14 de março de 2013

ALGUMAS FIGURAS NOTÁVEIS, E FACTOS COVILHANENSES, ATÉ AO SÉCULO XIX.


Considerando-se como mais recente a fundação da Covilhã no ano 690 (embora existam versões de uma maior antiguidade), a mesma veio a surgir junto aos pomares a que se dava o nome de “Ladeira de Mártir-In-Colo”. Com o seu contínuo desenvolvimento foi-se alastrando pela montanha; devendo-se tal facto ao Conde Julião. Teve uma filha muito formosa – Florinda – nascida no ano 692 e, quis o pai, segundo alguns historiadores, dar então o nome a esta terra, em sua homenagem, batizando-a de Cova Juliana. No entanto, segundo reza a história, a rapariga foi violada pelo último rei godo, D. Rodrigo. O pai de Florinda prometeu vingar-se e abriu as portas aos mouros que tomaram a região e estes passaram a chamar Cava a Florinda, que quer dizer “mulher perdida”.
Daí se presume, na toponímia covilhanense, a razão de se ter dado o nome ao Bairro do Rodrigo e Rua do Rodrigo, aliás, na zona sul da cidade, tal como a zona de Mártir-In-Colo, a que os novos ventos quiseram batizar de zona da Goldra.

Em setembro de 1186 surge o Concelho da Covilhã, pelo foral que lhe foi dado por D. Sancho I, confirmado por seu filho, D. Afonso II, em Coimbra, no ano 1217, e por D. Dinis, em 13 de janeiro de 1303. Entre 1202 e 1207, D. Sancho I várias vezes residiu na Covilhã. O segundo foral, foi concedido por D. Manuel I, em 1 de junho de 1510, conservando todos os antigos privilégios.
A Rua D. Sancho I, na Covilhã, tem, pois, muita razão de existir.

Em 25 de julho de 1260, por carta régia de D. Afonso III, mandou fazer feira anual de 15 dias na vila da Covilhã.

Em 27 de maio de 1411 D. João I concede à Vila da Covilhã uma feira franqueada anual, de vinte dias, pelo Santiago.

No ano de 1415 foi atribuído por D. João I, a seu filho, o Infante D. Henrique, o Senhorio da Covilhã.

Em 1453, D. Afonso V declara a Covilhã uma das principais povoações das Beiras.

Em 7 de maio de 1487, Pero da Covilhã e o albicastrense Afonso de Paiva partem de Santarém, por terra, para a Etiópia, com a finalidade de procurar o Preste João e colher informações sobre a navegação e o comércio Índico. Esta missão foi-lhe confiada por D. João II a fim de obter dados necessários à preparação da viagem de Vasco da Gama à Índía.
Penso já ter existido, na Covilhã, uma Rua Pero da Covilhã; contudo, são, de facto, pertinentes a estátua a Pero da Covilhã, no Pelourinho, assim como os nomes da Escola Básica do 2.º Ciclo Pero da Covilhã, Agrupamento de Escolas Pero da Covilhã e Hospital Pero da Covilhã, na Covilhã. E, também a Rua Vasco da Gama.

Em 7 de junho de 1498 foi martirizado em Calecute, Frei Pedro da Covilhã, que foi o primeiro mártir cristão no Oriente. Foi para a India na primeira armada de Vasco da Gama, como capelão.

Em 3 de março de 1506 nasceu em Abrantes o Infante D. Luís, quinto filho de D. Manuel I. Viveu alguns anos na Covilhã. Mandou edificar a Capela de Santa Cruz, também conhecida por Capela do Calvário. Dos amores que teve com uma linda judia covilhanense, de nome Violante Gomes, conhecida por “a Pelicana”, nasceu D. António, que viria a ser Prior do Crato, que por não ser filho legítimo, não conseguiu suceder a D. Sebastião.

Em 10 de abril de 1515 faleceu Mateus Fernandes, natural da Covilhã que foi um dos arquitetos do Mosteiro da Batalha, a ele se devendo a majestosa porta e entrada para as Capelas Imperfeitas, considerada um dos expoentes máximos da arquitetura portuguesa. Reinados de D. João II e D. Manuel I. Tem todo o cabimento a existência da Rua Mateus Fernandes, por sinal, onde eu resido.

Em dezembro de 1517, Ruy Faleiro, sua mulher Eva Afonso, e seu irmão Francisco, dão entrada em Sevilha, vindos da Covilhã onde eram naturais. Dedicaram-se estes irmãos ao estudo e determinação das coordenadas geográficas, sobretudo longitudes, modificando os astrolábios da época, e tornando assim possíveis as viagens marítimas de longo curso com cálculos de maior exatidão. Estes dois cosmógrafos estiveram muito ligados a Fernão de Magalhães e à sua epopeia, trabalhando ao serviço de Espanha por o rei D. Manuel I ter rejeitado os seus serviços em Portugal. Por motivo de doença, Rui Faleiro não pôde acompanhar Fernão de Magalhães na sua viagem de circum-navegação, conforme estava previsto.
A Rua Ruy Faleiro é, assim, com muito mérito, uma das ruas mais antigas, e mais frequentadas, na cidade covilhanense.

No ano de 1528 nasceu na Covilhã Frei Heitor Pinto. Considerado um dos mais notáveis escritores clássicos portugueses do Séc. XVI, com as suas obras traduzidas em cinco línguas. Ardente defensor da independência nacional, declarou-se partidário do Prior do Crato, aquando da dominação espanhola, o que lhe trouxe como consequência a sua expulsão para Espanha por ordem de Filipe II, onde morreu. Em 1563 foi publicado em Coimbra o 1.º volume dos famosos “Diálogos” deste grande humanista e profundo conhecedor do latim, do grego e do hebraico. A principal obra destes “Diálogos” foi a “Imagem da Vida Cristã”, tendo-se publicado 13 edições em português, para além de 22 em espanhol, 6 em francês, 3 em latim e 2 em italiano. Um grande filósofo referiu-se assim a esta obra: “Quem quer ver uma verdadeira imagem da eloquência do divino Platão e do eloquentíssimo Cícero, leia os “Diálogos” deste autor”. Em 1572, Frei Heitor Pinto escreveu a segunda e última parte da sua obra “Imagem da Vida Cristã”. Faleceu em Sisla, perto de Toledo, em 1584, ao que parece, envenenado.
Existe na Covilhã, em sua homenagem, a Avenida Frei Heitor Pinto, um das ruas nobres da cidade.

Em 26 de junho de 1538 teve começo o primeiro cerco de Diu em que se distinguiu pela sua coragem e valentia o covilhanense Fernão Penteado. Tem também o nome de uma rua – a Rua Fernão Penteado.

Em 5 de março de 1550, foi sagrado Bispo da Guarda, o covilhanense D. Cristóvão de Castro. Foi Deão da Capela Real de D. João III e Capelão-mór da Infanta D. Maria. A ele se deve o majestoso retábulo da Sé da Guarda. Faleceu no ano 1522 e está sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, da Covilhã. Existe assim, na cidade, também a Rua D. Cristóvão de Castro.

Em 6 de junho de 1570 D. Sebastião conferiu à Covilhã o título de “notável” em memória dos grandes serviços prestados à coroa.

Em 15 de julho de 1570, nos mares das Canárias, foram trucidados e arrojados ao mar, ainda vivos, os chamados “quarenta mártires do Brasil”, onde seguiam Santo Inácio de Azevedo e companheiros, entre eles o covilhanense, Beato Francisco Álvares, que, antes de entrar na Companhia de Jesus (21/12/1564) foi cardador de profissão. Existe também a Rua do Beato Francisco Álvares.

Em 12 de maio de 1580, Filipe I confirma á Vila da Covilhã os privilégios, liberdades e mercês que os reis seus antecessores lhe haviam concedido.

Em 10 de abril de 1619, no reinado de Filipe II, a Câmara de Lisboa fez contrato com o covilhanense Paulo Domingues, oficial de nevoeiro, que consistia em levar para a capital 96 arrobas de neve da Serra da Estrela para fornecimento diário entre 1 de junho de 30 de setembro. A neve retirada da serra, ia em carros até à Barquinha, e daí em barcos até Lisboa. Mal chegava à cidade, era guardada em poços, havendo um junto do Convento da Graça e outro no Castelo de S. Jorge. Em 1714 já se vendiam sorvetes de vários gostos e preços, sendo o de limão o mais barato.

Em 4 de setembro de 1646, D. João IV faz graciosas concessões à Câmara da Covilhã.

Em 28 de novembro de 1673, por ordem do príncipe regente, mais tarde D. Pedro II, vieram de Inglaterra cinco mestres para as fábricas de panos da Covilhã. Era ao tempo vedor da Fazenda D. Luís de Meneses, 3.º Conde de Ericeira, e a ele se deve o incremento da indústria de lanifícios quer pela implantação de mais fábricas nesta vila quer pelo desenvolvimento tecnológico proporcionado. Daí toda a pertinência de existir, na Covilhã, a Rua Conde de Ericeira.

Em 1710, D. João V ordena que na Vila da Covilhã se fabriquem todas as fardas para o seu exército.

Em 19.11.1749 nasceu na Covilhã D. José Valério da Cruz, sendo sagrado bispo de Portalegre em 1799. Foi eleito deputado às Cortes Ordinárias de 1822, pelo círculo da Guarda. Foi ainda escritor e faleceu em 17.7.1826. Existe na Covilhã, a Rua D. José Valério da Cruz.

Em 1750 foi destruída a forca da Covilhã, por um almotacel, que ficava situada em Santo António, na parte inferior do convento.

Em 1761 D. José I ordenou a construção da Real Fábrica de Panos onde atualmente se encontra instalada a Universidade da Beira Interior. E, em 1763/64, o Marquês de Pombal deu grande desenvolvimento à marinha, à agricultura e à indústria, nomeadamente à indústria de lanifícios na Covilhã, Fundão e Portalegre. Em 12 de maio de 1769 D. José I deu ordens ao superintendente da Real Fábrica de Panos para utilização da pedraria caída dos muros do Castelo, aquando do terramoto de 1755, e destinada á construção daquela fábrica.
Existe na Covilhã a Rua Marquês de Pombal, na freguesia de S. Martinho.

Em 29 de março de 1792, nasceu na Covilhã José Mendes Veiga que viria a ser figura exemplar da indústria de lanifícios. Possuidor de inestimáveis qualidades de trabalho, o seu nome está ligado a todos os melhoramentos introduzidos na indústria naquela época tal como a instituições de caráter social. O valor do seu trabalho foi reconhecido por D. Luís I que o agraciou com o grau de Comendador da Ordem de Cristo. Faleceu em 26.02.1872. Na Covilhã existe a Rua Comendador Mendes Veiga.

Em 1 de janeiro de 1805 nasceu na Covilhã Gregório Nunes Giraldes que foi um grande industrial. Com José Maria da Silva Campos Melo reedificou a “Fábrica Velha”. Faleceu em 1888. José Maria da Silva Campos Melo, este nasceu na Covilhã em 20.08.1808, e que viria também a ser grande negociante e chefe da indústria fabril.
Dedicou todo o seu esforço e saber em prol da indústria covilhanense, podendo afirmar-se que a ele se deve o não ter desaparecido por estas paragens a velha indústria de lanifícios que haveria depois de desenvolver-se e desabrochar através dos tempos. E em 28.3.1864 foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem de Cristo. Faleceu em 3.3.1866. Seu filho foi José Maria Veiga da Silva Campos Melo, e seu genro, Dr. Manuel Nunes Geraldes. Muita gente confunde o Comendador Campos Melo, de seu nome completo, José Maria da Silva Campos Melo, com o de seu filho, José Maria Veiga da Silva Campos Melo, pois, para além da semelhança de nomes, ambos estiveram ligados à indústria de lanifícios. O primeiro foi continuador de uma indústria arcaica, mantendo em laboração, em copropriedade com seu cunhado, Gregório Geraldes, a antiga Fábrica Real, fundada por D. Pedro II em 1678; o segundo foi o impulsionador da modernização e introdutor da mecanização da indústria de lanifícios e fundador da nossa Escola Técnica, conhecida por Escola Industrial. O filho de José Maria Veiga da Silva Campos Melo foi José Maria de Campos Melo, nascido em 19.10.1874 que veio a ser um dos grandes Comandantes dos Bombeiros Voluntários da Covilhã. Estudou em escolas técnicas de lanifícios na Bélgica e em França, fixando-se depois na Covilhã, onde veio a tomar a direção técnica da “Fábrica Velha”. Foi o 2.º diretor da Escola Industrial, e seu professor, escola fundada por seu pai, José Maria Veiga Silva Campos Melo. Como escritor, publicou, entre outros, os seguintes livros: “Lãs e Lanifícios” e “Manuel do Fabricante de Tecidos”. Foi técnico industrial. Criou a disciplina de Matérias-Primas para a qual escreveu um livro. Foi eleito 1.º Comandante dos BVC em 11 de janeiro de 1899 cargo que ocupou até 11 de maio de 1920. faleceu em 8 de maio de 1925. Foi durante o seu Comando que surgiu o Incêndio da Mineira, na madrugada de 14 de junho de 1907, um dos maiores incêndios de sempre, e onde se destacaram, com grande bravura, vários bombeiros e mormente o 2.º Comandante Jerónimo José Monteiro e Sebastião Santos Júlio, tendo estes depois sido agraciados com a Medalha de Prata de D. Maria II, para distinção e prémio concedido ao Mérito, Filantropia e Generosidade, devido aos atos de verdadeira coragem, arrojada dedicação e com risco das próprias vidas, haverem conseguido salvar oito pessoas do incêndio.
Em 5 de janeiro de 1824 nasceu na Covilhã Francisco Joaquim da Silva Campos Melo, a quem foi dado em 21 de setembro de 1870 o título de 1.º Visconde da Coriscada. Fazia parte do Conselho de D. Luís I e era Fidalgo-Cavaleiro de sua Real Casa. Foi industrial de grande valor, Presidente da Câmara Municipal, escrivão da Misericórdia, etc., tendo deixado o seu nome ligado a muitas obras de caridade, nomeadamente à Associação Protetora da Infância da Covilhã (Asilo), da qual foi o seu principal fundador. Faleceu em 13.05.1876. Era irmão do Comendador Campos Melo, tendo casado, por duas vezes, face a uma viuvez, com duas sobrinhas, filhas de cada um dos seus irmãos.
Pois, é jus a existência, na Covilhã, da Rua Comendador Campos Melo e da Rua Visconde da Coriscada, que quase se cruzam entre si, assim como existe a Rua Gregório Geraldes.

Em 1 de janeiro de 1806 nasceu o covilhanense Manuel Morais da Silva Ramos, conhecido por “Morais do Convento” por ter adquirido o Convento de Santo António. Ourives, gravador e abridor de cunhos, foi homem de rara habilidade. Foi Cavaleiro das Ordens de S. Maurício e S. Lázaro e condecorado com a medalha de D. Pedro IV. Faleceu em 26.9.1872. Tem também nome de rua na cidade laneira, agora universitárfia.

Em 1835 nasceu na Covilhã o Dr. António dos Santos Viegas, glória da Covilhã, da ciência portuguesa e da Universidade de Coimbra de que foi um dos mais ilustres catedráticos. Foi mestre doutíssimo da cadeira de Física daquela Faculdade durante mais de cinquenta anos. Eleito deputado pela Covilhã, foi Conselheiro de Estado, Par do Reino e encarregado pelo Governo de várias comissões científicas ao estrangeiro. Pelo governo francês foi distinguido com o Grau de Cavaleiro da Legião de Honra e pelo Governo português com a Grã Cruz da Ordem de Santiago.
Na Covilhã existe a Rua Conselheiro António Santos Viegas.

Em 16 de outubro de 1873 foi inaugurado o monumento a que foi dado o nome de “Palmatória” para comemorar a data de abertura da estrada das Pedras Lavradas que liga a Covilhã à cidade de Coimbra. Esta rua que, no tempo da monarquia ainda era a Rua Marquês d’Ávila e Bolama, é, agora, a Avenida da Universidade.

Em 8 de dezembro de 1889 nasceu na Covilhã José da Conceição Ramalho. Muito novo, criou o jornal “O Tipógrafo” mas foi no semanário “O Raio” que fundou em 1923 que se revelou grande defensor das classes mais desfavorecidas. Faleceu em 28.03.1943. Tem o seu nome ligado à toponímia covilhanense, através da Rua José Ramalho, antiga Calçada Alta.

Em 9 de outubro de 1896 nasceu na Covilhã Ernesto de Campos Melo e Castro. Formado em engenharia químico-industrial pelo I.S.T. de Lisboa desenvolveu grande ação pedagógica na Covilhã tendo sido diretor da Escola Industrial e Comercial Campos Melo durante 36 anos. Figura interessada pela artes em geral cultivou em particular a música, efetuando nas décadas de 30 e 40 uma recolha de música popular da Beira Baixa. Faleceu em 10.08.1973. Foi pai do escritor covilhanense Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro e avô da cantora covilhanense Maria Eugénia de Melo e Castro (Geninha Melo e Castro).

Em 4 de março de 1899 foi inaugurado o Teatro Caleya na Covilhã, que ficava situado no Largo do Peso da Lã.

Em 20 de março de 1899 nasceu em Casegas, do concelho da Covilhã, Monsenhor Joaquim Alves Brás que dedicou grande parte da sua vida ao problema das mulheres desamparadas e em especial às empregadas domésticas. A ele se deve a criação de lares e pensionatos de recolha e raparigas abandonadas que se desenvolveu por todo o País e estrangeiro, sob a designação de Casas de Santa Zita. Foi escritor e jornalista, tendo falecido em 13.3.1966.

Em 28.10.1900 nasceu na Covilhã Eduardo Malta tendo completado o seu ensino na Escola de Belas Artes no Porto, terminando o curso aos 17 anos, devido à extraordinária habilidade que já revelava.
A sua atividade repartiu-se pela ilustração, obras literárias, pintura e desenho, mas foi na arte do retrato que se afirmou como figura inconfundível da sua geração. Pintou cerca de mil retratos tendo feito exposições no País e estrangeiro. Galardoado com vários prémios, obteve a Medalha de Ouro da Exposição Internacional de Paris em 1937, entre várias outros prémios nacionais e estrangeiros. Faleceu em 31.05.1967.
Na Covilhã, junto ao local onde nasceu, existe o Largo Eduardo Malta.

JOÃO DE JESUS NUNES
jjnunes6200@gmail.com

 (Uma síntese deste texto fez parte da pequena palestra de hoje, 14.03.2013, que apresentei na Tertúlia dos Combatentes, na Qta da Hera, às 13,00. Vai ser publicada, integralmente, mas por duas fases, nas próximas duas edições, quinzenais, do Jornal "O Olhanense", dias 15.03.2013 e 01.04.2013).

20 de fevereiro de 2013

OPÇÃO


Numa roda-viva, vamos assistindo na nossa Cidade, e para além da mesma, ao anunciar dos “convidados” para a grande festa, depois de levantada a cortina caída sob o palanque do evento.
Mas ainda haverá outros “convidados”, mais atrasados, no vestir das túnicas; um ou outro já pensa ter direito à barretina.
E, vai daí, que na assembleia dos mordomos, alto lá, “quem manda aqui sou eu!” Qual Catão, na sua expressão “Delenda est Carthago”…
Nós, não correligionários, vamos, no entanto, ver a festa, nem que seja para apanhar as canas dos foguetes, e, com elas, fazermos umas “caravelas” para o vento serrano fazer girar.
Já neste ano de 2013, depois de Cristo, ouvimos algumas estórias para a nossa história política covilhanense, abocanhadas por uns, apoiadas por outros.
Ficámos, assim, numa certa perplexidade sobre a festa, e, talvez acometidos duma amnésia, quase que perdemos o significado de duas palavras paradoxais, tema desenvolvido na mesma: Democracia e Ditadura.
Amparados na bengala dos nossos amigos dicionários, lá fomos descobrir: “Democracia” é um sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade; governo em que o povo exerce a soberania, direta ou indiretamente. E, “democrata” a pessoa que perfilha os ideais da democracia, da igualdade de direitos dos cidadãos e da liberdade individual. Por outro lado, “ditadura”, a concentração de poderes do Estado numa só pessoa, num partido único, num grupo ou numa classe que o exerce com autoridade absoluta; sendo que “ditador”, entre outras, surge a definição de pessoa muito autoritária, que atua com prepotência, como se tivesse poder absoluto sobre as pessoas ou as coisas.
E, como em tudo, não é preciso parecer, torna-se necessário ser, ficámos perturbados pelo facto de, numa dessas assembleias de mordomos, da grande festa, com o caldo entornado, fossem lançadas pedras uns aos outros quando, na realidade, podiam ter aproveitado as bolas de neve que há pouco tempo caiu no norte da cidade. Sempre refrescavam um pouco o acalorado de alguns mordomos.
Abaixo dos mordomos, uma outra classe, a que já ouvimos chamar de “lacaios”, emergiu nas oportunidades de ocasião. Não era estranho quando os víamos na evidência, e na exuberância de palavras bonitas, não inspiradas, antecipando-se em vivas ao “Papa” cá da terra.
Numa página inteira dum semanário da Cidade e da região (terá custado muito dinheiro ao armazém dos mordomos), o mordomo-mor denuncia a atitude dos revoltosos, e “chora” a impossibilidade de não o deixarem aprovar deliberações urgentes.
Na nossa imaginação, ficamos a pensar se a mea culpa seria pertença da parte ditatorial ou da democrata, ou se estaríamos já numa tal república das bananas.
Uma pedrada foi atingir um mordomo por ser repetente na insistência a mordomo-mor, na convicção que continuará a ser sempre repetente… Pois é, Lula da Silva também foi repetente, repetente, e depois acabou por ser um grande Presidente!
Bom, fiquemos por aqui, e que os Covilhanenses se lembrem que em março se completam quarenta anos em que a radionovela “Simplesmente Maria” começou a ser transmitida na Rádio Renascença, de segunda a sexta, entre as 13,30 e as 14,30, tendo “mexido” de facto com a sociedade nessa altura. Aquele folhetim era uma história bonita e ninguém previa que tivesse uma explosão de audiências que teve, tendo, inclusive, atravessar a Revolução dos Cravos, até novembro de 1974.
Esperemos que a atual telenovela covilhanense se transforme num folhetim como o “Simplesmente Maria”, transbordante de entusiasmo por alguém que se transforme no verdadeiro ator, que saiba o melhor a fazer para o futuro desta Terra que se chama Covilhã, respeitado e respeitador, e que saiba o significado das palavras que o senhor dicionário nos veio esclarecer.

(In "Notícias da Covilhã", de 20.02.2013)

13 de fevereiro de 2013

GENTES D’OUTRORA – VIZINHOS AMIGOS


É tal o fluxo de informação, proveniente dum acumular de centenas de jornais e revistas, algumas já extintas, como a “Flama”; milhares de “recortes” que fazem as delícias das minhas memórias, para além das que ainda se retêm em mim; que me leva a alguma dificuldade no tema de opção para uma crónica, ou um pequeno escrito.
Se a notícia em papel deixar de existir, face à cada vez maior ameaça on line, já não poderei sentir o cheiro da tinta do jornal, nem o apalpar das suas páginas, bem como a simpatia de quem diariamente me entrega o mesmo, quer seja a Luísa ou o Sr. Neves, quer, aos sábados e domingos, no “Repolho”, aquele maravilhoso pessoal, onde, por vezes, em tempo de forte temporal, até um habitual cliente me socorre a evitar-me duma molhadela intempestiva. Sou entretanto um otimista – o jornal-papel jamais acabará!
Mas se o tema que dou ao texto se intitula de vizinhança de outros tempos, percorro um caminho desde a infância, iniciada lá para a zona altaneira da Pousadinha, da então freguesia de Aldeia do Carvalho, hoje Vila, tendo em conta não todos, mas os vizinhos mais marcantes.
Foi no início dos anos cinquenta do século passado que, naquele local, o vizinho Mário, filho do João Borralho, um jovem que ainda não tinha ido “às sortes”, o víamos passar no regresso do seu emprego, de lancheira na mão, e, sorridentemente, nos cumprimentava. Certo dia nos contentou com uma caixa grande de fósforos, cheia de grilos. Tinha sido um atrevido pedido meu e de um irmão. Mas, pouco tempo depois, um destino fatal lhe roubaria a vida de jovem feliz, devido a uma queda, num lajeado perto da porta, quando, de noite, transportava às costas um feixe de lenha. Sem iluminação elétrica naqueles tempos, só se ouviam gritos. À luz de archotes, naquela noite cerrada, um formigueiro de gente, daquela zona, quase em socalcos, se dirigia para o local do acidente. Outros tempos! Havia depois os vizinhos Mário Eufrásio, e as suas filhas: Lucinda, Maria José e Maria dos Anjos.
Na Covilhã, onde passei a morar, a partir dos seis anos, é em duas ruas que conheci outros vizinhos. No Beco das Lajes, a Santa Maria, onde estive pouco mais de cinco meses, foram a D. Ritinha e a família Melchior, principalmente as filhas do casal: Adelaide, Antonieta, Otília e Estrela, sendo certo que as três últimas ainda hoje mantêm memórias desses tempos de antigos vizinhos, não obstante a distância do tempo. É obra!
Mas foi na Rua Vasco da Gama, junto à Escola Industrial, onde passei o tempo de saudade de uma outra boa vizinhança. Para além do casal Matos (Sr. Manuel e D. Isaura), já falecidos, e o filho Alberto Matos e mulher Aninha, foi na pessoa da D. Patrocínia Velozo, e seu sobrinho João Madeira, este que foi antigo Presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria (ambos já falecidos), que sobressaíram na amizade entre pessoas que viveram perto uns dos outros e, algumas vezes, comungando das mesmas alegrias e tristezas. Aqui vivi durante o período de estudos até ao serviço militar e conheci os primeiros amigos para brincar e jogar com a bola de farrapos, no meio da rua, só parando quando passava a polícia. Outros tempos… O Quim Rainha, o Zé Fazenda, o Olívio, o Carlos, o João e o Zé Carrega. Éramos seis irmãos (três rapazes e três raparigas). Das moças vizinhas, as que agora vêm à memória eram a Carminha Cunha, a Hermínia e a Maria José Duarte.
A minha saudosa vizinha, D. Patrocínia Velozo, suportava a barulheira que os seis irmãos, no andar superior, ainda crianças, lhe ocasionavam. Lá nos levava várias revistas que o sobrinho lia – “O Século Ilustrado”, já que o jornal “A Bola” tinha ainda o formato grande. Mais tarde, andava eu no Ciclo Preparatório, era quem escrevia as cartas da D. Patrocínia, dirigidas para a sua irmã que vivia no Estoril e cujo marido trabalhava no casino. Quando lá ia passar férias, trazia-nos bolas de ténis, com que eu me deliciava a jogar nos intervalos das aulas da Escola Industrial, com os colegas, no campo triangular e areado, à altura. Quando chegava a casa com as solas dos sapatos gastas, era uma arrelia em minha casa.
No prédio em frente, mais abaixo, onde depois passou a residir a D. Patrocínia, imóvel de sua propriedade, morava o casal Ranito (João Ranito e D. Gabriela), sendo que o filho António Ranito foi meu colega na Escola Industrial. Todos já faleceram mas a D. Gabriela Ranito, também antiga vizinha amiga, viria a deixar o mundo dos vivos já com idade avançada, e, quis o destino, na mesma semana em que tal ocorreu também a minha Mãe. No dia em que D. Gabriela faleceu, estava na Igreja do Rodrigo a perguntar por mim, a minha Mulher, para me apresentar as sentidas condolências, quando, num ápice, caiu para o lado e partiu para o outro destino da vida.

(In "Notícias da Covilhã", de 13.02.2013)

23 de janeiro de 2013

ESTE ANO QUE SE SEGUE


“Isto é que vai uma crise... Este País é um colosso, tá tudo grosso, tá tudo grosso…” Este refrão cantava Ivone Silva, emparelhando com Camilo de Oliveira, num dos seus números de revista, já lá vão uns anos. E continua atual! “Ai Agostinho, ai Agostinha, que rico vinho, vai uma pinguinha. Este País perdeu o tino, a dar ao fino, a dar ao fino”.
Para quando é chegada a altura de soltarmos o grito de Ipiranga, ainda que numa de nostalgia dum passado longínquo? Da incompetência ao descaramento, de tudo vai um pouco, santo Deus! Até já os angolanos gozam no ridículo de uma licenciatura, caricata, dum ministro português (as notícias de escárnio inserem-se no Jornal de Angola, no período de veraneio de 2012, sob a forma humorística…).
Não somos senhores da nossa independência. Portugal vê-se reduzido a uma espécie de protetorado e, por isso, sonhamos com o grito de D. Pedro IV, nesta triste situação para um país que se orgulha de ter aberto as portas para o mundo.
Estes nossos atuais governantes, assim como os de um passado recente, fazem lembrar o célebre assalto ao comboio-correio, ocorrido há cinquenta anos, na ligação de Glasgow para Londres, tal a forma como assaltam os bolsos de todos nós, quer sejamos da classe média, remediados ou pobres.
E, por isso, é bom lembrar que os portugueses já tiveram ocasiões de se vingarem duma forma audaz e de sentido patriótico. Em 6 de dezembro de 1383 um grupo de nobres, encabeçados por D. João, mestre de Aviz, terminaram com a situação que se vivia no País, pois a paciência contra aqueles que pretendiam vender Portugal a Castela estava esgotada. Vivemos de facto num estado de direito, mas também D. Leonor Teles se considerava legítima rainha e os heróis da primeira revolução portuguesa não pensaram assim. Afirmavam que o poder da rainha D. Leonor era ilegítimo porque não defendia o interesse nacional, efetuando uma utilização abusiva do poder. É o que se passa atualmente, com uma caterva de corruptos e figurões dotados de uma chico-espertinice portuguesa congénita, a sorrirem-se para a ineficácia dos nossos tribunais.
Mas podemo-nos também lembrar do 1 de dezembro de 1640, decorridos mais de dois séculos e meio daquela primeira revolução, em que os quarenta conjurados acabaram com o domínio filipino de seis décadas da “troika” espanhola daquela tempo.
Este País não está a ser para todos, mas, todos, os de bom senso, devem exigir que o sol estenda os seus raios para todos, sem exceção; e, as chuvas, sirvam para matar a sede também de todos.
Já um dia Eduardo Prado Coelho afirmava que “pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais que o euro. Um país onde ficar rico de noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais”.
Neste 2013 vamos continuar a ter um Presente sacrificado em nome de um Futuro que nunca mais chegará, este Futuro que mais não é que uma esperança, permanentemente diluída na dureza da realidade.
Mas, todos nós, os que neste momento sofremos as vicissitudes deste presente envenenado do Presente, que os atuais governantes nos oferecem, temos tanto direito a ser felizes quanto as gerações vindouras! Por isso, a nossa raiva é grande, face a esta incomensurável falta de respeito de tantos meninos que nos desgovernam. Pois, segundo E.M. Forster, “A tolerância é uma virtude muito pouco interessante. É aborrecida. Ao contrário do amor teve sempre má publicidade. É negativa. Significa apenas aturar os outros e ser capaz de aguentar as coisas”.
Se, problemas idênticos já se verificavam no século XIX, com situações muito atuais reclamadas, à época, por Eça de Queirós, constatamos, assim, a incapacidade dos portugueses de se saberem auto governar. Isto também numa altura desta grave crise em que, se a zona euro voltar a espirrar, o mundo constipa-se. Os países emergentes já abanam o poder dos gigantes americanos.
O maior problema desta crise é que nunca, na história moderna, tivemos tanto endividamento quanto aquele que hoje existe, com números estarrecedores (120% do PIB).
Com os olhos bem abertos, firmes como rochas, e exigentes, que mais não seja, pelos valores da vida, procuremos dar um rumo de encontrar a luz ao fundo do túnel, neste ano vigente, já que a luz vermelha se encontra ainda acesa no semáforo das nossas vidas de cidadãos portugueses. 

(In "Notícias da Covilhâ", de 23.01.2013)

3 de janeiro de 2013

A LONGEVIDADE DE UMA CONFERÊNCIA VICENTINA

Parece que ainda há pouco tempo celebrámos, com simplicidade, mas com muita fé, o centenário da Conferência de S. Vicente de Paulo, da Paróquia da Conceição, da Covilhã, e já estamos a caminho de mais uma década.
Efetivamente, se são momentos difíceis os que hoje atravessamos, numa situação generalizada de crise, não só financeira mas também de valores, os tempos em que foi fundada esta Conferência, na já longínqua 5ª Feira de 19 de março de 1903, também não eram melhores.
Jantar de Natal do Conselho de Zona da Covilhã.
Vinha-se do crepúsculo do século XVIII, com o predomínio de um anticlericalismo que grassava pela Europa e bafejava já Portugal, para depois engrossar num ódio pela religião católica, nos primeiros anos da República que se haveria de implantar em Portugal, volvidos sete anos.
No ano em que vamos lembrar estas onze décadas da nossa Conferência, será também o mesmo em que todo o Mundo católico irá comemorar dois séculos do nascimento do fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, o italiano beato Antoine Frédéric Ozanam. Ele, que com mais seis jovens universitários, fundou em maio de 1833 a Conferência da Caridade, a qual, a partir de 1835, passaria a ter a designação atual.
O ano 2013 vem rico de efemérides na vertente da Caridade, se atentarmos que também se devem ter em conta os 180 anos da criação da primeira Conferência, em França; e ainda os 160 anos da morte de Frédéric Ozanam, que ocorreu em 8 de setembro de 1853.
A Covilhã sempre teve um grande espírito caritativo, sendo de notar que já completaram o seu centenário mais algumas Conferências de S. Vicente de Paulo da Cidade, mas sabe-se que a da Conceição jamais teve interrupção no seu percurso de bem-fazer ao próximo. Atualmente é a que assiste maior número de necessitados, nas várias vertentes de pobreza.
Esta Conferência (da Paróquia da Conceição) embora não tenha sido das primeiras a ser criada em Portugal, já que surgiu volvidos 44 anos da primeira Conferência no nosso País (mais propriamente na Igreja de São Luís de França, em Lisboa, no ano de 1859), é, no entanto, das mais antigas, se tomarmos em linha de conta que a Sociedade de São Vicente de Paulo já está espalhada por 900 grupos paroquiais em Portugal onde colaboram 15 mil pessoas. Encontra-se ainda ramificada por quase todos os cantos do Planeta.
Jantar de Natal, do Conselho de Zona da Covilhã, com o fadista Luís Pinto.
Foi, pois, numa altura também muito difícil, de grande pobreza, que a Covilhã viu criada esta Conferência, há quase 110 anos, exatamente no ano em que viria a falecer o Papa Leão XIII, com 93 anos, a 20 de junho de 1903; e viu ser eleito Pio X que viria a ser canonizado. E, para servir de exemplo, na pobreza que grassava pelo Mundo dessa época, ele, Pio X, de seu nome José Sarto, nascido no seio de uma família necessitada, era tão pobre que ele, enquanto criança, se deslocava a pé para a escola, que distava sete quilómetros, levando os tamancos pendurados às costas, para os poupar, calçando-os só á chegada.
Em Portugal, vislumbrava-se o fim da monarquia, então no tempo de D. Carlos, e, na Covilhã, em 1903 os dias não eram melhores, pois a edilidade confrontava-se com dificuldades de liderança da Câmara, substituindo-se com frequência as figuras do Dr. José Pereira Barata, Dr. Alberto Deodato da Costa Ratto e Dr. João Nave Catalão.
Não vamos falar das obras assistenciais e trabalho fecundo que esta Conferência efetuou, e continua a prestar nas inúmeras situações de apoio aos necessitados, nas várias vertentes da pobreza, porque já são do conhecimento público.
Restou-nos, desta vez, tão só situar a longevidade da Conferência, historiando um pouco dos tempos percorridos.
Para além do trabalho a favor dos necessitados, ao longo destes 110 anos ininterruptos, também é bom ter em conta que muitas foram as pessoas (os confrades, de ambos os sexos) que se voluntariaram em prol deste serviço, algumas vezes com sacrifício, e vários assistentes eclesiásticos, sem os quais a Conferência não poderia existir.
Infelizmente, quando nos encontramos numa evolução, a todos os níveis, que não se compara como in illo tempore, vamos ter que sentir, no palpitar dos nossos corações, que o tempo incómodo da pobreza não vai parar, e, antes pelo contrário, irá sobejar de uma maior agressividade na mesma, por estes anos fora.

(In "Notícias da Covilhã", de 03.01.2013)

12 de dezembro de 2012

OUTONO NA NOSSA CIDADE


Vamos caminhando pelas estações da nossa vida, repartida em quatro estados de alma, conforme podemos, ou nos deixam andar, nesta simbiose de temperamento.

E neste movimento de translação das nossas vidas, entre Equinócios e Solstícios, vai o tempo velozmente passando para o cumprimento das responsabilidades, mas vagarosamente certo, como as longas noites invernosas, na resolução de problemas prementes.

A esperança de um dia permanecer um sorriso de felicidade, proveniente daquela aura de um tempo de juventude das Primaveras da vida, está sendo envolvida por um estado de alma de grande invernia.

E, como nós, viventes do “antes” e do “depois”; de tempos do opressor, trocados pela cavalaria de salvação do nosso País, que temos a dizer, com o nosso estado de alma, por essas memórias passadas da revolução?

Se dantes tínhamos tiranos, hoje existem déspotas mesmo desencapotados, por todo o lado, numa nítida encruzilhada de regresso ao “antes”. Homens sem vergonha, duma desonestidade mental, alguns dos quais deveriam permutar o emblema de Portugal, que possuem na lapela do casaco, por outro concebido em exclusivo com a palavra “mentiroso”.

Mesmo assim, enquanto ex-estadistas, apregoadores da moral e dos bons costumes, continuam a não prescindir de pessoal, gracioso, ao seu serviço privado, mas com a despesa salarial a cargo do País, num verdadeiro mau exemplo; outros, homens e mulheres do trabalho, curvados sob o peso das incertezas dum imaginável futuro, avançam sob o sol escaldante dos verões das suas vidas e, vão labutando, labutando, para que os portões das empresas dos seus ofícios se mantenham abertos.

Do estado de alma de uma esperança, ainda que ténue, da primavera da vida, ressalta um estado de alma penalizado por aquela expressão na sua intimidade – “O que é que eu fiz para não poder ter os méritos de um emprego?” - para, noutro estado de alma, a perseverança ser a grande arma apontada às contrariedades surgidas por um País ocupado.

Outro estado de alma é já o conformismo doloroso de muitos dos pensionistas, abalados pela sagaz ameaça duma tirania financeira, na redução das magras pensões, depois de durante muitas Estações, dos muitos anos, terem descontado percentagens salariais, produto das suas algibeiras, para a garantia duma pensão futura.

E que dizer do verdadeiro estado de alma daquele formigueiro de gente, alguns de cara tapada, ou voltados de costas, ou de lado para a parede, a caminho do Banco Alimentar, Misericórdias, Conferências de S. Vicente de Paulo, Cáritas, Lares e outras instituições de solidariedade social?

E porque já nos encontramos no outono da vida, deu-nos vontade; neste caminhar pelas ruas da cidade universitária, ex-líbris de laneira, que foi; de apreciar as belezas outonais da mesma, no colorido das folhas caídas, mistura de uma apreciação das obras que deram outro rosto à Cidade, e outras formas de estar, mas também (aquilo que dantes não nos era possível observar), todo um conjunto de muitas ruínas que entristecem a Cidade.

Mas, entre tristes e ledas manhãs, tristes e ledas tardes ou madrugadas, vamos assistindo a burburinhos pela Cidade; por vias do que vem no papel-notícia, nos falantes em tertúlias ou no largo do Pelourinho, para já não falar nos cafés da urbe; sobre politiqueiros e politiquices de ocasião, entre arrazoados de uns; e candidatos em espera, de outros.

No meio disto tudo, respiramos dum certo ar de enfado, neste Equinócio do outono, na compreensão de que, efetivamente, o “tacho” é bom, é barato e dá milhões…

E, mais não dizemos, já a caminho do Solstício de dezembro, para evitar confusões…
 
 
In “Notícias da Covilhã” de 12.12.2012; e no “Combatente da Estrela” do mês de dezembro

31 de outubro de 2012

ESTAMOS FEITOS!

Por mais que não desejemos, não nos livramos do tédio de temas, quase rituais, dos dias de hoje, onde a dona austeridade assentou trono real.
A vassalagem à mesma é de tal forma imposta pelos cavaleiros da triste figura que este povo, que foi e é de homens livres, quase que se sente de escravos, no purgatório dum rectangulozinho do Planeta, à beira-mar plantado. Povo que mais não terá que rebentar as correias férreas que a todos prende.
Mas não são precisas mais revoluções porque o povo, afinal, ele é já a própria revolução!
Então como se compreende que, após aquele “enorme” acontecimento que floriu, de cravos vermelhos, nas vestes dos nossos contentamentos; há quase quatro décadas, libertados de uma outra escravidão, de quase meio século; venha a surgir, entre sonhos e a realidade, um outro “enorme” evento, com o anúncio de sacrifícios e impostos, num cadeado duma configurada escravatura?
Os conhecimentos e as informações que nos chegam, nos dias de hoje, através das várias formas e meios de comunicação, não deixa de nos trazer perplexidades na forma de agir, para muitos; de trabalhar, para vários; na forma de como retaliar, para tantos; e, para outros, como fazer parar.
Agir contra as “enormes” pensões, salários, benesses e outros “direitos adquiridos” duma caterva de figurões: governantes, ex-governantes, banqueiros e ex-banqueiros, e muitos dos bem-falantes das televisões, incluindo jornalistas, que se deviam envergonhar de falar no povo e pelo povo, esse mesmo que ajudaram a amordaçar. Porque não impor um teto salarial, como na Suíça, e converter em impostos o remanescente?
Trabalhar com dignidade e apego sabendo que, na repartição de sacrifícios há, de facto, equidade.
Retaliar contra todos os que usam e abusam de subterfúgios para provocar fugas à justiça, morosidade nos julgamentos, mentiras com sucesso na vida política ou profissional.
Fazer parar esta onda de incompetentes, corruptos e novos-ricos. É assim tão difícil? Não se pára esta avalanche porque todos, ou quase todos, têm telhados de vidro.
E, quando já estão retirados da vida política ou das páginas dos jornais, lá surgem, de quando em vez, nas memórias, de que um dia foram reconhecidos como homens da corrupção encapotada, das fugas à justiça, do safarem-se, vivendo no firmamento.
Nesta pobre democracia, é altura de parar para pensar. No estado a que as coisas chegaram, certamente não irá haver outra oportunidade, ainda que pateticamente o Cardeal Patriarca de Lisboa diga que “não se resolve nada com grandes manifestações nem vindo para a rua a protestar”. Lembre-se, D. José Policarpo, que o Padre Américo, de quem se comemoram 125 anos do seu nascimento, dizia que não é possível pregar o Evangelho a barrigas vazias.
Neste país deprimido e com medo, numa autêntica guerra-fria de bancarrota, porque não levar à justiça, mas duma forma célere, todos quantos não souberam governar e nos trouxeram estas situações mórbidas, e dos inevitáveis sacrifícios, deste jaez? Desde Cavaco Silva, um dos culpados, a Durão Barroso (o fugitivo), Santana Lopes, Sócrates, Passos e Portas, entre outros! E não deixar escapar os turistas da política que, mesmo assim, por aí vagueiam, como é o caso peculiar de Dias Loureiro, para não falar de outros tantos, do domínio público.
Como é possível consentirmos em tanto descaramento? Somos, de facto, um País de brandos costumes, até quando? Sim, porque quando “o melhor povo do mundo” chama “gatuno” ao autor daquelas palavras, talvez seja mesmo melhor pensar duas ou três vezes.
Se seguíssemos o exemplo do General Ramalho Eanes que rejeitou vários privilégios a que tinha direito, certamente este País hoje falaria de outra maneira, mais feliz. E também não é o homem que muitos aplaudiram de “Soares é fixe” que tem méritos de exemplaridade.
Começamos a ser pobres em tudo, mesmo em opções na hora de eleger. Até fomos buscar uma equipa governativa da segunda divisão, treinada por um “mister” dos regionais!... Com um árbitro da troika a mostrar cartões amarelos e encarnados a torto e a direito. Assim, não vamos lá! Depois do “monstro” surgiu o “pântano”, daí um outro estigma – “a tanga”, e, agora “estamos tesos”, entre umas badaladas de “cigarras” e “formigas”. Contra uma equipa europeia para onde foram transferidos homens que ganhavam cá mais que os seus congéneres americanos; e, como reguladores, estiveram como o ceguinho; foi o descalabro bancário, sobejamente conhecido. Lá, numa porção desta Europa, de países do norte contra os do sul, são uns dos maiores da competência financeira. Até onde vamos?!
Precisamos de um “governo de salvação nacional de iniciativa presidencial”.
Mas, uma notícia poderá ser a esperança dos portugueses. O índice de produção do tomate em Portugal, por hectare, é o segundo melhor do Mundo, superado apenas pelo Estado norte-americano da Califórnia. A indústria transformadora de tomate exporta para 42 países e Portugal é, segundo a Associação de Industriais, o quinto maior exportador mundial, num setor que será responsável por 6500 postos de trabalho, diretos e indiretos. É caso para dizer: Senhores dos Governos de Portugal e da União Europeia, nós ainda temos tomates! 
 
(In Notícias da Covilhã, de 31 de Outubro de 2012)