14 de outubro de 2014

UM PAÍS ADIADO

Depois do adeus à troika, o recuperar da nossa soberania e poder de decisão independente ainda estão longe.
Continuamos um país adiado e sob tutela apertada, e assim continuaremos enquanto não tivermos juízo.
Segundo se consta, a troika tem um compromisso de nos “deitar a mão” caso as condições dos “mercados” nos obriguem, de novo, a que estendamos a mão à caridade.
Continua a haver fonte de desperdício e de dinheiro mal gasto no setor público, onde ainda não foi organizado.
Dou um exemplo recente, de desorganização, que já vem de anos atrás, e isto no que se refere à distribuição dos excedentes alimentares da União Europeia, da responsabilidade da Segurança Social.
Na Covilhã, das listas de carenciados fornecidas à Segurança Social pelas instituições de solidariedade social, como as Conferências Vicentinas, foram eliminados vários nomes, muitos deles verdadeiramente carenciados, o que causou estranheza nos meios que prestam, num autêntico espírito de voluntariado, um bem às pessoas desprotegidas.
Aconteceu, porém, como vem sendo hábito, que a Segurança Social, instituição pública, acabou por distribuir, a cada elemento das suas listagens de carenciados, quantidades enormes como, por exemplo, duas ou três dezenas de cada género alimentício (açúcar, arroz, massa) a uma única família, o que naturalmente leva a que essa pessoa não consiga consumir tudo dentro do prazo de validade, e não tenha espaço nas suas casas para tanto género alimentício, originando, várias vezes, termos visto nos contentores do lixo quantidades desses produtos deitados fora. Entretanto, para trás ficaram outros que, como já referimos, por estranho que pareça, ficaram sem esses produtos.
Será isto uma boa gestão? Já muitos contestam o trabalho das Assistentes Sociais, que deveriam andar no terreno, em ação profícua, e não nos seus gabinetes.
Entretanto, sobre este assunto, no início pretendiam que fossem as Conferências a fazer a distribuição direta dos produtos oriundos dos excedentes da UE, mas teriam que efetuar um trabalho burocrático, que não lhes competia, e para o qual as Conferências Vicentinas se negaram já que compete à Segurança Social trabalhar, como empregados públicos que são, e não quem tem já tanto serviço de voluntariado a fazer, muitas vezes sem mãos a medir.
Assim, não, não vamos lá.
“Nenhum grupo etário é tão afetado pela privação como as crianças. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, no ano passado, 2,2% dos menores de 15 anos pertenciam a famílias que não lhes garantiam pelo menos uma refeição diária de carne ou peixe e 1,4% não comiam fruta e legumes uma vez por dia. É de gente que salta refeições ou come mal que se fala quando se fala de fome em Portugal”, segundo afirmou Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Diocesana.
Se formos levantar o véu doutras instituições públicas, como alguns serviços de enfermagem dos Centros de Saúde, então teríamos muito para contar.
Outro setor que nos faz um país adiado são os serviços judiciais, com a investigação criminal lenta e má, não conseguindo produzir prova de qualidade, em particular nos crimes de colarinho branco na área financeira, mas não só, o que faz com que muitos criminosos, de todas as cores e colarinhos, se consigam escapar pelas amplas malhas deixadas nas teias da lei para quem tem dinheiro para contratar bons advogados. Advogados cujos sócios “deputados” fizeram as leis com os buracos necessários para os seus conhecimentos conseguirem livrar os seus constituintes.
No entanto, mais recentemente, já vemos alguns tribunais com as suas sentenças em que as elites também já não escapam a mão pesada da Justiça.
Costa Freire foi o primeiro político condenado por atos durante o mandato, decorria o ano 1994. Dez anos depois, Maria de Lurdes Rodrigues é sentenciada a mais três anos de prisão. A Justiça portuguesa, dizem alguns juristas e advogados, segundo o jornal i, começa a ter mão pesada nos políticos e não só. Costa Freire, Isaltino de Morais, Armando Vara, Jardim Gonçalves, Ricardo Salgado e, mais recentemente, Maria de Lurdes Rodrigues, são alguns exemplos de como a Justiça portuguesa não tem olhado a elites ou postos quando em causa está uma condenação.
Esperemos que a Justiça dê o volte-face a esta situação, se bem que existe quem julgue que os banqueiros e grandes agentes económicos, assim como outras personalidades de elite, vão a tribunal em desigualdade com os outros cidadãos.
Há por este país escolas privadas muito caras, e portanto só acessíveis a uma minoria de privilegiados, conhecidas por serem excessivamente generosas na atribuição de notas destinadas a subir médias.
Assim como há universidades privadas sem quaisquer requisitos de qualidade e que oferecem “cursos superiores” sem qualquer interesse prático. O grau de exigência do setor privado deveria obrigatoriamente ser idêntico ao do setor público.
Enquanto não nos dedicarmos de corpo e alma, norteados pelos interesses do país e não pelo umbigo partidário, a estudar em profundidade, com técnicos e não políticos, a liderar o processo e a decidir sobre essas áreas não podemos viver tranquilos em Portugal.
Muito, mas muito haveria que dizer, para que este país não estivesse “entregue à bicharada” e, assim, deixasse de ser um país adiado.

(In "fórum Covilhã", de 14.10.2014)


8 de outubro de 2014

A MONUMENTAL TAÇA “O SÉCULO” GEROU CONTROVÉRSIA NA 2.ª DIVISÃO NACIONAL O ESCLARECIMENTO QUE HÁ MUITO SE IMPUNHA

Muito se falou sobre a forma “confusa” como foi atribuída a Taça “O Século” aos clubes da 2.ª Divisão, a qual acabaria por vir a ser ganha pelo Sporting Clube da Covilhã, com todo o mérito.
Dizia-se que só havia em Portugal duas monumentais taças com esta matriz – uma, ganha pelo Sporting Clube de Portugal (SCP) e, outra, pelo Sporting Clube da Covilhã (SCC).
Após aturadas pesquisas conseguiu-se o cabal esclarecimento, cujas dúvidas vinham ofuscando a transparência da informação.

A história desta Taça começa com a iniciativa do diretor do extinto jornal O Século, João Pereira da Rosa, organizando, em 1938, a “Exposição Histórica do Futebol”, para comemorar os 50 anos do futebol em Portugal e, com a respetiva receita, criou duas gigantescas taças, do mesmo tamanho, a que se chamou Monumental Taça “O Século”, destinando-se uma para os Clubes da I Divisão e outra para os Clubes da II Divisão.
“O Século, ao mesmo tempo que fez a encomenda das duas taças, elaborou um projeto de regulamento das taças, que submeteu à apreciação da Federação Portuguesa de Futebol, tendo merecido a sua melhor aprovação.
O Regulamento é do teor seguinte:
Artigo 1.º - As duas taças “O Século”, oferecidas pelo mesmo jornal, para serem disputadas, uma na I Divisão e outra na II Divisão do Campeonato Nacional de Futebol, comemorando a organização das Bodas de Ouro do Futebol Português, que promoveu em Outubro de 1938, serão disputadas nas seguintes condições:
1.º - Ficarão na posse provisória do Clube que se classificar em primeiro lugar na respetiva divisão do Campeonato Nacional de Futebol, com início na época de 1938/39.
2.º - Cada uma das taças passará à posse definitiva do Clube que ganhar em três anos consecutivos, ou cinco alternados, o Campeonato Nacional de Futebol, na respetiva divisão.
Artigo 2.º - No fim de oito épocas, se nenhuma das taças tiver passado à posse definitiva de qualquer Clube, proceder-se-á do modo seguinte:
a)      Se nessa altura nenhum Clube tiver duas inscrições na taça, será a mesma entregue ao vencedor do Campeonato de 1946/47, da respetiva divisão.
b)      Se nessa altura já houver Clubes com duas inscrições alternadas, na época de 1947/48 serão ainda as taças disputadas nos termos do n.º 2.º do art.º 1.º.
c)       Se até ao início da época de 1948/49, nenhum Clube tiver ganho as referidas taças nas condições atrás citadas, serão elas conferidas definitivamente aos Clubes que forem os vencedores das I e II divisões do Campeonato nesse décimo ano da sua disputa.
d)      Artigo 3.º - Se o Campeonato Nacional deixar de disputar-se, não sendo substituído por outra prova semelhante na qual as taças possam continuar a disputar-se, ficarão elas na posse da Federação Portuguesa de Futebol, com destino ao Museu de Futebol Nacional, quando vier a constituir-se.”

Relativamente aos Clubes da I Divisão a tarefa foi fácil na sua definição. À luz do regulamento, ganhou a 1.ª Monumental Taça “O Século” o Sporting CP porque, de 1938/39 (data do início desta Taça) até ao seu termo (1947/48) não houve nenhum requisito conseguido por qualquer clube primodivisionário.
Os vencedores dos Campeonatos das I e II Divisões foram então os seguintes:
I Divisão: 1938/39 – FC Porto; 1939/40 – FC Porto; 1940/41 – Sporting; 1941/42 – Benfica; 1942/43 – Benfica; 1943/44 – Sporting; 1944/45 – Benfica; 1945/46 – Belenenses; 1946/47 – Sporting; 1947/48 – Sporting.
II Divisão: 1938/39 – Carcavelinhos (ganhou na final ao Sp Covilhã, por 1-0); 1939/40 – Sp. Farense; 1940/41 – Olhanense; 1941/42 – Estoril; 1942/43 – Barreirense; 1943/44 – Estoril; 1944/45 – Atlético; 1945/46 – Estoril;
1946/47 – Sp. Braga; 1947/48 (Sp. Covilhã, ficando em 2.º lugar o Barreirense, com o mesmo número de pontos, 8. O SCC teve 17 golos marcados e 7 sofridos e o Barreirense 13 golos marcados e 7 sofridos, o que o inibiu de subir em favor do SCC).
Portanto, o Sporting, analisado o Regulamento da Taça “O Século”, acabou por ganhar a primeira, ao 10º ano, ou seja, na época 1947/48.
Embora tivéssemos desconhecido que o jornal “O Século” deu continuidade a nova Taça “O Século (penso que só para a I Divisão), o mesmo jornal viria a deixar de instituir este troféu a partir de 1953.
Foi entretanto ganha novamente pelo Sporting Clube de Portugal por ter sido vencedor de três campeonatos seguidos, em 1950/51, 1951/52 e 1952/53 (ganhou também o de 1953/54). Esta segunda Taça é também monumental, com 1,40 cm de altura, sendo que a primeira, igual à que possui o Sporting da Covilhã, tem 1,23 de altura.
Relativamente à II Divisão, nenhum Clube conseguiria ganhar três campeonatos seguidos, como é óbvio, já que subiam à I Divisão. Assim, ganhou a Taça “O Século” o SCC, no 10º ano, em 1947/48, precisamente quando subiu, pela primeira vez à I Divisão Nacional.
Estas Taças estiveram provisoriamente em cada Clube (I ou II Divisões), durante o ano em que ganharam os respetivos campeonatos, e iam colocando uma chapinha metálica, na Taça, com o nome do Clube e época. Portanto, as Taças, quer a da I Divisão, quer a que é pertença do SCC, esteve em poder provisório de todos os Clubes que foram ganhando os respetivos Campeonatos, daí se encontrarem algumas fotografias com esta Taça, como é o caso do Olhanense e do Barreirense.
Alguns Clubes, como o Barreirense (livro sobre a história do Clube pág.s 134 e 135), duma forma errónea, bem gravitaram na tentativa de a obter, face à má interpretação do Regulamento, ou mesmo desconhecimento do assunto que a envolveu.
Aqui fica o devido esclarecimento que se impunha.

(In "Tribuna Desportiva", de 6.10.2014; "fórum Covilhã", de 7.10.2014; e "Notícias da Covilhã", de 09.10.2014)

24 de setembro de 2014

SETEMBRO TUMULTUOSO

Do hábito de guardar muitos apontamentos, recortes e páginas de jornais e demais informação que não consigo abarcar nos momentos próprios, mas que também são as minhas delícias de consulta e memórias, levou-me a um amontoar excessivo de documentação de vários anos, para a já escassez de espaço e facilidade de consulta.
E foi assim que lá foram quatro dias numa de selecionar alguns dos milhares de documentos então reunidos, para continuar a guardar/consultar, indo os remanescentes para o Banco Alimentar, fora as centenas de documentos digitalizados.
É que o vento do aproximar da longevidade também já começa a varrer da memória muita coisa que gostaríamos de transmitir.
No entanto, nuns breves dias por terras de nuestros hermanos, na falta de imprensa portuguesa, lá vai um olhar para o “El País”, de 56 páginas, que, por azar, naquele dia cinco, nem uma palavra sobre o nosso pobre Portugal, apesar de se considerar “El periódico global”. Volto-me para o “La Vanguardia”, de 64 páginas, e dá-se a mesma coisa. Dos desportivos espanhóis que consultei, “Mundo desportivo” e “As”, ambos de 48 páginas, nada sobre Portugal, mas tão só sobre dois portugueses, emigrantes de primeira, Mourinho e Cristiano.
Já em Andorra, um companheiro de viagem – Fernando Madeira – me pergunta se vou escrever algo sobre a mesma. Fiquei satisfeito por saber que é um dos meus leitores.
Chegados ao nosso retangulozinho à beira mar plantado, confirmámos a continuidade, isto é, o nosso mundo em que só alguns portugueses foram para férias. E isto num vasto leque de portugueses insatisfeitos, pessimistas e sem esperança em que 96% acham que a situação económica do país é má. Quer dizer que todos os portugueses descreem no “milagre” económico. É que nenhum país da Europa, nem mesmo a Grécia, tem estes resultados.
Depois, também os portugueses acabam por não acreditar em nada, nem em ninguém, nem na política nem nos políticos. Andam humilhados, desprezados e maltratados, como que culpados por terem emprego, com salários e alguns direitos, e, por o terem, estarem a impedir os desempregados de aceitarem receber uma miséria e poderem ir para a rua a qualquer altura.
Para além de preocupados com o futuro, também o medo de caírem na pobreza, com o desemprego e o custo de vida.
Aquilo que todos desejávamos ver a dar confiança aos portugueses, continua num caos. Falamos da justiça e da educação.
Entretanto, os tribunais já começaram a sair do fundo do túnel, e, vai daí, o Face Oculta vai mandar para detrás das grades (vamos ver, vamos ver…) o transmontano Armando Vara que, azar meu, faz anos nas vésperas do meu aniversário, esse “grande político” que de bancário passou a banqueiro, que possui algumas ordens honoríficas, sendo que sugeria ainda recebesse a medalha de Santa Ana, padroeira dos sucateiros, e de Santa Bárbara, padroeira das tempestades, dos pescadores e dos robalos. E, com ele, o sucateiro Manuel Godinho.
E lá temos o BES que, de BEStial passou a BESta, talvez no “maior escândalo financeiro da história de Portugal”, conforme referiu o economista César das Neves. O que foi “dono disto tudo”, Ricardo Salgado, com a sua reforma anual superior a 900 mil euros, lá estava integrado no 1% da população portuguesa que corresponde a um quarto da riqueza de Portugal. O peso da fortuna dos mais ricos é maior do que se julgava, segundo um estudo publicado em julho no site do Banco Central Europeu. Quanto ao resto, já do conhecimento público, seguem-se as cenas dos próximos capítulos…
Com a saída de Durão Barroso, de Bruxelas, segue para a nova equipa do seu sucessor, como comissário europeu, o português Carlos Moedas, que vai receber o módico salário de 20 mil euros por mês. Entretanto, por cá, o valor das reservas de ouro do Banco de Portugal caiu 31% no ano passado.
Por cá, ainda, os compadres socialistas António Costa e António José Seguro não se entendem, na sua guerra fratricida, na luta de galos pelo poleiro, o que, par mim, é uma vergonha.
E, enquanto neste setembro, no regresso da chuva, continua o mundo em tumultos, com as terríveis consequências que a comunicação social nos faz chegar, desde as decapitações por elementos do Estado Islâmico, às centenas de mortes diárias nas guerras israelo-árabe, Iraque, Rússia/Ucrânia, e outros países, há ainda os empurrados para a morte de imigrantes no Mediterrâneo, a meio caminho entre o Norte de África e a Europa, com, pelo menos, 500 pessoas a perderem a vida, segundo testemunhos divulgados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).
Para alívio do Reino Unido, o mesmo continua unido, com o “não” à independência da Escócia. No entanto, aproveitando a boleia, aí está a Catalunha de olhos bem abertos, e daí, a ver vamos.

(In "Notícias da Covilhã", de 25.09.2014)



9 de setembro de 2014

SILLY SEASON FORA DE MODA

Entre uma agradável semana de férias em terras algarvias com inesquecíveis amigos, irmanados no mesmo espírito de confraternização e recordação dos tempos que quase todos vivemos na nossa meninice, apresso-me a escrever esta crónica tendo em conta que, dentro de algumas horas, tenho a esperança de poder desfrutar de mais um prolongado fim-de-semana por terras de nuestros hermanos.
Os jornais diários foram a minha companhia na procura de notícias que, neste período que dantes era considerado de silly season, hoje, na verdade já não o é, quer dizer, excluindo a “pimbalhada” na nossa RTP e, e até de outros canais que levam ao mais do mesmo, já que eu sou pouco avezado a fazer zapping, principalmente quando sempre que se me depara uma acentuada brejeirice.
Tal como nos últimos quatro anos, também este ano quase que se fez dissipar a silly season. Esta já não é o que era, já que entre demissões de ministros e queda de bancos, de figuras como Vítor Gaspar e Ricardo Salgado tem proporcionado muito trabalho à imprensa.
No verão de 2010, o BPN que fora liderado por Oliveira e Costa, voltou a ser falado com a reprivatização do mesmo, por via dum negócio de escândalo.
Já no estio de 2013 é a vez do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, com críticas e “confissões” apresentar a sua demissão. É então que Passos Coelho, aceitando a demissão do seu “homem forte” se precipita numa crise política, ao nomear como sucessora no cargo vago, Maria Luís Albuquerque.
É aqui que Paulo Portas, líder do CDS, a formar coligação com o PSD, discordante da escolha do primeiro-ministro, vem anunciar, com pompa e circunstância, que irá “irrevogavelmente” demitir-se, o que, contrariando esta sua categórica decisão, não vem a acontecer e é promovido a vice primeiro-ministro. Resultado: os dicionários e enciclopédias vêem-se agora com problemas de significado daquela palavra. Quanto ao restante que se seguiu é já sobejamente conhecido do público.
E para que este período de veraneio não fosse exceção, em junho passado o Grupo Espírito Santo é extensamente noticiado na imprensa por fortes irregularidades nas sociedades que o envolvem. Entre o BES estar fora de perigo, o afastamento do seu líder e sua detenção, e o acabar por cair na desgraça, o Banco de Portugal separa o BES em dois bancos: um banco mau e um Novo Banco. Torna-se assim, pela primeira vez, o custo da operação, na história europeia, com a aplicação da nova legislação comunitária, com notícia em Portugal e no mundo. Nalguma coisa teríamos de ser os primeiros.
E já neste último agosto, o Tribunal Constitucional pega na caçadeira e aplica novo chumbo, o nono, obrigando o governo, acusado de “governar contra a lei”, a fazer um novo Orçamento Retificativo.
E, de verão quente atrás de verão quente, os últimos anos têm vindo a provar que o termo silly season está fora de moda. Tenhamos ainda em conta outros acontecimentos, como foi a chegada da troika a Portugal, em 2011, e as manifestações históricas por este país fora, em 2012, entre outros, pelo mundo fora.
E enquanto o Governo de Passos Coelho bate recorde nas alterações aos orçamentos do Estado; o BES o dividiram ao meio – o Banco bom (Novo Banco) e o Banco mau – entre “espíritos” e “santos”; o Governo continua a ser tão forte com os fracos e tão fraco com os fortes.
É que as quedas do GES e do BES puseram a nu as redes de construção de proteção do poder. Os portugueses já estão habituados aos intermináveis enredos dos processos de criminalidade económica.
A culpa de todos estes pecados será do sistema?
No Jornal de Negócios, João Pereira Coutinho dizia que “os políticos são maus porque os portugueses não exigem melhor”.
Já Manuel Carvalho (“Público” 31.08.14) se referia ao caso BES: “o que há apenas meia dúzia de anos seria um acontecimento catastrófico viveu-se como um incidente da silly season. A desilusão leva à letargia e daqui à resignação e ao conformismo, como se em questão estivesse apenas mais uma etapa do inescapável trânsito pelo purgatório a que nos condenaram”.

Vamos agora assistindo à guerra entre irmãos partidários desavindos – António Costa e António José Seguro, do PS, os quais, nesta geringonça, em vez de robustecerem a oposição para uma alternativa a um Portugal melhor, mais não passam que ser propiciadores de uma certa perplexidade nas condutas que levam à indiferença.

(In "fórum Covilhã", de 09.09.2014)

28 de agosto de 2014

DOS OITO AOS OITENTA

Gerações incomparáveis. A minha é da segunda metade dos anos quarenta. Mas a juventude é da geração de sessenta. A vivência aparentemente mais pacífica de outrora contrasta com o desenvolvimento na agitação dos dias de hoje. Predominância do não saber, e do quase proibido querer saber, daqueles tempos, em contrapartida com o fácil acesso ao meio universitário de hoje. Inexistência de liberdade, mormente de expressão, dos tempos diabólicos em que vivi, em relação a uma certa rebeldia dos tempos de hoje. Uma guerra em que a juventude do meu tempo foi obrigada a ser carne para canhão, à passividade com que os governantes de hoje olham para o passado, do qual muitos antigos combatentes, neste ano em que se comemoram 100 anos da 1ª. Grande Guerra, ainda sofrem psicologicamente os nefastos efeitos da guerra de subversão em que foram forçados a envolver-se, na Guerra do Ultramar: “Para Angola rapidamente e em força!”; “Havemos de chorar os mortos se os vivos não merecerem” (Salazar).
O primeiro filme a cores – Sarilho de Fraldas – com Madalena Iglésias e António Calvário, Nicolau Breyner e Tonicha foi uma forma de tentar renovar o filão da comédia à portuguesa, no ano de 1966, nos meus vinte anos de juventude (a maioridade era então ainda aos 21 anos), para, numa abertura à “civilização”, o então Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, permitir alguns novos ventos na redução do atraso ao desenvolvimento, com a permissão para filmes como “Helga e o Segredo da Maternidade” (para maiores de 21 anos, não obstante se tratar do milagre da vida) que eu vi no cinema Roma, em Lisboa, quando prestava serviço militar, no ano 1969. Um filme equívoco que suscitava a curiosidade de se poder ver a nudez do corpo da mulher, filmado integralmente, coisa rara no cinema de então. E, hoje, o que vemos? Sexo, sexo e mais sexo.
A imprensa, coroada com a chancela “Visado pela Comissão de Censura” era impedida de noticiar a realidade; só o que não incomodava o regime é que servia. E se os jornais “República” ou “Jornal do Fundão”, por exemplo, transgredissem, levavam nas orelhas. Aos sábados comprava na papelaria Ideal da Beira, no Pelourinho, o “Actualidades” que, por vezes, trazia alguns atrevimentos… E hoje, para além das realidades vemos sensacionalismo e mais sensacionalismo; que o diga o sensacionalista Correio da Manhã.
Trabalhei duro desde os meus 17 anos e pendurei as botas meio século depois, sem nunca ter caído doente. Não herdei o meu trabalho ou o meu rendimento. No entanto revolta-me que os nossos (des)governantes nos obriguem a “distribuir a riqueza” do nosso trabalho para as pessoas que não querem trabalhar e não têm a ética do trabalho.
Revolta-me ainda de ver que o governo retira-me o dinheiro que eu ganho, pela força, se necessário, e o dá a vagabundos e a ladrões de colarinho branco.
No meu tempo, as pessoas de prestígio e honestas, mantinham essas qualidades durante toda a vida. Hoje, há que ficar de pé atrás, como sói dizer-se.
In illo tempore os Bancos não faliam, era quase um pecado mortal pensar-se numa situação dessas. Um Banco, uma Autarquia, uma Santa Casa da Misericórdia eram instituições de grande respeitabilidade e assaz confiança. Hoje, já não é assim, pois tudo é vulnerável, tudo é passível de com um ligeiro sopro de vento tombarem, e tombam mesmo.
No meu tempo, os reguladores, como o Banco de Portugal, eram de enorme prestígio. Hoje, colocam-se em causa os governadores, desde Vítor Constâncio até ao atual Carlos Costa, que parecem preferir ver a banda passar. É que, como Constâncio, acabou por acompanhar a banda até Bruxelas, onde passou a ser maestro.

No meu tempo, os erros, ainda que involuntários, pagavam-se caros. Nos tempos que correm, os atletas, artistas, políticos de todos os partidos, falam de erros inocentes, estúpidos ou da juventude, mas todos nós sabemos que eles pensam que seus únicos erros foi terem sido apanhados.
Apesar de tudo, no meu tempo a justiça funcionava e sentia-se receio pela “receita” dessa justiça. Hoje, brinca-se com a justiça e já se diz que a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais está a enviar faxes a alguns tribunais de família e menores, que tinham pedido a indicação de vaga para internar menores recentemente condenados, de que os centros educativos chegaram ao limite e já não têm capacidade para acolher mais jovens que venham a ser condenados por crimes.
No meu tempo, assisti à corrente de emigração para o Brasil, depois para França, Alemanha e Suíça, de todos quantos, de menor instrução e conhecimentos, não conseguiam na sua Terra-Mãe obter os rendimentos necessários para o sustento das suas famílias, muitas delas de agregado numeroso.

Hoje, assistimos ao inverso, são os jovens cérebros, essa valiosa massa cinzenta que, forçosamente, percorre os caminhos dos de outrora, noutra vertente profissional.

(In "Notícias da Covilhã", de 21.08.2014)

A DOR – TAMBÉM É UMA ESTRELA QUE NOS GUIA

Enquanto redijo é encantador ouvir no meu escritório uma chilreada, emanada dum “convívio” de passarinhos sobre a árvore do quintal do meu vizinho. São às dezenas. Também eles têm as suas tertúlias…
Há estórias interessantíssimas das nossas histórias de vida, principalmente naqueles períodos nefastos em que se misturavam sofrimento com ansiedade, tristezas com alegrias, e, por que não, o roçar de algumas revoltas naquele período de juventude que nos fez passar, quase num ápice, de jovens para adultos de barba rija.
E, já agora, enquanto aguardava a minha consulta, no Centro Cirúrgico de Coimbra, fui dando uma olhadela pela revista “Olhares” cujo tema é a dor. Vem a propósito deste meu texto.
A dor é um mecanismo que nos assegura a sobrevivência. É impossível viver sem ela, mas não é preciso viver com ela. A dor de um não é igual à dor do outro.
“Viver sem dor, significa perigo de vida. Por muito que nos doa, precisamos desta resposta ou mecanismo sinalizador, que tem consequências benéficas para o nosso organismo. É este sinal de alarme (dor aguda) que nos avisa que algo não está bem, seja um traumatismo ou uma queimadura. A dor tem esta função de fazer disparar o alarme, protegendo-nos de agressões”.
E, como a nossa vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, nesta perspetiva, trata-se duma passagem muito breve e, por isso, cada momento é vivido em tempo real. Não são permitidos ensaios. Contudo, na generalidade do caso de cada um de nós, convencemo-nos que a vida será melhor depois de acabar os estudos; depois de ter trabalho; quando tivermos um automóvel melhor; sei lá, a verdade é que a vida está cheia de “depois”…
Os obstáculos surgem do acaso e sem esperarmos. Seremos mais felizes se vivermos em pleno os bons momentos que surgem.
“O tamanho da dor é uma experiência sensorial e emocional e cada uma sabe qual o tamanho da sua. Pessoas diferentes sentem e reagem à dor de forma variada. A questão étnica e cultural também conta e, nascer na Líbia ou na Grã-Bretanha, equivale a ter mais ou menos resistência à dor; tal como nascer homem ou mulher”.
Na vida de antigos Combatentes, e mesmo de todos quantos cumpriram o serviço militar obrigatório; longo, em tempo de guerra fria e da chamada guerra subversiva nas então designadas Províncias Ultramarinas, sempre no frenesim de vir a ser-se chamado para a guerra do Ultramar; os acontecimentos passaram também pelas famílias, pois ainda tenho presente, na minha memória, os choros dos familiares, por essas estações de caminhos-de-ferro fora, incluindo apeadeiros que agora já não há, aquando da despedida dos seus queridos filhos, irmãos, sobrinhos, netos, namorados das filhas, e até alguns já maridos, e pais, com o destino do embarque para as Colónias.
Neste apontamento, também não posso deixar de recordar um triste acontecimento com a despedida dum antigo combatente desta cidade, meu antigo colega da escola primária, o Carlos Alberto Garcia da Cruz, num fatídico dia de setembro de 1966 (há quase meio século) na sua mobilização para S. Tomé e Príncipe. Era um domingo e, com alguns seus amigos, entre os quais o Zé Augusto Ferreira e o Valentim (mais tarde também antigos combatentes do Ultramar) havia-se despedido de sua mãe e outros seus familiares, quando, já na gare da estação dos caminhos-de-ferro da Covilhã, aguardando o comboio das 17 horas, é subitamente confrontado com pessoas que acorrem a dar-lhe a infausta notícia de que sua mãe se encontrava muito mal. Residindo perto da estação, o Carlos entra numa louca correria até sua casa (ainda não havia telemóveis), e depara com sua mãe em lágrimas que lhe diz: “Nunca mais te vou ver, meu filho!” E, num ápice, cai e sucumbe. Nesta dor da separação, o Carlos Alberto mais nada pôde fazer que estar presente no funeral realizado no dia seguinte, 2.ª feira, para, na 3.ª feira, partir de comboio para Santa Margarida e, na 4.ª feira, embarcar para São Tomé e Príncipe.
“A dor inútil é a segunda causa de internamento e, em Portugal, afeta mais de três milhões de pessoas. Depois de cumprida a sua função de alerta, a dor não deve ser vivida e, se for crónica, é completamente inútil. É um mecanismo que nos assegura sobrevivência e que serve de alerta, quando é uma dor aguda. Ou seja, com uma duração limitada no tempo e com uma causa geralmente conhecida. Contudo, quando a dor dura mais de três meses e tem causa mal definida ou desconhecida, a dor deixou de cumprir a sua função. O mecanismo de alerta passa a funcionar inadequadamente, porque surgiram doenças que se tornaram crónicas”.
É por isso que os jornais, nos seus textos de opinião, crónicas, páginas ou entrevistas adequadas ao tema, como este, podem e devem ser; para além dum encontro de memórias (que também as há alegres), emanadas das muitas gentes que viveram a Guerra do Ultramar (gentes da minha geração); como que um bálsamo momentâneo pelas marcas deixadas no corpo, e na mente, de muitos sofredores ainda; carne para canhão do satânico período do salazarismo.
É no encontro, crescente em número, em vontade, e em dinamismo, dos participantes em tertúlias e convívios de memórias do passado que se sente uma outra estrela que nos guia, numa almejada camaradagem, geralmente não vista noutros encontros.
Se este tema – a dor – pode ter alguns resquícios de enfado, o que é certo e verdade é que ela também se pode ver através da chamada dor da alma, que é uma outra, para além da física; é invisível aos olhos, abstrata e pode atingir intensidades insuportáveis. Contudo, esta dor nunca deixará de existir, pois ela não existe só no corpo. A dor psíquica facilmente se torna numa dor invisível que transpõe os sentimentos do corpo e atormenta, em surdina, para a qual não há analgésicos. Muitas pessoas consideram que a dor psíquica é mais difícil de suportar do que a dor física.
Vejamos o caso, de há umas semanas, da morte do jovem André Sousa Bessa, filho da jornalista sobejamente conhecida da televisão, Judite de Sousa, que destruiu o coração da sua mãe e certamente da sua vida profissional de excelência. Têm-se visto, na comunicação social, sentimentos profundos de dor daquela mãe. Este é um dos casos mais “emblemáticos” da dor – “Uma parte de mim morreu com o meu André”.
Falando nas várias vertentes da dor, ela não é maior nem menor que a dos outros, não é pior ou melhor que a dos outros, nem é mais ou menos insuportável que a dor dos outros. Não é, de todo, a maior dor do mundo, mas é a maior dor do nosso mundo.

(In "fórum Covilhã", de 19.08.2014)

29 de julho de 2014

DOS OITO SÉCULOS DA LÍNGUA PORTUGUESA À POBRE DIPLOMACIA

Escrevo esta crónica em 23 de julho de 2014, exatamente no dia em que, em Dili (Timor), o Presidente da República e o Primeiro-Ministro de Portugal participam na Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, vulgo CPLP. Mas já lá vamos.
Há um mês atrás, mais precisamente no dia 27 de junho, segundo as narrativas, como agora sói dizer-se, comemoraram-se os oitocentos anos sobre o mais antigo documento oficial conhecido em língua portuguesa, a nível de Estado – o mais antigo documento régio na nossa língua, o qual se reporta ao testamento do terceiro rei de Portugal, D. Afonso II.
Poderia ter sido uma carta de amor, dum príncipe para a sua amada, por exemplo, mas não seria considerado, porque se trataria dum documento, ainda que autêntico, mas de cariz particular.
Mesmo tendo em conta que a data daquele documento é de 27 de Junho de 1214, originando assim o nascimento da Língua Portuguesa, certo é que, como qualquer ser, ele já existe antes de nascer.
Conforme refere José Ribeiro e Castro, “Comparando, digamos, pois, que esses outros textos da nossa língua, coevos ou anteriores – Notícia de Fiadores, Auto de Partilha, Notícia de Torto, Cantigas de poesia trovadoresca – são os “pontapés na barriga da mãe” da nossa língua em processo final de gestação, de afirmação e de ascensão”.
D. Afonso II limitou-se a usar uma língua que já existia e já era usada pelo seu povo, antes de ele a usar também. Aquele documento é já considerado escrito em português e não galaico-portucalense e, além disso, é arredado o latim muito antes de D. Dinis, em 1290, ter tornado oficial e obrigatório o curso e o uso do português.
Santo António de Lisboa (Fernando de Bulhões), que nascera antes do surgimento da Língua Portuguesa, viria a falecer 18 anos depois do nascimento desta mesma língua.
Assumida como oficial, séculos volvidos tem uma enorme evolução, sendo uma das mais importantes línguas globais contemporâneas: a terceira língua europeia global, terceira língua nas Américas, a terceira língua do Ocidente, a quarta mais falada do mundo, a mais usada no Hemisfério Sul e crescente em África. A língua em Portugal representa 17% do PIB. Perante os desafios da globalização, a língua portuguesa é falada em todo o mundo por quase 300 milhões de pessoas.
“A língua que falamos não é apenas comunicação ou forma de fazer um negócio. É uma forma de sentir e de lembrar; um registo, arca de muitas memórias; um modo de pensar, uma maneira de ser – e de dizer. É espaço de cultura, mar de muitas culturas, um traço de união, uma ligação. É passado e é futuro; é história. É poesia e discurso, sussurro e murmúrios, segredos, gritaria, declamação, conversa, bate-papo, discussão e debate, palestra, comércio, conto e romance, imagem, filosofia, ensaio, ciência, oração, música e canção, até silêncio. É um abraço. É raiz e é caminho. É horizonte, passado e destino” (Tribuna Manifesto 2014 - Público).
A língua portuguesa cresceu e modificou-se em caminhos diversos conforme as geografias. Portugal e Brasil manteve uma unidade ortográfica até aos últimos tempos da monarquia portuguesa mas caminhou para uma separação em termos de expressão linguística.
Devido à colonização, África viu-se em dificuldades com o português como língua oficial porquanto, nesse papel, estavam as línguas maternas; e não as do colonizador, com os seus crioulos próprios; outros, as línguas correspondentes a etnias. Os movimentos de libertação africanos optaram pelo português no momento de escolher uma língua oficial devido à necessidade de evitar divisões.
Depois da celebração destes 800 anos da Língua Portuguesa, agora, a pretexto da mesma língua, assistimos a um vergonhoso ato de submissão que a História de Portugal vai registar, através da admissão oficial da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), conforme referimos no primeiro parágrafo deste texto.
Tendo Brasil e Angola estado de acordo, assim como os restantes países de língua de expressão portuguesa, Portugal, conformado à sua pequenez, a fim de não ficar isolado, lá seguiu curvando-se a tamanha desfaçatez.
Não lhe foi possível levantar alto a bandeira da Língua, apesar de alguma resistência do Presidente da República e do Primeiro-Ministro portugueses.
É a diplomacia que temos, “que é, por um lado a diplomacia da concórdia e do apaziguamento e por outro a da subserviência e da permissividade”, de se sentir incapaz de dizer “basta” à farsa de apresentar um rosto “humano” a uma ditadura que só deveria merecer condenação e desprezo.
E, no meio disto, mais interessados estavam todos os outros países em trazer para a Comunidade um novo parceiro, o nono, com o seu petróleo, porque, quando Lula da Silva, então Presidente do Brasil, apoiou a candidatura de Teodoro Obiang, o responsável pelas Relações Exteriores do Brasil lá soube dizer: “Negócios são Negócios”.
Quando é o dinheirinho a cintilar não há olhos voltados para os direitos humanos, sejam lá os países que forem, e as palavras leva-as o vento. Que o digam os ausentes da Cimeira, Dilma Rousseff (Brasil) e José Eduardo dos Santos (Angola). E, até, ironia da história, o ditador Obiang foi levado de início pela mão de Xanana Gusmão e “aceite” sem qualquer votação à custa de um pontapé no protocolo, entrando para a foto de família, obviamente com ele, tirada extraordinariamente, antes de consumada a admissão.
Era tal o forte desejo que Teodoro Obiang entrasse para a CPLP, com estes atropelos ao protocolo, que a vergonha imperou na Cimeira, passando uma rasteira aos representantes do Estado Português. Agora certamente iremos pagar um preço alto que não nos livra do peso da vergonha.
Valha-nos ao menos o Presidente da República que se impôs para que ficassem registadas disposições a cumprir por Obiang no que concerne à abolição da pena de morte e à introdução da língua portuguesa no seu país, disposições a que o homem da Guiné Equatorial se estava a esquivar.

Vamos aguardar pelos novos capítulos desta novela política, que dá para pensar, lá isso dá!
(In "fórum Covilhã", de 29.07.2014)

23 de julho de 2014

DIRETORES DE UM JORNAL

Desde longa data que me familiarizei com os jornais. Mesmo nos tempos de estudante em que nos meus bolsos não havia um único tostão; pois que lá isso de “semanada” nunca soube o que era; nem sequer para tomar uma bica que custava doze ou quinze tostões, conforme fosse no Café do Sporting, no Estrela, no Central, no Café Leitão, no Solneve ou no Montalto.
Mas era na antiga biblioteca municipal, ao jardim, que aí lia os semanários da região (Notícias da Covilhã, Jornal do Fundão e o extinto Beira Baixa), mas também o Diário de Notícias, o Diário Popular, O Comércio do Porto, a Flama, a Vida Ribatejana, uma olhadela pelo Novidades e A Voz, e, sempre que estivesse disponível, a República.
Aos 18 anos (era então funcionário administrativo na Câmara Municipal) deu-me um impulso de começar a redigir o primeiro texto, em Cartas ao Diretor, aproveitando uma qualquer Hermes, Underwood ou Remington disponível nos intervalos do almoço, ou um pouco depois da hora de saída. Ainda não tinham sido inventados os computadores.
O texto já estava feito, era só datilografá-lo, por vezes com alguma curiosidade dos outros funcionários, na sua maioria já fora do mundo dos vivos.
O “Notícias da Covilhã” era ali pertinho, um pouco mais acima, e, vai daí, naquela tarde de 14 de novembro de 1964, dirijo-me a alguém da redação e é então que sou recebido, com grande simpatia, pelo único redator, Alfredo Nunes Pereira. Conversámos sobre a falta de um museu na Covilhã, naquela altura – tema do meu artigo – e, a partir daí, ainda que aleatoriamente, inicio o contato mais assíduo com os jornais. Tinha então iniciado funções como novo diretor, no “Notícias da Covilhã”, o Cónego Dr. António Mendes Fernandes, cumulativamente com a de diretor do Centro Cultural e Social, substituindo, nas duas partes, o Padre José de Andrade.
E é na vontade indómita para a escrita, com a qual sonhava, que vêm a surgir as monografias de duas das maiores instituições da cidade covilhanense, sem nunca largar as teclas das máquinas de escrever, e agora dos computadores, para as crónicas e textos informativos.
Neste âmbito, venho a conhecer outras figuras ligadas à comunicação social e ao meio social, com quem venho a desfrutar de uma amizade, e, nalguns casos, de colaboração assídua nos seus órgãos de comunicação como é o jornal “O Olhanense”, com uma página quinzenal sobre esta região, há vários anos.
Mas embora esteja em contato com os leitores noutros jornais, algumas revistas e boletins, é no “Notícias da Covilhã” que mais tempo tenho dada aos meus textos despretensiosos.
Neste contexto, por duas vezes chegaram às minhas mãos dois livros da autoria de um excelente Amigo, ex-Diretor do “Notícias da Covilhã”, o Cónego Dr. Mendes Fernandes. O primeiro – “60 Anos de Sacerdócio ao Serviço da Igreja e da Comunidade” – foi em 11.10.2006; o mais recente – “Que falta ao Mundo para Viver em Paz, Verdades Evangelizadoras para o Nosso Tempo” – chegou em 07.07.2014.
Este Homem, na sua provecta idade a caminho do centenário, apesar de se encontrar refugiado no melhor Lar que é a sua residência familiar, não suspendeu a caneta (que é um dos símbolos da sua vida), como ele diz.
A leitura deste seu livro (o último de uma vasta obra) levou-me a uma suave pausa na meditação do que escreveu, denunciando com frontalidade tudo o que se passou e passa neste nosso país empobrecido, mas também de pobreza pelos valores da vida.
Várias citações de autores, nesta sua obra, e outras expressões suas, são de uma profundeza espiritual que a um católico, como eu, deu prazer ler, num momento em que nos embrenhamos em muitas coisas, atendendo a várias solicitações às quais, por vezes, não podemos, ou não queremos, dizer não.
E, de facto, como cita, “É a paz que liberta o homem da sua condição de escravo e lhe dá o título de livre”. Depois: “Plantar e enraizar a paz é obra de Deus, arranca-la da raiz é obra do inimigo”. “Mas todos nós sabemos que os últimos dois séculos foram os mais sangrentos de toda a história. Em muitas nações desceu-se o último degrau da desumanização”. Não é o que se está a passar com estas mortes na Palestina e na Ucrânia?
E é assim que refere ainda: “Todos os humanismos baseados em filosofias que absolutizaram o finito e eclipsaram o infinito (Deus), faliram estrondosamente depois de terem provocado as maiores tragédias e convulsões sociais”.
Muito haveria a comentar sobre este interessante livro mas não quero deixar de referir, sobre uma leitura que faz de vários Papas, a influência que teve João Paulo II, seu grande admirador, e de todos nós, no acordo do desarmamento nuclear assinado em 08/12/1987 por Mikhail Gorbachev, onde interveio o presidente polaco Jaruselski, abrindo assim a possibilidade de uma coexistência pacífica entre o Leste e o Ocidente.
Quase por último, mais esta citação no seu livro: “Não esqueças – Jamais serás arrogante com os humildes mas também não sejas humilde com os arrogantes”.

Termino do muito que haveria a dizer da sua obra, e que serve para inspiração de outros textos, esta também sua inspiração sobre Nossa Senhora: “Se o mar que por todo o mundo se derrama – Tivesse tanto de amor como tem de água fria, – O seu nome não seria mar – Seria MARIA.

(In "Notícias da Covilhã", de 24.07.2014)

8 de julho de 2014

A PROSTITUTA, O CORRUPTO E O PIB

Nunca se falou tanto em prostituição e corrupção como nos últimos anos deste século XXI.
A primeira diz-se ser a profissão mais velha do mundo, pois já existia antes de Cristo. E até terá dado origem à primeira publicidade do planeta. Recordo-me, numa viagem pela Turquia, nos anos 90, algures que já não memorizo, de ver uns sinais alusivos ao sexo, gravados no chão sob granito, que ali permaneciam preservados há séculos, indiciando que, ali perto, existia uma casa de prostituição. Daí, a primeira publicidade que terá sido conhecida.
Mas, o homem corrupto emerge às mãos cheias, quando menos se espera, e, muitas vezes, donde menos se contava vir. Ele tanto é o bem-falante, o de falinhas mansas, o altivo, como o cara de santinho. Neste país de chicos espertos como de otários, não há como andar sempre desconfiado, desconfiado, sim, porque já não há palavra (salvo honrosas exceções) que faça lei, como se procedia religiosamente noutros tempos.
Os jornais estão cheios de casos, que já não causam estrondo, e que, no âmbito da corrupção, levam uma infinidade de tempo para se solucionarem pela fragilizada via judicial, um dos grandes problemas que Portugal enfrenta. E é vê-los sob fiança, pulseira eletrónica ou prisão domiciliária quando deviam estar devidamente presos.
Não é preciso se dissiparem por lugares sertanejos, em pouco conhecidas vilas ou aldeias, ou por pacatas cidades deste país, porque eles surgem perto de nós, nos ecrãs televisivos ou páginas de jornais (sem ser necessário no “Correio da Manhã”), numa foleirice institucionalizada, alguns dos quais num ardente desejo de serem chamados por doutores, engenheiros, poetas ou escritores.
E entre a que vende o seu corpinho e o que sonega e “endossa”, com ardil, para as suas algibeiras, o que é do erário público, assim vai Portugal vivendo. Este Portugal que acata sem discussão o que a União Europeia decreta, passando as estatísticas nacionais a acrescentar ao valor do Produto Interno Bruto (PIB) a riqueza produzida com atividades de prostituição, tráfico e contrabando. Neste contexto, o Instituto Nacional de Estatística avalia que a ideia, a aplicar a partir de setembro, valerá 700 milhões de euros. Chegou-se à conclusão que, para Portugal, o benefício será de 0,4%.
Nesta “genial” imoralidade, em que na receita da prostituição está sendo tido em conta também o tráfico de droga (e de tabaco, não?), transformam um roubo (o tráfico de cocaína, por exemplo) em receita. É de bradar aos céus, como já se pretende trabalhar oficialmente com dinheiro criminoso de lucros ilegais. E não será assim que se poderá fomentar o tráfico de crianças e mulheres, ao invés de o combater eficazmente, criminalizando-o?
Pois é, um dia destes, no preenchimento de algum formulário para qualquer ato oficial, aquela que é considerada a profissão mais velha do mundo já poderá, na pessoa da mulher, escrever-se “trabalhadora do sexo”. E será vê-las nos centros de saúde e consultas hospitalares a indicarem aquela como sua natural profissão, e, sabe-se lá, “publicitando” no imediato e in loco a sua “atividade profissional”.
O “Público”, de 15 de junho, referia que “a inclusão do dinheiro do tráfico de droga e da prostituição nos cálculos do PIB não suscita oposição. Mas falta permitir que as prostitutas se coletem nas Finanças e debater a criação de circuitos legais para drogas leves”. É que, já em 12 do mesmo mês, se referia, em parangonas, que “Sexo e drogas aumentam o PIB – As atividades e negócios ilegais, como a prostituição e contrabando, vão aumentar a riqueza nacional em 640 milhões de euros. O INE calcula o valor da economia paralela em 20,8 mil milhões. Cerca de 13% do PIB tem a ver com a chamada economia não observada”.
Para onde vai esta (des)União Europeia? As prostitutas a serem consideradas como “trabalhadoras do sexo”? Não! Um dia poderemos vir a ter umas quantas Cicciolinas na Assembleia da República. Como eu ando enganado, pensando que, afinal, já não é nenhum objetivo civilizacional acabar com a prostituição!
Voltando à corrupção, como é que banqueiros envolvidos em evasão fiscal e manipulação de contas não são impedidos de exercerem atividades na banca?
Como é que um antigo comandante da Proteção Civil tem o arrojo de se gabar na comunicação social de ter podido gastar 80 milhões sem prestar contas?
O que é que vai acontecer aos médicos que foram apanhados a trabalhar em vários locais à mesma hora, ou seja, em hospitais privados e, simultaneamente, a mamar o dinheiro de todos os contribuintes? E as fraudes nas farmácias?
Pelo que tenho que concordar com José Saramago quando disse que “Em Portugal, não há direita, não há esquerda, nem há centro, há sim um grupo de salafrários que se alternam nos governos, para ver quem rouba mais”.
E, nesta repulsa pelo que se passa no nosso País, lá está o eterno Eça de Queiroz, sempre atualizado como a bíblia dos nossos dias, quando, no meio desta bagunça, há sempre alguém que sofre, e, por isso “em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.

(In " fórum Covilhã", de 08-07-014) 

25 de junho de 2014

GESTÃO DE TALENTO

Domingo, segundo dia do início do verão deste ano do mundial de futebol no Brasil, e também do segundo jogo de Portugal, neste mundial, com os Estados Unidos, cujo resultado verificado, já em dia de segunda-feira, é o prenúncio do regresso a casa; ano também da saída dos invasores “troikanos”, na voluntariedade portuguesa; dos cortes e recortes salariais, dos milhões de impropérios com que as gentes das nossas gentes já brindaram os nossos governantes; mas, também o lado bom do que se passa na minha rua – uma rua covilhanense.
Desço a Mateus Fernandes, e, quando regresso, já com o “Público” na mão, vou lendo as mais gordas e a crónica do Vasco Pulido Valente. A capa já nem aterroriza de tão atordoados que andamos – “Mais 311 escolas do 1.º ciclo vão fechar no próximo ano letivo”. Ainda que os meus netos tenham sido uns ases, não posso deixar de meditar nos outros meninos e meninas, deste País, que os querem descalçar.
No princípio da crise ouvia dizer que a mesma é uma forma de gerar oportunidades. E, alguns, muitos, dezenas, centenas, talvez milhares, podiam fazer das tripas coração, como sói dizer-se, e não entrar num desespero à espera que o estado-providência viesse ao seu encontro, talvez num vício do passado preferindo ver a banda passar.
Se na Covilhã há empresas, que aqui se geraram e são um sucesso geracional, também na minha rua dá gosto ver a dinâmica de dois comércios tradicionais, numa força indómita contra a crise, na alegria do trabalho que é sustento dos que ali trabalham.
No inverso, vamos encontrar outras ruas da minha cidade repletas de estabelecimentos encerrados, alguns ainda com artigos amarelecidos no seu interior, pelo abandono, na tristeza do que outrora era a alegria de um rodopiar de entradas e saídas, quando o metro, em madeira, e o peso em balanças Avery eram o suficiente para dar aviamento à clientela, em vez das novas tecnologias de hoje.
Mas a modernidade é sinónimo de progresso, o que não equivale a mais mão-de-obra, e os novos tempos, numa globalização imparável, jamais podem ser refutados no seu acompanhamento se quisermos andar no pelotão, já não digo na sua frente, mas sem o perder. Até já há três portugueses que figuram entre os 705 candidatos que passaram a segunda fase do processo de seleção do Projeto Mars One para uma viagem sem regresso a Marte em 2025.
Quando entrámos na então CEE-Comunidade Económica Europeia, no 1º de janeiro de 1986, já então se insistia nas vantagens e nas exigências em irmos pertencer a um grupo de elite. Uns marimbaram-se para o assunto; outros começaram a compreender que as exigências da formação já não eram questões de patronato. Recordo-me de um dia, na Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, dirigindo-me para a sede da empresa de que eu era um dos funcionários externos, um vendedor ambulante, de fruta, tinha um papel colado no seu carrinho, a letras garrafais, que dizia: “Cerejas da CEE” – talvez sem saber porquê, mas já num sentido de viragem para a qualidade.
De acordo com o Relatório do Capital Humano do Fórum Económico de 2013, “constata-se que, no indicador “Capacidade de reter talentos”, Portugal ocupa a posição 111, entre 148 países, o que demonstra a relevância deste tema e a necessidade de proceder a uma análise do porquê desta situação, dado tratar-se de um indicador fundamental para o desenvolvimento do país”.
Existe já um grupo de empresas fundadoras da iniciativa “Like Portugal”, “um movimento privado que pretende comunicar e promover Portugal como um País para Crescer e Investir. Trata-se de um projeto independente da sociedade civil, cujo motor são as empresas, e que tem como objetivos trabalhar e promover a imagem de Portugal nos mercados externos e, dessa forma, contribuir para o esforço nacional de captação de investimento estrangeiro e de dinamização da economia nacional.
Felizmente que ainda há empresas em Portugal, com ramificações também nesta região beirã e na minha cidade – a Covilhã – com homens e mulheres que são duma extraordinária capacidade de liderança e de sentido de alterar o rumo daquele que foi pessimismo, para um ambiente altamente alegre no trabalho, apesar da crise, crise também de valores.

Dou, como exemplo, uma multinacional que alterou o nome do seu departamento de Recursos Humanos, como geralmente existe na generalidade das empresas, para Gestão de Talento. E refere o seu CEO: “Na nossa Casa, decidimos alterar esse nome que consideramos nefasto, porque achamos que um Humano não é um recurso, é, sim, um Ser Humano. Um Ser Humano gere recursos, não gere Humanos como sendo um recurso!”
(In "Notícias da Covilhã", de 26.06.2014)

10 de junho de 2014

REINSTITUIÇÃO

O Brasil é agora a forma de darmos brado ao nosso patriotismo, no amor aos símbolos pátrios, que, desenganem-se, não são a Bandeira e o Hino Nacional, mas tão só, agora, a Seleção Nacional e Cristiano Ronaldo.
Portugal que, para nossa infelicidade, dos nossos filhos e dos nossos netos, continua a não ser livre de tomar as decisões que quer e a conduzir os seus destinos como deseja, não obstante ter passado já o famigerado 17 de maio de 2014, fim (?) da incómoda troika e que, na versão metafórica de um governante do momento chegou a considerar aquela data um novo 1640, penso que é chegada a hora de todos nós nos assumirmos no sentido de nos livrarmos do jugo dos infiéis.
E esses “infiéis” estão infiltrados e disseminados por todos os lados, e por várias formas, num sofrimento, latente para alguns homens e mulheres do trabalho, ou, sem ele, aos milhares dos que o procuram; mas de raiva na grande maioria, e são aos milhares, neste Portugal de uma dezena de milhões de habitantes, por enquanto.
A classe média, quase transformada na “arraia-miúda”, grita, com a sua honra, contra tantos néscios, numa de fartar, vilanagem! É preciso que os “ventres ao sol”, em que nos quiseram transformar, venham exigir a reinstituição de Portugal.
Já se profetiza que Portugal poderá ficar reduzido a 6,3 milhões de habitantes em 2060. Nos dias que correm, ainda com mais uns milhões de pensantes, não se encontram alternativas que não sejam quase duma república das bananas, onde não há respeitabilidade por órgãos de soberania como é o Tribunal Constitucional. Com o contributo pensante de cada um, por que não exigir, até à exaustão, decisões governativas, ainda que dolorosas para alguns senhores detentores ou candidatos ao poder?
Em primeiríssimo lugar urge que todos, mas todos os homens e mulheres da política portuguesa, destacados nos mais diversos lugares, quer do governo, quer da presidência da república, quer das autarquias, assumam um compromisso de honra, não no papel mas nas suas consciências, de que vão desempenhar os lugares tão só para servir o povo e não para se servirem, como na generalidade tem surgido.
Neste contexto, é imperioso que aceitem ser fiscalizados permanentemente sobre os seus ganhos no início do desempenho das suas funções políticas, e, depois, no final, sujeitando-se aos valores salariais e de representação estipulados por lei. Um levantamento minucioso a todos os que ocuparem cargos políticos, quer central quer local, conhecendo o seu património antes e depois dos mandatos.
Que os mesmos sejam terminantemente proibidos, sob pena de serem alvo da justiça, e de anulação dos contratos, de integrar nos seus gabinetes, dos vários ministérios, câmaras municipais ou autarquias, familiares ou protegidos, sendo obrigatório, para o efeito de casos verdadeiramente necessários e imparciais, de que sejam previamente do conhecimento público, que se pronunciará sobre o assunto, pelas vias consideradas normais.
Que se eliminem muitos excessos nos quais nenhum governo de Portugal quer mexer, num mau exemplo comparativamente a outros países europeus, e não só, com mais poder económico e muito menos despesas, destacando, por exemplo:
- Reduzir o número de deputados de 230 para 180;
- O deputado deveria receber salário somente durante o mandato (limitado a duas ou três legislaturas). Não haveria direito a “reforma pelo tempo de deputado” mas tão só contar o prazo de mandato exercido para juntar ao seu tempo de serviço, como qualquer normal cidadão;
- Manter um teto salarial, em termos de pensões, para um máximo de 5.000 euros mensais, para todos os pensionistas, independentemente da sua atividade, e dos seus ganhos no ativo, quer de uma só atividade ou do somatório de várias atividades ou reformas;
- Proibição de salários exagerados para contratações de assessores dos gabinetes, sem experiência e sem que haja prova convincente da sua real capacidade para o desempenho da tarefa e o correspondente salário, que deverá ter um teto máximo;
- Forte rigor nas despesas de representação e de viagens em serviço, devidamente controladas, quer em Portugal quer no estrangeiro;
- Grande rigor na quantidade de assessores quer da presidência da República, quer do Primeiro- Ministro, Ministros e Secretários de Estado;
- Acabar de vez com a diferenciação, na assistência na saúde e na doença, assim como nos cálculos para a aposentação, incluindo no setor bancário, de uns terem tratamento como filhos  de Deus, e outros filhos do diabo; isto pressupõe que terão que se harmonizar os meios para que os menos beneficiados se aproximem dos que beneficiam de melhores condições;
- Eliminação pura e simples dos gabinetes com despesas evitáveis e mordomias, como motorista e outras, aos ex-presidentes da República, que deveriam, tal como atrás referi, usufruir do teto máximo de pensão mensal, como qualquer cidadão, e caso já estivesse na data legal para o efeito; assim como proibir a entrega de veículos para presidentes e assessores das edilidades, e, pura e simples proibição de pessoal, como motoristas privados.
Muito, mas muito mais haveria a constar do rol de exigências para se reinstituir Portugal, como a revisão urgente do Código Penal, impondo agravamento das penas, sem contemplações, em muitos dos crimes, obrigatoriedade na celeridade dos processos judiciais; proibição da prescrição das penas e punição exemplar para todos os homens e mulheres da justiça que propositadamente usarem de subterfúgios para a morosidade e ocultação dos crimes.

No que concerne à saúde, a defesa intransigente do Serviço Nacional de Saúde, e reposição de tudo o que foi retirado em prejuízo dos doentes.

(In "fórum Covilhã", de 10.06.2014)

28 de maio de 2014

COMO ALGUNS RESSUSCITARAM

Por todo o planeta vamos encontrando relatos de acontecimentos algo estranhos. Para os dias que correm, quase não é surpresa. Noutros tempos, pelas bandas de cá, se não era conveniente a notícia, abafava-se.
Há algum tempo o Daily Mail informava que um homem do Mississippi, nos Estados Unidos, foi dado como morto e já estava na morgue, quando se descobriu que ainda respirava. Já se encontrava dentro de um saco, na morgue, quando os funcionários o viram a mover-se e descobriram que afinal estava vivo. Os médicos acreditaram que o pacemaker lhe parou, tendo voltado a funcionar algumas horas depois. William, o “ressuscitado”, viria a afirmar sentir-se feliz por ainda estar vivo.
Também na China, um bebé declarado morto, escapou da cremação ao chorar. Salvou-se assim de ter sido cremado vivo. O certificado de óbito foi passado e o bebé, do sexo masculino, foi enviado para uma funerária, tendo os funcionários da empresa ouvido a criança a chorar.
São notícias de um horror tremendo mas não pensem que isto só se passou nos outros países e continentes.
Por cá, neste Portugal de outros tempos, como também de hoje, situações se contaram que merecem uma profunda reflexão. A forma como algumas pessoas são consideradas já falecidas, na negligência da sua autenticidade, é arrepiante. Como o caso que conto abaixo. Para além de outros, do conhecimento público, inseridos na comunicação social, objeto de vias judiciais. Também sabemos que, em hospitais e lares de terceira idade, por vezes coisas se passam, de menos atenção com aqueles que, já de tão fragilizados nem se sabem queixar, originando o dormir para um sono eterno. Todavia, existe uma aparente contradição de sorrisos e formas de trato, na frente dos familiares.
O Jorge, anualmente participa comigo na confraternização dum grupo de casais amigos, recordando velhos tempos da meninice e juventude. É um bom amigo. Nos anos sessenta teve um grave acidente automóvel, quando viajava num mini cooper, juntamente com mais quatro colegas militares, a caminho da unidade militar. Ele ia à civil e os seus colegas fardados. A notícia repentina surgia nos jornais (ainda não havia Internet nem as novas tecnologias): “Um grave acidente automóvel, do qual resultou quatro militares gravemente feridos e um civil morto”.
O Jorge (o “civil morto” mas ainda vivo) foi levado para a morgue e a família já se preparava para o luto quando alguém, que ia levantar o “cadáver”, vê cair-lhe o braço do corpo e, na observação imediata, constata que o morto, afinal, estava vivo.
Vamos a outras formas de “ressurreição” dum desaparecido, ainda que seja um palito importante e, por isso, a necessidade dum exército, de polícias, para ver se se encontra o dito cujo, que, pela sua óbvia dificuldade, é como encontrar uma agulha no palheiro…
Manuel Baltazar , o Manuel “Palito” fica nos anais da justiça à portuguesa  por ser como que um Tarzan ou um Robin dos Bosques, conseguindo fugir à Polícia Judiciária e à GNR, depois de ter matado a sogra e uma tia e ferido a ex-mulher e a filha. Resistiu à perseguição destas forças a pé e a cavalo, durante 34 dias.
O que é estranho é que este foragido consegue colocar no ridículo as forças de segurança que, não obstante tantos meios empregues para o “caçar”, e a quantidade de elementos na sua busca, é ele próprio que se dirige a sua casa, onde dormiu e tomou banho, quando se apregoa que a PJ é uma polícia do melhor que há no Mundo e a GNR que ombreou em operações internacionais desde o Iraque a Timor, passando pelo Afeganistão, profissionais treinados para enfrentar sem medo terroristas experimentados. Isto é a força policial do nosso País, agora colocada a ridículo, neste Portugal profundo.

E se a GNR, enquanto andou à procura do palito pelas matas do imenso território de São João da Pesqueira, tivesse também sido incumbida, como os agentes da PSP, em Lisboa, de participarem na preparação para a criação duma mega bandeira nacional para o 10 de junho, de tampinhas recicláveis, então, ainda hoje o ressuscitado Manuel “Palito” podia ir passeando pelos arredores até à sua casa.

(In "Notícias da Covilhã", de 29.05.2014)

19 de maio de 2014

“TRIBUNA DESPORTIVA” - SEMANÁRIO DESPORTIVO REGIONAL DE ELEIÇÃO

Duas décadas a manter-se de pé, sem interrupção, ao serviço do desporto regional, é obra! Sim, Senhor, incontestavelmente, entre ventos e marés, a “Tribuna Desportiva” tem sabido granjear a simpatia e aderência dum público de afeição pelo desporto desta região da Beira Interior.
Tive o prazer de, nos seus primórdios, ainda que duma forma efémera (anos 1995 e 1996), ter podido colaborar nas suas páginas, com os títulos “Ao Virar da Página” e “Vultos do Desporto d’Outrora”.
Mas o que me trás a este apontamento não são as memórias, e muito menos qualquer saudosismo retrógrado, mas tão só a justiça que é de enaltecer, em tempos de forte crise, o trabalho de excelência dos obreiros deste semanário, reflectida nos seus 1000 números atingidos na última edição, sendo, desta forma, indubitavelmente um semanário de eleição.
E afirmo-o categoricamente, porque são os homens da pena, ou melhor, da gravação in loco, nos eventos, e da máquina fotográfica, na objectiva da oportunidade, da ”Tribuna Desportiva”, como também na pessoa do seu director, Pedro Martins, que, não abandonando precocemente o local desses mesmos eventos, quer sejam encontros desportivos quer assembleias gerais, por exemplo, quer ainda várias celebrações comemorativas, conseguem dar notícia global do que ali se passou. É que, quando, por vezes, decisões importantes ou curiosas ficam para último, na sua generalidade outros órgãos da comunicação social já deram o fora porque lhes bateu à porta o enfado do prolongamento para além do desejável. E, assim, notícias marcantes ficaram omissas ou no segredo dos deuses.
E é nestas situações comportamentais, em termos de estar com a notícia global, que se proporcionam as futuras pesquisas para as estórias que vão inserir-se na história.
Depois, é todo o mundo de resultados e os comentários possíveis de todas as categorias de encontros, das várias modalidades, de âmbito nacional repercutido nesta região, ou distrital, “dando voz a todo o desporto do distrito de Castelo Branco” e a “todo o desporto da Beira Interior”.
E é pela leitura do futebol juvenil que muitos, como eu, vão buscar as informações que desejam dos seus “meninos” e também o gosto de ver noutras modalidades, como o atletismo, os nomes dos filhos e netos, algumas vezes nos respectivos pódios.
Por outro lado, também alguma frustração (mas disso não tem culpa a “Tribuna Desportiva”) ao ler resultados de golos sofridos, num total de 152, contra 13 marcados..., mas isto é que é o fidedigno da informação.


Aqui fica o meu apreço com os votos de longa vida ao serviço do desporto regional.

(In "Tribuna Desportiva", de 19/05/2014)

17 de maio de 2014

MONUMENTO AO SOLDADO DESCONHECIDO


Pensava eu que este monumento, que perpetua sentimento de homenagem aos Mortos na Grande Guerra e no Ultramar, como também é conhecido, de naturais do Concelho da Covilhã, era propriedade municipal.

Por informação do Presidente da Direção da Liga dos Combatentes do Núcleo da Covilhã, vim a saber que o mesmo é património da Liga dos Combatentes.

E isto a propósito de mais uma vez ter sido objeto de vandalismo, no mês de março, com danificação de uma das placas retangulares, em mármore, onde se encontram inseridos os nomes de falecidos em combate, de militares do Concelho da Covilhã; e também do furto de uma das duas esferas armilares, em mármore, que encimavam as extremidades do monumento.

Estes atos são geralmente praticados, sob efeito do álcool, por uma juventude que deveria ser exemplo por força de se encontrarem na cidade empenhados na formação académica para um futuro melhor mas que, lamentavelmente, a ocultas das autoridades, que quantas das vezes não estão no local certo à hora exata, danificam património. São uns quantos que, mais tarde, já sob a responsabilidade de lideranças em instituições, vêm a ser, eles próprios, a condenar tais atos.

Os excessos de práticas que nada condizem com os bons costumes, e certamente com a educação que trouxeram de suas famílias, deveriam ser, sem apelo nem agravo, condenados com sanções que fossem exemplares, logo que detetados.

Este monumento esteve inicialmente colocado no Largo 5 de outubro, aquando da sua inauguração em 15 de junho de 1930, pelo então Presidente da República, General Óscar Carmona.

Nos finais da década de 50 do século passado foi mudado para junto do Jardim Municipal, na Avenida Frei Heitor Pinto.

Estas habituais danificações nas partes mais sensíveis do monumento situam-se na parte em mármore que foi acrescentada e inaugurada em 23 de outubro de 1999 pelo Presidente da Liga dos Combatentes, General Baltazar Barroco e pelo Presidente do Município Covilhanense de então, Carlos Pinto.

Este monumento teve origem nos atos de bravura desempenhados pelos militares do então Regimento de Infantaria 21, sediado na Covilhã, na linha da frente, na Batalha de La Lys, na Flandres, durante a Primeira Grande Guerra, e também em Moçambique.

Logo que terminou a Grande Guerra, decidiram memorizar os combatentes do Concelho da Covilhã, que na mesma lutaram com coragem e valentia, e construir um monumento em memória dos soldados que nela faleceram, e dos que nunca se conheceu a nacionalidade ou família, a que se designou “Soldado Desconhecido”.

Este vandalismo sobre o monumento ao Soldado Desconhecido não é só de agora. Recordo que já em 15 de janeiro de 1965, já lá vai quase meio século, publiquei no “Notícias da Covilhã” uma gazetilha alusiva a um pequeno ato de vandalismo que consistiu na quebra da baioneta da espingarda do Soldado Desconhecido, a qual, depois de novamente colocada, continuou a ser alvo, por várias ocasiões, da sua danificação.

E assim me expressei:

 

O SOLDADO DESCONHECIDO

Passeava p’lo jardim,

Ao cheiro do alecrim,

Entoando canções não alheias,

Um garoto das nossas aldeias.

Vê em pedra uma figura!

Com uma tal estatura,

Olha em frente,

Depois ri e diz p’ra gente,

Com uma tal gargalhada:

“Partiram o cano à espingarda…”

Já outros o terão contemplado,

Pois isto há tempos foi passado,

Mas ainda agora,

O Soldado espera a hora

P’ra que seja tratado…

Terá ou não razão,

O rapazito em questão?

                                         J.J. Nunes
 
(In "O Combatente da Estrela", n.º 95, Janeiro a Maio de 2014)

VAMOS FALAR DO DESPORTO CITADINO, E NÃO SÓ


É indubitável que o desporto é uma das formas de passar, duma forma salutar, algum tempo das nossas vidas. Na ênfase dos anseios pelos êxitos dos nossos clubes de afeição, nestes tempos difíceis, somos abalados com crises e políticas nefastas dos nossos governantes. São essas formas de conduzir a governação que têm levado a uma degradação do sustentáculo de bem-estar na sociedade em que nos encontramos inseridos – o trabalho.

Enquanto caminhamos por essas estradas, caminhos, complexos desportivos, e campos fora, numa de manter a boa forma física e o sistema cardíaco e muscular, e, como atrás referi, no entusiasmo pelos clubes da nossa predileção, quer seja no acompanhamento dos filhos ou netos nas competições desportivas onde se integram, quer seja no “ir aos futebol” ver os seniores, descarregamos, no horizonte do relvado sob céu azul, alguns problemas do dia-a-dia, das jornadas de cada um, e, no paradoxo o carregamento de baterias para o resto dos dias/semanas, como sói dizer-se.

Neste espírito de “mens sana in corpore sano”, vamos memorizando factos, mas também figuras, muitas das quais acompanhámos durante a nossa juventude; outras com elas vibrámos nos lances, dribles, golos, gritos de Ipiranga em situações nevrálgicas mas que, num ápice, surgiu o golo salvador de safar a época.

Muitos são agora objeto de uma nostalgia de bons velhos tempos de outrora, quase idolatrados, mas, pelo menos, memorizados, se não quando amiudadas vezes objeto de amizades proporcionadoras das suas memórias com encontros apelativos às recordações desses tempos.

E, depois, são também as famílias que acabam por se juntar ao coro de amizades, naquela de que “recordar é viver”.

É neste contexto que trago o primeiro remate de recordações dos que ainda se encontram no mundo dos vivos, velhas glórias do grande embaixador da cidade laneira, hoje universitária – o Sporting Clube da Covilhã (SCC) –, para quem vai já um gesto de parabéns, e as maiores felicidades por conseguirem a manutenção na II Liga do futebol português.

Saliento tão só os homens que integraram as equipas da divisão maior do futebol em Portugal, no clube serrano, então designada por I divisão, em duas fases distintas. O grande período que foi das épocas de 1948/49 a 1961/62, com um interregno em 1957/58, e o período mais recente e último, que integrou as épocas de 1985/86 e 1987/88.

Muitos dos antigos atletas e treinadores, com quem privei pessoal ou indiretamente, já desapareceram do mundo dos vivos.

Vestiram a camisola do SCC, no período compreendido entre as épocas 1948/49 e 1961/62, entre os maiores do futebol português, 27 atletas, que participaram em jogos oficiais do Campeonato Nacional. Não estão aqui considerados os suplentes que nunca integraram jogos oficiais, assim como não está considerada a sua participação nas várias fases da Taça de Portugal. Por aqui se pode ver o tempo que permaneciam ao serviço das cores serranas, em relação aos tempos atuais.

Já durante o período que integrou as duas épocas correspondentes a 1985/86 e 1987/88, vestiram a camisola do SCC, durante a I Divisão, 45 atletas.

Dos tempos áureos da I Divisão, compreendidos no primeiro escalão a que acima me reporto, encontram-se ainda vivos, felizmente, se bem que alguns deles bastante doentes e incapacitados: Adventino Gorgulho Pedro (Algarve), Albertino (guarda-redes, Costa da Caparica), Amílcar Cavem (Coimbra), Amílcar Gonçalves (Gouveia), António Jorge Porcel (estrangeiro), António Lourenço (Lisboa), Fernando Cabrita (internado num lar em Caneças), Fernando Pires (Covilhã), João Lanzinha (Covilhã), João Tomé (Setúbal), Jorge Nicolau (Covilhã), José Romeiro “Coureles” (Lisboa), Palmeiro Antunes (Lisboa), e Vitoriano Suarez (S. Paulo/Brasil).

Desconheço as situações e paradeiro de Pérides, Patiño e Chacho.

Ainda durante o primeiro período em análise, foi Pedro Martin Sanz que realizou mais jogos ao serviço dos Leões da Serra, num total de 194. Seguiram-se-lhe: Helder Toledo, 170; Amilcar Cavém, 148; Bento Couceiro, 142; e José Rita, 130, quase todos falecidos, exceto Amilcar Cavém.

Já no segundo período em análise, foi Germano que mais vezes vestiu a camisola serrana, num total de 55; seguiram-se-lhe: João Sousa “Joanito”, 46; António José Real, 41; Gouveia, 37; e Celso Maciel, 35.

Quanto a melhores marcadores, para o primeiro período de análise (1948/49 a 1961/62), o 1º foi André Simonyi, com 74 golos ao serviço do SCC; 2.º Vitoriano Suarez, 66; 3.º Manuel Livramento, 53; 4.º João Tomé, 41; 5.º Carlos Ferreira, 32 golos marcados.

Já no segundo período de análise (1985/86 e 1987/88), o 1.º foi Celso Maciel, com 10 golos; 2.º Jacques, com 7; 3.º Artur Semedo, 5; 4.º Paulo Roberto, 4; 5.º Biri, 4.

João Tomé completou 90 anos do passado dia 3 de maio e, por intermédio de seu filho Fernando Tomé, que jogou no Vitória de Setúbal e no Sporting Clube de Portugal, demonstrou muito carinho pelo SCC e pelas pessoas que ainda o contactam colocando uma foto com a camisola do SCC no facebook.

Fernando Pires, meu vizinho, que foi o autor do golo do SCC na final para a Taça de Portugal com o Benfica, na época 1956/1957 é outra das velhas glórias do SCC que ainda passeia pelas ruas da cidade, assim como João Lanzinha.

J.J.Nunes


(In "O Combatente da Estrela", n.º 95, de Janeiro a Maio de 2014)

CONTINUAR


É numa vertente de colaboração que mantenho, com muito gosto, e empenho, o registo de alguns textos ou crónicas n’O Combatente da Estrela, desde há já algum tempo.

 Neste número 95, algumas alterações surgiram na ficha técnica, passando, assim, a ter a responsabilidade, que até aqui me era alheia, de uma cooperação com o diretor deste órgão periódico do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes.

Sendo certo que esta publicação tem vindo a crescer desde que veio à luz do tempo, em janeiro de 1988, com o seu primeiro número, também é certo que a responsabilidade da sua feitura tem recaído, sempre, desde a sua génese, na pessoa do seu diretor, ombreando assim, praticamente sozinho, com o peso de todas as responsabilidades inerentes à sua conceção.

“O Combatente da Estrela” chega às mãos de cerca de dois milhares de leitores, mormente para os seus associados, mas também é lido em várias instituições, associações e coletividades. Bate à porta de cada um, quer pela via papel, quer também online.

Para além de textos de opinião, com óbvia incidência sobre a vida e as memórias dos combatentes, histórias e vivências das lutas nas guerras do Ultramar, também as pessoas, covilhanenses de raiz ou de coração, e os factos, têm nas páginas deste jornal, oportunidade de fazer jus ao registo dessas mesmas figuras e desses mesmos factos.

Tudo isto assenta na pedra basilar de que este jornal, pequeno no seu formato mas, paradoxalmente, grande na sua alma, será sempre intransigente na defesa dos caminhos da estrela que guia a Covilhã, onde se encontra inserido, e sua região, e, consequentemente, também nos valores da vida que devem desfraldar na nossa Pátria.

Não obstante as dificuldades económicas que grassam por todo o lado, poderemos pensar, com um aumento substancial de associados, ainda que com sacrifício, de passar a periodicidade deste jornal para mensal. Fica aqui o desafio.

Uma dúvida que pode emergir no que concerne à qualidade de associados, na sua obrigatoriedade, é oportuno que se esclareça que podem ser associados do Núcleo da Liga dos Combatentes da Covilhã, também outras pessoas, de ambos os sexos, independentemente de terem sido antigos combatentes, integrando a categoria estatutária.

No meu caso concreto, eu que cumpri o serviço militar obrigatório, de 16/1/1968 a 20/7/1971, também não fui mobilizado para o Ultramar, e, por conseguinte, não fui antigo combatente, o que não que dizer que não comungue das memórias contadas de familiares, amigos e antigos colegas que combateram nas Colónias, pela Pátria; e, também, não deixe de me interessar, e preocupar, com os efeitos nefastos que levaram muitos antigos combatentes a sofrerem, ainda hoje, física e psicologicamente, a sua passagem pelo mundo da guerra, sob a obrigatoriedade de um regime ditatorial de então.

No entanto, não posso deixar de também sentir que a juventude das décadas de 60 e 70, até ao 25 de abril de 1974, em cujo período me incluo, sofreu ainda em território continental, os efeitos negativos de não poder resolver a sua vida profissional, adequada às suas aptidões, numa altura em que o emprego não tinha as dificuldades como as de hoje, pelo facto das entidades patronais não desejaram assumir compromissos antes da conclusão do serviço militar obrigatório.

E, por vezes, como foi o meu caso, juntávamo-nos no serviço militar, obrigatório, mais que um elemento do agregado familiar.

Ao mesmo tempo, estivemos no serviço militar, eu e um irmão (eu, no Continente, e meu irmão, na Guiné), com as dificuldades inerentes para as famílias. Muitos outros casos análogos existiram.

É, pois, com este espírito de boa vontade, que nos propomos dar continuidade, mais forte, ao jornal “O Combatente da Estrela”.
 

Agradecemos que nos façam chegar as vossas opiniões.
 
(In "O Combatente da Estrela", n.º 95, de Janº. a Maio de 2014)