16 de outubro de 2013

NÃO HÁ FÉRIAS PARA ASSISTÊNCIA AOS NECESSITADOS

O tempo de férias já lá vai e o outono chegou. Com ele também um período de agitação política com a campanha eleitoral que, tal como o tempo de veraneio, também teve o seu final. Resta agora acertar agulhas e recomeçar nova vida citadina, com outros corações.
Mas o telefone toca. A conversa ainda não está a meio e já o telemóvel dá sinal de vida. E, um segundo, também não se dá por silencioso. Algumas vezes é distribuída conversa por ambos, e, entre um SMS e o atendimento de voz, abrevia-se daqui, pede-se alguma espera dali, e, assim, vão surgindo alguns dias de agitação entre almas desassossegadas.
- Preciso de roupas! – Tenho a fatura da luz para pagar, está quase no corte e não tenho dinheiro! – O senhorio ameaçou-me com a rua porque já devo três rendas de casa!
- Por favor, ajude-me na compre deste medicamento que me faz muita falta; não temos dinheiro e o RSI ainda não chegou! – Não tenho nada em casa para comer! Tenho dado aos meus filhos só massa sem qualquer conduto!
Entre muitos casos, cada vez mais diversificados nas necessidades, é assim o panorama quotidiano a que assiste um vicentino que se preze, já que não existem férias, nem política, para quem tem fome, fome de muitas maneiras.
E, no verão de incendiários que passou, também algumas vezes tivemos que colaborar com os soldados da paz, lamentando os mártires; e com o coração sentido com os horrores da tragédia.
O assistente eclesiástico, de quando em vez, faz-nos sinal para passarmos pela sacristia da igreja onde exerce o seu múnus. No final, um papelinho com alguns elementos de informação de alguém que ali foi bater á porta. E são cada vez mais, cada vez mais mães solteiras em aflição; casais desesperados com o desemprego que lhes bateu à porta, numa de vergonha no pedido de assistência a que não estavam habituados, e jamais pensariam que a desgraça também os incomodasse, entre outros casos.
É necessário ir fazer uma visita e averiguar das necessidades daquela(s) pessoa(s) ou família(s) em pedido de socorro.
E, outras vezes, uma reunião de emergência para tratar casos específicos que urgem de atuação antes que a vida seja um ai que mal soa, como na voz do poeta João de Deus.
Se alguns casos podem ser ajudados pelo Fundo Social Solidário, quantas vezes não é necessário trocarmos impressões ou tomada de decisões sobre a abrangência de outros que nos enviam, colocando em sobressalto a cada vez maior míngua dos fundos das Conferências Vicentinas para a satisfação de tantas necessidades.
O vicentino procura estar atento e trabalha por vezes para além da sua missão. Como exemplo lá está aquela vicentina, viúva, mas com uma mão cheia de netos em casa, fazendo das tripas coração, mesmo em tempo de férias, na limpeza das instalações onde se reúnem e existem os géneros alimentares, juntamente com outra confrade, de boa vontade na sua disponibilidade, porque houve necessidade de fazer obras e a distribuição dos géneros do Banco Alimentar aproxima-se.
E, na continuidade da assistência, entre outros, aqueles dois irmãos a precisarem mais de uma palavra de carinho e de confiança, que de bens materiais, ainda que o telhado do casebre onde vivem, nos confins da serrania, na encosta da Serra da Estrela, lá para a zona de Cortes do Meio, urja de reparação. O teto é quase o firmamento, e a sala das suas refeições é na rua, entre as pernas e uns caixotes improvisados, servindo de cadeiras.
Mas é uma forma de viver, onde, nesta indigência existe contudo uma sapiência para o cultivo das suas courelas, que lhes sobram para a sua subsistência, em lugar solitário.
Para colmatar tamanhas dificuldades, na perigosidade daquela forma de viver, onde os acessos por caminhos entre giestas e calhaus da serra só se podem fazer com viaturas todo-o-terreno, lá se tem tentado resolver a reparação do pardieiro em casa com as mínimas condições de habitabilidade, para aqueles manos, e rasgar um pouco do caminho de acesso para as viaturas poderem virar.
E, assim, houve a colaboração de duas Conferências da Sociedade de São Vicente de Paulo, do Conselho de Zona da Covilhã.
No meu tempo de vicentino dos anos 60 do século passado, sempre houve carências mas desconhecia-se o espectro da droga, para além do alcoolismo. E as desavenças familiares sempre as houveram mas não nos moldes desta era tecnológica. Mas isto são contas que dariam para outro rosário.
Simplesmente registar o facto da não existência de silly season nesta finda época estival. Haveria para isto muitas respostas, nas várias vertentes da pobreza, entre as quais essa maldita pobreza envergonhada que os tempos modernos nos legaram. Afinal, falei nos meus tempos dos anos 60, já lá vai mais de meio século e a pobreza, em vez de se sumir, prosseguiu como as chamas devoradoras dos incêndios!
Este testemunho, qualquer coisa como desabafo, de quem não se conforma com as tentativas de eliminar os valores da vida, será certamente também de muitos outros vicentinos, de outras regiões. Muitas outras coisas haverão para contar, para registar, entre tristes e ledas madrugadas da vida de cada vicentino, com casos específicos ou outros na sua similaridade:

(In "Notícias da Covilhã", de 17.10.2013)

2 de outubro de 2013

OS PRATOS DA BALANÇA AUTÁRQUICA


A vitória alcançada pelo candidato socialista Vítor Pereira há muito que se vinha desenhando no panorama político do concelho da Covilhã.

Não imputo o seu êxito pelo facto da situação gravosa do governo, com que tem tratado todos os cidadãos deste país, sem apelo nem agravo, e da coligação que o suporta, mas tão só pela política local levada a efeito pelo ainda atual presidente da Câmara da Covilhã que, esquecendo-se da sua primeira derrota aquando da vitória de Jorge Pombo, “ingenuamente” (termo demasiado forte para esta figura) foi cair na mesma ratoeira.

E, pior a emenda que o soneto, depois de indiretamente apoiar o seu delfim Pedro Farromba lança-se com todas as farpas possíveis contra o seu principal opositor, o agora grande vencedor e seu substituto na presidência da Câmara, muitas vezes duma forma sarcástica. Sem olhar a meios para alcançar os fins, inclusive surgindo pessoalmente na campanha eleitoral de Farromba, denunciou de um certo desespero, que muitos terão interpretado de gato escondido com o rabo de fora.

Muito haveria para uma narrativa, como agora sói dizer-se, mas sintetizo o revés de Carlos Pinto com base nos “dez desmandamentos aos seus discípulos”: 1 – A sua sobranceria, pensando que o povo permaneceria indelével com ele; e, afinal, uma sua boa parte acabou por o crucificar; 2 – Não ter aceitado a democracia permitindo assim a divisão no seio do seu próprio reino; 3 – A grande ênfase dada às suas “obras monumentais” em detrimento da resolução de outras necessidades prementes como o comércio local e o quase abandono do centro histórico; 4 – A escolha do seu delfim que, embora “cinco estrelas” no âmbito das tecnologias não foi o suficiente para colmatar lacunas que mais preocupam os covilhanenses, muitos deles vendo nas modernas tecnologias um grande afastamento da possibilidade de resolução dos seus défices de emprego, para as quais não se sentem habilitados; 5 – As guerras civis de que Carlos Pinto foi obreiro, no seio da autarquia, dividindo os seus discípulos em vez de os unir; 6 – O grande défice que deixa na autarquia (contrastando com o autarca albicastrense que fez obra e deixou os cofres da sua Câmara cheios de metal); 7 – O grande despesismo de última hora e a sua constância, numa de aflição, de querer fazer aprovar, in extremis, assuntos que já poderiam ter sido apresentados noutras ocasiões, pretendendo, assim, deitar areia para os olhos aos munícipes; 8 – A boa campanha eleitoral dos seus adversários políticos que souberam explicar aos covilhanenses o embuste em que foram metidos; 9 – As costas voltadas para a grande fábrica do ensino que é a Universidade da Beira Interior, e para com o maior empresário do Concelho e um dos maiores empresários ibéricos; 10 – As crónicas e outros textos, a seu desfavor, denunciando as suas intenções, que vários colaboradores apresentaram nos órgãos da comunicação social local, este como 4.º poder.

A não existência destes desmandos, penso que o Concelho da Covilhã manteria a mesma linha de orientação do principal partido que tem governado o concelho da Covilhã. Assim, os pratos da balança penderam a favor do candidato socialista, que soube muito bem convencer muitos dos incrédulos covilhanenses.

 
(In "Notícias da Covilhã", de 02.10.2013)

1 de outubro de 2013

A REVIRAVOLTA AUTÁRQUICA

Não obstante o grande afã que percorreu todo o concelho da Covilhã, na perspetiva de amealhar o maior número possível de votos, por todos os candidatos, não há dúvida que a “guerra civil” no seio do partido que ainda está na gestão municipal, veio ajudar a grande vitória do candidato socialista Vitor Pereira. Ele, persistente quão afável, soube convencer os covilhanenses que, afinal, a democracia é de primordial importância na vida de todos os que querem viver em concórdia.
Efetivamente, Carlos Pinto, o mentor da “guerra civil” no seio do seu reino, deve à sua sobranceria a sua saída pela porta que não merecia, já que, algumas vezes tratou o agora seu sucessor, duma forma algo motejadora. Depois, no “antes e no durante” da sua gestão municipal, foi um continuar de condutas conducentes ao desgosto de muitos dos seus apaniguados.
A sociedade covilhanense mantém viva a chama duma das suas maiores empregadoras e manancial da vinda de muitos jovens para tirar os seus cursos, símbolo atual da Covilhã – a fábrica do ensino universitário que se chama Universidade da Beira Interior – para quem o presidente da edilidade que vai cessar o seu mandato, voltou as costas; como também reconhece a existência saudável da maior empresa da Covilhã – Paulo de Oliveira – que dá trabalho a muitas famílias covilhanenses, mas que Carlos Pinto definhou até aos últimos dias da campanha eleitoral.
Depois, o notório despesismo na campanha em que se envolveu, com forte empenho, a favor do seu delfim, Pedro Farromba, assim como o grande défice municipal que deixa aos vindouros, foram certamente a grande reflexão dos covilhanenses, sofredores com muitas carências no seio das suas famílias.
Muito mais haveria para uma narrativa, como agora sói dizer-se, embora muitas facetas já sejam conhecidas dos covilhanenses, principalmente daqueles que não fazem vénias ao Papa desta Terra, por dá cá aquela palha.
Assim, a reviravolta autárquica trás de volta, os socialistas, a liderar a Câmara da Covilhã, na terceira persistência de Vitor Pereira, persistência esta que foi objeto de chacota de Carlos Pinto, numa das suas lanças ao candidato socialista. A este propósito referi-me, na altura, num semanário desta cidade, de que também houve teimosia de um candidato brasileiro à presidência da república, e, de tanto persistir, um dia ganhou e foi um grande presidente.
É isso que esperamos de Vitor Pereira.
Enquanto a nível nacional o Partido Socialista “sovava” na coligação do nosso (des)governo, os covilhanenses também deram a sua reviravolta nestas eleições autárquicas, e, assim, depois de Vitor Pereira, em 2009 ter sido segundo com 27,86 por cento de votos, acaba por vencer com 37,52 por cento, deixando em segundo na corrida à Câmara, Pedro Farromba, por muitos já conhecido como “Carlos Pinto B”, que obteve 28,32 por cento dos votos. Já Joaquim Matias, líder pelo PSD local, obteve um resultado fraco, de 15,01 por cento da votação.
Surpresa, ou talvez não, foi o regresso do PCP à vereação da Câmara da Covilhã, que muitos covilhanenses se regozijam com a figura de José Pinto, sendo uma mais valia para o elenco camarário que se desenhou com estas eleições autárquicas, no concelho da Covilhã, ele que conseguiu 10,99 por cento dos votos.
Manuel Santos Silva, que compõe a excelente equipa dos socialistas que se apresentaram às eleições, será o novo presidente da Assembleia Municipal, tendo arrecadado 38,62 por cento dos votos contra os 26,21 do candidato João Carvalho, independente. Em 2009, o Partido Socialista havia ficado em segundo, neste órgão, com a percentagem de 31,29, sendo que Carlos Abreu ganhou com 46,49, do PSD.
Relativamente às freguesias, independentemente da união obrigatória de algumas delas, também houve alegria no seio dos socialistas, que ganharam sete freguesias, quando em 2009 haviam somente vencido em duas.
Carlos Martins, que também integrará a vereação da Câmara, é o campeão das presidências nas freguesias, que, em 2009, ganhou a freguesia da Conceição, com 55,76 por cento, e, desta vez, volta a ganhar, agora a União das Freguesias da Covilhã e Canhoso, com 46,87 por cento.
De realçar as maiorias absolutas das Juntas de Freguesia socialistas, de Erada, com João Almeida, 64,44 por cento dos votos; José Trindade Branco, em São Jorge da Beira, com 51,03 por cento, destronando o concorrente e atual presidente, Fausto Batista (independente), e que em 2009 havia ganho, pelo PSD, com 58.91 por cento. Também Pedro Leitão, socialista, ganhou com 54,75 por cento dos votos a União das Freguesias de Cantar Galo e Vila do Carvalho (irmão de Jerónimo Leitão, também um dos vencedores na equipa para a Câmara, de Vitor Pereira). Por último, o socialista José Lourenço, em Verdelhos arrecadou 68,27 por cento dos votos, sendo o primeiro socialista a ser ovacionado quando se dirigiu à sede de campanha de Vitor Pereira. Também no Paul, Peraboa, ainda que sem maiorias absolutas, ganharam para os socialistas, Gabriel Gouveia e Sílvio Dias, respetivamente.
Ficou por apurar a União das Freguesias de Casegas e Ourondo por destruição das mesas de voto, em virtude do Ourondo nunca concordar com esta União de Freguesias, tendo apenas votado em Casegas 304 do total de 1109 eleitores.
Vão integrar a nova Câmara, para os próximos quatro anos, três elementos do PS (Vitor Manuel Pinheiro Pereira, Carlos do Carmo Martins e Maria Paula Albuquerque Figueiredo Simões); dois independentes (Pedro Miguel dos Santos Farromba e Nelson António Mendes da Silva); um do PPD/PSD (Joaquim António Matias); e um do PCP-PEV (José Joaquim Pinto de Almeida).
O candidato vencedor, conjuntamente com os seus apoiantes, deslocou-se à Praça do Município, mesmo a chover, e, perante o entusiasmo de todos, ao lado dos seus “companheiros de jornada”, agradeceu-lhes, assim como a todos os apoiantes e felicitou os seus adversários. Categoricamente deixou expresso que irá ter o grande sentido de trabalhar pelos mais desprotegidos e marginalizados.
Esperemos que esta nova Câmara procure revestir-se do elo de ligação entre todos, em prol do bem da cidade, que a todos pertence, e não haja já a intenção de provocar guerras, perniciosas para os covilhanenses, a quem prometeram servir, sem qualquer intuito de se servirem.

(In "fórum Covilhã", de 01.10.2013)



25 de setembro de 2013

ÊXTASE POLÍTICO


Já muita coisa se escreveu, se debateu; fez agitar muitas águas e turvar correntes de informação, com ou sem sentido; por vezes, de uma embriaguez denodada, na tentativa do acertar na muche.

Na “revista 2”, de 15 de setembro, do “Público”, lê-se, em grandes parangonas a toda a capa: “Em terras onde já fecharam as escolas, os centros de saúde e os postos dos CTT, cabe aos presidentes das juntas de freguesia fazerem de assistentes sociais, taxistas, contabilistas e conselheiros. Mas, com o novo mapa, desapareceram 1165 freguesias. E com elas o último resquício da presença do Estado”.

Parece assim o regresso aos tempos de outrora, das décadas de 40 e 50 do século passado.

Tempo em que o barbeiro também fazia de dentista; as mulheres que tinham jeito e serviam de parteiras, deslocavam-se aos domicílios, mormente nas aldeias, onde nasciam os bebés; o professor fazia de jornalista; os farrapeiros deslocavam-se às casas para comprar farrapos, peles de coelho e metais; os homens dos cabritos vendiam-nos à porta e aí os esfolavam; e, afiar tesouras e facas era com o homem característico do seu apito; assim como os tachos e panelas de barro partidos acabavam por ser colados e, com uns agrafos, ainda serviam para mais algum tempo…

Os automóveis não eram para toda a gente… e até o Padre Pita, dos Penedos Altos, para ir para Aldeia do Carvalho, deslocava-se na sua moto; os da cidade, ao tempo, nem sequer possuíam carta de condução. Mas dava muito jeito para o transporte de alguns haveres, a carroça, com o cavalo, do Painço.

Neste setembro em que é habitual o país regressar à vida normal, com o retorno dos estudantes às escolas, é também o momento em que as famílias voltam às rotinas e se despedem das férias.

Temos à porta as eleições autárquicas. Na perceção das perdas que cada eleitor tem vindo a sofrer, com a atual coligação governamental, representa uma relevante razão para uma muito possível transferência do voto para as candidaturas dos partidos que têm vindo a opor-se a esta política, e olha-se geralmente de esguelha para os intitulados “independentes”, eles que integram ou integraram os partidos das gestões autárquicas…

E, neste frenesim da tentativa de aderência ao voto, os apaniguados desfazem-se no lançamento da isca por todos os que podem andar mais ao largo, e são atraídos pelos arraiais populares, com “comes e bebes” para o encontro das boas vontades.

É que isto já não vai com a promessa eleitoral. Segundo o pensador Daniel Innerarity, professor nas universidades de Zaragoza e Sorbonne que entrou na lista dos “25 grandes pensadores do mundo”, “É impossível governar as pessoas sem compreender as suas razões. Em muitos casos, os que são mandados sabem muito mais do que quem governa” e “Os políticos não podem fazer grandes promessas porque a situação política não é estável e eles passam a vida a improvisar”.

É indubitável que em qualquer organismo, instituição, coletividade ou associação, seja ela pública ou privada, existe sempre o espectro da adulteração das intenções e as intimidades exacerbadas porque os humanos sofrem deste pecado, por mais que se queiram afastar. Por isso, urge que haja os vigilantes a todo o tempo, e não só quando se zangam os comparsas.

Nalgumas “guerras frias” que antecedem o ato eleitoral, há que extrair cuidadosamente as ilações para que se façam emergir as verdades e se dissipem as inverdades, nalgumas destas guerras sem armas de fogo mas servidas pelas armas da intimidação e do embuste.

“Os governantes nada mais são que representantes do povo. Se, ao abrigo do seu estatuto de governantes, adquirem benesses, trocam favores, se movem nas zonas cinzentas da desconfiança e da ausência de transparência, então deixam de representar esse povo e perdem o direito de o representar” – Ana Luísa Amaral (escritora).

Neste entusiasmo esfuziante para muitos, os que chegarem ao clímax, procurem o engenho e a arte para serem merecedores dos créditos de quem neles votaram, e, de mãos dadas, possam fazer a paz e levantar a taça para o brinde da fraternidade no desenvolvimento da sua/nossa Terra.

 (In "Notícias da Covilhã", de 26.09.2013)

11 de setembro de 2013

A NOSSA DEMOCRACIA


Neste Portugal de hoje, a caminho de quatro décadas da Revolução dos Cravos, vai o povo português ficando cada vez mais desiludido, não só com a condução deformada dos ideais por que surgiu este grande acontecimento, mas também porque já lhe falta aquela segurança e coragem proveniente da convicção no próprio valor, aquela fé que se deposita em alguém e numa firme esperança, que, segundo os dicionários, se designa por confiança.

Embora esta época estival seja propícia a notícias sem grande interesse, duma certa frivolidade em relação a outras épocas do ano, foram no entanto os incêndios o grande tema do quotidiano. Esperemos que a silly season venha dar lugar ao rebentamento das correntes que amarram os ânimos de todos nós, onde os valores da vida são cada vez mais escassos.

Se atentarmos ao que se tem passado neste último governo (tenhamos em conta que os anteriores governantes também não resolveram os problemas dos demais portugueses, mas antes, trataram das suas vidinhas), os intervenientes na governação conseguiram mentir, de per si ou com outros, descaradamente, e a falta de palavra tem sido de grande tónica nas suas ações. Se o partido ou partidos que formam o Governo estivesse somente limitado ao cumprimento do seu programa de Governo e, no seu incumprimento fosse deposto, talvez a situação atual fosse outra. Se os meios de comunicação preenchessem os seus espaços com informações mais aprofundadas e fidedignas, e mais independentes dos grandes grupos financeiros, o seu contributo para a tal confiança raiava de outra forma. Nenhum indivíduo poderá representar bem todos os outros, pelo que o individualismo que ainda grassa na nossa sociedade terá que forçosamente passar pelo trabalho em equipa.

Se houvesse uma verdadeira justiça logo seriam devidamente punidos, todos quantos, independentemente da sua condição, de governantes ou não, roubassem ou defraudassem o Estado. Só assim se poderia englobar o princípio básico que abrange direitos, respeito, legalidade e igualdade.

Com tudo o que se está a passar, de bradar aos céus, haveria que, conscientemente, distinguir o essencial do acessório, com o olhar para a frente e não para a esquerda ou para a direita.

E que me perdoem os senhores do poder, dos destinos de Portugal, ou das autarquias, deveria haver uma classe política mais culta, informada e humanizada. Com mais amor a Portugal e menos à sua autopromoção. E, acima de tudo, acabar com o monopólio dos profissionais da política. Quando não nos revemos nos órgãos de soberania, nas empresas e nas comunidades, em que as decisões vão ter ao compadrio e ao aleatório, perde-se a noção do valor da vida e também a esperança.

Sabemos que os oportunistas, uma vez no poder, tudo fazem para que o esclarecimento das maiorias votantes não ocorra. É que, no tempo presente, a democracia foi tomada de assalto, por meio de mentiras e falsas promessas, por um bando de medíocres mas obstinados serventes dos senhores do poder.

A desolação é tanta que hoje, muitos não sabem se Portugal é uma democracia ou um caso de loucura, tal é o alheamento e a importância dos cidadãos face à balbúrdia dos pequenos e grandes poderes.

Deveriam os responsáveis por este pobre Portugal controlar o enriquecimento excessivo de governantes e ex-governantes e deixar cair na falência os bancos fraudulentos, e investir na agricultura em vez de campos de golf vazios.

Segundo o que refere a escritora Lígia Jorge, “aquilo de que enferma a Democracia Portuguesa provém da imperfeição das suas instituições ou da debilidade dos seus intérpretes”, e acrescenta que “o coração do futuro do mundo, tem de encontrar entre nós intérpretes à altura. Nesse campo, e no estado da selvajaria em que nos encontramos, semelhante combate vai precisar não só de heróis mas de leis”.

Se houvesse menos preocupação pela conquista, exercício e manutenção de poder mas mais com a resolução de problemas urgentes, menos programas mas mais planos estratégicos, menos mandar mas mais consultar, mais métodos , menos “fazer obra”, menos leis, menos monopólios do poder e mais pluralismo, mais responsabilidade e menos culto do sucesso, mais reorganização o otimização, menos jobs for the boys, mais competência e mérito, menos corrupção e mais ética, este Portugal seria uma verdadeira democracia.

O modo como os cargos públicos são ocupados por gente com todo o tipo de compromisso nas mais variadas empresas privadas é indecoroso. Deveria haver o levantamento do sigilo bancário para todos os responsáveis políticos (de presidentes de juntas de freguesia, Câmaras, governantes e presidentes da República).

E, porque não podemos abusar deste espaço, ficamos por aqui.

(In "Notícias da Covilhã", de 11.09.2013)

10 de setembro de 2013

SUBMISSAMENTE INDEPENDENTES


Este torrãozinho da Europa, à beira-mar plantado, como nos meus tempos de menino e moço ouvia dizer, nos primeiros livros da Primária, hoje, denominada ensino básico (é que, para além desta palavra significar fundamental, essencial, no meu tempo de tropa obrigatória, “básico” era aquele soldado que, não sendo nada inteligente e, não conseguindo tirar uma especialidade, era destinado para serviços secundários: plantão, faxina, e outros et ceteras militares), está retido, há já demasiados meses, àquilo que eu detesto em televisão – as telenovelas –, em redor das eleições autárquicas.

Mas, vai desta para melhor, aí estão uns quantos sabichões da política, na mesma já tão viciados pelo tempo que julgavam ad aeternum, tal como os que necessitam já de desintoxicação dos seus cérebros, de tão politizados, a persistirem na interpretação da lei, à sua maneira, com o conluio interpretativo de alguns tribunais de várias praças deste Portugal torturado.

E, como de Justiça nem quero falar mais, já que a mesma, a par do défice, é hoje o principal motivo de preocupação dos portugueses de bom senso, está a colocar em causa a própria democracia. Lembro só o burlesco caso, com o pensamento jurídico completamente desarticulado, entre outros casos caricatos, na insólita decisão judicial de três juízes a obrigarem a indemnizar e reintegrar um trabalhador da limpeza, despedido por ter sido acusado duma elevada taxa de alcoolémia, após um acidente de trabalho, numa ”interpretação” jurídica de que o álcool até pode ser útil para suportar as agruras do trabalho.

E, apenas com três mandatos; seja em que Câmara for, conforme o acórdão proferido pelo Tribunal da Relação de Lisboa, ou a limitação é apenas territorial e o impedimento a uma quarta candidatura violaria a Constituição; há quem queira mandar às malvas o que está escrito e borrifar quem seja contra as suas vontades, querendo lá saber da democracia, talvez numa opção pela oligarquia.

Por isso, num tempo em que tanto falamos da necessidade de recuperar a ética na política, os portugueses deveriam refletir sobre a necessidade de mudar as regras da nomeação de titulares de cargos políticos, e não estar agora o País confrontado, quase em cima das eleições, a julgar casos de interpretação da lei.

Será que a lei de “limitação de mandatos” pretende extinguir os chamados dinossauros autárquicos ou tão só promover a migração dos mesmos duma freguesia ou concelho para outro?

Como sempre, não há mal que venha só, e, aí está, em cima duma enorme crise económica e social surgem-nos eleições descredibilizadas.

Incompetência dos políticos? Talvez, de muitos, mas a imaginação dos mesmos é fértil quando lhes interessa.

É que, quando o serviço público democrático, que, por natureza, “deve ser” temporário, se vem tornar num meio de subsistência, e numa profissão para a vida, é como o vício de que atrás falei. E transformá-lo num modo de vida, como a droga ou na corrupção, o que se inicia como experiência ou uma oportunidade depressa envereda numa vil existência. Assim vem acontecendo na política.

Surgem em todo o mapa português, de norte a sul, do litoral ao interior, os chamados “independentes", que, na verdadeira aceção da palavra, deveria corresponder àquele “que goza de independência; livre; autónomo; que não se submete a qualquer dependência ou sujeição; ou que se governa por leis ou estatutos próprios”, mas, realmente, na sua generalidade, tal não acontece.

E, assim, são submissos a uma vontade previamente definida, continuadores dos trabalhos e diretivas dos seus antecessores, ou de forças ofuscadas, mas numa de interesses comuns.

E, em redor destes interesses, estão os que se encontram em cima do muro, espreitando a oportunidade para o salto sem partir os tornozelos. E, assim, mudam imediatamente de camisola. São os homens e as mulheres, com desejos pessoais que não os da Comunidade, que dizem servir “sem interesses…”, aqueles cujos contornos já o povo conhece, porque, areia para os olhos, o Zé Povinho já não deixa, e, desta feita, faz-lhes o seu real manguito.

(In "fórum Covilhã", de 10.09.2013)

21 de agosto de 2013

MÁRTIRES PELA PAZ

Ao longo dos cento e trinta e oito anos que constitui a longevidade da gloriosa Associação dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, os seus Homens de boa vontade, dotados daquela dinâmica, maioritariamente intrínseca, que lhes vai na alma de Soldados da Paz, como sói dizer-se, vai preenchendo páginas de heroicidade, bordadas a ouro de grande quilate.
É que, independentemente de divergências que sempre surgem em todas as instituições, próprias de quem faz girar a máquina do desempenho ao longo dos tempos, quando o fumo se faz anunciar ou o socorro é solicitado para eliminar as angústias, inesperadamente surgidas, não há nenhum Homem ou Mulher das Corporações de Bombeiros que não se apronte para ajudar o seu semelhante.
E fá-lo, de tal forma, sem vaidade nem espera de recompensa, mas com o sentido da grande expressão de amor ao próximo.
E, assim, muitos heróis integram já a longa história dos Bombeiros Voluntários da Covilhã (BVC), por factos assumidos na valentia do salvamento de pessoas e bens, para ficarmos só por esta vertente.
O que é certo, é que, embora existam páginas gloriosas, mais valia que algumas destas não tivessem sido escritas, por desnecessárias, sinal de que os infelizes eventos não tinham acontecido.
E foram já muitos os Covilhanenses, de raiz ou de coração, da cidade ou das zonas rurais, que foram salvos, ou os seus bens patrimoniais. Outros, devido à força demolidora dos inesperados incêndios, muitos dos quais pelas mãos de demónios, que se soltaram dos infernos, não puderam sentir aquele desabafo, e as alegrias na eliminação dos sustos, ou no minorar dos prejuízos.
Mas o que dizer de quem entrega a sua vida na defesa dos seus irmãos, nesta humanidade de contornos difusos, entre o bem e o mal, entre o que grita de raiva e o que chora de toda uma tristeza, e se vê confrontado com o entregar a sua vida, “num ai que mal soa”, na expressão poética de João de Deus, e deixa os seus queridos familiares na situação inversa de quem agora necessitava dessa mão protetora que foi dar continuidade da vida aos outros, em permuta com a perda da sua própria existência?
Com a situação, infelizmente surgida, de mais uma vítima no seio dos nossos Bombeiros da Covilhã, ocorrida no passado feriado, 15 de agosto (quinta-feira), somam já sete mártires ao serviço desta Associação, que tem as insígnias do Grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, Valor, Lealdade e Mérito, atribuída pelo Governo, em 03.02.1928.
A primeira vítima – ABÌLIO ADELINO SOUSA – fundador dos BVC, ocorreu num fatídico domingo de 18 de fevereiro de 1883, primórdios da existência dos BVC, desaparecendo do mundo dos vivos durante um exercício realizado pelos BVC.
Já o segundo mártir – SEBASTIÃO SANTOS JÚLIO – ele altamente condecorado por atos de bravura, viria a falecer, de acidente, na viatura onde seguia, quando se deslocava, pelas 20 horas, com outros bombeiros, para um incêndio, naquela quinta-feira do dia 10 de setembro de 1931. Seguia no pronto-socorro “Lancia” para o sítio designado “Casas Novas”.
Devido aos atos de verdadeira coragem, arrojada dedicação, e com riscos da própria vida, salvando oito pessoas aquando do incêndio da Mineira, na noite de 14.06.1907, foi-lhe, por decreto de Sua Majestade, de 3.8.1907, concedida a Medalha de Prata de D. Maria II, para distinção e prémio concedido ao Mérito, Filantropia e Generosidade.
Por decreto de janeiro de 1932, foi-lhe conferido, a título póstumo, pelo Governo da República, o Grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada.
O terceiro mártir –  MÁRIO DIAS TAROUCA – faleceu na madrugada do domingo, 12 de abril de 1936, cerca das 2 horas da manhã, em consequência de um desastre ocorrido no incêndio da fábrica de Manuel Lino Roseta.
As quarta, quinta e sexta vítimas mortais – ANTÓNIO MIGUEL VAZ MARQUES, RICARDO BRUNO DE JESUS CARDONA e FERNANDO MANUEL SOUSA XISTRA, viriam a sucumbir naquela fatídica sexta-feira de 2 de agosto de 1996, proveniente do grave acidente aéreo, devido à queda do helicóptero, na Covilhã, que ia combater incêndios florestais.
Por último, surge, no feriado daquela quinta-feira de 15 de agosto de 2013, a perda do bombeiro covilhanense PEDRO MIGUEL DE JESUS RODRIGUES, que integrava esta atividade desde18.01.2000, e que, apanhado pelas chamas na zona sul do concelho da Covilhã, não conseguiu fugir e viria a falecer.
O seu funeral, com a presença de várias entidades militares, civis e religiosas, entre as quais o Ministro da Administração Interna; D. Manuel Felício, Bispo da Guarda; Presidente da Câmara, da Covilhã, Vereadores e Candidatos às Eleições Autárquicas, e muitas Corporações de Bombeiros do País, constituiu uma enorme manifestação de pesar.

Votos para que páginas sobre a história dos BVC, neste capítulo, não se repitam.

(In "Notícias da Covilhã", de 21.08.2013)

31 de julho de 2013

O “CARA LINDA” E O REBENTAMENTO DOS VIDROS DA CÂMARA


Não, não foi nenhum ato de terrorismo, embora vivêssemos numa paz balofa. Corria o ano de 1957, era um domingo, dia 20 do primeiro mês daquele ano.

A RTP ainda não existia em Portugal, ou, melhor, começava as emissões regulares daí por dois meses. E o Sporting da Covilhã vivia uma situação desportiva ambígua, num paradoxo de bons e maus resultados, pois acabaria por descer à II Divisão Nacional, mas, entretanto, chegaria à final da Taça de Portugal.

A guerra subversiva, guerra do Ultramar ou guerra de África ainda não tinha emergido, mas já se adivinhavam, duma certa bruma, anos próximos de crueldade para a juventude.

É que, a resistência à dominação portuguesa na Índia veio manifestar-se no contexto da descolonização europeia. E, assim, após a independência indiana, em 1947, Portugal recusou-se a aceder ao pedido da Índia para rescindir a sua posse. Em 1954, a União Indiana anexou os territórios de Dadrá e Nagar Haveli, que, desde 1779 faziam parte do Estado Português da Índia.

É então que Portugal começa a enviar militares portugueses do Continente para aquela zona asiática, para a sua defesa.

Também da Covilhã partiu um contingente, do Batalhão de Caçadores 2 (onde hoje são instalações da Universidade da Beira Interior), integrando o Batalhão de Caçadores das Beiras,  com 301 homens, além de Companhias dos Batalhões de Caçadores da Figueira da Foz, Guarda, Viseu e Castelo Branco.

A Covilhã despedia-se dos seus briosos soldados que partiam para a Índia, em janeiro de 1957, demonstrando sentimentos de solidariedade das nossas gentes.

Pela manhã, na parada do quartel, foi celebrada uma missa campal pelo bispo da Guarda, D. Domingos da Silva Gonçalves, o primeiro bispo que eu conheci desta diocese, à qual assistiram o Governador Civil e o Presidente da Câmara, Coronel Matoso Pereira. Era comandante do Batalhão de Caçadores 2 o major José Manuel Castanha.

Depois da bênção das medalhas de Nossa Senhora da Conceição, oferecidas pelas senhoras da cidade, aos soldados que partiam, procedeu-se a um desfile pelas ruas da cidade.

No entanto, a Covilhã continuava com a construção dos edifícios graníticos, do Estado Novo, e, nesse contexto, estava em fase de acabamento o novo edifício da Câmara Municipal, cuja inauguração se iria verificar no ano seguinte.

É então que, na despedida dos militares rumo à India, quando dois trabalhadores da Câmara Municipal, Arnaldo Charato e Joaquim Figueiras (“Cara Linda”), pelas 14 horas, se davam ao trabalho de lançar foguetes ao ar, mercê da festa que se ia realizar para despedida da Companhia de Expedicionários à Índia, comandada pelo capitão Teixeira Lino e pelo major Alípio Pacheco, mesmo nas traseiras do novo edifício dos Paços do Concelho, um dos foguetes, por descuido, foi embater com a sacada do edifício, caindo violentamente sobre um molho composto de perto de 20 dúzias. Rebentaram a ponto de destruir estrondosamente os vidros das janelas, das portas e das montras de uma dezena de estabelecimentos existentes na Rua 1.º de Dezembro, causando enormes prejuízos materiais, estimados em cerca de 100 contos. Ficaram aqueles trabalhadores feridos na cara e na cabeça, e ainda, casualmente, os menores que ali se encontravam, José Manuel Riscado Pereira Monteiro, de 13 anos, e João Riscado Pereira Monteiro, de 10, que também ficaram feridos. Por sinal, estes jovens, irmãos, foram meus colegas na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, tendo o mais velho, mais tarde conhecido por “Ajax”, já falecido.

Nessa altura, ainda existia o Café Montalto, e todo o comércio vivia uma situação desafogada, e as fábricas de lanifícios não se contavam pelos dedos como hoje, mas já se situavam nas centenas. E hoje, onde está todo este manancial de trabalho? Tão só, destruído, como os foguetes lançados pelo “Cara Linda”!

Chegou às minhas mãos um apontamento perdido em que recordei este acontecimento, no dia 29.03.2008, com o amigo José Miguel Ramos, antigo motorista da edilidade, que se encontrava ali por perto e ouviu o estrondo, numa coincidência, na altura, de há quase, meio século.

(In "Notícias da Covilhã", de 31.07.2013)

10 de julho de 2013

PEDRA FILOSOFAL

Vão-nos levando tudo, cada dia que passa, cada hora que se aproxima, cada minuto que desaparece, e, num segundo, tudo se desvanece. Só nos falta levarem a alma!
Aquela pedra angular da personalidade, duma pessoa de bem, se dissipou. Longe vão os tempos dos nossos antepassados em que um aperto de mão ou a afirmação, numa tomada de decisão, sem qualquer juramento, valia como lei. Era quase tão sagrado como a pedra de ara na religião católica. Já tínhamos ultrapassado os tempos da pedra polida, trabalhávamos na pedra preciosa, e, nos tempos que correm, somos confrontados com horríveis sonhos no quase retrocesso para os tempos da pedra lascada.
Vamo-nos rindo, em sofrimento, com a palavra tão em voga – “irrevogável” –; saindo das profundezas dum vulcão, entranhas duma “grande personalidade”, que nos vomita para os olhos, nas televisões, e nos jornais, com o seu semblante – governante sem palavra – , numa visão de autêntica macacada (já não dizemos “palhaçada” por ser uma palavra proibida em certos espaços circenses); no consumir, escravo das incompetências de muitos que nos desgovernam, o dia a dia de todos nós.
Muitos atiram a primeira pedra, como outros atiram a pedra mas escondem a mão, em cobardias sobejamente conhecidas.
Depois, depois, quem deveria chamar à pedra os responsáveis pela caótica situação prefere que o “seu” povo lhe proporcione antes uma pernoita com a sua Maria, nas Ilhas Selvagens, onde esse povo pobre, doente e descontente, se sentiria mais aliviado se a permanência de sua excelência ali fosse vitalícia. Evitava-se, assim, andar tanto a dar por paus e por pedras, e andar sistematicamente com quatro pedras na mão.
Aquelas alminhas governamentais; quase de fazer chorar as pedras, pensando que se sentem de pedra e cal, com a sua provocação, em cada dia que passa, em cada palavra que soltam, em cada atitude que tomam; fazem-nos andar sempre com a pedra no sapato.
É que, “Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, tão concreta e definida, como outra coisa qualquer”.
Querem acabar com ele, pois há mais de uma década que mantemos pântano político e tanga no Estado, assim como as reformas, que eram para imediato, acabaram numa mão cheia de nada.
Mas, “como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso”, os senhores dos palanques do poder nos vão prometendo grandes feitos e logo surgem os defeitos.
Sendo que, “em serenos sobressaltos como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam”, já se agiganta, há muito, o espectro dos lóbis, desigualdades, protecionismo, pobreza, impunidade e compadrio.
Mas, “como estas aves que gritam em bebedeiras de azul”, vai a contrariedade com o défice entre partidos políticos e políticos quebrados.
Mas, “eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento”, nos vão enchendo de descaradas petas, em que o que hoje é verdade, amanhã é mentira.
Evidentemente que, “eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral”, para nos conduzirem a bom porto, é preciso “lançar ao mar” a escória de oportunistas, corruptos, traidores e embusteiros do pobre povo.
E, neste contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista” , ao invés de convertermos o metal vil em ouro, somos confrontados com a retoma a vê-la por um canudo, não obstantes os “Pecs” e os agora programas de austeridade, à espera de tranches dos empréstimos que pagamos, à grande e à francesa, como sói dizer-se.
É neste “mapa do mundo distante, rosa dos ventos, Infante, caravela quinhentista, que é Cabo da Boa Esperança” que vamos continuando a ver a dívida sempre escondida, a fragilidade da competitividade, a economia numa agonia, quando houve alguns negócios fortes.
O “ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim” se  inseriram nas privatizações da PT, EDP, GALP, REN, Portucel, ANA, e sabemos lá que mais.
Com a “passarola voadora, para-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultrassom, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar”, 
logo “visionários”, “iluminados” e “homens de Estado”, mas em estado vergonhoso, nos vêm trazer uma mão cheia de coisas: a ruína do BCP, assistida pela CGD, as fugas de informação, a vergonha manipuladora das escutas, a espionagem, e a promiscuidade entre empresas, num longo etc.
E, portanto, já que muito ainda haveria que dizer, entre Face Oculta, o Polvo, o escândalo do BPN, do BPP, as PPP, os swaps, os estádios, as estradas, o aeroporto e o TGV, e outras mais, ficamos por aqui porque “eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança”.


 (In "Notícias da Covilhã", de 10.07.2013)

2 de julho de 2013

CONVÍVIO ANUAL VICENTINO REALIZOU-SE NO FUNDÃO

Como já vem sendo habitual, realizou-se, desta vez, no Fundão, na Qta de Joaquim Salvado Raposo, o convívio anual das Conferências de São Vicente de Paulo que integram o Conselho de Zona da Covilhã, este ano a cargo da Conferência Feminina do Fundão.
Cerca de sessenta pessoas das várias Conferências, ainda que algumas não estivessem presentes, perto das onze horas da manhã, ali acorreram para a celebração da Eucaristia a cargo do Assistente do Conselho de Zona, reverendo padre Hermínio Vitorino, açoriano há uns anos entre nós, que já se tornou um amigo beirão, e que esteve presente até final do convívio.
Para além do sítio esplêndido, acrescido da simpatia e colaboração de excelência dos proprietários da quinta, a esposa também vicentina, foi uma dualidade de revigoramento – corpo e espírito – aquele que também precisa duns ingredientes de descanso, qual bálsamo para as dificuldades diárias que a todos os vicentinos se lhes apresentam, carregadas de cada vez mais necessitados; como também refletidos na luz que a todos impregnou, na instituição cristã que é a Conferência de S. Vicente de Paulo.
Para além do Presidente Nacional desta instituição de solidariedade social, de espírito caritativo, o beirão António Correia Saraiva, também estiveram presentes, o Presidente do Conselho de Zona, António Sêco, e todos os Presidentes das Conferências cujos vicentinos ali participaram.
Como já foi referido, por várias ocasiões, este ano comemoram-se os duzentos anos do nascimento do fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo – Antoine Frédéric Ozanam como também os cento e oitenta anos da fundação da primeira Conferência Vicentina em Portugal.
De notar que, na Covilhã, há três destas Instituições já centenárias, o que reflete de quanto é importante o serviço pelas mesmas prestado ao longo de todos estes anos.
Podemos mesmo garantir, sem qualquer pejo, não fossem estes serviços voluntários, para com o próximo, onde é que estaria este pobre país de outros tempos, paupérrimo de hoje? Que o digam os municípios que, quantas vezes, se socorrem do serviço de voluntariado das Conferências de S. Vicente de Paulo.
Foi, pois, com grande satisfação que vimos crescer o entusiasmo nestes convívios, irmanados numa autêntica familiaridade, onde, para além do sentido humanista está também a forma de reconhecermos no próximo a sua verdadeira condição humana, no seu todo; como tal, com todos os direitos dos que habitam este planeta Terra, onde a escravidão jamais poderá ter cabimento.
A plena satisfação dum vicentino só se realiza quando o necessitado vem ter com ele e diz que já não necessita da ajuda porque conseguiu colmatar as dificuldades que emergiram.
Há que valorizar, cada vez mais, estes voluntários da Caridade, e todos os defensores desta causa, como neste convívio se verificou.

O próximo convívio anual ficou a cargo da Conferência Vicentina de Santa Maria, da Covilhã.

(In Jornal "O Olhanense", de 01.07.2013)

19 de junho de 2013

UM ENCONTRO PARA REVIVER AMIZADES

Este foi o “3.º Encontro de Amigas da Travessa do Viriato”, realizado na Covilhã, depois do primeiro ter surgido em 2 de outubro de 2010, no Entroncamento, e, o segundo, já mais alargado, o ano passado, em 16 de junho, nesta cidade.
Nos tempos que correm é algo importante verificar este propagar de amizades, de ano para ano, oriundas da estima gerada entre as moças que residiram naquela ruazinha estreita e curta que confina com a Rua Marquês d’Ávila e Bolama e a Rua Vasco da Gama, que, depois, esta acabaria por ser cortada pela Avenida Salazar, hoje Avenida 25 de Abril.
A Garagem de S. João ainda estava bem ativa, e à Capela de S. João de Malta acorria, todos os domingos, muita gente que vinha de vários pontos da freguesia de S. Pedro, a que pertence, mesmo dos confins de algumas quintas: Corge, Covelo, Grila, Pedregal, Campo de Aviação.
A Rua Marquês d’Ávila e Bolama (antiga estrada real), era a rua mais concorrida da Cidade, desses tempos, passagem obrigatória pela EN 18, em direção à Guarda.
E, ali, naquele cantinho – Travessa do Viriato – vivia um grupo de famílias em que o predomínio dos seus filhos era do sexo feminino, assim quis o destino. Havia a jovialidade, a alegria da juventude, o que fazia criar muitas amizades, memorizando-se hoje os teatrinhos no salão paroquial com o Padre Carreto; os passeios, em grupos, à Fonte das Galinhas ou até ao Colégio das Freiras; passava-se pela padaria do Francisquinho, com o seu forno a lenha e, mais adiante, ficava a oficina do Julinho das bicicletas, seu filho, onde hoje é o café e restaurante do”Repolho”.
À saída da missa das 11 horas, lá vinham as bonitas raparigas, alegres, retirando o véu da cabeça, como era obrigatório naqueles tempos, da missa em latim e o padre de costas voltadas para os fiéis, ainda antes do Concílio Vaticano II, e, à saída, alguns dos rapazinhos que então estudavam na Escola Industrial, apareciam para os seus galanteios às moças, sorrisos entre conversas amenas.
Durante o tempo de catequese, às 15 horas dos domingos, juntavam-se naquele salão paroquial, cavado no rés do chão da capela, os vários grupos de rapazes e raparigas, enquanto um ou outro rapazinho, mais afoito, passava na estrada e seguia em frente, preferindo ir ao Santos Pinto ver o Sporting da Covilhã jogar com os clubes da Primeira Divisão. Mas, quando havia os filmes Castello Lopes, Charlot ou Bucha e Estica, não faltavam e levavam o responso do Padre Carreto por terem faltado à catequese…
E a alegria contagiante estendia-se aquando da representação dos rapazes e raparigas, nos teatros no salão paroquial, que enchia, vindo gente de todos os lados. Os intervalos entre as pequenas peças teatrais eram longos, mas lá iam vendendo os rebuçados de açúcar, caseiros, e uma ou outra rifa, para ajudar a festa.
Daqui foram despontando amizades, algumas convertidas em namoros. Pelas festas populares, as moças organizavam, naquela rua, dos melhores arraiais da cidade.
E é esta Travessa do Viriato, da cidade laneira de então (pois há muitas ruas com este mesmo nome, por esta zona serrana, de Seia a Viseu, e não só), que vai ficar na memória de muitas raparigas e rapazes de outrora, pais e avós de hoje.
E como ninguém sabe ao certo onde nasceu Viriato, e quando, pelo menos trinta localidades de Portugal e Espanha reivindicam o local do nascimento do herói lusitano, alguns de nós como que idealizámos da sua coragem as nossas armas amorosas, e, todos quantos nos unimos às moças da Travessa do Viriato, é como se tivesse sido o Viriato a ter-se unido à romana Munnia, com que se enamorou, e casou.
Pois estes tempos que não eram os de hoje, mas onde os valores da vida sobressaíam, é a razão porque, num renascer do passado como se fosse o presente, as amigas da Travessa do Viriato sentem, de ano para ano, o reviver de outros tempos, onde, independentemente das mínguas que também existiam, e das guerras coloniais por onde passavam os seus namorados, havia alguma tranquilidade nos espíritos, pois ainda se acreditava nalguma coisa, que mais não fosse num futuro melhor, o que hoje é quase uma miragem.
Este 3.º Encontro das Amigas da Travessa do Viriato, realizado no feriado do 10 de Junho, foi, mais uma vez, transbordante de entusiasmo, com a receção junto à Garagem de S. João; depois um agradecimento ao Senhor, naquela Capela de S. João de Malta, de muitas recordações, com a participação amiga do Padre Hermínio Vitorino; culminou com o almoço, prolongado, num restaurante da região da Cova da Beira.

O próximo encontro será em 2014, em Castelo Branco.

(In "Notícias da Covilhã", de 19.06.2013)