23 de abril de 2014

RECORDANDO OS TEMPOS DO “ASILO”, NO FERVOR DAS MEMÓRIAS

Como fôra anunciado, realizou-se no sábado, 19 de abril, o almoço-convívio, seguido de visita às instalações da antiga escola primária – “O Asilo – Associação Protectora da Infância” – de antigos alunos, de várias gerações, daquele antigo estabelecimento de ensino, que foi uma referência na cidade dos lanifícios de então.
A alma e mentor da iniciativa foi o antigo aluno, José Alberto Almeida que, em conversa com o seu antigo colega de carteira, o hoje fadista Nuno da Câmara Pereira, decidiram memorizar os caminhos percorridos outrora no Asilo – a sua escola primária e a de muitos covilhanenses ou que aqui se radicaram temporariamente como foi o caso de Nuno da Câmara Pereira.
Complementarmente, o fadista lisboeta, sobejamente conhecido, cuja sua ação no âmbito da solidariedade
para com os mais desprotegidos é muito sensível, e atuante, ofereceu-se para apresentar um espetáculo no Teatro-Cine da Cidade da Covilhã, a título meramente gratuito, em favor da Associação de Deficientes da Covilhã, evento que veio a ser um grande êxito, com a casa repleta de gente.
Estes dois eventos foram distintos, competindo-me
tão só dar a conhecer o retumbante entusiasmo vivido neste grande convívio dos antigos alunos do “Asilo”, com Nuno da Câmara Pereira, espelhado nas memórias vividas de outrora, e na chegada dos “antigos” que éramos cada um de nós. Foi grande, de facto, pela alma de cada um dos presentes, apesar de como que alguma contradição pelo facto de terem participado pouco mais que duas dezenas de antigos alunos, face a sucessivas desistências de última hora. Mas como dos fracos não reza a história e valem mais poucos e bons, eis o que se veio a desfrutar deste encontro-convívio.
À chegada, no ponto de encontro, eram visíveis os rostos risonhos de cada um, ao encontrar antigos colegas da mesma escola, ainda que de gerações diferentes. Contavam-se peripécias dos tempos da escola primária, aventuras de outros tempos, para além das reguadas levadas do professor Poeta, principalmente, do professor Raul, ou de outros.
Chega Nuno da Câmara Pereira e logo faz referência às reguadas que levou do professor Manuel Poeta.
E já o João Nuno Saraiva, durante o almoço, apontava para uma cicatriz na testa, resultante duma pedrada que o atingira, fruto das rivalidade“Os da Escola pediram a batalha; os do Asilo ganharam a medalha”.
s entre escolas daquele tempo, em brincadeiras da rapaziada escolar, envolvendo o “Asilo” e a “Escola Central”, quando solta um brado daquele tempo, de imediato acompanhado pelo Luís Filipe Bonina:
Por vezes atravessavam-se as conversas entre uns e outros, no óbvio de cada um querer memorizar os tempos de meninos e moços.
Chega a hora de se ir ao encontro das memórias do “Asilo”, in loco, já com a chave na mão para abrir aquela porta da rua, estreitinha, dos Combatentes da Grande Guerra.
Uma caminhada, desde o restaurante até à antiga escola, com fotos pelo caminho. Interregno com uma passagem de Nuno da Câmara Pereira pela igreja de S. Francisco para visitar os túmulos de seus antepassados, já que ele é herdeiro da família de Pedro Álvares Cabral, neto na 16.ª geração.
No Asilo, incumbido que eu fôra de fazer uma súmula daquela instituição de prestígio, e das suas memórias, fundada em 9/6/1870; e da sua biblioteca – “a Frei Heitor Pinto” –; foi a vez de o famoso fadista cantar ali um fado, na sala onde levou reguadas do professor Poeta, e de fazer algumas considerações muitos oportunas sobre o campo da solidariedade neste tempo de crise. Seguiu-se uma visita ao pequeno recinto destinado ao recreio e à instrução da Mocidade Portuguesa, com a foto da praxe.
Foi, de facto, um dia inolvidável.

(In "Notícias da Covilhã", de 24.04.2014)

16 de abril de 2014

DE FRASES DOUTAS A HISTÓRIAS LOUCAS

Portugal indubitavelmente a acrescentar aos anais da sua História mais umas páginas de quarenta anos, na génese de um sonho lindo. Paradoxalmente traído, tantas vezes, na adequação de “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.
Atentemos a mais de oito séculos da sua existência. Várias vezes emergiram perigos, ameaças e atos consumados na sua história bonita, convertida de vez em quando nas lágrimas e no sofrimento “duma austera, apagada e vil tristeza”, conforme o nosso Camões.
“A montanha pariu um rato”, quantas vezes, e, mesmo assim, não tem servido de exemplo a muitas cabecinhas pensadoras. Não se destruindo a si mesmos, como nobres de outrora, conseguiram colocar grande fatia da classe média em paralelo com os nossos irmãos da “arraia-miúda” ou “ventres ao sol”, da invenção de Fernão Lopes.
Neste sul da Europa, onde nos integramos, uma fisionomia invernosa; em contraste, o semblante primaveril dos países da vertente norte. Já poderíamos ter respirado dum certo desafogo. As enormes contrariedades por que estamos a passar não existiriam se, ao longo da nossa história, muitos dos principais governantes não se situassem no verso camoniano de “Um fraco rei faz fraca a forte gente”.
Dentre as necessidades prementes de hoje, a justiça portuguesa. Não funciona de forma a resolver os problemas que viraram o país ao avesso. Usos e abusos chegam ao caricato das prescrições. Atos que pedem severa punição. Recorde-se, há mais de 900 anos, o conselho do Conde D. Henrique, no seu leito de morte, a seu filho, ainda de tenra idade. Para o primeiro monarca de Portugal, D. Afonso Henriques: “Se um dia deixares de fazer justiça um palmo, logo ao outro dia se afastará de ti uma braça”.
E “a nós pertence fazer mercê aos indefesos e protege-los contra os poderosos”, é a decisão das Cortes de Coimbra, convocadas por D. Afonso II. Que fique na mente dos governantes deste País, e não daqueles que se arregimentam com a “governação” deste pedaço europeu, que, na expressão de Eça de Queiroz, em O Conde de Abranhos, “O governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa”.
Saímos do “orgulhosamente sós” e da “evolução na continuidade”. Caso contrário, onde estaríamos? António de Spínola e Costa Gomes enganaram-se nas afirmações de que “Haveremos de continuar em África. Sim!” e “Venceremos”, no ano de 1974. Mais acertada foi a expressão do jornalista Eugénio Alves, durante a censura, relatando um jogo de futebol a pensar no Golpe das Caldas, que precedeu o 25 de abril: “Perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra”.
Após a reunião de vassalagem a Marcelo Caetano dos últimos generais leais ao regime ditatorial – “A brigada do Reumático” – já Manuel Alegre no “Pergunto ao vento que passa, notícias do meu país, o vento cala a desgraça, o vento nada me diz”, pôde haurir na sua poesia ao grande dia da libertação – 25 de abril daquele inesquecível ano de 1974.
D’”O estado a que isto chegou”, do saudoso Salgueiro Maia, veio a esperança. O seu indómito entusiasmo levou de vencida todos os escaravelhos que minavam este Portugal. E uma história louca não se concretizou, no Terreiro do Paço. Os disparos das forças do regime, ali, frente a frente, se quedaram.
Nestas últimas quatro décadas muita coisa se passou. A disputa do poder – “Olhe que não, doutor, olhe que não”; “O povo é sereno. É só fumaça!”; em 1975. Uma década depois, “Só fui fazer a rodagem”(1985) e “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas” (1990).
Tempos desarticulados da governação. Muitas estórias pelo caminho de toda esta História de Portugal. Um FMI a ajudar a salvar da bancarrota nos anos 80. Em 2011, a Troika, de grande tormento. Termo do programa de ajustamento previsto para 17 de maio.
E foram Primeiros-ministros de Portugal a conduzir-nos para fobias: o “monstro”, o “pântano” e a “tanga”. Cavaco, com os dinheiros da União Europeia, fez-nos lembrar que “O ouro e os diamantes do Brasil foram a transfusão de sangue num corpo anémico”, conforme Oliveira Martins retratou as contas do reinado de D. João V, onde tanto entrou e tão pouco ficou. Dois outros a fugirem. Um a ser demitido forçosamente pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, fazendo recordar, no século XIII, a deposição de D. Sancho II por seu irmão D. Afonso III, por incapacidade governativa.
Aquilo que jamais se previra algum dia, neste Portugal, aconteceu: Bancos a serem ávidos da cobiça dos senhores da ladroagem. Brada aos céus! Justiça transformada em prescrição!
Basta! Estamos ávidos dum Portugal renovado.

(In "Notícias da Covilhã", de 17.04.2014)

8 de abril de 2014

DO 25 DE ABRIL DESFIGURADO À PRESCRIÇÃO

1 - Quando há quarenta anos vivi a Revolução dos Cravos, como tantos covilhanenses e portugueses, acordados por um sonho lindo, nem sequer passava pelas nossas cabeças que a vida ainda nos haveria de mostrar uma face de grandes dificuldades, por décadas em frente.
Naquela madrugada de quinta-feira tinha-me deitado já um pouco cansado de uma viagem profissional, e preparava-me para, no dia seguinte, uma visita de negócios, quando sou confrontado, de manhã, com as notícias de algo que se passava no País, fora do habitual.
No trajeto para o escritório, a polícia mostrava um semblante muito sério. Chegado ali, e juntamente com o colega, entramos em contacto com os nossos superiores hierárquicos para saber o ponto da situação e a conduta que se impunha. Já havia agitações por vários sítios, durante o dia, e os Bancos encerraram.
Para mim não era assim muita surpresa já que tinha acompanhado algumas reuniões da Comissão Democrática Eleitoral, e, aquando da Revolta das Caldas, naquele sábado da manhã de 18 de março de 1974, vinha eu de fim-de-semana, duma formação em Lisboa, no carro do Humberto Andrade, quando passámos por algumas viaturas militares, em atitude bélica, na zona de Abrantes, o que nos causou alguma estranheza.
Havia vivido 28 anos em ditadura, e terminado há três anos o serviço militar. Tinha uma vida mais desafogada com a mudança de vida profissional, da estatal para a privada.
Na flor da idade, e no entusiasmo da profissão, percorrendo os dois distritos – Guarda e Castelo Branco – com regressos a casa muitas vezes pela madrugada fora, começo por verificar os exageros de quem não estava habituado à democracia, e as vinganças que se traduziam, na força de que “o povo é quem mais ordena”, em mandar para a rua as hierarquias que não se compraziam com a vontade desse “povo” ainda desorganizado.
E surge o Processo Revolucionário em Curso (PREC), Comando Operacional do Continente (COPCON), em Lisboa; uma série de Governos Provisórios donde emergiu um período de grande desestabilização social, com os trabalhadores a ganharem enorme força sindical, na era comunista, com nacionalizações da Banca e dos Seguros, e a fugida de muitos empresários para o estrangeiro. Vem o Conselho da Revolução e uma nova Constituição Portuguesa até que os novos Governos Constitucionais tomam conta do País.
E, neste período de tempo, alguns petizes que mal palmilhavam os caminhos desta Terra de Santa Maria, iam crescendo, crescendo, e viriam a saltar para a ribalta da política, entre jotas, boys e girls, para hoje nos desgovernarem, pós feiras e mercados, beijos e abraços, na “catedral” de S. Bento e suas traseiras.
A integração na União Europeia foi de satisfação mas de imediato os protagonistas da governação não souberam aproveitar as ofertas dos fundos destinados à modernização e logo esfregaram as mãos de tanto rio de dinheiro.
Depois, vai um mundo de corrupção, ladroagem às ocultas e às claras, com uma justiça a não funcionar e a deixar prescrever processos e mais processos, com atitudes caricatas como na comunicação social recente.
Ainda hoje continua a emergir essa revolta – a prescrição –, algumas, propositadamente.
Volvidos 40 anos da Revolução do 25 de Abril, a Revolução dos Cravos, da Esperança, é hoje traduzida por contornos que a desfiguram, no descrédito em quem nos governa, nas atitudes de quem faz troça dos mais fragilizados em todas as vertentes, comprazendo-se com salários milionários, eliminando a classe média, e, numa atroz situação de incompreensível atitude para um humano, em que os mais ricos são uma fatia muito forte do conjunto dos mais pobres.
Quem haveria de pensar que após 48 anos de ditadura e implantada a democracia, num percurso de já quatro décadas, haveríamos de comemorar estes 40 anos de liberdade, numa situação draconiana, depois dum FMI nos anos oitenta, agora uma severa troika, com o choro de muitos, na míngua e redução do seu pão-nosso de cada dia, ao paradoxo dos salários incompreensíveis de muitos que ganham mais num mês que dezenas de trabalhadores num ano.
“Os Rapazes dos Tanques”, de Alfredo Cunha e Adelino Gomes, vem, numa esplêndida imaginação, dar corpo ao momento exato da definição do 25 de abril, como ato consumado em determinado momento, na “hora h”, em que “prescreveu” o tempo do brigadeiro Junqueira dos Reis que obrigara o cabo José Alves da Costa, há 40 anos, a disparar contra as forças de Salgueiro Maia. Se este patriota Alves da Costa tivesse dado ao gatilho, pergunto, onde estaria a data que hoje comemoramos, entre tristes e ledas madrugadas?
2. “Artistas da Nossa Terra”. No número de 25 de março deste quinzenário foi feita menção à “obra inacabada de Manuel Vaz Correia”, onde, segundo o autor, “muitos universitários bebem dos meus livros, para notícias e reportagens, mas não com o intuito de desenvolver a obra”.
Pois bem, como eu também sou um dos nomes que são inseridos na sua obra (2.º volume), a seu pedido de determinada altura, não posso deixar de sentir o meu descontentamento pela omissão da atividade profissional que desempenhei ao longo de 40 anos, lacuna infeliz porquanto foi o maior e melhor tempo da minha vida profissional. Segundo as suas palavras, “O escritor passa e a obra fica, e estou convencido que esta é uma obra que vai perdurar no tempo”; sim, fica a obra imperfeita na parte que me diz respeito, e, a propósito, também o autor foi beber a fontes dos meus livros, alguns elementos, nos seus inseridos.


(In "fórum Covilhã", de 08.04.2014)

11 de março de 2014

“HÃ?”

Palavrinha curta, simples, que sai da boca sem esforço. Com ela se interroga de imediato o interlocutor. Pede-se-lhe para repetir o que disse. Também existem outras palavras que servem o mesmo propósito: “como?”, “diga?”. Depressa que surgiu um hiato na comunicação oral. Existe assim uma falha de compreensão.
- Hã? “Milagre económico” conseguido no nosso país? … Agora que se aproxima o termo do fim do programa de ajustamento da troika, com as severas exigências do seu Memorado, dizem acontecer para 17 de maio, pelo que convém que Cavaco Silva reze a Nossa Senhora de Fátima, como já, noutras alturas, invocou a sua intercessão.
- Diga? Chegou-se ao final de 2013 com um défice previsto de 5% quando se previa uma percentagem inferior. A dívida máxima prevista no Memorando era de 114,9% do PIB e, no final de 2013, foi de perto de 130%. Aumento doido de impostos, ultrapassando mesmo o exigido pela troika, recessão da economia e brutal quebra do consumo. Pessoas e famílias em autêntica penúria aumentando os braços carinhosos das várias instituições de solidariedade social, como são as Conferências de São Vicente de Paulo. E se elas não existissem?
- Hã? Com um segundo resgate fora de qualquer previsão (para já…), com a necessidade de um programa cautelar ou uma saída limpa (mas com mãos sujas de muitos corruptos, chico-espertos e oportunistas), o Governo nem ninguém nos diz quando é que a agressiva austeridade, nas previsões mais otimistas dos estimados governantes, serão atenuadas e chegam ao fim. Talvez para gerações daqui a uma, duas ou três décadas. E com a destruição da classe média.
- Como? O ano 2013 confirmou o fim da recessão em Portugal. Sem euforias, nem pompa e circunstância. Os mais cautelosos saltaram a lembrar que a crise ainda vai caminhando e que o seu fim ainda pode estar distante. O ministro da Economia, Pires de Lima, terá sido o anunciador do que considerou o tal “milagre económico”, talvez imbuído na ideia da intercessão de Santa Rita de Cássia, advogada das causas impossíveis. Não fossem os cérebros portugueses a saírem para a estranja, onde os portugueses são reconhecidos pelo seu Know-how, numa referência como trabalhadores de confiança, Portugal estaria hoje numa situação mais degradante.
- Diga? A recuperação da economia vai demorar uma a duas décadas. Sim, Senhor, são as palavras doutas de José António de Sousa, “para recuperar os níveis de riqueza que se tinham em 2008”. “Estamos agora muito mais pobres do que há três anos e vai demorar muito tempo para recuperar".
- Hã? Portugal, considerado o “bom aluno” da União Europeia. É a convicção de Cavaco Silva. E, com esta de nos vergarmos demasiadamente sobre o fardo da austeridade, nesta barca do inferno a empobrecer-nos cada vez mais, só é de estranhar como é que o povo ainda não escolheu a violência, numa nova Maria da Fonte. Até Xanana Gusmão, líder da resistência timorense, na sua visita a Portugal, disse sentir-se chocado com a situação portuguesa por que a população está a sofrer.
Vamos aguardar por uma saída destas correntes que cercam a nossa casa, ou duma forma limpa, ainda que com a ajuda da mulher a dias; ou com programa cautelar, na lembrança das reguadas dos professores da primária de antigamente, que não faziam mal a ninguém.
Voltamo-nos agora para a Manchester Lusitana de outrora, Cidade Universitária de hoje. Ainda a procissão vai no adro e já vozes escondidas nas redes sociais, onde a cobardia do anonimato é rainha, soltam gritos de Ipiranga sobre ventos ciclónicos a abalar a cidade laneira que foi durante séculos.
- Hã? Como? Diga? Parece que às vezes é o desejo de se ver a terra queimada para depois surgir o D. Sebastião, agora que tem havido algumas manhãs de nevoeiro. E, uns e outros, anonimamente, se digladiam. Isto é do caraças! E, depois, inventa-se o “ Bucha & Estica”, ou o “Sr Feliz e o Sr. Contente”. Ainda que se vejam muitos acidentes com colisões, que é preciso denunciar também, mas dando a cara, há que ter presente o provérbio “Bem o prega Frei Tomás; façamos o que ele diz e não o que ele faz”.

Vamos então responder não só ao que nos desagrada mas também aquilo de que somos acusados. Mas, de fronte erguida. É que há telhados de vidro, lá isso há…

(In  jornal "fórum Covilhã", de 11.03.2014))

5 de março de 2014

ESTÓRIAS COM PROFESSORES

Eram uma vez certos estudantes que tinham coisas de tramar. À Escola Industrial chegam os rapazes da cidade e os do combóio. Estes vêm do Tortosendo, de Alcaria, da Fatela, de Vale de Prazeres e do Fundão, pela zona sul; e do Colmeal da Torre, de Belmonte e de Caria, pela zona norte. Os do combóio geralmente almoçam na cantina da Escola. Aqui manda Augusto “Chocolate” e sua mulher, D. Rosa. Entram pelo portão sul.
Os da cidade, Refúgio e outros subúrbios, aglomeram-se ao portão da escola, a norte, junto ao Sr. Joaquim “das carroças” – o ferrador. Aguarda-se pelo toque da campainha. Ensejo para ver as meninas, colegas que descem o Serrado para a Rua Vasco da Gama. E também as professoras. Ou no átrio da escola, junto ao muro que dá para o terraço inferior destinado, em exclusivo, às alunas. Nada de misturas! São tempos da era de sessenta… Fuma-se um cigarro, por vezes adquirido em avulso, na barbearia do Mário, na rua mais acima, enquanto se conversa.
Alguns empregados da escola – os “contínuos” – são castiços. Só chateiam quando a bola salta para os chorões, e lá vão, “por ordem do senhor diretor “, tentar identificar os alunos que jogam. Serão chamados à pedra. Alguma risada com o contínuo “Zé das Latas”, do Tortosendo, com a sua moto velha. Mas também com o Silva, bem devoto do tinto. E, aquele, magrinho, que a mando do diretor da Escola se dirige ao campo onde se joga com uma bola de borracha, em tempo de aulas. Regressa com a notícia para o chefe: “Fugirem todos, senhor engenheiro!”.
A maioridade é aos vinte e um anos. Na secretaria da escola fazem barulho as máquinas de escrever Hermes, Underwood e Remington. Os computadores ainda não nasceram.
Corre o ano letivo 1961/62. Uma turma masculina, com vários repetentes. É altura do Carnaval e surge um feriado a uma aula (é sempre uma festa). Alguns vão comprar bombinhas. Um colega mais atrevido, o Coelho, lança uma para junto dos pés duma leiteira das Cortes, junto ao estabelecimento do Sr. Proença, ainda existente, ao fundo do Ramal da Estação. Dá um valente salto que quase deixa cair o cântaro do leite que transporta à cabeça. Daqui, vamos ao Café Primor, do Sr. Cunha. Combina-se uma greve à aula seguinte. No que nos fomos meter! Grande arrelia do diretor, Engº. Ernesto de Melo e Castro, a gritar para os contínuos: “ Os alunos a faltarem todos às aulas é uma greve! É muito grave! A greve é proibida!” Dá imediatas recomendações à professora de Física, D. Clara, para que assine o “livro de ponto” e registe os sumários como se tivesse havido aulas.
O professor Guedes da Costa, do Porto, gingão, dá “Noções de Comércio de Direito Comercial e Economia Politica”. Quando vê um maço de tabaco andar de mãos em mãos, o resultado é o seu dono ficar sem ele. Alguns se lembram de lhe pregar uma partida na próxima aula. Combinam dar nas vistas ao professor com a passagem, de uma mão para a de outro, de um maço de tabaco. Ele está bem fechadinho. Parece inviolado. “Esse maço de tabaco para aqui, imediatamente!” – exige o professor. E o Nuno Alegria Ribeiro obedece. De soslaio, sorrisos de uns para os outros. Aquele maço está cheio de palha…
Ano letivo de 1959/60 – 2.º ano do Ciclo Preparatório. O Arquiteto Manuel João Calais dá aula de desenho. Duas horas seguidas, naquele salão enorme. Aqui se juntam simultaneamente quatro ou cinco turmas, masculinas e femininas. Início às 14 horas, a seguir ao almoço, dá o sono ao arquiteto. Sob a secretária deixa o seu peculiar relógio de bolso. Em certa aula, o pobre professor é apanhado a dormir. Três dos seus alunos (um da Covilhã, e dois do combóio) sorrateiramente adiantam-lhe uma hora no relógio. O arquiteto acorda e vê a hora. Pensa que a aula está no final. Coincide com um intervalo. Dá ordem de saída aos alunos Quem não se apercebe da malandrice dos colegas, embora estranhando a saída mais cedo, não a refuta. A professora de desenho, ao lado, D. Etelvina, estranha e pergunta ao arquiteto porque é que tinha mandado embora, os alunos, mais cedo. É descoberta a esperteza dos três alunos, por alguém que deu com a língua nos dentes. Resultado: os três “malfeitores”… foram chumbados, ainda precocemente, com a “jura” do arquiteto. E a nota de um “três” a uma só disciplina que seja obriga à perda global do ano letivo. Nem o pedido de desculpa dos pais, ao arquiteto, lhes vale.
As meninas da Escola Industrial, a um sábado, têm um jogo de voleibol com as suas colegas do Colégio das Freiras, no campo da escola. A rapaziada da Escola vai lá abaixo ver o jogo. O diretor, Engº. Ernesto de Melo e Castro, constata esta assistência ao jogo e não quer misturas! Alto lá! Desce e vai ao campo, histérico. Dirige-se à rapaziada: “Rua! Rua! Só cá fica quem cá está!”

Não sei se nos tempos de hoje se passaria tudo assim…

(In "Notícias da Covilhã", de 06.03.2014)

12 de fevereiro de 2014

VIVÊNCIAS DE OUTROS TEMPOS

Greves proibidas em Portugal. Vive-se um regime de ditadura. Falar contra Salazar é um perigo que espreita à esquina, não esteja por ali um informador da PIDE. Tempos de miséria. Quando se recebem os salários, pouco dá para as despesas. Nas casas particulares não há televisões. Quanto muito, uma telefonia. A rapaziada joga na rua com uma bola de farrapos. E brinca ou troca cromos de jogadores de futebol. Outros, ao berlinde; ou com um arco e um guiador improvisado de arame, correndo com ele pela rua fora. Lá surge um qualquer anunciando que lhe saiu a bola de cauchu, nos rebuçados do concurso. As raparigas brincam, nos pátios ou à porta das casas, jogando às pedras ou saltando à corda.
Os mancebos idos às sortes e incorporados no “Batalhão de Caçadores 2” veem que o seu pré nem sequer dá para o tabaco. Os homens passeiam com os amigos, aos domingos, e visitam as capelinhas (tabernas), já que as mulheres têm o destino em casa, cuidando das tarefas domiciliárias, depois de terem vindo da missa. O Sporting da Covilhã singra pelos caminhos da Primeira Divisão, e, então, o futebol é um pouco do tempo onde se desanuvia do contacto com os teares. Há os operários (homens do fato macaco) e os empregados (homens do fato e gravata), sendo que os salários de ambos fazem a diferença.
Fumam-se “Definitivos e “Provisórios”, enquanto alguns, mais antigos, nas lides do campo, desfiam o tabaco de onça; outros o “Português Suave” ou “Três Vintes”. Só mais tarde chegam os cigarros com filtro: Sagres, Porto, SG Gigante, SG Ventil. A monoindústria – lanifícios - sustenta a cidade. Formigueiros humanos à saída das fábricas. Dos arredores, os agricultores vão à Covilhã pagar a décima.
Muitos bebés nascem em casa. A Sr.ª Lucinda faz de parteira. Dá uma ajudinha nas aldeias e lugarejos. Onde não chegam os automóveis chega o Manuel do cavalo. Vende roupas aos domingos. E Celeste Ranito faz chinelos. Vende também pão cozido a lenha. O homem da carqueja vem com o burro carregado porque o inverno está chegado. No estio, o homem com a palha para encher os colchões que carecem de substituição. Oportunidade também para o homem que chega e cola pratos e alguidares de barro partidos. Mais adiante, o amolador com a sua bicicleta e o aviso caraterístico. Quem quiser afiar facas, tesouras, e também dar o guarda-chuva para substituir as varetas, é de aproveitar.
Durante a semana, é de dar à sola aquele que anda ali a construir uma casa ou reparar um pardieiro sem licença municipal, ao avistar, ao longe, os dois homens da GNR, com as “mausers” ao ombro. O gaseado solta gritos contra Salazar. Não há problema com ele. Os transeuntes não se riem. O vizinho que está no hospital já faleceu, e, vai daí, há que arranjar o avisador, de bastão na mão, percorrendo casa a casa a dar a infausta notícia. Ladram os cães. O funeral, a pé, segue para a igreja. Depois, para o cemitério. A carreta é puxada por quatro ou mais homens. No regresso, chegam contentes a casa. Visitaram várias “capelinhas” que lhes sanou a sede nas suas goelas.
Pela Covilhã, a carroça do Painço faz os transportes das anilinas para as fábricas. Pelas seis da manhã já chiam as rodas dos carros de bois com os produtos agrícolas para a praça. No Pelourinho, os ardinas vendem os jornais do dia, e gritam anunciando “O Século”, “A Bola”…
Aos domingos, dias santos, ou mesmo durante a semana, surge o “Zé do pífaro” (José Januário), de Unhais da Serra, irmão do padre António, de Vale Formoso. Várias gaitas debaixo do braço e uma sacola de serapilheira às costas. Conversador. Não pede nada mas sempre vai recebendo alguma coisa. Outros surgem à porta das casas e, de imediato, começavam a rezar o Padre-Nosso, em voz alta, à espera duma esmola, para a sacola que trazem às costas.
Aos domingos, à saída da missa da Igreja de Aldeia do Carvalho, o velho António Vicente, coxo, de açafate na mão, depois de ter vindo da taberna do Zé Patareco, leiloa os cabritos a favor da igreja paroquial.
O Padre António de Oliveira Pita, terminada a Eucaristia, monta-se na moto. Rapidamente avança para a Igreja de S. José, nos Penedos Altos.

Corriam os anos da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e cinquenta.

(In "Notícias da Covilhã", de 13.02.2014)

11 de fevereiro de 2014

PRAXISMO, SIM OU NÃO?

Tema de conversa de há umas semanas a esta parte, com páginas inteiras de jornais no enfoque do assunto; os noticiários dos canais televisivos dando ênfase ao mesmo, os online repletos de comentários nos facebooks. Debates interessantes na TV, sim, senhor, destacando-se o programa Prós e Contras, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra; reportagens, documentários, entre notícias e artigos de opinião em vários jornais.
O tema das praxes até terá dado algum jeitinho aos homens da governação pois que, pelo menos durante alguns minutos não se falou dos males da mesma, mas, antes, se substituiu a crise financeira pela crise de valores.
Apesar da evidência do calor do momento, não tenho memória de tantas críticas ao fenómeno da praxe. A quase intocável tradição académica começou a ser posta em causa.
Só agora, depois das mortes no Meco, e mesmo depois de outras mortes e incapacidades permanentes para os praxados terem acontecido, ao longo dos anos, em memórias dissipadas no tempo para a maioria, mas não para as famílias das vítimas, é que se levanta o véu manchado pelas humilhações.
Por que raio alguém tem de ser humilhado, rebaixado e até mal tratado quando ingressa no Ensino Superior?
Não é através de rituais humilhantes que o aluno é integrado no seio escolar. Nem todos gostam ou apreciam ser expostos perante o público.
E não venham cá com a treta de que só é praxado quem quer, e que os caloiros se podem recusar. Será que a recusa permite aos caloiros usarem o traje e a participação nos eventos académicos?
É uma prática antidemocrática pois assenta na submissão, ainda que voluntária, de uns tantos, a dois ou três palermas que impõem situações infantis e ridículas. Muitos dos que impõem as praxes se se vissem ao espelho veriam o papel ridículo que fazem quando se põem a gritar histericamente para os caloiros.
Critica-se a praxe por os praxados terem necessidade de entrar neste jogo de bullying e bebedeiras para se sentirem incluídos e aceites.
Já muito se falou sobre este tema e muito do que se venha a dizer é como chover no molhado, pois que praxe, polémica e violência é uma história de séculos. Em 1727, devido à morte de um aluno no ano anterior, D. João V proibiu as investidas feitas pelos veteranos. E determinou que “a qualquer estudante que ofender outro com o pretexto de novato, ainda que levemente, lhe sejam riscados os cursos”.
As contestações às praxes jamais deixaram de existir e já o antigo Presidente da República, Teófilo Braga, dizia que os estudantes do seu tempo faltavam às aulas para fugir à praxe. Em 1903, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão assinaram, em conjunto com outros estudantes, um “manifesto anti praxe”.
Já num artigo que publiquei num semanário desta região, em 3.11.2011, sob o título “Praxes Académicas” eu dizia “Se muitos dos pais que, com sacrifício, lá longe, suportam as despesas com os seus filhos, vissem o espetáculo em que os mesmos se envolvem, muitos deles contrariados, num uníssono de asneiras e atitudes obscenas, com bebedeiras pelo meio, a que são forçados, certamente se sentiriam constrangidos”.
De facto, segundo o jornalista José Manuel Fernandes, no Público de 31 de janeiro, “Vivemos numa sociedade onde a boa educação é vista como um coisa antiquada, onde a ideia de cavalheirismo é vilipendiada como sendo reacionária, onde o insulto grotesco é mais depressa visto como um exercício de liberdade do que como um abuso”.
Se os governos cumprissem com o legislado e punissem os infratores, muitas situações catastróficas e de vias judiciais se evitariam. Bastaria que o Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior, através da Lei n.º 62/2007, de 10 de setembro, na sua alínea b) do n.º 4 do artigo 75º, em que se refere que “constitui infração disciplinar dos estudantes a prática de atos de violência ou coação física ou psicológica sobre outros estudantes, designadamente no qudro das praxes académicas”, fosse cumprido e se agisse.
Sem dúvida que quem praxa com violência não deverá ter lugar na universidade, seja ela pública ou privada.
E, sobre este assunto, apraz-me tão só memorizar o que António Aleixo escreveu um dia: “Há tanto burro a mandar em gente de inteligência que às vezes fico a pensar se a burrice não será uma ciência”.

(In "fórum Covilhã", de 11.02.2014)


30 de janeiro de 2014

CONSELHO CENTRAL DA GUARDA Conselho de Zona da Covilhã A GRANDE VISIBILIDADE DAS CONFERÊNCIAS

É indubitável que o trabalho das Conferências de São Vicente de Paulo passou a ter um grande protagonismo, alheio a qualquer intenção própria dos vicentinos que, duma forma geral, procuram desempenhar as suas funções de assistência aos necessitados dentro do espírito de Caridade, e, por isso, rejeitando, tanto quanto possível, eventuais aparatos.
Só que, a força das necessidades, cada vez mais prementes; com a redução de bens alimentares, e, principalmente, dos valores do saldo para satisfazer despesas de água, luz, rendas de casa, medicamentos, e outros; face à avalancha de pedidos, muitos deles que já não nos causam estranheza, devido à proveniência de pessoas que outrora tiveram uma vida desafogada; obrigam a um esforço de todos os membros, desdobrando-se na criatividade para arranjar meios de fazer face às despesas, cada vez mais em
crescimento.
São as exposições-venda, os sorteios de rifas de Natal, os peditórios e a participação em espetáculos de solidariedade, para além dos avisos do assistente eclesiástico, nas Eucaristias, assim como a procura de benfeitores, e donativos, que levam ao surgimento de uma onda de solidariedade em várias áreas da Cidade e de algumas zonas da região.
Por via da Comunicação Social, onde a imprensa escrita, com reportagens e notícias, também tem grande impacto, leva ao aparecimento de boas
vontades, então pelo grande impacto que existe na Internet.
Assim, no ano findo de 2013, teve este Conselho de Zona boas ajudas em encontrar soluções para carências específicas de cada necessitado, nomeadamente no que concerne a algum mobiliário e eletrodomésticos, assim como determinados enxovais ou leite infantil.
Evidentemente que o trabalho dos vários vicentinos, das várias Conferências deste Conselho de Zona, desdobrado pelos muitos contactos com a Segurança Social, empresas de água e eletricidade, assim como autarquias e a Câmara Municipal, implicitamente dão lugar à atenção no campo solidário.
Algumas instituições, clubes e associações se têm disponibilizado autonomamente ou em colaboração com as Conferências da Cidade no sentido de ajudarem, mormente com géneros alimentares.
E assim organizaram campanhas a favor de obtenção desses bens, e, mormente por ocasião da época natalícia, também a oferta, nas instalações de alguns, com jantares de Natal para os necessitados e famílias.
Durante o ano pudemos contar com a solidariedade, sempre com peculiar sorriso nas suas mentes, do “Grupo SER – Ser Especialmente Responsável” que tem como lema “ajudar sem esperar nada em troca”, através da Internet, com mais de 300 membros, que, bem depressa se organizaram no pedido de bens específicos.
E daqui nasceu uma grande campanha do leite, com a distribuição de 2000 litros, onde o Grupo de Motards da Covilhã e Fundão tiveram grande ação; assim como várias instituições e empresas que fizeram a sua entrega simbólica do leite, no VI Encontro de Voluntários do Centro Hospitalar Cova da Beira que decorre
u no auditório do Hospital Pêro da Covilhã.
Já depois desta onda solidária surgiram outras partilhas, como da Sala das Tartarugas do Infantário da Santa Casa da Misericórdia – Infantário 2, com alguns cabazes de Natal, desta vez para a Conferência de Nª Sª da Conceição da Covilhã e Banco Alimentar, numa iniciativa da Associação de Pais; também os Lions Cova da Beira, e a A.D.C – Águas da Covilhã, EM, para além dum espetáculo solidário da Claque Leões da Serra, e, como já referimos, a Câmara Municipal da Covilhã e a União de Freguesias da Covilhã e Canhoso, e a empresa Modatex.
Pensamos, contudo, que a nível da maioria dos dadores, quer sejam instituições ou empresas, se deveriam abster da quase obrigatoriedade da sua notoriedade, por via das fotos e notícias inseridas na Comunicação
Social.
Pela parte dos Vicentinos, como não há mãos a medir, todos se desdobram pelas várias tarefas, seja na visita, cada vez maior, aos pobres, na procura de conseguir soluções para resolver casos urgentes, e não só, nas reuniões semanais das Conferências respetivas e, algumas vezes, em colaboração com outras, assim como na recolha e distribuição dos géneros do Banco Alimentar.
O aspeto espiritual de todos os vicentinos também tem estado presente, como foi a recoleção espiritual, que, apesar do muito frio, reuniu alguns elementos num dos salões da Igreja de S. Tiago, onde estiveram também alguns Presidentes das Conferências deste Conselho de Zona.
Também muitos vicentinos do Conselho de Zona da Covilhã se reuniram num Jantar de Natal, onde esteve presente, para além da Direção, também o Presidente do Conselho Nacional, Correia Saraiva, que, ainda nessa noite, teve que se deslocar para Lisboa.
Vamos continuar a trabalhar durante este ano de 2014, na obra da Sociedade de São Vicente de Paulo, em prol dos cada vez mais carenciados.
Assim Deus nos ajude.


João de Jesus Nunes

(In "Boletim Português da Sociedade de São Vicente de Paulo - Ano 108 - N.º 1  -  janeiro 2014)

29 de janeiro de 2014

DOS TEMPOS DA PRIMÁRIA, NA ESCOLA DO ASILO, COM NUNO DA CÂMARA PEREIRA

Fiz a minha instrução primária na Escola do “Asilo – Associação Protetora da Infância Desvalida”, como se designava, sita numa zona estreita da Rua Combatentes da Grande Guerra, na Covilhã, na década de cinquenta.
Escola só para o sexo masculino e, como eu, também havia muitos meninos com aquelas malas de cartão, com fecho e uma tira para as costas, como se usavam na altura.
Na sua maioria, rapaziada de fracos recursos financeiros (um chegou a andar descalço!),mas com mistura de uns quantos bem remediados, alguns os considerávamos “os meninos ricos”.
Quase todos almoçávamos na cantina da Escola que se situava na sala onde estava instalada a Biblioteca Heitor Pinto, em frente da minha sala de aula, com janelas para a rua de acesso à escola. Na 2ª classe tive três professoras que se iam revezando, para substituir o Professor Raúl, que entrara de baixa (o tal que dava reguadas no rabo, com os rapazes de joelhos e mãos no chão, até que saiu da escola); depois, o professor Gadanho e, por último, o professor Tendeiro, então na 4ª classe.
Na outra sala, ao lado, nas traseiras, exerceu a sua missão, durante vários anos ininterruptos, o professor Manuel Poeta.
Esta Associação foi criada no reinado de D. Luís por volta de 1870. Destinava-se à criação de um asilo, chegando a ser inaugurado em 25 de julho de 1871,mas a falta de utentes levou a ser substituído por uma escola destinada à instrução primária, e uma biblioteca.
A escola funcionou durante quase um século, sendo extinta em 1968, tendo passado a Atividades de Tempos Livres até que encerrou definitivamente.
A biblioteca – Biblioteca Heitor Pinto – com fundo documental estimado em cerca de 3,383 monografias, foi transferida para a Biblioteca Municipal da Covilhã.
O principal fundador desta Associação foi o Visconde da Coriscada, Francisco Joaquim da Silva Campos Melo, vários industriais e também o fundador da Escola Industrial, José Maria Veiga da Silva Campos Melo.
Muitas foram as dedicações pela causa da instituição, não esquecendo o carinho com que a família Campos Melo por ela teve.
De facto, no meu tempo, o então diretor da Escola Industrial e Comercial Campos Melo, Engº. Ernesto de Melo e Castro, era a alma e o líder daquela instituição, surgindo sempre com sorriso para com a rapaziada do Asilo, assim como a sua esposa, D. Gonzaga.
Antes do Natal, o colaborador do Asilo, a tempo parcial, Sr. Belmiro, funcionário da Subdelegação de Saúde, que se situava na Rua Capitão Alves Roçadas, onde existiu um estabelecimento de fazendas, perto da Igreja de S. Tiago, passava uma revista por todos os alunos do Asilo mais pobres, para, depois, irem em grupos, a determinado sapateiro tirar as medidas para lhes fazer as botas, oferecidas pelo Natal. Outros, recebiam camisolas.
Para além da aprendizagem dos programas da instrução primária (programas únicos, durante anos, na altura do Estado Novo), aos sábados, na primeira hora da manhã havia uma aula de Religião dada por uma freira, ou pelo pároco de S. Francisco, Padre José Andrade. A seguir, ainda de manhã, havia instrução da Mocidade Portuguesa (MP), umas vezes por um sargento do então Batalhão de Caçadores 2, ainda em funcionamento, outras vezes por alguns graduados da MP da Escola Industrial, como o Machado, do Teixoso, já falecido.
No 1º de dezembro, e nas Procissões dos Passos e do Enterro do Senhor, havia um desfile pela cidade, e a participação nas procissões, fardados, conjuntamente com os estudantes da Escola Industrial e do Liceu.
Pois bem, a propósito das memórias desta Escola Primária – o “Asilo” – como sempre foi conhecida, o antigo aluno José Alberto de Jesus Almeida convidou o seu antigo colega de carteira, o fadista Nuno da Câmara Pereira, para um almoço de memórias, com quantos se queiram juntar neste evento, seguido de uma visita ao Asilo, no dia 19 de abril (sábado).
Nuno da Câmara Pereira, que viveu na Covilhã um ou dois anos, ficou sensibilizado com o convite, recordando que, no “Asilo”, havia muitos colegas pobres e era uma instituição de cariz solidário, propôs-se também, por sugestão do José Alberto Almeida, atuar graciosamente, com seu irmão Gonçalo da Câmara Pereira, às 21 horas, no Teatro Municipal, a favor da Associação Portuguesa de Deficientes – Delegação Distrital de Castelo Branco, numa ação designada “abril Solidário”, com o apoio logístico da Câmara Municipal da Covilhã.
Sabe-se que estes dois eventos, que são isolados nas suas intenções, estão a ter uma aderência muito interessante.
Assim, para que se possam organizar convenientemente os dois eventos, solicita-se que os interessados em estar presentes façam desde já as suas reservas para o José Alberto Almeida, pelo telemóvel 912650058.
O almoço, com a presença do fadista Nuno da Câmara Pereira, é só destinado aos antigos alunos e professores do Asilo.

Vamos recordar os antigos tempos da Primária, desta antiga escola secular!

(In "fórum Covilhã", de 28.01.2014, e "Notícias da Covilhã", de 30.01.2014)

22 de janeiro de 2014

EUSÉBIO DO MEU TEMPO E DO SPORTING DA COVILHÃ

A televisão tinha surgido em Portugal somente há três anos. A preto branco e de um só canal.
Estudava na então Escola Industrial e Comercial Campos Melo. No seu campo triangular… e de alcatrão com areia (já inexistente),lá íamos gastando as solas dos sapatos com uma bola de borracha, que, quantas vezes, saltava para aqueles chorões plantados nos muros de suporte.
Tínhamos os nossos ídolos do futebol, já que a Covilhã militava entre os do futebol de primeira. Nos intervalos das aulas, principalmente às segundas-feiras, dia imediato aos jogos de domingo, o tema era o futebol e as suas vedetas de então.
Corria o mês de dezembro de 1960 e encontrava-me com alguns colegas junto ao portão da Escola, no local do ferrador, Sr. Joaquim Valente, onde presenciávamos a reparação das rodas dos carros de bois com os aros a saírem em brasa da fogueira acesa, no reduto da sua casa.
Foi então que ouvi a primeira vez dizer que para o Benfica tinha vindo um jovem jogador de Moçambique que ia dar cartas, de seu nome Eusébio.
Entretanto, chegou o domingo 18 de dezembro daquele ano e o Sporting Clube da Covilhã (SCC) recebia entusiasticamente o Benfica (SLB), com “dia do clube”, para a 12ª jornada do Campeonato Nacional da I Divisão, que viria a ganhar aos Leões da Serra por 3-1, golos de Martinho (SCC) logo aos 5 minutos, e, depois, Águas (SLB), com dois golos, e Santana (SLB).
No Santos Pinto, e por toda a cidade, estava um frio de rachar. Nas bancadas vê-se um jovem africano agarrado a um sobretudo. Era o novo craque do Benfica – Eusébio, que, mais tarde, veio informar na RTP que o sobretudo lhe foi emprestado pelo seu amigo e padrinho, Coluna, que, no pelado do Santos Pinto defrontava o SCC (“Gala Eusébio”, transmitida do Coliseu, no dia 25 de janeiro de 2011, com os apresentadores Tânia Ribas e José Carlos Malato). Na segunda volta (25ª jornada), o SCC seria goleado na Luz, por 8-0, ainda sem a presença de Eusébio. O SCC classificou-se em 9.º lugar e manteve-se na I Divisão.
Entretanto, Eusébio, que se havia estreado num jogo particular com o Atlético, em 23 de maio de 1961, marcando 3 dos 4 golos com que o Benfica ganhou, viria a participar na 2.ª mão da Taça de Portugal, em Setúbal, numa equipa B, perdendo o encontro por 4-1, em 1 de junho de 1961. De notar que essa equipa “B” do Benfica integrava os atletas Ramalho, Nartanga e Espírito Santo que, na época 1962/63 foram cedidos ao SCC, então na II Divisão, na negociação com a transferência do guardião Rita para o SLB. Vieram também do SLB o Nogueira, Maçarico e Batista.
Entretanto, o SLB mantinha-se com interesse em bisar na conquista da Taça dos Campeões Europeus, já com Eusébio, o que veio a acontecer contra o Real Madrid, naquela 4.ª feira de 2 de maio de 1962, em que ganhou por 5-3, depois de estar a perder por 2-0, com golos de Puskas, que ainda haveria de marcar o 3.º. Os dois últimos golos do SLB, quando se encontrava empatado a 3-3 foram da autoria de Eusébio. Vi este jogo, juntamente com colegas da Escola Industrial, do Liceu e do Colégio Moderno, na Casa da Mocidade Portuguesa, ao fundo da Rua António Pedroso dos Santos, na esquina para a UBI, que se encontrava repleta. Foi um delírio.
Entretanto, o Benfica acabaria por ficar em 3.º lugar no final do Campeonato, tendo contribuído, em parte, o SCC, que foi empatar à Luz 1-1, à 4.ª jornada, na noite de 15 de outubro de 1961, com Eusébio, sendo os golos marcados na primeira parte, logo no 1º minuto, por Couceiro (SCC), na própria baliza, e aos 9 minutos, por Adventino (SCC).
Também com Eusébio na equipa benfiquista, a equipa serrana haveria de vencer o Benfica, na Covilhã, no dia 18 de fevereiro de 1962, à 17ª jornada, com golos de José Augusto (SLB, 39m), Amilcar (SCC, 52m) e Chacho (SCC, 78m). Eu lembro-me de ter apanhado uma arrelia pelo facto de não poder assistir a este encontro já que tive um batizado de um primo, na Aldeia do Carvalho, tendo o pároco Padre Nabais, entusiasta pelo futebol, pedido para a cerimónia ser mais cedo a fim de ainda poder chegar a tempo do jogo. Tive que me contentar ouvindo o relato do jogo através da rádio.
O SCC acabaria por descer de divisão juntamente com o Salgueiros e o Beira Mar, e já vinha de grandes convulsões com arbitragens, como o célebre encontro Leixões –SCC, realizado em 11 de janeiro de 1962, com o árbitro aveirense, Porfírio da Silva, em que foram castigados, com três jogos, cinco jogadores do clube serrano.
Mas o auge de Eusébio haveria de se verificar como “magriço”, no Mundial de 1966, no qual foi apelidado de “Pantera Negra”. O jogo Portugal-Coreia teve a equipa portuguesa a perder 3-0 e depois recuperou, vindo a vencer o grande encontro por 5-3, com quatro golos de Eusébio. Lembro-me de, naquela tarde daquele sábado de 23 de julho de 1966, ver o encontro na esplanada do Café Primor, na Covilhã, com os meus colegas da Escola Industrial, Manuel José Torrão e Tomé, de Abrantes, que havíamos terminado os exames.
Mais tarde, com a camisola do União de Tomar, Eusébio veio jogar à Covilhã, juntamente com o seu colega do Benfica, Simões, para o campeonato da II Divisão, em 15 de janeiro de 1978, eles já sem o fulgor de outros tempos, tendo o resultado sido de 0-0, com a neve em redor do campo.

Muito haveria a falar deste “monstro sagrado, como também foi apelidado. É opinião quase unânime que Eusébio foi o maior futebolista português de todos os tempos.

(In "fórum Covilhã", de 21.01.2014 e "Notícias da Covilhã" de 23.01.2014)

15 de janeiro de 2014

NADA NÃO

Esta é a minha primeira crónica de 2014, depois de ter havido, na época natalícia, uma altura propícia para acertar conversas entre familiares e amigos, e, assim, veio, a talhe de foice de uma delas, o recordar um hábito de linguagem errónea, de alguns estudantes do meu tempo:
- Fulano – perguntava o professor –, você sabe o que é o “Anel do Fogo do Pacífico?”
- “Nada não, Stôr!” – Respondia o aluno.
De tanta vez que esta resposta negativa surgia, certo dia, um professor portuense, estranho com a resposta, já depois de ter feito reparo pela estranheza da expressão, e pedido para corrigir, acabou por dizer – “Nada não?!” Que é isso? Ora bem, “nada não é sim…”
E não é que, embora nunca tenha pertencido ao léxico português, tal expressão, nos dias de hoje, vem de encontro às contradições e incoerências nas pessoas em quem devíamos confiar.
Vejamos algumas, sem qualquer intuito de alinhamento cronológico:
- Nada não! – O ano de 1993 estendeu-se pelo resto da década por ter sido o começo de um período de disparates. A situação política estava estabilizada. Cavaco Silva, a liderar o segundo governo, com os dinheiros da CEE pensava que era então um maná. Dos muitos disparates, que não cabem neste apontamento, desde a demasiada facilidade na aquisição de casa própria ao grande aumento do número de funcionários públicos, contribuiu muito para a situação em que hoje nos encontramos. “Cavaco, abençoado seja, é um grande e inesgotável tema de comentário. Mas apresenta dificuldades: manter um registo publicável num jornal e atualizada a lista de todas as suas piruetas, contradições, sonsices e patifarias” – in DN de 3.1.2014, por Fernanda Câncio.
- Nada não! E que dizer dos “120 mil novos empregos “ de Passos Coelho quando foram apenas 22 mil? Pois é, esta cabecinha pensadora apontou a criação destes novos postos de trabalho em 2013 como sinal de sucesso, mas desde janeiro surgiram muitos menos!
- Nada não! Ainda este Passos Coelho, acusado de mentir na mensagem de Natal, com o conluio do Presidente da República, que acabou 2013 com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, qual é a legitimidade do governo e deste primeiro-ministro que continua a praticar políticas e a aplicar medidas que não sufragou democraticamente?
- Nada não! O candidato beijoqueiro das feiras e mercados “assume uma atitude de grande responsabilidade” com a sua demissão irrevogável do governo. Nos vários dicionários que consultei não consegui encontrar o significado desta palavra, harmonizada com a atitude de Paulo Portas. E este “nada não” transformou-se de facto, naquele sentido do professor portuense, “nada não é sim”. Um sim que valeu oiro com a sua promoção a vice!
- Nada não! Já Vasco Pulido Valente escrevia no Público uma crónica com o título “Quem nos toma a sério?” quando antes, no Correia da Manhã, surgiu um texto que se intitulava “Será que Durão Barroso também é cigano?”. Nem as instituições internacionais tratam o nosso país com algum respeito. Durão Barroso, ainda presidente da Comissão Europeia, deveria ser o primeiro a pôr na ordem alguns centros universitários em Bruxelas que insistem em qualificar-nos como fazendo parte dos “Porcos”. Mas um centro de estudos na Bélgica incluiu agora Portugal no grupo dos “Ciganos”. Primeiro, fazíamos parte dos chamados “PIGS” (significado de “porcos” em inglês), com as designações das iniciais dos países “Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (Spain em inglês)”. Estes animais foram usados em caricaturas para ilustrar as misérias económicas dos países. Apareceu agora a denominação de ciganos, ou “GIPSY”, em inglês, em que os cinco países do costume são incluídos. Será que Durão Barroso não consegue banir estes ultrajes?
- Nada não! E para colocar ponto final nesta crónica primeira do ano 2014, uma referência às palavras do antigo jornalista e atual escritor e comentador político, Miguel Sousa Tavares, na sua coluna de opinião, no semanário Expresso“2013 foi um ano inútil” e “o objetivo político da maioria governamental para a primeira metade do ano que entra é apenas o de prolongar o estado vegetativo que vivemos em 2013”.

(In "Notícias da Covilhã", de 16.01.2014)

NADA NÃO

Comecei a escrever esta crónica no primeiro dia do Novo Ano, altura habitual da publicação de poucos jornais, não só em Portugal, onde surgiu nas bancas somente o Jornal de Notícias, como também pelo Planeta fora, exceção feita ao continente americano, pleno de imprensa escrita.
Na Ásia também a míngua se fez sentir no jornal em papel, no dia 1 de janeiro, com o The Japan Times, The Himalayan (Nepal), The Telegraph e The Nation (Índia), como também na Europa, paupérrima de comunicação social escrita, em meia dúzia de países (o Braunschweiger Zeitung (Alemanha), The Guardian (Reino Unido), Diário de Sevilha… e poucos mais.
No continente africano e na Oceânia nem pelos dedos de uma só mão se contavam os jornais deste primeiro dia do ano, destacando-se tão só o The Post, da Zâmbia.
Os brasileiros deram ênfase ao “Réveillon 2014 – um ano de fortes emoções”, no jornal O Globo. E, já agora, o “El Universo”, do Equador, surgiu na capa com a foto de uma menina desenhando, na areia molhada da praia, os anos 2013 (já parcialmente encoberto pelas ondas) e 2014, bem destacado.
De notar, sem qualquer admiração, que quase todos tinham as suas primeiras páginas alusivas ao Novo Ano 2014 – Happy New Year 2014 – enquanto poucos primaram, na mesma página, por chamar a atenção dos principais eventos do ano findo – 2013 in review.
Também altura propícia para acertar conversas entre familiares e amigos, veio, a talhe de foice de uma delas, o recordar um hábito de linguagem errónea, de alguns estudantes do meu tempo:
- Fulano – perguntava o professor –, você sabe o que é o “Anel do Fogo do Pacífico?”
- “Nada não, Stôr!” – respondia o aluno.
De tanta vez que esta resposta negativa surgia, certo dia, um professor portuense, estranho com a resposta, já depois de ter feito reparo pela estranheza da expressão, e pedido para corrigir, acabou por dizer – “Nada não?!” Que é isso? Ora bem, “nada não é sim…”
E não é que, embora nunca tenha pertencido ao léxico português, tal expressão, nos dias de hoje, vem de encontro às contradições e incoerências nas pessoas em quem devíamos confiar.
Vejamos algumas, sem qualquer intuito de alinhamento cronológico.
- Nada não! – A primeira mulher a ser segunda figura em Portugal – aquela simpática loira magrinha – na sua primeira intervenção inesquecível, enquanto presidente da Assembleia da República, quando estava há seis meses no cargo, em dezembro de 2011, queixou-se de cansaço. A revista 2, do Público, referia que “pode crescer o desemprego, faltarem os alimentos, pode haver austeridade em todo o lado menos nas comparações que envolvem Assunção Esteves”. As pessoas logo falaram: “Mas estás cansada como, se te reformaste aos 42 anos?... E não será ela a velhinha reformada mais nova de Portugal? E talvez a que ganhe mais? Como é que apela ao esforço e sacrifício de todos os portugueses quando escolheu a reforma vitalícia do Tribunal Constitucional? (7255 euros mensais, por dez anos de serviço da primeira mulher juíza conselheira do TC, mais 2133 euros de ajudas de custo, motorista, etc., em vez do salário da segunda figura do Estado, que paga menos)”.
- Nada não! – O ano de 1993 estendeu-se pelo resto da década por ter sido o começo de um período de disparates. A situação política estava estabilizada. Cavaco Silva, a liderar o segundo governo, com os dinheiros da CEE pensava que era então um maná. Dos muitos disparates, que não cabem neste apontamento, desde a demasiada facilidade na aquisição de casa própria ao grande aumento do número de funcionários públicos, contribuiu muito para a situação em que hoje nos encontramos. “Cavaco, abençoado seja, é um grande e inesgotável tema de comentário. Mas apresenta dificuldades: manter um registo publicável num jornal e atualizada a lista de todas as suas piruetas, contradições, sonsices e patifarias” – in DN de 3.1.2014, por Fernanda Câncio.
- Nada não! E que dizer dos “120 mil novos empregos “ de Passos Coelho quando foram apenas 22 mil? Pois é, esta cabecinha pensadora apontou a criação destes novos postos de trabalho em 2013 como sinal de sucesso, mas desde janeiro surgiram muitos menos!
- Nada não! Ainda este Passos Coelho, acusado de mentir na mensagem de Natal, com o conluio do Presidente da República, que acabou 2013 com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, qual é a legitimidade do governo e deste primeiro-ministro que continua a praticar políticas e a aplicar medidas que não sufragou democraticamente?
- Nada não! O candidato beijoqueiro das feiras e mercados “assume uma atitude de grande responsabilidade” com a sua demissão irrevogável do governo. Nos vários dicionários que consultei não consegui encontrar o significado desta palavra, harmonizada com a atitude de Paulo Portas. E este “nada não” transformou-se de facto, naquele sentido do professor portuense, “nada não é sim”. Um sim que valeu oiro com a sua promoção a vice!
- Nada não! Já Vasco Pulido Valente escrevia no Público uma crónica com o título “Quem nos toma a sério?” quando antes, no Correia da Manhã, surgiu um texto que se intitulava “Será que  Durão Barroso também é cigano?”. Nem as instituições internacionais tratam o nosso país com algum respeito. Durão Barroso, ainda presidente da Comissão Europeia, deveria ser o primeiro a pôr na ordem alguns centros universitários em Bruxelas que insistem em qualificar-nos como fazendo parte dos “Porcos”. Mas um centro de estudos na Bélgica incluiu agora Portugal no grupo dos “Ciganos”. Primeiro, fazíamos parte dos chamados “PIGS” (significado de “porcos” em inglês), com as designações das iniciais dos países “Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (Spain em inglês)”. Estes animais foram usados em caricaturas para ilustrar as misérias económicas dos países. Apareceu agora a denominação de ciganos, ou “GIPSY”, em inglês, em que os cinco países do costume são incluídos. Será que Durão Barroso não consegue banir estes ultrajes?

- Nada não! E para colocar ponto final nesta crónica primeira do ano 2014, uma referência às palavras do antigo jornalista e atual escritor e comentador político, Miguel Sousa Tavares, na sua coluna de opinião, no semanário Expresso“2013 foi um ano inútil” e “o objetivo político da maioria governamental para a primeira metade do ano que entra é apenas o de prolongar o estado vegetativo que vivemos em 2013”.

(Texto completo, a publicar no jornal "O Olhanense")

14 de janeiro de 2014

HÁ QUATRO DÉCADAS NA ESPERANÇA

Neste início de um novo ano vamos esperar que haja algum lenitivo no que concerne aos sacrifícios suportados pelos portugueses no ano findo, mas estamos um pouco céticos em relação a isso.
O atual governo, adornado de alguns betinhos, que, da vida desconhecem as dificuldades, integram o rol de dirigentes deste País, no ano em que se comemoram 40 anos da Revolução de abril de 1974.
Enquanto a “gaivota voava, voava”, a tranquilidade de espírito e bem-estar social iam sofrendo convulsões, ao mesmo tempo que “uma papoila crescia, crescia”, acabando por ir murchando por não suportar os ventos do exterior, nas suas intenções ditas reformadoras.
Num olhar para o passado, as crises internacionais que interrompiam ciclos de crescimento económico podiam ser menos violentas se este nosso Portugal não tivesse; principalmente nas últimas décadas, para além da incompetência de artífices da ladroagem; a aquiescência dos líderes da governação.
Segundo a Pordata, entre 1961 e 1973, o PIB per capita aumentou fortemente e Portugal foi deixando de ser uma economia com predominância rural. Houve um crescimento da indústria  transformadora e da produção dos serviços públicos, como o fornecimento de eletricidade, gás e água. Por exemplo, na Covilhã, no auge da sua indústria rainha, de então – os lanifícios -, com centenas de empresas a proporcionar emprego para muita gentinha a caminho das fábricas, havia os Serviços Municipalizados que se encarregavam da eletricidade, água e saneamento.
O forte incremento da emigração, com as suas remessas para Portugal, manteve a balança com o exterior sem se agravar, mas é obra que entre 1966 e 1973 saíram do país quase 2% da população em cada ano, registando uma taxa de crescimento anual média de 7%.
Sou testemunha do fluxo de emigrantes que diariamente se dirigiam à Câmara Municipal da Covilhã para tratarem da sua documentação, com as cartas de chamada, a fim de rumarem a França, principalmente, e Alemanha, mas também para outros países europeus, ainda com a “cortina de ferro” a perdurar nessa Europa então dividida politicamente, sob o domínio soviético.
Enquanto as funcionárias municipais se arregalavam no atendimento dos munícipes que pretendiam emigrar, sim, porque eram fortemente recompensadas, para além de dinheirinho vivo em mão fechada, ou envelope sorrateiro, também uns cabazes confiados ao porteiro, tinham assim mais um “complemento do seu trabalho”, já que as mesmas funcionárias faziam brilhar aqueles rostos rudes, de uma vida rural em que, nas suas terras, muitos comiam o pão que o diabo amassou. Mas eles sabiam que se iam tornar uns “novos-ricos”, regressando depois, temporariamente, com as expressões meio afrancesadas.
E, assim, no regresso de férias, até já podiam ir, numa de sobranceria, ao Café Montalto, onde só viam entrar os seus patrões, e pedir uma bière fraiche.
Até o porteiro, guarda-portão em termos oficiais, conseguiu que lhe fosse conseguida autorização para ir a França “tratar dumas heranças familiares” (na altura os funcionários públicos viam-se obrigado a pedir uma autorização para sair do País). O passaporte de turista lá foi conseguido mas o porteiro acabou por ficar e arranjar trabalho em França, fintando os seus chefes, deixando os velhos Matias e Lança a expelirem impropérios pela astúcia do “malfeitor”, enquanto o Duarte Branco, o José Américo e a Suzete Figueiredo se riam…
Mas há 40 anos, logo em 1973, surgiram sintomas de fim de ciclo económico. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo iniciaram um embargo com cortes na produção de crude, originando no Planeta a mais grave crise petrolífera de sempre.
Recordo-me de, em Portugal, haver um tempo em que não se podiam abastecer as viaturas de combustível aos sábados e domingos, ainda no tempo de Marcelo Caetano, face à crise do petróleo.
Avançando no tempo, Cavaco Silva, com duas maiorias absolutas contava convictamente com um forte desempenho económico positivo, com taxas de desemprego próximas de 4%, mas, entretanto, em 1993 verificou-se que tal não foi possível. Entretanto a economia europeia entrou em recessão e Portugal foi um dos países mais afetados, pois o PIB viria a cair 2% em 1993. Cavaco Silva perde popularidade e surge a vitória do Partido Socialista nas eleições legislativas de 1995.
Em 2011, em troca dos empréstimos dos parceiros europeus e do FMI, Portugal comprometeu-se com uma política de forte austeridade com impacto muito negativo na atividade económica. Atingiu-se o terceiro ano consecutivo com uma contração do PIB, com 4,8 pontos percentuais do mesmo, o pior resultado registado em Portugal nos últimos 60 anos.
Com o surgimento das novas tecnologias, começando a Internet em 1993, a entrada em vigor do espaço Shengen em 1995, e a adoção do euro em 2002, o país forçosamente teve que mudar.
Com a globalização da economia, as indústrias tradicionais, como na Covilhã o têxtil e de lanifícios, sofreram com isso.
Até 2013 Portugal não conseguiu ainda respirar com tranquilidade, sendo o país mais envelhecido da Europa.

As universidades abriram com o 25 de abril e em 2012 a taxa bruta de escolaridade no nível superior era de 54,6%. A educação avançou assim a um ritmo diferente da economia. Portugal não está a conseguir manter a mão-de-obra qualificada, partindo, mais de metade para outros países, aproveitando assim os cérebros portugueses, ao contrário do que se havia verificado na década de sessenta. E, assim, em Portugal não se pode sonhar!

(In "fórum Covilhã", de 14.01.2014)

A ESPERANÇA JÁ VEM DE HÁ QUATRO DÉCADAS

Neste início de um novo ano vamos esperar que haja algum lenitivo no que concerne aos sacrifícios suportados pelos portugueses no ano findo, mas estamos um pouco céticos em relação a isso.
Que as contrariedades e as inverdades dos nossos governantes se dissipem de vez!
Nos fracassos surge a justificação da culpabilidade dos governos anteriores. É sempre a mesma lábia. Mas, na realidade, quase nenhum governante escapa.
E, o atual governo, adornado de alguns betinhos, que, da vida desconhecem as dificuldades, nada sabem, integram o rol de dirigentes deste País, no ano em que se comemoram 40 anos da Revolução de abril de 1974.
Vejamos o quanto tantos iluminados da governação, nestas quatro décadas, nos trouxeram de esperança, com todos nós a vê-la sempre adiada.
Enquanto a “gaivota voava, voava”, a tranquilidade de espírito e bem-estar social iam sofrendo convulsões, ao mesmo tempo que “uma papoila crescia, crescia”, acabando por ir murchando por não suportar os ventos do exterior, nas suas intenções reformadoras.
Num olhar para o passado, as crises internacionais que interrompiam ciclos de crescimento económico podiam ser menos violentas se este nosso Portugal não tivesse; principalmente nas últimas décadas, para além da incompetência de artífices da ladroagem, esses gatunos profissionais; a aquiescência dos líderes da governação, quantas vezes num camuflado conluio.
Segundo a Pordata, entre 1961 e 1973 o PIB per capita aumentou fortemente e Portugal foi deixando de ser uma economia com predominância rural. Houve um crescimento da indústria  transformadora e da produção dos serviços públicos, como o fornecimento de eletricidade, gás e água. Por exemplo, na Covilhã, no auge da sua indústria rainha, de então – os lanifícios -, com centenas de empresas a proporcionar emprego para formigueiros humanos a caminho das fábricas, havia os Serviços Municipalizados que se encarregavam da eletricidade, água e saneamento.
O forte incremento da emigração, com as suas remessas para Portugal, manteve a balança com o exterior sem se agravar, mas é obra que entre 1966 e 1973 saíram do país quase 2% da população em cada ano, registando uma taxa de crescimento anual média de 7%.
Sou testemunha do fluxo de emigrantes que diariamente se dirigiam à Câmara Municipal da Covilhã para tratarem da sua documentação, com as cartas de chamada, a fim de rumarem a França, principalmente, e Alemanha, mas também para outros países europeus, ainda com a “cortina de ferro” a perdurar nessa Europa então dividida politicamente, sob o domínio soviético.
Enquanto as funcionárias municipais se arregalavam no atendimento dos munícipes que pretendiam emigrar, sim, porque eram fortemente recompensadas, para além de dinheirinho vivo em mão fechada, ou envelope sorrateiro, também uns cabazes confiados ao porteiro, tinham assim mais um complemento do trabalho que as mesmas funcionárias faziam brilhar àqueles rostos rudes, de uma vida rural em que, nas suas terras, muitos comiam o pão que o diabo amassou. Sabiam que iam tornar-se uns “novos-ricos”, regressando depois, temporariamente, com as expressões meio afrancesadas misturadas com um mau português.
E, assim, no regresso de férias, até já podiam ir, numa de sobranceria, ao Café Montalto, onde só viam entrar os seus patrões, e pedir uma bière fraiche.
Até o porteiro, guarda-portão em termos oficiais, conseguiu que lhe fosse conseguida autorização para ir a França “tratar dumas heranças familiares” (na altura os funcionários públicos viam-se obrigado a pedir uma autorização para sair do País). O passaporte de turista lá foi conseguido mas o porteiro acabou por ficar e arranjar trabalho em França, fintando os seus chefes, deixando os velhos Matias e Lança a expelirem impropérios pela astúcia do “malfeitor”…
Mas há 40 anos, logo em 1973, surgiram sintomas de fim de ciclo económico. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo iniciaram um embargo com cortes na produção de crude, originando no Planeta a mais grave crise petrolífera de sempre.
Recordo-me de, em Portugal, haver um tempo em que não se podiam abastecer as viaturas de combustível aos sábados e domingos, ainda no tempo de Marcelo Caetano, e já por alturas de 1974. E, outras vezes, eram filas que se formavam num ápice, logo que era anunciado um aumento nos combustíveis.
Mas os efeitos negativos desta crise em Portugal, entre os anos 1973 e 1974 acabaram por se confundir com os problemas de intranquilidade surgidos na política emanada da Revolução do 25 de abril. Em 1975 o PIB viria a cair 4,3%, segundo a Pordata, que não viria a ser superado. Mas, em 1993, Portugal vê-se sair dum período com taxas de crescimento do PIB superiores a 3%. A economia tinha estabilizado depois do princípio dos anos 80 e da intervenção do FMI. É aqui que, com a adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986, e a entrada dos fundos europeus, se vê a economia aberta ao exterior e a apetência de mais investimento estrangeiro.
Mas Cavaco Silva, com duas maiorias absolutas contava convictamente com um forte desempenho económico positivo, com taxas de desemprego próximas de 4%, mas, entretanto, em 1993 verificou-se que tal não foi possível. Entretanto a economia europeia entrou em recessão e Portugal foi um dos países mais afetados, pois o PIB viria a cair 2% em 1993. Cavaco Silva perde popularidade e surge a vitória do Partido Socialista nas eleições legislativas de 1995.
Em 2011, em troca dos empréstimos dos parceiros europeus e do FMI, Portugal comprometeu-se com uma política de forte austeridade com impacto muito negativo na atividade económica. Atingiu-se o terceiro ano consecutivo com uma contração do PIB, com 4,8 pontos percentuais do mesmo, o pior resultado registado em Portugal nos últimos 60 anos.
Ainda em 1973, havia uma média de três filhos por cada mãe, ou seja, nasciam o dobro das crianças de hoje. No entanto, a mortalidade infantil era a mais elevada da Europa. Numa centena de casamentos, poder-se-ia verificar apenas um divórcio. E hoje? Quase que não há casamentos. O número de emigrantes ultrapassava, em grande número, o de imigrantes. Levou assim ao despovoamento de muitas zonas do interior do país. Também o país estava ainda em guerra, desde 1961. Entre 1960 e 1974, a economia crescia a bom ritmo (com uma taxa anual de 6,5%), jamais se vendo o PIB crescer desta maneira. O desemprego era quase inexistente, mas poucos tinham as condições de habitabilidade, como água canalizada, eletricidade e saneamento básico.
Ainda me recordo de, na escola do meu tempo, durante a instrução primária, ver um ou outro aluno ir descalço para a sala de aula, contra a vontade do professor.
E essa massa de gente que emigrava, na sua maioria, e muitos outros que por cá ficavam, eram analfabetos, pois em 1973 havia, nessa situação, 35%, com Portugal, nesta altura, a ser o país mais atrasado da Europa, e, lamentavelmente, ainda o é da União Europeia a 27.
De 1974 a 1998, o PIB cresceu lentamente, 3,3% ao ano, segundo a Pordata, tendo, no entanto, as despesas com as funções sociais do Estado aumentado assustadoramente. A agricultura e as pescas deixaram de empregar maioritariamente a população.
No ano 1993 começaram a regressar definitivamente muitos emigrantes, até 2008. E já o Sistema Nacional de Saúde havia sido criado em 1979 e a Lei de Bases da Segurança Social em 1984. Recordo-me que os funcionários públicos, durante anos, não tinham direito a assistência médica, o que criou, quantas vezes, situações aflitivas, nalguns casos a terem que ser tratados com o selo de indigentes.
Com o surgimento das novas tecnologias, começando a Internet em 1993, a entrada em vigor do espaço Shengen em 1995, e a adoção do euro em 2002, o país forçosamente teve que mudar.
Com a globalização da economia, as indústrias tradicionais, como na Covilhã o têxtil e de lanifícios, sofreram com isso.
Até 2013 Portugal não conseguiu ainda respirar com tranquilidade e é, vergonhosamente, o país mais envelhecido da Europa, chegando, no ano 2000, o número de idosos a ultrapassar o de jovens. E onde há mais idosos a trabalhar, em relação aos países da UE.
Nos últimos 40 anos, apesar de Portugal ter mudado muito rapidamente, face ao seu enorme atraso, não conseguiu, até aos dias de hoje, viver afastado das crises e nelas se mergulhou fortemente. Desde 2012, Portugal entrou num ciclo de dependência externa prejudicando a sua reputação internacional, provocou uma depressão económica e o desemprego em larga escala.
É que, a crise ainda não acabou mesmo na Europa, e Portugal, nesta altura, é um país a esvaziar-se, como o era em 1973 ou em 1993, ainda que, há vinte anos, não parecesse face à vinda de muitos imigrantes.

As universidades abriram com o 25 de abril e em 2012 a taxa bruta de escolaridade no nível superior era de 54,6%. A educação avançou assim a um ritmo diferente da economia. Portugal não está a conseguir manter a mão-de-obra qualificada, partindo, mais de metade para outros países, aproveitando assim os cérebros portugueses, ao contrário do que se havia verificado na década de sessenta. E, assim, em Portugal não se pode sonhar!

(Texto completo, a publicar no jornal "O Olhanense")

18 de dezembro de 2013

O CAVALO CHATEADO

Corria o ano de mil novecentos e setenta do século passado (temos o privilégio da nossa vivência ter passado por dois séculos), íamos, quase todas as manhãs, para regressar à tarde, a caminho do Regimento de Infantaria n.º 12, na Guarda, quatro furriéis milicianos (eu, o condutor do carro e seu proprietário António José Bicho Nogueira, o Eduardo Prata, e o Nuno Rato, do Teixoso), num FIAT 600 (o que fazíamos sempre que não estávamos de serviço, ou nos “desenfiávamos”), alegremente entretidos com as nossas conversas, quando, por vezes, surgia uma história para contar, mais que não fosse sobre o tenente “básico” Monteiro.
A certa altura, já depois de termos passado a Santa Cruz, numa descida, o raio do Fiat 600, vagaroso mas também pesado com os quatro militares, coitado, lá deu sinal de vida com as quatro rodas a poderem rolar mais depressa.
Só que tínhamos vindo atrás dum camião que não podíamos ultrapassar, pelo óbvio das circunstâncias. A certa altura, falou-se de viaturas que custassem mais a conduzir. Um referenciou uma; outro direcionou-se para outra; outro ainda, falou de outra; até que, vindo eu no banco traseiro, há uns momentos calado, e, não vislumbrando nenhuma viatura para dar uma resposta algo assertiva, lanço para a conversa: “Eh! Lá! Esta é para mim um pouco difícil, mas penso que a “viatura” que talvez custe mais a conduzir seja uma carroça com um cavalo chateado…”
Bom, a risada só parou à porta de armas do quartel, e, depois, à hora do almoço, na messe de sargentos, não se falava de outra coisa.
Este preâmbulo da minha última crónica deste ano da graça de dois mil e treze serve para trazer, nestas linhas, um ar mais descontraído neste final de ano, tão cheio de carroceiros e incompetentes, que mais parecem lidarem com ginetes não dispostos a obedecerem ao dono.
1 – NELSON MANDELA. A sua morte, já esperada, enterneceu todo o Planeta. Muitas páginas dos jornais, e imagens das televisões, encheram nossos olhos. Várias vezes vimos o seu nome associado a dois outros grandes combatentes da liberdade e da igualdade, Mahatma Gandhi e Martin Luther King, na probidade dum panteão de toda a humanidade. Não se pode também pôr de parte Frederik De Klerk, ex-Presidente branco da África do Sul, que deu um passo importante com o fim do apartheid e libertando Mandela, no caminho para a democracia.
Muito já se disse deste homem da Humanidade – Mandela – pelo que aqui ficam tão só algumas das suas expressões: “Está nas vossas mãos fazer do mundo um lugar melhor”; “Eu prezo muito a minha liberdade mas prezo ainda mais a vossa”; Eu só sou um ser humano se tu fores um ser humano. Eu só sou um ser humano se for humano contigo”.
2 – CEIAS DE NATAL e EFEMÉRIDES. Não obstante a crise, as várias associações, instituições, autarquias e grupos de pessoas, em várias vertentes, se juntaram em fervor natalício. E o bacalhau foi rei nestas celebrações, pelo menos em todos quantos participei. Neste ano 2013 muitas efemérides surgiram, mas destaco duas delas: o 40º aniversário do Congresso da Oposição Democrática em Aveiro; e os 500 anos do aparecimento do Bairro Alto (Lisboa). Foi em 15 de dezembro de 1513 que foram dados os primeiros passos para a formação do Bairro Alto, com o subaforamento das herdades que se encontravam fora da muralha fernandina, em talhões para construção de casas.
3 – TROIKA. Que espécie de saudade nos deixará este ano que agora termina? Parece que muito poucas. Uns, de que não há alternativa à política de austeridade; outros que vai surgir a redução do desemprego e o surgimento do crescimento económico. Esperemos, contudo, que no próximo ano nos libertemos, de vez, da Troika, e do denominado protetorado, segundo Portas, esperando que, segundo ele, o novo Dia da Restauração de Portugal esteja mesmo a chegar. Mas onde estão os novos protagonistas como foram, naquele tempo, a duquesa de Mântua e Miguel de Vasconcelos?
Vamos ver se Portugal não vai mas é ser conduzido em 2014 como aquele carroceiro do cavalo chateado…
BOAS FESTAS!

(In "Notícias da Covilhã", de 19.12.2013)

DÁ-ME LICENÇA QUE PASSE PARA MINHA CASA?

Conversa entre amigos e, vai daí, um passeio até ao Lameirão – uma zona dum passado de recordações, pelo caminhar, a pé, durante a minha meninice, de noite, após o encerramento da biblioteca municipal, ao jardim, onde meu Pai trabalhava desde que a mesma abriu oficialmente na Covilhã, em 1 de Setembro de 1952. Esse caminhar era no sentido da nossa morada, então na zona altaneira da Pousadinha, donde parti definitivamente para a Covilhã, aos nove anos.
Era digno de ver aquele formigueiro de gente das fábricas, de regresso a suas casas.
Mas o caso que agora emerge e me leva a referi-lo neste apontamento, é tão só o facto risível do que aqui se passa em termos de cortar o normal acesso à casa de moradores, de longa data, no Lameirão, arredores da nossa Cidade da Covilhã. Dirigia-me para o local, na minha viatura, onde o meu amigo tem ainda uma casa mobilada, ainda que em degradação, herdada de seus sogros, quando, contra o normal daquilo que hoje tanto se apregoa de mobilidade, deparei com o acesso vedado com pedregulhos que se veem na foto.
Contaram-me que os terrenos foram adquiridos, e não se salvaguardou o acesso às moradas, de outros proprietários, que ali residem, ou possuem prédios, há muitos anos. O caminho, parcialmente alcatroado, então adquirido, há já uns anos, desde 2009 que se encontra interdito a viaturas e pessoas. As que residem para dentro do caminho impedido, veem-se confrontadas com a impossibilidade de uma viatura chegar às suas portas e até não podem transportar os produtos para as suas necessidades do quotidiano. Neste ato impensado, nem o autor da interdição do caminho de acesso teve em conta que um dos moradores, António Antunes Catalão, inválido, de 77 anos, não pode sequer sair em cadeira de rodas, nem uma ambulância pode chegar à sua porta pois esbarra com os pedregulhos ali colocados. Diz-nos que o proprietário dos terrenos, aproveitando-se da ausência daquele inválido, que, com a esposa e um filho haviam ido à praia, fizeram aquele trabalho, pois foram confrontados, no regresso de férias, com o acesso vedado, cuja viatura já não pôde sequer ir até à porta da casa onde residem.
Também Joaquim Almeida, um dos afetados no acesso à casa que era de seus sogros, e onde em tempos houve, inclusive, uma taberna, diz já ter apresentado reclamação na edilidade covilhanense e na autarquia carvalhense, havendo até um abaixo-assinado, sem efeitos práticos, ou seja, continua tudo parado apesar da exigência, que urge, de que os moradores possam ter acesso a suas casas. – “Quero retirar as mobílias de casa de meu sogro e não posso passar”!, diz Joaquim Almeida E, já António Catalão reporta-se ao receio de não poder ir para o hospital no caso de uma urgência, “porque tenho o acesso à minha casa vedado!” É que, mesmo utilizando uma porta secundária, das traseiras da sua casa, obrigam-no a percorrer uma extensa escadaria e caminho afastado até chegar a uma estrada.
Apesar de já pouco legível, ainda ali se vê, na parede duma das casas, o nome de Travessa do Lameirão de Baixo.
Noutros tempos chegou ali a haver um estabelecimento de taberna, faziam-se se festas num largo e as viaturas passavam até às casas.
Sem mais delongas, penso que a edilidade tem o dever de pegar neste caso caricato, e abusivo, do cortar o acesso a residentes, ainda que seja um só, onde ali têm as suas moradias, obrigando a que se dê o direito dum acesso normal para a morada de cada um.
Brada aos céus não se ter direito a entrar na sua própria casa, pela porta principal! Que é isto, senhores?
Pensávamos que só lá fora, no Terceiro Mundo, se podia verificar o silenciamento de vozes que pretendem tão só um direito inalienável de poderem entrar e sair livremente para e de suas casas.
Que alguma coisa se faça de imediato é o que se pede agora que já existe outra governação municipal.

(In "fórum Covilhã", de 17.12.2013 e "Notícias da Covilhã", de 19.12.2013)