28 de agosto de 2014

A DOR – TAMBÉM É UMA ESTRELA QUE NOS GUIA

Enquanto redijo é encantador ouvir no meu escritório uma chilreada, emanada dum “convívio” de passarinhos sobre a árvore do quintal do meu vizinho. São às dezenas. Também eles têm as suas tertúlias…
Há estórias interessantíssimas das nossas histórias de vida, principalmente naqueles períodos nefastos em que se misturavam sofrimento com ansiedade, tristezas com alegrias, e, por que não, o roçar de algumas revoltas naquele período de juventude que nos fez passar, quase num ápice, de jovens para adultos de barba rija.
E, já agora, enquanto aguardava a minha consulta, no Centro Cirúrgico de Coimbra, fui dando uma olhadela pela revista “Olhares” cujo tema é a dor. Vem a propósito deste meu texto.
A dor é um mecanismo que nos assegura a sobrevivência. É impossível viver sem ela, mas não é preciso viver com ela. A dor de um não é igual à dor do outro.
“Viver sem dor, significa perigo de vida. Por muito que nos doa, precisamos desta resposta ou mecanismo sinalizador, que tem consequências benéficas para o nosso organismo. É este sinal de alarme (dor aguda) que nos avisa que algo não está bem, seja um traumatismo ou uma queimadura. A dor tem esta função de fazer disparar o alarme, protegendo-nos de agressões”.
E, como a nossa vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, nesta perspetiva, trata-se duma passagem muito breve e, por isso, cada momento é vivido em tempo real. Não são permitidos ensaios. Contudo, na generalidade do caso de cada um de nós, convencemo-nos que a vida será melhor depois de acabar os estudos; depois de ter trabalho; quando tivermos um automóvel melhor; sei lá, a verdade é que a vida está cheia de “depois”…
Os obstáculos surgem do acaso e sem esperarmos. Seremos mais felizes se vivermos em pleno os bons momentos que surgem.
“O tamanho da dor é uma experiência sensorial e emocional e cada uma sabe qual o tamanho da sua. Pessoas diferentes sentem e reagem à dor de forma variada. A questão étnica e cultural também conta e, nascer na Líbia ou na Grã-Bretanha, equivale a ter mais ou menos resistência à dor; tal como nascer homem ou mulher”.
Na vida de antigos Combatentes, e mesmo de todos quantos cumpriram o serviço militar obrigatório; longo, em tempo de guerra fria e da chamada guerra subversiva nas então designadas Províncias Ultramarinas, sempre no frenesim de vir a ser-se chamado para a guerra do Ultramar; os acontecimentos passaram também pelas famílias, pois ainda tenho presente, na minha memória, os choros dos familiares, por essas estações de caminhos-de-ferro fora, incluindo apeadeiros que agora já não há, aquando da despedida dos seus queridos filhos, irmãos, sobrinhos, netos, namorados das filhas, e até alguns já maridos, e pais, com o destino do embarque para as Colónias.
Neste apontamento, também não posso deixar de recordar um triste acontecimento com a despedida dum antigo combatente desta cidade, meu antigo colega da escola primária, o Carlos Alberto Garcia da Cruz, num fatídico dia de setembro de 1966 (há quase meio século) na sua mobilização para S. Tomé e Príncipe. Era um domingo e, com alguns seus amigos, entre os quais o Zé Augusto Ferreira e o Valentim (mais tarde também antigos combatentes do Ultramar) havia-se despedido de sua mãe e outros seus familiares, quando, já na gare da estação dos caminhos-de-ferro da Covilhã, aguardando o comboio das 17 horas, é subitamente confrontado com pessoas que acorrem a dar-lhe a infausta notícia de que sua mãe se encontrava muito mal. Residindo perto da estação, o Carlos entra numa louca correria até sua casa (ainda não havia telemóveis), e depara com sua mãe em lágrimas que lhe diz: “Nunca mais te vou ver, meu filho!” E, num ápice, cai e sucumbe. Nesta dor da separação, o Carlos Alberto mais nada pôde fazer que estar presente no funeral realizado no dia seguinte, 2.ª feira, para, na 3.ª feira, partir de comboio para Santa Margarida e, na 4.ª feira, embarcar para São Tomé e Príncipe.
“A dor inútil é a segunda causa de internamento e, em Portugal, afeta mais de três milhões de pessoas. Depois de cumprida a sua função de alerta, a dor não deve ser vivida e, se for crónica, é completamente inútil. É um mecanismo que nos assegura sobrevivência e que serve de alerta, quando é uma dor aguda. Ou seja, com uma duração limitada no tempo e com uma causa geralmente conhecida. Contudo, quando a dor dura mais de três meses e tem causa mal definida ou desconhecida, a dor deixou de cumprir a sua função. O mecanismo de alerta passa a funcionar inadequadamente, porque surgiram doenças que se tornaram crónicas”.
É por isso que os jornais, nos seus textos de opinião, crónicas, páginas ou entrevistas adequadas ao tema, como este, podem e devem ser; para além dum encontro de memórias (que também as há alegres), emanadas das muitas gentes que viveram a Guerra do Ultramar (gentes da minha geração); como que um bálsamo momentâneo pelas marcas deixadas no corpo, e na mente, de muitos sofredores ainda; carne para canhão do satânico período do salazarismo.
É no encontro, crescente em número, em vontade, e em dinamismo, dos participantes em tertúlias e convívios de memórias do passado que se sente uma outra estrela que nos guia, numa almejada camaradagem, geralmente não vista noutros encontros.
Se este tema – a dor – pode ter alguns resquícios de enfado, o que é certo e verdade é que ela também se pode ver através da chamada dor da alma, que é uma outra, para além da física; é invisível aos olhos, abstrata e pode atingir intensidades insuportáveis. Contudo, esta dor nunca deixará de existir, pois ela não existe só no corpo. A dor psíquica facilmente se torna numa dor invisível que transpõe os sentimentos do corpo e atormenta, em surdina, para a qual não há analgésicos. Muitas pessoas consideram que a dor psíquica é mais difícil de suportar do que a dor física.
Vejamos o caso, de há umas semanas, da morte do jovem André Sousa Bessa, filho da jornalista sobejamente conhecida da televisão, Judite de Sousa, que destruiu o coração da sua mãe e certamente da sua vida profissional de excelência. Têm-se visto, na comunicação social, sentimentos profundos de dor daquela mãe. Este é um dos casos mais “emblemáticos” da dor – “Uma parte de mim morreu com o meu André”.
Falando nas várias vertentes da dor, ela não é maior nem menor que a dos outros, não é pior ou melhor que a dos outros, nem é mais ou menos insuportável que a dor dos outros. Não é, de todo, a maior dor do mundo, mas é a maior dor do nosso mundo.

(In "fórum Covilhã", de 19.08.2014)

29 de julho de 2014

DOS OITO SÉCULOS DA LÍNGUA PORTUGUESA À POBRE DIPLOMACIA

Escrevo esta crónica em 23 de julho de 2014, exatamente no dia em que, em Dili (Timor), o Presidente da República e o Primeiro-Ministro de Portugal participam na Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, vulgo CPLP. Mas já lá vamos.
Há um mês atrás, mais precisamente no dia 27 de junho, segundo as narrativas, como agora sói dizer-se, comemoraram-se os oitocentos anos sobre o mais antigo documento oficial conhecido em língua portuguesa, a nível de Estado – o mais antigo documento régio na nossa língua, o qual se reporta ao testamento do terceiro rei de Portugal, D. Afonso II.
Poderia ter sido uma carta de amor, dum príncipe para a sua amada, por exemplo, mas não seria considerado, porque se trataria dum documento, ainda que autêntico, mas de cariz particular.
Mesmo tendo em conta que a data daquele documento é de 27 de Junho de 1214, originando assim o nascimento da Língua Portuguesa, certo é que, como qualquer ser, ele já existe antes de nascer.
Conforme refere José Ribeiro e Castro, “Comparando, digamos, pois, que esses outros textos da nossa língua, coevos ou anteriores – Notícia de Fiadores, Auto de Partilha, Notícia de Torto, Cantigas de poesia trovadoresca – são os “pontapés na barriga da mãe” da nossa língua em processo final de gestação, de afirmação e de ascensão”.
D. Afonso II limitou-se a usar uma língua que já existia e já era usada pelo seu povo, antes de ele a usar também. Aquele documento é já considerado escrito em português e não galaico-portucalense e, além disso, é arredado o latim muito antes de D. Dinis, em 1290, ter tornado oficial e obrigatório o curso e o uso do português.
Santo António de Lisboa (Fernando de Bulhões), que nascera antes do surgimento da Língua Portuguesa, viria a falecer 18 anos depois do nascimento desta mesma língua.
Assumida como oficial, séculos volvidos tem uma enorme evolução, sendo uma das mais importantes línguas globais contemporâneas: a terceira língua europeia global, terceira língua nas Américas, a terceira língua do Ocidente, a quarta mais falada do mundo, a mais usada no Hemisfério Sul e crescente em África. A língua em Portugal representa 17% do PIB. Perante os desafios da globalização, a língua portuguesa é falada em todo o mundo por quase 300 milhões de pessoas.
“A língua que falamos não é apenas comunicação ou forma de fazer um negócio. É uma forma de sentir e de lembrar; um registo, arca de muitas memórias; um modo de pensar, uma maneira de ser – e de dizer. É espaço de cultura, mar de muitas culturas, um traço de união, uma ligação. É passado e é futuro; é história. É poesia e discurso, sussurro e murmúrios, segredos, gritaria, declamação, conversa, bate-papo, discussão e debate, palestra, comércio, conto e romance, imagem, filosofia, ensaio, ciência, oração, música e canção, até silêncio. É um abraço. É raiz e é caminho. É horizonte, passado e destino” (Tribuna Manifesto 2014 - Público).
A língua portuguesa cresceu e modificou-se em caminhos diversos conforme as geografias. Portugal e Brasil manteve uma unidade ortográfica até aos últimos tempos da monarquia portuguesa mas caminhou para uma separação em termos de expressão linguística.
Devido à colonização, África viu-se em dificuldades com o português como língua oficial porquanto, nesse papel, estavam as línguas maternas; e não as do colonizador, com os seus crioulos próprios; outros, as línguas correspondentes a etnias. Os movimentos de libertação africanos optaram pelo português no momento de escolher uma língua oficial devido à necessidade de evitar divisões.
Depois da celebração destes 800 anos da Língua Portuguesa, agora, a pretexto da mesma língua, assistimos a um vergonhoso ato de submissão que a História de Portugal vai registar, através da admissão oficial da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), conforme referimos no primeiro parágrafo deste texto.
Tendo Brasil e Angola estado de acordo, assim como os restantes países de língua de expressão portuguesa, Portugal, conformado à sua pequenez, a fim de não ficar isolado, lá seguiu curvando-se a tamanha desfaçatez.
Não lhe foi possível levantar alto a bandeira da Língua, apesar de alguma resistência do Presidente da República e do Primeiro-Ministro portugueses.
É a diplomacia que temos, “que é, por um lado a diplomacia da concórdia e do apaziguamento e por outro a da subserviência e da permissividade”, de se sentir incapaz de dizer “basta” à farsa de apresentar um rosto “humano” a uma ditadura que só deveria merecer condenação e desprezo.
E, no meio disto, mais interessados estavam todos os outros países em trazer para a Comunidade um novo parceiro, o nono, com o seu petróleo, porque, quando Lula da Silva, então Presidente do Brasil, apoiou a candidatura de Teodoro Obiang, o responsável pelas Relações Exteriores do Brasil lá soube dizer: “Negócios são Negócios”.
Quando é o dinheirinho a cintilar não há olhos voltados para os direitos humanos, sejam lá os países que forem, e as palavras leva-as o vento. Que o digam os ausentes da Cimeira, Dilma Rousseff (Brasil) e José Eduardo dos Santos (Angola). E, até, ironia da história, o ditador Obiang foi levado de início pela mão de Xanana Gusmão e “aceite” sem qualquer votação à custa de um pontapé no protocolo, entrando para a foto de família, obviamente com ele, tirada extraordinariamente, antes de consumada a admissão.
Era tal o forte desejo que Teodoro Obiang entrasse para a CPLP, com estes atropelos ao protocolo, que a vergonha imperou na Cimeira, passando uma rasteira aos representantes do Estado Português. Agora certamente iremos pagar um preço alto que não nos livra do peso da vergonha.
Valha-nos ao menos o Presidente da República que se impôs para que ficassem registadas disposições a cumprir por Obiang no que concerne à abolição da pena de morte e à introdução da língua portuguesa no seu país, disposições a que o homem da Guiné Equatorial se estava a esquivar.

Vamos aguardar pelos novos capítulos desta novela política, que dá para pensar, lá isso dá!
(In "fórum Covilhã", de 29.07.2014)

23 de julho de 2014

DIRETORES DE UM JORNAL

Desde longa data que me familiarizei com os jornais. Mesmo nos tempos de estudante em que nos meus bolsos não havia um único tostão; pois que lá isso de “semanada” nunca soube o que era; nem sequer para tomar uma bica que custava doze ou quinze tostões, conforme fosse no Café do Sporting, no Estrela, no Central, no Café Leitão, no Solneve ou no Montalto.
Mas era na antiga biblioteca municipal, ao jardim, que aí lia os semanários da região (Notícias da Covilhã, Jornal do Fundão e o extinto Beira Baixa), mas também o Diário de Notícias, o Diário Popular, O Comércio do Porto, a Flama, a Vida Ribatejana, uma olhadela pelo Novidades e A Voz, e, sempre que estivesse disponível, a República.
Aos 18 anos (era então funcionário administrativo na Câmara Municipal) deu-me um impulso de começar a redigir o primeiro texto, em Cartas ao Diretor, aproveitando uma qualquer Hermes, Underwood ou Remington disponível nos intervalos do almoço, ou um pouco depois da hora de saída. Ainda não tinham sido inventados os computadores.
O texto já estava feito, era só datilografá-lo, por vezes com alguma curiosidade dos outros funcionários, na sua maioria já fora do mundo dos vivos.
O “Notícias da Covilhã” era ali pertinho, um pouco mais acima, e, vai daí, naquela tarde de 14 de novembro de 1964, dirijo-me a alguém da redação e é então que sou recebido, com grande simpatia, pelo único redator, Alfredo Nunes Pereira. Conversámos sobre a falta de um museu na Covilhã, naquela altura – tema do meu artigo – e, a partir daí, ainda que aleatoriamente, inicio o contato mais assíduo com os jornais. Tinha então iniciado funções como novo diretor, no “Notícias da Covilhã”, o Cónego Dr. António Mendes Fernandes, cumulativamente com a de diretor do Centro Cultural e Social, substituindo, nas duas partes, o Padre José de Andrade.
E é na vontade indómita para a escrita, com a qual sonhava, que vêm a surgir as monografias de duas das maiores instituições da cidade covilhanense, sem nunca largar as teclas das máquinas de escrever, e agora dos computadores, para as crónicas e textos informativos.
Neste âmbito, venho a conhecer outras figuras ligadas à comunicação social e ao meio social, com quem venho a desfrutar de uma amizade, e, nalguns casos, de colaboração assídua nos seus órgãos de comunicação como é o jornal “O Olhanense”, com uma página quinzenal sobre esta região, há vários anos.
Mas embora esteja em contato com os leitores noutros jornais, algumas revistas e boletins, é no “Notícias da Covilhã” que mais tempo tenho dada aos meus textos despretensiosos.
Neste contexto, por duas vezes chegaram às minhas mãos dois livros da autoria de um excelente Amigo, ex-Diretor do “Notícias da Covilhã”, o Cónego Dr. Mendes Fernandes. O primeiro – “60 Anos de Sacerdócio ao Serviço da Igreja e da Comunidade” – foi em 11.10.2006; o mais recente – “Que falta ao Mundo para Viver em Paz, Verdades Evangelizadoras para o Nosso Tempo” – chegou em 07.07.2014.
Este Homem, na sua provecta idade a caminho do centenário, apesar de se encontrar refugiado no melhor Lar que é a sua residência familiar, não suspendeu a caneta (que é um dos símbolos da sua vida), como ele diz.
A leitura deste seu livro (o último de uma vasta obra) levou-me a uma suave pausa na meditação do que escreveu, denunciando com frontalidade tudo o que se passou e passa neste nosso país empobrecido, mas também de pobreza pelos valores da vida.
Várias citações de autores, nesta sua obra, e outras expressões suas, são de uma profundeza espiritual que a um católico, como eu, deu prazer ler, num momento em que nos embrenhamos em muitas coisas, atendendo a várias solicitações às quais, por vezes, não podemos, ou não queremos, dizer não.
E, de facto, como cita, “É a paz que liberta o homem da sua condição de escravo e lhe dá o título de livre”. Depois: “Plantar e enraizar a paz é obra de Deus, arranca-la da raiz é obra do inimigo”. “Mas todos nós sabemos que os últimos dois séculos foram os mais sangrentos de toda a história. Em muitas nações desceu-se o último degrau da desumanização”. Não é o que se está a passar com estas mortes na Palestina e na Ucrânia?
E é assim que refere ainda: “Todos os humanismos baseados em filosofias que absolutizaram o finito e eclipsaram o infinito (Deus), faliram estrondosamente depois de terem provocado as maiores tragédias e convulsões sociais”.
Muito haveria a comentar sobre este interessante livro mas não quero deixar de referir, sobre uma leitura que faz de vários Papas, a influência que teve João Paulo II, seu grande admirador, e de todos nós, no acordo do desarmamento nuclear assinado em 08/12/1987 por Mikhail Gorbachev, onde interveio o presidente polaco Jaruselski, abrindo assim a possibilidade de uma coexistência pacífica entre o Leste e o Ocidente.
Quase por último, mais esta citação no seu livro: “Não esqueças – Jamais serás arrogante com os humildes mas também não sejas humilde com os arrogantes”.

Termino do muito que haveria a dizer da sua obra, e que serve para inspiração de outros textos, esta também sua inspiração sobre Nossa Senhora: “Se o mar que por todo o mundo se derrama – Tivesse tanto de amor como tem de água fria, – O seu nome não seria mar – Seria MARIA.

(In "Notícias da Covilhã", de 24.07.2014)

8 de julho de 2014

A PROSTITUTA, O CORRUPTO E O PIB

Nunca se falou tanto em prostituição e corrupção como nos últimos anos deste século XXI.
A primeira diz-se ser a profissão mais velha do mundo, pois já existia antes de Cristo. E até terá dado origem à primeira publicidade do planeta. Recordo-me, numa viagem pela Turquia, nos anos 90, algures que já não memorizo, de ver uns sinais alusivos ao sexo, gravados no chão sob granito, que ali permaneciam preservados há séculos, indiciando que, ali perto, existia uma casa de prostituição. Daí, a primeira publicidade que terá sido conhecida.
Mas, o homem corrupto emerge às mãos cheias, quando menos se espera, e, muitas vezes, donde menos se contava vir. Ele tanto é o bem-falante, o de falinhas mansas, o altivo, como o cara de santinho. Neste país de chicos espertos como de otários, não há como andar sempre desconfiado, desconfiado, sim, porque já não há palavra (salvo honrosas exceções) que faça lei, como se procedia religiosamente noutros tempos.
Os jornais estão cheios de casos, que já não causam estrondo, e que, no âmbito da corrupção, levam uma infinidade de tempo para se solucionarem pela fragilizada via judicial, um dos grandes problemas que Portugal enfrenta. E é vê-los sob fiança, pulseira eletrónica ou prisão domiciliária quando deviam estar devidamente presos.
Não é preciso se dissiparem por lugares sertanejos, em pouco conhecidas vilas ou aldeias, ou por pacatas cidades deste país, porque eles surgem perto de nós, nos ecrãs televisivos ou páginas de jornais (sem ser necessário no “Correio da Manhã”), numa foleirice institucionalizada, alguns dos quais num ardente desejo de serem chamados por doutores, engenheiros, poetas ou escritores.
E entre a que vende o seu corpinho e o que sonega e “endossa”, com ardil, para as suas algibeiras, o que é do erário público, assim vai Portugal vivendo. Este Portugal que acata sem discussão o que a União Europeia decreta, passando as estatísticas nacionais a acrescentar ao valor do Produto Interno Bruto (PIB) a riqueza produzida com atividades de prostituição, tráfico e contrabando. Neste contexto, o Instituto Nacional de Estatística avalia que a ideia, a aplicar a partir de setembro, valerá 700 milhões de euros. Chegou-se à conclusão que, para Portugal, o benefício será de 0,4%.
Nesta “genial” imoralidade, em que na receita da prostituição está sendo tido em conta também o tráfico de droga (e de tabaco, não?), transformam um roubo (o tráfico de cocaína, por exemplo) em receita. É de bradar aos céus, como já se pretende trabalhar oficialmente com dinheiro criminoso de lucros ilegais. E não será assim que se poderá fomentar o tráfico de crianças e mulheres, ao invés de o combater eficazmente, criminalizando-o?
Pois é, um dia destes, no preenchimento de algum formulário para qualquer ato oficial, aquela que é considerada a profissão mais velha do mundo já poderá, na pessoa da mulher, escrever-se “trabalhadora do sexo”. E será vê-las nos centros de saúde e consultas hospitalares a indicarem aquela como sua natural profissão, e, sabe-se lá, “publicitando” no imediato e in loco a sua “atividade profissional”.
O “Público”, de 15 de junho, referia que “a inclusão do dinheiro do tráfico de droga e da prostituição nos cálculos do PIB não suscita oposição. Mas falta permitir que as prostitutas se coletem nas Finanças e debater a criação de circuitos legais para drogas leves”. É que, já em 12 do mesmo mês, se referia, em parangonas, que “Sexo e drogas aumentam o PIB – As atividades e negócios ilegais, como a prostituição e contrabando, vão aumentar a riqueza nacional em 640 milhões de euros. O INE calcula o valor da economia paralela em 20,8 mil milhões. Cerca de 13% do PIB tem a ver com a chamada economia não observada”.
Para onde vai esta (des)União Europeia? As prostitutas a serem consideradas como “trabalhadoras do sexo”? Não! Um dia poderemos vir a ter umas quantas Cicciolinas na Assembleia da República. Como eu ando enganado, pensando que, afinal, já não é nenhum objetivo civilizacional acabar com a prostituição!
Voltando à corrupção, como é que banqueiros envolvidos em evasão fiscal e manipulação de contas não são impedidos de exercerem atividades na banca?
Como é que um antigo comandante da Proteção Civil tem o arrojo de se gabar na comunicação social de ter podido gastar 80 milhões sem prestar contas?
O que é que vai acontecer aos médicos que foram apanhados a trabalhar em vários locais à mesma hora, ou seja, em hospitais privados e, simultaneamente, a mamar o dinheiro de todos os contribuintes? E as fraudes nas farmácias?
Pelo que tenho que concordar com José Saramago quando disse que “Em Portugal, não há direita, não há esquerda, nem há centro, há sim um grupo de salafrários que se alternam nos governos, para ver quem rouba mais”.
E, nesta repulsa pelo que se passa no nosso País, lá está o eterno Eça de Queiroz, sempre atualizado como a bíblia dos nossos dias, quando, no meio desta bagunça, há sempre alguém que sofre, e, por isso “em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.

(In " fórum Covilhã", de 08-07-014) 

25 de junho de 2014

GESTÃO DE TALENTO

Domingo, segundo dia do início do verão deste ano do mundial de futebol no Brasil, e também do segundo jogo de Portugal, neste mundial, com os Estados Unidos, cujo resultado verificado, já em dia de segunda-feira, é o prenúncio do regresso a casa; ano também da saída dos invasores “troikanos”, na voluntariedade portuguesa; dos cortes e recortes salariais, dos milhões de impropérios com que as gentes das nossas gentes já brindaram os nossos governantes; mas, também o lado bom do que se passa na minha rua – uma rua covilhanense.
Desço a Mateus Fernandes, e, quando regresso, já com o “Público” na mão, vou lendo as mais gordas e a crónica do Vasco Pulido Valente. A capa já nem aterroriza de tão atordoados que andamos – “Mais 311 escolas do 1.º ciclo vão fechar no próximo ano letivo”. Ainda que os meus netos tenham sido uns ases, não posso deixar de meditar nos outros meninos e meninas, deste País, que os querem descalçar.
No princípio da crise ouvia dizer que a mesma é uma forma de gerar oportunidades. E, alguns, muitos, dezenas, centenas, talvez milhares, podiam fazer das tripas coração, como sói dizer-se, e não entrar num desespero à espera que o estado-providência viesse ao seu encontro, talvez num vício do passado preferindo ver a banda passar.
Se na Covilhã há empresas, que aqui se geraram e são um sucesso geracional, também na minha rua dá gosto ver a dinâmica de dois comércios tradicionais, numa força indómita contra a crise, na alegria do trabalho que é sustento dos que ali trabalham.
No inverso, vamos encontrar outras ruas da minha cidade repletas de estabelecimentos encerrados, alguns ainda com artigos amarelecidos no seu interior, pelo abandono, na tristeza do que outrora era a alegria de um rodopiar de entradas e saídas, quando o metro, em madeira, e o peso em balanças Avery eram o suficiente para dar aviamento à clientela, em vez das novas tecnologias de hoje.
Mas a modernidade é sinónimo de progresso, o que não equivale a mais mão-de-obra, e os novos tempos, numa globalização imparável, jamais podem ser refutados no seu acompanhamento se quisermos andar no pelotão, já não digo na sua frente, mas sem o perder. Até já há três portugueses que figuram entre os 705 candidatos que passaram a segunda fase do processo de seleção do Projeto Mars One para uma viagem sem regresso a Marte em 2025.
Quando entrámos na então CEE-Comunidade Económica Europeia, no 1º de janeiro de 1986, já então se insistia nas vantagens e nas exigências em irmos pertencer a um grupo de elite. Uns marimbaram-se para o assunto; outros começaram a compreender que as exigências da formação já não eram questões de patronato. Recordo-me de um dia, na Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, dirigindo-me para a sede da empresa de que eu era um dos funcionários externos, um vendedor ambulante, de fruta, tinha um papel colado no seu carrinho, a letras garrafais, que dizia: “Cerejas da CEE” – talvez sem saber porquê, mas já num sentido de viragem para a qualidade.
De acordo com o Relatório do Capital Humano do Fórum Económico de 2013, “constata-se que, no indicador “Capacidade de reter talentos”, Portugal ocupa a posição 111, entre 148 países, o que demonstra a relevância deste tema e a necessidade de proceder a uma análise do porquê desta situação, dado tratar-se de um indicador fundamental para o desenvolvimento do país”.
Existe já um grupo de empresas fundadoras da iniciativa “Like Portugal”, “um movimento privado que pretende comunicar e promover Portugal como um País para Crescer e Investir. Trata-se de um projeto independente da sociedade civil, cujo motor são as empresas, e que tem como objetivos trabalhar e promover a imagem de Portugal nos mercados externos e, dessa forma, contribuir para o esforço nacional de captação de investimento estrangeiro e de dinamização da economia nacional.
Felizmente que ainda há empresas em Portugal, com ramificações também nesta região beirã e na minha cidade – a Covilhã – com homens e mulheres que são duma extraordinária capacidade de liderança e de sentido de alterar o rumo daquele que foi pessimismo, para um ambiente altamente alegre no trabalho, apesar da crise, crise também de valores.

Dou, como exemplo, uma multinacional que alterou o nome do seu departamento de Recursos Humanos, como geralmente existe na generalidade das empresas, para Gestão de Talento. E refere o seu CEO: “Na nossa Casa, decidimos alterar esse nome que consideramos nefasto, porque achamos que um Humano não é um recurso, é, sim, um Ser Humano. Um Ser Humano gere recursos, não gere Humanos como sendo um recurso!”
(In "Notícias da Covilhã", de 26.06.2014)

10 de junho de 2014

REINSTITUIÇÃO

O Brasil é agora a forma de darmos brado ao nosso patriotismo, no amor aos símbolos pátrios, que, desenganem-se, não são a Bandeira e o Hino Nacional, mas tão só, agora, a Seleção Nacional e Cristiano Ronaldo.
Portugal que, para nossa infelicidade, dos nossos filhos e dos nossos netos, continua a não ser livre de tomar as decisões que quer e a conduzir os seus destinos como deseja, não obstante ter passado já o famigerado 17 de maio de 2014, fim (?) da incómoda troika e que, na versão metafórica de um governante do momento chegou a considerar aquela data um novo 1640, penso que é chegada a hora de todos nós nos assumirmos no sentido de nos livrarmos do jugo dos infiéis.
E esses “infiéis” estão infiltrados e disseminados por todos os lados, e por várias formas, num sofrimento, latente para alguns homens e mulheres do trabalho, ou, sem ele, aos milhares dos que o procuram; mas de raiva na grande maioria, e são aos milhares, neste Portugal de uma dezena de milhões de habitantes, por enquanto.
A classe média, quase transformada na “arraia-miúda”, grita, com a sua honra, contra tantos néscios, numa de fartar, vilanagem! É preciso que os “ventres ao sol”, em que nos quiseram transformar, venham exigir a reinstituição de Portugal.
Já se profetiza que Portugal poderá ficar reduzido a 6,3 milhões de habitantes em 2060. Nos dias que correm, ainda com mais uns milhões de pensantes, não se encontram alternativas que não sejam quase duma república das bananas, onde não há respeitabilidade por órgãos de soberania como é o Tribunal Constitucional. Com o contributo pensante de cada um, por que não exigir, até à exaustão, decisões governativas, ainda que dolorosas para alguns senhores detentores ou candidatos ao poder?
Em primeiríssimo lugar urge que todos, mas todos os homens e mulheres da política portuguesa, destacados nos mais diversos lugares, quer do governo, quer da presidência da república, quer das autarquias, assumam um compromisso de honra, não no papel mas nas suas consciências, de que vão desempenhar os lugares tão só para servir o povo e não para se servirem, como na generalidade tem surgido.
Neste contexto, é imperioso que aceitem ser fiscalizados permanentemente sobre os seus ganhos no início do desempenho das suas funções políticas, e, depois, no final, sujeitando-se aos valores salariais e de representação estipulados por lei. Um levantamento minucioso a todos os que ocuparem cargos políticos, quer central quer local, conhecendo o seu património antes e depois dos mandatos.
Que os mesmos sejam terminantemente proibidos, sob pena de serem alvo da justiça, e de anulação dos contratos, de integrar nos seus gabinetes, dos vários ministérios, câmaras municipais ou autarquias, familiares ou protegidos, sendo obrigatório, para o efeito de casos verdadeiramente necessários e imparciais, de que sejam previamente do conhecimento público, que se pronunciará sobre o assunto, pelas vias consideradas normais.
Que se eliminem muitos excessos nos quais nenhum governo de Portugal quer mexer, num mau exemplo comparativamente a outros países europeus, e não só, com mais poder económico e muito menos despesas, destacando, por exemplo:
- Reduzir o número de deputados de 230 para 180;
- O deputado deveria receber salário somente durante o mandato (limitado a duas ou três legislaturas). Não haveria direito a “reforma pelo tempo de deputado” mas tão só contar o prazo de mandato exercido para juntar ao seu tempo de serviço, como qualquer normal cidadão;
- Manter um teto salarial, em termos de pensões, para um máximo de 5.000 euros mensais, para todos os pensionistas, independentemente da sua atividade, e dos seus ganhos no ativo, quer de uma só atividade ou do somatório de várias atividades ou reformas;
- Proibição de salários exagerados para contratações de assessores dos gabinetes, sem experiência e sem que haja prova convincente da sua real capacidade para o desempenho da tarefa e o correspondente salário, que deverá ter um teto máximo;
- Forte rigor nas despesas de representação e de viagens em serviço, devidamente controladas, quer em Portugal quer no estrangeiro;
- Grande rigor na quantidade de assessores quer da presidência da República, quer do Primeiro- Ministro, Ministros e Secretários de Estado;
- Acabar de vez com a diferenciação, na assistência na saúde e na doença, assim como nos cálculos para a aposentação, incluindo no setor bancário, de uns terem tratamento como filhos  de Deus, e outros filhos do diabo; isto pressupõe que terão que se harmonizar os meios para que os menos beneficiados se aproximem dos que beneficiam de melhores condições;
- Eliminação pura e simples dos gabinetes com despesas evitáveis e mordomias, como motorista e outras, aos ex-presidentes da República, que deveriam, tal como atrás referi, usufruir do teto máximo de pensão mensal, como qualquer cidadão, e caso já estivesse na data legal para o efeito; assim como proibir a entrega de veículos para presidentes e assessores das edilidades, e, pura e simples proibição de pessoal, como motoristas privados.
Muito, mas muito mais haveria a constar do rol de exigências para se reinstituir Portugal, como a revisão urgente do Código Penal, impondo agravamento das penas, sem contemplações, em muitos dos crimes, obrigatoriedade na celeridade dos processos judiciais; proibição da prescrição das penas e punição exemplar para todos os homens e mulheres da justiça que propositadamente usarem de subterfúgios para a morosidade e ocultação dos crimes.

No que concerne à saúde, a defesa intransigente do Serviço Nacional de Saúde, e reposição de tudo o que foi retirado em prejuízo dos doentes.

(In "fórum Covilhã", de 10.06.2014)

28 de maio de 2014

COMO ALGUNS RESSUSCITARAM

Por todo o planeta vamos encontrando relatos de acontecimentos algo estranhos. Para os dias que correm, quase não é surpresa. Noutros tempos, pelas bandas de cá, se não era conveniente a notícia, abafava-se.
Há algum tempo o Daily Mail informava que um homem do Mississippi, nos Estados Unidos, foi dado como morto e já estava na morgue, quando se descobriu que ainda respirava. Já se encontrava dentro de um saco, na morgue, quando os funcionários o viram a mover-se e descobriram que afinal estava vivo. Os médicos acreditaram que o pacemaker lhe parou, tendo voltado a funcionar algumas horas depois. William, o “ressuscitado”, viria a afirmar sentir-se feliz por ainda estar vivo.
Também na China, um bebé declarado morto, escapou da cremação ao chorar. Salvou-se assim de ter sido cremado vivo. O certificado de óbito foi passado e o bebé, do sexo masculino, foi enviado para uma funerária, tendo os funcionários da empresa ouvido a criança a chorar.
São notícias de um horror tremendo mas não pensem que isto só se passou nos outros países e continentes.
Por cá, neste Portugal de outros tempos, como também de hoje, situações se contaram que merecem uma profunda reflexão. A forma como algumas pessoas são consideradas já falecidas, na negligência da sua autenticidade, é arrepiante. Como o caso que conto abaixo. Para além de outros, do conhecimento público, inseridos na comunicação social, objeto de vias judiciais. Também sabemos que, em hospitais e lares de terceira idade, por vezes coisas se passam, de menos atenção com aqueles que, já de tão fragilizados nem se sabem queixar, originando o dormir para um sono eterno. Todavia, existe uma aparente contradição de sorrisos e formas de trato, na frente dos familiares.
O Jorge, anualmente participa comigo na confraternização dum grupo de casais amigos, recordando velhos tempos da meninice e juventude. É um bom amigo. Nos anos sessenta teve um grave acidente automóvel, quando viajava num mini cooper, juntamente com mais quatro colegas militares, a caminho da unidade militar. Ele ia à civil e os seus colegas fardados. A notícia repentina surgia nos jornais (ainda não havia Internet nem as novas tecnologias): “Um grave acidente automóvel, do qual resultou quatro militares gravemente feridos e um civil morto”.
O Jorge (o “civil morto” mas ainda vivo) foi levado para a morgue e a família já se preparava para o luto quando alguém, que ia levantar o “cadáver”, vê cair-lhe o braço do corpo e, na observação imediata, constata que o morto, afinal, estava vivo.
Vamos a outras formas de “ressurreição” dum desaparecido, ainda que seja um palito importante e, por isso, a necessidade dum exército, de polícias, para ver se se encontra o dito cujo, que, pela sua óbvia dificuldade, é como encontrar uma agulha no palheiro…
Manuel Baltazar , o Manuel “Palito” fica nos anais da justiça à portuguesa  por ser como que um Tarzan ou um Robin dos Bosques, conseguindo fugir à Polícia Judiciária e à GNR, depois de ter matado a sogra e uma tia e ferido a ex-mulher e a filha. Resistiu à perseguição destas forças a pé e a cavalo, durante 34 dias.
O que é estranho é que este foragido consegue colocar no ridículo as forças de segurança que, não obstante tantos meios empregues para o “caçar”, e a quantidade de elementos na sua busca, é ele próprio que se dirige a sua casa, onde dormiu e tomou banho, quando se apregoa que a PJ é uma polícia do melhor que há no Mundo e a GNR que ombreou em operações internacionais desde o Iraque a Timor, passando pelo Afeganistão, profissionais treinados para enfrentar sem medo terroristas experimentados. Isto é a força policial do nosso País, agora colocada a ridículo, neste Portugal profundo.

E se a GNR, enquanto andou à procura do palito pelas matas do imenso território de São João da Pesqueira, tivesse também sido incumbida, como os agentes da PSP, em Lisboa, de participarem na preparação para a criação duma mega bandeira nacional para o 10 de junho, de tampinhas recicláveis, então, ainda hoje o ressuscitado Manuel “Palito” podia ir passeando pelos arredores até à sua casa.

(In "Notícias da Covilhã", de 29.05.2014)

19 de maio de 2014

“TRIBUNA DESPORTIVA” - SEMANÁRIO DESPORTIVO REGIONAL DE ELEIÇÃO

Duas décadas a manter-se de pé, sem interrupção, ao serviço do desporto regional, é obra! Sim, Senhor, incontestavelmente, entre ventos e marés, a “Tribuna Desportiva” tem sabido granjear a simpatia e aderência dum público de afeição pelo desporto desta região da Beira Interior.
Tive o prazer de, nos seus primórdios, ainda que duma forma efémera (anos 1995 e 1996), ter podido colaborar nas suas páginas, com os títulos “Ao Virar da Página” e “Vultos do Desporto d’Outrora”.
Mas o que me trás a este apontamento não são as memórias, e muito menos qualquer saudosismo retrógrado, mas tão só a justiça que é de enaltecer, em tempos de forte crise, o trabalho de excelência dos obreiros deste semanário, reflectida nos seus 1000 números atingidos na última edição, sendo, desta forma, indubitavelmente um semanário de eleição.
E afirmo-o categoricamente, porque são os homens da pena, ou melhor, da gravação in loco, nos eventos, e da máquina fotográfica, na objectiva da oportunidade, da ”Tribuna Desportiva”, como também na pessoa do seu director, Pedro Martins, que, não abandonando precocemente o local desses mesmos eventos, quer sejam encontros desportivos quer assembleias gerais, por exemplo, quer ainda várias celebrações comemorativas, conseguem dar notícia global do que ali se passou. É que, quando, por vezes, decisões importantes ou curiosas ficam para último, na sua generalidade outros órgãos da comunicação social já deram o fora porque lhes bateu à porta o enfado do prolongamento para além do desejável. E, assim, notícias marcantes ficaram omissas ou no segredo dos deuses.
E é nestas situações comportamentais, em termos de estar com a notícia global, que se proporcionam as futuras pesquisas para as estórias que vão inserir-se na história.
Depois, é todo o mundo de resultados e os comentários possíveis de todas as categorias de encontros, das várias modalidades, de âmbito nacional repercutido nesta região, ou distrital, “dando voz a todo o desporto do distrito de Castelo Branco” e a “todo o desporto da Beira Interior”.
E é pela leitura do futebol juvenil que muitos, como eu, vão buscar as informações que desejam dos seus “meninos” e também o gosto de ver noutras modalidades, como o atletismo, os nomes dos filhos e netos, algumas vezes nos respectivos pódios.
Por outro lado, também alguma frustração (mas disso não tem culpa a “Tribuna Desportiva”) ao ler resultados de golos sofridos, num total de 152, contra 13 marcados..., mas isto é que é o fidedigno da informação.


Aqui fica o meu apreço com os votos de longa vida ao serviço do desporto regional.

(In "Tribuna Desportiva", de 19/05/2014)

17 de maio de 2014

MONUMENTO AO SOLDADO DESCONHECIDO


Pensava eu que este monumento, que perpetua sentimento de homenagem aos Mortos na Grande Guerra e no Ultramar, como também é conhecido, de naturais do Concelho da Covilhã, era propriedade municipal.

Por informação do Presidente da Direção da Liga dos Combatentes do Núcleo da Covilhã, vim a saber que o mesmo é património da Liga dos Combatentes.

E isto a propósito de mais uma vez ter sido objeto de vandalismo, no mês de março, com danificação de uma das placas retangulares, em mármore, onde se encontram inseridos os nomes de falecidos em combate, de militares do Concelho da Covilhã; e também do furto de uma das duas esferas armilares, em mármore, que encimavam as extremidades do monumento.

Estes atos são geralmente praticados, sob efeito do álcool, por uma juventude que deveria ser exemplo por força de se encontrarem na cidade empenhados na formação académica para um futuro melhor mas que, lamentavelmente, a ocultas das autoridades, que quantas das vezes não estão no local certo à hora exata, danificam património. São uns quantos que, mais tarde, já sob a responsabilidade de lideranças em instituições, vêm a ser, eles próprios, a condenar tais atos.

Os excessos de práticas que nada condizem com os bons costumes, e certamente com a educação que trouxeram de suas famílias, deveriam ser, sem apelo nem agravo, condenados com sanções que fossem exemplares, logo que detetados.

Este monumento esteve inicialmente colocado no Largo 5 de outubro, aquando da sua inauguração em 15 de junho de 1930, pelo então Presidente da República, General Óscar Carmona.

Nos finais da década de 50 do século passado foi mudado para junto do Jardim Municipal, na Avenida Frei Heitor Pinto.

Estas habituais danificações nas partes mais sensíveis do monumento situam-se na parte em mármore que foi acrescentada e inaugurada em 23 de outubro de 1999 pelo Presidente da Liga dos Combatentes, General Baltazar Barroco e pelo Presidente do Município Covilhanense de então, Carlos Pinto.

Este monumento teve origem nos atos de bravura desempenhados pelos militares do então Regimento de Infantaria 21, sediado na Covilhã, na linha da frente, na Batalha de La Lys, na Flandres, durante a Primeira Grande Guerra, e também em Moçambique.

Logo que terminou a Grande Guerra, decidiram memorizar os combatentes do Concelho da Covilhã, que na mesma lutaram com coragem e valentia, e construir um monumento em memória dos soldados que nela faleceram, e dos que nunca se conheceu a nacionalidade ou família, a que se designou “Soldado Desconhecido”.

Este vandalismo sobre o monumento ao Soldado Desconhecido não é só de agora. Recordo que já em 15 de janeiro de 1965, já lá vai quase meio século, publiquei no “Notícias da Covilhã” uma gazetilha alusiva a um pequeno ato de vandalismo que consistiu na quebra da baioneta da espingarda do Soldado Desconhecido, a qual, depois de novamente colocada, continuou a ser alvo, por várias ocasiões, da sua danificação.

E assim me expressei:

 

O SOLDADO DESCONHECIDO

Passeava p’lo jardim,

Ao cheiro do alecrim,

Entoando canções não alheias,

Um garoto das nossas aldeias.

Vê em pedra uma figura!

Com uma tal estatura,

Olha em frente,

Depois ri e diz p’ra gente,

Com uma tal gargalhada:

“Partiram o cano à espingarda…”

Já outros o terão contemplado,

Pois isto há tempos foi passado,

Mas ainda agora,

O Soldado espera a hora

P’ra que seja tratado…

Terá ou não razão,

O rapazito em questão?

                                         J.J. Nunes
 
(In "O Combatente da Estrela", n.º 95, Janeiro a Maio de 2014)

VAMOS FALAR DO DESPORTO CITADINO, E NÃO SÓ


É indubitável que o desporto é uma das formas de passar, duma forma salutar, algum tempo das nossas vidas. Na ênfase dos anseios pelos êxitos dos nossos clubes de afeição, nestes tempos difíceis, somos abalados com crises e políticas nefastas dos nossos governantes. São essas formas de conduzir a governação que têm levado a uma degradação do sustentáculo de bem-estar na sociedade em que nos encontramos inseridos – o trabalho.

Enquanto caminhamos por essas estradas, caminhos, complexos desportivos, e campos fora, numa de manter a boa forma física e o sistema cardíaco e muscular, e, como atrás referi, no entusiasmo pelos clubes da nossa predileção, quer seja no acompanhamento dos filhos ou netos nas competições desportivas onde se integram, quer seja no “ir aos futebol” ver os seniores, descarregamos, no horizonte do relvado sob céu azul, alguns problemas do dia-a-dia, das jornadas de cada um, e, no paradoxo o carregamento de baterias para o resto dos dias/semanas, como sói dizer-se.

Neste espírito de “mens sana in corpore sano”, vamos memorizando factos, mas também figuras, muitas das quais acompanhámos durante a nossa juventude; outras com elas vibrámos nos lances, dribles, golos, gritos de Ipiranga em situações nevrálgicas mas que, num ápice, surgiu o golo salvador de safar a época.

Muitos são agora objeto de uma nostalgia de bons velhos tempos de outrora, quase idolatrados, mas, pelo menos, memorizados, se não quando amiudadas vezes objeto de amizades proporcionadoras das suas memórias com encontros apelativos às recordações desses tempos.

E, depois, são também as famílias que acabam por se juntar ao coro de amizades, naquela de que “recordar é viver”.

É neste contexto que trago o primeiro remate de recordações dos que ainda se encontram no mundo dos vivos, velhas glórias do grande embaixador da cidade laneira, hoje universitária – o Sporting Clube da Covilhã (SCC) –, para quem vai já um gesto de parabéns, e as maiores felicidades por conseguirem a manutenção na II Liga do futebol português.

Saliento tão só os homens que integraram as equipas da divisão maior do futebol em Portugal, no clube serrano, então designada por I divisão, em duas fases distintas. O grande período que foi das épocas de 1948/49 a 1961/62, com um interregno em 1957/58, e o período mais recente e último, que integrou as épocas de 1985/86 e 1987/88.

Muitos dos antigos atletas e treinadores, com quem privei pessoal ou indiretamente, já desapareceram do mundo dos vivos.

Vestiram a camisola do SCC, no período compreendido entre as épocas 1948/49 e 1961/62, entre os maiores do futebol português, 27 atletas, que participaram em jogos oficiais do Campeonato Nacional. Não estão aqui considerados os suplentes que nunca integraram jogos oficiais, assim como não está considerada a sua participação nas várias fases da Taça de Portugal. Por aqui se pode ver o tempo que permaneciam ao serviço das cores serranas, em relação aos tempos atuais.

Já durante o período que integrou as duas épocas correspondentes a 1985/86 e 1987/88, vestiram a camisola do SCC, durante a I Divisão, 45 atletas.

Dos tempos áureos da I Divisão, compreendidos no primeiro escalão a que acima me reporto, encontram-se ainda vivos, felizmente, se bem que alguns deles bastante doentes e incapacitados: Adventino Gorgulho Pedro (Algarve), Albertino (guarda-redes, Costa da Caparica), Amílcar Cavem (Coimbra), Amílcar Gonçalves (Gouveia), António Jorge Porcel (estrangeiro), António Lourenço (Lisboa), Fernando Cabrita (internado num lar em Caneças), Fernando Pires (Covilhã), João Lanzinha (Covilhã), João Tomé (Setúbal), Jorge Nicolau (Covilhã), José Romeiro “Coureles” (Lisboa), Palmeiro Antunes (Lisboa), e Vitoriano Suarez (S. Paulo/Brasil).

Desconheço as situações e paradeiro de Pérides, Patiño e Chacho.

Ainda durante o primeiro período em análise, foi Pedro Martin Sanz que realizou mais jogos ao serviço dos Leões da Serra, num total de 194. Seguiram-se-lhe: Helder Toledo, 170; Amilcar Cavém, 148; Bento Couceiro, 142; e José Rita, 130, quase todos falecidos, exceto Amilcar Cavém.

Já no segundo período em análise, foi Germano que mais vezes vestiu a camisola serrana, num total de 55; seguiram-se-lhe: João Sousa “Joanito”, 46; António José Real, 41; Gouveia, 37; e Celso Maciel, 35.

Quanto a melhores marcadores, para o primeiro período de análise (1948/49 a 1961/62), o 1º foi André Simonyi, com 74 golos ao serviço do SCC; 2.º Vitoriano Suarez, 66; 3.º Manuel Livramento, 53; 4.º João Tomé, 41; 5.º Carlos Ferreira, 32 golos marcados.

Já no segundo período de análise (1985/86 e 1987/88), o 1.º foi Celso Maciel, com 10 golos; 2.º Jacques, com 7; 3.º Artur Semedo, 5; 4.º Paulo Roberto, 4; 5.º Biri, 4.

João Tomé completou 90 anos do passado dia 3 de maio e, por intermédio de seu filho Fernando Tomé, que jogou no Vitória de Setúbal e no Sporting Clube de Portugal, demonstrou muito carinho pelo SCC e pelas pessoas que ainda o contactam colocando uma foto com a camisola do SCC no facebook.

Fernando Pires, meu vizinho, que foi o autor do golo do SCC na final para a Taça de Portugal com o Benfica, na época 1956/1957 é outra das velhas glórias do SCC que ainda passeia pelas ruas da cidade, assim como João Lanzinha.

J.J.Nunes


(In "O Combatente da Estrela", n.º 95, de Janeiro a Maio de 2014)

CONTINUAR


É numa vertente de colaboração que mantenho, com muito gosto, e empenho, o registo de alguns textos ou crónicas n’O Combatente da Estrela, desde há já algum tempo.

 Neste número 95, algumas alterações surgiram na ficha técnica, passando, assim, a ter a responsabilidade, que até aqui me era alheia, de uma cooperação com o diretor deste órgão periódico do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes.

Sendo certo que esta publicação tem vindo a crescer desde que veio à luz do tempo, em janeiro de 1988, com o seu primeiro número, também é certo que a responsabilidade da sua feitura tem recaído, sempre, desde a sua génese, na pessoa do seu diretor, ombreando assim, praticamente sozinho, com o peso de todas as responsabilidades inerentes à sua conceção.

“O Combatente da Estrela” chega às mãos de cerca de dois milhares de leitores, mormente para os seus associados, mas também é lido em várias instituições, associações e coletividades. Bate à porta de cada um, quer pela via papel, quer também online.

Para além de textos de opinião, com óbvia incidência sobre a vida e as memórias dos combatentes, histórias e vivências das lutas nas guerras do Ultramar, também as pessoas, covilhanenses de raiz ou de coração, e os factos, têm nas páginas deste jornal, oportunidade de fazer jus ao registo dessas mesmas figuras e desses mesmos factos.

Tudo isto assenta na pedra basilar de que este jornal, pequeno no seu formato mas, paradoxalmente, grande na sua alma, será sempre intransigente na defesa dos caminhos da estrela que guia a Covilhã, onde se encontra inserido, e sua região, e, consequentemente, também nos valores da vida que devem desfraldar na nossa Pátria.

Não obstante as dificuldades económicas que grassam por todo o lado, poderemos pensar, com um aumento substancial de associados, ainda que com sacrifício, de passar a periodicidade deste jornal para mensal. Fica aqui o desafio.

Uma dúvida que pode emergir no que concerne à qualidade de associados, na sua obrigatoriedade, é oportuno que se esclareça que podem ser associados do Núcleo da Liga dos Combatentes da Covilhã, também outras pessoas, de ambos os sexos, independentemente de terem sido antigos combatentes, integrando a categoria estatutária.

No meu caso concreto, eu que cumpri o serviço militar obrigatório, de 16/1/1968 a 20/7/1971, também não fui mobilizado para o Ultramar, e, por conseguinte, não fui antigo combatente, o que não que dizer que não comungue das memórias contadas de familiares, amigos e antigos colegas que combateram nas Colónias, pela Pátria; e, também, não deixe de me interessar, e preocupar, com os efeitos nefastos que levaram muitos antigos combatentes a sofrerem, ainda hoje, física e psicologicamente, a sua passagem pelo mundo da guerra, sob a obrigatoriedade de um regime ditatorial de então.

No entanto, não posso deixar de também sentir que a juventude das décadas de 60 e 70, até ao 25 de abril de 1974, em cujo período me incluo, sofreu ainda em território continental, os efeitos negativos de não poder resolver a sua vida profissional, adequada às suas aptidões, numa altura em que o emprego não tinha as dificuldades como as de hoje, pelo facto das entidades patronais não desejaram assumir compromissos antes da conclusão do serviço militar obrigatório.

E, por vezes, como foi o meu caso, juntávamo-nos no serviço militar, obrigatório, mais que um elemento do agregado familiar.

Ao mesmo tempo, estivemos no serviço militar, eu e um irmão (eu, no Continente, e meu irmão, na Guiné), com as dificuldades inerentes para as famílias. Muitos outros casos análogos existiram.

É, pois, com este espírito de boa vontade, que nos propomos dar continuidade, mais forte, ao jornal “O Combatente da Estrela”.
 

Agradecemos que nos façam chegar as vossas opiniões.
 
(In "O Combatente da Estrela", n.º 95, de Janº. a Maio de 2014)

14 de maio de 2014

CAIXA DE PANDORA

Esta história da mitologia grega é talvez a mais perturbadora. Este mito diz-nos que numa caixa foram fechados todos os males da humanidade, tais como os desentendimentos, as guerras, a violência, as doenças, a discórdia e a injustiça. E é assim que se relata que Pandora foi enviada por Zeus ao reino dos titãs, proibida que foi de abrir uma caixa, que até era mais um jarro, prenda de casamento para seu marido Epimeteu. Não resistiu e, vai daí, abre-a e liberta todos os males. No entanto apressou-se a fechá-la antes que todos fugissem mas só a esperança conseguiu permanecer. É estranho que, neste rol, se encontra a esperança como um dos males do mundo.
Desde então a história da Pandora está associada com fazer o mal que não pode ser desfeito.
Dentre várias interpretações, a esperança está guardada sendo, por isso, bom; duma forma mais pessimista, a esperança está guardada dentro da caixa e a humanidade está sem esperança.
 Outra versão, Friedrich Nietzche diz que “Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a deixar-se torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”.
Ora bem, vindo a propósito a esperança, o Governo criou um “Grupo de Trabalho” para recomendar os investimentos em transportes – ferroviário e rodoviário – até ao ano 2020, gerando no País uma lista de prioridades com custos que ascendem a cinco mil milhões de euros.
E é aqui que se abre uma “caixa de Pandora”, sabido de antemão que não terá aquele valor para investir nas redes de ferrovia, rodovia, portos e aeroportos.
Como é óbvio nestas circunstâncias, terá que haver um forte rigor, é também boa norma de conduta que esse rigor seja visto duma forma humana e não de favorecer mais esta ou aquela região, pois todos são filhos de Deus e respiram o mesmo ar.
É preciso que sobre o Interior, o mais desfavorecido em relação ao litoral, exista uma coesão nacional e, numa vertente de combate às desigualdades do País, haja uma visão dum propósito da democracia, neste grande evento que ainda comemoramos das quatro décadas da esperança de abril.
Mas, o que é certo é que Pandora não conseguiu recuperar para a sua caixa alguns males que afetam esta região da Cova da Beira, e, não obstante “Caixa de Pandora” ter as mesmas iniciais de PPC (Pedro Passos Coelho), ainda que alteradas, continuam em liberdade os males saídos da “caixa”, como tal desentendimentos, injustiça e discórdia, não obstante violências verbais, guerras de bastidores e clima mórbido nas conversações porque não passam de promessas não cumpridas.
Razão tinha um antigo presidente do Vitória de Guimarães que disse: “O que hoje é verdade, amanhã é mentira”.
A ligação rodoviária da Covilhã a Coimbra é uma via de coesão nacional, que poderá ajudar a desenvolver a região, segundo as palavras do presidente da edilidade covilhanense, e reclama, como todos os covilhanenses, de raiz ou de coração, todos quantos na região covilhanense se encontram radicados, IC6 para Coimbra, uma via de coesão “prioritária” e “fundamental” ao desenvolvimento da região.
A construção do IC6 é uma necessidade tão premente, fazendo a ligação da Covilhã a Coimbra, “como de pão para a boca”, ainda nas palavras do presidente da Câmara da Covilhã.
Só é estranho, ou talvez não por ser do partido do governo, que um deputado municipal ainda mantenha reservas sobre esta necessidade, necessidade que é do tamanho da Serra da Estrela. É preferível continuarmos a falar na estrada das Pedras Lavradas, há tantos anos?

Outro assunto de não somenos importância é a arreliadora ligação ferroviária da Covilhã à Guarda, há anos parada, e que não há maneira de o único “mal” recolhido da “Caixa de Pandora” – a esperança – se transformar numa realidade, para grande benefício de que carece também a Covilhã, a Guarda e suas regiões; e não venha a ser uma falsa esperança, como já estamos habituados, e cansados.

(In "Notícias da Covilhã", de 15.05.2014)

13 de maio de 2014

Ó PAPÃO VAI-TE EMBORA!

Era assim que as crianças mais pequenas do meu tempo ouviam de seus pais e avós esta expressão temerosa, para que os meninos fechassem os olhos e o sono chegasse mais rápido.
Depois, a juventude, e os mais velhos, ao longo dum período prepotente de negridão salazarista e marcelista, viu o papão inserido nas forças pidescas. E as mentes mórbidas de pensamento, em cuja patologia só viam que único era só um partido, e único um só pensamento, viam a forma de suprir algum atrevimento através da criação, e difusão, de muitos papões.
Já na minha juventude, e num período em que passei pelo funcionalismo público, fui obrigado a assinar documentos para o ingresso e promoção de carreira, subscrevendo um juramento por obrigação, mais ou menos nestes termos: “Declaro cumprir a Constituição de 1933 e repudiar o comunismo e as suas ideias subversivas”.
Surgiram entretanto os assaltos para a emigração clandestina; e a fugida de alguns cérebros para França, Alemanha e outros países, com o pomposo título de exilados, mais não terão sido que fugidos à Guerra do Ultramar, mandando às favas o serviço militar, com muitos a ocultar o medo do papão e a ter que enfrentar as guerras fratricidas.
E aquilo que muitas vezes era realidade, transformava-se no boato –  e “o boato fere como uma lâmina” – lia-se nuns cartazes expostos nos refeitórios do RI 12, na Guarda.
E “O povo português não está preparado para a democracia, será o caos, tem muito que aprender” era assim a visão tacanha dos senhores do outro tempo, na tentação da perenidade dos papões.
- “Ó papão vai-te embora de cima deste telhado, deixa o menino dormir um soninho descansado”, terá sido a inspiração destemida do capitão Salgueiro Maia, no histórico 25 de abril de 1974, que terá afastado o grande papão e muitos outros papões encapotados do berço de muitos meninos que, entretanto, embora crescendo, crescendo, se foram sentindo muito bem com as canções de embalar.
Talvez por isso, dois meninos, de 10 e 11 anos, nesse desfolhar da aurora de 25 de abril de há 40 anos, de sua graça, “Pedrinho dos coelhos” e “Paulito dos postigos”, respetivamente, embalados por estas canções, um dia se uniriam na memória de virem a ser recriadores do medo, dos tais “papões”.
E chegámos ao fim do capítulo deste livro, cuja leitura já dura três anos, com a ressurreição das “canções de embalar”, insufladas num comovente papão – a troika vai-se embora, mas continua a ficar o papão.
Estamos fartos daqueles dois meninos de outros tempos, homens da (des)governação de hoje, com mais uns quantos outros apaniguados papões, por nos terem cantado tantas vezes as suas canções de embalar; mas, como abéculas que são, nem repararam que não nos conseguem fazer dormir.
E a troika é como a história do papão. Para poupar mais uns cêntimos arruínam-se populações e encerra-se tudo: Finanças, escolas, hospitais, juntas de freguesia, e tantos et cetera.
Pois é, antigamente, havia o império do medo pela coação da força; hoje há também medo, ainda que mascarado na democracia, que muitos querem que perca a dignidade.
A Ministra das Finanças veio dizer que estamos melhor do que há dois anos, entrando na dança do marketing do Governo que integra, mas esqueceu-se que já não há canções de embalar que nos façam dormir, quando a maioria da população está empobrecida e as instituições de solidariedade social, onde se sobressaem as da caridade, estão cada vez mais sobrelotadas de atendimento à fome que grassa em muita gente, gente que já perdeu o medo ao papão.
E os ricos estão cada vez mais ricos numa afronta que explica os dez por cento do PIB que auferiram em 2013. Essas fortunas correspondem a 16,7 mil milhões de euros distribuídos por vinte e cinco famílias.
Palavras para quê? Ó papão vai-te embora, e, de “saída limpa”, leva também toda esta escumalha que está provocando uma sujidade intoxicante neste Portugal à beira-mar quase afogado.

Venha depressa o 25 de maio para que o povo possa cantar, ele sim, a este maldito governo, a sua última canção de embalar e dizer-lhe: “Ó papão vai-te embora!”.

(In "fórum Covilhã", de 13.05.2014)

23 de abril de 2014

RECORDANDO OS TEMPOS DO “ASILO”, NO FERVOR DAS MEMÓRIAS

Como fôra anunciado, realizou-se no sábado, 19 de abril, o almoço-convívio, seguido de visita às instalações da antiga escola primária – “O Asilo – Associação Protectora da Infância” – de antigos alunos, de várias gerações, daquele antigo estabelecimento de ensino, que foi uma referência na cidade dos lanifícios de então.
A alma e mentor da iniciativa foi o antigo aluno, José Alberto Almeida que, em conversa com o seu antigo colega de carteira, o hoje fadista Nuno da Câmara Pereira, decidiram memorizar os caminhos percorridos outrora no Asilo – a sua escola primária e a de muitos covilhanenses ou que aqui se radicaram temporariamente como foi o caso de Nuno da Câmara Pereira.
Complementarmente, o fadista lisboeta, sobejamente conhecido, cuja sua ação no âmbito da solidariedade
para com os mais desprotegidos é muito sensível, e atuante, ofereceu-se para apresentar um espetáculo no Teatro-Cine da Cidade da Covilhã, a título meramente gratuito, em favor da Associação de Deficientes da Covilhã, evento que veio a ser um grande êxito, com a casa repleta de gente.
Estes dois eventos foram distintos, competindo-me
tão só dar a conhecer o retumbante entusiasmo vivido neste grande convívio dos antigos alunos do “Asilo”, com Nuno da Câmara Pereira, espelhado nas memórias vividas de outrora, e na chegada dos “antigos” que éramos cada um de nós. Foi grande, de facto, pela alma de cada um dos presentes, apesar de como que alguma contradição pelo facto de terem participado pouco mais que duas dezenas de antigos alunos, face a sucessivas desistências de última hora. Mas como dos fracos não reza a história e valem mais poucos e bons, eis o que se veio a desfrutar deste encontro-convívio.
À chegada, no ponto de encontro, eram visíveis os rostos risonhos de cada um, ao encontrar antigos colegas da mesma escola, ainda que de gerações diferentes. Contavam-se peripécias dos tempos da escola primária, aventuras de outros tempos, para além das reguadas levadas do professor Poeta, principalmente, do professor Raul, ou de outros.
Chega Nuno da Câmara Pereira e logo faz referência às reguadas que levou do professor Manuel Poeta.
E já o João Nuno Saraiva, durante o almoço, apontava para uma cicatriz na testa, resultante duma pedrada que o atingira, fruto das rivalidade“Os da Escola pediram a batalha; os do Asilo ganharam a medalha”.
s entre escolas daquele tempo, em brincadeiras da rapaziada escolar, envolvendo o “Asilo” e a “Escola Central”, quando solta um brado daquele tempo, de imediato acompanhado pelo Luís Filipe Bonina:
Por vezes atravessavam-se as conversas entre uns e outros, no óbvio de cada um querer memorizar os tempos de meninos e moços.
Chega a hora de se ir ao encontro das memórias do “Asilo”, in loco, já com a chave na mão para abrir aquela porta da rua, estreitinha, dos Combatentes da Grande Guerra.
Uma caminhada, desde o restaurante até à antiga escola, com fotos pelo caminho. Interregno com uma passagem de Nuno da Câmara Pereira pela igreja de S. Francisco para visitar os túmulos de seus antepassados, já que ele é herdeiro da família de Pedro Álvares Cabral, neto na 16.ª geração.
No Asilo, incumbido que eu fôra de fazer uma súmula daquela instituição de prestígio, e das suas memórias, fundada em 9/6/1870; e da sua biblioteca – “a Frei Heitor Pinto” –; foi a vez de o famoso fadista cantar ali um fado, na sala onde levou reguadas do professor Poeta, e de fazer algumas considerações muitos oportunas sobre o campo da solidariedade neste tempo de crise. Seguiu-se uma visita ao pequeno recinto destinado ao recreio e à instrução da Mocidade Portuguesa, com a foto da praxe.
Foi, de facto, um dia inolvidável.

(In "Notícias da Covilhã", de 24.04.2014)

16 de abril de 2014

DE FRASES DOUTAS A HISTÓRIAS LOUCAS

Portugal indubitavelmente a acrescentar aos anais da sua História mais umas páginas de quarenta anos, na génese de um sonho lindo. Paradoxalmente traído, tantas vezes, na adequação de “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.
Atentemos a mais de oito séculos da sua existência. Várias vezes emergiram perigos, ameaças e atos consumados na sua história bonita, convertida de vez em quando nas lágrimas e no sofrimento “duma austera, apagada e vil tristeza”, conforme o nosso Camões.
“A montanha pariu um rato”, quantas vezes, e, mesmo assim, não tem servido de exemplo a muitas cabecinhas pensadoras. Não se destruindo a si mesmos, como nobres de outrora, conseguiram colocar grande fatia da classe média em paralelo com os nossos irmãos da “arraia-miúda” ou “ventres ao sol”, da invenção de Fernão Lopes.
Neste sul da Europa, onde nos integramos, uma fisionomia invernosa; em contraste, o semblante primaveril dos países da vertente norte. Já poderíamos ter respirado dum certo desafogo. As enormes contrariedades por que estamos a passar não existiriam se, ao longo da nossa história, muitos dos principais governantes não se situassem no verso camoniano de “Um fraco rei faz fraca a forte gente”.
Dentre as necessidades prementes de hoje, a justiça portuguesa. Não funciona de forma a resolver os problemas que viraram o país ao avesso. Usos e abusos chegam ao caricato das prescrições. Atos que pedem severa punição. Recorde-se, há mais de 900 anos, o conselho do Conde D. Henrique, no seu leito de morte, a seu filho, ainda de tenra idade. Para o primeiro monarca de Portugal, D. Afonso Henriques: “Se um dia deixares de fazer justiça um palmo, logo ao outro dia se afastará de ti uma braça”.
E “a nós pertence fazer mercê aos indefesos e protege-los contra os poderosos”, é a decisão das Cortes de Coimbra, convocadas por D. Afonso II. Que fique na mente dos governantes deste País, e não daqueles que se arregimentam com a “governação” deste pedaço europeu, que, na expressão de Eça de Queiroz, em O Conde de Abranhos, “O governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa”.
Saímos do “orgulhosamente sós” e da “evolução na continuidade”. Caso contrário, onde estaríamos? António de Spínola e Costa Gomes enganaram-se nas afirmações de que “Haveremos de continuar em África. Sim!” e “Venceremos”, no ano de 1974. Mais acertada foi a expressão do jornalista Eugénio Alves, durante a censura, relatando um jogo de futebol a pensar no Golpe das Caldas, que precedeu o 25 de abril: “Perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra”.
Após a reunião de vassalagem a Marcelo Caetano dos últimos generais leais ao regime ditatorial – “A brigada do Reumático” – já Manuel Alegre no “Pergunto ao vento que passa, notícias do meu país, o vento cala a desgraça, o vento nada me diz”, pôde haurir na sua poesia ao grande dia da libertação – 25 de abril daquele inesquecível ano de 1974.
D’”O estado a que isto chegou”, do saudoso Salgueiro Maia, veio a esperança. O seu indómito entusiasmo levou de vencida todos os escaravelhos que minavam este Portugal. E uma história louca não se concretizou, no Terreiro do Paço. Os disparos das forças do regime, ali, frente a frente, se quedaram.
Nestas últimas quatro décadas muita coisa se passou. A disputa do poder – “Olhe que não, doutor, olhe que não”; “O povo é sereno. É só fumaça!”; em 1975. Uma década depois, “Só fui fazer a rodagem”(1985) e “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas” (1990).
Tempos desarticulados da governação. Muitas estórias pelo caminho de toda esta História de Portugal. Um FMI a ajudar a salvar da bancarrota nos anos 80. Em 2011, a Troika, de grande tormento. Termo do programa de ajustamento previsto para 17 de maio.
E foram Primeiros-ministros de Portugal a conduzir-nos para fobias: o “monstro”, o “pântano” e a “tanga”. Cavaco, com os dinheiros da União Europeia, fez-nos lembrar que “O ouro e os diamantes do Brasil foram a transfusão de sangue num corpo anémico”, conforme Oliveira Martins retratou as contas do reinado de D. João V, onde tanto entrou e tão pouco ficou. Dois outros a fugirem. Um a ser demitido forçosamente pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, fazendo recordar, no século XIII, a deposição de D. Sancho II por seu irmão D. Afonso III, por incapacidade governativa.
Aquilo que jamais se previra algum dia, neste Portugal, aconteceu: Bancos a serem ávidos da cobiça dos senhores da ladroagem. Brada aos céus! Justiça transformada em prescrição!
Basta! Estamos ávidos dum Portugal renovado.

(In "Notícias da Covilhã", de 17.04.2014)

8 de abril de 2014

DO 25 DE ABRIL DESFIGURADO À PRESCRIÇÃO

1 - Quando há quarenta anos vivi a Revolução dos Cravos, como tantos covilhanenses e portugueses, acordados por um sonho lindo, nem sequer passava pelas nossas cabeças que a vida ainda nos haveria de mostrar uma face de grandes dificuldades, por décadas em frente.
Naquela madrugada de quinta-feira tinha-me deitado já um pouco cansado de uma viagem profissional, e preparava-me para, no dia seguinte, uma visita de negócios, quando sou confrontado, de manhã, com as notícias de algo que se passava no País, fora do habitual.
No trajeto para o escritório, a polícia mostrava um semblante muito sério. Chegado ali, e juntamente com o colega, entramos em contacto com os nossos superiores hierárquicos para saber o ponto da situação e a conduta que se impunha. Já havia agitações por vários sítios, durante o dia, e os Bancos encerraram.
Para mim não era assim muita surpresa já que tinha acompanhado algumas reuniões da Comissão Democrática Eleitoral, e, aquando da Revolta das Caldas, naquele sábado da manhã de 18 de março de 1974, vinha eu de fim-de-semana, duma formação em Lisboa, no carro do Humberto Andrade, quando passámos por algumas viaturas militares, em atitude bélica, na zona de Abrantes, o que nos causou alguma estranheza.
Havia vivido 28 anos em ditadura, e terminado há três anos o serviço militar. Tinha uma vida mais desafogada com a mudança de vida profissional, da estatal para a privada.
Na flor da idade, e no entusiasmo da profissão, percorrendo os dois distritos – Guarda e Castelo Branco – com regressos a casa muitas vezes pela madrugada fora, começo por verificar os exageros de quem não estava habituado à democracia, e as vinganças que se traduziam, na força de que “o povo é quem mais ordena”, em mandar para a rua as hierarquias que não se compraziam com a vontade desse “povo” ainda desorganizado.
E surge o Processo Revolucionário em Curso (PREC), Comando Operacional do Continente (COPCON), em Lisboa; uma série de Governos Provisórios donde emergiu um período de grande desestabilização social, com os trabalhadores a ganharem enorme força sindical, na era comunista, com nacionalizações da Banca e dos Seguros, e a fugida de muitos empresários para o estrangeiro. Vem o Conselho da Revolução e uma nova Constituição Portuguesa até que os novos Governos Constitucionais tomam conta do País.
E, neste período de tempo, alguns petizes que mal palmilhavam os caminhos desta Terra de Santa Maria, iam crescendo, crescendo, e viriam a saltar para a ribalta da política, entre jotas, boys e girls, para hoje nos desgovernarem, pós feiras e mercados, beijos e abraços, na “catedral” de S. Bento e suas traseiras.
A integração na União Europeia foi de satisfação mas de imediato os protagonistas da governação não souberam aproveitar as ofertas dos fundos destinados à modernização e logo esfregaram as mãos de tanto rio de dinheiro.
Depois, vai um mundo de corrupção, ladroagem às ocultas e às claras, com uma justiça a não funcionar e a deixar prescrever processos e mais processos, com atitudes caricatas como na comunicação social recente.
Ainda hoje continua a emergir essa revolta – a prescrição –, algumas, propositadamente.
Volvidos 40 anos da Revolução do 25 de Abril, a Revolução dos Cravos, da Esperança, é hoje traduzida por contornos que a desfiguram, no descrédito em quem nos governa, nas atitudes de quem faz troça dos mais fragilizados em todas as vertentes, comprazendo-se com salários milionários, eliminando a classe média, e, numa atroz situação de incompreensível atitude para um humano, em que os mais ricos são uma fatia muito forte do conjunto dos mais pobres.
Quem haveria de pensar que após 48 anos de ditadura e implantada a democracia, num percurso de já quatro décadas, haveríamos de comemorar estes 40 anos de liberdade, numa situação draconiana, depois dum FMI nos anos oitenta, agora uma severa troika, com o choro de muitos, na míngua e redução do seu pão-nosso de cada dia, ao paradoxo dos salários incompreensíveis de muitos que ganham mais num mês que dezenas de trabalhadores num ano.
“Os Rapazes dos Tanques”, de Alfredo Cunha e Adelino Gomes, vem, numa esplêndida imaginação, dar corpo ao momento exato da definição do 25 de abril, como ato consumado em determinado momento, na “hora h”, em que “prescreveu” o tempo do brigadeiro Junqueira dos Reis que obrigara o cabo José Alves da Costa, há 40 anos, a disparar contra as forças de Salgueiro Maia. Se este patriota Alves da Costa tivesse dado ao gatilho, pergunto, onde estaria a data que hoje comemoramos, entre tristes e ledas madrugadas?
2. “Artistas da Nossa Terra”. No número de 25 de março deste quinzenário foi feita menção à “obra inacabada de Manuel Vaz Correia”, onde, segundo o autor, “muitos universitários bebem dos meus livros, para notícias e reportagens, mas não com o intuito de desenvolver a obra”.
Pois bem, como eu também sou um dos nomes que são inseridos na sua obra (2.º volume), a seu pedido de determinada altura, não posso deixar de sentir o meu descontentamento pela omissão da atividade profissional que desempenhei ao longo de 40 anos, lacuna infeliz porquanto foi o maior e melhor tempo da minha vida profissional. Segundo as suas palavras, “O escritor passa e a obra fica, e estou convencido que esta é uma obra que vai perdurar no tempo”; sim, fica a obra imperfeita na parte que me diz respeito, e, a propósito, também o autor foi beber a fontes dos meus livros, alguns elementos, nos seus inseridos.


(In "fórum Covilhã", de 08.04.2014)

11 de março de 2014

“HÃ?”

Palavrinha curta, simples, que sai da boca sem esforço. Com ela se interroga de imediato o interlocutor. Pede-se-lhe para repetir o que disse. Também existem outras palavras que servem o mesmo propósito: “como?”, “diga?”. Depressa que surgiu um hiato na comunicação oral. Existe assim uma falha de compreensão.
- Hã? “Milagre económico” conseguido no nosso país? … Agora que se aproxima o termo do fim do programa de ajustamento da troika, com as severas exigências do seu Memorado, dizem acontecer para 17 de maio, pelo que convém que Cavaco Silva reze a Nossa Senhora de Fátima, como já, noutras alturas, invocou a sua intercessão.
- Diga? Chegou-se ao final de 2013 com um défice previsto de 5% quando se previa uma percentagem inferior. A dívida máxima prevista no Memorando era de 114,9% do PIB e, no final de 2013, foi de perto de 130%. Aumento doido de impostos, ultrapassando mesmo o exigido pela troika, recessão da economia e brutal quebra do consumo. Pessoas e famílias em autêntica penúria aumentando os braços carinhosos das várias instituições de solidariedade social, como são as Conferências de São Vicente de Paulo. E se elas não existissem?
- Hã? Com um segundo resgate fora de qualquer previsão (para já…), com a necessidade de um programa cautelar ou uma saída limpa (mas com mãos sujas de muitos corruptos, chico-espertos e oportunistas), o Governo nem ninguém nos diz quando é que a agressiva austeridade, nas previsões mais otimistas dos estimados governantes, serão atenuadas e chegam ao fim. Talvez para gerações daqui a uma, duas ou três décadas. E com a destruição da classe média.
- Como? O ano 2013 confirmou o fim da recessão em Portugal. Sem euforias, nem pompa e circunstância. Os mais cautelosos saltaram a lembrar que a crise ainda vai caminhando e que o seu fim ainda pode estar distante. O ministro da Economia, Pires de Lima, terá sido o anunciador do que considerou o tal “milagre económico”, talvez imbuído na ideia da intercessão de Santa Rita de Cássia, advogada das causas impossíveis. Não fossem os cérebros portugueses a saírem para a estranja, onde os portugueses são reconhecidos pelo seu Know-how, numa referência como trabalhadores de confiança, Portugal estaria hoje numa situação mais degradante.
- Diga? A recuperação da economia vai demorar uma a duas décadas. Sim, Senhor, são as palavras doutas de José António de Sousa, “para recuperar os níveis de riqueza que se tinham em 2008”. “Estamos agora muito mais pobres do que há três anos e vai demorar muito tempo para recuperar".
- Hã? Portugal, considerado o “bom aluno” da União Europeia. É a convicção de Cavaco Silva. E, com esta de nos vergarmos demasiadamente sobre o fardo da austeridade, nesta barca do inferno a empobrecer-nos cada vez mais, só é de estranhar como é que o povo ainda não escolheu a violência, numa nova Maria da Fonte. Até Xanana Gusmão, líder da resistência timorense, na sua visita a Portugal, disse sentir-se chocado com a situação portuguesa por que a população está a sofrer.
Vamos aguardar por uma saída destas correntes que cercam a nossa casa, ou duma forma limpa, ainda que com a ajuda da mulher a dias; ou com programa cautelar, na lembrança das reguadas dos professores da primária de antigamente, que não faziam mal a ninguém.
Voltamo-nos agora para a Manchester Lusitana de outrora, Cidade Universitária de hoje. Ainda a procissão vai no adro e já vozes escondidas nas redes sociais, onde a cobardia do anonimato é rainha, soltam gritos de Ipiranga sobre ventos ciclónicos a abalar a cidade laneira que foi durante séculos.
- Hã? Como? Diga? Parece que às vezes é o desejo de se ver a terra queimada para depois surgir o D. Sebastião, agora que tem havido algumas manhãs de nevoeiro. E, uns e outros, anonimamente, se digladiam. Isto é do caraças! E, depois, inventa-se o “ Bucha & Estica”, ou o “Sr Feliz e o Sr. Contente”. Ainda que se vejam muitos acidentes com colisões, que é preciso denunciar também, mas dando a cara, há que ter presente o provérbio “Bem o prega Frei Tomás; façamos o que ele diz e não o que ele faz”.

Vamos então responder não só ao que nos desagrada mas também aquilo de que somos acusados. Mas, de fronte erguida. É que há telhados de vidro, lá isso há…

(In  jornal "fórum Covilhã", de 11.03.2014))