas é perigoso em qualquer local do mundo, seja em Lisboa ou em Lanzarote; que o digam o escritor Salman Rushdie, com a sua obra “Versículos Satânicos” ou o director do jornal dinamarquês Jyllands-Posten após a publicação das caricaturas de Maomé.
Segundo António Bagão Félix, “Uma coisa é Saramago defender o seu pensamento livre. Outra é o modo como o faz. Com acidez, arrogância, intolerância e sectarismo extremos. Pretensamente auto-dotado de uma superioridade intelectual e moral desde que foi galardoado com o Nobel, acha-se pateticamente acima dos outros”.
Também o director do Público, José Manuel Fernandes, refere que “A liberdade de expressão inclui, sem outra limitação que a vergonha própria, a liberdade de dizer disparates em público. Não é a primeira vez, nem deverá ser a última, que o escritor adopta o registo da provocação para chamar a atenção, até porque vivemos num país de muito respeitinho e o homem é uma espécie de ícone nacional. E como, por cá, ninguém reage com fatwua, Saramago pode tirar partido de uma liberdade de expressão que ele, curiosamente, não deu a quem trabalhou sob as suas ordens no Diário de Notícias no tempo da Revolução”.
2 – Cada vez mais emergem Confrarias em várias zonas do País. Dantes resumiam-se a uma meia dúzia. Hoje são à mãos-cheias. Só alguns exemplos: Confraria da Panela ao Lume (Guimarães); Confraria do Bacalhau (Ílhavo); Confraria das Tripas (Porto); Confraria do Queijo da Serra da Estrela (Oliveira do hospital); Confraria dos Nabos (Mira); Confraria dos Gastronómicos e Enófilos de Trás-os-Montes e Alto Douro (Mirandela); Confraria da Broa (Avintes); Confraria da Chanfana (Vila Nova de Poiares); Confraria da Fogaça (Feira).
Na nossa Região algumas já existem, como a Confraria do Azeite (Fundão) e, penso, que a Confraria da Cereja.
Fala-se na tentativa de implementação de novas Confrarias, como a Confraria das Feijocas (Manteigas) e outras acabaram por não ir avante, como a Confraria da Panela do Forno, na Covilhã. Também poderia surgir a ideia da Confraria do Pastel de Molho, na Covilhã, a Confraria da Cebola, no Tortosendo, a Confraria da Castanha, etc, etc.
Mas surgiu o tubérculo só conhecido na Covilhã e Região – a cherovia – que também se consome na Inglaterra, a quem Miguel Esteves Cardoso já se referiu na sua coluna do Público.
Promovida na Covilhã com dois festivais gastronómicos alusivos, pela Banda da Covilhã, e que se preparava para a criação da Confraria da Cherovia, vê-se agora oficialmente legalizada, duma forma apressada, por outros elementos estranhos à Banda da Covilhã.
Com tanta Confraria, levou-me a sugerir a criação da “Confraria do Polvo”, duma forma selectiva e desde que os confrades passem a ser chamados de “tentáculos”. Só poderão aderir todos quantos souberem saltar à Vara, em pau de Loureiro, em zonas de Penedos.
Com uma rede destes excelentes “tentáculos” (confrades), conseguiríamos formar a maior Confraria do País, e seria fácil a angariação de elementos, através convites para Lisboa, Oeiras, Gondomar, Felgueiras, Marco de Canavezes, não esquecendo o Zé Godinho, que até poderia oferecer um pão-de-ló, na altura da escritura da constituição da CONFRARIA DO POLVO.

(in “Notícias da Covilhã” de 05/11/2009, “Gazeta do Interior”, de 04/11/200,“Notícias de Gouveia”, Jornal “O Olhanense” e “Kaminhos”)

29 de outubro de 2009

O EXTINTO “C.R.P. ESTRELA DE SÃO PEDRO”


Foi uma das colectividades populares de outrora, da cidade covilhanense – ditas “de bairro” – na esfera da então FNAT – Federação Nacional para a Alegria no Trabalho, hoje sob a designação de INATEL. Teve o seu início na década de cinquenta do século XX.
Após o 25 de Abril de 1974, as colectividades sob a égide do Inatel, passaram da sigla “C.R.P”. – Centro de Recreio Popular, para “C.P.T.” – Centro Popular de Trabalhadores; e, pelo Decreto 61/89, de 23/02/1989, para “C.C.D.” – Centro de Cultura e Desporto.
Estes centros eram lenitivos das pessoas nas agruras do trabalho, nas centenas de fábricas laneiras de então. Daí que o concelho da Covilhã era e é o detentor do maior número de agentes desportivos e culturais da região e do distrito.
Mas, dentre as dificuldades culturais, por falta de acesso a estudos continuados nas regiões, à altura, pouco dinheiro para o sustento duma família, quanto mais para adquirir livros ou jornais, ir ao cinema ou ao teatro (quando ocasionalmente surgia) ou mesmo adquirir um aparelho de televisão (ela emergiu em Portugal em 1957), as iniciativas e ideias partiam destes clubes de bairro, proporcionando a criação de bibliotecas, salas de leitura, organização de eventos, para além dos aniversários comemorativos; também a organização do folclore e, eventualmente, algumas conferências.
A confraternização entre associados era bem patente nesses tempos; mais que nos dias de hoje, cujo associativismo está muito fragilizado; através de ocupação dos tempos livres por via dos chamados jogos de mesa, nos bilhares, e para além de ser ponto de encontro para amenizar conversas do dia-a-dia.
Mas também o desporto-rei mexia com estas colectividades e eram muitos os jovens que integravam as equipas das respectivas colectividades; organizavam-se torneios e chegou a haver o Campeonato Nacional de Futebol da FNAT.
Muitas são as reminiscências de quantos jogaram futebol pelo seu clube, proporcionador de rivalidades leais, mas pendentes para o companheirismo, amizade e confraternização.
As crises emergentes das guerras nas colónias, para onde ia grande parte da juventude desses clubes, a emigração em força na década de sessenta, e depois as crises após a democracia, levaram algumas colectividades a verem-se reduzidos aos reformados, com altos e baixos, na força emanada de boas vontades no difícil dirigismo.
Alguns impuseram mesmo uma vontade indómita de transformação e, pelo trabalho, surgiu o brilhantismo com obras nas sedes das suas colectividades, fruto também da forte mão benfazeja da edilidade covilhanense.
Da geração do Estrela de S. Pedro contam-se também, entre outros, o Oriental de S. Martinho, Os Leões da Floresta, Arsenal de São Francisco, Águias de Santa Maria, Rodrigo, Académico dos Penedos Altos, B.º São Vicente de Paulo, Estrela do Zêzere – Boidobra, Canhoso, Pinhos Mansos – Tortosendo.
O Estrela de S. Pedro, o Águias de Santa Maria e o Arsenal de S. Francisco, viriam a não aguentar as contingências já referidas e a sucumbir, sendo certo que o Arsenal de S. Francisco viria a ressurgir em 1996.
Da letargia em que caíram, ainda não acordaram – nem se vislumbra nenhuma luz no fundo do túnel – o Estrela de S. Pedro e o Águias de Santa Maria.
Ficaram tão só as memórias dessas colectividades e das figuras que as mesmas envolveram.
Foi no Estrela de S. Pedro que despontou para o futebol, o então jovem Francisco Manteigueiro, que viria a ser pedra basilar nas equipas do Sporting da Covilhã.
Também o Estrela de S. Pedro foi a Colectividade que organizou, ao tempo do presidente Gabriel, a primeira Corrida de S. Silvestre, na Covilhã, que depois manteve, sob a sua organização, durante vários anos.

(In Tribuna Desportiva de 20/10/2009, Notícias da Covilhã e Jornal do Fundão de 29/10/2009)

15 de outubro de 2009

A INAUGURAÇÃO DA ESTRADA DAS PEDRAS LAVRADAS

Já lá vão 136 anos, data em que foi inaugurada a abertura da estrada das Pedras Lavradas que ligou a Covilhã à cidade de Coimbra.
No local, que então era o prolongamento da Rua Marquês d’Ávila e Bolama, e se passara a chamar Palmatória, e, actualmente, Avenida da Universidade, foi aí colocado um monumento – a “Palmatória” – que ainda lá se encontra, numa zona verde. Existiu também um posto da Direcção de Viação e Trânsito, no entroncamento da referida estrada (para os Sete Capotes – Tortosendo) e a actual Avenida da Universidade.
Assim, em sessão extraordinária da Câmara Municipal da Covilhã, de 30 de Setembro de 1873, presidida pelo vereador Baptista Alves, em substituição do presidente Megre Restier, foi deliberado o seguinte:
“ (...) 2.º - Que constando, ainda que não oficialmente, mas com certeza, a vinda do Exm.º Ministro das Obras Públicas a esta cidade nos dias do próximo mês de Outubro, a fazer a inauguração da estrada das Pedras Lavradas, a Câmara deliberou que se devia fazer para a sua recepção, pois que, sendo a construção daquela estrada um dos melhoramentos mais importantes, não só para a Covilhã, mas também para as Beiras, e dignando-se o Exm.º Ministro vir solenizar aquele acto com a sua presença, entendia se devia fazer uma recepção brilhante e condigna de um Ministro que tanto se interessa pelos melhoramentos do País.
A Câmara concordando com as ideias apresentadas pelo Senhor Presidente, deliberou que se convidassem para reunirem nos Paços do Concelho, no dia 2 de Outubro, pelas 11 horas da manhã, todos os donos dos estabelecimentos fabris, bem como as principais pessoas da cidade, devendo também reunir a Câmara nesse mesmo dia, a fim de comum acordo, se determinar o que se deve fazer acerca da recepção do Exm.º Ministro”.
Após a inauguração, por via da acta da sessão extraordinária da edilidade, do dia 17 de Outubro de 1873, presidida pelo presidente da Câmara, Megre Restier, surgiu o seguinte registo: “(...) O Senhor Presidente declarou à Câmara, que devendo ter lugar, como teve a inauguração da estrada das Pedras Lavradas, no dia 16 do corrente mês, tinha convidado todas as autoridades, pessoas principais e donos de fábricas, bem como as filarmónicas, para assistir à solene festa da inauguração e tinha dado as competentes determinações para se cantar o Te-Deum, que teve lugar depois da inauguração da estrada”.
Posteriormente, por acta da sessão extraordinária da Câmara, de 6 de Novembro de 1873, presidida pelo vereador Baptista Alves, foi deliberado:
“(...) 4.º - O Senhor Presidente informou que as pedras que devem ser colocadas na rua que tem o nome Rua do Marquês d’Ávila e Bolama, custavam em Lisboa 2.500 réis cada uma, e que a coluna que deve ser levantada aonde se fez a inauguração da estrada das Pedras Lavradas, para comemorar aquele acto, custava em Lisboa, pronta e encaixotada, 60.000 réis.
A Câmara deliberou se mandasse vir a coluna e quatro pedras para a Rua Marquês d’Ávila e Bolama, devendo a coluna trazer a seguinte inscrição: Em 16 de Outubro de 1873 foi inaugurada a Estrada das Pedras Lavradas pelo Exm.º Ministro das Obras Públicas, Comércio e Industria, Cardoso Avelino – Par do Reino Vaz Preto e Deputado Pinheiro Chagas; e, do outro lado, Câmara Municipal de Covilhan de 1873.
5.º - Sob proposta do Senhor Vereador Cunha, a Câmara deliberou que se oficiasse ao Exm.º Director das Obras Públicas, para que, com a maior brevidade, mandasse abrir a servidão para a rua pública de S. João de Malta, na estrada real n.º 55, junto ao quintal de Manuel Teixeira”.
Mais tarde foi colocado ali o Posto n.º 70, da Polícia de Viação e Trânsito na Covilhã, onde esteve à frente o Chefe Constantino Pedrosa Gonçalves, durante dez anos, desde 1958 (ver foto). Já faleceu, no Porto, onde residia.


(In "Noticias da Covilhã de 15/10/2009)

8 de outubro de 2009

O ANTIGAMENTE E AS VULNERABILIDADES DE HOJE

As novas gerações recebem as memórias dos mais velhos duma forma tão de hilariante quão de estranheza, quase que deduzindo alguns que o mundo não tivera qualquer mutação de realce.
As facilidades e ofertas dos dias de hoje, não se coadunam com as dificuldades e falta de meios tecnológicos de outrora, onde a mão-de-obra era a mola impulsionadora do trabalho e a inteligência o grande computador omisso de há mais de sessenta anos.
Nascemos antes da televisão, das fotocopiadoras, ar condicionado, máquinas de lavar roupa ou secadoras. Não existiam cafeteiras automáticas, microondas, videocassetes, ou câmaras de vídeo.
Também ainda não tinham surgido o computador, os telefones sem fio e telemóveis, máquinas de escrever eléctricas e calculadoras. Nunca havíamos ouvido falar de música estereofónica, rádios FM, cassetes, CDs e DVDs. “Hardware” era uma ferramenta e “software” não existia.
Dava-se corda aos relógios todos os dias. Não existia nada digital. As fotos não eram instantâneas nem coloridas. Não existiam os radares, cartões de crédito e raios laser.
O homem ainda não tinha chegado à Lua. Ainda não havia as vacinas contra a poliomielite, as lentes de contacto e a pílula anticoncepcional.
“Gay” era uma palavra inglesa que significava uma pessoa contente, alegre e divertida, não homossexual. Das lésbicas nunca tínhamos ouvido falar e os rapazes não usavam piercings.
Ter um bom relacionamento, era dar-se bem com os primos e amigos. Tempo compartilhado, significava que a família compartilhava férias juntos.
Chamávamos cada homem de “senhor” e cada mulher de “senhora” ou “menina”. Ensinávamos a diferenciar o bem do mal e a sermos responsáveis pelos nossos actos.
Fomos da geração que acreditou que uma senhora precisava de um marido para ter um filho.
Acreditávamos que “comida rápida” era o que a gente comia quando estava com pressa. Ainda não havia comidas congeladas. Não se tinha ouvido falar de “Pizza”, “McDonald’s”, nem de café instantâneo.
Naqueles tempos, “erva” era algo que se cortava e não se fumava. Ainda não havia terapias de grupo.
Muita da juventude de hoje está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os cinquenta e os sessenta.
No ensino, da antiga instrução primária, até à 4.ª classe, havia rigor e aprendia-se a conhecer todos os rios de Portugal, as serras, os relevos, as principais cidades e suas indústrias, até as estações de caminhos-de-ferro e todas as províncias de Portugal. Na história, sobre a fundação de Portugal até à República.
Os alunos não eram mimados como nos dias de hoje. Os professores davam-lhes reguadas quando não sabiam a matéria. Só no Asilo, o professor Raul dava as reguadas não nas mãos mas no rabo. Punha todos os “sacrificados” de rabo para cima e mãos no chão. E ninguém morria de medo.
Quando se chegava à 4.ª classe e quem quisesse seguir para o ensino secundário, tinha explicações adicionais, “exigidas” pelos professores, para terem êxito no exame de admissão, contra o pagamento de cem escudos por mês.
No secundário, mormente na Escola Industrial e Comercial, tiravam-se os cursos, comerciais ou industriais, com rigor, e ficava-se preparado para uma actividade profissional. Eram transmitidas matérias como, por exemplo, saber redigir cartas comerciais em português, francês e inglês, daí que os alunos estavam quase sempre preparados para exames de acesso aos Bancos, emprego invejável na altura.
Depois, veio a geração “rasca”. Nós éramos mais a geração “à rasca”; sempre à rasca de dinheiro, contrastando com os de agora que não lhes falta nada, inclusive, com todos os meios que facilitam o estudo, como a Internet.
No nosso tempo, universidades só existiam em Lisboa, Porto, Coimbra e Évora. Para obter um curso superior era preciso uma mão cheia de massa.
Hoje existem muitos meios tecnológicos, mas por mais que se queira fugir do maldito vírus, há sempre os chico-espertos que os infiltram nos computadores, nos e-mails e não sei que mais, e não conseguimos deixar de passar por otários, por mais que evitemos ficar encavacados.


(In "Noticias da Covilhã" de 8/10/2009 e a sair no jornal "O Olhanense" de 15/10/2009)

1 de outubro de 2009

UM AMIGO QUE PARTIU

Foi mais um amigo que partiu, sem o conhecer pessoalmente.
Já antes acontecera com Herculano Valente.
Agora foi Augusto Ramos Teixeira. Figura bairrista do desporto olhanense que me viria a proporcionar a ligação duma amizade com o Jornal Olhanense e gentes do Clube.
Logo na altura constatei, que, afinal, os carolas continuavam a persistir.
Já simpatizava com o Olhanense, desde a minha meninice, do tempo áureo da antiga Primeira Divisão e dos cromos de futebol de então.
Mas iria ser Augusto Ramos Teixeira a estabelecer, desde logo, um elo de ligação; na espontaneidade, entre a minha pessoa, como serrano e carola pelo meu Clube – o Sporting da Covilhã –, ele próprio, carola do Sporting Olhanense; e a vertente cultural de estórias que fazem a história dos dois clubes.
Tive a felicidade de obter a colaboração, em várias informações telefónicas de Augusto Teixeira, interessado em dar resposta a alguns pedidos de informação que eu colocara na Comunicação Social, então no ano de 1992, para a publicação da segunda obra sobre a história dos leões serranos.
Foi assim que surgiu o complemento dessa desejada informação sobre “homens do futebol”, e outros que emergiram por sua já referida colaboração, que haviam sido pedras basilares nos dois clubes.
Por terem representado dignamente as camisolas dos clubes serrano e algarvio, surgiu destes homens uma dualidade de amor aos dois clubes: Fernando Cabrita, José Rita, Eminêncio, Palmeiro, Adventino, Robério, entre outros.
Seria assim, de alguns deles, uma acha para o reforço entusiástico de manter viva a chama da amizade, que deveria ser, afinal, a verdadeira face do desporto-rei.
Nesse meu trabalho tive o prazer de registar um agradecimento a Augusto Ramos Teixeira, de Olhão, e de lhe ofereceu um exemplar.
Ao longo destes anos, e mesmo já depois da sua doença, trocávamos cumprimentos, por via de pessoas amigas que iam a Olhão ou vinham à Covilhã.
E, algo que o ano passado me sensibilizou, foi o facto de após o jogo que se disputou em Olhão, entre o SCC e o SCO, ter recebido no meu escritório, na segunda-feira imediata, um telefonema duma pessoa que me enviava um abraço do amigo Augusto Ramos Teixeira. Nesse célebre domingo de futebol, se abeirara junto de um grupo de serranos que foi ver o jogo e perguntou se eu lá estava. Logo disseram que não mas que me conheciam. Envio de um forte abraço, que agradeci!
Foram facetas da amizade que trouxeram a génese verdadeira do desporto, na aspiração nobre de “mens sana in corpore sano”, mas que já se encontra um pouco desvirtuada, nos dias de hoje. No entanto, não deixa de ser aquele espaço onde todas as classes sociais se encontram, numa linguagem entendida por multidões.
Nesta senda, eu depois viria a conhecer, pessoalmente, alguns elementos do dirigismo olhanense, como Júlio Favinha, e o entusiasta Homem da reviravolta olhanense, José Isidoro Sousa.
Espero vir a conhecer pessoalmente a actual alma deste jornal, Mário Proença, a quem aproveito para apresentar sentidas condolências pelo falecimento de sua sobrinha.
Que o Senhor tenha em paz, junto de Si, o nosso amigo Augusto Ramos Teixeira, e, à sua família, apresento também sentidas condolências.


(In "O Olhanense" de 1/10/2009)

17 de setembro de 2009

AMIZADE E CULTURA ULTRAPASSAM FRONTEIRAS

Pode-se ficar mais brando.
O que não significa passar a ser passivo, ou no consentimento de lhe terem “dado a volta”.
É tão difícil mudar de clube como de convicções.
A exemplaridade dos actos soma mais pontos que a eloquência nas palavras.
Mas é difícil agradar a gregos e a troianos; como seja servir a Deus e ao diabo.
Todos os humanos têm virtudes e defeitos, neste paradoxo envolvente da vida.
E, como exemplo; numa visão na exclusividade dum interesse empresarial, ou vista na forma de um todo, incluindo o humano; assim a medalha pode ser vista no seu verso e reverso.
Talvez os incomodados com um malfadado orador, em sala repleta, tenham perguntado ao ouvido do mais próximo, sobre o que está muito à sua frente e outros lhe tolhem a visão: “Quem é que está a falar, é fulano não é? Eu logo vi que tinha que ser sempre o mesmo gajo a “mandar bocas”...” Do outro lado da “cortina”, numa visão mais inteligente, porque desconhecia o aventureiro, que o vê tão de afoito como de determinado, pergunta: “Disse-me que era o senhor fulano tal, do Interior abandonado, mas predisposto a fazer com que um rato venha parir uma montanha; é desses que eu preciso e conto já consigo, posso?”
Todos quantos rosnavam das suas palavras, na “catedral” improvisada, e apinhada, ao ouvirem o grande Líder, sentiram correr um suor frio sobre as suas costas, de alto a baixo, e, no final, o “afoito” a dissertar, que era objecto de aversão, pela sua conduta rígida, é agora alvo da maior atenção, e querem-lhe dar a conhecer os seus colegas e chefes, numa forçada simpatia.
Da desilusão passou a um encanto. De besta passou a bestial; do “mau da fita” a bom de conveniência.
Isto passa-se com muitos de nós.
Até nos textos que reputamos de interesse geral, alguns “regionais” olham por cima dos “óculos de grande visão”, e silenciam as notícias que lhes forem endereçadas, que deveriam preencher um devido espaço, ao serviço do leitor, sem o qual não tem razão de existir o periódico. Em contraste, surge uma página inteira, a dar oportunidade a figuras que, na mesma data, festejaram Bodas de Ouro de ofício divino, omitindo a outra notícia dum companheiro. Será isto democracia?
Nesta luta truculenta, e quantas vezes obtusa de argumentos, e ao arrepio do mais elementar bom senso, o mais importante não é a nudez forte da verdade, mas sim como dizia o Eça, o manto diáfano da fantasia.
No passado sábado estivemos num almoço-convívio em Manteigas, a convite do amigo covilhanense, José Ascensão Rodrigues, que é como o vinho do Porto – quanto mais velho melhor! Dinâmica na organização, preservador de amizades, cultor de tradições, proporcionador de novas amizades. Manteigas é uma das suas segundas Terras. E ali o amigo só conhece amigos. É a Banda, são os Bombeiros, são outras instituições, em todas preserva a amizade.
Ali se juntaram naturais de Manteigas como da Covilhã, e não só. Foi um convívio em que as “feijocas” fizeram ombrear covilhanenses com naturais de Manteigas, onde não faltou o Presidente da Câmara, a convite particular. Reforçaram-se amizades e geraram-se outras. Foi esta a bênção da Serra da Estrela com o véu do ar puro da montanha. Obrigado José Ascensão Rodrigues e Manuel Lúcio.
A Covilhã esperava-nos para um acto cultural, de grande envergadura, no Museu de Arte e Cultura da Cidade e, por isso, amigo não empata amigo, e lá estivemos. Agora era outro Presidente de Câmara, oficialmente a inaugurar a exposição sobre figuras de arte sacra que a maioria da população desconhecia, e se encontravam na igreja de S. Francisco, numa excelente argumentação do seu autor, Dr. Carlos Madaleno; estudo minucioso para a sua tese de mestrado, culminando com o lançamento do seu livro “Convento de São Francisco da Covilhã – Um olhar através do tempo...”, no Salão Nobre da Câmara Municipal.
Esperemos que as figuras expostas mereçam regressar a uma nova casa – lembrando o Pároco da Conceição, Padre Fernando Brito, a necessidade de serem restauradas e de serem guardadas com alguma vigilância – a que o Presidente da Câmara informou que já havia conversado com o Bispo da Guarda no sentido de ser criado um Museu de Arte Sacra, abrangendo outras figuras distribuídas por diversas paróquias da Cidade, mas que não é fácil.

(In ''Noticias da Covilhã'', de 17/09/2009)

10 de setembro de 2009

EM GOUVEIA, COM O COUCEIRO


(Da esquerda para a direita: - João Nunes, Bento Couceiro, Eduardo Prata e Miguel Saraiva.)


O desporto nasceu com uma aspiração nobre: “mens sana in corpore sano”. No entanto, como o conhecemos, é actualmente um espectáculo encenado por profissionais, mais para ser visto ou reproduzido nas transmissões mediáticas.
A expansão dos espectadores matou o propósito inicial e deu-lhe a condição de maior espectáculo do Planeta.
É também um espaço onde todas as classes sociais se encontram e cada modalidade desportiva é uma linguagem entendida por multidões. Nele estão o aristocrata e o “intocável” em igualdade de condições, ressalvadas as qualidades individuais que a natureza dotou cada um.
Vem isto a propósito de, há já uns bons anos, nos termos envolvido na vertente cultural da área do futebol – o Desporto-Rei.
Mas o “veículo planetário” que é a Internet, veio revolucionar ainda mais toda esta envolvente.
Surgem contactos telefónicos, por e-mail ou pessoais, solicitando informações desta ou daquela figura do Sporting da Covilhã, face a não encontrarem fonte de informação no espaço que deveria existir em qualquer colectividade, com uma biblioteca devidamente organizada, bem como o seu arquivo.
Para a posteridade ficaram figuras do desporto citadino, e temos vindo a recordá-las, mas é a carolice que nos tem trazido muitas alegrias, muitas amizades, algumas desconhecidas; muitos apreços por esse País fora, do Minho ao Algarve, e não só.
Por iniciativa gerada fora dos clubes; já que a preocupação destes é mais a parte financeira, e os resultados, obviamente indissociáveis do barco a flutuar; trouxemos à Cidade figuras do nosso SCC, que deixaram marcas e, se o não fizéssemos, algumas já não vinham a tempo.
Em 28/09/1991 com homenagem às Velhas Glórias do Sporting Clube da Covilhã; depois em 6 de Junho de 1998, aquando das comemorações das Bodas de Diamante, com algumas figuras muito importantes.
Já em 2 de Junho de 2007, aquando dos 50 anos da participação do clube serrano na final da Taça de Portugal, se reuniram algumas delas.
Em 1 de Maio deste ano, um grupo apaniguado criou um blogue sobre a História do SCC que tem dado brado.
E é neste contexto que conseguimos trazer à memória figuras que deram muita alegria à cidade, em domingos de futebol.
Não conseguimos que Bento Couceiro, antigo atleta serrano, que veio do Sporting, dos tempos áureos da antiga Primeira Divisão, por razões várias, estivesse connosco nas datas assinaláveis, já referidas, pelo que a força de vontade levou-nos até Gouveia, e almoçámos com Couceiro.
Recordámos jogos, participações, golos marcados pelo Couceiro.
Proporcionaram-se abraços, pelo telemóvel, dos antigos colegas, Manteigueiro, Coureles, Palmeiro Antunes e Suarez.
Ele que foi uma excelente pedra na defesa do SCC, chegando a ajudar o clube, como treinador, mormente nos juniores.
Em Gouveia, onde se radicou, foi treinador nas épocas de1963 a 1970.
Treinou ali jogadores que haviam acabado os contratos com o SCC, nomeadamente, Maçarico, Nogueira, Batista, Lanzinha, Nicolau, Amílcar, Leite, e o célebre Matateu, do Belenenses.
Aos 77 anos, lá está Bento Couceiro, vivendo os seus dias, numa Terra que o acolheu de bom grado.
Juntou-se a nós o chefe de redacção do Notícias de Gouveia, Paulo Prata, que nos tirou a foto, a qual agradecemos.


(In “Tribuna Desportiva”, de 08/09/2009 e “Notícias da Covilhã”, de 10/09/2009)

3 de setembro de 2009

INTOLERÂNCIA À TOLERÂNCIA

Agosto quente não deu oportunidade a uma fluidez mental para uma crónica menos esforçada.
Numa breve semana de férias, estivemos no norte com o amigo Fernando Pedrosa que serviu para colocar em dia o desenferrujar da língua sobre os tempos passados na Covilhã, que não deixa de recordar. Os dois casais mostraram o rol de emoções duma amizade antiga.
A gripe A continua a ganhar terreno e não vemos grandes preocupações da população, numa passividade a que já nos vamos habituando. Se há cinquenta e dois anos a gripe asiática também nos veio bater à porta (fui um dos atingidos), deveria, previamente, não se consentir, à velocidade com que esta epidemia se desenrola, a tolerância incutida por muitos indiferentes à situação.
O mundo avança vertiginosamente nos meios tecnológicos. Já não toleramos o que chegou a ser inovação nos nossos tempos – os mais de sessenta anos. Vejamos, por exemplo, as páginas das listas telefónicas, onde cabia um país inteiro, substituídas pela Internet e telemóveis; cassetes VHS que revolucionaram o cinema em casa, substituída pela Internet e os downloads; a televisão, quando nem havia comando, surgida em Portugal no ano da gripe asiática, substituída por plasmas e LCD, com imagens de alta definição; a luta entre o papel e o digital, com a crescente digitalização do mundo, alguns suportes mais antigos a serem ameaçados de morte. Não raras vezes o livro e o jornal são dados como mortos; a máquina de escrever, dactilografando ao som das teclas, que chegou a ser a imagem emblemática de alguns escritores, a ser substituída pelo computador; o telefone, sem fio era impossível falar e as cabines telefónicas já quase desapareceram, por oposição à crescente massificação dos telemóveis; bilhete de avião, sem papel não se voava, foi substituído pelo electrónico; tanque da roupa, até se convivia na hora de lavar a roupa à mão. Acabaram os lavadouros públicos. Surgiu a máquina de lavar roupa; disquete, trouxe o primeiro vírus, substituída pelas pens, CD e DVD. Um registo inserido no Diário de Notícias.
E a modernidade, pula e avança. Já não é estranho falar de twitter, facebook, you tube, google, GPS, wikipédia, e-mail; ipphone, playstation.
Nesta silly season, à beira de eleições, continua a ser um país au ralanti. Promessas, muitas promessas. Como nas palavras de Batista Bastos, é preciso haver memória contra o esquecimento.
Conforme refere Francisco Sarsfield Cabral, depois da crise global está a nossa crise. “Começou a recuperação económica mas a recessão deixará profundas cicatrizes”. “Tudo indica que a recuperação económica mundial será difícil, lenta e irregular, e o crédito fácil não voltará tão cedo”. “A nossa crise, que nos tolhe o crescimento económico, nos endivida perante o estrangeiro e nos empobrece, tem pelo menos uma década”. “O fim da crise global, a concretizar-se, não resolver os nossos problemas estruturais”.
Quem não tolerou o record mundial, no atletismo, foi o jamaicano Usain Bolt, cujo feito ficará para a eternidade, ao atingir o patamar do inimitável nos campeonatos mundiais de atletismo.
Não aspiramos a ser assim tão bons. Depois de três décadas após o 25 de Abril, as esperanças de todos vivermos bem estão longe de serem atingidas.
Enquanto houver diferenças abissais nos desideratos de cada um de nós, independentemente do esforço individual ou colectivo, não vamos a lado nenhum.
E a vontade implícita de cada português, no seu trabalho, vai sendo esbatida pelos exemplos que vêm dos próprios governantes, independentemente das cores partidárias.
São sobejamente conhecidos os casos de corrupção, e cada vez mais nos surpreendem, pelo menos aos honestos.
Efectivamente, o País sofre, o País tem os bolsos rotos, mas há muita gentinha com bolsinhas de prata e carteiras de excelente couro para guardar os muitos cartões bancários.
Por cá também vamos ter eleições. Não vamos discuti-las, tanto mais que, pelo trabalho feito, Carlos Pinto já ganhou as eleições. Nem precisa de cartazes.
A cidade pinga de obras a inaugurar.
Mas também há tolerâncias intoleráveis. Vejamos os almoços a um euro que o Município despende, há vários meses, com os portadores do cartão social do idoso. Acreditamos que não estaria no espírito da edilidade a sua extensão global, independentemente do rendimento de cada um, mas tão só aos mais necessitados, e, se foi essa a intenção, vai o nosso apreço. Mas sabemos que não é assim, e, pior que isso, é ver todos os dias, antes das dez horas, um grupo de utilizadores, sentados no muro em frente à ADC, não retirando pé, para serem os primeiros a ser servidos.
Isto extravasa a tolerância e, de intolerância, chega antes à ganância.

(In Notícias da Covilhã de 03/09/2009)

30 de julho de 2009

A VOCAÇÃO E A CAUSA – 50 ANOS




Corria o ano da graça de mil novecentos e cinquenta e nove e eu, na minha adolescência, passava o tempo pós escolar e das férias, na antiga Biblioteca Municipal, ao Jardim, onde meu pai se encarregava dos livros e dos jornais.
Na vinda e no regresso para casa, passávamos forçosamente pelas traseiras da Igreja de S. Francisco onde, no largo passeio, se viam, por vezes, vários seminaristas e pessoas novas que frequentavam aquela Igreja.
Um dia vimos um jovem, esguio, de batina preta, cheia de botões, de alto a baixo, como era usual na altura, e pensávamos que se trataria de mais um seminarista de teologia.
Mas como o víamos rezar o breviário, viemos a saber pelo merceeiro José Soares Cruto; do outro lado da rua – a Combatentes da Grande Guerra – que era visitado por alguns sacerdotes, como o Padre Nabais, para falarem também sobre o futebol, de que muito gostavam; e outros nomes que não menciono, por traição da memória; que se tratava do novo coadjutor do pároco da Conceição, o então Padre José Andrade.
Soube-se então que o novel padre dava pelo nome de FERNANDO BRITO DOS SANTOS, natural de Loriga; estávamos no mês de Setembro, daquele ano. Havia sido ordenado padre no mês anterior, mais precisamente em 2 de Agosto, na Sé da Guarda, ele o último de onze novos sacerdotes, ordenados naquele mesmo ano, o derradeiro da década de cinquenta do século passado, e que começaria em 14 de Março, com a ordenação de um novo padre do concelho da Covilhã – Sobral de S. Miguel, e também da Torre, do Sabugal; seguir-se-iam outros, da Rapoula do Côa, Santo Estêvão, Malhada Sorda, Bendada, Aranhas, Janeiro de Cima, Aldeia do Bispo, do concelho de Penamacor (dois), e, finalmente, o Homem de Loriga.
De imediato vimo-lo um sacerdote irrequieto, persistente, quão de humilde até aos dias de hoje, duma tenacidade que nem pensava sequer no seu desgaste, ao longo dos tempos, que o viria a afectar na sua saúde.
O Centro Cultural e Social da Covilhã abria as suas portas e instalou-se também aí o jornal Notícias da Covilhã (NC), propriedade da Diocese da Guarda, e é também aí que o Padre Fernando Brito irá encontrar o seu poiso e percorrer incansavelmente aquelas ruas de calçada em pedra, subidas e estreitas, até à Rua de Santa Maria (hoje Rua do Jornal Notícias da Covilhã).
Dedica-se de alma e coração aos jovens, e não só, numa acção profícua, junto da Acção Católica, onde mais de três décadas foi Assistente Diocesano, impregnando uma forte dinâmica na JOC – Juventude Operária Católica, em tempos difíceis que incomodavam a ditadura salazarista e mesmo marcelista.
E o lema desta juventude católica –“Nós não queremos a revolução, nós somos a própria revolução” – iria ser a luz forte que iluminaria muitos rapazes e raparigas, alegres, numa vontade inquebrantável, de ajudar a mudar o mundo do trabalho, na cristandade, quais Carrolas, Chiquitas; e outros quejandos, que o digam o José Manuel Duarte e a Alexandrina, e que outros nomes, omissos por exigências do espaço deste jornal, também foram merecedores da “bênção” do Padre Fernando.
Depois, dividido entre a Redacção do NC e outras multifacetadas funções, nomeadamente a sua intensa acção paroquial, levou-o a uma sobrecarga de trabalho, que ainda mantém, mas sem um qualquer enfado, antes na envolvente da palavra “sim” que trás sempre na mente.
Sim, porque ele é o “S. Vicente de Paulo covilhanense”, como fôra, durante trinta e cinco anos, o “Cardijn covilhanense, de coração”; sim, porque está sempre nos trilhos mais difíceis onde outros não querem ir; sim, porque é o apaziguador de conflitos, sempre no anonimato; sim, porque ele é uma estrela nas peregrinações que se transformam numa festa.
Fica muito por dizer deste Covilhanense de coração, de excessiva humildade, e que, por isso, muito do que faz não chega ao domínio público.
Se alguém da Cidade merece uma sentida homenagem pública, de há muito, este Homem é credor do respeito citadino, e diocesano.


(In “DIÁRIO XXI”, “GAZETA DO INTERIOR” e “JORNAL DE SANTA MARINHA”, digital, (Quinzenário do Concelho de Seia), de 29 de Julho; “NOTÍCIAS DA COVILHÔ e “NOTÍCIAS DE GOUVEIA”, de 30 de Julho e Jornal de Seia “Porta da Estrela”, de 30 de Julho, em edição papel e electrónica)