19 de junho de 2013

UM ENCONTRO PARA REVIVER AMIZADES

Este foi o “3.º Encontro de Amigas da Travessa do Viriato”, realizado na Covilhã, depois do primeiro ter surgido em 2 de outubro de 2010, no Entroncamento, e, o segundo, já mais alargado, o ano passado, em 16 de junho, nesta cidade.
Nos tempos que correm é algo importante verificar este propagar de amizades, de ano para ano, oriundas da estima gerada entre as moças que residiram naquela ruazinha estreita e curta que confina com a Rua Marquês d’Ávila e Bolama e a Rua Vasco da Gama, que, depois, esta acabaria por ser cortada pela Avenida Salazar, hoje Avenida 25 de Abril.
A Garagem de S. João ainda estava bem ativa, e à Capela de S. João de Malta acorria, todos os domingos, muita gente que vinha de vários pontos da freguesia de S. Pedro, a que pertence, mesmo dos confins de algumas quintas: Corge, Covelo, Grila, Pedregal, Campo de Aviação.
A Rua Marquês d’Ávila e Bolama (antiga estrada real), era a rua mais concorrida da Cidade, desses tempos, passagem obrigatória pela EN 18, em direção à Guarda.
E, ali, naquele cantinho – Travessa do Viriato – vivia um grupo de famílias em que o predomínio dos seus filhos era do sexo feminino, assim quis o destino. Havia a jovialidade, a alegria da juventude, o que fazia criar muitas amizades, memorizando-se hoje os teatrinhos no salão paroquial com o Padre Carreto; os passeios, em grupos, à Fonte das Galinhas ou até ao Colégio das Freiras; passava-se pela padaria do Francisquinho, com o seu forno a lenha e, mais adiante, ficava a oficina do Julinho das bicicletas, seu filho, onde hoje é o café e restaurante do”Repolho”.
À saída da missa das 11 horas, lá vinham as bonitas raparigas, alegres, retirando o véu da cabeça, como era obrigatório naqueles tempos, da missa em latim e o padre de costas voltadas para os fiéis, ainda antes do Concílio Vaticano II, e, à saída, alguns dos rapazinhos que então estudavam na Escola Industrial, apareciam para os seus galanteios às moças, sorrisos entre conversas amenas.
Durante o tempo de catequese, às 15 horas dos domingos, juntavam-se naquele salão paroquial, cavado no rés do chão da capela, os vários grupos de rapazes e raparigas, enquanto um ou outro rapazinho, mais afoito, passava na estrada e seguia em frente, preferindo ir ao Santos Pinto ver o Sporting da Covilhã jogar com os clubes da Primeira Divisão. Mas, quando havia os filmes Castello Lopes, Charlot ou Bucha e Estica, não faltavam e levavam o responso do Padre Carreto por terem faltado à catequese…
E a alegria contagiante estendia-se aquando da representação dos rapazes e raparigas, nos teatros no salão paroquial, que enchia, vindo gente de todos os lados. Os intervalos entre as pequenas peças teatrais eram longos, mas lá iam vendendo os rebuçados de açúcar, caseiros, e uma ou outra rifa, para ajudar a festa.
Daqui foram despontando amizades, algumas convertidas em namoros. Pelas festas populares, as moças organizavam, naquela rua, dos melhores arraiais da cidade.
E é esta Travessa do Viriato, da cidade laneira de então (pois há muitas ruas com este mesmo nome, por esta zona serrana, de Seia a Viseu, e não só), que vai ficar na memória de muitas raparigas e rapazes de outrora, pais e avós de hoje.
E como ninguém sabe ao certo onde nasceu Viriato, e quando, pelo menos trinta localidades de Portugal e Espanha reivindicam o local do nascimento do herói lusitano, alguns de nós como que idealizámos da sua coragem as nossas armas amorosas, e, todos quantos nos unimos às moças da Travessa do Viriato, é como se tivesse sido o Viriato a ter-se unido à romana Munnia, com que se enamorou, e casou.
Pois estes tempos que não eram os de hoje, mas onde os valores da vida sobressaíam, é a razão porque, num renascer do passado como se fosse o presente, as amigas da Travessa do Viriato sentem, de ano para ano, o reviver de outros tempos, onde, independentemente das mínguas que também existiam, e das guerras coloniais por onde passavam os seus namorados, havia alguma tranquilidade nos espíritos, pois ainda se acreditava nalguma coisa, que mais não fosse num futuro melhor, o que hoje é quase uma miragem.
Este 3.º Encontro das Amigas da Travessa do Viriato, realizado no feriado do 10 de Junho, foi, mais uma vez, transbordante de entusiasmo, com a receção junto à Garagem de S. João; depois um agradecimento ao Senhor, naquela Capela de S. João de Malta, de muitas recordações, com a participação amiga do Padre Hermínio Vitorino; culminou com o almoço, prolongado, num restaurante da região da Cova da Beira.

O próximo encontro será em 2014, em Castelo Branco.

(In "Notícias da Covilhã", de 19.06.2013)





12 de junho de 2013

EXAMES

Este substantivo teve sempre incidência na vida dos humanos, nas várias vertentes desta palavra.
Vou reportar-me só ao que está em voga, ou seja, a prova que teve por objetivo testar conhecimentos ou aptidões e, neste contexto, ao frenesi com que os putos de hoje se viram envolvidos nos exames do 4º. Ano, a antiga 4.ª classe.
Não defendendo aqui a posição, quer dos pais quer dos professores, que veio a lume na comunicação social, tão-só me parece estranha a não preparação da disposição das crianças para um ato na vida de cada uma, não existindo motivos aparentes para as mesmas se enervarem, chorarem ou ficarem com indisposições estomacais, conforme foi contado.
Tratou-se duma prova de aferição, com a designação de exame, valendo apenas uma percentagem da nota final, em Português e em Matemática.
Na década de cinquenta do século passado, da minha era, os exames, esses começavam logo na 3.ª classe, hoje 3.º ano, e, ou se ficava aprovado, ou reprovado. E, que me recorde, não havia os burburinhos que se ouviram este ano, no retomar dos exames de outrora, então numa altura de mais dificuldades genéricas que nos dias de hoje. Os apoios estatais contavam-se pelos dedos. No ano seguinte era o exame da 4.ª classe, hoje 4.º ano, e, no óbvio, a existência de algum nervosismo passageiro, como também a ansiedade, estados que se iam dissipando com o decorrer dos exames.
Eram feitos na principal escola da sede do Concelho, que, ao tempo, na Covilhã, era a já desaparecida “Escola Central”, onde se encontrava a Direção Escolar.
Era um mundo de pequenada, quase todos de fato novo, ou muito bem arranjados, como se fossem para uma festa. E, para a escrita, uma caneta de tinta permanente e não uma qualquer esferográfica.
Sorrisos entre os colegas, na maioria acompanhados pelos pais e professores, vindo muitos das freguesias rurais, algumas bastante distantes da sede concelho, como Cebola (hoje São Jorge da Beira) e Sobral de Casegas (hoje Sobral de S. Miguel), para, mais perto se situarem Unhais da Serra, Paul e Tortosendo, pela zona sul; ou Verdelhos, Sarzedo ou Vale Formoso, e, mais perto, Orjais, Teixoso, pela zona norte.
Duravam vários dias, já que eram centenas de alunos de todo o concelho. Havia a prova escrita, baseada em toda a matéria dada ao longo do ano e não só de português e de matemática (aritmética e geometria como se designava), incluindo desenho à vista (geralmente era o de uma bilha de barro), ciências, redação, e um ditado, cujos erros podiam fazer reprovar; e, depois, num outro dia a designar, a prova oral, sobre português, história, geografia e ciências, como também aritmética e geometria.
Os exames de admissão para acesso ao ensino liceal ou técnico (para quem desejasse prosseguir), eram efetuados no Liceu ou na Escola Técnica, pelos professores do secundário onde, por vezes, porque mais evoluídos que do ensino primário, hoje designado básico, viriam a surgir perguntas e provas que dificultavam enormemente os alunos. Aqui, sim, era o fervilhar de emoções, entre o passar no exame ou “apanhar uma raposa”. Eram, ao tempo, tema obrigatório de conversa por todo o lado, e índice revelador de mobilização da opinião pública com os jornais diários a dedicarem-lhe a publicação dos textos dos pontos escritos e das respetivas soluções.
Depois, no final do Ciclo Preparatório, novamente outro exame e, se seguida, até conclusão dos cursos, conforme os mesmos, eram os exames (de prova escrita e oral), a cada uma das muitas disciplinas, com grande importância o Português, Francês e Inglês. Terminava com o Exame de Aptidão Profissional para os Cursos Comerciais.
Nessa altura ainda não tinham nascido as calculadoras pelo que a tabuada tinha que estar muito bem sabida.
Também ainda não tinha surgido o choque tecnológico da televisão, que iniciou para quase todo o País, a preto e branco, em março de 1957. Os aparelhos eram caros e nem todos tinham possibilidades de os adquirir. E a Internet estava a léguas de distância no tempo, nem sequer se sabia o que era. Não havia a agitação extra na altura dos exames com greves anunciadas. E os tempos não eram de fartura mas de míngua. Não havia Tratados de Bolonha, mas “tratados” os estudos como devia ser.
Com tanta falta de meios tecnológicos, meios esses que hoje existem e são do acesso a todos os jovens, aprendia-se, e o saber não era uma miragem. Hoje, que havemos de dizer com o que se deteta no nosso País, com provas, exames e licenciaturas a concluírem-se aos domingos, e num só ano, para uns quantos, bafejo de amigos, escumalha de chico-espertos? A resposta é tão simples como aquele ato indecoroso que se chama vergonha.

  (In "Notícias da Covilhã", de 12.06.2013)

25 de maio de 2013

A GÉNESE DA“APAE CAMPOS MELO” E OS SEUS FUNDADORES

A Covilhã integra o concelho com o maior número de agentes culturais do distrito de Castelo Branco e um dos maiores do País, neste âmbito.
Vou falar duma associação cultural e recreativa, sedeada na Covilhã, no coração da cidade, que foi a primeira, do género, a ser criada em Portugal, segundo as palavras do então Ministro da Educação, Augusto Seabra, já falecido. Isto porque integra não só antigos professores e alunos, como também empregados, ou sejam, todo o universo de obreiros desta catedral da cultura; por muitos considerada a primeira universidade da Covilhã.
Refiro-me obviamente à Associação de Antigos Professores, Alunos e Empregados da Escola Campos Melo da Covilhã (antiga Escola Industrial e Comercial Campos Melo), mais conhecida pela sigla “APAE Campos Melo”.
Fundada oficialmente em 15 de Junho de 1984 por um grupo de antigos alunos e professores, fruto da saudade dos tempos da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, que depois passou a denominar-se Escola Técnica Campos Melo e, actualmente, Escola Secundária Campos Melo, surgiu assim esta associação.
Em 1995, data em que tive o orgulho de ser o segundo Presidente da Direcção, registava já setecentos associados.
Para quem quiser ficar com a noção fidedigna de quem foram, efectivamente, os verdadeiros fundadores, aqui deixo o registo deste facto.
Assim, antes da sua formação e após o primeiro Jantar-Convívio, sob o tema “Recordar é Viver”, realizado em 26 de Março de 1983, na cantina da Escola Campos Melo, já lá vão quase três décadas, começaram a fervilhar as ideias da formação oficial duma associação de “antigos”, abrangendo “todos” aqueles que ao longo das várias gerações passaram pela Escola Industrial.
Já aquando da festa de homenagem ao antigo director, Eng.º Ernesto de Campos Mello e Castro, pela sua despedida, em 1966, surgiu a primeira ideia de constituição de uma associação de antigos alunos, tendo, inclusive, sido alvitrado o seu início com a nomeação espontânea do sócio n.º 1, Afonso da Cruz e Silva, já falecido, que não se haveria de concretizar, e, este mesmo antigo aluno, viria a integrar-se no grupo dos sócios fundadores da APAE.
Ao mesmo tempo, haviam que se preparar de imediato as comemorações do primeiro centenário da Escola, a surgir no ano seguinte – 1984.
Se bem que foram os antigos alunos, professores e alguns empregados que aderiram, num ápice, à formação duma associação, com palavras emolduradas de grande fervor associativo; e de amizades impregnadas de memórias dos tempos de estudantes; foram mais tarde considerados 184 sócios fundadores, ou seja, aqueles que vieram a aderir até à realização da respectiva escritura. Mas, na verdade, os reais fundadores foram quantos, desde a primeira hora, tomaram a iniciativa, e participaram nas várias reuniões de trabalho. Foram frequentes sessões, na biblioteca e sala do Conselho Directivo da Escola Campos Melo, labutando duma forma afincada como Comissão Pró-Associação, na preparação das Comemorações do Centenário da Escola, e na constituição da novel associação.
São eles: Francisco Fazendeiro Geraldes (principal impulsionador, sócio n.º 1 e primeiro Presidente da Direcção da APAE); Dr.ª Maria Ascensão Simões (Presidente do Conselho Directivo da Escola, da altura, e sócia n.º 2 e que viria a ser a primeira Presidente da Assembleia Geral da APAE); Maria Noémia Gomes Lopes, responsável na Comissão Pró-Associação e dirigente da APAE desde a sua fundação, tendo sido o 3.º Presidente da Direcção, sócia n.º 3); Maria Luísa Fonseca Freire Pires, já falecida (integrando o elenco da APAE desde a sua fundação, antiga tesoureira da Comissão Pró-Associação e da 1.ª Direcção, sócia n.º 4); Manuel Vaz Correia, Mário Monteiro Carriço, João de Jesus Nunes, João José Silva Coelho, Alfredo Monteiro Pires (falecido), Carlos Alberto Ruivo (falecido), Maria Luísa Pedro, Carlos Alberto Rodrigues, António Manuel Silva Coelho, Maria José Fino e Maria Astrigilda Gonçalves. Destas duas últimas colegas partiu a conversa, em Lisboa, para uma reunião de convívio, das décadas de cinquenta e sessenta, através de um almoço, com antigos colegas, para memorizarem bons velhos tempos de estudantes, e não só. Estendendo-se o pedido da dinamização desta ideia a outros antigos colegas, logo se transformou em entusiasmos retumbantes.
E partiu-se para uma associação, de “antigos”, oficial, depois daquele Jantar-Convívio de 26.03.1983. Assim, começou a germinar, com a aderência de mais e mais antigos alunos, antigos professores e de alguns antigos funcionários. Nos trabalhos de constituição surgem ainda como reais fundadores, Isabel Fernandes Raposo, Carma Maria Batista Cardona, José Vicente Milhano (que viria a doar as instalações onde se situa a Sede da APAE, falecido em Junho de 1994); Professor Ricarte de Matos, Eng.º Luís Filipe Mesquita Nunes, já falecido (que seria o 1.º Presidente do Conselho Fiscal da APAE); Manuel Macedo Campos Costa, Eng. Francisco Duarte Gabriel, Georgina Leitão Duarte Calheiros, João José Cristóvão, Dr.ª Maria Celeste de Moura, já falecida; Maria Orlanda Bicho Mineiro Correia, Maria Teresa Fazendeiro Rodrigues, Vitor Manuel Alves Rodrigues e Padre Acácio Marques Santos, já falecido.
A estes 29 nomes ainda se deviam adicionar mais três que, há muito, por motivos desconhecidos, e que só aos mesmos disse respeito, se haviam de retirar do seio da Associação. Dois deles já faleceram.
Numa altura em que a cultura citadina não era nem de perto nem de longe como nos dias de hoje, embora sempre houvesse figuras de relevo na Covilhã, no âmbito das letras e do saber, a APAE Campos Melo, numa expressão dum sócio da altura – “Primavera Cultural” – conseguiu, numa vontade indómita das direcções constituídas, promover vários eventos culturais, entre os quais várias exposições, fora e dentro da sua sede, como na sua antiga sala que se intitulou Galeria de Arte da APAE, em pleno coração da cidade, nomeadamente:
08.01.1984 – Exposição de fotografias, desenhos e documentos das duas primeiras décadas da Escola (no átrio da Escola Campos Melo).
27.01.1984 – Aproveitando a reportagem fotográfica das comemorações do 1.º Centenário da Escola Campos Melo, e o que os jornais disseram, também de desenhos de antigos alunos (no átrio da Câmara Municipal).
26.01.1985 – Trabalhos de antigos e actuais alunos da Escola Campos Melo, no encerramento das comemorações do centenário, sob a designação “Trabalhos de ontem e de hoje” (no átrio da Câmara Municipal).
03.06.1989 – Retrospectiva das actividades da APAE, desde a sua fundação e uma exposição de esculturas de madeira, em miniatura, de um sócio e covilhanense, João Manuel Proença Marques (na Sede da APAE).
20.10.1989 – Exposição sobre a Covilhã antiga (sede da APAE).
23.12.1989 – Exposição de um presépio artesanal, com figuras de madeira em movimento, e, de novo, retrospectiva das actividades da APAE (sede da APAE).
08.03.1990 – Exposição sobre algumas figuras notáveis da Covilhã, no séc. XVI (sede da APAE).
13.04.1990 – Exposição de pintura “Do Neoclássico do Curvilinismo”, do prof. Rodolfo Passaporte, falecido em 4.11.2012, com 85 anos (sede da APAE).
24.04.1990 – Exposição “A Crítica Política no Tempo da Monarquia”, por Rafael e Gustavo Robalo Pinheiro (sede da APAE).
02.06.1990 – Exposição de lavores das antigas alunas da Escola Campos Melo (Sede da APAE).
15.06.1990 – Exposição de pintura, de Gina Calheiros (sede da APAE).
Julho de 1990 – Exposição de todas as actividades conseguidas pela APAE (na Covifeira).
20.10.1990 – Exposição histórico-documental sobre o fundador da Escola, José Maria Veiga da Silva Campos Melo (sede da APAE).
25.05.1991 – Exposição histórico-documental sobre João Alves da Silva, membro da 1.ª Comissão Administrativa e presidente da comissão executiva da Covilhã na 1.ª República (sede da APAE).
28.09.1991 – Exposição histórico-documental sobre o Sporting Clube da Covilhã e objectos desportivos de clubes e federações de todo o mundo, de João de Jesus Nunes (sede da APAE).
30.05.1992 – Exposição de “Arte e Design” dos actuais e antigos professores e alunos da Escola Campos Melo, da responsabilidade do grupo de artes visuais (sede da APAE).
05.02.1993 – Exposição de pintura de dois pintores covilhanenses: Sousa Amaral e João Manuel Salcedas (sede da APAE).
28.05.1993 – Exposição de trabalhos de expressão plástica, realizada pelas crianças das Escolas do Concelho da Covilhã (sede da APAE).
04.06.1994 – Exposição de arte sacra (sede da APAE).
17.06.1995 – Exposição de quadros e peças sobre a arte e cultura de Timor (sede da APAE).
16.12.1995 – Exposição de presépios executados por crianças de algumas escolas do Concelho.
E, muitas outras se seguiram ao longo dos anos seguintes.
Esta associação cultural foi também palco de palestras e visitas em actos solenes, por eminentes homens da cultura, da música e da arte, nomeadamente os covilhanenses Dr. António Alçada Batista, Eng.º Melo e Castro, Prof. Augusto Seabra, Geninha Melo e Castro, entre outros.
Daqui surgiu também a edição de dois livros, confrontando-se as tipografias da região, pela primeira vez, com um volume e páginas a cores, a que não estavam habituados, obviamente para aquela altura.
Surgiu também a criação de uma revista – “Ecos da APAE” – que é distribuída aos sócios, anualmente, nas comemorações da Associação.
Deu-se lugar à vinda de grupos musicais e de dança de outras zonas do País e de Espanha, como a Academia de Baile Flamenco, de Badajoz; “Pão-de-Ló”, de Ovar; de um grupo da região de Póvoa de Varzim; e, também, na vertente desportiva e cultural, homenagearam-se as “Velhas Glórias” do Sporting Clube da Covilhã, com um grande número de participantes e algum alvoroço pela comunicação social do País, sendo a primeira vez que alguma instituição, incluindo a própria colectividade serrana, participasse com um evento tão empolgante.
Hoje, com um edifício-sede totalmente reconstruído pela edilidade covilhanense, em pleno coração da cidade, pode continuar a ser azo para a promoção cultural da cidade onde se insere.
Algumas facetas do entusiasmo e da história preambular desta associação, e a sua envolvente de entusiasmo, podem ser consultada no livro “9 Anos de Actividades Culturais e Recreativas ao Serviço da Cidade e do Concelho – 1963 – 1992”.

João de Jesus Nunes
Sócio Fundador

(In Revista "ECOS DA APAE" de Maio de 2013)

DEVIDO A LAPSO NA PUBLICAÇÃO DO TEXTO, REPETE-SE O MESMO, MANTENDO-SE AS FOTOS NO ANTERIOR




A GÉNESE DA“APAE CAMPOS MELO” E OS SEUS FUNDADORES

A Covilhã integra o concelho com o maior número de agentes culturais do distrito de Castelo Branco e um dos maiores do País, neste âmbito.
Vou falar duma associação cultural e recreativa, sedeada na Covilhã, no coração da cidade, que foi a primeira, do género, a ser criada em Portugal, segundo as palavras do então Ministro da Educação, Augusto Seabra, já falecido. Isto porque integra não só antigos professores e alunos, como também empregados, ou sejam, todo o universo de obreiros desta catedral da cultura; por muitos considerada a primeira universidade da Covilhã.
Refiro-me obviamente à Associação de Antigos Professores, Alunos e Empregados da Escola Campos Melo da Covilhã (antiga Escola Industrial e Comercial Campos Melo), mais conhecida pela sigla “APAE Campos Melo”.
Fundada oficialmente em 15 de Junho de 1984 por um grupo de antigos alunos e professores, fruto da saudade dos tempos da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, que depois passou a denominar-se Escola Técnica Campos Melo e, actualmente, Escola Secundária Campos Melo, surgiu assim esta associação.
Em 1995, data em que tive o orgulho de ser o segundo Presidente da Direcção, registava já setecentos associados.
Para quem quiser ficar com a noção fidedigna de quem foram, efectivamente, os verdadeiros fundadores, aqui deixo o registo deste facto.
Assim, antes da sua formação e após o primeiro Jantar-Convívio, sob o tema “Recordar é Viver”, realizado em 26 de Março de 1983, na cantina da Escola Campos Melo, já lá vão quase três décadas, começaram a fervilhar as ideias da formação oficial duma associação de “antigos”, abrangendo “todos” aqueles que ao longo das várias gerações passaram pela Escola Industrial.
Já aquando da festa de homenagem ao antigo director, Eng.º Ernesto de Campos Mello e Castro, pela sua despedida, em 1966, surgiu a primeira ideia de constituição de uma associação de antigos alunos, tendo, inclusive, sido alvitrado o seu início com a nomeação espontânea do sócio n.º 1, Afonso da Cruz e Silva, já falecido, que não se haveria de concretizar, e, este mesmo antigo aluno, viria a integrar-se no grupo dos sócios fundadores da APAE.
Ao mesmo tempo, haviam que se preparar de imediato as comemorações do primeiro centenário da Escola, a surgir no ano seguinte – 1984.
Se bem que foram os antigos alunos, professores e alguns empregados que aderiram, num ápice, à formação duma associação, com palavras emolduradas de grande fervor associativo; e de amizades impregnadas de memórias dos tempos de estudantes; foram mais tarde considerados 184 sócios fundadores, ou seja, aqueles que vieram a aderir até à realização da respectiva escritura. Mas, na verdade, os reais fundadores foram quantos, desde a primeira hora, tomaram a iniciativa, e participaram nas várias reuniões de trabalho. Foram frequentes sessões, na biblioteca e sala do Conselho Directivo da Escola Campos Melo, labutando duma forma afincada como Comissão Pró-Associação, na preparação das Comemorações do Centenário da Escola, e na constituição da novel associação.
São eles: Francisco Fazendeiro Geraldes (principal impulsionador, sócio n.º 1 e primeiro Presidente da Direcção da APAE); Dr.ª Maria Ascensão Simões (Presidente do Conselho Directivo da Escola, da altura, e sócia n.º 2 e que viria a ser a primeira Presidente da Assembleia Geral da APAE); Maria Noémia Gomes Lopes, responsável na Comissão Pró-Associação e dirigente da APAE desde a sua fundação, tendo sido o 3.º Presidente da Direcção, sócia n.º 3); Maria Luísa Fonseca Freire Pires, já falecida (integrando o elenco da APAE desde a sua fundação, antiga tesoureira da Comissão Pró-Associação e da 1.ª Direcção, sócia n.º 4); Manuel Vaz Correia, Mário Monteiro Carriço, João de Jesus Nunes, João José Silva Coelho, Alfredo Monteiro Pires (falecido), Carlos Alberto Ruivo (falecido), Maria Luísa Pedro, Carlos Alberto Rodrigues, António Manuel Silva Coelho, Maria José Fino e Maria Astrigilda Gonçalves. Destas duas últimas colegas partiu a conversa, em Lisboa, para uma reunião de convívio, das décadas de cinquenta e sessenta, através de um almoço, com antigos colegas, para memorizarem bons velhos tempos de estudantes, e não só. Estendendo-se o pedido da dinamização desta ideia a outros antigos colegas, logo se transformou em entusiasmos retumbantes.
E partiu-se para uma associação, de “antigos”, oficial, depois daquele Jantar-Convívio de 26.03.1983. Assim, começou a germinar, com a aderência de mais e mais antigos alunos, antigos professores e de alguns antigos funcionários. Nos trabalhos de constituição surgem ainda como reais fundadores, Isabel Fernandes Raposo, Carma Maria Batista Cardona, José Vicente Milhano (que viria a doar as instalações onde se situa a Sede da APAE, falecido em Junho de 1994); Professor Ricarte de Matos, Eng.º Luís Filipe Mesquita Nunes, já falecido (que seria o 1.º Presidente do Conselho Fiscal da APAE); Manuel Macedo Campos Costa, Eng. Francisco Duarte Gabriel, Georgina Leitão Duarte Calheiros, João José Cristóvão, Dr.ª Maria Celeste de Moura, já falecida; Maria Orlanda Bicho Mineiro Correia, Maria Teresa Fazendeiro Rodrigues, Vitor Manuel Alves Rodrigues e Padre Acácio Marques Santos, já falecido.
A estes 29 nomes ainda se deviam adicionar mais três que, há muito, por motivos desconhecidos, e que só aos mesmos disse respeito, se haviam de retirar do seio da Associação. Dois deles já faleceram.
Numa altura em que a cultura citadina não era nem de perto nem de longe como nos dias de hoje, embora sempre houvesse figuras de relevo na Covilhã, no âmbito das letras e do saber, a APAE Campos Melo, numa expressão dum sócio da altura – “Primavera Cultural” – conseguiu, numa vontade indómita das direcções constituídas, promover vários eventos culturais, entre os quais várias exposições, fora e dentro da sua sede, como na sua antiga sala que se intitulou Galeria de Arte da APAE, em pleno coração da cidade, nomeadamente:
08.01.1984 Exposição de fotografias, desenhos e documentos das duas primeiras décadas da Escola (no átrio da Escola Campos Melo).
27.01.1984 – Aproveitando a reportagem fotográfica das comemorações do 1.º Centenário da Escola Campos Melo, e o que os jornais disseram, também de desenhos de antigos alunos (no átrio da Câmara Municipal).
26.01.1985 – Trabalhos de antigos e actuais alunos da Escola Campos Melo, no encerramento das comemorações do centenário, sob a designação “Trabalhos de ontem e de hoje” (no átrio da Câmara Municipal).
03.06.1989 Retrospectiva das actividades da APAE, desde a sua fundação e uma exposição de esculturas de madeira, em miniatura, de um sócio e covilhanense, João Manuel Proença Marques (na Sede da APAE).
20.10.1989 – Exposição sobre a Covilhã antiga (sede da APAE).
23.12.1989 – Exposição de um presépio artesanal, com figuras de madeira em movimento, e, de novo, retrospectiva das actividades da APAE (sede da APAE).
08.03.1990 – Exposição sobre algumas figuras notáveis da Covilhã, no séc. XVI (sede da APAE).
13.04.1990 – Exposição de pintura “Do Neoclássico do Curvilinismo”, do prof. Rodolfo Passaporte, falecido em 4.11.2012, com 85 anos (sede da APAE).
24.04.1990 – Exposição “A Crítica Política no Tempo da Monarquia”, por Rafael e Gustavo Robalo Pinheiro (sede da APAE).
02.06.1990 – Exposição de lavores das antigas alunas da Escola Campos Melo (Sede da APAE).
15.06.1990 – Exposição de pintura, de Gina Calheiros (sede da APAE).
Julho de 1990 – Exposição de todas as actividades conseguidas pela APAE (na Covifeira).
20.10.1990 – Exposição histórico-documental sobre o fundador da Escola, José Maria Veiga da Silva Campos Melo (sede da APAE).
25.05.1991 – Exposição histórico-documental sobre João Alves da Silva, membro da 1.ª Comissão Administrativa e presidente da comissão executiva da Covilhã na 1.ª República (sede da APAE).
28.09.1991 – Exposição histórico-documental sobre o Sporting Clube da Covilhã e objectos desportivos de clubes e federações de todo o mundo, de João de Jesus Nunes (sede da APAE).
30.05.1992 – Exposição de “Arte e Design” dos actuais e antigos professores e alunos da Escola Campos Melo, da responsabilidade do grupo de artes visuais (sede da APAE).
05.02.1993 – Exposição de pintura de dois pintores covilhanenses: Sousa Amaral e João Manuel Salcedas (sede da APAE).
28.05.1993 – Exposição de trabalhos de expressão plástica, realizada pelas crianças das Escolas do Concelho da Covilhã (sede da APAE).
04.06.1994 – Exposição de arte sacra (sede da APAE).
17.06.1995 – Exposição de quadros e peças sobre a arte e cultura de Timor (sede da APAE).
16.12.1995 – Exposição de presépios executados por crianças de algumas escolas do Concelho.
E, muitas outras se seguiram ao longo dos anos seguintes.
Esta associação cultural foi também palco de palestras e visitas em actos solenes, por eminentes homens da cultura, da música e da arte, nomeadamente os covilhanenses Dr. António Alçada Batista, Eng.º Melo e Castro, Prof. Augusto Seabra, Geninha Melo e Castro, entre outros.
Daqui surgiu também a edição de dois livros, confrontando-se as tipografias da região, pela primeira vez, com um volume e páginas a cores, a que não estavam habituados, obviamente para aquela altura.
Surgiu também a criação de uma revista – “Ecos da APAE” – que é distribuída aos sócios, anualmente, nas comemorações da Associação.
Deu-se lugar à vinda de grupos musicais e de dança de outras zonas do País e de Espanha, como a Academia de Baile Flamenco, de Badajoz; “Pão-de-Ló”, de Ovar; de um grupo da região de Póvoa de Varzim; e, também, na vertente desportiva e cultural, homenagearam-se as “Velhas Glórias” do Sporting Clube da Covilhã, com um grande número de participantes e algum alvoroço pela comunicação social do País, sendo a primeira vez que alguma instituição, incluindo a própria colectividade serrana, participasse com um evento tão empolgante.
Hoje, com um edifício-sede totalmente reconstruído pela edilidade covilhanense, em pleno coração da cidade, pode continuar a ser azo para a promoção cultural da cidade onde se insere.
Algumas facetas do entusiasmo e da história preambular desta associação, e a sua envolvente de entusiasmo, podem ser consultada no livro “9 Anos de Actividades Culturais e Recreativas ao Serviço da Cidade e do Concelho – 1963 – 1992”.

João de Jesus Nunes
Sócio Fundador


 (In Revista "Ecos da APAE", de Maio de 2013)




8 de maio de 2013

O JORNAL E O DIREITO DE OPINAR


A simples razão de já se estar retirado da atividade profissional nos proporciona uma maior liberdade de pensamento e de tempo para a leitura, algum estudo e uma certa dose de mais reflexão.
Neste ócio – o tempo da liberdade e da criação –, outros optam pela comodidade, na salutar caminhada diária, no arranjo do quintalzinho, no ir buscar, de sorriso nos lábios, os netinhos à escola; ou mesmo, no cavaquear na esplanada ou no sofá da coletividade, numa passagem pelos jornais existentes até ao fechar das “persianas” dos olhos.
Não consigo estar parado e, por isso, sou um consumidor acérrimo de informação. Todos os dias abro o site dos “Jornais do Dia” naquela rede que os americanos criaram em 29 de outubro de 1969 – Internet. E, para além disso, dou prazer à escrita não deixando descansar as teclas do computador. E já agora a fotografia.
Nos dias que correm, há muito, não há notícias positivas para os portugueses. E os dias de lazer, para os que trabalham, esse tempo que resta depois do tempo de trabalho, também designado por “tempo livre” passa, muitas vezes, por ver revistas e suplementos culturais e literários transformados em magazines, que quase só promovem o entretenimento, no consumismo de outra classe de leitores.
Há seis anos escrevi que é uma honra e um risco escrever no jornal, e, como alguém afirmou, quase nada é óbvio.
Para um grande número de pessoas, a primeira angústia por “escrever no jornal” fala de uma eventual falta de assunto, e onde encontrar a inspiração. A segunda ansiedade relaciona-se à exposição pública de ideias, onde ainda é corrente o tirar vantagem de tudo e o ficar em cima do muro.
Uma das tribulações está ligada ao risco do engano, da ignorância e do mero erro humano, para já não falar nas gafes ou mesmo nas gralhas jornalísticas, pois se algo surge no jornal deverá ter um mínimo de veracidade, exigindo mesmo reflexão e investigação.
O que se fala pode ser imediatamente levado pelo vento, mas o escrito tem mais facilidade de ser ampliado na memória.
Tomei contacto com a escrita nos jornais, em 14.11.1964, aos 18 anos, então no jornal mais antigo da minha Terra e da Beira Interior – o “NOTÍCIAS DA COVILHÔ – que, este ano comemora 100 anos, e do qual tenho a honra de ser um dos seus colaboradores.
Depois da minha escrita se alongar por outros órgãos jornalísticos da região e do país, incluindo revistas, desde há uns anos a esta parte que, emergindo duma amizade que despontou na região algarvia, é também orgulhosamente que vejo a minha rubrica “Ecos da Beira Serra”, quinzenalmente, no jornal “O OLHANENSE”, que no próximo dia 15 de maio completa 50 anos.
Se a amizade é uma festa, posso sentir-me feliz por ter tido nos órgãos da comunicação social onde produzo as minhas crónicas, e textos de opinião, pessoas como o Dr. José Almeida Geraldes, do Notícias da Covilhã, e Herculano Valente, do Olhanense, ambos antigos diretores, que já passaram para além da cortina que nos separa deste mundo. Mas, na atualidade, aquela força anímica inspiradora da continuidade da escrita, é dada pela amizade com o Cónego Fernando Brito dos Santos, João Alves e Ana Ribeiro Rodrigues, respetivamente diretor, e jornalistas (o segundo coordenador) do “Notícias da Covilhã”; assim como, no “O Olhanense”, a amizade com a grande alma, qual “faz-tudo”, do chefe de redação Mário Proença, e do seu diretor interino, José Isidoro Sousa.
Surgiram os jornais gratuitos que, a pouco e pouco vão desaparecendo, e pensa-se que o jornal em papel irá extinguir-se, face à grave crise e ao surgimento dos jornais digitais, mas não acredito que tal venha acontecer, pois, com a sua envolvente, desde o “sentir o seu cheiro”, ao folheá-lo e levá-lo para onde quiser, é diferente do digital, não obstante a grande revolução planetária da Internet, a tradição jamais terá os dias contados.
Foi esta a minha tese apresentada no Fórum sobre Jornalismo, coordenado por Adelino Gomes, na Universidade da Beira Interior, em 15 de março de 2012, sob o tema “Jornalismo e Cidadania”, para a elaboração duma Carta de Princípios do Jornalismo em Portugal.
Muito embora as recentes notícias tenham dado nota da caída em 10% dos jornais generalistas de âmbito nacional, há que ter fé e manter vivo o interesse pelas notícias regionais, na defesa dos interesses locais, para que a sobrevivência dos media locais e regionais não seja ameaçada, como alguns afirmam.
E é nesta afirmação pelo interesse regional, que as bandeiras jornalísticas poderão continuar a flutuar contra ventos e marés.
Resta-me, do fundo do coração, desejar longa vida para os órgãos da comunicação social nomeados, e nas pessoas dos seus obreiros, da Covilhã e Olhão, este ano aniversariantes de grande mérito, para que continuem credores da confiança que as suas gentes – assinantes e leitores – lhes depositam.

(In "Notícias da Covilhã", de 09.05.2013 e "O Olhanense", de 15.05.2013)


2 de maio de 2013

UM COVILHANENSE QUE MARCOU A SOCIEDADE PORTUGUESA


A sua vida não foi muito longa. Como também não foi extensa a sua vivência na terra que o viu nascer.
Exatamente dois meses antes de começar a Primeira Guerra Mundial, a Covilhã via aumentada a população, na freguesia da Conceição, com mais um dos seus ilustres filhos. Em 28 de maio de 1914 vinha à luz do dia o cidadão José Guilherme de Melo e Castro, filho do Comendador Guilhermino de Melo e Castro.
Com uma grande dinâmica, capacidade de trabalho, espírito de justiça e impregnado pela generosidade, este covilhanense desassombrado, que fez os seus estudos secundários em Espanha, acabaria por se licenciar em direito na Universidade de Coimbra.
Presidiu à Associação Académica, enquanto estudante, e logo organizou a primeira viagem de estudantes de Coimbra, a Angola e Moçambique, no ano 1938, assim como várias deslocações ao estrangeiro, do orfeão e outros agrupamentos conimbricenses.
Foi ainda na sua presidência (1937-1939) que, ao terminar o curso de Direito em Coimbra, Melo e Castro vê a Associação Académica de Coimbra conquistou a Taça de Portugal, em futebol, substituindo o então designado Campeonato de Portugal.
Estava-se no dia 25 de junho de 1939, no Campo das Salésias, em Lisboa, e o opositor era o Benfica que viria a ser vencido por 4-3. Já, para chegar à final, a Académica, liderada na presidência pelo estudante covilhanense, eliminaria o Sporting da Covilhã, com os resultados, em Coimbra de 5-1 (14.05.39) e, no Santos Pinto, de 2-3, na 2.ª mão (21.5.39).
No campo das letras, foi fundador, com o Professor Miller Guerra, do jornal “Via Latina”. E também redator da revista “Estudos”.
Veio a fixar-se em Lisboa onde passou a exercer advocacia. Mas de 1944 a 1947 foi Governador Civil de Setúbal e, a partir de 1949, deputado á Assembleia Nacional por este distrito. Na Assembleia Nacional, assim como na imprensa, dedica os seus temas à política social. Durante três legislaturas foi Presidente da Comissão Parlamentar de Política e Administração Geral e Social.
Em maio de 1954 é nomeado Subsecretário de Estado da Assistência Social. Foi bem marcada esta sua passagem pelos serviços sociais, dando impulso decisivo à luta contra a tuberculose, tendo também desenvolvido a prevenção da mortalidade infantil.
Em dezembro de 1957 foi nomeado Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cargo que ocupou até 11.10.1963. Logo a sua atividade se orientou predominantemente para o incremento e criação de novas receitas para a assistência. Esta sua passagem pela Misericórdia ocorreu num tempo próprio, carente em vários domínios: político, económico e social. Mas, Melo e Castro era, na sua essência, um homem de grande atividade, com uma febre de transformação e mudança. E foi isso que fez este Homem, ao longo de mais de seis anos na Misericórdia de Lisboa, e não só.
Com o intuito de servir os outros – o seu próximo – sublinha-se, sem falácias, teve grande atenção e o carinho especiais a merecerem-lhe os domínios da ação social e da saúde.
Criou o Centro de Reabilitação do Alcoitão, para reabilitação de diminuídos motores e centro de preparação do pessoal especializado para todo o país, e, ele mesmo, garantiu o financiamento, inventando, em 1961, o Totobola, tendo também sido ele que assim batizou as apostas mútuas desportivas, mandando, inclusive, pessoal para ser formado em Inglaterra.
Mas, apesar da sua vida, fértil de iniciativas e de grande dinâmica, se passar mais fora da sua Terra Natal, mesmo assim, viria a ocupar cargos em instituições de solidariedade social, na sociedade covilhanense, como aconteceu, de 1962 a 1966, no cargo de Presidente da Assembleia Geral dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, numa altura de muitos problemas no seio desta instituição, sucedendo a seu pai, detentor do maior tempo neste cargo.
Agraciado no estrangeiro; em Portugal foi nomeado Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas.
Em 1969, com as eleições legislativas, e como Presidente da Comissão Executiva da União Nacional, desde 1968, querendo refrescar as listas, convidou, entre outros, o Dr. Sá Carneiro para se integrar e negociar livremente nas listas a apresentar, constituindo-se assim a Ala Liberal, da qual Melo e Castro foi o seu mentor.
Muito haveria a dizer desta figura que revolucionou o Estado Novo e, não tivesse morrido aos 58 anos, possivelmente tentaria chamar à razão Marcelo Caetano para a “democracia real” em que se estava empenhando, em vez de lhe ter partido a corda e o ter deixado cair.
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa prestou-lhe uma grande homenagem, a título póstumo, na Covilhã, em 27 de janeiro de 1985, tendo-se deslocado a esta cidade mais duma centena de pessoas, vindas da capital.

(In "Notícias da Covilhã", de 02.05.2013)

AO REDOR DE UMA VIAGEM DE SALAZAR


Corria o ano da graça de 1934. A Primeira Grande Guerra havia terminado há dezasseis anos.
O Presidente da República era o General Óscar Carmona. E D. Manuel II, o último rei de Portugal, exilado, havia falecido há quase dois anos. Após a entrada em vigor da Constituição de 1933, realizaram-se eleições para os 90 deputados da nova Assembleia Nacional, em 16 de dezembro de 1934, às quais só concorreu a União Nacional, rejeitando participar a oposição. O slogan destas eleições foram na base de “quem votar, vota pela Nação; quem não votar, vota contra a Nação”.
Longe estaria de se pensar que, na corrida do tempo, escondido na voragem da decisão dos dirigentes mundiais, se ia reduzindo o tempo de sobra (cinco anos), para uma Segunda Grande Guerra, que haveria de ser o conflito mais letal da história da humanidade, eliminando barbaramente a vida de milhões de seres deste planeta Terra.
António de Oliveira Salazar, natural do Vimieiro, Santa Comba Dão, estando prestes a fazer 45 anos, desloca-se à Serra da Estrela, plena de neve, naquele abril frio de uma terça-feira, dia 3, a faltarem 25 dias para o seu aniversário natalício.
Salazar, Presidente do Ministério e, depois, do Conselho de Ministros, estava nestas funções há dois anos. E havia dito na sua tomada de posse, “Sei muito bem o que quero e para onde vou”, nos seus princípios conservadores e autoritários da trilogia “Deus, Pátria e Família”. Hoje, com menos acerto e longe da ironia, também o Presidente da República, Cavaco Silva, surgiu com a cantilena do “Nunca tenho dúvidas e raramente me engano”.
Salazar, o homem que conduziu os destinos de Portugal durante 36 anos, embora vivendo grande parte da sua vida em Lisboa, nunca se desvinculou das origens, pelo que, no Natal e nas férias grandes, se deslocava algumas vezes por terras beirãs.
Então, naquele ano de 1934, já com uma governação ditatorial, a 18 de janeiro foi o dia em que Salazar tremeu, com a greve geral insurrecional para o derrubar.
Neste mesmo ano, e conforme já referido, Salazar deslocou-se de visita à Serra da Estrela, coberta de neve, não passando das Penhas da Saúde, numa altura em que tudo faltava para o aproveitamento turístico da mesma. Viajava absolutamente incógnito quando, atravessando de automóvel a cidade da Covilhã, pelas 14 horas, com a comitiva de amigos, fôra reconhecido, no centro da cidade, do automóvel onde seguia, quando alguém perguntava qual o caminho para a Serra da Estrela.
Correndo depressa a notícia, os membros da Comissão de Turismo, sem mais delongas, João Alves da Silva e Joaquim Gonçalves de Carvalho, respetivamente, presidente e tesoureiro, logo tomarem um automóvel seguindo ao encontro do ilustre visitante, conseguindo apanhá-lo à chegada às Penhas da Saúde. Salazar saltara do automóvel, para pisar sempre neve, e foi ver o excelente panorama dos Cântaros e a cordilheira dos Piornos, duma alvura imaculada e fascinadora.
Depois desta rápida digressão, Salazar acedeu a analisar o projeto do Hotel de Turismo, a construir nas Penhas da Saúde, tendo-lhe depois sido apresentado, pelos membros da Comissão de Turismo, as necessidades mais urgentes que impediam o desenvolvimento turístico da Serra da Estrela: a estrada e o hotel. Salazar concordou com a construção da estrada que deplorou o seu estado e a considerou péssima. Para a consecução destas duas obras, ao tempo, os membros da Comissão de Turismo esperavam o auxílio do Estado, que, na altura, ainda não tinha nascido a União Europeia, nem se pensava em mudar de moeda, longe de PECs e de Troikas.
E assim foi uma das viagens de Salazar, sem dar nas vistas, que até os jornalistas citadinos não tiveram qualquer hipótese de entrevistaram o estadista, tendo-se cruzado com Salazar, já na descida das Penhas da Saúde.
Ainda conseguiram cumprimentar Salazar, num ápice, conseguindo chegar perto das Penhas da Saúde, os industriais António Rodrigues Pintassilgo, Dr. Fernando Carneiro e o médico Dr António Vaz de Macedo, fortemente ligados ao turismo da Serra da Estrela.
No regresso das Penhas da Saúde, já uma grande aglomeração de Covilhanenses esperavam a comitiva de Salazar na Praça do Município, aclamando-o.

(In "Notícias da Covilhã" de 02.05.2013 e "O Olhanense", de 01.05.2013)

20 de março de 2013

DO “FIM DO MUNDO”


Depois de alguma ansiedade até se conhecer o sucessor papal no elo a São Pedro, eis que surge, sem grande assombro, um homem do sul, dos confins do globo.
O novo sucessor de Pedro, como todos já conhecem, é Jorge Mário Bergoglio, septuagenário, Bispo de Buenos Aires. Um Papa de várias estreias: o primeiro sul-americano, o primeiro a adotar o nome Francisco, o primeiro jesuíta e o primeiro a rezar com o povo no momento em que se apresentou na varanda da Basílica de São Pedro.
O primeiro Papa, prometido o Primado por Jesus, entre os anos 33 a 67, foi S. Pedro, a quem Jesus mudou o nome, de Simão para Cefas (que quer dizer pedra): “Tu és pedra (Pedro, na tradução) e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Acabaria por ser morto na perseguição de Nero.
A escolha do nome Francisco, pelo novo Papa, argentino, contrariando as usuais opções por cardeais europeus, surpreendeu porquanto nenhum Papa o havia feito, presumindo-se a sua ligação à figura de S. Francisco de Assis ou mesmo S. Francisco Xavier.
Excetuando São Pedro, acontece que, até ao sexto século, todos os Papas usaram o seu nome de batismo (S. Lino, Santo Anacleto, S. Clemente, S.to Evaristo, S.to Alexandre, S. Sisto I, S. Telésforo, S. Higino e S. Pio I, integraram, por esta ordem, os primeiros dez Papas, até aos anos 155).
O primeiro Papa a mudar o seu nome de batismo, depois de S. Pedro, foi Mercúrio, no ano 533, que adotou o nome de João II, pelo facto de achar impróprio ter o nome de um deus pagão num representante de Cristo. O hábito foi intermitente daí em diante, mas, no ano 955, João XII tomou este nome em substituição do seu de batismo – Otaviano. O mesmo faria João XIV, no ano 983, dado que chamando-se Pedro, se julgou indigno do nome do Apóstolo, embora não exista qualquer proibição de os Papas adotarem o nome de Pedro. Apenas uma simples tradição mantida como sinal de respeito.
A mudança de nome só começaria a vigorar a partir de Bento VIII (de nome Teofilato), no ano 1012. Suceder-lhe-ia seu irmão, João XIX.
Portugal já teve um Papa em Roma – João XXI – , o qual apenas presidiu ao governo da Igreja durante escassos oito meses, de 15 de setembro de 1276 a 20 de maio de 1277. Era natural de Lisboa e chamava-se Pedro Julião, mas mais conhecido por toda a Europa culta por Pedro Hispano. Viria a ter uma morte trágica, vítima de um desmoronamento duma estância por ele mandado construir em Viterbo. Ficou sepultado na catedral da cidade.
Mesmo assim, houve outros Papas com Pontificados mais breves. Muitos de nós ainda se recordam de João Paulo I, no ano 1978, que durou somente 33 dias. Chamavam-lhe o Papa do sorriso. Mas o Papa com a mais curta duração foi Estêvão II, de seu nome Zacarias (quatro dias), no ano 752, que, face à sua morte repentina, sem ter ainda recebido a consecratio, não chegou a ser admitido oficialmente como Papa, sucedendo-lhe, com o mesmo nome de Estêvão II, um outro Papa.
Mas também o Sumo Pontífice nomeado com mais longevidade foi Santo Agastão, no ano 678, já com a provecta idade de 103 anos, embora lúcido (qual nosso cineasta Manuel Oliveira…), cujo pontificado ainda duraria três anos, falecendo em 10 de janeiro de 681, com a idade de 107 anos. Foi talvez vítima da peste que grassava nessa altura em Roma, ocasionando grande mortalidade como não houve memória de outra igual sobre o governo de nenhum outro Papa. Eram famílias inteiras (pais e filhos, irmãos e irmãs) a serem sepultados juntamente, despovoando campos e aldeias.
Dentre várias particularidade dos 266 Papas, desde São Pedro, até Francisco I, há uma riqueza de iniciativas ou inovações, como, por exemplo, foi o Papa Bonifácio IV que viveu nos anos 608-615 que, no dia 1 de novembro de 609 transformou o Panteão dos deuses pagãos, em Roma, em templo dedicado à Santíssima Virgem e a todos os mártires. Surgiu assim a festa de “Todos os Santos”. E Urbano IV, que exerceu o seu papado de 1261 a 1264, instituiu a festa do “Corpo de Deus”, em 1264.
Depois do mundo perfilar o novo Papa, pós Bento XVI, este que não caíra nas simpatias de muita gente, eis que surge um Papa de grande esperança, como o fora João Paulo I, o Papa do sorriso que começou a revolucionar e só durou 33 dias, para, depois, surgir o inesquecível João Paulo II, adorado por todo o Mundo. Esperemos que Francisco I, ou só Francisco, venha devolver a esperança a tantos corações amargurados com esta crise europeia e mormente nas gentes portuguesas.

(In "Notícias da Covilhã", de 20.03.2013)