19 de junho de 2013

UM ENCONTRO PARA REVIVER AMIZADES

Este foi o “3.º Encontro de Amigas da Travessa do Viriato”, realizado na Covilhã, depois do primeiro ter surgido em 2 de outubro de 2010, no Entroncamento, e, o segundo, já mais alargado, o ano passado, em 16 de junho, nesta cidade.
Nos tempos que correm é algo importante verificar este propagar de amizades, de ano para ano, oriundas da estima gerada entre as moças que residiram naquela ruazinha estreita e curta que confina com a Rua Marquês d’Ávila e Bolama e a Rua Vasco da Gama, que, depois, esta acabaria por ser cortada pela Avenida Salazar, hoje Avenida 25 de Abril.
A Garagem de S. João ainda estava bem ativa, e à Capela de S. João de Malta acorria, todos os domingos, muita gente que vinha de vários pontos da freguesia de S. Pedro, a que pertence, mesmo dos confins de algumas quintas: Corge, Covelo, Grila, Pedregal, Campo de Aviação.
A Rua Marquês d’Ávila e Bolama (antiga estrada real), era a rua mais concorrida da Cidade, desses tempos, passagem obrigatória pela EN 18, em direção à Guarda.
E, ali, naquele cantinho – Travessa do Viriato – vivia um grupo de famílias em que o predomínio dos seus filhos era do sexo feminino, assim quis o destino. Havia a jovialidade, a alegria da juventude, o que fazia criar muitas amizades, memorizando-se hoje os teatrinhos no salão paroquial com o Padre Carreto; os passeios, em grupos, à Fonte das Galinhas ou até ao Colégio das Freiras; passava-se pela padaria do Francisquinho, com o seu forno a lenha e, mais adiante, ficava a oficina do Julinho das bicicletas, seu filho, onde hoje é o café e restaurante do”Repolho”.
À saída da missa das 11 horas, lá vinham as bonitas raparigas, alegres, retirando o véu da cabeça, como era obrigatório naqueles tempos, da missa em latim e o padre de costas voltadas para os fiéis, ainda antes do Concílio Vaticano II, e, à saída, alguns dos rapazinhos que então estudavam na Escola Industrial, apareciam para os seus galanteios às moças, sorrisos entre conversas amenas.
Durante o tempo de catequese, às 15 horas dos domingos, juntavam-se naquele salão paroquial, cavado no rés do chão da capela, os vários grupos de rapazes e raparigas, enquanto um ou outro rapazinho, mais afoito, passava na estrada e seguia em frente, preferindo ir ao Santos Pinto ver o Sporting da Covilhã jogar com os clubes da Primeira Divisão. Mas, quando havia os filmes Castello Lopes, Charlot ou Bucha e Estica, não faltavam e levavam o responso do Padre Carreto por terem faltado à catequese…
E a alegria contagiante estendia-se aquando da representação dos rapazes e raparigas, nos teatros no salão paroquial, que enchia, vindo gente de todos os lados. Os intervalos entre as pequenas peças teatrais eram longos, mas lá iam vendendo os rebuçados de açúcar, caseiros, e uma ou outra rifa, para ajudar a festa.
Daqui foram despontando amizades, algumas convertidas em namoros. Pelas festas populares, as moças organizavam, naquela rua, dos melhores arraiais da cidade.
E é esta Travessa do Viriato, da cidade laneira de então (pois há muitas ruas com este mesmo nome, por esta zona serrana, de Seia a Viseu, e não só), que vai ficar na memória de muitas raparigas e rapazes de outrora, pais e avós de hoje.
E como ninguém sabe ao certo onde nasceu Viriato, e quando, pelo menos trinta localidades de Portugal e Espanha reivindicam o local do nascimento do herói lusitano, alguns de nós como que idealizámos da sua coragem as nossas armas amorosas, e, todos quantos nos unimos às moças da Travessa do Viriato, é como se tivesse sido o Viriato a ter-se unido à romana Munnia, com que se enamorou, e casou.
Pois estes tempos que não eram os de hoje, mas onde os valores da vida sobressaíam, é a razão porque, num renascer do passado como se fosse o presente, as amigas da Travessa do Viriato sentem, de ano para ano, o reviver de outros tempos, onde, independentemente das mínguas que também existiam, e das guerras coloniais por onde passavam os seus namorados, havia alguma tranquilidade nos espíritos, pois ainda se acreditava nalguma coisa, que mais não fosse num futuro melhor, o que hoje é quase uma miragem.
Este 3.º Encontro das Amigas da Travessa do Viriato, realizado no feriado do 10 de Junho, foi, mais uma vez, transbordante de entusiasmo, com a receção junto à Garagem de S. João; depois um agradecimento ao Senhor, naquela Capela de S. João de Malta, de muitas recordações, com a participação amiga do Padre Hermínio Vitorino; culminou com o almoço, prolongado, num restaurante da região da Cova da Beira.

O próximo encontro será em 2014, em Castelo Branco.

(In "Notícias da Covilhã", de 19.06.2013)





12 de junho de 2013

EXAMES

Este substantivo teve sempre incidência na vida dos humanos, nas várias vertentes desta palavra.
Vou reportar-me só ao que está em voga, ou seja, a prova que teve por objetivo testar conhecimentos ou aptidões e, neste contexto, ao frenesi com que os putos de hoje se viram envolvidos nos exames do 4º. Ano, a antiga 4.ª classe.
Não defendendo aqui a posição, quer dos pais quer dos professores, que veio a lume na comunicação social, tão-só me parece estranha a não preparação da disposição das crianças para um ato na vida de cada uma, não existindo motivos aparentes para as mesmas se enervarem, chorarem ou ficarem com indisposições estomacais, conforme foi contado.
Tratou-se duma prova de aferição, com a designação de exame, valendo apenas uma percentagem da nota final, em Português e em Matemática.
Na década de cinquenta do século passado, da minha era, os exames, esses começavam logo na 3.ª classe, hoje 3.º ano, e, ou se ficava aprovado, ou reprovado. E, que me recorde, não havia os burburinhos que se ouviram este ano, no retomar dos exames de outrora, então numa altura de mais dificuldades genéricas que nos dias de hoje. Os apoios estatais contavam-se pelos dedos. No ano seguinte era o exame da 4.ª classe, hoje 4.º ano, e, no óbvio, a existência de algum nervosismo passageiro, como também a ansiedade, estados que se iam dissipando com o decorrer dos exames.
Eram feitos na principal escola da sede do Concelho, que, ao tempo, na Covilhã, era a já desaparecida “Escola Central”, onde se encontrava a Direção Escolar.
Era um mundo de pequenada, quase todos de fato novo, ou muito bem arranjados, como se fossem para uma festa. E, para a escrita, uma caneta de tinta permanente e não uma qualquer esferográfica.
Sorrisos entre os colegas, na maioria acompanhados pelos pais e professores, vindo muitos das freguesias rurais, algumas bastante distantes da sede concelho, como Cebola (hoje São Jorge da Beira) e Sobral de Casegas (hoje Sobral de S. Miguel), para, mais perto se situarem Unhais da Serra, Paul e Tortosendo, pela zona sul; ou Verdelhos, Sarzedo ou Vale Formoso, e, mais perto, Orjais, Teixoso, pela zona norte.
Duravam vários dias, já que eram centenas de alunos de todo o concelho. Havia a prova escrita, baseada em toda a matéria dada ao longo do ano e não só de português e de matemática (aritmética e geometria como se designava), incluindo desenho à vista (geralmente era o de uma bilha de barro), ciências, redação, e um ditado, cujos erros podiam fazer reprovar; e, depois, num outro dia a designar, a prova oral, sobre português, história, geografia e ciências, como também aritmética e geometria.
Os exames de admissão para acesso ao ensino liceal ou técnico (para quem desejasse prosseguir), eram efetuados no Liceu ou na Escola Técnica, pelos professores do secundário onde, por vezes, porque mais evoluídos que do ensino primário, hoje designado básico, viriam a surgir perguntas e provas que dificultavam enormemente os alunos. Aqui, sim, era o fervilhar de emoções, entre o passar no exame ou “apanhar uma raposa”. Eram, ao tempo, tema obrigatório de conversa por todo o lado, e índice revelador de mobilização da opinião pública com os jornais diários a dedicarem-lhe a publicação dos textos dos pontos escritos e das respetivas soluções.
Depois, no final do Ciclo Preparatório, novamente outro exame e, se seguida, até conclusão dos cursos, conforme os mesmos, eram os exames (de prova escrita e oral), a cada uma das muitas disciplinas, com grande importância o Português, Francês e Inglês. Terminava com o Exame de Aptidão Profissional para os Cursos Comerciais.
Nessa altura ainda não tinham nascido as calculadoras pelo que a tabuada tinha que estar muito bem sabida.
Também ainda não tinha surgido o choque tecnológico da televisão, que iniciou para quase todo o País, a preto e branco, em março de 1957. Os aparelhos eram caros e nem todos tinham possibilidades de os adquirir. E a Internet estava a léguas de distância no tempo, nem sequer se sabia o que era. Não havia a agitação extra na altura dos exames com greves anunciadas. E os tempos não eram de fartura mas de míngua. Não havia Tratados de Bolonha, mas “tratados” os estudos como devia ser.
Com tanta falta de meios tecnológicos, meios esses que hoje existem e são do acesso a todos os jovens, aprendia-se, e o saber não era uma miragem. Hoje, que havemos de dizer com o que se deteta no nosso País, com provas, exames e licenciaturas a concluírem-se aos domingos, e num só ano, para uns quantos, bafejo de amigos, escumalha de chico-espertos? A resposta é tão simples como aquele ato indecoroso que se chama vergonha.

  (In "Notícias da Covilhã", de 12.06.2013)