21 de maio de 2015

O “ESQUECIMENTO” DOS BONS SERVIÇOS DO MEDIADOR

Estou a escrever, com muito prazer, na Liberty em Acção, na minha qualidade de ex-mediador de seguros, ocupação que terminei para me dedicar a outras causas. Mas continuo atento à atividade seguradora, e, qual frenesi, ainda emerge nas minhas veias o bichinho dum ofício onde me realizei.
A mediação de seguros é um exercício profissional de grande trabalho mas aliciante. E quem é que não gosta de ver da parte do Cliente o reconhecimento dos bons serviços prestados pela pessoa em quem confiou os seus contratos de seguro?
Corria o ano da graça de dois mil e quatro, a dois de julho, a meio da manhã daquela 6.ª feira que fez acelerar um pedido do serviço de peritagem, pelo setor de sinistros de incêndio da Liberty. Nesse dia, fora do que era habitual, liguei um pequeno rádio para ouvir notícias, enquanto trabalhava no computador. E as mesmas fizeram-me logo sobressaltar: “Para Caria já se deslocam os Bombeiros da Covilhã, onde já se encontram os de Belmonte, para acudirem ao incêndio que lavra na fábrica de confeções!”
- Fábrica de confeções? Só lá há uma e é minha cliente! Tento entrar em contacto telefónico com alguém responsável pela empresa, desde a administração a alguns funcionários e, nada!
- Ninguém responde!
Para não perder tempo, redigi um fax, apressado, para a Seguradora, dando conta aos Sinistros da Liberty o que estava a ouvir, presumindo fosse uma empresa ali segurada. Entretanto, pedi à solícita responsável pelos Sinistros – Dr.ª Olga Lucena –, para que diligenciasse a urgência da deslocação duma peritagem para um incêndio industrial, urgência agravada por se tratar dum fim-de-semana.
Enquanto se desenvolveram, num ápice, as ações para a deslocação da peritagem, no trabalho de excelência dos Sinistros da Liberty, peritos que se deslocaram de Lisboa, a uma 6.ª feira, em final da manhã, começaram-me a chegar vários telefonemas, entre os quais do administrador da empresa, para que diligenciasse as ações que então já estavam a decorrer. E o “Venha cá, rápido! Venha cá!” levou-me a acalmar os ânimos dos donos da empresa, informando-os de que tudo se estava a desenvolver para, nesse dia, a uma 6.ª feira, da parte da tarde, se deslocar a ansiosa peritagem.
E foi motivado pelo trabalho de mestria da Dr.ª Olga Lucena, ela, nesse dia, uma autêntica “Comandante dos Bombeiros” que se proporcionou que, concluída a peritagem inicial, pudesse o pessoal da fábrica de confeções começar a retirar os escombros deixados pela explosão de uma caldeira que ainda ocasionou que uma trabalhadora tivesse que ser transportada de urgência para os hospitais de Coimbra. Desloquei-me para o local do sinistro, falei e acalmei os proprietários da empresa, assisti à azáfama de retirada dos escombros da parte afetada para que ainda pudessem laborar na semana seguinte.
Entretanto, fora o lamento da inesperada ocorrência, o tempo passou.
Os semanários da região, entretanto, davam a notícia, e, num outro local, surgia um agradecimento da empresa sinistrada, aos bombeiros, aos senhores engenheiros de um outra unidade industrial que ali se deslocaram para ajudar, e agradecimentos a outras pessoas e entidades.
Ao mediador de seguros, nada! Esquecimento injusto, mais tarde reconhecido por alguns É que, se não fossem as suas diligências rápidas e a eficiência do trabalho dos Sinistros de Incêndio da Liberty, já referido, as tarefas, que tanto desejavam, de retirada dos escombros e poderem começar a trabalhar, ainda que limitados, não teria acontecido, e, certamente, teriam de aguardar pela semana seguinte.

A empresa, entretanto, já se encontra encerrada.                  

(In Revista "Liberty em acção", n.º 40, de maio de 2015)

12 de maio de 2015

VALHA-NOS SANTO AMBRÓSIO

Que isto de escrevermos no prazo limite para a publicação é sempre um risco. O espaço de tempo não perdoa todo o que foi dissipado noutras ocupações. E os textos de opinião nem sempre estão a jeito, extraídos do baú de memórias, ou dos acontecimentos mais recentes.
À toa ocorreu-me este santo, para uma de inspiração. Que, de santos, não tenho opções em especial na minha religiosidade. No entanto, tenho em casa, casualmente, o S. Tomé, não uma mas duas imagens do mesmo. E isto porque, aquando da minha rigorosidade profissional, geralmente pedia, nalguns casos, que fosse transcrito para escrito aquilo que, de responsabilidade, me era informado oralmente. Algumas vezes ficavam melindrados. Mas mais aborrecido ficava eu quando queria demonstrar aquilo que me fora transmitido como certo, de viva voz, e, depois, já não era tanto assim. Foi numa situação destas que me levou a adquirir a imagem do S. Tomé, numa de ironia, dizendo aos então detentores da verdade esquecida:
- Queria mudar de santo mas obrigam-me a ter que continuar a acreditar no S. Tomé: “Ver para crer”. Ponham lá no papel o que agora me informam. Confesso que não me dei mal com esta conduta.
E, como não há duas sem três, outro santo – o Santo Antão – esta contada pela voz de um já falecido amigo, o professor Manuel Lourenço Pereira das Neves, de Orjais, uma figura sempre bem-disposta, de grande humor e amigo do seu amigo. E dizia que, em tempos longínquos, no Colmeal da Torre, na festa de Santo Antão, se contava que quando a procissão saía à rua, num desses anos, começou a chover, e a molhada procissão teve que regressar apressada. Os mordomos esperavam que no próximo ano esta situação não surgisse e o povo ficasse assim mais contente. O que é certo e verdade é que, mal o andor do santo entrava no adro da igreja, começavam a surgir uns pingos de chuva e avolumava-se no decorrer da procissão. A maldição parecia que continuava e, então, a esperança renovava-se para o ano seguinte. Não é que, neste terceiro ano consecutivo, a história se repete? Sai o santo para a rua e começa a chover. O desânimo atinge não só os mordomos como também parte da população, que começa a revoltar-se e a atribuir as culpas ao Santo Antão. Então, param o andor e, alguns mordomos agarram no santo, dirigindo-lhe impropérios, e atiram com ele para o ribeiro onde passavam: - Não nos deixas fazer a festa, vais já tomar banho! E acabou-se a história, com o regresso à igreja, sem o santo.
Temos vindo a assistir a acontecimentos que, julgando alguns ser de bradar aos céus, deveria levar muito a ponderar a análise dos factos, mormente pelos que nela se encontram envolvidos.
Reporto-me assim aos professores que chumbaram nas provas de Português e de Física e Química, da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades. O Instituto de Avaliação Educativa deu conta que chumbaram 63,2% dos 68 professores que fizeram a prova de Física e Química e 60,4% dos 106 que fizeram a prova de Português para o 2.º ciclo do ensino básico. E, aqui, o Ministério da Educação tem razão: “Não se pode ensinar bem o que não se sabe muito bem”. Isto já não era estranho, pois quando há ainda professores, não só do ensino básico, como do secundário, que não sabem distinguir quando o “à” leva “h” ou não; quando se escreve “porque” ou “por que”, assim como outras regras ortográficas, o ensino não vai bem. E isto nada tem a ver com o novo acordo ortográfico.
Já no que toca a pedagogia também há algo a dizer. Chegou-me ao conhecimento que numa escola do ensino básico desta cidade, a professora fez uma divisão interna dos seus alunos, com o conhecimento dos mesmos, desta forma: o grupo dos inteligentes, o grupo dos mais ou menos, e o grupo dos do apoio. Como se sentirão os que têm mais dificuldade perante esta classificação? Que motivação lhes vai na alma? Não será que é a professora que necessita de formação?
Voltamo-nos para outro caso, este mesmo tão de hilariante quão de estúpido, do nosso primeiro-ministro, pela forma anedótica como se referiu, na inauguração da queijaria em Aguiar da Beira, teorizando sobre o português que no futuro há-de fazer um país novo, desenvolvido e sem mais invasores troikanos. O exemplo de Passos Coelho não podia ser mais caricato (talvez o muito queijo que ali comera o tivesse levado ao esquecimento) com o símbolo de Dias Loureiro. Disse então este inteligentíssimo primeiro-ministro que ele, Dias Loureiro, “conheceu mundo, é um empresário bem-sucedido, viu muitas coisas por este mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes, metódicos”. É inacreditável o que este governante na liderança do País afirmou, duma figura que foi arguido no caso do BPN. Isto daria pano para mangas.
Mas, neste País em que 1% dos portugueses tem 21% da riqueza de Portugal, os casos sobre casos não deixam de existir.
A esperança, que já foi acentuada, na mudança, começa a ter contornos de perplexidade pelos cidadãos mais sofredores, se isto não vai ficar mais do mesmo, ou parecido. António Costa também já deu uns tiros nos pés, com aquele sms ao jornalista, com pouca paciência para a comunicação social, apesar de ser filho e irmão de jornalistas. Esperemos que o documento Uma Década para Portugal, elaborado por doze economistas para o Partido Socialista, nas suas propostas para o setor económico, se revistam de uma grande eficácia para Portugal, caso vença as eleições.

Mas, para isso, como diz o povo, na sua proverbial sabedoria, é preciso “juízo e cabeça fresca”. Vejam só as sondagens erradas no caso do Reino Unido, acabando por ganhar, contra o imprevisto, o conservador Cameron, numa primeira maioria absoluta desde 1992.

(In "fórum Covilhã", de 12.05.2015)

16 de abril de 2015

O ELOGIO DAS GLÓRIAS

1 - Foi este o título que o amigo Júlio Freches deu a uma crónica inserida no Jornal do Fundão, de 4 de outubro de 1991, sobre os ídolos serranos do futebol de eleição, que, então, pelo pelado do Santos Pinto, se ia praticando, no século passado, proporcionando assim incontidas alegrias a todos os amantes do futebol de primeira.
E não só ao futebol na sua vertente profissional, como também em locais onde se dava lugar às peladinhas, com o frenesim da juventude – Escola Central, Colégio Moderno, Liceu ou Escola Industrial –, ou a figuras, como “o bom Padre Carreto, para servir com fervor a causa divina de atrair a malta para a sua obra evangélica”.
Veio esta crónica na sequência duma homenagem que foi feita a Velhas Glórias do Sporting Clube da Covilhã (SCC), em 28 de setembro daquele ano, de que fui o seu mentor, no seio da APAE Campos Melo, onde era dirigente, e numa altura em que não era fácil, como hoje, dar ênfase jornalística a este tipo de eventos. Viria assim a sair a 2ª edição do meu primeiro livro sobre os Leões da Serra, em 3 de março de 1992, com a inserção deste evento, já que da 1ª edição, muito limitada, foi objeto de oferta de um exemplar a todas as Velhas Glórias presentes nesta célebre primeira homenagem, as quais se deslocaram de vários pontos do País; e às entidades e outros convidados. Houve grande destaque em toda a Comunicação Social, escrita e falada.
Tive, assim, o prazer de fazer inserir esta interessante crónica de Júlio Freches, na página 653 da obra então saída.
Na sua maior parte, os homenageados que estiveram presentes naquele memorável dia de festa; da iniciativa e a expensas da APAE, e recebidos no Salão Nobre da Câmara Municipal, em tempos difíceis da vida da coletividade serrana, num paradoxo em que, apesar da festa, havia algo de tristeza nas gentes serranas pelas notícias de que o clube passava então, em que, inclusive, até as taças da sua sala de troféus se encontravam penhoradas; já não fazem parte do número dos vivos. Fica, assim, a saudade.
No âmbito do dirigismo do clube serrano, foi uma das Velhas Glórias já falecidas – José de Sousa Gaspar –, seu antigo Presidente da Direção, que teve a amabilidade de aceitar fazer o prefácio de “Subsídios para a História do Sporting Clube da Covilhã”.
É a José de Sousa Gaspar, que, tendo sido meu bom amigo, dedico o texto a seguir, que escrevi nas Penhas da Saúde, no dia 1 de setembro de 2008, onde me encontrava de férias, e ele também, com os seus sobrinhos. E aos Leões da Serra que, nesta época, está a fazer um bom Campeonato, num almejo de alcançar a I Liga do Futebol Português. Neste agigantar, não perca a vereda para o caminho desejado e que, aí, crie um baluarte.
2 - São dez e vinte da manhã de sábado e ainda quase todos se encontram no vale de lençóis. Sento-me numa pedra e estendo os olhos para o horizonte, à minha direita. Ali, o ruído da água que corre, algo lenta, num regato. O ladrar dos cães, ao longe. Uma senhora que passa com um carrinho de bebé, e lá surge um casal a aproveitar o ar fresco e salutar da manhã, caminhando duma vereda de giestas.
Um dia lindo, de sol, com um leve ventinho a condizer, e com a alegria da Natureza.
As casas continuam em sossego, com um outro ruído pela passagem de um carro. No Café Estrela, e no Lindeza, ainda não se vislumbra gente para a bica matinal.
Os pássaros dão-me os bons-dias, ao passar por debaixo das árvores. Estas, orgulhosas da sua fotossíntese, ou seja, da sua função clorofilina, para o seu verdejar, como que numa saudação ao principal clube citadino, vão-se afunilando em forma de catedral, como que a simbolizar a sede da coletividade serrana. Aqui e ali, salpicos de amarelo de relva bravia.
A água continua a correr tranquila, sobre umas pedras que vão surgindo, imóveis no seu banho perene, surgindo, aqui e ali, em direção ao vale, em pequenos rápidos, ou cascatas.
A ponte de pedra de acesso à zona do casario onde se situa o Café Estrela e a desaparecida piscina é de paragem para alguns companheiros. Avistam-se as traseiras do hotel e os bungalows. Alguns bocadinhos de terrenos cultivados. Como é bonita a Natureza! Como é linda a Serra da Estrela!
Enquanto subo uma vereda, as borboletas multicolores vão beijando o chão, no caminho até à estrada alcatroada. Um pássaro assustado levanta voo à frente do nosso lento caminhar, enquanto nos aproximamos da estrada onde passam dois ciclistas.
Uma caminhada destas no sossego matinal, na apreciação indelével, na reflexão, é uma autêntica ovação a Deus!
Na esplanada d’“O Pastor”, um cafezinho com a leitura do jornal. Descendo a Pousada da Juventude, com uma placa por detrás que indica “Baldios das Cortes do Meio – Curral do Vento”, outrora fôra a Colónia Infantil da Montanha, onde estive numas férias, na adolescência, transportado, juntamente com um irmão e irmã mais velha, e muita outra criançada, em camionetas de caixa aberta da Câmara Municipal.
O autocarro da Auto Transportes do Fundão aguarda, fazendo lembrar as antigas camionetas do José Nunes Correia & Filhos, Lda, cujos escritórios e oficinas se situavam ao fundo da Escola Industrial, junto à Cadeia, no términus da Rua Vasco da Gama, no cruzamento com a Calçada Alta, e, ao fundo, uma rua estreita de terra batida, com casas baixinhas, de um só piso, chamada Rua Cruz da Rata.
Numa zona de pequenas propriedades – quintas – exploradas pelo casal Carrola, ali perto se fazia um mercado de suínos, e, mais abaixo, numa outra quinta – da D. Glória – foi aí construído o então novo Liceu. Em frente, a Escola Industrial.

Mas, neste alongar de recordações de tempos de outrora, na inspiração dos ares puros e fortes da Serra da Estrela, com as memórias do Sporting da Covilhã nos tempos áureas da I Divisão Nacional, regressa o pensamento ao local inicial – as Penhas da Saúde – e, já um tanto ou quanto perto, vejo um grupo de amigos passeando na estrada. Após os cumprimentos surge a conversa com o sempre amável José de Sousa Gaspar. Desta vez, a recordação do que é e o que foi a Serra da Estrela!... E, como não podia deixar de ser, também o nosso Sporting da Covilhã. Estavam ali, de facto, dois “Sócios de Mérito” dos Leões da Serra e, ele, também “Sócio de Mérito” da Associação de Futebol de Castelo Branco.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 98, janeiro a abril de 2015)

SENTIR


É este o primeiro número do ano 2015 pelo que vai uma saudação para todos os antigos Combatentes, suas famílias, e quantos nos acompanham; quer como associados, amigos ou simpatizantes, quer como leitores deste órgão; nas memórias e consequências dum tempo das suas vidas, que jamais será dissipado.
O Combatente da Estrela pretende ser o transmissor, de todos os que se irmanam, desse SENTIR.
É, de facto, ao redor de um grupo de antigos Combatentes, a que se juntam outros que cumpriram o serviço militar obrigatório, e não foram mobilizados para o Ultramar, ou lhe deram continuidade, bem como situações diversas, nomeadamente as familiares, que, desta forma, se proporciona um certo conforto neste meio social em que todos são envolvidos.
 As vivências duma realidade passada, numa obstinação dos governantes de então, que preferiram ver a juventude portuguesa a servir de sustento para as suas pertinácias de manter um império a qualquer preço, sobrepuseram-se, nas suas mentes governativas, àquilo que viria a ser muito penoso para a vida de muitos antigos Combatentes, e suas famílias. Uns pagaram esse preço com a sua vida; outros, com o sofrimento contínuo das suas incapacidades físicas; outros ainda, e quase todos, na envolvência de problemas de stress pós-traumático.
Só após a Revolução dos Cravos se reuniram de imediato consensos políticos para se evitar mais sofrimento e perdas humanas, tanto para um lado como para o outro, reunindo os irmãos desavindos na fraternidade de um acordo de aderência à compreensão.
No entanto, das passagens pelo terror surgem hoje más memórias, com todos os efeitos nefastos que se fizeram sentir.
Certamente que, também hoje, em tempo de democracia, as condutas dos homens que conduziram os destinos da Nação de outrora, seriam impensáveis, naqueles moldes em que toda uma juventude dos anos 60, e primeira metade dos anos 70, se viu constrangida a uma obrigação, pegando em armas, deixando empregos ou adiando a entrada nos mesmos; deixando famílias, fossem casados ou solteiros; e alguns mesmo com maleitas.
Neste ambiente de muita confraternização que vai existindo ao redor duma Liga de Combatentes, já com Tertúlias que, no caso covilhanense, vai engrossando em número, quase sempre ultrapassando a centena; ainda que independente do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes; surgem muitas amizades. Afinal, todos viveram, duma forma ou doutra, situações adversas com que não contavam. É assim aqui um ponto de encontro, um escape, um qualquer lenitivo.
Outros eventos de cariz recreativo se vão espraiando por outros lugares, para arejo mental, descobrindo ou recordando encantos duma parte do Globo, ao invés das picadas por que muitos Camaradas passaram, noutras zonas deste Planeta. Há sempre o SENTIR de camaradagem nestes ambientes, também gerador de amizades.
O SENTIR, de dentro para fora e de fora para dentro. O antigo Combatente, que foi mais ou menos sofredor, chegou à conclusão que o stress pós-traumático, como atrás foi referido, com maior ou menor incidência, tem-no dentro de si, e, consequentemente, afeta também a sua família. É assim que, esta perene impressão, física ou moral, esta sensibilidade, leva também a olharmos de dentro do nosso íntimo para o Camarada que carece de apoio, porque a sua tranquilidade não existe, dia e noite. E aí está a ação de uma Psicóloga, que tem ajudado, num esforço de atenuar problemas psicológicos, muitos antigos Combatentes.
O SENTIR, dentro do espírito dos responsáveis da Liga dos Combatentes, extravasa tudo o que possa ser a interioridade de um bem-estar pessoal, e pensa nos Camaradas que morrem, tentando a sua junção, no local próprio, em terreno adquirido no Cemitério.
Mas também é de fora para dentro que o antigo Combatente Covilhanense vai encontrar algum bálsamo divino, nas preces para sufragar as almas dos mortos, e no agradecimento à Virgem, em Fátima, com uma Peregrinação anual, exclusiva do Núcleo da Covilhã, bastante concorrida.
Neste SENTIR do antigo Combatente, que o foi por obrigação e não por vontade própria, terminada que foi a guerra, dele emergiu a amizade, uma amizade entre irmãos que se procuravam eliminar entre si. E até uma nostalgia de passagem pelos lugares sofredores, físicos ou psicológicos, onde as suas vidas poderiam ter o prazo de validade consumado.
Alguns já se deslocaram às antigas Colónias, onde estiveram como militares, em missões mais sensíveis, enquanto outros, naquela de nostalgia, e num rasto de amizade granjeada, ali se deslocam e levam algo do que os africanos mais necessitam, como roupa, calçado ou material didático.
Neste mês de abril, o antigo Combatente Francisco José Rebelo Pereira Nina, desloca-se, pela quarta vez, à Guiné, com custos seus, onde cumpriu a sua missão, de 1972 a 1974.
É sempre com grande entusiasmo que ele, e a comitiva onde se integra, é recebido pelos guineenses, reforçando sempre a amizade.
Afinal, uma guerra terrível em três frentes iniciais que o foi, para quê? A mesma não poderia ter sido evitada? Evidentemente que sim.
Se ela não existisse, não estaríamos integrados na Liga dos Combatentes porquanto, atualmente, já serão somente os Combatentes das Guerras de África que dão força à sua existência.
Se não existisse a Liga dos Combatentes era sinal de que tínhamos vivido sempre em paz. 

(In "O Combatente da Estrela", N.º 98, Janeiro a Abril de 2015)

15 de abril de 2015

É PRECISO COLORIR O 25 DE ABRIL

Os campos também eram verdejantes. Aqui e ali por vezes amarelecidos pelo abandono dos que neles trabalhavam. A emigração fazia vestir de cinza os que partiam, e cinza escuro os que ficavam. O céu azul por vezes criava uma pequena auréola, ou se toldava da fumarada de muitos que, pensativos, sem feitio ou arrojo para passarem de assalto a fronteira, permaneciam taciturnos, no contínuo de uma cigarrada e um copo de três. E o que havia ido às sortes via o tempo acelerar. Bem depressa chegava a altura de ir à Câmara Municipal buscar as guias de marcha para partir no comboio que o havia de transportar o mais próximo do quartel. Aí iria fazer a recruta. Que passava depressa. E a especialidade era um ai, noutra unidade militar. A ordem de serviço do quartel dava-lhe a notícia de que estava mobilizado. Na estação de caminho-de-ferro tapava os ouvidos e cerrava os olhos para não ouvir, e nem sequer ver aquele que também chorava, no acompanhamento do choro dos familiares, na despedida para o Ultramar. Era para uma missão de soberania!
As notícias ocultavam-se neste país de brandos costumes, que isto de ser apanhado na fronteira, como compelido, refratário ou desertor, no processo a instaurar por via do Regulamento de Disciplina Militar, lá teria que responder que “aos costumes disse nada”.
Os que por cá foram passando à peluda viam chegado o tempo de procurarem um novo emprego. Melhor. Mais remunerado e com possibilidade de subir na carreira. O êxodo dos que trabalhavam na função pública era um tanto ou quanto flagrante. Não interessava tanto este emprego, quase garantido para toda a vida. Aqui, era preciso ter o 5.º ano liceal, ou equivalente, para ter acesso na carreira. Mas, num armazém de lanifícios, ou num escritório, com a 4.ª classe tinha-se possibilidade de ganhar o dobro. A apetência era então pelo setor bancário. Também se concorria para a TAP, a CUF e outras empresas de alto gabarito. Mas, passados anos, alguns ainda que com cursos industriais, mandaram os mesmos às malvas, que a indústria então já não é o que era, e encaixavam-se na Segurança Social, num Banco, numa Seguradora, num Centro de Emprego…
Os noticiários e toda a comunicação social, falada ou escrita, sofriam ainda o domínio da censura. Era também o tempo da Guerra Fria. Passando ao lado da mesma, e, na sequência da nossa guerra, lá se sabia que o Zé, da aldeia, também foi chamado para ir formar Batalhão, para Angola, para Moçambique, para a Guiné.
A Pide, o assassínio do General Humberto Delgado, o assalto ao paquete “Santa Maria”, e ao quartel de Beja, ainda não estavam esquecidos. Produziam-se cores negras.
“Cuidado com as conversas aqui porque há por aí bufos da Pide” – voz amiga avisava, baixinho, ao ouvido, no Café Central, do Neve Hotel, já desaparecido da Covilhã. Como também nos já desaparecidos cafés de referência citadinos – o Montalto, o Leitão, a Pastelaria Lisbonense, A Triunfo (ao Jardim), o Danúbio. Mantém-se somente o café Montanha.
Era a altura de se ouvirem, muito em segredo, à noite, as proibidas “Rádio Liberdade” ou “Rádio Portugal Livre”, da Argélia, que se iniciou em 12 de março de 1962.
Os terríveis anos 60 e primeiros de 70 continuavam a fazer jorrar uma juventude lançada numa guerra sem sentido. A revolta, tantas vezes traduzida em stress pós-traumático, dos que regressaram com vida, era quase sempre ofuscada pelos próprios. Mas a morbidez da continuidade duma guerra em várias frentes, começava a assustar as futuras gerações.
Ia-se adivinhando que alguma coisa teria que mudar, ainda que à força. A oposição democrática, no Congresso de Aveiro, decidiu não participar nas eleições fantoches. Estávamos em 1973.
No Teatro-Cine da Covilhã, homens e mulheres afetos à União Nacional e a Marcelo Caetano, que gostavam das suas “Conversas em Família”, na RTP, ouviam agora as vozes vibrantes dos seus oradores, entre os quais o deputado pelo círculo de Castelo Branco, Dr. Rui Pontífice de Sousa, do Tortosendo, que viria a falecer de acidente automóvel, pouco tempo depois. No raio de alguns metros, também no Pelourinho, num andar já demolido do extinto Neve Hotel, reunia-se um grupo de oposicionistas, da Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Também lá estive.
Na Guiné, o General Spínola começava a dar nas vistas. O seu livro “Portugal e o Futuro”, veio dar uma ajuda à reviravolta, abalando o regime ditatorial. O 25 de abril de 1974 aproximava-se!
No dia 14 de março, Marcelo Caetano recebia oficiais-generais dos três ramos das Forças Armadas, numa reunião que ficou conhecida como “Brigada do Reumático”, no intuito de tentar provar que o regime tinha tudo sob controlo. No dia seguinte, eu lia em Lisboa, no “Diário de Notícias”, a notícia da demissão dos generais Costa Gomes e António de Spínola por se terem recusado a participar naquela reunião.
Na manhã daquele sábado, 16 de março, no regresso à Covilhã, algures na estrada, cruzámo-nos com uma coluna militar, todos de semblante carregado. Vinha eu de boleia com o amigo Humberto Andrade. Só mais tarde viemos a saber ter-se tratado do golpe militar, falhado, do Regimento de Infantaria 5, de Caldas da Rainha, que marchava sobre Lisboa.
Mas, na 2.ª feira, 18 de março, a censura prévia acabaria por ser iludida pelo jornal “República”, duma forma brilhante, para comentar a revolta das Caldas, como poderemos ver, aproveitando a derrota do F.C. Porto, na deslocação ao Estádio de Alvalade, com o Sporting, por 2-0: “Os muitos nortenhos que no fim-de-semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos pela derrota. O adversário da capital, mais bem organizado e apetrechado (sobretudo bem informado da estratégia), contando ainda com uma assistência fiel, fez abortar os intentos dos homens do Norte. Mas, parafraseando o que em tempos dissera um astuto comandante, “perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra”…
Entretanto, num outro fim-de-semana, também no meu regresso de Lisboa para a Covilhã, de âmbito profissional (acompanhava-me na viagem o Joaquim Cravino, que cumpria serviço militar), na habitual paragem em Ponte de Sor (ainda não havia a A23), o proprietário do café onde entrámos, conhecido por oposicionista ao regime, fazia questão de nos informar e orgulhava-se de já ter adquirido o livro do General Spínola. Era a revolta que extravasava principalmente na classe média.
E, finalmente, às 22,55 horas do dia 24 de abril, os Emissores Associados de Lisboa transmitiam a canção “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, primeiro sinal do MFA, confirmando que tudo corria bem. No dia seguinte era o 25 de abril que a todos deixou deslumbrados.
E, porque a partir daqui já muito foi fito, e redito, ficam no pensamento todas as cores com que se festejou este grande acontecimento, pelo País fora, e não só. Entretanto, jamais pensaríamos que, volvidos 41 anos, Portugal retrocedesse tanto nos ideais da Revolução dos Cravos, e que hoje, as cores do 25 de abril tenham desmaiado fortemente.

Os cravos murcharam! É preciso voltar a fazer colorir o 25 de abril!

(In "Notícias da Covilhã", de 16-04-2015)

14 de abril de 2015

O FAZ-DE-CONTA

Nunca estivemos tão rodeados de um ambiente de fantasia ou fingimento, neste mundo da imaginação, como nos tempos que vão correndo.
Certamente que muitos dos antigos, que já partiram para o além-mundo; esses homens em que a palavra, sem jura, era suficiente para ditar lei; se hoje assistissem a este estado de coisas, não deixariam de ter um bocejo, e, contemplativos com estas vivências, ficariam atónitos.
Estamos vivendo num tempo em que faz-de-conta que tudo corre normalmente; faz-de-conta que nada aconteceu de mal que nos atormente.
E, pasme-se, até faz-de-conta que na terra d’el-rei D. Aníbal I, e do 1º Ministro, Marquês Passos, há presos políticos quando existem, mais precisamente, políticos presos.
“O que hoje é verdade, amanhã é mentira”, foi uma expressão tomada por um antigo dirigente desportivo vimaranense, sendo certo que, tal conduta paradoxal, ainda hoje continua. Vamos ficando cada vez mais incrédulos e desacreditamos em tudo; enfadados e aborrecidos.
Não há respeito pelas ideias e convicções de cada um, neste país democrático, em que a democracia tantas vezes é amordaçada mesmo por aqueles que a apregoam.
Dar a cara, para alguns, passou a ser uma atitude de medrosos, e, então, vai daí, opta-se pela pusilanimidade, agora muito em voga em blogues anónimos; ou, então, em figuras fictícias (qual método pidesco) introduzidas nas redes sociais, nomeadamente no facebook. Com esta infame encarnação, neste faz-de-conta de que é real, procuram estar atentos ao corrente das ideias “subversivas” daqueles onde se intrometem como “amigos”, ou de quem os rodeiam, e, sempre que possível, no ensejo para lançar farpas aos seus adversários, transformados em inimigos.
Muitos são os que subiram à montanha, com os seus apaniguados, e pregaram o sermão anunciando ter sido eleitos para a todos servir, mas depois deixaram de conhecer o significado “sem exceção”. E o ódio é a arma que passa a imperar, por via de insultos, e outras formas grotescas de se evidenciarem, numa chamada de atenção para aquilo que foram, que fizeram, da obra feita e inacabada. Em vez de ajudar a cidade e seu concelho, talvez lá na sua intimidade exista um certo desejo de ver a terra queimada, para depois, talvez um dia, surgirem regressados como os salvadores da Pátria.
Será que, por outras bandas deste Portugal, esta conduta dos derrotados é tão acirrada; numa ajuda ao descrédito da Terra cujos destinos geriram anteriormente; proporcionando assim o aproveitamento de outras, onde os interessados se vão instalar, por haver menos alarido?
Entretanto, nesta cena boçal, cai o pano deste 1º ato.
E a peça recomeça com o 2.º ato, neste faz-de-conta que ele não existe. Os atores são agora outros. Também quiseram subir à montanha, e, com o seu sermão diferente, que fez reunir mais discípulos, verificou-se que os mesmos se dividiram porque começaram a falar outras línguas, e, por isso, nem todos se entendiam.
Depois de algumas traduções do sermão da montanha, alguns aderiram, por partes, à voz apelativa do senhor do cajado. Não se esqueceram que a peça se intitulava “Faz-de-Conta”, e, vai daí, começaram a encenar.
Através de um pequeno janelo ouvem-se vozes que querem interromper a peça. Um dos atores diz que “Faz-de-conta” que não ouviu; outro dos atores diz que “Faz-de-conta” que é legal; e, um terceiro ator, mais afoito: "Faz-de-Conta” que precisamos de mais quatro atrizes. E, ainda um último ator referiu: “Faz-de-conta” que as atrizes nos exigiram 2500 euros mensais; que as “girls” foram um contributo municipal para o “Dia Internacional da Mulher”.
Bom, isto não teria nada de anormal se não fosse o “Faz-de-Conta” que, no poder, a qualquer nível, são todos iguais!... ou, pelo menos, parecidos.
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Pois é assim, senhora arquiteta Helena Roseta, Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, não é só aí, por esses ares lisboetas, Tejo à vista (nós também cá temos o Zêzere que o faz engrossar) que os partidos “estão muito condicionados” e por isso “deixaram de ser espaços de liberdade”. Por todo o Portugal, e nesta região beirã, há mas é liberdade a mais, e, assim, já estou na mesma linha da sua interrogação: “Querem que na política só estejam, ricos e corruptos?”
É por estas e por outras é que, segundo um estudo realizado pelas Seleções do Reader’s Digest, é a política uma das áreas em que os portugueses menos confiam, numa percentagem de noventa e seis por cento. Assim é na política atual. Enquanto se está no poleiro é que é de aproveitar. Faz-de-conta que é para bem do povo. Que o mesmo é sereno e, isto de alaridos é só fumaça.
Talvez fosse novamente oportuno surgir o discurso do Zé Povinho e o reaparecimento de “Os Ridículos”, para animar a turba, que anda desanimada.

Neste descrédito, até rogo aos Prezados Leitores o favor de “fazerem-de-conta” que nem sequer escrevi este texto.

(In "fórum Covilhã", de 14-04-2015)

25 de março de 2015

DO BACALHAU COM HISTÓRIA À ESTÓRIA DO BACALHAU À ASSIS

São os portugueses os maiores consumidores de bacalhau no mundo, e que o sabem cozinhar melhor, de várias formas (entre elas: bacalhau à Zé do Pipo, bacalhau à lagareiro, bacalhau com broa, bacalhau com natas, pataniscas, suflé de bacalhau, bacalhau de cebolada, caldeirada ou filetes de bacalhau, pastéis de bacalhau, bacalhau cozido com couves, bacalhau assado, arroz de bacalhau, bacalhau no forno), constando haver mais de mil receitas de bacalhau, o que faz com que surjam pratos de excelência. É assim que o bacalhau é sempre fiel à nossa mesa, e, por isso mesmo, intitulado o “fiel amigo”.
A crise até pode estar a conter o consumo, mas o bacalhau não perde o seu lugar de honra à mesa, sobretudo na época natalícia.
A relação com o fiel amigo tem séculos. Segundo várias fontes, o bacalhau tem uma longa história e a presença do bacalhau na dieta dos nossos maiores, ricos, pobres ou remediados, presume-se anterior à fundação da nacionalidade, antes mesmo da constituição do Condado Portucalense.
Portugal, que consome 25% do bacalhau que se pesca em todo o mundo, viu o primeiro acordo que oficializou a existência de embarcações nacionais na pesca do bacalhau, em 1353, entre D. Afonso IV e Eduardo III da Inglaterra, permitindo aos portugueses irem pescar nos mares do Norte.
O auge da pesca do bacalhau surgiu em 1950, tinha então Portugal 70 embarcações, desde arrastões a lugres e veleiros.
Aqueles que têm uma idade mais avançada, como eu, ainda se devem recordar do tempo em que o Estado Novo apostava na captura do bacalhau, promovendo-a como uma forma de regresso de Portugal à sua vocação marítima, isto na mente do controverso patrão dos mares e do bacalhau português, que deu pelo nome de almirante Henrique Tenreiro. Este homem, de má memória para muitos portugueses, tendo começado em 1936 apenas como delegado do governo junto do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau, num vincado espírito de aventura, conseguiu criar um poder de tal forma que, quase se pode dizer, permutou o bacalhau por um “polvo” com muitos tentáculos, entre os quais, a chefia da Legião Portuguesa, a comunicação social, mormente na extinta publicação do regime – “Diário da Manhã”; Fundação Salazar, Liga dos Amigos dos Hospitais, e outras. Conseguiu assim forte poder e protagonismo tornando-se muito poderoso naquele regime. Uma das suas criações interessantes foi a “Bênção dos Bacalhoeiros”, uma cerimónia anual, que os jornais e televisão davam grande ênfase na partida dos lugres para os mares do Norte. Aquando da revolução do 25 de abril de 1974 fugiu do Quartel do Carmo, disfarçado de “ceguinho”.
Voltando ao bacalhau, também pela Covilhã o fiel amigo surge garbosamente por muitos e variados pratos, quer nas mesas dos restaurantes, quer das casas particulares.
Um deles, que agora se deseja “ressuscitar” – o “Bacalhau à Assis” – com que muitos covilhanenses e outras gentes se deliciaram, até à década de setenta do século passado, tem uma história interessante da sua génese.
E conta Jorge Assis que a receita que tem divulgado, através de tertúlias com amigos, sem qualquer aspeto lucrativo, foi criada por seus pais, Sr. Henrique Maria Assis (A-SI), e D. Rosa Fortuna, há mais de oito décadas, nas Penhas da Saúde – Serra da Estrela, numa pensão – restaurante existente no local onde se situa a casa do montanhismo, os quais, surpreendidos por um forte nevão, lançaram mão dos últimos alimentos que lhes restavam e inventaram esta saborosa receita para saciar umas famílias amigas da Covilhã e Tortosendo com casas ali perto, as quais ainda hoje lá existem.
O que é certo e verdade é que este excelente prato – batizado desde então “Bacalhau à Assis” – não mais deixou de ser confecionado pelo seu autor, na aderência de muitos admiradores, até que desapareceu da mesa dos Covilhanenses, com a saída da Covilhã e posterior falecimento do seu autor – Sr. Henrique Assis – figura que deixou rastos de muita amizade e simpatia, no meio industrial desta Cidade e covilhanenses em geral.
Há alguns anos os filhos, que já não residem na Covilhã (eram oito e estão ainda vivos, o Júlio, Henrique e Jorge) têm vindo a promover uma Tertúlia nas Penhas da Saúde, em setembro, onde se juntam umas boas dezenas de amigos convidados para saborearem, numa de nostalgia, o excelente prato “Bacalhau à Assis”.
Esta receita consta num livro que Maria de Lourdes Modesto publicou sobre as várias ementas de cada zona das províncias portuguesas.
Jorge Assis, o filho, que é quem confeciona atualmente o belíssimo prato, no passado dia 28 de fevereiro, na Casa da Covilhã, em Lisboa, para cerca de 70 pessoas, voltou a alegrar os convivas, aproveitando para fazer um workshop com divulgação da receita e confeção.

(In "Notícias da Covilhã", de 26-03-2015)


18 de março de 2015

NÃO HÁ NADA QUE RESISTA AO TEMPO

Durante este ano de 2015 é celebrado o Ano Internacional da Luz, numa decisão das Nações Unidas. É “o reconhecimento da importância das tecnologias associadas à luz na promoção do desenvolvimento sustentável e na busca de soluções para os desafios globais nos campos da energia, educação, agricultura e saúde”.
Esta decisão da ONU aponta o facto de este ano coincidir com a comemoração de alguns acontecimentos importantes relacionados com a luz, segundo o ponto de vista da história da ciência, como é, por exemplo, um dos mais relevantes, relativos a Einstein, sobre o seu trabalho respeitante ao vínculo entre a luz e a cosmologia no contexto da relatividade geral, acontecido em 1915, pelo que também se comemoram cem anos.
Vão-se comemorando também outros cem anos – os da I Grande Guerra –, e os duzentos da derrota definitiva de Napoleão que deu origem à Europa que a I Guerra Mundial viria a destruir. Para além destas efemérides centenárias, outras se poderiam comemorar. É preciso dar tempo ao tempo, pois daqui a dois anos, por exemplo, será o centenário do nascimento da União Soviética.
Aparece assim o tempo, em variadíssimos significados, onde surgem momentos duma riqueza sem fim, na vida de cada um, ainda que se tenham passado, por vezes, tristes e ledas horas.
E se há um provérbio que diz que “A maior parte do nosso tempo passa-se a passar o tempo”, já Miguel Esteves Cardoso refere que “Quanto mais precisas para viver, mais tens de trabalhar e menos tempo tens para ti. O maior dos luxos é o tempo. O tempo é o meu maior património”.
Há dias regressava com o amigo José Augusto de uma instituição covilhanense, quando, no início da Rua da Indústria, uma forte ventania parecia que nos iria levar pelos ares. Recordei então o tempo em que, com os meus seis anos, algumas vezes me desloquei a pé, após as vinte e três horas, tempo de encerramento da biblioteca municipal, onde meu pai trabalhava, e, com ele, calcorreava os caminhos de terra batida, até à Pousadinha, onde vivíamos. De inverno, por vezes surgia este forte vento que me afrontava, e, logo ali, ao “Senhor de Jesus”, onde existia uma capela com esse nome, e como era conhecido o início da Rua da Indústria, que assim não estava batizada, já se formavam grupos de mulheres de xaile e homens de lancheira na mão, que emergiam das saídas das fábricas de lanifícios. Era o tempo do auge da indústria rainha na cidade laneira, e seus termos, ainda que, para os operários não deixasse de ser de paupérrimos salários.
Mas, lá mais para diante, já decorridos uns dois ou três mil metros, perto da Borralheira, já não havia luz na estrada, a não ser se houvesse luar ou, de vez em quando, os faróis de alguma das poucas viaturas que existiam.
Mas ocorre-nos uma pergunta, agora que já temos todo o tempo livre (nem sempre é bem assim…), depois das reformas em que conseguimos obtê-las em tempo, quanto tempo é que o tempo tem? Li há pouco tempo que tudo o que existe tem 13.800 milhões de anos. É a idade do próprio Universo, o tempo desde o Big Bang, a grande “explosão” criadora de tudo. Que o nosso sistema solar, incluindo a Terra, formou-se há 5000 milhões de anos, tinha então o Universo já 9000 milhões de anos de existência. Mas não obstante tantos números do tempo (ficamos saturados pelo próprio tempo), é-nos referido que as primeiras estrelas nasceram há 550 milhões de anos; e há 700 milhões de anos foram formadas as primeiras galáxias do Universo – incluindo a nossa Via Láctea que tem pelo menos 100.000 milhões de estrelas, uma delas o Sol, que fica num dos braços da espiral. Mais tempo ainda: 9000 milhões de anos foi a formação do Sol a partir de uma nuvem de gás e poeiras, compostas sobretudo por hidrogénio e hélio; sendo que há 10.200 milhões de anos surgiu a vida na Terra, mais exatamente as primeiras células. E, finalmente, como acima já foi referido, há 13.800 milhões de anos surgiu o Universo atual. A sua temperatura, de 270 graus Celsius negativos, está perto do zero absoluto. E aqui estamos nós, a olhar para trás no tempo, através da luz, desde os raios gama às ondas de rádio, passando pela luz visível aos nossos olhos.
E, nesta de tempo falado, vivemos agora outro tempo, depois de termos passado por duas Grandes Guerras, e, durante 13 anos, com início em 1961, as guerras coloniais, ainda com feridas por sarar, e sofrimentos que vão das perdas de muitos jovens militares, e incapacidades permanentes de outros, para o stress pós-traumático que persiste no tempo, dia e noite, sofrimento não só no próprio ex-combatente, como nas famílias com quem convivem.
Chegamos assim a muitos tempos. Os ditos tempos de mudança, que, de mudança, paradoxalmente às intenções propagandísticas aquando das campanhas eleitorais, mais não são que mudança da treta.

É vermos os tempos por que estamos a passar! Que isto de voltamos a falar dos comentários do dia-a-dia, de casos e mais casos, é, como sói dizer-se: tempo perdido! É que, segundo Marcel Proust, “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para o homem”; e, Vergílio Ferreira disse-nos que “O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou”.

(In "Notícias da Covilhã", de 19-03-2015)

10 de março de 2015

FAZ O QUE EU DIGO E NÃO FAÇAS O QUE EU FAÇO

Com tanta tralha de compromissos onde me meti, sem saber dizer não, vejo-me inundado num acervo de documentação, livros, jornais e em todo um mundo de pesquisas.
Não dispenso a leitura quotidiana, a fugir, dos diários online, para além do “Público” da minha preferência, e dos semanários regionais.
Sobre o título em questão, talvez o mesmo também me sirva para enfiar a carapuça.
Mas, já agora, um texto de excelência do amigo Dr. Manuel Bento Fernandes – “ONTEM, HOJE E AMANHÃ – os conflitos de valores” poderá ser lido no próximo número do “Combatente da Estrela”.
Quando menos se espera, para além da amnésia, tantas vezes evidenciada de Cavaco Silva, surge-nos agora o nosso primeiro-ministro, Passos Coelho, a sair-lhe o tiro pela culatra, numa outra amnésia, do registo das já muitas vezes que existem gravações e textos noticiosos, de palavras e expressões enérgicas, na envolvente dos seus discursos da governação.
Mas o fundo da questão marca-se pelo mau exemplo que nos é dado por quem deveria ser o primeiro a impor-se pela sua integridade de caráter, e não no refúgio de desculpas esfarrapadas.
Como é possível que se possa exigir, a um simples cidadão contribuinte, o pagamento dos seus impostos e contribuições quando é o primeiro-ministro de Portugal que não dá o exemplo?
E não serão os seus apaniguados que, com subterfúgio, irão fazer levantar o véu da névoa que ensombra a reputação de um político de primeira apanha.
O primeiro-ministro contraiu uma dívida na Segurança Social (SS) por não ter efetuado descontos durante cinco anos, quando foi trabalhador independente. E diz que nunca teve conhecimento de qualquer notificação que lhe tenha sido dirigida dando conta de uma dívida à SS. Contribuiu agora, voluntariamente…para a sua carreira contributiva, liquidando 2.880 euros, acrescido de juros de mora, mas o “Público” refere que o valor total a pagar ascende aos sete mil euros. E se fosse um cidadão comum que devesse as prestações duma casa? Certamente já lhe teriam penhorado o imóvel.
Recentemente circulou nas redes sociais um vídeo do congresso do PSD de fevereiro de 2014 em que Passos afirma: “Há muitos que deviam pagar os seus impostos e não pagam. Porquê? Porque não declaram as suas atividades. Ora nós temos a obrigação de corrigir estas injustiças (…)”.
Pois é, Sr. Primeiro-Ministro, é por estas, e por outras, que os de mais débeis rendimentos pagam as favas; e que, segundo as notícias vindas a lume, “Bruxelas vigia Portugal por excesso de “desequilíbrios macroeconómicos”. E, ainda de Bruxelas, vem o aviso, de que o esforço feito com a troika (palavra maldita!) não chega.
Tornar-se-ia fastidioso repetir o que toda a gente já conhece, de figuras da política, e não só, na destruição deste pobre País, através de várias formas, vergonhosamente, subtilmente, gananciosamente, numa avareza sem limites, tantas vezes com o fecho dos olhos de homens da justiça, alguns que até pareciam não se lhe poder tirar um cabelo.
Mas… naquela do “faz o que eu digo mas não faças o que faço”, os senhores do poder lá vão fazendo ouvidos de mercador aos problemas da sociedade e às lamúrias do povo que os colocou no poleiro. Depois, são as vicissitudes: da revolta ao desespero, do roubo ao assassinato, do pedido de socorro constante ao sofrimento impensado, num rol de situações jamais previsíveis há uns anos bons anos a esta parte.
É que os partidos têm os mesmos princípios ostensivos, dizendo e fazendo uma coisa na oposição, mas depois outra no poder.
A esperança encontrava-se então no socialista António Costa, mas, devagar, devagarinho, foi entregando os seus trunfos ao adversário, que até já se prazenteia, no resultado das sondagens, com expressões como as “daqueles que estão agora a perceber que as legislativas, afinal, “podem não ser um passeio”. Senhor de uma personalidade televisiva forte, António Costa, após o seu estado de graça, conseguiu em poucos dias mediatizar-se em dois empecilhos vermelhos – o Benfica e a China. No primeiro caso, o perdão de milhões de euros das taxas que o Benfica deve por obras do Estádio da Luz; no segundo, ao referir uma frase abrasadora, impensada num político deste jaez, perante uma plateia de chineses que celebravam o ano novo chinês, agradeceu aos investidores que acreditaram no país e deram “um grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na situação em que está, bastante diferente daquela em que estava há quatro anos”. Politicamente logo surgiu a imagem que ainda passa e que é a de um António Costa que diz uma coisa aos chineses e outra aos portugueses. Com esta conduta, o socialista, fundador do PS, Alfredo Barroso, utilizou as redes sociais para anunciar que se desvinculou do partido. E, como diz Manuel Carvalho, no “Público”, “Os socialistas que, depois de correrem com António José Seguro, já tinham encomendado as faixas da vitória nas legislativas começam a dar conta de que enterraram o Governo cedo de mais”.
O que é certo é que Portugal continua pobre, voltando, pasme-se, aos níveis de pobreza de há dez anos.
E, por último, temos Sócrates, num avolumar de novas acusações, batendo o record das mesmas dum político em Portugal. Enquanto isto, surgem as exigências de alguns amigos que pretendem a sua libertação. Não fazendo qualquer juízo de culpabilidade ou inocência, a verdade é que, sobre ele, impendem muitas acusações. Será que conseguirá sair ilibado na sua generalidade? E se for verdadeiramente culpado, o que dirão, a posteriori, os seus fervorosos apaniguados?
O que dizer do enriquecimento ilícito quando se alastra a pobreza em Portugal, e, muita dela, a pobreza envergonhada?

Há que pôr cobro a esta calamidade (mais uma!), que não deixa de o ser, num chico-espertismo de bradar aos céus.

(In "fórum Covilhã", de 10-03-2015)

11 de fevereiro de 2015

NESTE TEMPO DE INVERNO

UF! Tem estado um frio de rachar! Nuns dias de chuva e vento, foi um autêntico barbeiro. Guarda-chuvas deixados pelas ruas fora. Passos apressados para casa, neste frio para burro.
E assim vamos indo com as notícias que nos chegam no dia-a-dia: já pouco surpreendentes, chatas, repetitivas, pouco consoladoras. Umas, do Syriza e o seu “cavalo de Tróia”; outras, socráticas eborenses; ou ainda da russofilia ou da barbárie jihadista, sejam lá do Estado Islâmico, Al-Qaeda ou Boko Haram, tudo metido no mesmo saco, podendo dar origem a uma islamofobia.
E, no preenchimento do espaço de comunicação social, quantas vezes a mesma notícia, com o José Rodrigues dos Santos dando-lhe ênfase como se fosse produzida no momento, já transmitida na véspera, à mesma hora.
Que, cá nisto de cultura, basta falar na Prova de Avaliação de Conhecimento e Capacidades dos professores, onde os “erros ortográficos ou de sintaxe são dificilmente aceitáveis num professor”, segundo admite Paulo Guinote. Ou então a falta de controlo do ensino em colégios privados com a atribuição de notas, aos alunos, indevidamente altas. Isto faz lembrar as célebres “Novas Oportunidades” com casos de atribuição de diplomas do 9º e 12º ano a alunos sem saberem patavina, num ápice, conseguindo as novas “aptidões” em menos de seis meses. E esta, heim!…
Recordaram-se algumas efemérides, como não podia deixar de ser, entre outras, os 50 anos da morte de Churchill, e os 70 anos da libertação de Auschwitz, nome que é um símbolo do maior crime cometido contra a humanidade, isto já em janeiro.
E, quanto a desporto, o nosso maior Ronaldo merece, de facto, grande destaque no seu reinado futebolístico.
Sou entretanto do contra no que concerne ao Figo na liderança da FIFA. Estou de acordo com a opinião do jornalista João Miguel Tavares, do Público, quando “Nós não podemos continuar a viver num país onde as pessoas são apanhadas em manobras de ética altamente duvidosa e fingimos que nada aconteceu”. O facto de ter sido um futebolista admirável, cheio de talento, e também rei do futebol, antes de Ronaldo, esteve longe de ser acompanhado por uma postura fora do campo acima de quaisquer suspeitas. Os problemas começaram logo no início da carreira ao assinar contratos, em simultâneo, com o Parma e a Juventus, punidos pela UEFA; foi muito mal explicado o seu envolvimento no caso Taguspark, num acordo milionário; depois, o apoio à candidatura de José Sócrates, mal explicada e não convincente. Por isso, não pode Figo criticar a atuação dos dirigentes atuais da FIFA.
E, em tempo de inverno, as notícias quentes vieram primeiro do desmemoriado Aníbal, o qual já nos habituou às suas petas. Então, Senhor Presidente, eu fui um dos que ouviu vossemecê dizer, nos canais de televisão, que no Banco Espírito Santo tudo corria no melhor dos mundos, e vem depois botar palavra, enervado, negando aquilo que está gravado, por mor de enganar o Zé? Toma!
E, com tal força o Zé fez o seu manguito, que, na Assembleia da República, Paulo Macedo se viu na obrigação de lhe fornecer o medicamento inovador, e a todos os doentes com hepatite C, deixando assim de estar na fila para morrer.
E, se algum bálsamo pudesse vir agora do Palácio de São Bento, reflexo dos acontecimentos na Grécia, para amenizar as dificuldades do bom povo português, pelo sofrimento com os ventos cortantes nos salários, pensões e aumento do custo de vida, vem, Passos Coelho, o filósofo moral, com o seu “Conto de Crianças”, referindo o faltar aos compromissos dos gregos, quando, afinal, o faltar a compromissos é do que o Primeiro-Ministro português menos pode falar. Mas não ficamos por aqui, e, depois de chutarem para a estranja os jovens cérebros desta portugalidade, surgem, num balde de água fria, as palavras do Ministro Marques Guedes, recorrendo à fábula: “A diferença entre a Grécia e Portugal lembra a história da cigarra e da formiga”.
Enfim, como se fossem o primeiro-ministro dos resultados fantásticos e o ministro Pires de Lima do sucesso económico.   

Isto faz lembrar o fado cantado por Amália, da formiguinha, letra de Alexandre O’Neill: “Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha. Assim deveria eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder. Assim deveria eu ser: de patinhas no chão, formiguinha ao trabalho e ao tostão. Assim deveria eu ser se não fora não querer”.

(In "Notícias da Covilhã", de 12-02-2015)

10 de fevereiro de 2015

AGRADAR A GREGOS E A TROIANOS

Está na ordem do momento. Há sempre um tema para uns dias, umas semanas ou uns tempos. Por vezes, seguem em paralelo, assuntos diferentes.
Foi o caso Sócrates que, lá por isso, não deixou de se falar nas sandices de Passos ou na decrepitude de Cavaco.
Mas, por ora, são as notícias do novo governo grego, sem que, na simultaneidade, não deixem de nos sobressaltar os assassínios do auto intitulado Estado islâmico.
Não é da Grécia antiga, da civilização helénica, de Esparta ou das cidades-estado, de Leónidas, Clístenes, conhecido como o pai da democracia, Platão, Péricles, Fídias, Címon, Alexandre “o Grande”, Míron, Pitágoras, Sócrates (filósofo), Aristóteles, ou outros com que outrora me deliciava a estudar, que se fala atualmente.
Quem diria que a Grécia da atualidade iria passar por enormes dificuldades económicas e políticas, um país que hoje parece nada ter a ver com a sua antiguidade?
Em Atenas, onde já estive, o povo é simpático; e é encantador ver parte da monumentalidade e história gregas.
No século XX, meses antes de ir para o serviço militar obrigatório, ainda me recordo de dar conta do fim da monarquia na Grécia. Na antiga biblioteca municipal, ao jardim público, lia os jornais diários. O último rei, Constantino II, surgia então na revista Flama, para o seu exílio, em dezembro de 1967. Era irmão da rainha Sofia, de Espanha. Depois, surgiria a ditadura militar, até 1974.
A Grécia foi o segundo país da Terceira Vaga de democratização mundial – que Portugal inaugurou em 25 de abril de 1974, sendo seguido pela Grécia, em 18 de dezembro desse mesmo ano, e depois por Espanha.
No dia 25 de janeiro de 2015 dá-se a grande reviravolta na política grega, já esperada, com a vitória do partido da esquerda radical Syriza; e Alexis Tsipras forma de imediato governo, chamando para as Finanças, Yanis Varoufakis. Toma logo decisões importantes para o povo grego e empreende deslocações a vários países da União Europeia (UE). A Grécia bate o pé mas a UE mantém-se unânime nas sanções contra a Rússia.
Como interpretar os resultados das eleições na Grécia? O primeiro gesto oficial do novo primeiro-ministro grego foi receber, de facto, o embaixador da Rússia, e, pouco depois, o embaixador da China, pelo que deveria ser o suficiente para focar as nossas mentes.
Segundo Pacheco Pereira, trata-se de “um primeiro-ministro que é mal-educado e não sabe vestir a roupa própria para cerimónias protocolares”. Realmente, surge sempre sem gravata, mas, atenção, meu caro José Pacheco Pereira, Alexis Tsipras prometeu usar uma gravata azul que lhe foi oferecida pelo italiano Mateo Renzi, quando houver uma solução viável para a Grécia.
No início desta crise, que redundou na situação a que chegou a Grécia, chamaram-nos “porcos” – PIIGS: Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, sendo que os gregos foram decerto os mais desdenhados de nós. No entanto, tal crise também nos uniu, olhando assim para as eleições uns dos outros, tendo em conta ver nelas os sinais do nosso futuro. “O Conselho Europeu vai ter de passar a entender com naturalidade que um dos seus membros passe a ser um dos principais críticos das suas políticas”, nas palavras de Rui Tavares.
Qualquer solução, qualquer saída que venha a ser encontrada para a Grécia irá refletir-se em toda a União Europeia. O que é certo a banca grega está dependente do financiamento do Banco Central Europeu, pelo que uma atitude de hostilidade face ao BCE poderá ser o fim para os gregos, levando ao colapso da economia e à saída da Grécia do euro.
Mas se surgir boa vontade no encontro da disposição de tolerância e paciência, para além da cooperação de todos os parceiros europeus, será mais fácil esta crise se resolver, e todos virem a sair mais fortes dela. Conforme pretendem os gregos, e certamente também os troianos, ligar o pagamento da dívida grega ao crescimento económico do país é uma questão de bom senso. Também alguns pensam que, em simultâneo, seja alargada a outros países da zona euro, com dívidas grandes, como Portugal.
No caso da Grécia, penso que os credores deveriam preferir receber menos e de forma mais segura do que ter o valor da dívida elevadíssimo e, assim, a perigosidade de um dia os devedores invocarem da impossibilidade de virem a satisfazer os seus compromissos naquele grito de “É impossível!”
Vamos também ver se este governo de gregos e troianos não vai, mais tarde ou mais cedo, levar a uma instabilidade política que conduzirá a novas eleições gregas dentro de meses, tendo em conta os dois partidos que representam, diametralmente opostos, radicais, um da esquerda e o outro da direita.
Todos dizemos que a Europa tem de mudar mas o Governo português está estranhamente ausente, se atentarmos que todos nós pagamos uma montanha de impostos e juros. E isto enquanto tivermos um primeiro-ministro que parece muito mais ser um funcionário clandestino do governo alemão do que um cidadão português num lugar do topo do Estado, que vai cumprindo servilmente só aquilo que Merkel está obstinadamente interessada, isto é, o cumprimento, na brutalidade, dos défices deste País.
Lembrem-se os senhores da Europa que foram os gregos que inventaram a democracia na Antiguidade, pelo que, neste terramoto político, surjam consensos, ainda que saídos do laboratório grego, tendentes a beneficiar gregos e troianos, porque todos são filhos de Deus.

Mas, quem sou eu para fazer vincar estes desejos, se por vezes me vejo grego para entender certas condutas, para além da Europa, no seio dos próprios governantes portugueses?

(In "fórum Covilhã", de 10-02-2015)

14 de janeiro de 2015

CHARLIE HEBDO

Esta é a minha primeira crónica do novo ano. Como habitualmente costuma desejar-se um ano de venturas e dá-se ênfase à esperança por melhores dias.
Contudo, na altura em que escrevo este texto, neste domingo, 11 de janeiro, está terminando a grande manifestação naquela que é, nesta altura, a capital do mundo – Paris. Mais de um milhão de pessoas, de vários países, ali desfilaram, incluindo 50 chefes de Estado de todo o mundo, numa contagem cujos números ainda não são exatos.
O terrorismo é uma arma que os bárbaros utilizam, evocando quase sempre a “sua” religião, mas cujos preceitos dessa religião nada cumprem na sua essência. Neste caso, a ação foi reivindicada pela Al-Qaeda do Iémen.
O massacre do Charlie Hebdo foi um atentado terrorista que atingiu o jornal satírico francês, com aquele nome, no dia 7 de janeiro, em Paris, resultando em doze pessoas mortas e cinco feridas gravemente, entre as quais cinco cartunistas daquele periódico. No mesmo dia, ainda ligado a este atentado, um outro assassino matava uma polícia, e, no dia seguinte, invadindo um mercado, fazendo reféns, surgiam mais quatro mortes.
O mundo tremeu, mas, sem medo, a França reagiu contra os homens do diabolismo e eliminou-os.
Não muito tempo depois do ataque, milhares de pessoas reuniram-se em Paris e, defendendo a liberdade de expressão, exibiram placas com os dizeres “Je suis Charlie”. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro portugueses condenaram o atentado e disseram que foi um ataque contra os valores europeus e democráticos.
O próprio chefe do Hezbollah xiita libanês considerou que os combatentes islamitas radicais (“jihadistas”) espalhados pelo mundo fazem mais mal ao Islão do que as publicações que gozam com Maomé, embora sem mencionar o massacre na Charlie Hebdo.
E, mais palavras para quê, se elas fossem sentidas na profundidade? Pois ainda se referia que “Através dos seus atos imundos, violentos e desumanos, estes grupos atingem o profeta e os muçulmanos mais do que os seus inimigos (…), mais que os livros, os filmes e as caricaturas injuriosas para o profeta”, acrescentou o chefe do Hezbollah, Hassan Nasrallah. Este dirigente xiita aludia ao célebre romance controverso de Salman Rushdie, “Os Versículos Satânicos”, que motivou uma fatwa emitida pelo aiatola Khomeini, em 1989; ao vídeo anti Islão “A Inocência dos Muçulmanos”, que causou violentas manifestações no mundo muçulmano em 2012; e às caricaturas de Maomé publicadas por um jornal dinamarquês em 2005 e republicadas pelo semanário Charlie Hebdo.
Este caso dominou as capas e os editoriais de todos os jornais e sites de referência em França, e em grande parte do mundo, incluindo Portugal.
Charlie Hebdo é um jornal (é porque ainda continua vivo) contra todos há 45 anos, nascido em 1970, que respondia a ameaças com renovadas provocações. A gabarolice dos estúpidos assassinos quando gritaram “Matámos a Charlie Hebdo” foi em vão, pois o jornal continua e eles desapareceram para sempre. Depois do atentado de 2011 que destruiu a redação, a primeira página decretava que “o amor é mais forte do que o ódio”. No entanto, há órgãos de informação que se recusam a publicar as caricaturas do jornal francês. A liberdade com que o Charlie Hebdo testa semanalmente os limites da sátira nunca foi do agrado de todos, nem mesmo de todos os meios de comunicação social que se solidarizaram com o jornal francês após o violento ataque.
Depois de tudo isto que se passou tem que se reforçar o combate ao ódio e defender a liberdade. “É preciso não ceder à repugnante chantagem do terror. E transformar o seu ódio na sua derrota” – Público de 08.01.2015, que prossegue: “Tal como sucedeu após o 11 de setembro, é importante não desviar o foco do essencial. E o essencial é a defesa incondicional da liberdade contra o terror, o medo e a violência de toda a espécie de tiranos, islâmicos ou não”.
Resta agora perguntar o que iremos fazer, no imediato, para já não dizer eliminar, mas reduzir, os efeitos deste terrível vírus que há muitos anos infeta a humanidade a vários pretextos e que dá pelo nome de fanatismo?
Um Feliz Ano Novo.

(In "Notícias da Covilhã", de 15-01-2015)

13 de janeiro de 2015

SELFIEMANIA

Primeira crónica do novo ano de 2015. Como tal a esperança por melhores dias. Um bom ano para todos.
No meu contacto com os jornais, onde completei 50 anos de escrita nos finais do ano anterior, verifico que é também usual, nesta altura, referir os principais factos que marcaram o ano precedente, ou aquilo que se espera na futurologia para o novo ano.
Como estamos em ano de eleições, direciono este texto para outro tipo de escolha, já que nos iremos fartar de sufrágios, tal como nos saturámos do bacalhau pelo Natal.
A Porto Editora revelou a semana passada que entre as palavras do ano 2014, eleitas pelos portugueses, está o termo selfie que se assumiu como uma verdadeira tendência.
As selfies, autorretratos capturados com a câmara de um telemóvel, ganharam tanta relevância em 2014, que ao longo do ano os smartphones lançados pelas diversas marcas viram reforçada a qualidade das câmaras frontais e o termo passou a estar frequentemente associado às principais caraterísticas dos dispositivos.
Ao longo do mês de dezembro a Porto Editora levou a votação um conjunto de 10 palavras que marcaram 2014 e pediu aos portugueses que votassem e ajudassem a eleger as mais marcantes. O termo selfie acabou em terceiro lugar, sendo que a palavra mais votada foi o termo corrupção, e, a segunda, a palavra xurdir.
Cada época tem suas modas e caraterizam-se por particularidades entre outras. A crescente velocidade a que se sucedem e a frequente intervenção nelas das novas tecnologias deve-se ao dinamismo e à grande visibilidade dos meios de comunicação, e às redes sociais, convertidas muito depressa em obsoleto quando há ainda muito pouco tempo eram novidade.
A selfie é quiçá a moda de maior seguimento popular dos últimos meses, e em particular do último verão, quando a mesma se converteu num hábito generalizado.
De tal forma que tem dado lugar a algumas variedades de selfie que comportam autêntico risco, nalguns casos mortais para os seus intrépidos.
Entre as variedades estão as realizadas por todos os que, não contentes com fotografar-se na rua ou na praia, se empoleiram em gruas para obter fotos de impacto. Ou aqueles que as tiram quando conduzem uma viatura.
Os casos referidos nos jornais, como vítimas mortais, convidam a refletir. A primeira reflexão nos sinaliza que está havendo um uso deficiente das novas tecnologias, cujo potencial é elevado. Neste caso, como instrumento narcisista, o insensato resulta dececionado. O exemplo de famosos e celebridades, no seu rol de figuras dos nossos dias, têm o seu lado obscuro: a ânsia de obter certa notoriedade, ainda que transitória, fascina milhões de pessoas e as induz a imitações que comportam a assunção de riscos desnecessários.
Entretanto, em finais de 2013, a companhia The Oxford Dictionaries, que elabora prestigiosos dicionários de inglês em versões impressas e online, acordou que a palavra do ano havia sido selfie. Foi uma das eleições mais fáceis. A própria companhia de dicionários indicou em dezembro daquele ano que a palavra tinha numerosos derivados, como helfie (foto de cabelo), belfie (do rabo), welfie (de treino) e drelfie (de bêbado).
Em poucos meses, as selfies evoluíram em novos tipos de autografias e também as palavras com que se denominavam:
Skywalking (em gruas, arranha-céus, pontes, edifícios emblemáticos de grande altura); Feetfie (fotografias de pés); Sexfie (Auto-fotos feitas depois de manter relações sexuais); Techefie (autorretratos que as máquinas fazem de si mesmas); Estátuas (Em alguns museus); Felfie (Com animais); Axilas (autofotografia de cara em que também se vê uma axila com pêlo, na China); Carfie (Dentro de um automóvel a circular); Underboob (entre raparigas, subindo a camisete de forma que se vislumbra a parte inferior dos seios); Notícias (Num lugar de notícia); Dronie (com os pequenos drones voadores); Brifie (de pontes); Beardie (Homens com barba); Acidentes (aquando de acidentes).
As fotografias no chamado estilo selfie existem há anos, porém foi só recentemente que elas adquiriram esse nome específico. Sempre existiram aquelas fotos exageradas ou forçadas. Houve fotos que foram registadas instantes antes de pessoas morrerem.
De tanto que se tem passado nos bastidores da política portuguesa, só falta, de facto, surgirem as selfies no parlamento, na presidência da República, no Palácio de São Bento.
Termino com este neologismo, esperançado que, segundo o “Juízo do Ano” do Borda d’Água, “Júpiter irá acompanhar a nossa trajetória em 2015”, que “O ano será calmo e amistoso, dando privilégios às amizades” e que “A presença de Júpiter favorece os entendimentos e as negociações no campo político, económico e social”… ou seja, tão só um excessivo otimismo dum velho almanaque.

(In "fórum Covilhã", de 13-01-2015)

FALECEU SUAREZ, VELHA GLÓRIA DO SPORTING DA COVILHÃ

Suarez, que alguns amigos o tratavam por Picho, faleceu aos 84 anos, no passado sábado, 10 de janeiro, em São Paulo, Brasil, após prolongada doença,
Vitoriano Suarez Montero foi um dos melhores dianteiros do Sporting Clube da Covilhã (SCC), ele que veio do Hércules de Alicante para o clube serrano na época de 1955/56, com o clube então na Primeira Divisão Nacional.
Logo nessa primeira época foi o melhor marcador dos serranos com 21 golos em 24 jogos, para, na época seguinte, continuar nessa posição, com 19 golos marcados em 25 jogos realizados.
Surgiu então a final da Taça de Portugal, com o SCC a defrontar o Benfica, no Jamor, onde esteve Suarez, tendo sido o que mais golos marcou na Taça de Portugal, com 15 golos. Foi, inclusive, o primeiro melhor marcador de todos os tempos, na Taça de Portugal, só vindo a ser igualado pelo Iaúca, do Belenenses, em 1962; e, depois ultrapassado pelo Eusébio, do Benfica, em 1969, com 18 golos, o melhor marcador de todos os tempos até aos dias de hoje, sendo que Mascarenhas, do Sporting, foi o segundo melhor, com 17 golos, em 1963.
Na época de 1957/58 os Leões da Serra baixaram à II Divisão para logo subirem, e, aí, de volta, Suarez continuou a ser o da frente em golos dos serranos: 12 em 22 jogos, em 1958/59 e 14  em 26 jogos, na época seguinte, tendo então perdido a liderança na época 1960/61, altura em que saiu do
clube.
Nasceu em Redondela (Espanha), nos arredores de Vigo. Depois de jogar em vários clubes, quer no seu país quer em Portugal, foi viver para São Paulo, no Brasil.

Depois do SCC ingressou no Belenenses. Passou ainda pelo Vitória de Setúbal e Salgueiros.
Em 1964 estreou-se como treinador no Desportivo de Beja, prosseguindo depois no Lusitano de Vila Real de Santo António.
Em 1969 regressou a Espanha treinando uma equipa da 3.ª divisão na Galiza, e, de seguida, mais perto de sua casa, dois clubes, de Vigo e de Orense, bem como o Santiago de Compostela.
Em 1980, com 50 anos, deixou a sua carreira desportiva, partindo para o Brasil a fim de se dedicar aos negócios.
Aquando das Bodas de Diamante do SCC, realizadas em junho de 1998, Suarez esteve na Covilhã, tendo-se deslocado propositadamente do Brasil, a convite do clube serrano, onde foi homenageado, conjuntamente com outros seus colegas, nomeadamente o também já falecido Cabrita.

Paz à sua alma.

(In "Tribuna Desportiva", "fórum Covilhã" e "Notícias da Covilhã")

19 de dezembro de 2014

50 ANOS A ESCREVER NOS JORNAIS

Completou meio século, no passado dia 14 de novembro deste ano da graça de 2014, que comecei a escrever no primeiro jornal - Notícias da Covilhã -; depois, já foram mais de duas dezenas, entre jornais, revistas e boletins, de âmbito regional ou mesmo nacional, e, entre eles, algumas referências no espanhol El Adelanto; Urbi et Orbi, da UBI; Record, A Bola, O Jogo, Diário de Notícias,  e referido ainda nos livros "Escritores do Concelho da Covilhã, A Paixão do Povo - História do Futebol em Portugal e Desportos & Letras, estes os que me recordo.
Atualmente tenho o prazer de ainda poder escrever regularmente nalguns deles (Notícias da Covilhã, fórum Covilhã, O Olhanense, Combatente da Estrela, Boletim Informativo da Casa da Covilhã, Boletim Português da Sociedade de São Vicente de Paulo, Ecos da APAE, e, outros, de quando em vez, como o Notícias da Gouveia, Vida do Trabalho, Portas da Estrela, Gazeta do Interior, O Interior, Vida Económica, Jornal do Fundão, Revista Liberty em Acção e Notícias Magazine); outros ainda, onde escrevi, já passaram somente para memórias porque desapareceram como os humanos, entre eles Fronteiros da Beira (durante o meu serviço militar), Já Agora, Diário XXI, Kaminhos e Essencial Seguros.
Dou graças a Deus por me manter ainda ativo.
Aqui vão alguns dos primeiros textos in illo tempore. Entre eles, para os saudosistas, do tempo do serviço militar, e a informação do "Fronteiros da Beira", do RI 12, da Guarda, com os nome de alguns ex-Colegas de armas que ainda possamos recordar, entre oficiais e sargentos, e, o último, com a informação da minha passagem à disponibilidade... Mais tarde, já na disponibilidade, promoveram-se a 2.º Sargento Miliciano.














RESSURGIMENTO

Lá vai o tempo em que o provável último número do “Boletim da Casa da Covilhã”, vindo à presença dos leitores no mês de Julho do ano da graça de mil novecentos e quarenta e nove (tinha eu três anos), como número único, fazia menção em que ressurgia “O Boletim”, completamente reformado e melhorado no seu aspecto gráfico e literário que se havia deixado de publicar em Junho de 1947”. E, como editor, aparecia o nome do Presidente da Casa da Covilhã, Dr. Francisco Ranito de Almeida Eusébio.
Referia-se ainda este Boletim às comemorações das Bodas de Prata da Casa da Covilhã. Aqui começa o busílis da questão.
Tendo as Bodas de Prata sido comemoradas em Junho de 1949, a fundação da Casa da Covilhã, então ainda designada por Grémio Covilhanense, obviamente que teria de ocorrer em Junho de 1924.
E sobre esta data se referiu José Mendes dos Santos, no seu livro “Breve História Cronológica da Covilhã”, na página 81: “1924 – Junho – Data em que foi fundada em Lisboa por um grupo de 47 covilhanenses ali residentes, o Grémio Covilhanense, actual Casa da Covilhã, com sede na Rua do Benformoso, 150-1.º. Trata-se de uma agremiação vincadamente regionalista que na Capital tem pugnado pelos interesses da Covilhã e sua região”.
No preâmbulo do Boletim a que nos referimos, subscrito pelo Presidente da Direção da Casa da Covilhã, Dr. Francisco Eusébio, lá surgem os nomes dos 47 fundadores, a quem a Direção da Casa da Covilhã prestou homenagem, a saber:
Gaudêncio Pereira Neves, Dr. Alberto de Campos Andrade, João Pereira Saraiva, António Laranjinha, António Figueiredo dos Santos, António dos Santos Barata, António FerreiraJúnior, Américo Rocha Castanhinha, Joaquim Carapito de Morais, António Pereira Neves, José Antunes dos Santos, João Antunes dos Santos, Fernando António Lopes, Alfredo Tomé Mendes, Francisco Laranjinha, Alberto Inácio da Costa, Mário Cardona Quintela, Germano Anselmo Prazeres, António Antunes dos Santos Júnior, Eduardo Laranjinha, António Ramalho, Jerónimo da Silva Aguiso, José Augusto dos Santos, Francisco Ferreira Bicho, João de Jesus Freitas, Manuel da Costa Estrelado, Manuel de Almeida Muxagata, José de Almeida Bonina, João Horácio dos Santos, Luís dos Santos, João Andrade, José Nunes da Cruz, Joaquim Augusto dos Santos, João Carapito Donas, José Nobre Montez, Mário Dias Fiadeiro, Guilhermino de Almeida Barros, Aníbal dos Santos Lino, José Casimiro Quintela Júnior, José Bernardo Gíria, João de Carvalho Pedroso, José Ferreira Grácio, António Gomes de Lemos Cardoso, Benevides de Almeida Pinto, António Serrano, José Ribeiro e João Cardona Quintela.
Mas, como havia cantado António Mourão, no seu fado “Ó Tempo volta p’ra trás”, a Casa da Covilhã viu oficialmente a data da sua fundação “reduzida em cinco anos…”, pelo que, a sua verdadeira idade, neste final do ano 2014, é ainda de 85 anos!
Efetivamente, com base numa certidão do Governo Civil de Lisboa – 3.ª Repartição –, com data de 5 de Janeiro de 1929, refere que “N’esta data foi auctorisado o funcionamento da sociedade de recreio denominada Grémio Covilhamense. A sua séde é na Rua da Mouraria, 24-1.º e os seus fins são regionalista, instrutivo e recriativo”.
Volvida uma década, mais propriamente no dia 26 de Janeiro de 1939, a sede mudou-se para o Largo do Caldas, n.º 8, e, em 28 de Outubro o Grémio Covilhanense passou a chamar-se Casa da Covilhã.
Entretanto, voltaria a ter nova mudança da Sede, e esta a última, ou seja, para o local onde se encontra instalada atualmente, na Rua do Benformoso, 150-1.º B, desde 1 de Julho de 1940.
Cabe-nos agora referir que esta instituição regionalista, que representa o Concelho da Covilhã na cidade alfacinha, teve altos e baixos e, durante muito tempo viveu de grandes dificuldades de operacionalidade, com escassez de atividades ou mesmo quase nulas, por falta de obreiros capazes de ombrear com as tarefas difíceis de representatividade, não obstante as suas boas vontades e sacrifícios; e, por outro lado, os fracos recursos financeiros, a par de um edifício-sede altamente degradado e a necessitar de obras.
Em boa hora, surgiu, neste últimos anos, uma dinâmica equipa liderada pela tenacidade do Covilhanense António Vicente, que não só “inventou” propósitos para a recuperação do edifício-sede, resolveu contenciosos com o senhorio, como também intensificou semanalmente a união dos Covilhanenses radicados em Lisboa, e não só, em redor de almoços semanais.
Variadíssimas atividades têm surgido, sempre com um grande entusiasmo, como a “Réplica da Feira de S. Miguel”, Fados, Conferências, Exposições, Convite a Personalidades Covilhanense do mundo da cultura, como artistas Covilhanenses, e outras mais que não enumeramos para não sermos fastidiosos.
Nesta dinâmica se insere uma certa vontade, jamais vista outrora, de um avolumar de gentes covilhanenses, conhecedoras agora das atividades da Casa da Covilhã e desejosas de lhe fazer uma visita.
Depois, ainda que nada tenha de ligação com a Casa da Covilhã, mas implicitamente oriundo da mesma, a criação de um grupo denominado “Antigos Alunos da Covilhã”, ou seja, voluntariamente, a identificação de todos quantos desejem juntar-se aos Colegas de outrora, dos tempos do antigo Liceu Frei Heitor Pinto, Escola Industrial e Comercial Campos Melo e Colégio Moderno, e os das novas designações.
Para terminar estas linhas, queria tão só registar que no dia 18 de Junho de 1949, na Sessão Solene comemorativa da passagem do 25º aniversário (“Bodas de Prata” adiantadas num lapso temporal, na indução de um erro que desconhecemos, possivelmente tendo em conta de alguma Comissão Pró-Agremiação), “inaugurou-se, festivamente, mais uma Estante da nossa Biblioteca”.
Esta biblioteca da Casa da Covilhã passou a funcionar, naquela altura (1949), todos os dias úteis, das 21 às 23,30 horas… o que hoje é impensável, pensamos.
Fica, no entanto, aqui, um ponto de partida, para que das várias ações já desenvolvidas pela Casa da Covilhã, seja encontrada forma de reabertura da Biblioteca, o que é uma pena não poder ainda estar disponível para consulta das várias obras, muitas delas de escritores covilhanenses.
Sabemos que não é fácil, mas com a alma dos Covilhanenses radicados em Lisboa, com assento no elenco diretivo da Casa da Covilhã, e outros eventuais colaboradores, tudo farão de contento porque são Gente da Nossa Gente.
Resta-nos desejar a todos os elementos dos Corpos Gerentes da Casa da Covilhã e a todos os Associados e suas Famílias, um Feliz Natal e um 2015 próspero.
JOÃO DE JESUS NUNES (Sócio n.º 133)