11 de novembro de 2013

FALECEU COUCEIRO, VELHA GLÓRIA DO SPORTING DA COVILHÃ

Chegou-nos a infausta notícia da morte de Bento da Silva Soares Couceiro, em 27 de outubro, antigo defesa esquerdo do Sporting Clube da Covilhã, dos tempos da I Divisão Nacional, e depois na II, onde foi grande obreiro em muitas vitórias.
Encontrava-se há muitos anos radicado em Gouveia, onde treinou o Desportivo local e era muito acarinhado pelas suas gentes, como também o fôra aquando da sua permanência na Covilhã, quer como atleta de alto gabarito, quer como treinador dos juniores, quer ainda como comerciante.
Nasceu em 26 de dezembro de 1931, em Tentúgal (Montemor-o-Velho). Era casado e tinha dois filhos.
Depois de ter deixado a Covilhã como comerciante de vestuário, assentou arraiais em Gouveia, continuando a sua atividade de comerciante, mas agora na restauração, a par da continuidade de treinador de futebol.
Iniciou o futebol nos juniores do Sporting Clube de Portugal (duas épocas), em 1949/50, tendo representado o clube leonino até 1951/52.
Foi cedido, a título provisório, ao Luso F.C. (Barreiro), estando um ano neste clube, após o que regressou ao Sporting, em 1953/54.
Acabou por ser dispensado ao Sporting da Covilhã (SCC), na época de 1954/55, ocupando o lugar de defesa esquerdo, com todo o mérito, até 1963, altura em que lhe foi prestada uma justa homenagem na sua festa de despedida, terminando assim a sua carreira como jogador.
Foi várias vezes o capitão do SCC, tendo chegado a ser convocado para os treinos da Seleção Nacional, juntamente com Fernando Cabrita e José Rita.
Depois do SCC, passou a exercer o cargo de treinador do Desportivo de Gouveia, Mangualde. Guarda e Académico de Viseu, tendo antes desempenhado o cargo, no SCC, quando faltava o técnico e também nos juniores.
No C. D. Gouveia levou o clube à II Divisão Nacional, onde permaneceu sete anos.
Perguntei-lhe um dia qual o melhor momento que passou no SCC, tendo Couceiro se direcionado para o quinto lugar obtido na I Divisão nacional; o ter sido campeão da II Divisão Nacional, na época de 1957/58 e na Final da Taça de Portugal, e ainda tantos outros ao longo dos anos que jogou nos Leões da Serra.
Duma breve estatística da sua passagem pelo SCC, obviamente que só reportada ao tempo em que participou na I Divisão Nacional, pois também ainda jogou na II Divisão quando o clube baixou, Couceiro efetuou 142 jogos e marcou 5 golos neste campeonato nacional, hoje I Liga.
Participou ainda no regresso do clube à I Divisão, e foi campeão da II Divisão, em 1957/58.
Já na Taça de Portugal integrou a camisola dos leões serranos em 19 jogos e marcou 4 golos.
Foi dos jogadores mais utilizados na I Divisão Nacional, ao serviço do Sporting da Covilhã, com 142 presenças, como já referi, situando-se em sexto lugar, sendo que o falecido Pedro Martin foi o que teve mais presenças, com 194 jogos e 25 golos, seguido de Carlos Ferreira, Helder Toledo, António José (guarda-redes) e Amílcar Cavem. A seguir a Bento Couceiro, nas presenças com a camisola serrana, surgiu João Tomé, com 138 e 41 golos, ainda vivo, embora muito doente, assim como Amílcar Cavem. Todos os restantes já faleceram.
Como melhores marcadores na I Divisão Nacional de Futebol, no SCC surge André Simonyi, já falecido, que, em 86 jogos marcou 74 golos. Seguiram-se Vitoriano Suarez, ainda vivo, residente no Brasil, que em 97 jogos marcou 66 golos; depois Manuel Livramento, falecido, que em 121 jogos marcou 53 golos.

Que Deus tenha em paz esta Velha Glória do Sporting Clube da Covilhã.

(In "fórum Covilhã", de 29.10.2013; "Notícias da Covilhã", de 31.10.2013; e "Notícias de Gouveia", de 08.11.2013)

16 de outubro de 2013

NÃO HÁ FÉRIAS PARA ASSISTÊNCIA AOS NECESSITADOS

O tempo de férias já lá vai e o outono chegou. Com ele também um período de agitação política com a campanha eleitoral que, tal como o tempo de veraneio, também teve o seu final. Resta agora acertar agulhas e recomeçar nova vida citadina, com outros corações.
Mas o telefone toca. A conversa ainda não está a meio e já o telemóvel dá sinal de vida. E, um segundo, também não se dá por silencioso. Algumas vezes é distribuída conversa por ambos, e, entre um SMS e o atendimento de voz, abrevia-se daqui, pede-se alguma espera dali, e, assim, vão surgindo alguns dias de agitação entre almas desassossegadas.
- Preciso de roupas! – Tenho a fatura da luz para pagar, está quase no corte e não tenho dinheiro! – O senhorio ameaçou-me com a rua porque já devo três rendas de casa!
- Por favor, ajude-me na compre deste medicamento que me faz muita falta; não temos dinheiro e o RSI ainda não chegou! – Não tenho nada em casa para comer! Tenho dado aos meus filhos só massa sem qualquer conduto!
Entre muitos casos, cada vez mais diversificados nas necessidades, é assim o panorama quotidiano a que assiste um vicentino que se preze, já que não existem férias, nem política, para quem tem fome, fome de muitas maneiras.
E, no verão de incendiários que passou, também algumas vezes tivemos que colaborar com os soldados da paz, lamentando os mártires; e com o coração sentido com os horrores da tragédia.
O assistente eclesiástico, de quando em vez, faz-nos sinal para passarmos pela sacristia da igreja onde exerce o seu múnus. No final, um papelinho com alguns elementos de informação de alguém que ali foi bater á porta. E são cada vez mais, cada vez mais mães solteiras em aflição; casais desesperados com o desemprego que lhes bateu à porta, numa de vergonha no pedido de assistência a que não estavam habituados, e jamais pensariam que a desgraça também os incomodasse, entre outros casos.
É necessário ir fazer uma visita e averiguar das necessidades daquela(s) pessoa(s) ou família(s) em pedido de socorro.
E, outras vezes, uma reunião de emergência para tratar casos específicos que urgem de atuação antes que a vida seja um ai que mal soa, como na voz do poeta João de Deus.
Se alguns casos podem ser ajudados pelo Fundo Social Solidário, quantas vezes não é necessário trocarmos impressões ou tomada de decisões sobre a abrangência de outros que nos enviam, colocando em sobressalto a cada vez maior míngua dos fundos das Conferências Vicentinas para a satisfação de tantas necessidades.
O vicentino procura estar atento e trabalha por vezes para além da sua missão. Como exemplo lá está aquela vicentina, viúva, mas com uma mão cheia de netos em casa, fazendo das tripas coração, mesmo em tempo de férias, na limpeza das instalações onde se reúnem e existem os géneros alimentares, juntamente com outra confrade, de boa vontade na sua disponibilidade, porque houve necessidade de fazer obras e a distribuição dos géneros do Banco Alimentar aproxima-se.
E, na continuidade da assistência, entre outros, aqueles dois irmãos a precisarem mais de uma palavra de carinho e de confiança, que de bens materiais, ainda que o telhado do casebre onde vivem, nos confins da serrania, na encosta da Serra da Estrela, lá para a zona de Cortes do Meio, urja de reparação. O teto é quase o firmamento, e a sala das suas refeições é na rua, entre as pernas e uns caixotes improvisados, servindo de cadeiras.
Mas é uma forma de viver, onde, nesta indigência existe contudo uma sapiência para o cultivo das suas courelas, que lhes sobram para a sua subsistência, em lugar solitário.
Para colmatar tamanhas dificuldades, na perigosidade daquela forma de viver, onde os acessos por caminhos entre giestas e calhaus da serra só se podem fazer com viaturas todo-o-terreno, lá se tem tentado resolver a reparação do pardieiro em casa com as mínimas condições de habitabilidade, para aqueles manos, e rasgar um pouco do caminho de acesso para as viaturas poderem virar.
E, assim, houve a colaboração de duas Conferências da Sociedade de São Vicente de Paulo, do Conselho de Zona da Covilhã.
No meu tempo de vicentino dos anos 60 do século passado, sempre houve carências mas desconhecia-se o espectro da droga, para além do alcoolismo. E as desavenças familiares sempre as houveram mas não nos moldes desta era tecnológica. Mas isto são contas que dariam para outro rosário.
Simplesmente registar o facto da não existência de silly season nesta finda época estival. Haveria para isto muitas respostas, nas várias vertentes da pobreza, entre as quais essa maldita pobreza envergonhada que os tempos modernos nos legaram. Afinal, falei nos meus tempos dos anos 60, já lá vai mais de meio século e a pobreza, em vez de se sumir, prosseguiu como as chamas devoradoras dos incêndios!
Este testemunho, qualquer coisa como desabafo, de quem não se conforma com as tentativas de eliminar os valores da vida, será certamente também de muitos outros vicentinos, de outras regiões. Muitas outras coisas haverão para contar, para registar, entre tristes e ledas madrugadas da vida de cada vicentino, com casos específicos ou outros na sua similaridade:

(In "Notícias da Covilhã", de 17.10.2013)

2 de outubro de 2013

OS PRATOS DA BALANÇA AUTÁRQUICA


A vitória alcançada pelo candidato socialista Vítor Pereira há muito que se vinha desenhando no panorama político do concelho da Covilhã.

Não imputo o seu êxito pelo facto da situação gravosa do governo, com que tem tratado todos os cidadãos deste país, sem apelo nem agravo, e da coligação que o suporta, mas tão só pela política local levada a efeito pelo ainda atual presidente da Câmara da Covilhã que, esquecendo-se da sua primeira derrota aquando da vitória de Jorge Pombo, “ingenuamente” (termo demasiado forte para esta figura) foi cair na mesma ratoeira.

E, pior a emenda que o soneto, depois de indiretamente apoiar o seu delfim Pedro Farromba lança-se com todas as farpas possíveis contra o seu principal opositor, o agora grande vencedor e seu substituto na presidência da Câmara, muitas vezes duma forma sarcástica. Sem olhar a meios para alcançar os fins, inclusive surgindo pessoalmente na campanha eleitoral de Farromba, denunciou de um certo desespero, que muitos terão interpretado de gato escondido com o rabo de fora.

Muito haveria para uma narrativa, como agora sói dizer-se, mas sintetizo o revés de Carlos Pinto com base nos “dez desmandamentos aos seus discípulos”: 1 – A sua sobranceria, pensando que o povo permaneceria indelével com ele; e, afinal, uma sua boa parte acabou por o crucificar; 2 – Não ter aceitado a democracia permitindo assim a divisão no seio do seu próprio reino; 3 – A grande ênfase dada às suas “obras monumentais” em detrimento da resolução de outras necessidades prementes como o comércio local e o quase abandono do centro histórico; 4 – A escolha do seu delfim que, embora “cinco estrelas” no âmbito das tecnologias não foi o suficiente para colmatar lacunas que mais preocupam os covilhanenses, muitos deles vendo nas modernas tecnologias um grande afastamento da possibilidade de resolução dos seus défices de emprego, para as quais não se sentem habilitados; 5 – As guerras civis de que Carlos Pinto foi obreiro, no seio da autarquia, dividindo os seus discípulos em vez de os unir; 6 – O grande défice que deixa na autarquia (contrastando com o autarca albicastrense que fez obra e deixou os cofres da sua Câmara cheios de metal); 7 – O grande despesismo de última hora e a sua constância, numa de aflição, de querer fazer aprovar, in extremis, assuntos que já poderiam ter sido apresentados noutras ocasiões, pretendendo, assim, deitar areia para os olhos aos munícipes; 8 – A boa campanha eleitoral dos seus adversários políticos que souberam explicar aos covilhanenses o embuste em que foram metidos; 9 – As costas voltadas para a grande fábrica do ensino que é a Universidade da Beira Interior, e para com o maior empresário do Concelho e um dos maiores empresários ibéricos; 10 – As crónicas e outros textos, a seu desfavor, denunciando as suas intenções, que vários colaboradores apresentaram nos órgãos da comunicação social local, este como 4.º poder.

A não existência destes desmandos, penso que o Concelho da Covilhã manteria a mesma linha de orientação do principal partido que tem governado o concelho da Covilhã. Assim, os pratos da balança penderam a favor do candidato socialista, que soube muito bem convencer muitos dos incrédulos covilhanenses.

 
(In "Notícias da Covilhã", de 02.10.2013)

1 de outubro de 2013

A REVIRAVOLTA AUTÁRQUICA

Não obstante o grande afã que percorreu todo o concelho da Covilhã, na perspetiva de amealhar o maior número possível de votos, por todos os candidatos, não há dúvida que a “guerra civil” no seio do partido que ainda está na gestão municipal, veio ajudar a grande vitória do candidato socialista Vitor Pereira. Ele, persistente quão afável, soube convencer os covilhanenses que, afinal, a democracia é de primordial importância na vida de todos os que querem viver em concórdia.
Efetivamente, Carlos Pinto, o mentor da “guerra civil” no seio do seu reino, deve à sua sobranceria a sua saída pela porta que não merecia, já que, algumas vezes tratou o agora seu sucessor, duma forma algo motejadora. Depois, no “antes e no durante” da sua gestão municipal, foi um continuar de condutas conducentes ao desgosto de muitos dos seus apaniguados.
A sociedade covilhanense mantém viva a chama duma das suas maiores empregadoras e manancial da vinda de muitos jovens para tirar os seus cursos, símbolo atual da Covilhã – a fábrica do ensino universitário que se chama Universidade da Beira Interior – para quem o presidente da edilidade que vai cessar o seu mandato, voltou as costas; como também reconhece a existência saudável da maior empresa da Covilhã – Paulo de Oliveira – que dá trabalho a muitas famílias covilhanenses, mas que Carlos Pinto definhou até aos últimos dias da campanha eleitoral.
Depois, o notório despesismo na campanha em que se envolveu, com forte empenho, a favor do seu delfim, Pedro Farromba, assim como o grande défice municipal que deixa aos vindouros, foram certamente a grande reflexão dos covilhanenses, sofredores com muitas carências no seio das suas famílias.
Muito mais haveria para uma narrativa, como agora sói dizer-se, embora muitas facetas já sejam conhecidas dos covilhanenses, principalmente daqueles que não fazem vénias ao Papa desta Terra, por dá cá aquela palha.
Assim, a reviravolta autárquica trás de volta, os socialistas, a liderar a Câmara da Covilhã, na terceira persistência de Vitor Pereira, persistência esta que foi objeto de chacota de Carlos Pinto, numa das suas lanças ao candidato socialista. A este propósito referi-me, na altura, num semanário desta cidade, de que também houve teimosia de um candidato brasileiro à presidência da república, e, de tanto persistir, um dia ganhou e foi um grande presidente.
É isso que esperamos de Vitor Pereira.
Enquanto a nível nacional o Partido Socialista “sovava” na coligação do nosso (des)governo, os covilhanenses também deram a sua reviravolta nestas eleições autárquicas, e, assim, depois de Vitor Pereira, em 2009 ter sido segundo com 27,86 por cento de votos, acaba por vencer com 37,52 por cento, deixando em segundo na corrida à Câmara, Pedro Farromba, por muitos já conhecido como “Carlos Pinto B”, que obteve 28,32 por cento dos votos. Já Joaquim Matias, líder pelo PSD local, obteve um resultado fraco, de 15,01 por cento da votação.
Surpresa, ou talvez não, foi o regresso do PCP à vereação da Câmara da Covilhã, que muitos covilhanenses se regozijam com a figura de José Pinto, sendo uma mais valia para o elenco camarário que se desenhou com estas eleições autárquicas, no concelho da Covilhã, ele que conseguiu 10,99 por cento dos votos.
Manuel Santos Silva, que compõe a excelente equipa dos socialistas que se apresentaram às eleições, será o novo presidente da Assembleia Municipal, tendo arrecadado 38,62 por cento dos votos contra os 26,21 do candidato João Carvalho, independente. Em 2009, o Partido Socialista havia ficado em segundo, neste órgão, com a percentagem de 31,29, sendo que Carlos Abreu ganhou com 46,49, do PSD.
Relativamente às freguesias, independentemente da união obrigatória de algumas delas, também houve alegria no seio dos socialistas, que ganharam sete freguesias, quando em 2009 haviam somente vencido em duas.
Carlos Martins, que também integrará a vereação da Câmara, é o campeão das presidências nas freguesias, que, em 2009, ganhou a freguesia da Conceição, com 55,76 por cento, e, desta vez, volta a ganhar, agora a União das Freguesias da Covilhã e Canhoso, com 46,87 por cento.
De realçar as maiorias absolutas das Juntas de Freguesia socialistas, de Erada, com João Almeida, 64,44 por cento dos votos; José Trindade Branco, em São Jorge da Beira, com 51,03 por cento, destronando o concorrente e atual presidente, Fausto Batista (independente), e que em 2009 havia ganho, pelo PSD, com 58.91 por cento. Também Pedro Leitão, socialista, ganhou com 54,75 por cento dos votos a União das Freguesias de Cantar Galo e Vila do Carvalho (irmão de Jerónimo Leitão, também um dos vencedores na equipa para a Câmara, de Vitor Pereira). Por último, o socialista José Lourenço, em Verdelhos arrecadou 68,27 por cento dos votos, sendo o primeiro socialista a ser ovacionado quando se dirigiu à sede de campanha de Vitor Pereira. Também no Paul, Peraboa, ainda que sem maiorias absolutas, ganharam para os socialistas, Gabriel Gouveia e Sílvio Dias, respetivamente.
Ficou por apurar a União das Freguesias de Casegas e Ourondo por destruição das mesas de voto, em virtude do Ourondo nunca concordar com esta União de Freguesias, tendo apenas votado em Casegas 304 do total de 1109 eleitores.
Vão integrar a nova Câmara, para os próximos quatro anos, três elementos do PS (Vitor Manuel Pinheiro Pereira, Carlos do Carmo Martins e Maria Paula Albuquerque Figueiredo Simões); dois independentes (Pedro Miguel dos Santos Farromba e Nelson António Mendes da Silva); um do PPD/PSD (Joaquim António Matias); e um do PCP-PEV (José Joaquim Pinto de Almeida).
O candidato vencedor, conjuntamente com os seus apoiantes, deslocou-se à Praça do Município, mesmo a chover, e, perante o entusiasmo de todos, ao lado dos seus “companheiros de jornada”, agradeceu-lhes, assim como a todos os apoiantes e felicitou os seus adversários. Categoricamente deixou expresso que irá ter o grande sentido de trabalhar pelos mais desprotegidos e marginalizados.
Esperemos que esta nova Câmara procure revestir-se do elo de ligação entre todos, em prol do bem da cidade, que a todos pertence, e não haja já a intenção de provocar guerras, perniciosas para os covilhanenses, a quem prometeram servir, sem qualquer intuito de se servirem.

(In "fórum Covilhã", de 01.10.2013)



25 de setembro de 2013

ÊXTASE POLÍTICO


Já muita coisa se escreveu, se debateu; fez agitar muitas águas e turvar correntes de informação, com ou sem sentido; por vezes, de uma embriaguez denodada, na tentativa do acertar na muche.

Na “revista 2”, de 15 de setembro, do “Público”, lê-se, em grandes parangonas a toda a capa: “Em terras onde já fecharam as escolas, os centros de saúde e os postos dos CTT, cabe aos presidentes das juntas de freguesia fazerem de assistentes sociais, taxistas, contabilistas e conselheiros. Mas, com o novo mapa, desapareceram 1165 freguesias. E com elas o último resquício da presença do Estado”.

Parece assim o regresso aos tempos de outrora, das décadas de 40 e 50 do século passado.

Tempo em que o barbeiro também fazia de dentista; as mulheres que tinham jeito e serviam de parteiras, deslocavam-se aos domicílios, mormente nas aldeias, onde nasciam os bebés; o professor fazia de jornalista; os farrapeiros deslocavam-se às casas para comprar farrapos, peles de coelho e metais; os homens dos cabritos vendiam-nos à porta e aí os esfolavam; e, afiar tesouras e facas era com o homem característico do seu apito; assim como os tachos e panelas de barro partidos acabavam por ser colados e, com uns agrafos, ainda serviam para mais algum tempo…

Os automóveis não eram para toda a gente… e até o Padre Pita, dos Penedos Altos, para ir para Aldeia do Carvalho, deslocava-se na sua moto; os da cidade, ao tempo, nem sequer possuíam carta de condução. Mas dava muito jeito para o transporte de alguns haveres, a carroça, com o cavalo, do Painço.

Neste setembro em que é habitual o país regressar à vida normal, com o retorno dos estudantes às escolas, é também o momento em que as famílias voltam às rotinas e se despedem das férias.

Temos à porta as eleições autárquicas. Na perceção das perdas que cada eleitor tem vindo a sofrer, com a atual coligação governamental, representa uma relevante razão para uma muito possível transferência do voto para as candidaturas dos partidos que têm vindo a opor-se a esta política, e olha-se geralmente de esguelha para os intitulados “independentes”, eles que integram ou integraram os partidos das gestões autárquicas…

E, neste frenesim da tentativa de aderência ao voto, os apaniguados desfazem-se no lançamento da isca por todos os que podem andar mais ao largo, e são atraídos pelos arraiais populares, com “comes e bebes” para o encontro das boas vontades.

É que isto já não vai com a promessa eleitoral. Segundo o pensador Daniel Innerarity, professor nas universidades de Zaragoza e Sorbonne que entrou na lista dos “25 grandes pensadores do mundo”, “É impossível governar as pessoas sem compreender as suas razões. Em muitos casos, os que são mandados sabem muito mais do que quem governa” e “Os políticos não podem fazer grandes promessas porque a situação política não é estável e eles passam a vida a improvisar”.

É indubitável que em qualquer organismo, instituição, coletividade ou associação, seja ela pública ou privada, existe sempre o espectro da adulteração das intenções e as intimidades exacerbadas porque os humanos sofrem deste pecado, por mais que se queiram afastar. Por isso, urge que haja os vigilantes a todo o tempo, e não só quando se zangam os comparsas.

Nalgumas “guerras frias” que antecedem o ato eleitoral, há que extrair cuidadosamente as ilações para que se façam emergir as verdades e se dissipem as inverdades, nalgumas destas guerras sem armas de fogo mas servidas pelas armas da intimidação e do embuste.

“Os governantes nada mais são que representantes do povo. Se, ao abrigo do seu estatuto de governantes, adquirem benesses, trocam favores, se movem nas zonas cinzentas da desconfiança e da ausência de transparência, então deixam de representar esse povo e perdem o direito de o representar” – Ana Luísa Amaral (escritora).

Neste entusiasmo esfuziante para muitos, os que chegarem ao clímax, procurem o engenho e a arte para serem merecedores dos créditos de quem neles votaram, e, de mãos dadas, possam fazer a paz e levantar a taça para o brinde da fraternidade no desenvolvimento da sua/nossa Terra.

 (In "Notícias da Covilhã", de 26.09.2013)

11 de setembro de 2013

A NOSSA DEMOCRACIA


Neste Portugal de hoje, a caminho de quatro décadas da Revolução dos Cravos, vai o povo português ficando cada vez mais desiludido, não só com a condução deformada dos ideais por que surgiu este grande acontecimento, mas também porque já lhe falta aquela segurança e coragem proveniente da convicção no próprio valor, aquela fé que se deposita em alguém e numa firme esperança, que, segundo os dicionários, se designa por confiança.

Embora esta época estival seja propícia a notícias sem grande interesse, duma certa frivolidade em relação a outras épocas do ano, foram no entanto os incêndios o grande tema do quotidiano. Esperemos que a silly season venha dar lugar ao rebentamento das correntes que amarram os ânimos de todos nós, onde os valores da vida são cada vez mais escassos.

Se atentarmos ao que se tem passado neste último governo (tenhamos em conta que os anteriores governantes também não resolveram os problemas dos demais portugueses, mas antes, trataram das suas vidinhas), os intervenientes na governação conseguiram mentir, de per si ou com outros, descaradamente, e a falta de palavra tem sido de grande tónica nas suas ações. Se o partido ou partidos que formam o Governo estivesse somente limitado ao cumprimento do seu programa de Governo e, no seu incumprimento fosse deposto, talvez a situação atual fosse outra. Se os meios de comunicação preenchessem os seus espaços com informações mais aprofundadas e fidedignas, e mais independentes dos grandes grupos financeiros, o seu contributo para a tal confiança raiava de outra forma. Nenhum indivíduo poderá representar bem todos os outros, pelo que o individualismo que ainda grassa na nossa sociedade terá que forçosamente passar pelo trabalho em equipa.

Se houvesse uma verdadeira justiça logo seriam devidamente punidos, todos quantos, independentemente da sua condição, de governantes ou não, roubassem ou defraudassem o Estado. Só assim se poderia englobar o princípio básico que abrange direitos, respeito, legalidade e igualdade.

Com tudo o que se está a passar, de bradar aos céus, haveria que, conscientemente, distinguir o essencial do acessório, com o olhar para a frente e não para a esquerda ou para a direita.

E que me perdoem os senhores do poder, dos destinos de Portugal, ou das autarquias, deveria haver uma classe política mais culta, informada e humanizada. Com mais amor a Portugal e menos à sua autopromoção. E, acima de tudo, acabar com o monopólio dos profissionais da política. Quando não nos revemos nos órgãos de soberania, nas empresas e nas comunidades, em que as decisões vão ter ao compadrio e ao aleatório, perde-se a noção do valor da vida e também a esperança.

Sabemos que os oportunistas, uma vez no poder, tudo fazem para que o esclarecimento das maiorias votantes não ocorra. É que, no tempo presente, a democracia foi tomada de assalto, por meio de mentiras e falsas promessas, por um bando de medíocres mas obstinados serventes dos senhores do poder.

A desolação é tanta que hoje, muitos não sabem se Portugal é uma democracia ou um caso de loucura, tal é o alheamento e a importância dos cidadãos face à balbúrdia dos pequenos e grandes poderes.

Deveriam os responsáveis por este pobre Portugal controlar o enriquecimento excessivo de governantes e ex-governantes e deixar cair na falência os bancos fraudulentos, e investir na agricultura em vez de campos de golf vazios.

Segundo o que refere a escritora Lígia Jorge, “aquilo de que enferma a Democracia Portuguesa provém da imperfeição das suas instituições ou da debilidade dos seus intérpretes”, e acrescenta que “o coração do futuro do mundo, tem de encontrar entre nós intérpretes à altura. Nesse campo, e no estado da selvajaria em que nos encontramos, semelhante combate vai precisar não só de heróis mas de leis”.

Se houvesse menos preocupação pela conquista, exercício e manutenção de poder mas mais com a resolução de problemas urgentes, menos programas mas mais planos estratégicos, menos mandar mas mais consultar, mais métodos , menos “fazer obra”, menos leis, menos monopólios do poder e mais pluralismo, mais responsabilidade e menos culto do sucesso, mais reorganização o otimização, menos jobs for the boys, mais competência e mérito, menos corrupção e mais ética, este Portugal seria uma verdadeira democracia.

O modo como os cargos públicos são ocupados por gente com todo o tipo de compromisso nas mais variadas empresas privadas é indecoroso. Deveria haver o levantamento do sigilo bancário para todos os responsáveis políticos (de presidentes de juntas de freguesia, Câmaras, governantes e presidentes da República).

E, porque não podemos abusar deste espaço, ficamos por aqui.

(In "Notícias da Covilhã", de 11.09.2013)