12 de junho de 2013

EXAMES

Este substantivo teve sempre incidência na vida dos humanos, nas várias vertentes desta palavra.
Vou reportar-me só ao que está em voga, ou seja, a prova que teve por objetivo testar conhecimentos ou aptidões e, neste contexto, ao frenesi com que os putos de hoje se viram envolvidos nos exames do 4º. Ano, a antiga 4.ª classe.
Não defendendo aqui a posição, quer dos pais quer dos professores, que veio a lume na comunicação social, tão-só me parece estranha a não preparação da disposição das crianças para um ato na vida de cada uma, não existindo motivos aparentes para as mesmas se enervarem, chorarem ou ficarem com indisposições estomacais, conforme foi contado.
Tratou-se duma prova de aferição, com a designação de exame, valendo apenas uma percentagem da nota final, em Português e em Matemática.
Na década de cinquenta do século passado, da minha era, os exames, esses começavam logo na 3.ª classe, hoje 3.º ano, e, ou se ficava aprovado, ou reprovado. E, que me recorde, não havia os burburinhos que se ouviram este ano, no retomar dos exames de outrora, então numa altura de mais dificuldades genéricas que nos dias de hoje. Os apoios estatais contavam-se pelos dedos. No ano seguinte era o exame da 4.ª classe, hoje 4.º ano, e, no óbvio, a existência de algum nervosismo passageiro, como também a ansiedade, estados que se iam dissipando com o decorrer dos exames.
Eram feitos na principal escola da sede do Concelho, que, ao tempo, na Covilhã, era a já desaparecida “Escola Central”, onde se encontrava a Direção Escolar.
Era um mundo de pequenada, quase todos de fato novo, ou muito bem arranjados, como se fossem para uma festa. E, para a escrita, uma caneta de tinta permanente e não uma qualquer esferográfica.
Sorrisos entre os colegas, na maioria acompanhados pelos pais e professores, vindo muitos das freguesias rurais, algumas bastante distantes da sede concelho, como Cebola (hoje São Jorge da Beira) e Sobral de Casegas (hoje Sobral de S. Miguel), para, mais perto se situarem Unhais da Serra, Paul e Tortosendo, pela zona sul; ou Verdelhos, Sarzedo ou Vale Formoso, e, mais perto, Orjais, Teixoso, pela zona norte.
Duravam vários dias, já que eram centenas de alunos de todo o concelho. Havia a prova escrita, baseada em toda a matéria dada ao longo do ano e não só de português e de matemática (aritmética e geometria como se designava), incluindo desenho à vista (geralmente era o de uma bilha de barro), ciências, redação, e um ditado, cujos erros podiam fazer reprovar; e, depois, num outro dia a designar, a prova oral, sobre português, história, geografia e ciências, como também aritmética e geometria.
Os exames de admissão para acesso ao ensino liceal ou técnico (para quem desejasse prosseguir), eram efetuados no Liceu ou na Escola Técnica, pelos professores do secundário onde, por vezes, porque mais evoluídos que do ensino primário, hoje designado básico, viriam a surgir perguntas e provas que dificultavam enormemente os alunos. Aqui, sim, era o fervilhar de emoções, entre o passar no exame ou “apanhar uma raposa”. Eram, ao tempo, tema obrigatório de conversa por todo o lado, e índice revelador de mobilização da opinião pública com os jornais diários a dedicarem-lhe a publicação dos textos dos pontos escritos e das respetivas soluções.
Depois, no final do Ciclo Preparatório, novamente outro exame e, se seguida, até conclusão dos cursos, conforme os mesmos, eram os exames (de prova escrita e oral), a cada uma das muitas disciplinas, com grande importância o Português, Francês e Inglês. Terminava com o Exame de Aptidão Profissional para os Cursos Comerciais.
Nessa altura ainda não tinham nascido as calculadoras pelo que a tabuada tinha que estar muito bem sabida.
Também ainda não tinha surgido o choque tecnológico da televisão, que iniciou para quase todo o País, a preto e branco, em março de 1957. Os aparelhos eram caros e nem todos tinham possibilidades de os adquirir. E a Internet estava a léguas de distância no tempo, nem sequer se sabia o que era. Não havia a agitação extra na altura dos exames com greves anunciadas. E os tempos não eram de fartura mas de míngua. Não havia Tratados de Bolonha, mas “tratados” os estudos como devia ser.
Com tanta falta de meios tecnológicos, meios esses que hoje existem e são do acesso a todos os jovens, aprendia-se, e o saber não era uma miragem. Hoje, que havemos de dizer com o que se deteta no nosso País, com provas, exames e licenciaturas a concluírem-se aos domingos, e num só ano, para uns quantos, bafejo de amigos, escumalha de chico-espertos? A resposta é tão simples como aquele ato indecoroso que se chama vergonha.

  (In "Notícias da Covilhã", de 12.06.2013)

25 de maio de 2013

A GÉNESE DA“APAE CAMPOS MELO” E OS SEUS FUNDADORES

A Covilhã integra o concelho com o maior número de agentes culturais do distrito de Castelo Branco e um dos maiores do País, neste âmbito.
Vou falar duma associação cultural e recreativa, sedeada na Covilhã, no coração da cidade, que foi a primeira, do género, a ser criada em Portugal, segundo as palavras do então Ministro da Educação, Augusto Seabra, já falecido. Isto porque integra não só antigos professores e alunos, como também empregados, ou sejam, todo o universo de obreiros desta catedral da cultura; por muitos considerada a primeira universidade da Covilhã.
Refiro-me obviamente à Associação de Antigos Professores, Alunos e Empregados da Escola Campos Melo da Covilhã (antiga Escola Industrial e Comercial Campos Melo), mais conhecida pela sigla “APAE Campos Melo”.
Fundada oficialmente em 15 de Junho de 1984 por um grupo de antigos alunos e professores, fruto da saudade dos tempos da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, que depois passou a denominar-se Escola Técnica Campos Melo e, actualmente, Escola Secundária Campos Melo, surgiu assim esta associação.
Em 1995, data em que tive o orgulho de ser o segundo Presidente da Direcção, registava já setecentos associados.
Para quem quiser ficar com a noção fidedigna de quem foram, efectivamente, os verdadeiros fundadores, aqui deixo o registo deste facto.
Assim, antes da sua formação e após o primeiro Jantar-Convívio, sob o tema “Recordar é Viver”, realizado em 26 de Março de 1983, na cantina da Escola Campos Melo, já lá vão quase três décadas, começaram a fervilhar as ideias da formação oficial duma associação de “antigos”, abrangendo “todos” aqueles que ao longo das várias gerações passaram pela Escola Industrial.
Já aquando da festa de homenagem ao antigo director, Eng.º Ernesto de Campos Mello e Castro, pela sua despedida, em 1966, surgiu a primeira ideia de constituição de uma associação de antigos alunos, tendo, inclusive, sido alvitrado o seu início com a nomeação espontânea do sócio n.º 1, Afonso da Cruz e Silva, já falecido, que não se haveria de concretizar, e, este mesmo antigo aluno, viria a integrar-se no grupo dos sócios fundadores da APAE.
Ao mesmo tempo, haviam que se preparar de imediato as comemorações do primeiro centenário da Escola, a surgir no ano seguinte – 1984.
Se bem que foram os antigos alunos, professores e alguns empregados que aderiram, num ápice, à formação duma associação, com palavras emolduradas de grande fervor associativo; e de amizades impregnadas de memórias dos tempos de estudantes; foram mais tarde considerados 184 sócios fundadores, ou seja, aqueles que vieram a aderir até à realização da respectiva escritura. Mas, na verdade, os reais fundadores foram quantos, desde a primeira hora, tomaram a iniciativa, e participaram nas várias reuniões de trabalho. Foram frequentes sessões, na biblioteca e sala do Conselho Directivo da Escola Campos Melo, labutando duma forma afincada como Comissão Pró-Associação, na preparação das Comemorações do Centenário da Escola, e na constituição da novel associação.
São eles: Francisco Fazendeiro Geraldes (principal impulsionador, sócio n.º 1 e primeiro Presidente da Direcção da APAE); Dr.ª Maria Ascensão Simões (Presidente do Conselho Directivo da Escola, da altura, e sócia n.º 2 e que viria a ser a primeira Presidente da Assembleia Geral da APAE); Maria Noémia Gomes Lopes, responsável na Comissão Pró-Associação e dirigente da APAE desde a sua fundação, tendo sido o 3.º Presidente da Direcção, sócia n.º 3); Maria Luísa Fonseca Freire Pires, já falecida (integrando o elenco da APAE desde a sua fundação, antiga tesoureira da Comissão Pró-Associação e da 1.ª Direcção, sócia n.º 4); Manuel Vaz Correia, Mário Monteiro Carriço, João de Jesus Nunes, João José Silva Coelho, Alfredo Monteiro Pires (falecido), Carlos Alberto Ruivo (falecido), Maria Luísa Pedro, Carlos Alberto Rodrigues, António Manuel Silva Coelho, Maria José Fino e Maria Astrigilda Gonçalves. Destas duas últimas colegas partiu a conversa, em Lisboa, para uma reunião de convívio, das décadas de cinquenta e sessenta, através de um almoço, com antigos colegas, para memorizarem bons velhos tempos de estudantes, e não só. Estendendo-se o pedido da dinamização desta ideia a outros antigos colegas, logo se transformou em entusiasmos retumbantes.
E partiu-se para uma associação, de “antigos”, oficial, depois daquele Jantar-Convívio de 26.03.1983. Assim, começou a germinar, com a aderência de mais e mais antigos alunos, antigos professores e de alguns antigos funcionários. Nos trabalhos de constituição surgem ainda como reais fundadores, Isabel Fernandes Raposo, Carma Maria Batista Cardona, José Vicente Milhano (que viria a doar as instalações onde se situa a Sede da APAE, falecido em Junho de 1994); Professor Ricarte de Matos, Eng.º Luís Filipe Mesquita Nunes, já falecido (que seria o 1.º Presidente do Conselho Fiscal da APAE); Manuel Macedo Campos Costa, Eng. Francisco Duarte Gabriel, Georgina Leitão Duarte Calheiros, João José Cristóvão, Dr.ª Maria Celeste de Moura, já falecida; Maria Orlanda Bicho Mineiro Correia, Maria Teresa Fazendeiro Rodrigues, Vitor Manuel Alves Rodrigues e Padre Acácio Marques Santos, já falecido.
A estes 29 nomes ainda se deviam adicionar mais três que, há muito, por motivos desconhecidos, e que só aos mesmos disse respeito, se haviam de retirar do seio da Associação. Dois deles já faleceram.
Numa altura em que a cultura citadina não era nem de perto nem de longe como nos dias de hoje, embora sempre houvesse figuras de relevo na Covilhã, no âmbito das letras e do saber, a APAE Campos Melo, numa expressão dum sócio da altura – “Primavera Cultural” – conseguiu, numa vontade indómita das direcções constituídas, promover vários eventos culturais, entre os quais várias exposições, fora e dentro da sua sede, como na sua antiga sala que se intitulou Galeria de Arte da APAE, em pleno coração da cidade, nomeadamente:
08.01.1984 – Exposição de fotografias, desenhos e documentos das duas primeiras décadas da Escola (no átrio da Escola Campos Melo).
27.01.1984 – Aproveitando a reportagem fotográfica das comemorações do 1.º Centenário da Escola Campos Melo, e o que os jornais disseram, também de desenhos de antigos alunos (no átrio da Câmara Municipal).
26.01.1985 – Trabalhos de antigos e actuais alunos da Escola Campos Melo, no encerramento das comemorações do centenário, sob a designação “Trabalhos de ontem e de hoje” (no átrio da Câmara Municipal).
03.06.1989 – Retrospectiva das actividades da APAE, desde a sua fundação e uma exposição de esculturas de madeira, em miniatura, de um sócio e covilhanense, João Manuel Proença Marques (na Sede da APAE).
20.10.1989 – Exposição sobre a Covilhã antiga (sede da APAE).
23.12.1989 – Exposição de um presépio artesanal, com figuras de madeira em movimento, e, de novo, retrospectiva das actividades da APAE (sede da APAE).
08.03.1990 – Exposição sobre algumas figuras notáveis da Covilhã, no séc. XVI (sede da APAE).
13.04.1990 – Exposição de pintura “Do Neoclássico do Curvilinismo”, do prof. Rodolfo Passaporte, falecido em 4.11.2012, com 85 anos (sede da APAE).
24.04.1990 – Exposição “A Crítica Política no Tempo da Monarquia”, por Rafael e Gustavo Robalo Pinheiro (sede da APAE).
02.06.1990 – Exposição de lavores das antigas alunas da Escola Campos Melo (Sede da APAE).
15.06.1990 – Exposição de pintura, de Gina Calheiros (sede da APAE).
Julho de 1990 – Exposição de todas as actividades conseguidas pela APAE (na Covifeira).
20.10.1990 – Exposição histórico-documental sobre o fundador da Escola, José Maria Veiga da Silva Campos Melo (sede da APAE).
25.05.1991 – Exposição histórico-documental sobre João Alves da Silva, membro da 1.ª Comissão Administrativa e presidente da comissão executiva da Covilhã na 1.ª República (sede da APAE).
28.09.1991 – Exposição histórico-documental sobre o Sporting Clube da Covilhã e objectos desportivos de clubes e federações de todo o mundo, de João de Jesus Nunes (sede da APAE).
30.05.1992 – Exposição de “Arte e Design” dos actuais e antigos professores e alunos da Escola Campos Melo, da responsabilidade do grupo de artes visuais (sede da APAE).
05.02.1993 – Exposição de pintura de dois pintores covilhanenses: Sousa Amaral e João Manuel Salcedas (sede da APAE).
28.05.1993 – Exposição de trabalhos de expressão plástica, realizada pelas crianças das Escolas do Concelho da Covilhã (sede da APAE).
04.06.1994 – Exposição de arte sacra (sede da APAE).
17.06.1995 – Exposição de quadros e peças sobre a arte e cultura de Timor (sede da APAE).
16.12.1995 – Exposição de presépios executados por crianças de algumas escolas do Concelho.
E, muitas outras se seguiram ao longo dos anos seguintes.
Esta associação cultural foi também palco de palestras e visitas em actos solenes, por eminentes homens da cultura, da música e da arte, nomeadamente os covilhanenses Dr. António Alçada Batista, Eng.º Melo e Castro, Prof. Augusto Seabra, Geninha Melo e Castro, entre outros.
Daqui surgiu também a edição de dois livros, confrontando-se as tipografias da região, pela primeira vez, com um volume e páginas a cores, a que não estavam habituados, obviamente para aquela altura.
Surgiu também a criação de uma revista – “Ecos da APAE” – que é distribuída aos sócios, anualmente, nas comemorações da Associação.
Deu-se lugar à vinda de grupos musicais e de dança de outras zonas do País e de Espanha, como a Academia de Baile Flamenco, de Badajoz; “Pão-de-Ló”, de Ovar; de um grupo da região de Póvoa de Varzim; e, também, na vertente desportiva e cultural, homenagearam-se as “Velhas Glórias” do Sporting Clube da Covilhã, com um grande número de participantes e algum alvoroço pela comunicação social do País, sendo a primeira vez que alguma instituição, incluindo a própria colectividade serrana, participasse com um evento tão empolgante.
Hoje, com um edifício-sede totalmente reconstruído pela edilidade covilhanense, em pleno coração da cidade, pode continuar a ser azo para a promoção cultural da cidade onde se insere.
Algumas facetas do entusiasmo e da história preambular desta associação, e a sua envolvente de entusiasmo, podem ser consultada no livro “9 Anos de Actividades Culturais e Recreativas ao Serviço da Cidade e do Concelho – 1963 – 1992”.

João de Jesus Nunes
Sócio Fundador

(In Revista "ECOS DA APAE" de Maio de 2013)

DEVIDO A LAPSO NA PUBLICAÇÃO DO TEXTO, REPETE-SE O MESMO, MANTENDO-SE AS FOTOS NO ANTERIOR




A GÉNESE DA“APAE CAMPOS MELO” E OS SEUS FUNDADORES

A Covilhã integra o concelho com o maior número de agentes culturais do distrito de Castelo Branco e um dos maiores do País, neste âmbito.
Vou falar duma associação cultural e recreativa, sedeada na Covilhã, no coração da cidade, que foi a primeira, do género, a ser criada em Portugal, segundo as palavras do então Ministro da Educação, Augusto Seabra, já falecido. Isto porque integra não só antigos professores e alunos, como também empregados, ou sejam, todo o universo de obreiros desta catedral da cultura; por muitos considerada a primeira universidade da Covilhã.
Refiro-me obviamente à Associação de Antigos Professores, Alunos e Empregados da Escola Campos Melo da Covilhã (antiga Escola Industrial e Comercial Campos Melo), mais conhecida pela sigla “APAE Campos Melo”.
Fundada oficialmente em 15 de Junho de 1984 por um grupo de antigos alunos e professores, fruto da saudade dos tempos da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, que depois passou a denominar-se Escola Técnica Campos Melo e, actualmente, Escola Secundária Campos Melo, surgiu assim esta associação.
Em 1995, data em que tive o orgulho de ser o segundo Presidente da Direcção, registava já setecentos associados.
Para quem quiser ficar com a noção fidedigna de quem foram, efectivamente, os verdadeiros fundadores, aqui deixo o registo deste facto.
Assim, antes da sua formação e após o primeiro Jantar-Convívio, sob o tema “Recordar é Viver”, realizado em 26 de Março de 1983, na cantina da Escola Campos Melo, já lá vão quase três décadas, começaram a fervilhar as ideias da formação oficial duma associação de “antigos”, abrangendo “todos” aqueles que ao longo das várias gerações passaram pela Escola Industrial.
Já aquando da festa de homenagem ao antigo director, Eng.º Ernesto de Campos Mello e Castro, pela sua despedida, em 1966, surgiu a primeira ideia de constituição de uma associação de antigos alunos, tendo, inclusive, sido alvitrado o seu início com a nomeação espontânea do sócio n.º 1, Afonso da Cruz e Silva, já falecido, que não se haveria de concretizar, e, este mesmo antigo aluno, viria a integrar-se no grupo dos sócios fundadores da APAE.
Ao mesmo tempo, haviam que se preparar de imediato as comemorações do primeiro centenário da Escola, a surgir no ano seguinte – 1984.
Se bem que foram os antigos alunos, professores e alguns empregados que aderiram, num ápice, à formação duma associação, com palavras emolduradas de grande fervor associativo; e de amizades impregnadas de memórias dos tempos de estudantes; foram mais tarde considerados 184 sócios fundadores, ou seja, aqueles que vieram a aderir até à realização da respectiva escritura. Mas, na verdade, os reais fundadores foram quantos, desde a primeira hora, tomaram a iniciativa, e participaram nas várias reuniões de trabalho. Foram frequentes sessões, na biblioteca e sala do Conselho Directivo da Escola Campos Melo, labutando duma forma afincada como Comissão Pró-Associação, na preparação das Comemorações do Centenário da Escola, e na constituição da novel associação.
São eles: Francisco Fazendeiro Geraldes (principal impulsionador, sócio n.º 1 e primeiro Presidente da Direcção da APAE); Dr.ª Maria Ascensão Simões (Presidente do Conselho Directivo da Escola, da altura, e sócia n.º 2 e que viria a ser a primeira Presidente da Assembleia Geral da APAE); Maria Noémia Gomes Lopes, responsável na Comissão Pró-Associação e dirigente da APAE desde a sua fundação, tendo sido o 3.º Presidente da Direcção, sócia n.º 3); Maria Luísa Fonseca Freire Pires, já falecida (integrando o elenco da APAE desde a sua fundação, antiga tesoureira da Comissão Pró-Associação e da 1.ª Direcção, sócia n.º 4); Manuel Vaz Correia, Mário Monteiro Carriço, João de Jesus Nunes, João José Silva Coelho, Alfredo Monteiro Pires (falecido), Carlos Alberto Ruivo (falecido), Maria Luísa Pedro, Carlos Alberto Rodrigues, António Manuel Silva Coelho, Maria José Fino e Maria Astrigilda Gonçalves. Destas duas últimas colegas partiu a conversa, em Lisboa, para uma reunião de convívio, das décadas de cinquenta e sessenta, através de um almoço, com antigos colegas, para memorizarem bons velhos tempos de estudantes, e não só. Estendendo-se o pedido da dinamização desta ideia a outros antigos colegas, logo se transformou em entusiasmos retumbantes.
E partiu-se para uma associação, de “antigos”, oficial, depois daquele Jantar-Convívio de 26.03.1983. Assim, começou a germinar, com a aderência de mais e mais antigos alunos, antigos professores e de alguns antigos funcionários. Nos trabalhos de constituição surgem ainda como reais fundadores, Isabel Fernandes Raposo, Carma Maria Batista Cardona, José Vicente Milhano (que viria a doar as instalações onde se situa a Sede da APAE, falecido em Junho de 1994); Professor Ricarte de Matos, Eng.º Luís Filipe Mesquita Nunes, já falecido (que seria o 1.º Presidente do Conselho Fiscal da APAE); Manuel Macedo Campos Costa, Eng. Francisco Duarte Gabriel, Georgina Leitão Duarte Calheiros, João José Cristóvão, Dr.ª Maria Celeste de Moura, já falecida; Maria Orlanda Bicho Mineiro Correia, Maria Teresa Fazendeiro Rodrigues, Vitor Manuel Alves Rodrigues e Padre Acácio Marques Santos, já falecido.
A estes 29 nomes ainda se deviam adicionar mais três que, há muito, por motivos desconhecidos, e que só aos mesmos disse respeito, se haviam de retirar do seio da Associação. Dois deles já faleceram.
Numa altura em que a cultura citadina não era nem de perto nem de longe como nos dias de hoje, embora sempre houvesse figuras de relevo na Covilhã, no âmbito das letras e do saber, a APAE Campos Melo, numa expressão dum sócio da altura – “Primavera Cultural” – conseguiu, numa vontade indómita das direcções constituídas, promover vários eventos culturais, entre os quais várias exposições, fora e dentro da sua sede, como na sua antiga sala que se intitulou Galeria de Arte da APAE, em pleno coração da cidade, nomeadamente:
08.01.1984 Exposição de fotografias, desenhos e documentos das duas primeiras décadas da Escola (no átrio da Escola Campos Melo).
27.01.1984 – Aproveitando a reportagem fotográfica das comemorações do 1.º Centenário da Escola Campos Melo, e o que os jornais disseram, também de desenhos de antigos alunos (no átrio da Câmara Municipal).
26.01.1985 – Trabalhos de antigos e actuais alunos da Escola Campos Melo, no encerramento das comemorações do centenário, sob a designação “Trabalhos de ontem e de hoje” (no átrio da Câmara Municipal).
03.06.1989 Retrospectiva das actividades da APAE, desde a sua fundação e uma exposição de esculturas de madeira, em miniatura, de um sócio e covilhanense, João Manuel Proença Marques (na Sede da APAE).
20.10.1989 – Exposição sobre a Covilhã antiga (sede da APAE).
23.12.1989 – Exposição de um presépio artesanal, com figuras de madeira em movimento, e, de novo, retrospectiva das actividades da APAE (sede da APAE).
08.03.1990 – Exposição sobre algumas figuras notáveis da Covilhã, no séc. XVI (sede da APAE).
13.04.1990 – Exposição de pintura “Do Neoclássico do Curvilinismo”, do prof. Rodolfo Passaporte, falecido em 4.11.2012, com 85 anos (sede da APAE).
24.04.1990 – Exposição “A Crítica Política no Tempo da Monarquia”, por Rafael e Gustavo Robalo Pinheiro (sede da APAE).
02.06.1990 – Exposição de lavores das antigas alunas da Escola Campos Melo (Sede da APAE).
15.06.1990 – Exposição de pintura, de Gina Calheiros (sede da APAE).
Julho de 1990 – Exposição de todas as actividades conseguidas pela APAE (na Covifeira).
20.10.1990 – Exposição histórico-documental sobre o fundador da Escola, José Maria Veiga da Silva Campos Melo (sede da APAE).
25.05.1991 – Exposição histórico-documental sobre João Alves da Silva, membro da 1.ª Comissão Administrativa e presidente da comissão executiva da Covilhã na 1.ª República (sede da APAE).
28.09.1991 – Exposição histórico-documental sobre o Sporting Clube da Covilhã e objectos desportivos de clubes e federações de todo o mundo, de João de Jesus Nunes (sede da APAE).
30.05.1992 – Exposição de “Arte e Design” dos actuais e antigos professores e alunos da Escola Campos Melo, da responsabilidade do grupo de artes visuais (sede da APAE).
05.02.1993 – Exposição de pintura de dois pintores covilhanenses: Sousa Amaral e João Manuel Salcedas (sede da APAE).
28.05.1993 – Exposição de trabalhos de expressão plástica, realizada pelas crianças das Escolas do Concelho da Covilhã (sede da APAE).
04.06.1994 – Exposição de arte sacra (sede da APAE).
17.06.1995 – Exposição de quadros e peças sobre a arte e cultura de Timor (sede da APAE).
16.12.1995 – Exposição de presépios executados por crianças de algumas escolas do Concelho.
E, muitas outras se seguiram ao longo dos anos seguintes.
Esta associação cultural foi também palco de palestras e visitas em actos solenes, por eminentes homens da cultura, da música e da arte, nomeadamente os covilhanenses Dr. António Alçada Batista, Eng.º Melo e Castro, Prof. Augusto Seabra, Geninha Melo e Castro, entre outros.
Daqui surgiu também a edição de dois livros, confrontando-se as tipografias da região, pela primeira vez, com um volume e páginas a cores, a que não estavam habituados, obviamente para aquela altura.
Surgiu também a criação de uma revista – “Ecos da APAE” – que é distribuída aos sócios, anualmente, nas comemorações da Associação.
Deu-se lugar à vinda de grupos musicais e de dança de outras zonas do País e de Espanha, como a Academia de Baile Flamenco, de Badajoz; “Pão-de-Ló”, de Ovar; de um grupo da região de Póvoa de Varzim; e, também, na vertente desportiva e cultural, homenagearam-se as “Velhas Glórias” do Sporting Clube da Covilhã, com um grande número de participantes e algum alvoroço pela comunicação social do País, sendo a primeira vez que alguma instituição, incluindo a própria colectividade serrana, participasse com um evento tão empolgante.
Hoje, com um edifício-sede totalmente reconstruído pela edilidade covilhanense, em pleno coração da cidade, pode continuar a ser azo para a promoção cultural da cidade onde se insere.
Algumas facetas do entusiasmo e da história preambular desta associação, e a sua envolvente de entusiasmo, podem ser consultada no livro “9 Anos de Actividades Culturais e Recreativas ao Serviço da Cidade e do Concelho – 1963 – 1992”.

João de Jesus Nunes
Sócio Fundador


 (In Revista "Ecos da APAE", de Maio de 2013)




8 de maio de 2013

O JORNAL E O DIREITO DE OPINAR


A simples razão de já se estar retirado da atividade profissional nos proporciona uma maior liberdade de pensamento e de tempo para a leitura, algum estudo e uma certa dose de mais reflexão.
Neste ócio – o tempo da liberdade e da criação –, outros optam pela comodidade, na salutar caminhada diária, no arranjo do quintalzinho, no ir buscar, de sorriso nos lábios, os netinhos à escola; ou mesmo, no cavaquear na esplanada ou no sofá da coletividade, numa passagem pelos jornais existentes até ao fechar das “persianas” dos olhos.
Não consigo estar parado e, por isso, sou um consumidor acérrimo de informação. Todos os dias abro o site dos “Jornais do Dia” naquela rede que os americanos criaram em 29 de outubro de 1969 – Internet. E, para além disso, dou prazer à escrita não deixando descansar as teclas do computador. E já agora a fotografia.
Nos dias que correm, há muito, não há notícias positivas para os portugueses. E os dias de lazer, para os que trabalham, esse tempo que resta depois do tempo de trabalho, também designado por “tempo livre” passa, muitas vezes, por ver revistas e suplementos culturais e literários transformados em magazines, que quase só promovem o entretenimento, no consumismo de outra classe de leitores.
Há seis anos escrevi que é uma honra e um risco escrever no jornal, e, como alguém afirmou, quase nada é óbvio.
Para um grande número de pessoas, a primeira angústia por “escrever no jornal” fala de uma eventual falta de assunto, e onde encontrar a inspiração. A segunda ansiedade relaciona-se à exposição pública de ideias, onde ainda é corrente o tirar vantagem de tudo e o ficar em cima do muro.
Uma das tribulações está ligada ao risco do engano, da ignorância e do mero erro humano, para já não falar nas gafes ou mesmo nas gralhas jornalísticas, pois se algo surge no jornal deverá ter um mínimo de veracidade, exigindo mesmo reflexão e investigação.
O que se fala pode ser imediatamente levado pelo vento, mas o escrito tem mais facilidade de ser ampliado na memória.
Tomei contacto com a escrita nos jornais, em 14.11.1964, aos 18 anos, então no jornal mais antigo da minha Terra e da Beira Interior – o “NOTÍCIAS DA COVILHÔ – que, este ano comemora 100 anos, e do qual tenho a honra de ser um dos seus colaboradores.
Depois da minha escrita se alongar por outros órgãos jornalísticos da região e do país, incluindo revistas, desde há uns anos a esta parte que, emergindo duma amizade que despontou na região algarvia, é também orgulhosamente que vejo a minha rubrica “Ecos da Beira Serra”, quinzenalmente, no jornal “O OLHANENSE”, que no próximo dia 15 de maio completa 50 anos.
Se a amizade é uma festa, posso sentir-me feliz por ter tido nos órgãos da comunicação social onde produzo as minhas crónicas, e textos de opinião, pessoas como o Dr. José Almeida Geraldes, do Notícias da Covilhã, e Herculano Valente, do Olhanense, ambos antigos diretores, que já passaram para além da cortina que nos separa deste mundo. Mas, na atualidade, aquela força anímica inspiradora da continuidade da escrita, é dada pela amizade com o Cónego Fernando Brito dos Santos, João Alves e Ana Ribeiro Rodrigues, respetivamente diretor, e jornalistas (o segundo coordenador) do “Notícias da Covilhã”; assim como, no “O Olhanense”, a amizade com a grande alma, qual “faz-tudo”, do chefe de redação Mário Proença, e do seu diretor interino, José Isidoro Sousa.
Surgiram os jornais gratuitos que, a pouco e pouco vão desaparecendo, e pensa-se que o jornal em papel irá extinguir-se, face à grave crise e ao surgimento dos jornais digitais, mas não acredito que tal venha acontecer, pois, com a sua envolvente, desde o “sentir o seu cheiro”, ao folheá-lo e levá-lo para onde quiser, é diferente do digital, não obstante a grande revolução planetária da Internet, a tradição jamais terá os dias contados.
Foi esta a minha tese apresentada no Fórum sobre Jornalismo, coordenado por Adelino Gomes, na Universidade da Beira Interior, em 15 de março de 2012, sob o tema “Jornalismo e Cidadania”, para a elaboração duma Carta de Princípios do Jornalismo em Portugal.
Muito embora as recentes notícias tenham dado nota da caída em 10% dos jornais generalistas de âmbito nacional, há que ter fé e manter vivo o interesse pelas notícias regionais, na defesa dos interesses locais, para que a sobrevivência dos media locais e regionais não seja ameaçada, como alguns afirmam.
E é nesta afirmação pelo interesse regional, que as bandeiras jornalísticas poderão continuar a flutuar contra ventos e marés.
Resta-me, do fundo do coração, desejar longa vida para os órgãos da comunicação social nomeados, e nas pessoas dos seus obreiros, da Covilhã e Olhão, este ano aniversariantes de grande mérito, para que continuem credores da confiança que as suas gentes – assinantes e leitores – lhes depositam.

(In "Notícias da Covilhã", de 09.05.2013 e "O Olhanense", de 15.05.2013)


2 de maio de 2013

UM COVILHANENSE QUE MARCOU A SOCIEDADE PORTUGUESA


A sua vida não foi muito longa. Como também não foi extensa a sua vivência na terra que o viu nascer.
Exatamente dois meses antes de começar a Primeira Guerra Mundial, a Covilhã via aumentada a população, na freguesia da Conceição, com mais um dos seus ilustres filhos. Em 28 de maio de 1914 vinha à luz do dia o cidadão José Guilherme de Melo e Castro, filho do Comendador Guilhermino de Melo e Castro.
Com uma grande dinâmica, capacidade de trabalho, espírito de justiça e impregnado pela generosidade, este covilhanense desassombrado, que fez os seus estudos secundários em Espanha, acabaria por se licenciar em direito na Universidade de Coimbra.
Presidiu à Associação Académica, enquanto estudante, e logo organizou a primeira viagem de estudantes de Coimbra, a Angola e Moçambique, no ano 1938, assim como várias deslocações ao estrangeiro, do orfeão e outros agrupamentos conimbricenses.
Foi ainda na sua presidência (1937-1939) que, ao terminar o curso de Direito em Coimbra, Melo e Castro vê a Associação Académica de Coimbra conquistou a Taça de Portugal, em futebol, substituindo o então designado Campeonato de Portugal.
Estava-se no dia 25 de junho de 1939, no Campo das Salésias, em Lisboa, e o opositor era o Benfica que viria a ser vencido por 4-3. Já, para chegar à final, a Académica, liderada na presidência pelo estudante covilhanense, eliminaria o Sporting da Covilhã, com os resultados, em Coimbra de 5-1 (14.05.39) e, no Santos Pinto, de 2-3, na 2.ª mão (21.5.39).
No campo das letras, foi fundador, com o Professor Miller Guerra, do jornal “Via Latina”. E também redator da revista “Estudos”.
Veio a fixar-se em Lisboa onde passou a exercer advocacia. Mas de 1944 a 1947 foi Governador Civil de Setúbal e, a partir de 1949, deputado á Assembleia Nacional por este distrito. Na Assembleia Nacional, assim como na imprensa, dedica os seus temas à política social. Durante três legislaturas foi Presidente da Comissão Parlamentar de Política e Administração Geral e Social.
Em maio de 1954 é nomeado Subsecretário de Estado da Assistência Social. Foi bem marcada esta sua passagem pelos serviços sociais, dando impulso decisivo à luta contra a tuberculose, tendo também desenvolvido a prevenção da mortalidade infantil.
Em dezembro de 1957 foi nomeado Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cargo que ocupou até 11.10.1963. Logo a sua atividade se orientou predominantemente para o incremento e criação de novas receitas para a assistência. Esta sua passagem pela Misericórdia ocorreu num tempo próprio, carente em vários domínios: político, económico e social. Mas, Melo e Castro era, na sua essência, um homem de grande atividade, com uma febre de transformação e mudança. E foi isso que fez este Homem, ao longo de mais de seis anos na Misericórdia de Lisboa, e não só.
Com o intuito de servir os outros – o seu próximo – sublinha-se, sem falácias, teve grande atenção e o carinho especiais a merecerem-lhe os domínios da ação social e da saúde.
Criou o Centro de Reabilitação do Alcoitão, para reabilitação de diminuídos motores e centro de preparação do pessoal especializado para todo o país, e, ele mesmo, garantiu o financiamento, inventando, em 1961, o Totobola, tendo também sido ele que assim batizou as apostas mútuas desportivas, mandando, inclusive, pessoal para ser formado em Inglaterra.
Mas, apesar da sua vida, fértil de iniciativas e de grande dinâmica, se passar mais fora da sua Terra Natal, mesmo assim, viria a ocupar cargos em instituições de solidariedade social, na sociedade covilhanense, como aconteceu, de 1962 a 1966, no cargo de Presidente da Assembleia Geral dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, numa altura de muitos problemas no seio desta instituição, sucedendo a seu pai, detentor do maior tempo neste cargo.
Agraciado no estrangeiro; em Portugal foi nomeado Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas.
Em 1969, com as eleições legislativas, e como Presidente da Comissão Executiva da União Nacional, desde 1968, querendo refrescar as listas, convidou, entre outros, o Dr. Sá Carneiro para se integrar e negociar livremente nas listas a apresentar, constituindo-se assim a Ala Liberal, da qual Melo e Castro foi o seu mentor.
Muito haveria a dizer desta figura que revolucionou o Estado Novo e, não tivesse morrido aos 58 anos, possivelmente tentaria chamar à razão Marcelo Caetano para a “democracia real” em que se estava empenhando, em vez de lhe ter partido a corda e o ter deixado cair.
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa prestou-lhe uma grande homenagem, a título póstumo, na Covilhã, em 27 de janeiro de 1985, tendo-se deslocado a esta cidade mais duma centena de pessoas, vindas da capital.

(In "Notícias da Covilhã", de 02.05.2013)

AO REDOR DE UMA VIAGEM DE SALAZAR


Corria o ano da graça de 1934. A Primeira Grande Guerra havia terminado há dezasseis anos.
O Presidente da República era o General Óscar Carmona. E D. Manuel II, o último rei de Portugal, exilado, havia falecido há quase dois anos. Após a entrada em vigor da Constituição de 1933, realizaram-se eleições para os 90 deputados da nova Assembleia Nacional, em 16 de dezembro de 1934, às quais só concorreu a União Nacional, rejeitando participar a oposição. O slogan destas eleições foram na base de “quem votar, vota pela Nação; quem não votar, vota contra a Nação”.
Longe estaria de se pensar que, na corrida do tempo, escondido na voragem da decisão dos dirigentes mundiais, se ia reduzindo o tempo de sobra (cinco anos), para uma Segunda Grande Guerra, que haveria de ser o conflito mais letal da história da humanidade, eliminando barbaramente a vida de milhões de seres deste planeta Terra.
António de Oliveira Salazar, natural do Vimieiro, Santa Comba Dão, estando prestes a fazer 45 anos, desloca-se à Serra da Estrela, plena de neve, naquele abril frio de uma terça-feira, dia 3, a faltarem 25 dias para o seu aniversário natalício.
Salazar, Presidente do Ministério e, depois, do Conselho de Ministros, estava nestas funções há dois anos. E havia dito na sua tomada de posse, “Sei muito bem o que quero e para onde vou”, nos seus princípios conservadores e autoritários da trilogia “Deus, Pátria e Família”. Hoje, com menos acerto e longe da ironia, também o Presidente da República, Cavaco Silva, surgiu com a cantilena do “Nunca tenho dúvidas e raramente me engano”.
Salazar, o homem que conduziu os destinos de Portugal durante 36 anos, embora vivendo grande parte da sua vida em Lisboa, nunca se desvinculou das origens, pelo que, no Natal e nas férias grandes, se deslocava algumas vezes por terras beirãs.
Então, naquele ano de 1934, já com uma governação ditatorial, a 18 de janeiro foi o dia em que Salazar tremeu, com a greve geral insurrecional para o derrubar.
Neste mesmo ano, e conforme já referido, Salazar deslocou-se de visita à Serra da Estrela, coberta de neve, não passando das Penhas da Saúde, numa altura em que tudo faltava para o aproveitamento turístico da mesma. Viajava absolutamente incógnito quando, atravessando de automóvel a cidade da Covilhã, pelas 14 horas, com a comitiva de amigos, fôra reconhecido, no centro da cidade, do automóvel onde seguia, quando alguém perguntava qual o caminho para a Serra da Estrela.
Correndo depressa a notícia, os membros da Comissão de Turismo, sem mais delongas, João Alves da Silva e Joaquim Gonçalves de Carvalho, respetivamente, presidente e tesoureiro, logo tomarem um automóvel seguindo ao encontro do ilustre visitante, conseguindo apanhá-lo à chegada às Penhas da Saúde. Salazar saltara do automóvel, para pisar sempre neve, e foi ver o excelente panorama dos Cântaros e a cordilheira dos Piornos, duma alvura imaculada e fascinadora.
Depois desta rápida digressão, Salazar acedeu a analisar o projeto do Hotel de Turismo, a construir nas Penhas da Saúde, tendo-lhe depois sido apresentado, pelos membros da Comissão de Turismo, as necessidades mais urgentes que impediam o desenvolvimento turístico da Serra da Estrela: a estrada e o hotel. Salazar concordou com a construção da estrada que deplorou o seu estado e a considerou péssima. Para a consecução destas duas obras, ao tempo, os membros da Comissão de Turismo esperavam o auxílio do Estado, que, na altura, ainda não tinha nascido a União Europeia, nem se pensava em mudar de moeda, longe de PECs e de Troikas.
E assim foi uma das viagens de Salazar, sem dar nas vistas, que até os jornalistas citadinos não tiveram qualquer hipótese de entrevistaram o estadista, tendo-se cruzado com Salazar, já na descida das Penhas da Saúde.
Ainda conseguiram cumprimentar Salazar, num ápice, conseguindo chegar perto das Penhas da Saúde, os industriais António Rodrigues Pintassilgo, Dr. Fernando Carneiro e o médico Dr António Vaz de Macedo, fortemente ligados ao turismo da Serra da Estrela.
No regresso das Penhas da Saúde, já uma grande aglomeração de Covilhanenses esperavam a comitiva de Salazar na Praça do Município, aclamando-o.

(In "Notícias da Covilhã" de 02.05.2013 e "O Olhanense", de 01.05.2013)

20 de março de 2013

DO “FIM DO MUNDO”


Depois de alguma ansiedade até se conhecer o sucessor papal no elo a São Pedro, eis que surge, sem grande assombro, um homem do sul, dos confins do globo.
O novo sucessor de Pedro, como todos já conhecem, é Jorge Mário Bergoglio, septuagenário, Bispo de Buenos Aires. Um Papa de várias estreias: o primeiro sul-americano, o primeiro a adotar o nome Francisco, o primeiro jesuíta e o primeiro a rezar com o povo no momento em que se apresentou na varanda da Basílica de São Pedro.
O primeiro Papa, prometido o Primado por Jesus, entre os anos 33 a 67, foi S. Pedro, a quem Jesus mudou o nome, de Simão para Cefas (que quer dizer pedra): “Tu és pedra (Pedro, na tradução) e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Acabaria por ser morto na perseguição de Nero.
A escolha do nome Francisco, pelo novo Papa, argentino, contrariando as usuais opções por cardeais europeus, surpreendeu porquanto nenhum Papa o havia feito, presumindo-se a sua ligação à figura de S. Francisco de Assis ou mesmo S. Francisco Xavier.
Excetuando São Pedro, acontece que, até ao sexto século, todos os Papas usaram o seu nome de batismo (S. Lino, Santo Anacleto, S. Clemente, S.to Evaristo, S.to Alexandre, S. Sisto I, S. Telésforo, S. Higino e S. Pio I, integraram, por esta ordem, os primeiros dez Papas, até aos anos 155).
O primeiro Papa a mudar o seu nome de batismo, depois de S. Pedro, foi Mercúrio, no ano 533, que adotou o nome de João II, pelo facto de achar impróprio ter o nome de um deus pagão num representante de Cristo. O hábito foi intermitente daí em diante, mas, no ano 955, João XII tomou este nome em substituição do seu de batismo – Otaviano. O mesmo faria João XIV, no ano 983, dado que chamando-se Pedro, se julgou indigno do nome do Apóstolo, embora não exista qualquer proibição de os Papas adotarem o nome de Pedro. Apenas uma simples tradição mantida como sinal de respeito.
A mudança de nome só começaria a vigorar a partir de Bento VIII (de nome Teofilato), no ano 1012. Suceder-lhe-ia seu irmão, João XIX.
Portugal já teve um Papa em Roma – João XXI – , o qual apenas presidiu ao governo da Igreja durante escassos oito meses, de 15 de setembro de 1276 a 20 de maio de 1277. Era natural de Lisboa e chamava-se Pedro Julião, mas mais conhecido por toda a Europa culta por Pedro Hispano. Viria a ter uma morte trágica, vítima de um desmoronamento duma estância por ele mandado construir em Viterbo. Ficou sepultado na catedral da cidade.
Mesmo assim, houve outros Papas com Pontificados mais breves. Muitos de nós ainda se recordam de João Paulo I, no ano 1978, que durou somente 33 dias. Chamavam-lhe o Papa do sorriso. Mas o Papa com a mais curta duração foi Estêvão II, de seu nome Zacarias (quatro dias), no ano 752, que, face à sua morte repentina, sem ter ainda recebido a consecratio, não chegou a ser admitido oficialmente como Papa, sucedendo-lhe, com o mesmo nome de Estêvão II, um outro Papa.
Mas também o Sumo Pontífice nomeado com mais longevidade foi Santo Agastão, no ano 678, já com a provecta idade de 103 anos, embora lúcido (qual nosso cineasta Manuel Oliveira…), cujo pontificado ainda duraria três anos, falecendo em 10 de janeiro de 681, com a idade de 107 anos. Foi talvez vítima da peste que grassava nessa altura em Roma, ocasionando grande mortalidade como não houve memória de outra igual sobre o governo de nenhum outro Papa. Eram famílias inteiras (pais e filhos, irmãos e irmãs) a serem sepultados juntamente, despovoando campos e aldeias.
Dentre várias particularidade dos 266 Papas, desde São Pedro, até Francisco I, há uma riqueza de iniciativas ou inovações, como, por exemplo, foi o Papa Bonifácio IV que viveu nos anos 608-615 que, no dia 1 de novembro de 609 transformou o Panteão dos deuses pagãos, em Roma, em templo dedicado à Santíssima Virgem e a todos os mártires. Surgiu assim a festa de “Todos os Santos”. E Urbano IV, que exerceu o seu papado de 1261 a 1264, instituiu a festa do “Corpo de Deus”, em 1264.
Depois do mundo perfilar o novo Papa, pós Bento XVI, este que não caíra nas simpatias de muita gente, eis que surge um Papa de grande esperança, como o fora João Paulo I, o Papa do sorriso que começou a revolucionar e só durou 33 dias, para, depois, surgir o inesquecível João Paulo II, adorado por todo o Mundo. Esperemos que Francisco I, ou só Francisco, venha devolver a esperança a tantos corações amargurados com esta crise europeia e mormente nas gentes portuguesas.

(In "Notícias da Covilhã", de 20.03.2013)

14 de março de 2013

ALGUMAS FIGURAS NOTÁVEIS, E FACTOS COVILHANENSES, ATÉ AO SÉCULO XIX.


Considerando-se como mais recente a fundação da Covilhã no ano 690 (embora existam versões de uma maior antiguidade), a mesma veio a surgir junto aos pomares a que se dava o nome de “Ladeira de Mártir-In-Colo”. Com o seu contínuo desenvolvimento foi-se alastrando pela montanha; devendo-se tal facto ao Conde Julião. Teve uma filha muito formosa – Florinda – nascida no ano 692 e, quis o pai, segundo alguns historiadores, dar então o nome a esta terra, em sua homenagem, batizando-a de Cova Juliana. No entanto, segundo reza a história, a rapariga foi violada pelo último rei godo, D. Rodrigo. O pai de Florinda prometeu vingar-se e abriu as portas aos mouros que tomaram a região e estes passaram a chamar Cava a Florinda, que quer dizer “mulher perdida”.
Daí se presume, na toponímia covilhanense, a razão de se ter dado o nome ao Bairro do Rodrigo e Rua do Rodrigo, aliás, na zona sul da cidade, tal como a zona de Mártir-In-Colo, a que os novos ventos quiseram batizar de zona da Goldra.

Em setembro de 1186 surge o Concelho da Covilhã, pelo foral que lhe foi dado por D. Sancho I, confirmado por seu filho, D. Afonso II, em Coimbra, no ano 1217, e por D. Dinis, em 13 de janeiro de 1303. Entre 1202 e 1207, D. Sancho I várias vezes residiu na Covilhã. O segundo foral, foi concedido por D. Manuel I, em 1 de junho de 1510, conservando todos os antigos privilégios.
A Rua D. Sancho I, na Covilhã, tem, pois, muita razão de existir.

Em 25 de julho de 1260, por carta régia de D. Afonso III, mandou fazer feira anual de 15 dias na vila da Covilhã.

Em 27 de maio de 1411 D. João I concede à Vila da Covilhã uma feira franqueada anual, de vinte dias, pelo Santiago.

No ano de 1415 foi atribuído por D. João I, a seu filho, o Infante D. Henrique, o Senhorio da Covilhã.

Em 1453, D. Afonso V declara a Covilhã uma das principais povoações das Beiras.

Em 7 de maio de 1487, Pero da Covilhã e o albicastrense Afonso de Paiva partem de Santarém, por terra, para a Etiópia, com a finalidade de procurar o Preste João e colher informações sobre a navegação e o comércio Índico. Esta missão foi-lhe confiada por D. João II a fim de obter dados necessários à preparação da viagem de Vasco da Gama à Índía.
Penso já ter existido, na Covilhã, uma Rua Pero da Covilhã; contudo, são, de facto, pertinentes a estátua a Pero da Covilhã, no Pelourinho, assim como os nomes da Escola Básica do 2.º Ciclo Pero da Covilhã, Agrupamento de Escolas Pero da Covilhã e Hospital Pero da Covilhã, na Covilhã. E, também a Rua Vasco da Gama.

Em 7 de junho de 1498 foi martirizado em Calecute, Frei Pedro da Covilhã, que foi o primeiro mártir cristão no Oriente. Foi para a India na primeira armada de Vasco da Gama, como capelão.

Em 3 de março de 1506 nasceu em Abrantes o Infante D. Luís, quinto filho de D. Manuel I. Viveu alguns anos na Covilhã. Mandou edificar a Capela de Santa Cruz, também conhecida por Capela do Calvário. Dos amores que teve com uma linda judia covilhanense, de nome Violante Gomes, conhecida por “a Pelicana”, nasceu D. António, que viria a ser Prior do Crato, que por não ser filho legítimo, não conseguiu suceder a D. Sebastião.

Em 10 de abril de 1515 faleceu Mateus Fernandes, natural da Covilhã que foi um dos arquitetos do Mosteiro da Batalha, a ele se devendo a majestosa porta e entrada para as Capelas Imperfeitas, considerada um dos expoentes máximos da arquitetura portuguesa. Reinados de D. João II e D. Manuel I. Tem todo o cabimento a existência da Rua Mateus Fernandes, por sinal, onde eu resido.

Em dezembro de 1517, Ruy Faleiro, sua mulher Eva Afonso, e seu irmão Francisco, dão entrada em Sevilha, vindos da Covilhã onde eram naturais. Dedicaram-se estes irmãos ao estudo e determinação das coordenadas geográficas, sobretudo longitudes, modificando os astrolábios da época, e tornando assim possíveis as viagens marítimas de longo curso com cálculos de maior exatidão. Estes dois cosmógrafos estiveram muito ligados a Fernão de Magalhães e à sua epopeia, trabalhando ao serviço de Espanha por o rei D. Manuel I ter rejeitado os seus serviços em Portugal. Por motivo de doença, Rui Faleiro não pôde acompanhar Fernão de Magalhães na sua viagem de circum-navegação, conforme estava previsto.
A Rua Ruy Faleiro é, assim, com muito mérito, uma das ruas mais antigas, e mais frequentadas, na cidade covilhanense.

No ano de 1528 nasceu na Covilhã Frei Heitor Pinto. Considerado um dos mais notáveis escritores clássicos portugueses do Séc. XVI, com as suas obras traduzidas em cinco línguas. Ardente defensor da independência nacional, declarou-se partidário do Prior do Crato, aquando da dominação espanhola, o que lhe trouxe como consequência a sua expulsão para Espanha por ordem de Filipe II, onde morreu. Em 1563 foi publicado em Coimbra o 1.º volume dos famosos “Diálogos” deste grande humanista e profundo conhecedor do latim, do grego e do hebraico. A principal obra destes “Diálogos” foi a “Imagem da Vida Cristã”, tendo-se publicado 13 edições em português, para além de 22 em espanhol, 6 em francês, 3 em latim e 2 em italiano. Um grande filósofo referiu-se assim a esta obra: “Quem quer ver uma verdadeira imagem da eloquência do divino Platão e do eloquentíssimo Cícero, leia os “Diálogos” deste autor”. Em 1572, Frei Heitor Pinto escreveu a segunda e última parte da sua obra “Imagem da Vida Cristã”. Faleceu em Sisla, perto de Toledo, em 1584, ao que parece, envenenado.
Existe na Covilhã, em sua homenagem, a Avenida Frei Heitor Pinto, um das ruas nobres da cidade.

Em 26 de junho de 1538 teve começo o primeiro cerco de Diu em que se distinguiu pela sua coragem e valentia o covilhanense Fernão Penteado. Tem também o nome de uma rua – a Rua Fernão Penteado.

Em 5 de março de 1550, foi sagrado Bispo da Guarda, o covilhanense D. Cristóvão de Castro. Foi Deão da Capela Real de D. João III e Capelão-mór da Infanta D. Maria. A ele se deve o majestoso retábulo da Sé da Guarda. Faleceu no ano 1522 e está sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, da Covilhã. Existe assim, na cidade, também a Rua D. Cristóvão de Castro.

Em 6 de junho de 1570 D. Sebastião conferiu à Covilhã o título de “notável” em memória dos grandes serviços prestados à coroa.

Em 15 de julho de 1570, nos mares das Canárias, foram trucidados e arrojados ao mar, ainda vivos, os chamados “quarenta mártires do Brasil”, onde seguiam Santo Inácio de Azevedo e companheiros, entre eles o covilhanense, Beato Francisco Álvares, que, antes de entrar na Companhia de Jesus (21/12/1564) foi cardador de profissão. Existe também a Rua do Beato Francisco Álvares.

Em 12 de maio de 1580, Filipe I confirma á Vila da Covilhã os privilégios, liberdades e mercês que os reis seus antecessores lhe haviam concedido.

Em 10 de abril de 1619, no reinado de Filipe II, a Câmara de Lisboa fez contrato com o covilhanense Paulo Domingues, oficial de nevoeiro, que consistia em levar para a capital 96 arrobas de neve da Serra da Estrela para fornecimento diário entre 1 de junho de 30 de setembro. A neve retirada da serra, ia em carros até à Barquinha, e daí em barcos até Lisboa. Mal chegava à cidade, era guardada em poços, havendo um junto do Convento da Graça e outro no Castelo de S. Jorge. Em 1714 já se vendiam sorvetes de vários gostos e preços, sendo o de limão o mais barato.

Em 4 de setembro de 1646, D. João IV faz graciosas concessões à Câmara da Covilhã.

Em 28 de novembro de 1673, por ordem do príncipe regente, mais tarde D. Pedro II, vieram de Inglaterra cinco mestres para as fábricas de panos da Covilhã. Era ao tempo vedor da Fazenda D. Luís de Meneses, 3.º Conde de Ericeira, e a ele se deve o incremento da indústria de lanifícios quer pela implantação de mais fábricas nesta vila quer pelo desenvolvimento tecnológico proporcionado. Daí toda a pertinência de existir, na Covilhã, a Rua Conde de Ericeira.

Em 1710, D. João V ordena que na Vila da Covilhã se fabriquem todas as fardas para o seu exército.

Em 19.11.1749 nasceu na Covilhã D. José Valério da Cruz, sendo sagrado bispo de Portalegre em 1799. Foi eleito deputado às Cortes Ordinárias de 1822, pelo círculo da Guarda. Foi ainda escritor e faleceu em 17.7.1826. Existe na Covilhã, a Rua D. José Valério da Cruz.

Em 1750 foi destruída a forca da Covilhã, por um almotacel, que ficava situada em Santo António, na parte inferior do convento.

Em 1761 D. José I ordenou a construção da Real Fábrica de Panos onde atualmente se encontra instalada a Universidade da Beira Interior. E, em 1763/64, o Marquês de Pombal deu grande desenvolvimento à marinha, à agricultura e à indústria, nomeadamente à indústria de lanifícios na Covilhã, Fundão e Portalegre. Em 12 de maio de 1769 D. José I deu ordens ao superintendente da Real Fábrica de Panos para utilização da pedraria caída dos muros do Castelo, aquando do terramoto de 1755, e destinada á construção daquela fábrica.
Existe na Covilhã a Rua Marquês de Pombal, na freguesia de S. Martinho.

Em 29 de março de 1792, nasceu na Covilhã José Mendes Veiga que viria a ser figura exemplar da indústria de lanifícios. Possuidor de inestimáveis qualidades de trabalho, o seu nome está ligado a todos os melhoramentos introduzidos na indústria naquela época tal como a instituições de caráter social. O valor do seu trabalho foi reconhecido por D. Luís I que o agraciou com o grau de Comendador da Ordem de Cristo. Faleceu em 26.02.1872. Na Covilhã existe a Rua Comendador Mendes Veiga.

Em 1 de janeiro de 1805 nasceu na Covilhã Gregório Nunes Giraldes que foi um grande industrial. Com José Maria da Silva Campos Melo reedificou a “Fábrica Velha”. Faleceu em 1888. José Maria da Silva Campos Melo, este nasceu na Covilhã em 20.08.1808, e que viria também a ser grande negociante e chefe da indústria fabril.
Dedicou todo o seu esforço e saber em prol da indústria covilhanense, podendo afirmar-se que a ele se deve o não ter desaparecido por estas paragens a velha indústria de lanifícios que haveria depois de desenvolver-se e desabrochar através dos tempos. E em 28.3.1864 foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem de Cristo. Faleceu em 3.3.1866. Seu filho foi José Maria Veiga da Silva Campos Melo, e seu genro, Dr. Manuel Nunes Geraldes. Muita gente confunde o Comendador Campos Melo, de seu nome completo, José Maria da Silva Campos Melo, com o de seu filho, José Maria Veiga da Silva Campos Melo, pois, para além da semelhança de nomes, ambos estiveram ligados à indústria de lanifícios. O primeiro foi continuador de uma indústria arcaica, mantendo em laboração, em copropriedade com seu cunhado, Gregório Geraldes, a antiga Fábrica Real, fundada por D. Pedro II em 1678; o segundo foi o impulsionador da modernização e introdutor da mecanização da indústria de lanifícios e fundador da nossa Escola Técnica, conhecida por Escola Industrial. O filho de José Maria Veiga da Silva Campos Melo foi José Maria de Campos Melo, nascido em 19.10.1874 que veio a ser um dos grandes Comandantes dos Bombeiros Voluntários da Covilhã. Estudou em escolas técnicas de lanifícios na Bélgica e em França, fixando-se depois na Covilhã, onde veio a tomar a direção técnica da “Fábrica Velha”. Foi o 2.º diretor da Escola Industrial, e seu professor, escola fundada por seu pai, José Maria Veiga Silva Campos Melo. Como escritor, publicou, entre outros, os seguintes livros: “Lãs e Lanifícios” e “Manuel do Fabricante de Tecidos”. Foi técnico industrial. Criou a disciplina de Matérias-Primas para a qual escreveu um livro. Foi eleito 1.º Comandante dos BVC em 11 de janeiro de 1899 cargo que ocupou até 11 de maio de 1920. faleceu em 8 de maio de 1925. Foi durante o seu Comando que surgiu o Incêndio da Mineira, na madrugada de 14 de junho de 1907, um dos maiores incêndios de sempre, e onde se destacaram, com grande bravura, vários bombeiros e mormente o 2.º Comandante Jerónimo José Monteiro e Sebastião Santos Júlio, tendo estes depois sido agraciados com a Medalha de Prata de D. Maria II, para distinção e prémio concedido ao Mérito, Filantropia e Generosidade, devido aos atos de verdadeira coragem, arrojada dedicação e com risco das próprias vidas, haverem conseguido salvar oito pessoas do incêndio.
Em 5 de janeiro de 1824 nasceu na Covilhã Francisco Joaquim da Silva Campos Melo, a quem foi dado em 21 de setembro de 1870 o título de 1.º Visconde da Coriscada. Fazia parte do Conselho de D. Luís I e era Fidalgo-Cavaleiro de sua Real Casa. Foi industrial de grande valor, Presidente da Câmara Municipal, escrivão da Misericórdia, etc., tendo deixado o seu nome ligado a muitas obras de caridade, nomeadamente à Associação Protetora da Infância da Covilhã (Asilo), da qual foi o seu principal fundador. Faleceu em 13.05.1876. Era irmão do Comendador Campos Melo, tendo casado, por duas vezes, face a uma viuvez, com duas sobrinhas, filhas de cada um dos seus irmãos.
Pois, é jus a existência, na Covilhã, da Rua Comendador Campos Melo e da Rua Visconde da Coriscada, que quase se cruzam entre si, assim como existe a Rua Gregório Geraldes.

Em 1 de janeiro de 1806 nasceu o covilhanense Manuel Morais da Silva Ramos, conhecido por “Morais do Convento” por ter adquirido o Convento de Santo António. Ourives, gravador e abridor de cunhos, foi homem de rara habilidade. Foi Cavaleiro das Ordens de S. Maurício e S. Lázaro e condecorado com a medalha de D. Pedro IV. Faleceu em 26.9.1872. Tem também nome de rua na cidade laneira, agora universitárfia.

Em 1835 nasceu na Covilhã o Dr. António dos Santos Viegas, glória da Covilhã, da ciência portuguesa e da Universidade de Coimbra de que foi um dos mais ilustres catedráticos. Foi mestre doutíssimo da cadeira de Física daquela Faculdade durante mais de cinquenta anos. Eleito deputado pela Covilhã, foi Conselheiro de Estado, Par do Reino e encarregado pelo Governo de várias comissões científicas ao estrangeiro. Pelo governo francês foi distinguido com o Grau de Cavaleiro da Legião de Honra e pelo Governo português com a Grã Cruz da Ordem de Santiago.
Na Covilhã existe a Rua Conselheiro António Santos Viegas.

Em 16 de outubro de 1873 foi inaugurado o monumento a que foi dado o nome de “Palmatória” para comemorar a data de abertura da estrada das Pedras Lavradas que liga a Covilhã à cidade de Coimbra. Esta rua que, no tempo da monarquia ainda era a Rua Marquês d’Ávila e Bolama, é, agora, a Avenida da Universidade.

Em 8 de dezembro de 1889 nasceu na Covilhã José da Conceição Ramalho. Muito novo, criou o jornal “O Tipógrafo” mas foi no semanário “O Raio” que fundou em 1923 que se revelou grande defensor das classes mais desfavorecidas. Faleceu em 28.03.1943. Tem o seu nome ligado à toponímia covilhanense, através da Rua José Ramalho, antiga Calçada Alta.

Em 9 de outubro de 1896 nasceu na Covilhã Ernesto de Campos Melo e Castro. Formado em engenharia químico-industrial pelo I.S.T. de Lisboa desenvolveu grande ação pedagógica na Covilhã tendo sido diretor da Escola Industrial e Comercial Campos Melo durante 36 anos. Figura interessada pela artes em geral cultivou em particular a música, efetuando nas décadas de 30 e 40 uma recolha de música popular da Beira Baixa. Faleceu em 10.08.1973. Foi pai do escritor covilhanense Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro e avô da cantora covilhanense Maria Eugénia de Melo e Castro (Geninha Melo e Castro).

Em 4 de março de 1899 foi inaugurado o Teatro Caleya na Covilhã, que ficava situado no Largo do Peso da Lã.

Em 20 de março de 1899 nasceu em Casegas, do concelho da Covilhã, Monsenhor Joaquim Alves Brás que dedicou grande parte da sua vida ao problema das mulheres desamparadas e em especial às empregadas domésticas. A ele se deve a criação de lares e pensionatos de recolha e raparigas abandonadas que se desenvolveu por todo o País e estrangeiro, sob a designação de Casas de Santa Zita. Foi escritor e jornalista, tendo falecido em 13.3.1966.

Em 28.10.1900 nasceu na Covilhã Eduardo Malta tendo completado o seu ensino na Escola de Belas Artes no Porto, terminando o curso aos 17 anos, devido à extraordinária habilidade que já revelava.
A sua atividade repartiu-se pela ilustração, obras literárias, pintura e desenho, mas foi na arte do retrato que se afirmou como figura inconfundível da sua geração. Pintou cerca de mil retratos tendo feito exposições no País e estrangeiro. Galardoado com vários prémios, obteve a Medalha de Ouro da Exposição Internacional de Paris em 1937, entre várias outros prémios nacionais e estrangeiros. Faleceu em 31.05.1967.
Na Covilhã, junto ao local onde nasceu, existe o Largo Eduardo Malta.

JOÃO DE JESUS NUNES
jjnunes6200@gmail.com

 (Uma síntese deste texto fez parte da pequena palestra de hoje, 14.03.2013, que apresentei na Tertúlia dos Combatentes, na Qta da Hera, às 13,00. Vai ser publicada, integralmente, mas por duas fases, nas próximas duas edições, quinzenais, do Jornal "O Olhanense", dias 15.03.2013 e 01.04.2013).

20 de fevereiro de 2013

OPÇÃO


Numa roda-viva, vamos assistindo na nossa Cidade, e para além da mesma, ao anunciar dos “convidados” para a grande festa, depois de levantada a cortina caída sob o palanque do evento.
Mas ainda haverá outros “convidados”, mais atrasados, no vestir das túnicas; um ou outro já pensa ter direito à barretina.
E, vai daí, que na assembleia dos mordomos, alto lá, “quem manda aqui sou eu!” Qual Catão, na sua expressão “Delenda est Carthago”…
Nós, não correligionários, vamos, no entanto, ver a festa, nem que seja para apanhar as canas dos foguetes, e, com elas, fazermos umas “caravelas” para o vento serrano fazer girar.
Já neste ano de 2013, depois de Cristo, ouvimos algumas estórias para a nossa história política covilhanense, abocanhadas por uns, apoiadas por outros.
Ficámos, assim, numa certa perplexidade sobre a festa, e, talvez acometidos duma amnésia, quase que perdemos o significado de duas palavras paradoxais, tema desenvolvido na mesma: Democracia e Ditadura.
Amparados na bengala dos nossos amigos dicionários, lá fomos descobrir: “Democracia” é um sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade; governo em que o povo exerce a soberania, direta ou indiretamente. E, “democrata” a pessoa que perfilha os ideais da democracia, da igualdade de direitos dos cidadãos e da liberdade individual. Por outro lado, “ditadura”, a concentração de poderes do Estado numa só pessoa, num partido único, num grupo ou numa classe que o exerce com autoridade absoluta; sendo que “ditador”, entre outras, surge a definição de pessoa muito autoritária, que atua com prepotência, como se tivesse poder absoluto sobre as pessoas ou as coisas.
E, como em tudo, não é preciso parecer, torna-se necessário ser, ficámos perturbados pelo facto de, numa dessas assembleias de mordomos, da grande festa, com o caldo entornado, fossem lançadas pedras uns aos outros quando, na realidade, podiam ter aproveitado as bolas de neve que há pouco tempo caiu no norte da cidade. Sempre refrescavam um pouco o acalorado de alguns mordomos.
Abaixo dos mordomos, uma outra classe, a que já ouvimos chamar de “lacaios”, emergiu nas oportunidades de ocasião. Não era estranho quando os víamos na evidência, e na exuberância de palavras bonitas, não inspiradas, antecipando-se em vivas ao “Papa” cá da terra.
Numa página inteira dum semanário da Cidade e da região (terá custado muito dinheiro ao armazém dos mordomos), o mordomo-mor denuncia a atitude dos revoltosos, e “chora” a impossibilidade de não o deixarem aprovar deliberações urgentes.
Na nossa imaginação, ficamos a pensar se a mea culpa seria pertença da parte ditatorial ou da democrata, ou se estaríamos já numa tal república das bananas.
Uma pedrada foi atingir um mordomo por ser repetente na insistência a mordomo-mor, na convicção que continuará a ser sempre repetente… Pois é, Lula da Silva também foi repetente, repetente, e depois acabou por ser um grande Presidente!
Bom, fiquemos por aqui, e que os Covilhanenses se lembrem que em março se completam quarenta anos em que a radionovela “Simplesmente Maria” começou a ser transmitida na Rádio Renascença, de segunda a sexta, entre as 13,30 e as 14,30, tendo “mexido” de facto com a sociedade nessa altura. Aquele folhetim era uma história bonita e ninguém previa que tivesse uma explosão de audiências que teve, tendo, inclusive, atravessar a Revolução dos Cravos, até novembro de 1974.
Esperemos que a atual telenovela covilhanense se transforme num folhetim como o “Simplesmente Maria”, transbordante de entusiasmo por alguém que se transforme no verdadeiro ator, que saiba o melhor a fazer para o futuro desta Terra que se chama Covilhã, respeitado e respeitador, e que saiba o significado das palavras que o senhor dicionário nos veio esclarecer.

(In "Notícias da Covilhã", de 20.02.2013)