13 de fevereiro de 2013

GENTES D’OUTRORA – VIZINHOS AMIGOS


É tal o fluxo de informação, proveniente dum acumular de centenas de jornais e revistas, algumas já extintas, como a “Flama”; milhares de “recortes” que fazem as delícias das minhas memórias, para além das que ainda se retêm em mim; que me leva a alguma dificuldade no tema de opção para uma crónica, ou um pequeno escrito.
Se a notícia em papel deixar de existir, face à cada vez maior ameaça on line, já não poderei sentir o cheiro da tinta do jornal, nem o apalpar das suas páginas, bem como a simpatia de quem diariamente me entrega o mesmo, quer seja a Luísa ou o Sr. Neves, quer, aos sábados e domingos, no “Repolho”, aquele maravilhoso pessoal, onde, por vezes, em tempo de forte temporal, até um habitual cliente me socorre a evitar-me duma molhadela intempestiva. Sou entretanto um otimista – o jornal-papel jamais acabará!
Mas se o tema que dou ao texto se intitula de vizinhança de outros tempos, percorro um caminho desde a infância, iniciada lá para a zona altaneira da Pousadinha, da então freguesia de Aldeia do Carvalho, hoje Vila, tendo em conta não todos, mas os vizinhos mais marcantes.
Foi no início dos anos cinquenta do século passado que, naquele local, o vizinho Mário, filho do João Borralho, um jovem que ainda não tinha ido “às sortes”, o víamos passar no regresso do seu emprego, de lancheira na mão, e, sorridentemente, nos cumprimentava. Certo dia nos contentou com uma caixa grande de fósforos, cheia de grilos. Tinha sido um atrevido pedido meu e de um irmão. Mas, pouco tempo depois, um destino fatal lhe roubaria a vida de jovem feliz, devido a uma queda, num lajeado perto da porta, quando, de noite, transportava às costas um feixe de lenha. Sem iluminação elétrica naqueles tempos, só se ouviam gritos. À luz de archotes, naquela noite cerrada, um formigueiro de gente, daquela zona, quase em socalcos, se dirigia para o local do acidente. Outros tempos! Havia depois os vizinhos Mário Eufrásio, e as suas filhas: Lucinda, Maria José e Maria dos Anjos.
Na Covilhã, onde passei a morar, a partir dos seis anos, é em duas ruas que conheci outros vizinhos. No Beco das Lajes, a Santa Maria, onde estive pouco mais de cinco meses, foram a D. Ritinha e a família Melchior, principalmente as filhas do casal: Adelaide, Antonieta, Otília e Estrela, sendo certo que as três últimas ainda hoje mantêm memórias desses tempos de antigos vizinhos, não obstante a distância do tempo. É obra!
Mas foi na Rua Vasco da Gama, junto à Escola Industrial, onde passei o tempo de saudade de uma outra boa vizinhança. Para além do casal Matos (Sr. Manuel e D. Isaura), já falecidos, e o filho Alberto Matos e mulher Aninha, foi na pessoa da D. Patrocínia Velozo, e seu sobrinho João Madeira, este que foi antigo Presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria (ambos já falecidos), que sobressaíram na amizade entre pessoas que viveram perto uns dos outros e, algumas vezes, comungando das mesmas alegrias e tristezas. Aqui vivi durante o período de estudos até ao serviço militar e conheci os primeiros amigos para brincar e jogar com a bola de farrapos, no meio da rua, só parando quando passava a polícia. Outros tempos… O Quim Rainha, o Zé Fazenda, o Olívio, o Carlos, o João e o Zé Carrega. Éramos seis irmãos (três rapazes e três raparigas). Das moças vizinhas, as que agora vêm à memória eram a Carminha Cunha, a Hermínia e a Maria José Duarte.
A minha saudosa vizinha, D. Patrocínia Velozo, suportava a barulheira que os seis irmãos, no andar superior, ainda crianças, lhe ocasionavam. Lá nos levava várias revistas que o sobrinho lia – “O Século Ilustrado”, já que o jornal “A Bola” tinha ainda o formato grande. Mais tarde, andava eu no Ciclo Preparatório, era quem escrevia as cartas da D. Patrocínia, dirigidas para a sua irmã que vivia no Estoril e cujo marido trabalhava no casino. Quando lá ia passar férias, trazia-nos bolas de ténis, com que eu me deliciava a jogar nos intervalos das aulas da Escola Industrial, com os colegas, no campo triangular e areado, à altura. Quando chegava a casa com as solas dos sapatos gastas, era uma arrelia em minha casa.
No prédio em frente, mais abaixo, onde depois passou a residir a D. Patrocínia, imóvel de sua propriedade, morava o casal Ranito (João Ranito e D. Gabriela), sendo que o filho António Ranito foi meu colega na Escola Industrial. Todos já faleceram mas a D. Gabriela Ranito, também antiga vizinha amiga, viria a deixar o mundo dos vivos já com idade avançada, e, quis o destino, na mesma semana em que tal ocorreu também a minha Mãe. No dia em que D. Gabriela faleceu, estava na Igreja do Rodrigo a perguntar por mim, a minha Mulher, para me apresentar as sentidas condolências, quando, num ápice, caiu para o lado e partiu para o outro destino da vida.

(In "Notícias da Covilhã", de 13.02.2013)

23 de janeiro de 2013

ESTE ANO QUE SE SEGUE


“Isto é que vai uma crise... Este País é um colosso, tá tudo grosso, tá tudo grosso…” Este refrão cantava Ivone Silva, emparelhando com Camilo de Oliveira, num dos seus números de revista, já lá vão uns anos. E continua atual! “Ai Agostinho, ai Agostinha, que rico vinho, vai uma pinguinha. Este País perdeu o tino, a dar ao fino, a dar ao fino”.
Para quando é chegada a altura de soltarmos o grito de Ipiranga, ainda que numa de nostalgia dum passado longínquo? Da incompetência ao descaramento, de tudo vai um pouco, santo Deus! Até já os angolanos gozam no ridículo de uma licenciatura, caricata, dum ministro português (as notícias de escárnio inserem-se no Jornal de Angola, no período de veraneio de 2012, sob a forma humorística…).
Não somos senhores da nossa independência. Portugal vê-se reduzido a uma espécie de protetorado e, por isso, sonhamos com o grito de D. Pedro IV, nesta triste situação para um país que se orgulha de ter aberto as portas para o mundo.
Estes nossos atuais governantes, assim como os de um passado recente, fazem lembrar o célebre assalto ao comboio-correio, ocorrido há cinquenta anos, na ligação de Glasgow para Londres, tal a forma como assaltam os bolsos de todos nós, quer sejamos da classe média, remediados ou pobres.
E, por isso, é bom lembrar que os portugueses já tiveram ocasiões de se vingarem duma forma audaz e de sentido patriótico. Em 6 de dezembro de 1383 um grupo de nobres, encabeçados por D. João, mestre de Aviz, terminaram com a situação que se vivia no País, pois a paciência contra aqueles que pretendiam vender Portugal a Castela estava esgotada. Vivemos de facto num estado de direito, mas também D. Leonor Teles se considerava legítima rainha e os heróis da primeira revolução portuguesa não pensaram assim. Afirmavam que o poder da rainha D. Leonor era ilegítimo porque não defendia o interesse nacional, efetuando uma utilização abusiva do poder. É o que se passa atualmente, com uma caterva de corruptos e figurões dotados de uma chico-espertinice portuguesa congénita, a sorrirem-se para a ineficácia dos nossos tribunais.
Mas podemo-nos também lembrar do 1 de dezembro de 1640, decorridos mais de dois séculos e meio daquela primeira revolução, em que os quarenta conjurados acabaram com o domínio filipino de seis décadas da “troika” espanhola daquela tempo.
Este País não está a ser para todos, mas, todos, os de bom senso, devem exigir que o sol estenda os seus raios para todos, sem exceção; e, as chuvas, sirvam para matar a sede também de todos.
Já um dia Eduardo Prado Coelho afirmava que “pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais que o euro. Um país onde ficar rico de noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais”.
Neste 2013 vamos continuar a ter um Presente sacrificado em nome de um Futuro que nunca mais chegará, este Futuro que mais não é que uma esperança, permanentemente diluída na dureza da realidade.
Mas, todos nós, os que neste momento sofremos as vicissitudes deste presente envenenado do Presente, que os atuais governantes nos oferecem, temos tanto direito a ser felizes quanto as gerações vindouras! Por isso, a nossa raiva é grande, face a esta incomensurável falta de respeito de tantos meninos que nos desgovernam. Pois, segundo E.M. Forster, “A tolerância é uma virtude muito pouco interessante. É aborrecida. Ao contrário do amor teve sempre má publicidade. É negativa. Significa apenas aturar os outros e ser capaz de aguentar as coisas”.
Se, problemas idênticos já se verificavam no século XIX, com situações muito atuais reclamadas, à época, por Eça de Queirós, constatamos, assim, a incapacidade dos portugueses de se saberem auto governar. Isto também numa altura desta grave crise em que, se a zona euro voltar a espirrar, o mundo constipa-se. Os países emergentes já abanam o poder dos gigantes americanos.
O maior problema desta crise é que nunca, na história moderna, tivemos tanto endividamento quanto aquele que hoje existe, com números estarrecedores (120% do PIB).
Com os olhos bem abertos, firmes como rochas, e exigentes, que mais não seja, pelos valores da vida, procuremos dar um rumo de encontrar a luz ao fundo do túnel, neste ano vigente, já que a luz vermelha se encontra ainda acesa no semáforo das nossas vidas de cidadãos portugueses. 

(In "Notícias da Covilhâ", de 23.01.2013)

3 de janeiro de 2013

A LONGEVIDADE DE UMA CONFERÊNCIA VICENTINA

Parece que ainda há pouco tempo celebrámos, com simplicidade, mas com muita fé, o centenário da Conferência de S. Vicente de Paulo, da Paróquia da Conceição, da Covilhã, e já estamos a caminho de mais uma década.
Efetivamente, se são momentos difíceis os que hoje atravessamos, numa situação generalizada de crise, não só financeira mas também de valores, os tempos em que foi fundada esta Conferência, na já longínqua 5ª Feira de 19 de março de 1903, também não eram melhores.
Jantar de Natal do Conselho de Zona da Covilhã.
Vinha-se do crepúsculo do século XVIII, com o predomínio de um anticlericalismo que grassava pela Europa e bafejava já Portugal, para depois engrossar num ódio pela religião católica, nos primeiros anos da República que se haveria de implantar em Portugal, volvidos sete anos.
No ano em que vamos lembrar estas onze décadas da nossa Conferência, será também o mesmo em que todo o Mundo católico irá comemorar dois séculos do nascimento do fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, o italiano beato Antoine Frédéric Ozanam. Ele, que com mais seis jovens universitários, fundou em maio de 1833 a Conferência da Caridade, a qual, a partir de 1835, passaria a ter a designação atual.
O ano 2013 vem rico de efemérides na vertente da Caridade, se atentarmos que também se devem ter em conta os 180 anos da criação da primeira Conferência, em França; e ainda os 160 anos da morte de Frédéric Ozanam, que ocorreu em 8 de setembro de 1853.
A Covilhã sempre teve um grande espírito caritativo, sendo de notar que já completaram o seu centenário mais algumas Conferências de S. Vicente de Paulo da Cidade, mas sabe-se que a da Conceição jamais teve interrupção no seu percurso de bem-fazer ao próximo. Atualmente é a que assiste maior número de necessitados, nas várias vertentes de pobreza.
Esta Conferência (da Paróquia da Conceição) embora não tenha sido das primeiras a ser criada em Portugal, já que surgiu volvidos 44 anos da primeira Conferência no nosso País (mais propriamente na Igreja de São Luís de França, em Lisboa, no ano de 1859), é, no entanto, das mais antigas, se tomarmos em linha de conta que a Sociedade de São Vicente de Paulo já está espalhada por 900 grupos paroquiais em Portugal onde colaboram 15 mil pessoas. Encontra-se ainda ramificada por quase todos os cantos do Planeta.
Jantar de Natal, do Conselho de Zona da Covilhã, com o fadista Luís Pinto.
Foi, pois, numa altura também muito difícil, de grande pobreza, que a Covilhã viu criada esta Conferência, há quase 110 anos, exatamente no ano em que viria a falecer o Papa Leão XIII, com 93 anos, a 20 de junho de 1903; e viu ser eleito Pio X que viria a ser canonizado. E, para servir de exemplo, na pobreza que grassava pelo Mundo dessa época, ele, Pio X, de seu nome José Sarto, nascido no seio de uma família necessitada, era tão pobre que ele, enquanto criança, se deslocava a pé para a escola, que distava sete quilómetros, levando os tamancos pendurados às costas, para os poupar, calçando-os só á chegada.
Em Portugal, vislumbrava-se o fim da monarquia, então no tempo de D. Carlos, e, na Covilhã, em 1903 os dias não eram melhores, pois a edilidade confrontava-se com dificuldades de liderança da Câmara, substituindo-se com frequência as figuras do Dr. José Pereira Barata, Dr. Alberto Deodato da Costa Ratto e Dr. João Nave Catalão.
Não vamos falar das obras assistenciais e trabalho fecundo que esta Conferência efetuou, e continua a prestar nas inúmeras situações de apoio aos necessitados, nas várias vertentes da pobreza, porque já são do conhecimento público.
Restou-nos, desta vez, tão só situar a longevidade da Conferência, historiando um pouco dos tempos percorridos.
Para além do trabalho a favor dos necessitados, ao longo destes 110 anos ininterruptos, também é bom ter em conta que muitas foram as pessoas (os confrades, de ambos os sexos) que se voluntariaram em prol deste serviço, algumas vezes com sacrifício, e vários assistentes eclesiásticos, sem os quais a Conferência não poderia existir.
Infelizmente, quando nos encontramos numa evolução, a todos os níveis, que não se compara como in illo tempore, vamos ter que sentir, no palpitar dos nossos corações, que o tempo incómodo da pobreza não vai parar, e, antes pelo contrário, irá sobejar de uma maior agressividade na mesma, por estes anos fora.

(In "Notícias da Covilhã", de 03.01.2013)

12 de dezembro de 2012

OUTONO NA NOSSA CIDADE


Vamos caminhando pelas estações da nossa vida, repartida em quatro estados de alma, conforme podemos, ou nos deixam andar, nesta simbiose de temperamento.

E neste movimento de translação das nossas vidas, entre Equinócios e Solstícios, vai o tempo velozmente passando para o cumprimento das responsabilidades, mas vagarosamente certo, como as longas noites invernosas, na resolução de problemas prementes.

A esperança de um dia permanecer um sorriso de felicidade, proveniente daquela aura de um tempo de juventude das Primaveras da vida, está sendo envolvida por um estado de alma de grande invernia.

E, como nós, viventes do “antes” e do “depois”; de tempos do opressor, trocados pela cavalaria de salvação do nosso País, que temos a dizer, com o nosso estado de alma, por essas memórias passadas da revolução?

Se dantes tínhamos tiranos, hoje existem déspotas mesmo desencapotados, por todo o lado, numa nítida encruzilhada de regresso ao “antes”. Homens sem vergonha, duma desonestidade mental, alguns dos quais deveriam permutar o emblema de Portugal, que possuem na lapela do casaco, por outro concebido em exclusivo com a palavra “mentiroso”.

Mesmo assim, enquanto ex-estadistas, apregoadores da moral e dos bons costumes, continuam a não prescindir de pessoal, gracioso, ao seu serviço privado, mas com a despesa salarial a cargo do País, num verdadeiro mau exemplo; outros, homens e mulheres do trabalho, curvados sob o peso das incertezas dum imaginável futuro, avançam sob o sol escaldante dos verões das suas vidas e, vão labutando, labutando, para que os portões das empresas dos seus ofícios se mantenham abertos.

Do estado de alma de uma esperança, ainda que ténue, da primavera da vida, ressalta um estado de alma penalizado por aquela expressão na sua intimidade – “O que é que eu fiz para não poder ter os méritos de um emprego?” - para, noutro estado de alma, a perseverança ser a grande arma apontada às contrariedades surgidas por um País ocupado.

Outro estado de alma é já o conformismo doloroso de muitos dos pensionistas, abalados pela sagaz ameaça duma tirania financeira, na redução das magras pensões, depois de durante muitas Estações, dos muitos anos, terem descontado percentagens salariais, produto das suas algibeiras, para a garantia duma pensão futura.

E que dizer do verdadeiro estado de alma daquele formigueiro de gente, alguns de cara tapada, ou voltados de costas, ou de lado para a parede, a caminho do Banco Alimentar, Misericórdias, Conferências de S. Vicente de Paulo, Cáritas, Lares e outras instituições de solidariedade social?

E porque já nos encontramos no outono da vida, deu-nos vontade; neste caminhar pelas ruas da cidade universitária, ex-líbris de laneira, que foi; de apreciar as belezas outonais da mesma, no colorido das folhas caídas, mistura de uma apreciação das obras que deram outro rosto à Cidade, e outras formas de estar, mas também (aquilo que dantes não nos era possível observar), todo um conjunto de muitas ruínas que entristecem a Cidade.

Mas, entre tristes e ledas manhãs, tristes e ledas tardes ou madrugadas, vamos assistindo a burburinhos pela Cidade; por vias do que vem no papel-notícia, nos falantes em tertúlias ou no largo do Pelourinho, para já não falar nos cafés da urbe; sobre politiqueiros e politiquices de ocasião, entre arrazoados de uns; e candidatos em espera, de outros.

No meio disto tudo, respiramos dum certo ar de enfado, neste Equinócio do outono, na compreensão de que, efetivamente, o “tacho” é bom, é barato e dá milhões…

E, mais não dizemos, já a caminho do Solstício de dezembro, para evitar confusões…
 
 
In “Notícias da Covilhã” de 12.12.2012; e no “Combatente da Estrela” do mês de dezembro

31 de outubro de 2012

ESTAMOS FEITOS!

Por mais que não desejemos, não nos livramos do tédio de temas, quase rituais, dos dias de hoje, onde a dona austeridade assentou trono real.
A vassalagem à mesma é de tal forma imposta pelos cavaleiros da triste figura que este povo, que foi e é de homens livres, quase que se sente de escravos, no purgatório dum rectangulozinho do Planeta, à beira-mar plantado. Povo que mais não terá que rebentar as correias férreas que a todos prende.
Mas não são precisas mais revoluções porque o povo, afinal, ele é já a própria revolução!
Então como se compreende que, após aquele “enorme” acontecimento que floriu, de cravos vermelhos, nas vestes dos nossos contentamentos; há quase quatro décadas, libertados de uma outra escravidão, de quase meio século; venha a surgir, entre sonhos e a realidade, um outro “enorme” evento, com o anúncio de sacrifícios e impostos, num cadeado duma configurada escravatura?
Os conhecimentos e as informações que nos chegam, nos dias de hoje, através das várias formas e meios de comunicação, não deixa de nos trazer perplexidades na forma de agir, para muitos; de trabalhar, para vários; na forma de como retaliar, para tantos; e, para outros, como fazer parar.
Agir contra as “enormes” pensões, salários, benesses e outros “direitos adquiridos” duma caterva de figurões: governantes, ex-governantes, banqueiros e ex-banqueiros, e muitos dos bem-falantes das televisões, incluindo jornalistas, que se deviam envergonhar de falar no povo e pelo povo, esse mesmo que ajudaram a amordaçar. Porque não impor um teto salarial, como na Suíça, e converter em impostos o remanescente?
Trabalhar com dignidade e apego sabendo que, na repartição de sacrifícios há, de facto, equidade.
Retaliar contra todos os que usam e abusam de subterfúgios para provocar fugas à justiça, morosidade nos julgamentos, mentiras com sucesso na vida política ou profissional.
Fazer parar esta onda de incompetentes, corruptos e novos-ricos. É assim tão difícil? Não se pára esta avalanche porque todos, ou quase todos, têm telhados de vidro.
E, quando já estão retirados da vida política ou das páginas dos jornais, lá surgem, de quando em vez, nas memórias, de que um dia foram reconhecidos como homens da corrupção encapotada, das fugas à justiça, do safarem-se, vivendo no firmamento.
Nesta pobre democracia, é altura de parar para pensar. No estado a que as coisas chegaram, certamente não irá haver outra oportunidade, ainda que pateticamente o Cardeal Patriarca de Lisboa diga que “não se resolve nada com grandes manifestações nem vindo para a rua a protestar”. Lembre-se, D. José Policarpo, que o Padre Américo, de quem se comemoram 125 anos do seu nascimento, dizia que não é possível pregar o Evangelho a barrigas vazias.
Neste país deprimido e com medo, numa autêntica guerra-fria de bancarrota, porque não levar à justiça, mas duma forma célere, todos quantos não souberam governar e nos trouxeram estas situações mórbidas, e dos inevitáveis sacrifícios, deste jaez? Desde Cavaco Silva, um dos culpados, a Durão Barroso (o fugitivo), Santana Lopes, Sócrates, Passos e Portas, entre outros! E não deixar escapar os turistas da política que, mesmo assim, por aí vagueiam, como é o caso peculiar de Dias Loureiro, para não falar de outros tantos, do domínio público.
Como é possível consentirmos em tanto descaramento? Somos, de facto, um País de brandos costumes, até quando? Sim, porque quando “o melhor povo do mundo” chama “gatuno” ao autor daquelas palavras, talvez seja mesmo melhor pensar duas ou três vezes.
Se seguíssemos o exemplo do General Ramalho Eanes que rejeitou vários privilégios a que tinha direito, certamente este País hoje falaria de outra maneira, mais feliz. E também não é o homem que muitos aplaudiram de “Soares é fixe” que tem méritos de exemplaridade.
Começamos a ser pobres em tudo, mesmo em opções na hora de eleger. Até fomos buscar uma equipa governativa da segunda divisão, treinada por um “mister” dos regionais!... Com um árbitro da troika a mostrar cartões amarelos e encarnados a torto e a direito. Assim, não vamos lá! Depois do “monstro” surgiu o “pântano”, daí um outro estigma – “a tanga”, e, agora “estamos tesos”, entre umas badaladas de “cigarras” e “formigas”. Contra uma equipa europeia para onde foram transferidos homens que ganhavam cá mais que os seus congéneres americanos; e, como reguladores, estiveram como o ceguinho; foi o descalabro bancário, sobejamente conhecido. Lá, numa porção desta Europa, de países do norte contra os do sul, são uns dos maiores da competência financeira. Até onde vamos?!
Precisamos de um “governo de salvação nacional de iniciativa presidencial”.
Mas, uma notícia poderá ser a esperança dos portugueses. O índice de produção do tomate em Portugal, por hectare, é o segundo melhor do Mundo, superado apenas pelo Estado norte-americano da Califórnia. A indústria transformadora de tomate exporta para 42 países e Portugal é, segundo a Associação de Industriais, o quinto maior exportador mundial, num setor que será responsável por 6500 postos de trabalho, diretos e indiretos. É caso para dizer: Senhores dos Governos de Portugal e da União Europeia, nós ainda temos tomates! 
 
(In Notícias da Covilhã, de 31 de Outubro de 2012)

20 de outubro de 2012

VERDADES INSOFISMÁVEIS

Pertenço a um pequeno número de vivos que integrou as fileiras da Conferência de S. Vicente de Paulo, pela mão de meu pai, conjuntamente com um irmão mais novo, na paróquia de S. Pedro da Covilhã, nos finais da década de cinquenta do século passado.
Sairia com a chamada para o serviço militar, então nos finais da década seguinte. Mas as atividades profissionais, o casamento e os filhos, para além de ter ido residir para outro concelho, e as dificuldades próprias duma vida stressante, levaram-me a um longo interregno fora desta vida de grande solidariedade; quiçá de alguma passividade com o mundo de dificuldades do meu próximo. Voltei há uns anos a esta instituição de grandiosíssimo mérito, por influência de confrades amigos, agora na paróquia da Conceição, da cidade da Covilhã; desta vez com minha mulher e por onde também já passou o meu filho e a nora.
O preâmbulo deste meu texto serve tão só para memorizar quão longos têm sido os caminhos das necessidades básicas de muita gente, cada vez mais com o sofrimento a trazer novidades, entre as quais a pobreza envergonhada, e não só, vertentes desta mesma pobreza que outrora não se verificavam.
Não é estranho para ninguém o que escrevo, pois de casos mais inverosímeis está o País cheio, onde, não fossem as ações das instituições privadas de solidariedade, como são as Conferências Vicentinas e o Banco Alimentar, esta Terra de Cristo já pertenceria a um terceiro mundo.
Num verdadeiro humanismo – aquilo que tantas vezes falta aos nossos governantes -  alguns dos Homens e Mulheres da solidariedade lançam-se num verdadeiro “Grito do Ipiranga”, na tentativa de encontrar soluções mínimas para resolver casos graves de saúde e emprego para uma figura que se chama “Ser Humano”, e, para quem escrevo, não é estranho o que, de formas heróicas, muitos se envolvem, pondo em risco a sua própria saúde e a dos seus que o rodeiam.
Dois casos verídicos se passaram, na exemplaridade de muitos outros, de forte vontade em ajudar o seu semelhante, numa das Conferências de S. Vicente de Paulo desta Cidade da Covilhã.
Para que um trabalhador precário se conseguisse deslocar para fora da cidade, na apanha de fruta, um destes homens de boa vontade, durante vários dias se deslocava ao Pelourinho, às cinco horas da manhã, para levar o trabalhador, graciosamente, para o local onde pudesse minimizar as suas frágeis economias familiares.
Outro dos homens de boa vontade, e sua esposa, conhecedores de um reformado, ainda não idoso, que vivia sozinho, abandonado, entregue à sua sorte, conseguiram ir a sua casa dar-lhe as refeições, de conta dos mesmos, o qual, muito fragilizado, já quase não engolia. Levaram-no a consultas hospitalares, no carro do casal, e a uma última na qual foi detetado encontrar-se gravemente doente, doença de morte, que viria a surgir. O homem de boa vontade, triste pelo acontecido a um ser humano mas paradoxalmente ledo pela sua caridade, intrinsecamente sentida, quando se dirige para o seu automóvel, à porta do hospital, toca o telemóvel, com o aviso do interior do hospital para que se dirigisse ao Centro Médico no sentido de ir fazer uma despistagem, pois o doente, que entretanto falecera, estava tuberculoso.
Anda agora este amigo do próximo envolto em preocupações, e seus familiares, até que todos os sintomas sejam debelados.
Destes atos de coragem, de verdadeiro amor e dedicação extrema a quem sofre, no corpo e no espírito, passam ao lado das preocupações dos nossos governantes.
Estes, são muitos dos heróis desconhecidos dos nossos tempos.
 
(In Notícias da Covilhã de 17.10.2012 e no Jornal Olhanense de 15.10.2012)