23 de janeiro de 2013

ESTE ANO QUE SE SEGUE


“Isto é que vai uma crise... Este País é um colosso, tá tudo grosso, tá tudo grosso…” Este refrão cantava Ivone Silva, emparelhando com Camilo de Oliveira, num dos seus números de revista, já lá vão uns anos. E continua atual! “Ai Agostinho, ai Agostinha, que rico vinho, vai uma pinguinha. Este País perdeu o tino, a dar ao fino, a dar ao fino”.
Para quando é chegada a altura de soltarmos o grito de Ipiranga, ainda que numa de nostalgia dum passado longínquo? Da incompetência ao descaramento, de tudo vai um pouco, santo Deus! Até já os angolanos gozam no ridículo de uma licenciatura, caricata, dum ministro português (as notícias de escárnio inserem-se no Jornal de Angola, no período de veraneio de 2012, sob a forma humorística…).
Não somos senhores da nossa independência. Portugal vê-se reduzido a uma espécie de protetorado e, por isso, sonhamos com o grito de D. Pedro IV, nesta triste situação para um país que se orgulha de ter aberto as portas para o mundo.
Estes nossos atuais governantes, assim como os de um passado recente, fazem lembrar o célebre assalto ao comboio-correio, ocorrido há cinquenta anos, na ligação de Glasgow para Londres, tal a forma como assaltam os bolsos de todos nós, quer sejamos da classe média, remediados ou pobres.
E, por isso, é bom lembrar que os portugueses já tiveram ocasiões de se vingarem duma forma audaz e de sentido patriótico. Em 6 de dezembro de 1383 um grupo de nobres, encabeçados por D. João, mestre de Aviz, terminaram com a situação que se vivia no País, pois a paciência contra aqueles que pretendiam vender Portugal a Castela estava esgotada. Vivemos de facto num estado de direito, mas também D. Leonor Teles se considerava legítima rainha e os heróis da primeira revolução portuguesa não pensaram assim. Afirmavam que o poder da rainha D. Leonor era ilegítimo porque não defendia o interesse nacional, efetuando uma utilização abusiva do poder. É o que se passa atualmente, com uma caterva de corruptos e figurões dotados de uma chico-espertinice portuguesa congénita, a sorrirem-se para a ineficácia dos nossos tribunais.
Mas podemo-nos também lembrar do 1 de dezembro de 1640, decorridos mais de dois séculos e meio daquela primeira revolução, em que os quarenta conjurados acabaram com o domínio filipino de seis décadas da “troika” espanhola daquela tempo.
Este País não está a ser para todos, mas, todos, os de bom senso, devem exigir que o sol estenda os seus raios para todos, sem exceção; e, as chuvas, sirvam para matar a sede também de todos.
Já um dia Eduardo Prado Coelho afirmava que “pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais que o euro. Um país onde ficar rico de noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais”.
Neste 2013 vamos continuar a ter um Presente sacrificado em nome de um Futuro que nunca mais chegará, este Futuro que mais não é que uma esperança, permanentemente diluída na dureza da realidade.
Mas, todos nós, os que neste momento sofremos as vicissitudes deste presente envenenado do Presente, que os atuais governantes nos oferecem, temos tanto direito a ser felizes quanto as gerações vindouras! Por isso, a nossa raiva é grande, face a esta incomensurável falta de respeito de tantos meninos que nos desgovernam. Pois, segundo E.M. Forster, “A tolerância é uma virtude muito pouco interessante. É aborrecida. Ao contrário do amor teve sempre má publicidade. É negativa. Significa apenas aturar os outros e ser capaz de aguentar as coisas”.
Se, problemas idênticos já se verificavam no século XIX, com situações muito atuais reclamadas, à época, por Eça de Queirós, constatamos, assim, a incapacidade dos portugueses de se saberem auto governar. Isto também numa altura desta grave crise em que, se a zona euro voltar a espirrar, o mundo constipa-se. Os países emergentes já abanam o poder dos gigantes americanos.
O maior problema desta crise é que nunca, na história moderna, tivemos tanto endividamento quanto aquele que hoje existe, com números estarrecedores (120% do PIB).
Com os olhos bem abertos, firmes como rochas, e exigentes, que mais não seja, pelos valores da vida, procuremos dar um rumo de encontrar a luz ao fundo do túnel, neste ano vigente, já que a luz vermelha se encontra ainda acesa no semáforo das nossas vidas de cidadãos portugueses. 

(In "Notícias da Covilhâ", de 23.01.2013)

3 de janeiro de 2013

A LONGEVIDADE DE UMA CONFERÊNCIA VICENTINA

Parece que ainda há pouco tempo celebrámos, com simplicidade, mas com muita fé, o centenário da Conferência de S. Vicente de Paulo, da Paróquia da Conceição, da Covilhã, e já estamos a caminho de mais uma década.
Efetivamente, se são momentos difíceis os que hoje atravessamos, numa situação generalizada de crise, não só financeira mas também de valores, os tempos em que foi fundada esta Conferência, na já longínqua 5ª Feira de 19 de março de 1903, também não eram melhores.
Jantar de Natal do Conselho de Zona da Covilhã.
Vinha-se do crepúsculo do século XVIII, com o predomínio de um anticlericalismo que grassava pela Europa e bafejava já Portugal, para depois engrossar num ódio pela religião católica, nos primeiros anos da República que se haveria de implantar em Portugal, volvidos sete anos.
No ano em que vamos lembrar estas onze décadas da nossa Conferência, será também o mesmo em que todo o Mundo católico irá comemorar dois séculos do nascimento do fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, o italiano beato Antoine Frédéric Ozanam. Ele, que com mais seis jovens universitários, fundou em maio de 1833 a Conferência da Caridade, a qual, a partir de 1835, passaria a ter a designação atual.
O ano 2013 vem rico de efemérides na vertente da Caridade, se atentarmos que também se devem ter em conta os 180 anos da criação da primeira Conferência, em França; e ainda os 160 anos da morte de Frédéric Ozanam, que ocorreu em 8 de setembro de 1853.
A Covilhã sempre teve um grande espírito caritativo, sendo de notar que já completaram o seu centenário mais algumas Conferências de S. Vicente de Paulo da Cidade, mas sabe-se que a da Conceição jamais teve interrupção no seu percurso de bem-fazer ao próximo. Atualmente é a que assiste maior número de necessitados, nas várias vertentes de pobreza.
Esta Conferência (da Paróquia da Conceição) embora não tenha sido das primeiras a ser criada em Portugal, já que surgiu volvidos 44 anos da primeira Conferência no nosso País (mais propriamente na Igreja de São Luís de França, em Lisboa, no ano de 1859), é, no entanto, das mais antigas, se tomarmos em linha de conta que a Sociedade de São Vicente de Paulo já está espalhada por 900 grupos paroquiais em Portugal onde colaboram 15 mil pessoas. Encontra-se ainda ramificada por quase todos os cantos do Planeta.
Jantar de Natal, do Conselho de Zona da Covilhã, com o fadista Luís Pinto.
Foi, pois, numa altura também muito difícil, de grande pobreza, que a Covilhã viu criada esta Conferência, há quase 110 anos, exatamente no ano em que viria a falecer o Papa Leão XIII, com 93 anos, a 20 de junho de 1903; e viu ser eleito Pio X que viria a ser canonizado. E, para servir de exemplo, na pobreza que grassava pelo Mundo dessa época, ele, Pio X, de seu nome José Sarto, nascido no seio de uma família necessitada, era tão pobre que ele, enquanto criança, se deslocava a pé para a escola, que distava sete quilómetros, levando os tamancos pendurados às costas, para os poupar, calçando-os só á chegada.
Em Portugal, vislumbrava-se o fim da monarquia, então no tempo de D. Carlos, e, na Covilhã, em 1903 os dias não eram melhores, pois a edilidade confrontava-se com dificuldades de liderança da Câmara, substituindo-se com frequência as figuras do Dr. José Pereira Barata, Dr. Alberto Deodato da Costa Ratto e Dr. João Nave Catalão.
Não vamos falar das obras assistenciais e trabalho fecundo que esta Conferência efetuou, e continua a prestar nas inúmeras situações de apoio aos necessitados, nas várias vertentes da pobreza, porque já são do conhecimento público.
Restou-nos, desta vez, tão só situar a longevidade da Conferência, historiando um pouco dos tempos percorridos.
Para além do trabalho a favor dos necessitados, ao longo destes 110 anos ininterruptos, também é bom ter em conta que muitas foram as pessoas (os confrades, de ambos os sexos) que se voluntariaram em prol deste serviço, algumas vezes com sacrifício, e vários assistentes eclesiásticos, sem os quais a Conferência não poderia existir.
Infelizmente, quando nos encontramos numa evolução, a todos os níveis, que não se compara como in illo tempore, vamos ter que sentir, no palpitar dos nossos corações, que o tempo incómodo da pobreza não vai parar, e, antes pelo contrário, irá sobejar de uma maior agressividade na mesma, por estes anos fora.

(In "Notícias da Covilhã", de 03.01.2013)

12 de dezembro de 2012

OUTONO NA NOSSA CIDADE


Vamos caminhando pelas estações da nossa vida, repartida em quatro estados de alma, conforme podemos, ou nos deixam andar, nesta simbiose de temperamento.

E neste movimento de translação das nossas vidas, entre Equinócios e Solstícios, vai o tempo velozmente passando para o cumprimento das responsabilidades, mas vagarosamente certo, como as longas noites invernosas, na resolução de problemas prementes.

A esperança de um dia permanecer um sorriso de felicidade, proveniente daquela aura de um tempo de juventude das Primaveras da vida, está sendo envolvida por um estado de alma de grande invernia.

E, como nós, viventes do “antes” e do “depois”; de tempos do opressor, trocados pela cavalaria de salvação do nosso País, que temos a dizer, com o nosso estado de alma, por essas memórias passadas da revolução?

Se dantes tínhamos tiranos, hoje existem déspotas mesmo desencapotados, por todo o lado, numa nítida encruzilhada de regresso ao “antes”. Homens sem vergonha, duma desonestidade mental, alguns dos quais deveriam permutar o emblema de Portugal, que possuem na lapela do casaco, por outro concebido em exclusivo com a palavra “mentiroso”.

Mesmo assim, enquanto ex-estadistas, apregoadores da moral e dos bons costumes, continuam a não prescindir de pessoal, gracioso, ao seu serviço privado, mas com a despesa salarial a cargo do País, num verdadeiro mau exemplo; outros, homens e mulheres do trabalho, curvados sob o peso das incertezas dum imaginável futuro, avançam sob o sol escaldante dos verões das suas vidas e, vão labutando, labutando, para que os portões das empresas dos seus ofícios se mantenham abertos.

Do estado de alma de uma esperança, ainda que ténue, da primavera da vida, ressalta um estado de alma penalizado por aquela expressão na sua intimidade – “O que é que eu fiz para não poder ter os méritos de um emprego?” - para, noutro estado de alma, a perseverança ser a grande arma apontada às contrariedades surgidas por um País ocupado.

Outro estado de alma é já o conformismo doloroso de muitos dos pensionistas, abalados pela sagaz ameaça duma tirania financeira, na redução das magras pensões, depois de durante muitas Estações, dos muitos anos, terem descontado percentagens salariais, produto das suas algibeiras, para a garantia duma pensão futura.

E que dizer do verdadeiro estado de alma daquele formigueiro de gente, alguns de cara tapada, ou voltados de costas, ou de lado para a parede, a caminho do Banco Alimentar, Misericórdias, Conferências de S. Vicente de Paulo, Cáritas, Lares e outras instituições de solidariedade social?

E porque já nos encontramos no outono da vida, deu-nos vontade; neste caminhar pelas ruas da cidade universitária, ex-líbris de laneira, que foi; de apreciar as belezas outonais da mesma, no colorido das folhas caídas, mistura de uma apreciação das obras que deram outro rosto à Cidade, e outras formas de estar, mas também (aquilo que dantes não nos era possível observar), todo um conjunto de muitas ruínas que entristecem a Cidade.

Mas, entre tristes e ledas manhãs, tristes e ledas tardes ou madrugadas, vamos assistindo a burburinhos pela Cidade; por vias do que vem no papel-notícia, nos falantes em tertúlias ou no largo do Pelourinho, para já não falar nos cafés da urbe; sobre politiqueiros e politiquices de ocasião, entre arrazoados de uns; e candidatos em espera, de outros.

No meio disto tudo, respiramos dum certo ar de enfado, neste Equinócio do outono, na compreensão de que, efetivamente, o “tacho” é bom, é barato e dá milhões…

E, mais não dizemos, já a caminho do Solstício de dezembro, para evitar confusões…
 
 
In “Notícias da Covilhã” de 12.12.2012; e no “Combatente da Estrela” do mês de dezembro

31 de outubro de 2012

ESTAMOS FEITOS!

Por mais que não desejemos, não nos livramos do tédio de temas, quase rituais, dos dias de hoje, onde a dona austeridade assentou trono real.
A vassalagem à mesma é de tal forma imposta pelos cavaleiros da triste figura que este povo, que foi e é de homens livres, quase que se sente de escravos, no purgatório dum rectangulozinho do Planeta, à beira-mar plantado. Povo que mais não terá que rebentar as correias férreas que a todos prende.
Mas não são precisas mais revoluções porque o povo, afinal, ele é já a própria revolução!
Então como se compreende que, após aquele “enorme” acontecimento que floriu, de cravos vermelhos, nas vestes dos nossos contentamentos; há quase quatro décadas, libertados de uma outra escravidão, de quase meio século; venha a surgir, entre sonhos e a realidade, um outro “enorme” evento, com o anúncio de sacrifícios e impostos, num cadeado duma configurada escravatura?
Os conhecimentos e as informações que nos chegam, nos dias de hoje, através das várias formas e meios de comunicação, não deixa de nos trazer perplexidades na forma de agir, para muitos; de trabalhar, para vários; na forma de como retaliar, para tantos; e, para outros, como fazer parar.
Agir contra as “enormes” pensões, salários, benesses e outros “direitos adquiridos” duma caterva de figurões: governantes, ex-governantes, banqueiros e ex-banqueiros, e muitos dos bem-falantes das televisões, incluindo jornalistas, que se deviam envergonhar de falar no povo e pelo povo, esse mesmo que ajudaram a amordaçar. Porque não impor um teto salarial, como na Suíça, e converter em impostos o remanescente?
Trabalhar com dignidade e apego sabendo que, na repartição de sacrifícios há, de facto, equidade.
Retaliar contra todos os que usam e abusam de subterfúgios para provocar fugas à justiça, morosidade nos julgamentos, mentiras com sucesso na vida política ou profissional.
Fazer parar esta onda de incompetentes, corruptos e novos-ricos. É assim tão difícil? Não se pára esta avalanche porque todos, ou quase todos, têm telhados de vidro.
E, quando já estão retirados da vida política ou das páginas dos jornais, lá surgem, de quando em vez, nas memórias, de que um dia foram reconhecidos como homens da corrupção encapotada, das fugas à justiça, do safarem-se, vivendo no firmamento.
Nesta pobre democracia, é altura de parar para pensar. No estado a que as coisas chegaram, certamente não irá haver outra oportunidade, ainda que pateticamente o Cardeal Patriarca de Lisboa diga que “não se resolve nada com grandes manifestações nem vindo para a rua a protestar”. Lembre-se, D. José Policarpo, que o Padre Américo, de quem se comemoram 125 anos do seu nascimento, dizia que não é possível pregar o Evangelho a barrigas vazias.
Neste país deprimido e com medo, numa autêntica guerra-fria de bancarrota, porque não levar à justiça, mas duma forma célere, todos quantos não souberam governar e nos trouxeram estas situações mórbidas, e dos inevitáveis sacrifícios, deste jaez? Desde Cavaco Silva, um dos culpados, a Durão Barroso (o fugitivo), Santana Lopes, Sócrates, Passos e Portas, entre outros! E não deixar escapar os turistas da política que, mesmo assim, por aí vagueiam, como é o caso peculiar de Dias Loureiro, para não falar de outros tantos, do domínio público.
Como é possível consentirmos em tanto descaramento? Somos, de facto, um País de brandos costumes, até quando? Sim, porque quando “o melhor povo do mundo” chama “gatuno” ao autor daquelas palavras, talvez seja mesmo melhor pensar duas ou três vezes.
Se seguíssemos o exemplo do General Ramalho Eanes que rejeitou vários privilégios a que tinha direito, certamente este País hoje falaria de outra maneira, mais feliz. E também não é o homem que muitos aplaudiram de “Soares é fixe” que tem méritos de exemplaridade.
Começamos a ser pobres em tudo, mesmo em opções na hora de eleger. Até fomos buscar uma equipa governativa da segunda divisão, treinada por um “mister” dos regionais!... Com um árbitro da troika a mostrar cartões amarelos e encarnados a torto e a direito. Assim, não vamos lá! Depois do “monstro” surgiu o “pântano”, daí um outro estigma – “a tanga”, e, agora “estamos tesos”, entre umas badaladas de “cigarras” e “formigas”. Contra uma equipa europeia para onde foram transferidos homens que ganhavam cá mais que os seus congéneres americanos; e, como reguladores, estiveram como o ceguinho; foi o descalabro bancário, sobejamente conhecido. Lá, numa porção desta Europa, de países do norte contra os do sul, são uns dos maiores da competência financeira. Até onde vamos?!
Precisamos de um “governo de salvação nacional de iniciativa presidencial”.
Mas, uma notícia poderá ser a esperança dos portugueses. O índice de produção do tomate em Portugal, por hectare, é o segundo melhor do Mundo, superado apenas pelo Estado norte-americano da Califórnia. A indústria transformadora de tomate exporta para 42 países e Portugal é, segundo a Associação de Industriais, o quinto maior exportador mundial, num setor que será responsável por 6500 postos de trabalho, diretos e indiretos. É caso para dizer: Senhores dos Governos de Portugal e da União Europeia, nós ainda temos tomates! 
 
(In Notícias da Covilhã, de 31 de Outubro de 2012)

20 de outubro de 2012

VERDADES INSOFISMÁVEIS

Pertenço a um pequeno número de vivos que integrou as fileiras da Conferência de S. Vicente de Paulo, pela mão de meu pai, conjuntamente com um irmão mais novo, na paróquia de S. Pedro da Covilhã, nos finais da década de cinquenta do século passado.
Sairia com a chamada para o serviço militar, então nos finais da década seguinte. Mas as atividades profissionais, o casamento e os filhos, para além de ter ido residir para outro concelho, e as dificuldades próprias duma vida stressante, levaram-me a um longo interregno fora desta vida de grande solidariedade; quiçá de alguma passividade com o mundo de dificuldades do meu próximo. Voltei há uns anos a esta instituição de grandiosíssimo mérito, por influência de confrades amigos, agora na paróquia da Conceição, da cidade da Covilhã; desta vez com minha mulher e por onde também já passou o meu filho e a nora.
O preâmbulo deste meu texto serve tão só para memorizar quão longos têm sido os caminhos das necessidades básicas de muita gente, cada vez mais com o sofrimento a trazer novidades, entre as quais a pobreza envergonhada, e não só, vertentes desta mesma pobreza que outrora não se verificavam.
Não é estranho para ninguém o que escrevo, pois de casos mais inverosímeis está o País cheio, onde, não fossem as ações das instituições privadas de solidariedade, como são as Conferências Vicentinas e o Banco Alimentar, esta Terra de Cristo já pertenceria a um terceiro mundo.
Num verdadeiro humanismo – aquilo que tantas vezes falta aos nossos governantes -  alguns dos Homens e Mulheres da solidariedade lançam-se num verdadeiro “Grito do Ipiranga”, na tentativa de encontrar soluções mínimas para resolver casos graves de saúde e emprego para uma figura que se chama “Ser Humano”, e, para quem escrevo, não é estranho o que, de formas heróicas, muitos se envolvem, pondo em risco a sua própria saúde e a dos seus que o rodeiam.
Dois casos verídicos se passaram, na exemplaridade de muitos outros, de forte vontade em ajudar o seu semelhante, numa das Conferências de S. Vicente de Paulo desta Cidade da Covilhã.
Para que um trabalhador precário se conseguisse deslocar para fora da cidade, na apanha de fruta, um destes homens de boa vontade, durante vários dias se deslocava ao Pelourinho, às cinco horas da manhã, para levar o trabalhador, graciosamente, para o local onde pudesse minimizar as suas frágeis economias familiares.
Outro dos homens de boa vontade, e sua esposa, conhecedores de um reformado, ainda não idoso, que vivia sozinho, abandonado, entregue à sua sorte, conseguiram ir a sua casa dar-lhe as refeições, de conta dos mesmos, o qual, muito fragilizado, já quase não engolia. Levaram-no a consultas hospitalares, no carro do casal, e a uma última na qual foi detetado encontrar-se gravemente doente, doença de morte, que viria a surgir. O homem de boa vontade, triste pelo acontecido a um ser humano mas paradoxalmente ledo pela sua caridade, intrinsecamente sentida, quando se dirige para o seu automóvel, à porta do hospital, toca o telemóvel, com o aviso do interior do hospital para que se dirigisse ao Centro Médico no sentido de ir fazer uma despistagem, pois o doente, que entretanto falecera, estava tuberculoso.
Anda agora este amigo do próximo envolto em preocupações, e seus familiares, até que todos os sintomas sejam debelados.
Destes atos de coragem, de verdadeiro amor e dedicação extrema a quem sofre, no corpo e no espírito, passam ao lado das preocupações dos nossos governantes.
Estes, são muitos dos heróis desconhecidos dos nossos tempos.
 
(In Notícias da Covilhã de 17.10.2012 e no Jornal Olhanense de 15.10.2012)

19 de setembro de 2012

Maria Ivone Vairinho – Uma Mulher multifacetada



 A notícia arrasadora chegou. A jovem iluminada, desde os já longos anos 50 do século passado, que a Covilhã conheceu como uma das suas filhas notáveis, terminava a sua missão nesta Terra de Camões. Junto ao seu túmulo, ensinou e participou com a sua eloquente poesia.

Com um currículo muito rico, Maria Ivone, duma grande cultura, sem favores, tinha uma grande capacidade na aquisição do saber, e no fervor perene da sua transmissão.

Autodidata. A sua ação cultural fortificou-se, duma forma galopante, por toda a sua vida.

Escrevo estas palavras, homenageando uma grande Amiga, na expressão viva de quem a conheceu, desde menina e moça, não obstante diferença de idades. Morámos na mesma rua, junto à Escola Industrial e Comercial Campos Melo. Não chegámos a ser colegas. Foi nesta instituição que tivemos o trampolim para o mundo do trabalho e do conhecimento.

Os dotes desta covilhanense de eleição nunca foram reconhecidos pelos poderes públicos locais.

Após o casamento, passou a viver em Lisboa, sem nunca esquecer, e se referir na sua poesia, à sua terra natal – a sua querida Covilhã, onde as suas cinzas passaram a repousar, junto aos seus familiares, nomeadamente seu irmão, Francisco Manteigueiro, que foi velha glória do Sporting da Covilhã. Foi no dia 13 de setembro, depois do seu falecimento no dia 7 do mesmo mês, em Lisboa, onde foi cremada, e o velório na capela de Santa Maria, do Mosteiro dos Jerónimos, que tanto amava. Centenas dos seus amigos, ali lhe prestaram a derradeira homenagem.

Desde os seus 13 anos começou a escrever peças de teatro e autos de Natal, nos teatrinhos do Salão Paroquial da freguesia de S. Pedro da Covilhã, então nos finais da década de 40 do século passado, também representados na Escola Campos Melo, onde sempre foi a aluna mais distinta.

Chegou a participar num filme – Dois Caminhos – em colaboração com o saudoso Padre José Domingues Carreto, ela então nas fileiras da JOCF (Juventude Operária Católica Feminina).

Na inauguração do Teatro-Cine da Covilhã, em 1954, representou um monólogo de Alice Ogando, na presença da Companhia de Teatro Nacional Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro, tendo-lhe sido abertas as portas para o Teatro Nacional, oportunidade que não pôde concretizar.

Completou os cursos do Instituto Britânico e Alliance Française e foi diplomada pela Escola Pittea em estenografia portuguesa, francesa e inglesa.

Na sua atividade profissional, passou por Secretária do Conselho de Administração da Petrogal, tendo frequentado cursos de âmbito internacional.

 
Na sua adolescência e juventude, prolongando-se pela sua vida fora, colaborou e escreveu textos, contos e poemas, publicados em diversos jornais e revistas. Traduziu muitos livros de espanhol, francês e inglês, com perto de 250 títulos registados na Base de Dados Bibliográficos da Biblioteca Nacional. Ganhou vários prémios.

Publicou romances e livros de poesia – a sua grande paixão. Foi colaboradora da “Crónica Feminina” e do jornal “Poetas & Trovadores”, tendo participado em 12 Antologias da Associação Portuguesa de Poetas, da qual chegou a ser Presidente da Direção e Diretora do seu Boletim. Proferiu diversas palestras e conferências, em vários auditórios.

No mundo artístico, depois do contacto com o palco, pertenceu a grupos cénicos, tendo, várias vezes, representado autos de Gil Vicente e peças de teatro de Almeida Garrett e outros.

Foi “Maria” no “Natal Beirão” e “Covilhã” na apresentação do folclore beirão nos espetáculos do Orfeão que acompanhou nas suas deslocações.

Colaborou em concertos da “Pró-Arte”, dizendo poemas ilustrativos de diversos andamentos da Sinfonia de Beethoven, e deu muitos recitais de poesia.

Com o pseudónimo de Ivone Beirão, em 1959 pertenceu ao Centro de Preparação de Artistas da Rádio e gravou programas nos estúdios da Emissora Nacional, tendo-se estreado num Serão para Trabalhadores no Pavilhão dos Desportos no Parque Eduardo VII.

Desde 2001 que dava aulas de “Ler… e Dizer – Oito Séculos de Literatura Portuguesa/Poesia” na Universidade Sénior de Oeiras.

Maria Ivone tinha comigo uma particular amizade. Sabia que eu tinha um enorme gosto pela cultura e por tudo o que à Covilhã dizia respeito, envolvendo-me também no jornalismo. A sua humildade era demasiada, sustentando a compreensão da injustiça que caía sobre a sua pessoa. Várias vezes falei sobre ela na comunicação social. Participou na apresentação de um dos meus livros e eu tive o prazer de estar na apresentação dum dos seus últimos livros de poesia, na Câmara Municipal da Covilhã.

E foi com a voz embargada que proferi umas palavras muito sentidas, no depósito das suas cinzas, na sepultura onde passou a repousar, como, aliás, já havia surgido, há uns anos atrás, no cemitério de Aranhas (Penamacor) na sepultura do Padre José Domingues Carreto. Memórias!

(In Jornal Notícias da Covilhã, de 19.09.2012)

12 de setembro de 2012

INDIFERENTES, PELA CIDADE VAMOS ANDANDO


Várias vezes nos acontece, algo de inesperado, um furo num pneu da nossa viatura, ainda que seja um coche novo ou uma bomba de pneus largos e pujantes.

E, vai daí, não nos apercebemos do motivo porque furou, um furinho impercetível, e sempre do lado direito…

Aconteceu-me há poucos meses, a uma velocidade não aconselhável, no Algarve, na autoestrada.

Mas, penso eu de que… se deve também ao desgaste devido a algumas anomalias originadas pela irregularidade dos pisos das calçadas ou junto às bermas das nossas ruas, que, depois, mais tarde, se vai refletir no atrás referido.

Vejamos, por exemplo, a posição em que se encontram alguns paralelepípedos do piso da Avenida 25 de Abril, a seguir à curva junto à Escola Frei Heitor Pinto, em sentido descendente, obviamente que do lado direito. Tive o cuidado de, numa das minhas pequenas caminhadas, avenida acima, verificar in loco o estado do piso. Puxo pelo meu telemóvel e, bumba! – Uma foto!


Estão alguns paralelepípedos em bico, originando danificação dos pneus. Circulando por ali diariamente, bem tento desviar-me…

Convidava os responsáveis pela edilidade a fazerem umas rondas pela cidade, a fim de se aperceberem de pequenos pormenores que se passam, ou existem na via pública, em muros ou edifícios, e que podem pôr em causa o prejuízo de pessoas e bens.

E, outro aspeto, o do inestético, e da perigosidade, como é o caso de alguns recantos de casas demolidas ou a cair, cheias de arbustos e ervas altas, secas, propícias para incêndios, basta uma ponta de cigarro acesa. Para já não falarmos de quintais particulares, devolutos, e não só. Basta tão só subir a Rua Mateus Fernandes!...


E, já agora, seria também de bom tom, que, para além de se poder tropeçar nas ruas, passeios ou estradas, também se evitasse tropeçar no que para aí vemos escrito, nalguns casos, como os dois que apresento, dentre de vários, em que a língua de Camões está muito mal tratada (não se trata de acordo ortográfico, não!), principalmente na nossa Terra que é uma cidade universitária.

Vejam só a placa que identifica o Parque Infantil do Rodrigo, da Comissão de Moradores –  “Sobe a égide”, em vez de “Sob a égide” – ou, então, a placa de saudação a quem visita as Penhas da Saúde, da freguesia das Cortes do Meio – “Benvindo”, em vez de “Bem-vindo”.

Por hoje fico por aqui, antes que apanhe algum tropeção…

(In Notícias da Covilhã, de 12.09.2012)

30 de agosto de 2012

A “Volta” que nos dá a volta


Dois nomes célebres mundialmente, homónimos em Armstrong, ambos norte-americanos, tiveram neste últimos dias destinos diferentes. Lance Armstrong foi erradicado do ciclismo e desapossado das suas sete vitórias na Volta à França, devido a problemas de dopagem. Neil Armstrong, um astronauta que pisou a Lua pela primeira vez, realizando o sonho de muitas gerações, morreu em 25 de agosto, a um sábado. Mas foi num domingo, perto das 20 horas portuguesas, a 20 de julho de 1969, que o módulo lunar lá chegou e Neil afirma, já em solo lunar: “É um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade”.Recordo-me deste dia, pois fui acompanhando os acontecimentos, como milhares de portugueses. Seguia viagem de autocarro, com outros militares, de regresso de fim de semana ao Regimento de Artilharia Ligeira n.º 4, em Leiria, onde prestava serviço militar.

Voltando-me agora para a nossa Volta a Portugal em Bicicleta – “A Volta” – desejo recordar que foi na minha adolescência que se deu um facto algo importante com o entusiasmo dos ciclistas, de passagem pela Covilhã a caminho da meta, então nas Penhas da Saúde.

Nesse dia 12 de julho de 1962, a um domingo, resolvi, pela primeira vez, caminhar pelos atalhos da Serra, conjuntamente com meu irmão, mais novo, e outros covilhanenses, até às Penhas da Saúde, sem autorização dos pais. Viviam-se outros tempos.

Pelo caminho, o entusiasmo que a “Volta” originava, estrada acima, com formigueiros de gente  pelas bermas e atalhos; a passagem das caravanas, a distribuição de bonés e t-shirts, publicidade e alguns brindes; e também muita gente em pontos estratégicos para verem os ciclistas, com as suas merendas. E um sol abrasador. O entusiasmo e o frenesim pelos heróis da estrada, mais conhecidos: José Pacheco, Mário Silva, Sousa Cardoso, Carlos Carvalho, João Roque, pois que Alves Barbosa penso que já não corria, até que, na estrada, bastante distanciado, surge um corredor, como nunca se viu com uma enorme diferença de tempo em relação aos outros ciclistas – mais de 20 minutos –, esse homem era João Centeio, creio que do Águias de Alpiarça.

Este vencedor da etapa das Penhas da Saúde já faleceu. Só a partir de 1971 surgiram as metas na Torre, sendo o primeiro a vencer a etapa, em 1971, o também malogrado Joaquim Agostinho, do Sporting.

Os portugueses é que dominavam, até que, com tantas tentativas, o belga Houbrechts, da Flandria, dá a volta à nossa “Volta” e ganha a mesma em 1967.

Seguem-se cinco anos, na era de Joaquim Agostinho, de novo com vencedores portugueses, para, em 1973, o espanhol Manzaneque, da Messias, estragar a festa dos portugueses… Surge uma dúzia de anos sem a “intromissão” de estrangeiros, agora na era de Marco Chagas e Venceslau Fernandes, até que começa a surgir também a concorrência estrangeira e, então, assistimos este ano a mais um vencedor da estranja – o espanhol David Blanco – que acaba por liderar, no nosso país, o maior número de “Voltas” ganhas – cinco.

A Volta a Portugal em Bicicleta dos últimos anos tem assistido a um entusiasmo acrescido da Liberty Seguros na sua participação muito ativa, onde já teve uma equipa representada. Este ano foi a patrocinadora principal da “Volta” e, por todo o lado, foi a vivacidade das suas gentes que fizeram vibrar mais os portugueses, num grande entusiasmo pelas suas cores, neste país fortemente abatido pelas crises, para as quais os nossos governantes não conseguem encontrar antídoto para os maleitas que a todos os portugueses afetam, melhor dizendo, uma situação mórbida que permanece quase ad aeternum. Enganei-me: alguns portugueses, que devem julgar-se “de primeira”, nunca souberam o que era crise, e eles são sobejamente conhecidos de todos os portugueses. 

Tem sido duma forma salutar que esta multinacional americana tem dado o exemplo de como há ainda muitos portugueses (alguns vindos de empresas do estrangeiro) que sabem incutir formas de trabalhar, onde a gestão de excelência e o trato familiar com todos os seus obreiros são a única forma de andar em contraciclo às crises, arrastando e conseguindo a aderência de multidões, nas várias vertentes de atuação.
E a Volta a Portugal em Bicicleta tem sido um desses grandes exemplos de forte popularidade, notoriedade e entusiasmo por todo o seu mundo de trabalho. Haverá mais explicações para o sucesso?

(In Notícia da Covilhã, de 30.08.2012)

31 de julho de 2012

PORQUE…


No pouco tempo que ando a pé, lamentando tal comodismo, observo, refletindo sobre algo que vejo na minha cidade, umas coisas do meu agrado, outras de torcer o nariz…

Dou graças por ver dois dos meus antigos professores inseridos em placas toponímicas da minha Covilhã.

Manuel de Castro Martins foi um daqueles professores que me incutiu o gosto pela escrita, desde o Ciclo Preparatório, nos finais da década de cinquenta; já sua extremosa esposa, Edite Castro Martins, sem papas na língua, reconheceu que eu sabia mais francês que o Petit que brilhava nas orais…

Porque isto eram outros tempos, do rigor e de quem só passava de ano quem sabia, e se sabia…

Manuel João Calais, arquiteto, outro dos meus professores de outrora, também com direito a uma placa toponímica. É o reconhecimento da cidade a quem à mesma tanto deu do seu saber, da sua vida profissional, e dos estudos feitos sobre monumentos da região.

Duarte Simões, outro dos meus professores, ainda que efemeramente, teve jus a ser inserido em toponímia covilhanense, ele, o responsável pelo ensino superior na cidade.

Já outros nomes me deixam alguma reflexão do porquê de se encontrarem com direito a esta “veneração”. Eu que sou contra o excesso de bairrismo que leva à mentira declarada. Em muitos casos das minhas pesquisas deparei-me com falsidades no que haviam escrito, enfim, era o tempo em que as pessoas se podiam iludir.

Mas um dos meus porquês, é o facto de não reconhecer porque é que a edilidade, teimosa, não confere dignidade de inserção numa das placas toponímicas da cidade, a um Homem insigne e respeitador que deu pelo nome de Padre José Domingues Carreto, devendo o Largo Manuel Pais de Oliveira (quem foi esta figura?), ali mesmo junto ao local onde foi o seu múnus, ser substituído pelo nome do sacerdote que a cidade muito lhe deveu.

Transportando estas minhas observações do setor das ruas da cidade, agora para outros horizontes, vai uma reflexão para o dia em que, na celebração do chamado ferido municipal, se reconhecem, homenageando, determinadas figuras ou instituições citadinas.

Se algumas são, de facto, merecedoras indiscutíveis desse reconhecimento, outras deixam a população a assobiar para o lado quando têm conhecimento dessas decisões camarárias…

Porque até mesmo não fica bem á edilidade anunciar precocemente quem vai homenagear, como tem feito por várias vezes, retirando aos homenageados e à população, aquele pendor de surpresa.

E porque isto de surpresas, neste país desmazelado, já deixam de o ser, tal o hábito a que nos acomodaram nestes brandos costumes; e já que as notícias por antecipação são também como que uma tradição, sou tão só a sugerir o meu ponto de vista, na homenagem que urge seja feita a pessoas e instituições que, certamente nem gostarão de aqui se ver referenciadas, tal a sua humildade, mas cuja missão é credora desse reconhecimento, nomeadamente:

- As Conferências de S. Vicente de Paulo da Cidade, representadas pelo seu Conselho de Zona, que tanto têm trabalhado e solucionado inúmeros problemas a centenas de carenciados, muito deles da pobreza envergonhada;

- O digno arcipreste da cidade, Padre Fernando Brito dos Santos, duma humildade sem precedentes e que na doença não vê obstáculo para um trabalho fecundo em prol de toda a cidade, ele que já deveria ter tido o reconhecido do prelado com a sua nomeação de cónego. Se for necessário levanta-se um mar de jovens de outrora, adultos-jovens de hoje, e também a juventude atual para recordar tudo o que lhe devem, mesmo nos tempos em que o silenciamento era lei.

- José Manuel Amarelo Correia – um homem de envergadura no apoio aos que enveredaram pelo alcoolismo e outros males da sociedade de hoje, num entusiasmo sem precedentes, fundando instituições para o apoio aos mesmos.

Muito haveria que dizer, mas fico por aqui porque o espaço o não permite, deixando contudo ainda muitos porquês por contestar.

(In “O Olhanense” e “Notícias da Covilhã”, de 31.07.2012)

18 de julho de 2012

CONTENTAMENTO DESCONTENTE


Último dia do mês de junho do ano da graça de 2012 - o da "era continuada das crises". 

O autocarro foi a caminho do Estádio do Inatel, em Lisboa, para um encontro com centenas de colegas, suas famílias e amigos, no centenário da multinacional que a todos envolveu.

Alegria, amizade, dinâmica, solidariedade. No final, os motoristas dos autocarros de  Castelo Branco e da Guarda informam, depois de receberem reclamações pela sua ausência, que só podiam circular com as viaturas uma hora mais tarde, e, ao frio, com crianças, lá fomos vendo partir os colegas e sua comitiva para os outros ponto do País. Responsabilidades da "Cosmos", com o regresso, tardio, à uma hora e vinte da manhã.

Na ida, aproveito alguma leitura dos cadernos e revistas do Expresso, que o colega de viagem acabara de comprar na área de serviço de Abrantes. Para além dum texto de Pedro Mexia, delicio-me com a clarividência da escrita desenvolta de Clara Ferreira Alves. E, neste contentamento pelo orgulho e amor-próprio nacional face ao êxito dos homens da redondinha, no Europeu, sem descurar o "nosso" craque, salvador da pátria futebolística, uma “descontente” forma de sentir a glória de um rapaz, na comparação com a desgraça de milhares de seus compatriotas.

E a cronista diz: "Conheço uma rapariga que todos os dias faz quatro horas de transportes públicos para acumular dois salários mínimos. Conheço brilhantes médicos em hospitais públicos quando podiam ter escolhido brilhantes carreiras em hospitais privados. Conheço cientistas e militares com sentido de missão que ganham menos de dois mil euros por mês. Conheço estudantes pobres que não desistem das notas. Conheço estudantes ricos que não desistem de trabalhar como se fossem pobres. Conheço jovens atletas que treinam fora das horas de estudo e trabalho por uma medalha. Sei de jovens idealistas em balcões e call-centers, velhos dignos que comem uma vez por dia, imigrantes explorados que trabalham sete dias por semana para poderem ganhar mais. Sei de gente doente que todos os dias vai a luta e de gente sã que não desiste da gente doente. Sei de gente que sofre em silêncio e de gente que silencia o sofrimento dos outros aliviando-o".

E, ainda: " A proeza física do grande entretenimento que é o futebol ainda é mais admirada do que o Prémio Nobel da Medicina ou da Literatura".

Para terminar: "Vemos o nosso deus, o nosso herói, o nosso Hércules, o nosso Aquiles, o nosso Alexandre, enfiar bolas numa baliza e ensaiar uns passos de dança mitológica". "(...) O que ninguém quer saber é dos pequenos heróis do quotidiano quando ali, naquele instante de glória coletiva, o nosso Ronaldo marca um golinho, E assim, um rapaz de vinte anos, com umas pernas dotadas e um cabelo descampado, tornou-se o carregador oficial da bandeira e do amor-próprio de um país desesperado e humilhado. Faz sentido? Na verdade, o talento do rapaz é dele, mas foi apurado nas melhores equipas estrangeiras em países estrangeiros que lhe pagam o suficiente para ele poder estoirar Ferraris e top models, comprar filhos na América, comprar uns amigos que atiram pessoas ao Tejo quando estão chateados, fazer casas com o Souto Moura e, de um modo geral, ganhar o dinheirinho do BES e viver como um princepezinho".

Os gregos, com um papel importante na história e na cultura do mundo, esvasiaram-se do seu contentamento e, nalgumas mentes de hoje, talvez lhes tenham surgido o pensamento de uma "ressurreição". Se se pudessem levantar dos seus túmulos os filósofos Sócrates (nada de confusões...), Platão, Aristóteles, Ptolomeu, Diógenes, para poderem, duma forma eloquente, dizer à senhora Merkel que a  pujança da Alemanha é humilhante para o resto da Europa que está arruinada, cada vez mais em cada dia que passa, seria um grande lenitivo para as gentes gregas, e não só! Não queremos uma ditadura europeia.

No descontentamento dos cortes das pensões e dos salários na função pública, veio agora a satisfação pela decisão do Tribunal Constitucional, já que Cavaco Silva, como já nos habituou, não passa tão só duma cabecinha pensadora,  e, então, encolhe os ombros nas decisões que devria tomar em tempo oportuno.

No contentamento dos “novos oportunismos” de licenciaturas, mais um caso para ver como vai o Parlamento, o Governo, o País, cheio de doutores da mula ruça. Outrora, orgulhosamento líamos nos livros da instrução primária: Portugal é um país de escritores, de cientistas, de sábios e de santos. Hoje, é um Portugal de muitos chicos-espertos, de oportunistas, de mentirosos e de corrompidos. Vale a pena meditar!

( In jornal Olhanense, de 15.05.2012 e Notícias da Covilhã, de 18.07.2012)