20 de junho de 2016

DUAS EXCELENTES EFEMÉRIDES

Chegar à longevidade, nos tempos que correm, já não nos leva à estupefação. Isto no que concerne ao tempo das nossas vidas, com uma duração mais longa, apesar de surgirem muitas exceções nos caminhos de todos nós.
Já fora da generalidade deste bem humano que, duma forma mais ou menos global, podemos vir a beneficiar, dependendo também de vários fatores, muitos deles na dependência dos homens, vamos encontrar outros bens, estes patrimoniais, que podem transcender para uma parte do imaterial.
E é esse património que, para se manter firme como rocha, se torna necessário que os homens do leme consigam manter o barco a flutuar em águas tranquilas, procurando dissipar as tempestades que agitam a navegação. Assim, para o prolongar dessa vida, as instituições têm que contar com o trabalho empenhado daqueles homens de rija têmpera.
E, numa dualidade desse empenhamento, para o seu bem comum, aí se contam os órgãos possuidores das veias de comunicação, do sentir das suas gentes, exprimindo no papel, ou agora nas redes sociais, que, num ápice, chegam duma ponta à outra do mundo, a transmissão noticiosa, e de âmbito cultural, do que se passou, na memorização doutrora, no que hoje se faz e conjeturas para o amanhã. Algumas vezes se terão que passar por tristes e ledas madrugadas.
Ter nascido antes de se terem completado três décadas do surgimento do futebol em Portugal, e permanecendo até aos dias de hoje, com sintomas de muita vida, é sinónimo de ter despontado uma Coletividade com pergaminhos desde os seus primórdios, enraizada naquele nobre povo, nação valente, evocada por Luís de Camões.
Assim o foi demonstrando, ao longo de mais de dez décadas de história, para o esplendor das gentes algarvias, e de Portugal, o Sporting Clube Olhanense.
Tendo já apagado as 104 velas aniversariantes, vão os nossos votos, dos lados de cá da Serra da Estrela, para que possa continuar a caminhar fora dos meandros do emperramento e que muitas glórias venham possibilitar o acender de novas luzes, com o empenho dos heróis do mar.
Não será menos importante enfatizar o papel daquela forma de expressão que carateriza os meios de comunicação social a que se dá o nome de jornalismo.
E é através das páginas da publicação periódica do jornal “O Olhanense”, ainda que a forma em papel, na sua generalidade se confronte com a afronta dos online, que os leitores podem desfrutar de grande fulgor cultural, quinzenalmente. Também para ele, e os seus heróis do mar, nas suas 53 primaveras, sinceros votos de continuidade de longa vida, transmitindo o que de bom têm merecido as suas páginas.
O tempo passa numa correria louca, e, como “a vida é um ai que mal soa”, na voz poética de João de Deus, também tenho o prazer de aproveitar um espaço em “Ecos da Beira Serra”, memorizando já contar duas décadas com alguns textos e crónicas. Como o tempo passa!...
O Jornal “O Olhanense” nasceu em 1963 e eu iniciei o meu contacto com a escrita nos jornais, aos 18 anos, no ano seguinte ao nascimento deste Jornal, obviamente que para as bandas dos hermínios.

Nesta dual intenção, as maiores felicidades para todos os obreiros – heróis do mar – do Sporting Clube Olhanense e jornal “O Olhanense”.


(In "O Olhanense", de 15-06-2016, com o título "Ainda o Aniversário do SCO e do nosso Jornal)


14 de junho de 2016

CELEUMA ENTRE VERDADES E MENTIRAS

Entrou junho com outro semblante em contraste com os meses tristonhos que o precederam. Nestes dias soalheiros muito se vem noticiando, havendo uma grande ementa à escolha, entre comunicação social televisiva, rádio, em papel ou online.
Mas não dá sequer para estalar os dedos, beber um café sossegado e deixar que os outros encontrem soluções rápidas e pacíficas para os problemas do País e da nossa Região.
Ainda temos que contar com o Zé Povinho e os seus manguitos contra as injustiças, cujo Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, deste artista versátil, e seu criador, transbordante de humor e de criatividade, comemora em agosto o centenário da divulgação da sua obra gráfica e cerâmica, ainda atual, símbolo da personalidade do povo português, numa certa maneira de ser lusitana. “Uma certa passividade, mas até falsa, porque os manguitos revelam os gestos de revolta em relação às injustiças”, refere João Alpoim Botelho.
Quando há dias se falou, e escreveu, que a escravatura moderna atinge 45,8 milhões de pessoas no mundo, sendo Brasil e Portugal os países lusófonos com menor percentagem de “escravos modernos”, e que Portugal (dos primeiros países a abolir a escravatura), ainda tem 12.800 escravos, como aquela detenção em Aveiro, de três homens e duas mulheres, indiciados pelos crimes de “escravidão, tráfico de pessoas, roubo, sequestro e coação, abordando as vítimas com falsas promessas, outras vezes com uso de força física”, dá que pensar: Como é possível?!
Assunção Cristas, que fala como o galo canta no poleiro, lá inventou os três “dês” com que o CDS avalia os seis meses do Governo de António Costa: “Desilusão, descrédito e desnorte”, e, numa segunda rodada, outros três “dês”: “desemprego, défice e dívida”. Achei piada à líder de um pequeno partido que das vezes que esteve no poleiro, quer dizer, no poder, só o foi coligado e subjugado pelo PSD. Deveria ver-se ao espelho. É que a tal geringonça vai funcionando.
Isabel dos Santos na Sonangol, filha do presidente angolano. Este é que não está com meias tintas… Normas éticas ou jurídicas, o que é isso? Deixem lá Angola que é dos angolanos, e que o FMI feche os olhos. Corrupção naquele país africano tem outro significado, altamente benévolo, que não o dos dicionários portugueses.
Mas voltemo-nos cá para este cantinho português, à beira-mar plantado, como sempre se poetizou.
O desemprego continua em 12% no final de abril, estando Portugal mais competitivo mas com menos resistência para enfrentar a crise. Pode parecer um contra senso, mas as razões estão fundamentadas nos indicadores que são anualmente apreciados pelo IMD, um organismo com sede em Lausanne, na Suíça, e que pelo vigésimo ano consecutivo produziu o World Competitiveness Yearbook, um relatório onde são posicionadas, em termos de competitividade, as economias de 57 países em todo o mundo.
Se a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) revela uma previsão do crescimento de 1,2% na produção portuguesa para este ano, em vez de 1,6%; também um défice do Estado deverá ficar muito longe da meta de 2,2% do PIB, ou seja, nos 2,9%.
Segundo li, a evolução da sociedade pode estar a tirar-nos anos de vida. Possivelmente seremos as pessoas mais exaustas da história da Humanidade, como a principal culpada do cansaço extremo dos dias que correm, seja físico, mental, emocional e até mesmo espiritual. A fadiga crónica é a doença no momento e é provocada por tudo aquilo que, na verdade, nos deveria estar a facilitar a vida. Consta em dois recentes livros da área da psicologia: “O aumento excessivo do trânsito, as redes sem fio, os padrões de negociação, a constante pressão social, o sexo e as próprias circunstâncias de vida estão à mercê de uma pressa excessiva de viver o mais depressa possível. Parece redundante, mas a verdade é que já não conseguimos fazer nada pausadamente. Tudo é acelerado, tudo é frenético, tudo é irritante, tudo é stressante, tudo é fatigante. A evolução (rapidíssima) da sociedade está a tirar-nos anos de vida. O esgotamento nervoso, a irritabilidade, a agitação, os problemas digestivos, os cabelos secos, frágeis e quebradiços e os pés frios são sintomas que parecem tão banais (à exceção do primeiro), mas que espelham como a exaustão dos dias de hoje é comum e afeta a grande maioria das pessoas”.
Mas não fiquemos por aqui porque os portugueses têm o mais baixo nível de satisfação com a vida, segundo dados da OCDE. Só 46,1% dos adultos consideram que têm uma saúde boa ou muito boa. São os países do Norte da Europa que lideram o ranking.
No mês de maio e neste de junho passou a debater-se a redução das 35 horas de trabalho para os funcionários públicos. Se verificarmos, a semana de trabalho na Europa com 35 horas, só se verifica em Portugal, Irlanda e França, tendo todos os trabalhadores dos restantes países europeus mais horas de trabalho semanal, com 41 horas, à cabeça, na Alemanha.
E que dizer da polémica entre as escolas públicas e privadas com os contratos de associação? Penso que depois de tanta tinta gasta, agora falar mais é chover no molhado. Mas não se pode ocultar que a escola pública possui o nobre objetivo de servir todos os cidadãos: os bons e os maus alunos, assim como os indisciplinados, imigrantes ou ciganos, os pobres, os filhos dos iletrados, os toxicodependentes, os deficientes, os violentos, os doentes, ou os contestatários. Passa-se isto na escola privada? Não será que a escola privada pode selecionar os mais endinheirados?
O País precisa de reformas a sério e esta é uma delas.
Resta-nos esperar pelo destino da própria Europa, por via do referendo britânico, a realizar no dia 23 de junho. Nesta celeuma, será que vai ganhar o “Brexit” e o Reino Unido despede-se da União Europeia?

Esperemos que o desfecho seja pela manutenção do nosso aliado, de muitos anos (por vezes só de nome, naquela “santa” Aliança Inglesa) no grupo da União, para que exista uma Europa forte e não fragmentada.

(In "fórum Covilhã", de 14-06-2016)

7 de junho de 2016

4.º ENCONTRO DAS AMIGAS DA TRAVESSA DO VIRIATO

A amizade é uma festa. E quando ela perdura desde a infância, independentemente das vicissitudes da vida, ecoa de uma alegria reforçada.
Assim vai acontecendo, quase duma forma inédita, num grupo considerável de amigas que viveram no mesmo local – a Travessa do Viriato – na Covilhã, desde os já idos anos quarenta do século passado.
A partir dos anos sessenta do mesmo século foi a inevitável partida para outros pontos do país, face às suas vidas profissionais e constituição de família.
Mas ficou a amizade desde os tempos da sua vivência, de meninas e moças, agora na sua maioria avós.
Têm vindo a comemorar anualmente estes tempos, da sua vivência naquele local, em redor da Igreja de São João de Malta, recheados de memórias, muitas bem vivas.
Neste ano a Comissão de Amigas, então radicadas em Castelo Branco, Abrantes e Covilhã, resolveu que o 4.º Encontro se realizasse, neste dia 5 de junho, radioso, na cidade de Castelo Branco.
Assim aconteceu, com a receção no Jardim do Paço, seguindo-se uma visita à Capela de Nossa Senhora das Graças e depois o almoço num restaurante da cidade.
Algumas lembranças da Comissão às amigas de longa data, incluindo um interessante opúsculo relatando como viveram na Covilhã, naqueles tempos, cheios de dificuldades mas com a alegria jovial, e em redor da Travessa do Viriato, em memórias inesquecíveis.



(In "fórum Covilhã", de 07/06/2016)

18 de maio de 2016

OS 830 ANOS DO 1º FORAL DA COVILHÃ

Neste ano da graça de 2016 comemoram-se 830 anos em que o filho de D. Afonso Henriques, e segundo rei de Portugal, D. Sancho I, concedeu o 1.º foral à então Vila da Covilhã, no ano de 1186:
“Em nome da santa e indivisa trindade Padre, Filho e Espírito Santo. Ámen. Eu, o Rei D. Sancho, filho do Nobilíssimo Rei de Portugal Afonso e da Rainha D. Mafalda, juntamente com minha mulher a Rainha D. Dulce e meu filho o Infante D. Afonso e minhas filhas as Infantas D. Teresa e D. Sancha, queremos restaurar e povoar a Covilhã. Damos e concedemos a todos os que ao presente ou de futuro a quiserem habitar o foral e os costumes da cidade de Évora. Ordenamos que duas partes dos cavaleiros vão ao fossado do Rei e que a terça parte fique na vila com os peões fazendo fossado uma só vez por ano. E quem a ele não for pagará cinco soldos para fossadeira. Por homicídio pagar-se-ão cem soldos ao fisco. O que invadir casa com armas, escudos e espadas pagar-se-ão trezentos soldos, sendo a sétima parte para o fisco. O que furtar pagará nove por um pertencendo duas partes ao queixoso e sete ao fisco. O que forçar mulher e esta gritando disser que foi violentada e o ofensor negar dê-lhe esta outorgamento de três homens da sua igualha e ele jure com doze homens a sua inocência. Se a mulher não tiver outorgamento jurará ele e se não puder jurar pagará à ofendida trezentos soldos sendo a sétima parte para o fisco. A testemunha falsa e o fiel mentiroso paguem sessenta soldos sendo a sétima parte para o fisco e restitua em dobro o que recebeu. O que em assembleia, em mercado ou na igreja ferir alguém pague sessenta soldos metade ao fisco e metade ao concelho. (…) O que tiver um casal, uma junta de bois, 40 ovelhas, um jumento e duas camas tem obrigação de comprar cavalo. O que faltar à promessa de casamento pague ao juiz um soldo. A mulher à face da igreja que abandonar seu marido pagará 300 soldos sendo a 7.ª parte para o fisco. O que abandonar sua mulher pagará ao juiz um dinheiro. (…) Os moradores da Covilhã não pagarão em todo o reino nenhuma multa se não pelo foral da Covilhã. Os cavaleiros de Covilhã serão em juízo considerados como ricos-homens e infanções de Portugal. O gado de Covilhã não pagará o tributo de pasto em terra alheia. (…) Se algum homem retiver à força a filha família restitua-a a seus parentes pague-lhes 300 morabitinos sendo a sétima parte para o fisco e fique além disso homicida. (…) De portagem: tributo de costal de cavalo, de panos de lã ou de linho um soldo. De costal de lã um soldo. De costal de panos de algodão cinco soldos. De carga de peixe um soldo. De carga de jumento seis soldos. De carrega de peles de coelho trazida por cristãos cinco soldos. De carga de coelhos de mouros um morabitino. Tributo de cavalo que se vender no mercado um soldo. De mulo um soldo. De carga de pão ou de vinho três mealhas. De mouro que se vender no mercado um soldo. De mouro que se libertar a décima. Do salário do mouro a quem o seu senhor mandar trabalhar em serviço de outrem a décima parte. De coiro de vaca ou de zebra dois dinheiros.
Esta portagem será paga pelos de fora da vila pertencendo a terça parte dela a quem lhes der hospedagem e ao Rei as outras duas partes. Os moradores da Covilhã não pagarão portagem.
Assinamos-lhes por limite a Estrela e daí por Barelas, vértice das Teixeiras e Fráguas, águas vertentes para o Zêzere, e daí por Boi, no seu curso para o Coa; daí por Sovereira, por cima de Alfereses, pelo curso de Aceifa até Alpreada, no ponto em que desagua no Ponsul e o Ponsul no Tejo, até às portas de Ródão e à Cortiçada; daqui a Valongo e ao porto de Nudeir, por fora de Pera até à serra hermínia, águas vertentes para o Zêzere.
Eu, o Rei Sancho, juntamente com minha mulher a rainha Dulce, com meu filho o infante Afonso e com minhas filhas as infantas D. Teresa e D. Sancha, corroboramos e confirmamos esta carta de nossas próprias mãos.
O que quiser desacatar os limites demarcados pague ao concelho mil soldos em boa moeda.
Feita a presente carta no mês de Setembro da era de 1224.
E o que pretender desacatar a nossa outorga seja maldito de Deus. Amen.
Concedemos que todo o cristão, ainda que seja servo, que habitar na Covilhã durante um ano, fique livre e ingénuo, ele e a sua geração.
E os homens de Covilhã terão o concelho aos limites de Covilhã”.
Assinaram, além de outros: Arcebispo de Braga, Bispo de Lamego, Bispo de Évora, Bispo de Lisboa, Petrus Alfonsi, porta-bandeira do Senhor Rei.
Veio depois a surgir o segundo e último foral dado à Covilhã, por D. Manuel I, no ano de 1510.
Pois bem, selecionando um dos vários dicionários, o online Priberam define “Foral: carta soberana que, regulando a administração de uma localidade, lhe dava certas regalias”. No entanto, Artur de Moura Quintela, em “Subsídios para a Monografia da Covilhã”, diz que “A origem da palavra foral, dizem uns que deriva de foro – contribuição que os povos pagavam aos senhores das terras em que habitavam; e outros de foro – privilégio sobre o modo de regular e decidir as questões perante juízes para aqueles que estavam sujeitos à carta”.
Para melhor compreensão de alguns termos e datas aqui referidas, aí vai a explicação, de harmonia com Artur de Moura Quintela:
- Fossado: consistia em ir com a mão armada a talar os campos agricultados pelo inimigo e destruir-lhes ou roubar-lhes os frutos. A gente do fossado compunha-se de todas as classes: cavaleiros, escudeiros, tropa regular, peões, etc.; enquanto uns colhiam, outros transportavam e outros guardavam os frutos.
- Fossadeira: era a multa imposta aos que faltavam ao fossado.
- Peões: eram homens que combatiam de pé.
- Soldo: foi moeda das mais antigas do reino, lavrada em ouro, prata e cobre.
- Infanções: equivale a moços fidalgos.
O ano de 1224 na era de César veio a corresponder, na era de Cristo, ao ano 1186.
Era enorme, como se viu, a área da Covilhã, pelos limites dados neste foral de D. Sancho.
Numa breve análise a este foral (foram mencionados somente alguns deveres e direitos) se pode verificar que predominavam as multas para quem não cumprisse o determinado no mesmo. Havia diferenças conforme a classe social, assim como entre o homem e a mulher.
Com a carta de foral, a liberdade passou a existir mais na Covilhã, na sua governabilidade, e mais autonomia.
A então Vila da Covilhã, cidade desde 1870, era bastante desenvolvida pois assim o demonstram a concessão de duas cartas de foral, mérito pelo seu desenvolvimento.
Penso que, por este motivo, o Município Covilhanense deveria assinalar esta efeméride, no próximo mês de Setembro, em similaridade como aconteceu com os 600 anos da Tomada de Ceuta, no transato ano, assinalando os 600 anos do Senhorio da Covilhã.

(In "Notícias da Covilhã", de 19-05-2016)


10 de maio de 2016

DO SIMPLEX DA LINGUAGEM AO (DES)ACORDO ORTOGRÁFICO

Naqueles dias, os chefes do povo, os anciãos e os escribas, vendo a firmeza de Pedro e de João e verificando que eram homens iletrados e plebeus, ficaram surpreendidos (Livro dos Actos dos Apóstolos 4,13-21).
Era uma vez… Assim se iniciavam muitas das leituras da Instrução Primária, do meu tempo dos anos cinquenta do século passado, ou se começavam algumas redações.
Se os apóstolos Pedro e João, que eram iletrados, mas pelo poder do Espírito Santo a inspiração divina deu-lhes o “doutoramento”, já nos tempos de outrora, que eram os nossos, apesar da falta dos meios tecnológicos, naquela altura, em relação aos tempos atuais, havia a aquisição de um saber que não era assim facilitado, em contraste com os dias de hoje.
Escrevia-se da mesma maneira (acordo ortográfico de 1945) embora dos nossos pais e avós, os poucos que não eram iletrados, lá víamos escrever pae e mãi, e, nalgumas publicações já amareladas pelo tempo, as palavras pharmácia ou Covilhan (Acordo de 1911).
E se seguirmos com atenção alguma parte do jornalismo, a dificuldade em entender boa parte do vocabulário que se produz e difunde em Portugal é evidente. Nisto, o jornalista Adelino Gomes tem chamado à atenção para esse facto. É que o cidadão comum desconhece o significado da maioria das palavras com que as notícias são apresentadas em público.
Vejamos, por exemplo, na rede de transportes públicos frases como “é obrigatório obliterar o bilhete”. O mesmo acontece nas bulas dos medicamentos assim como nas informações de diversos serviços como os seguros, bancos, eletricidade, entre outras, para já não falar do modo arrogante como as finanças se dirigem aos contribuintes.
É certo que a sociedade se tornou mais complexa e se especializou em vários domínios, cada qual com a tendência do seu próprio linguajar. No entanto, quem tem a responsabilidade da informação para o público deve ter a capacidade de traduzir os conceitos e os termos técnicos, como, por exemplo, as palavras e expressões em inglês.
O conjunto de programas de simplificação a que se designou chamar simplex, mormente nos serviços públicos, é de grande utilidade. Obviamente que também deve envolver a simplicidade e clareza da linguagem utilizada pelos funcionários.
Que isto de linguagem, noutra vertente, por vezes são aquelas bocas que saem dos políticos que dão azo a aproveitamento, quantas vezes duma forma exagerada, para que no jornalismo se gaste muita tinta.
Vejamos o caso mais recente das “salutares bofetadas” oferecidas pelo ex-ministro da Cultura, João Soares, ao crítico literário Augusto M. Seabra e ao colunista Vasco Pulido Valente, que foram um tiro no pé para a sua saída do executivo governamental. Isto faz-me lembrar o tempo das reguadas, na instrução primária (hoje ensino básico). Tive um professor, na segunda classe – professor Raul – no Asilo, em que as reguadas eram dadas no rabo, fazendo ajoelhar os alunos. Resultado: uma acusação de maus tratos, feita por um pai, levou a que o professor fosse obrigado a ir para a reforma compulsiva.
Mas já antes, em 1993, uma piada de mau gosto do então ministro do Ambiente, Carlos Borrego, sobre a morte de 25 doentes sujeitos a hemodiálise que ficaram intoxicados em Évora, levou também à sua demissão do governo de Cavaco Silva. Ainda neste ano, Mário Soares era Presidente da República e fazia uma Presidência Aberta por Lisboa. Nessa altura fazer o trajeto entre Vila Franca de Xira e a capital era um tormento rodoviário de “pára-arranca”. Mário Soares decidiu minorar o problema indo de autocarro com uma comitiva, mas sem batedores, nem escolta policial. A dada altura, um elemento da GNR prepara-se para abrir trânsito ao autocarro, o que não correspondia aos objetivos de Soares. Num impasse, referiu-se ao guarda como “gajo indesejável” e depois passou à ação. “Abre-me aqui uma janela”, disse Soares, acrescentando depois: “Ó senhor guarda, desapareça. Diga ao seu colega para desaparecer. Não queremos polícias”. Em 1994, o então presidente regional da Madeira, Alberto João Jardim, em dois artigos de opinião, descreveu o socialista António Fernandes Loja como “homenzinho”, “ordinarote” e “tira-casaca”; e ainda: Loja era “tão pirado que não vê as próprias grosserias e descobre-as aos outros”, “ao ler isto caem-lhe mais três dentes, dois de raiva e um de senilidade”. Em 1995, o falecido Carlos Candal (PS) lançou o “Breve Manifesto Anti-Portas em Português Suave”. Portas (CDS) é descrito como “garnisé cantante” e Pacheco Pereira (PSD) como “pavão de mono caído”. Mais recentemente foi o ex-ministro da Economia de José Sócrates, Manuel Pinho, que saiu do seu primeiro governo depois de ter feito um gesto impróprio. Em pleno debate no Parlamento, em resposta à bancada comunista, juntou os dedos indicadores à cabeça a imitar cornos, tendo a cena sido captada pelas câmaras da televisão. Ainda podemos recordar, em 2010, a vez de José Sócrates utilizar termos inapropriados. No Parlamento, Francisco Louçã disse que o primeiro-ministro “estava mais manso”. Sócrates não gostou e disse, embora não se tenha ouvido: “manso é a tua tia, pá”.
Pois é, segundo um estudo divulgado em Lisboa, o perfil médio de escolaridade dos portugueses adultos é “bastante baixo” a nível da Europa e com pouca vontade de melhorar.
No dia em que se comemorou a língua portuguesa em todos os Estados-membros da CLP, voltou a reinstalar-se na sociedade portuguesa, duma forma definitiva, a discussão em torno do Acordo Ortográfico de 1990 (AO). Foi o próprio Presidente da República que relançou a discussão em torno do AO, mas ninguém prevê o seu seguimento. Os opositores ao mesmo estão divididos entre os que o querem rasgar e os que o admitem melhorar.
Certo é que a reintrodução do tema pelo Presidente da República obriga a sociedade civil a uma reflexão.
O linguista covilhanense, Malaca Casteleiro, natural do Teixoso, que participou há 30 anos nos primeiros encontros que deram origem depois ao acordo de 1990, desvaloriza as críticas.
Depois dos computadores já estarem preparados a praticar o novo acordo ortográfico, será que vamos voltar atrás? E as crianças e jovens estudantes como vão adaptar-se a este imbróglio entre o antigo e novo Acordo Ortográfico?

Sabemos que o AO tem erros crassos que até os seus apoiantes reconhecem, sem que se tenham preocupado em os corrigir nestes anos. Isto, sim, é que parece mesmo uma geringonça.

(In "fórum Covilhã", de 10-05-2016)

20 de abril de 2016

O ANTES E O DEPOIS

Pertenço ao grupo dos que viveu em dois séculos e em dois regimes políticos. São memórias os tempos insatisfeitos dum cidadão que fora de segunda por ser funcionário público, sem regalias algumas que não fossem as exclusivas dos míseros vencimentos do Estado, “privilegiado” ao não direito à assistência médica.
Gostando-se ou não da profissão, nela se permanecia até ao serviço militar obrigatório, já que, para o setor privado, existia a eterna pergunta: “E a tropa?” Durante o percurso poderia haver alguma hipótese de se concorrer na instituição, para na frágil carreira se subir um pouco mais. A página do Diário do Governo até me colocou em primeiro lugar no concurso, por direito próprio, não “boy” como nos dias de hoje acontece.
Das poucas vezes que uma maleita nos abalava, já que era quase proibitivo apanhá-la face aos poucos recursos salariais, escolhia-se um dos médicos conhecidos que perdoava a consulta, já que o nosso “patrão” tinha muitos trabalhadores e pagava mal. O Dr. Baltazar era o Presidente da Câmara e o Dr. Santos Marques meu professor na Escola Industrial.
Mas corriam os anos sessenta do outro século e aquela gentinha das aldeias, algumas ainda sem energia elétrica ou água canalizada e saneamento, como na zona mineira, lá vinham num corrupio, para se legalizarem na edilidade do concelho e mandarem o país às malvas, que isto de ir de assalto não era para todos, similarmente aos refugiados.
Já antes Cebola se passara a chamar São Jorge da Beira; Sobral de Casegas seria o Sobral de São Miguel e, do outro lado oposto, Aldeia de Mato seria o Vale Formoso de hoje.
Na tropa chegou a vez de nos juntarmos dois manos, furriéis milicianos, um cá e outro na Guiné.
Chegada a altura da peluda, o tempo era de mudar de ares profissionais, e vai de participar em concursos que estivessem mais à mão. Os bancos, centros de emprego ou caixas de previdência eram a propensão mais imediata. Os escritórios ou armazéns fabris da Manchester Portuguesa também já não eram acolhedores para a juventude mormente a que regressava das Colónias.
Do público para o privado, a vida mais exigente mas de contornos mais radiantes.
A Internet ainda não existia em Portugal, e as calculadoras (que davam jeito para a atividade) também não. E muito menos os telemóveis.
As viagens noturnas não eram tão perigosas como nos dias de hoje. Autoestradas no interior nem vê-las… Passar no Alto Alentejo, nas noites de verão, era de parar o carro para um chichi no campo. E, lá mais para dentro do mesmo, os grilos a cantar. Depois do Couço e de Mora era ver se ainda se chegava a tempo de encontrar o café aberto, com posto público, antes das curvas de Niza, para se telefonar para casa, alta noite, a informar o regresso da nossa viagem. Era ainda o tempo das chamadas interurbanas, que não eram imediatas… Como os telemóveis, ainda inexistentes, dariam jeito nessas alturas…
Naquela sexta-feira de 16 de março de 1974 vinha de Lisboa no carro do Manuel Humberto Lopes Andrade quando, perto de Tancos, passámos pelos militares que vinham do RI 5 e se dirigiam para Lisboa. Só depois soubemos pela comunicação social que se tratara da “Revolta das Caldas”. E, já novamente em Lisboa, na segunda-feira, tive conhecimento da demissão dos generais Spínola e Costa Gomes por não terem participado na cerimónia de apoio a Marcelo Caetano – a tal Brigada do Reumático.
Já depois, mas ainda antes do 25 de abril ter surgido, numa outra viagem de sexta-feira em que comigo vinha o Cravino, num café de Ponte de Sor, o proprietário manifestava-se exuberante com a leitura do livro “Portugal e o Futuro”, de Spínola, numa altura em que a Pide ainda atuava.
Adivinhava-se algo de extraordinário que viria por aí, até que surge a Revolução dos Cravos, mas que logo se veio transformar numa situação perniciosa que toldaria o país quase para o abismo.
O mesmo século que nos trazia a Revolução dos Cravos fazia-nos chegar também o famigerado PREC (Processo Revolucionário em Curso).
Quando nas minhas viagens profissionais chegava a uma localidade havia quase sempre uma agitação popular, ou o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara punha na rua o Chefe de Finanças, como em Figueira de Castelo Rodrigo; ou os trabalhadores abriam a porta ao patrão; comícios e mais reuniões de trabalhadores, com as enfadonhas “amplas liberdades democráticas”, de Cunhal, lá para os lados de Vilar Torpim e da Reigada, com tratores e o sindicalista empinado no atrelado, a fazer um plenário de trabalhadores.
E lá surgiam as tentativas de golpe de Estado, às quais acorriam a impedir, por essas estradas fora, os guedelhudos militares do SUV – Soldados Unidos Vencerão, de fralda de fora, juntamente com os GNR e civis, toda aquela falperra de gente a procurar armas nas viaturas dos que passavam.
E assim aconteceu comigo, vindo da Vermiosa, quase às duas da madrugada de um certo dia, na Senhora do Carmo (Teixoso), felizmente pouco antes de ali ter passado o Lelo, funcionário do Banco Borges & Irmão que levou um tiro e foi evacuado de helicóptero para Lisboa, ficando paraplégico.
Tanto ele como o Manuel Andrade já faleceram, este recentemente.
Depois de tanta alegria, de grandes esperanças no horizonte, o que é feito hoje do 25 de Abril?
Onde está a esperança de melhores dias, após tanta corrupção que grassa pelo País inteiro?

Face às notícias vindas a público, em catadupa, em quem havemos de acreditar? Onde estão os homens e mulheres honestos de Portugal? Onde está o País que desejamos, esse Paraíso Real sem paraísos fiscais?

(In "Notícias da Covilhã", de 21-04-2016)

12 de abril de 2016

42 ANOS DE ABRIL, 40 DA CONSTITUIÇÃO

Uma efeméride já passou, pois em 2 de Abril de 1976 foi aprovada a Constituição da República Portuguesa que deu dar lugar ao regime democrático, substituindo a Constituição Política da República Portuguesa de 1933, a da ditadura.
No próximo dia 25 de Abril completar-se-ão mais dois anos que o tempo da primeira efeméride.
Não se vê já o entusiasmo que assaltou o país na exuberância dos cravos que transformaram o sentimento profundo da mudança nas pessoas, aquando dos primeiros acontecimentos da viragem.
O que se terá passado então?
As memórias de um passado canhestro e ditador em que reprimia e não permitiria o que se está a passar nos dias de hoje; com os três poderes em Portugal: Legislativo, Executivo e Judicial, ao qual já se atribui um quarto poder – a Imprensa – e, para mim passou a existir um quinto poder – advogados e consultores –; seria impensável que esse passado, do regime que antecedeu a democracia implantada em 25 de Abril de 1974, fosse transportado para os dias de hoje, apesar de tudo.
No entanto, os homens e as mulheres deste Portugal que vai ficando sem tino, atingidos pelo desânimo, aqueles mais 4desfavorecidos e que ainda viveram os tempos da Revolução e passaram ou ainda passam as passas do Algarve, numa situação que inesperadamente lhes foi adversa, como estarão a julgar o que vai ocorrendo nestes meandros da corrupção, do chico-espertismo, da desonestidade sem fim?
As gerações que surgiram já em plena liberdade mas vêm coartadas todas as suas oportunidades de empregabilidade num país que afugenta a sua juventude, o que dirão aos seus progenitores quando estes lhes falam das dificuldades que tiveram e não desejavam tal situação para os seus filhos?
Enfim, falar hoje do 25 de Abril já não tem aquela força impulsora, intrínseca, indomável que inebriava as nossas almas.
A exemplaridade dos homens e mulheres em quem ainda alguns céticos confiavam, e depois de os verem envolvidos em atos já descritos, leva a uma autêntica debandada dos homens e mulheres da parte do Portugal honesto, face ao crédito por quem eles então tinham.
O poder do dinheiro é mais forte que a forte honestidade. Os exemplos aí estão, quase sempre frescos, com base nas informações veiculadas, e ribombadas, pelo tal quarto poder.
Governantes de todos os setores da sociedade portuguesa, dos governos central e autarquias que se aproveitam das suas condições de eleitos pelo povo que neles julgou alguma honestidade, e que mesmo durante e após os tempos das suas passagens pelos serviços da governação, não têm vergonha na cara, como dizem os brasileiros, o que fazer perante tais factos?
Fica a pergunta para todos nós refletirmos principalmente nos momentos de perplexidade nas decisões a tomar.
De qualquer forma, sempre, mas sempre vale mais a democracia que uma ditadura ainda que encapotada.
Portugal já teve seis Constituições, desde a Monarquia: Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822, Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa de 1826, Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1838, Constituição Política da República Portuguesa de 1911, Constituição Política da República Portuguesa de 1933 e Constituição da República Portuguesa de 1976. Esta última já foi revista, oficialmente, sete vezes. Estes números dão-nos, em síntese, uma dimensão da História e das suas mudanças, mas não chegam para explicar a instável euforia que rodeou o nascimento da última, há 40 anos.
Para ultimar este texto, tão só recordar as revisões que foram efetuadas nesta nossa última Constituição da República Portuguesa:
- 1982, desapareceu o Conselho da Revolução e os poderes do Presidente foram diminuídos. Tornou-se uma Constituição mais civil.
- 1989, foi o fim da irreversibilidade das nacionalizações. Desestatizou-se a economia.
- 1992, foi a adesão a Maastricht. A adaptação à União Europeia.
- 1997, tornou-se o sistema político mais independente dos partidos. Foi dado mais poder aos cidadãos.
- 2001, foi uma revisão considerada técnica. Adaptação à justiça internacional europeia.
- 2004, foi a adoção das novas regras europeias. O aprofundamento europeu.

- 2005, adaptação do regime constitucional português à União Europeia. Foi o referendo europeu.

(In "fórum Covilhã", de 2016-04-12)

8 de abril de 2016

O DESPORTO NA CIDADE DOS LANIFÍCIOS E O SEU GRANDE BALUARTE: SPORTING CLUBE DA COVILHÃ

A então mono indústria – os lanifícios – de décadas passadas, quase sempre andou de braço dado com a grande coletividade que se formou no seio desta Região do Interior, assentando arraiais na Cidade da Covilhã.
A longa e rica história do Sporting Cube da Covilhã jamais foi ultrapassada, no seu palmarés, por qualquer outra coletividade da Região, dos dois distritos – Castelo Branco e Guarda – sendo certo que, até um dos mais próximos distritos, envolvidos nos primórdios do futebol em Portugal e fundação da hoje Federação Portuguesa de Futebol (ex-União Portuguesa de Futebol) – o distrito de Portalegre – não desenvolveu tão bem o futebol nas suas terras de boa gente, pois lá vai o tempo saudoso do Lusitano de Évora ou, em anos mais aproximados, do Elvas, emparceirando com os Leões da Serra na I Divisão, já que o Campomaiorense, de curta passagem, não conseguiu fazer grande história no futebol português. São assim os também chamados Leões da Serra, embora com o futebol um pouco mais tardio, que permanecem como a grande fortaleza do futebol de alta competição, nesta Região Beirã.
Assim, no próximo dia 18 de abril, com início às 16 horas, nas instalações do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior/Real Fábrica Veiga, vai realizar-se uma conferência sob o tema em título, a proferir por João de Jesus Nunes.
É que o Núcleo da Real Fábrica Veiga/Centro de Interpretação dos Lanifícios, sito na Calçada do Biribau (junto ao Parque da Goldra), na Covilhã, nesse dia 18 de abril vai associar-se às comemorações do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que, neste ano, celebrará o Património Desportivo, tema este definido pelo ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios).
“Sempre na égide dos lanifícios, pretende-se evocar as memórias da cidade e do concelho através da articulação entre o desporto/SC Covilhã e a indústria de lanifícios, os empresários e os operários”
Neste sentido, irá ser tratado este tema através da realização de uma “Tarde de Memória no Museu”.
Haverá, se possível, uma exposição documental sobre a Coletividade em questão.
No seguimento da palestra do João Nunes, que versará o tema acima, irão também falar, o autor do site historiascc, Miguel Saraiva, abordando as principais figuras citadinas, industriais de lanifícios, que, numa dualidade de interesses, mas com o denominador comum, servir a Covilhã, colocaram na ribalta o clube serrano.
Por último, o diretor da Tribuna Desportiva, Pedro Martins, versará sobre as coletividades e atletas desta região e concelho, fora da modalidade futebol, que foram campeões nacionais.
Será uma oportunidade de conhecer algo mais sobre o desporto no seio da nossa Cidade, e do nosso Sporting Clube da Covilhã.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 102, de abril a junho de 2016)



NOVE DÉCADAS DE PERSISTÊNCIA

Efetivamente assim acontece. Aproveito o título que se insere nesta coluna, a primeira do ano de 2016, fruto da resposta à pergunta que o jornalista da Rádio Cova da Beira me fez na entrevista para o novo programa – A Hora do Combatente – a sair para o ar todas as 4.ªs feiras, das 10 às 11 horas, relativamente ao facto de o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes ter completado 90 anos em 16 de fevereiro deste ano, e estar a comemorar este nonagésimo aniversário.
- Qual era o título que gostaria de colocar no primeiro número correspondente aos 90 anos?
Para a longevidade desta Instituição contribuíram gentes que se disponibilizaram para colocarem o seu tempo ao serviço na ajuda a quem passou pelas trincheiras, na I Grande Guerra, com situações mórbidas da guerra, quer por doenças adquiridas quer por deficiências físicas, assim como as suas famílias afetadas também por esta grande desgraça, evitável pelos governantes da I República, mas que outros interesses assim o não entenderam (desse tempo já ninguém deve existir); mas que, depois, outra forma de “trincheiras” se abriram com a 2.ª Grande Guerra, a que Portugal escapou com o Tratado de Amizade e Não Agressão. No entanto, outras guerras para desgaste, desmoralização e penetração nas angústias, em várias vertentes, da juventude portuguesas, de parte do 3º quartel do século XX, na então chamada guerra subversiva, por tacanhez de espírito dos nossos governantes em ditadura, de um Portugal orgulhosamente só, foi, mais uma vez, a maldição não só para uma juventude sem culpa, mas também para as suas famílias.
São estas últimas guerras – as chamadas Guerras do Ultramar - que agora prevalecem no corpo e no espírito de muitos, e são mesmo muitos, os que duma juventude oriunda dos anos 60 e até 25 de Abril de 1974, ainda hoje sulcam de patologias, algumas invisíveis, mas que persistem, trauma desses tempos duma guerra de subversão. Por arrasto, neste faval semeado pelo regime opressor e incompreensível, ficaram também muitas famílias, como já foi referido.
E é assim, já que para mal dos nossos pecados ficaram as nefastas memórias dos que já não voltaram, ou de lá vieram fortemente molestados, ficou a feliz iniciativa de se ter gerado uma instituição de âmbito nacional para o apoio já referido, instituição essa ramificada por muitos pontos deste País sofredor, e que, também à Covilhã chegou, há 90 anos.
Quem consegue manter a navegar em águas tranquilas, deitar água na fervura de algumas pequenas tempestades, porque ventos e marés sempre existiram no coletivo, ao longo do somar de anos, é sintoma de que também sempre houve Homens que se irmanaram no espírito da fraternidade, naquela camaradagem que um dia se uniu forte, entre conhecidos e desconhecidos, naquela espontaneidade de abraçar todos como irmãos.
Nove décadas de muitos projetos, muitos anseios, muito trabalho feito, muitos sorrisos abertos, muitas amizades geradas, muita solidariedade havida, aqueles desabafos aceites, aquele bálsamo para algumas famílias.
Nove décadas de muita gente que já passou para o outro lado da vida, alguns precocemente, mas que deixaram cair algumas sementes que, entretanto, geraram o fruto de permanecerem para as nossas memórias.
Quão salutar é ver uma Instituição como o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, com a juventude da terceira idade, a engrossar tertúlias e caminhos de encontro ao pedaço de tempo que ainda resta das vidas de cada um, ocupando os tempos em vertentes de atividades aos seus gostos: camaradagem em pequenos e breves convívios na sede, leitura de jornais, biblioteca para quem o deseje, colecionismo, exposições temáticas, jogos de cartas em torneios, tertúlias, conferências, solidariedade, viagens de recreio ou de degustação, religiosidade na sua oportunidade (sufragar os que já partiram, homenagem nos cemitérios, trasladações, peregrinação a Fátima), apoio aos mais necessitados; consultas e rastreio na área da psicologia, naquele stress traumático; o sempre ansioso órgão cultural da instituição, quer em papel, quer online; as redes sociais, e outras a que a memória não permite transpor para as teclas.

É, pois, a nossa admiração para quantos, ao longo destas nove décadas de bem-fazer, souberam, e sabem, conduzir os destinos da Instituição na excelência dum trabalho associativo e fraterno.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 102, de abril a junho de 2016)

2 de abril de 2016

O DESPORTO NA CIDADE DOS LANIFÍCIOS E O SEU GRANDE BALUARTE: SPORTING CLUBE DA COVILHÃ

Dia Internacional Monumentos e Sítios - Desporto, um património comum
Dia 18 de abril de 2016
Auditório do Núcleo da Real Fábrica Veiga - Covilhã
Tarde de Memória no Museu - Palestras
16h00 - 18h30

16h15 - 17h00 
O desporto na cidade dos lanifícios e o seu grande baluarte: Sporting Clube da Covilhã, por João de Jesus Nunes (Autor da história do Sporting Clube da Covilhã, com 4 obras publicadas)

17h00 - 17h30
Algumas das principais figuras do Sporting da Covilhã, por Carlos Miguel Saraiva (Coordenador do site historiascc)

17h30 - 18h00
Figuras e instituições da Covilhã e Região, para além do futebol, que se sagraram campeões nacionais, por Pedro Martins (Diretor e proprietário da Tribuna Desportiva)

Com a moderação de: António dos Santos Pereira (Diretor do Museu de Lanifícios da UBI)

Exposição Temporária, na Real Fábrica Veiga (9h30 - 12h e 14h30 -18h)

O Sporting da Covilhã e os lanifícios
Mostra documental sobre o Sporting Clube da Covilhã e a sua relação com os empresários e operários da indústria dos lanifícios (até 8 de maio)




16 de março de 2016

A HIPÉRBOLE

1.Já não morremos de medo neste Portugal profundo de crises e oportunismos. Também já não rebentamos de tanto rir porquanto o presidente que cessou deixa de surgir no horizonte das nossas memórias. Estamos fartos de a todos nos quererem medir pela mesma bitola, naquele enfado, de que o que eles fazem é que não é geringonça, sem nunca se enganarem e raras vezes terem dúvidas, conforme reflexos do finado chefe, considerando os outros quais bichos-careta, talvez num saudosismo do pensamento único. Aquele que foi o presidente de todos os portugueses de Boliqueime.
Esperemos que Marcelo, terminados que foram os seus comentários políticos como protagonista do programa televisivo “As Escolhas de Marcelo” não se venha a retratar em “Conversas em Família”, do outro seu homónimo, de outros tempos. Que a sua isenção não seja como naqueles tempos de não ficar com os cabelos em pé quando se pronunciava contra as suas cores, no seu programa televisivo, de grandes audiências, mas que, de imediato, se juntava aos seus pares, de braço dado, aquando das campanhas laranjas. No entanto, a forma como se pronunciou eloquentemente no seu discurso de tomada de posse, a sua simpatia e diálogo com todos, e a participação ativa nos primeiros atos que a muitos sensibilizaram, leva a crer que poderemos ter um Presidente à altura da ansiedade dos portugueses, como que um lenitivo para as suas sofridas vidas. A forma conducente de querer ajudar os obreiros do País e de lhes dar uma alma diferente, assim o esperam todos os Portugueses.
2.O jornalismo atravessa uma grave crise, o que não é de estranhar. Não é só o problema de falta de leitores, da sua redução na versão papel, não deixando assim que venha a servir para embrulhar um par de sapatos quando já lido, de afastarem o apalpar das suas páginas e o cheiro do papel, passando-o a virtual, onde a leitura online ainda não é desiderato de todos. O problema passa ainda por uma seleção de interesses. Não se deve vender sensacionalismo, com muitas notícias exacerbadas e com contornos de provocação, quer na imagem quer no texto. São merecedoras de repulsa. No entanto, o diário sobejamente conhecido e mais lido em Portugal, versado neste tipo de jornalismo, bem como o seu canal televisivo, é aquele que primeiro está in loco e dá conta (notícia) de tudo. Porquê algumas notícias são encobertas, ou omitidas, por outros órgãos da comunicação social?
Vejamos alguns dos regionais, onde não choram rios de lágrimas, tantas vezes no esquecimento de factos e de figuras, duma forma confrangedora; fora dos acontecimentos em tempo, omitindo ou subtraindo conteúdo informativo, não vá desagradar a quem os protege financeiramente.
“Um pobre que morre não é notícia, mas se as bolsas baixam há um escândalo” são palavras do Papa Francisco, improvisadas para alertar contra a indiferença e a “cultura do descartável”.
Segundo o “Público”, de 1 de março, “há uma componente financeira e económica poderosíssima que está a condicionar a comunicação social em vários países”. Em Portugal desapareceu uma boa fatia da imprensa local, regional, e até nacional, assim como das rádios locais. E as televisões estão com grandes dificuldades. Segundo o mesmo diário, “O papel da comunicação social é essencial para a democracia. Todos os dias se cria democracia através da comunicação social: acertando, errando, cultivando a liberdade de expressão, resistindo aos condicionalismos económicos e financeiros”.
O historiador Pacheco Pereira e o presidente da ERC, Carlos Magno, pintaram um cenário quase dantesco sobre o jornalismo que hoje se pratica em Portugal, criticando o “pensamento único” e a “enorme e cada vez maior sensibilidade da comunicação social face ao discurso do poder”.
3. Os “Costas” de Portugal. Não é, ou não foi, um frente-a-frente, mas sim uma luta de costas. António Costa, o primeiro-ministro, contra Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal. Terá razão o primeiro-ministro Costa pedir a demissão do governador Costa? Será que o primeiro tenta governar e o segundo faz de conta que governa? Penso que Costa, o governador do BP, já teve mais do que tempo para mostrar a sua competência, a qual não é o seu forte.

É desolador verificar o que se passou na banca nos últimos anos, com um trabalho de incompetência do Banco de Portugal. Quem paga as favas são os portugueses, principalmente os de menores recursos, pagando todo o faval dos casos BPN, BPP, BCP, Finantia, BES e Banif. Não será muita fruta para tão pouca competência, a que não será alheio o anterior governador, Vitor Constâncio, que se pavoneia como vice-governador do Banco Central Europeu (BCE) com a remuneração-base de 330 744 euros? Palavras para quê? São dois “artistas” portugueses e não se sabe se usam a tal pasta medicinal.

(In "Notícias da Covilhã", de 17-03-2016)

8 de março de 2016

NOVAS GERAÇÕES – UMA NOVA FORMA DE SOCIEDADE

É uma sexta-feira. Num acolhedor dia de sol, espero pelo meu neto que vem, da Secundária, das Palmeiras. Enquanto no carro leio o jornal vou ouvindo à retaguarda, que depois passa por mim, o barulho do rolar dos tróleis dos jovens e moças estudantes a caminho da Central de Camionagem.
Num rasgo de memória retrospetivo, em instantes, o que fora o ensino do meu tempo, dos anos 50 e 60 do século passado – o século XX.
Ainda tenho a felicidade de algumas vezes poder cumprimentar o meu professor da 4.ª classe – José Eduardo Tendeiro. E o humor vai-se traduzindo naquele pedido que lhe faço ironicamente: “não diga que foi meu professor porquanto, com essa sua juventude, ainda irão pensar que fiz a Primária nos Cursos de Adultos…” Era o tempo de decorar, e saber na ponta da língua, toda a tabuada; somar muitas parcelas quão saber que numa divisão existe o dividendo, o divisor, o quociente e o resto. A prova dos noves já era mais para os merceeiros, como o José Soares Cruto, verificarem se o que apontavam nos livros de deve e haver estava correto, que, da Primária, exigiam mais a prova real. E de geometria, o que à mesma tudo dissesse respeito. Com cuidados especiais na gramática, para evitar pontapés na mesma, como ainda hoje por aí existe, não só no ensino básico, como no secundário e até no superior, onde o h é a letra mais inconsistente na sua utilização, com grande dificuldade em saber aplicar o há, como forma conjugada do verbo haver na 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo; e o à, como contração da preposição a com o artigo definido feminino a (a + a = à). Depois, os reis e rainhas de Portugal, e eventos dos seus reinados, assim como os bravos da história, de menor ênfase: Viriato, Egas Moniz, Martim Moniz, O Lidador, D. Fuas Roupinho, Nuno Gonçalves, Deuladeu Martins, Brites de Almeida – a Padeira de Aljubarrota, Duarte de Almeida – o Decepado; os rios e as serras e os sistemas montanhosos; as linhas de caminhos-de-ferro… Como também as funções do corpo humano. Já as regras de três simples e composta eram destinadas para o Ciclo Preparatório, terminado o qual, entrando no chamado 3.º ano dos cursos comerciais, levava-se com um saco de disciplinas, que podiam chegar às onze, com o iniciar do francês e do inglês. E terminava-se a saber escrever corretamente várias cartas comerciais nestas línguas, que eu o diga pois saíram-me num exame teórico para acesso a um Banco.
Nesses tempos, de inexistentes tecnologias, nem ainda se conhecendo sequer uma simples calculadora, só mais tarde, já na Câmara Municipal, usava uma obsoleta máquina de somar. Acoplava-se um extenso rolo de papel e só havia duas ou três na edilidade, pelo que a tínhamos que pedir emprestada aos colegas da Secção de Contribuições e Impostos, na altura liderada pelo Hermínio Gonçalves Soares. Também aí trabalhava o Fernando Pedrosa Gonçalves, bom companheiro de velhas lutas. Serviam para a conferência das verbas inseridas nos enfadonhos orçamentos municipais, com o velho Manuel Matias de Figueiredo atento às mesmas, e, quantas vezes, solucionar um lapso que não podia passar no rigor da Tesouraria a cargo de Miguel de Freitas Pinto de Paiva. O tesoureiro adorava escrever poesia, e botava a mesma para o jornal da sua terra, sob o pseudónimo Gim Satova.
Depois, nas unidades militares, ainda se utilizavam os stencils para elaborarem as Ordens de Serviço, portadoras do diário, desde as notícias das mobilizações para o Ultramar, às muitas punições e poucos louvores.
Numa unidade industrial, no Sabugal, comecei a utilizar, pela primeira vez, as primitivas máquinas de contabilidade, mais para a faturação.
Depois, ainda que duma forma envergonhada, foram surgindo as novas máquinas de escrever algo sofisticadas, aproximando-se dos computadores, e, depois, as impressoras, em que já se dispensava o papel químico.
Mas as novas tecnologias foram avançando, começando com o PC-DOS, antigo sistema operacional da IBM, com a sua primeira versão lançada em agosto de 1981. Com a evolução do hardware e do software a continuidade do PC-DOS acabou por morrer. E surge o Microsoft Windows.

Hoje os jovens estudantes já não se conseguem dissociar da televisão ligada enquanto estudam para uma prova e fones nos ouvidos ao redigir um trabalho escolar. São cenas bem comuns na atualidade. Nasceram sob o advento da Internet e do boom tecnológico. Para eles estas maravilhas da pós-modernidade não são estranhas: videogames super modernos, computadores cada vez mais velozes e grandes avanços tecnológicos, inimagináveis há duas décadas e meia. Esta é a rotina dos jovens de hoje, para além de andarem com os telemóveis constantemente nas mãos: em casa, mesmo durante as horas de refeição, quando vão para a escola, nas ruas enquanto se deslocam, enfim, em todo o lado.

(In "fórum Covilhã", de 08-03-2016)

11 de fevereiro de 2016

A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

“O mundo pula e avança”, como Manuel Freire tão bem canta na Pedra Filosofal. Ao longo dos tempos, o mundo vai-se transformando, numa evolução, nem sempre ao ritmo de adaptação de todas as gerações. Obriga ao dinamismo, empenho, conhecimento. A força física do homem ou da mulher no trabalho tornou-se mais moderada, tendo em conta um “inimigo” da mão-de obra intensiva – a máquina. Menos cansaço físico mas, por vezes, alterações do ritmo cardíaco. Essa máquina também se transforma, e surge o equipamento eletrónico. Destas evoluções resultam redução de obreiros. Como resolver o problema? Consciencialização, responsabilidade, adaptação. O tempo corre e não quer contemplações. Mas… o direito ao trabalho vê-se confrontado com as más governações, dos oportunismos pessoais, usurpações, corrupções, injustiçando dessa forma o que quer ter como bandeira a honestidade.
No nosso muito adorado País, é, desta forma arreliadora, na exemplaridade dos nossos políticos, que, muitos deles, não são o espelho da verdade, que os jovens cérebros se vêm constrangidos a trazerem à memória a canção de José Mário Branco: “Eu vim de longe; de muito longe. O que eu andei pra aqui chegar. Eu vou pra longe, pra muito longe, onde nos vamos encontrar, com o que temos pra nos dar”. E têm que emigrar.
A série de mudanças nas atividades produtivas, a que se dá o nome de Revolução Industrial, foi iniciada por volta de 1760 na Inglaterra. Na sequência de invenções o ponto central foi a utilização do vapor como força motriz. Nestas transformações profundas a evolução técnica foi o centro da Revolução Industrial. Mas, principalmente, esta foi marcada pelas modificações económicas e sociais. Surgiu assim a Primeira Revolução Industrial, com todas estas mudanças tecnológicas, económicas e sociais, entre 1760 e 1860. Foi o uso das máquinas a vapor, feitas de ferro e tendo como combustível o carvão mineral. O ramo caraterístico foi o têxtil de algodão. Apareceu também a siderurgia. A tecnologia caraterística foi a máquina de fiar, o tear mecânico.
A Segunda Revolução Industrial bate à porta em 1870, substituindo o que atrás foi referido por eletricidade, petróleo e aço. Foi um fenómeno mais dos Estados Unidos. Está por trás de todo o desenvolvimento técnico, científico e de trabalho que surge nos anos das duas Grandes Guerras. Esta segunda revolução industrial tem as suas bases nos ramos metalúrgico e químico, assumindo a indústria automobilística grande importância. A tecnologia caraterística desse período é o aço, a metalurgia, a eletricidade, a eletromecânica, o petróleo, o motor a explosão e a petroquímica.
Chegada que foi a Terceira Revolução Industrial, já nos nossos tempos, na década de 1970, teve por base a alta tecnologia, a tecnologia de ponta, tornando-se as atividades mais criativas, e exigindo qualificação elevada de mão-de-obra. É uma revolução técnico-científica. A tecnologia caraterística desse período técnico (com início no Japão) é a microeletrónica, a informática, o robô. O computador é a máquina da terceira revolução industrial.
Surge assim o Fórum Económico Mundial, organização sem fins lucrativos, sediado em Genebra, Suíça, mas mais conhecido pelas suas reuniões anuais em Davos, Suíça, realizadas no final de janeiro. Aqui se reúnem os principais líderes empresariais e políticos, bem como intelectuais e jornalistas. Discutem-se as questões mais urgentes que têm que se enfrentar mundialmente, sem esquecer o meio-ambiente e a saúde. Este Fórum Económico Mundial foi fundado em 1971 por Klaus M. Schwab, professor de administração na Suíça.
Vai já na 64ª edição que este ano se realizou de 20 a 23 de janeiro. Dominar a Quarta Revolução Industrial foi o tema desta edição. Participaram mais de 2.500 líderes de empresas, governos, organizações internacionais e sociedade civil. Segundo as notícias, as conferências, debates e encontros de alto nível, chegaram a ser mais de 200 por dia a nível oficial. O fundador e Presidente Executivo do Fórum, Klaus Schwab, referiu que “devemos ter uma compreensão abrangente e global partilhada sobre o modo como a tecnologia está a mudar as nossas vidas e das gerações futuras, transformando os contextos económicos, sociais, ecológicos e culturais em que vivemos”.
Também a crise dos refugiados, as mudanças climatéricas e o aumento dos juros internacionais foram entre os grandes temas debatidos no evento deste ano. Verificou-se ainda que 1 por cento da população global detém a mesma riqueza dos 99 por cento restantes!
A preocupação com a desaceleração chinesa se intensificou quando os dados do PIB chinês registaram o menor avanço em 25 anos. Outro tema de destaque na reunião foi a mudança estrutural que está em andamento na economia mundial, o início da Quarta Revolução Industrial, cuja maior caraterística é o aprofundamento da informática e da robótica. Foi referido que a revolução trará benefício aos países mais desenvolvidos enquanto minará empregos nos países emergentes mais intensivos de mão-de-obra. Segundo cálculos do Fórum, mais de 7 milhões de empregos podem ser eliminados por inovações tecnológicas até 2020.
Pois é, com esta da robótica, vamos ficar mais ruborizados.

(In "Notícias da Covilhã", de 11.02.2016)


10 de fevereiro de 2016

DESPIR O FATO

Portugal passou a contar na história da República com 19 Presidentes. Na I República: Manuel Arriaga, Teófilo Braga, Bernardino Machado, Sidónio Pais, João do Canto e Castro, António José de Almeida e Manuel Teixeira Gomes. Na Ditadura Militar: José Mendes Cabeçadas, Manuel Gomes da Costa, Óscar Carmona, Francisco Craveiro Lopes, e Américo Tomás. Em Democracia: António de Spínola, Francisco da Costa Gomes, António Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Aníbal Cavaco Silva, e, agora, Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda me lembro da principal figura da instauração do Estado Novo, ou seja, este terceiro Presidente da República da Ditadura, o general Óscar Carmona, com o seu retrato a ser retirado das escolas primárias para ser substituído pelo do seu sucessor, general Craveiro Lopes. Com o meu Pai, então já retirado do ensino na Primária, mas ainda a dar aulas suplementares em Cursos de Educação de Adultos, foi azo para reter na memória estas reminiscências do passado. Tinha eu cinco anos quando faleceu o Presidente Carmona e lembro-me de, na Pousadinha, onde morava, meu Pai me mostrar as fotografias e grandes parangonas a negro (embora eu ainda não soubesse ler) dos jornais inerentes à morte de Carmona. Era um assunto então muito falado na altura: Morreu o Carmona!
Já do general Craveiro Lopes retenho outras memórias, incluindo das páginas jornalísticas que, várias vezes, evidenciavam a grande atividade social da Primeira-dama, D. Berta Craveiro Lopes, que viria a falecer aos 58 anos, um mês antes de o seu marido terminar o mandato. Em tempos também muito difíceis da década de 50 do século passado, alguns jovens escreviam à D. Berta, lamuriando-se, a solicitar emprego; as cartas algumas vezes davam resultado, sendo enviadas para as autarquias. Na Covilhã houve alguns casos com colocações na Repartição de Finanças. Mas, a melhor memória que tenho do Presidente Craveiro Lopes reporta-se à visita da Rainha Isabel II de Inglaterra a Portugal em fevereiro de 1957. A sua chegada e o desfile pelas ruas lisboetas, num coche, assim como a participação em vários eventos e banquetes marcava um fait-divers que seria as delícias da Comunicação Social. Na Biblioteca Municipal eu lia os jornais, principalmente a revista Flama, onde se podia ver, para além da Rainha Isabel II, bonita, de 30 anos, e o duque de Edimburgo, também os seus, ainda só, dois filhos: o príncipe Carlos, de 8 anos; e a princesa Ana, de 6 anos. Os príncipes André e Eduardo só viriam a nascer em 1960 e 1964, respetivamente. Eu tinha nessa altura 11 anos.
Já do último Presidente da República, em tempos de ditadura, Américo Thomaz, poucas memórias deixou, quer ele quer a Dona Gertrudes. Da Covilhã, lembro-me de uma visita que fez em que assisti à distribuição de chaves a moradores em casas de renda económica, do bairro da zona da estação de caminhos-de-ferro, isto no ano 1963, e, depois, à noite, no Pelourinho, foi vê-lo da varanda da Câmara Municipal assistindo à exibição de ranchos folclóricos; com o 3.º oficial da edilidade, José Pacheco Lança, fazendo a apresentação dos mesmos. Penso que, aquando do centenário da Covilhã-Cidade, em 1970, também cá esteve pois recordo ver o motorista da Câmara, Sebastião, dias antes, preparado para seguir para Lisboa com pessoal do Município, que, à minha pergunta curiosa, ele respondeu ir a Lisboa levar o discurso do Senhor Presidente da Câmara da Covilhã, Eng. Vicente da Costa Borges Terenas, ao Senhor Presidente da República.
Mas, na realidade, o ponto mais alto entre estes últimos dois Presidentes da República aconteceu na altura das eleições fantoches realizadas em 1958 em que Américo Thomaz foi declarado vencedor, quando, na realidade, tal façanha se verificou sim com o candidato Humberto Delgado. Se não houvesse a fraude eleitoral certamente um antecipado 25 de Abril, com outro qualquer nome, traria mais cedo a democracia ao País.
Sobre os Presidentes da República sobejamente conhecidos em democracia não vou falar, mas tão só nestas últimas eleições presidenciais, jamais vistas nos moldes em que aconteceram: uma dezena de candidatos e duas mulheres, sendo que a primeira vez que tal aconteceu (Maria de Lourdes Pintasilgo) havia sido há 30 anos, em 1986. E é à primeira volta, já esperada, que Marcelo Rebelo de Sousa ganha a nova presidência da República Portuguesa. A vitória de Marcelo Rebelo de Sousa faz-se face à derrota dos candidatos de esquerda, mas surge também perante a derrota do PS e do Governo socialista liderado por António Costa. Mas se o PS sai derrotado como partido, no seu interior mantêm-se as divisões, averbando os apaniguados de António José Seguro uma pesadíssima derrota com a baixa percentagem da sua candidata Maria Belém Roseira. Do distrito de Castelo Branco foi a Covilhã que teve menor número de votantes em Marcelo, e com a menor diferença para o segundo candidato Sampaio Nóvoa. Marisa Matias foi a melhor colocada para ser a primeira mulher presidente, tal como poderia ter vindo a surgir em situação análoga a Tsai Ong-Wen, a primeira mulher presidente de Taiwan que quer fazer frente à China.
Os portugueses continuam a marimbar-se para as eleições, com a abstenção a subir em flecha (dos 9.741.792 eleitores resultou uma abstenção de 51,16 por cento). Lá dizia Fernando Pessoa: “Chegámos ao ponto em que coletivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos”.
António Costa fez o possível por não perder as presidenciais, com a sua disparatada decisão salomónica de recomendar o voto em Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa.
Surge o desafio político. Para Marcelo Rebelo de Sousa já começou. ”Depois de 40 anos na vida pública, vai ter de inventar para si um novo personagem: o do homem que se senta na cadeira de Presidente da República”. Nestes 40 anos foi visto por nós quase diariamente, com roupagens diferentes: comentador, analista, popular, estratégico; criticou, elogiou, disse tudo e o contrário de tudo. Vestiu muitos fatos e, certamente, nenhum lhe vai agora servir. Será que vai despir agora o fato de professor, ou de comunicador? Disse que “será um Presidente para aproximar posições e cicatrizar feridas, para promover convergências políticas e a cultura do consenso”. Marcelo diz: “Não abdicarei do meu próprio estilo”. Portanto, vai vestir um fato à sua medida. E como viverá sem a televisão o presidente que a televisão nos deu? Na opinião de uma mão cheia de gente, os portugueses escolheram o mais popular a opinar no país. A vitória convincente nas eleições presidenciais é como que uma espécie de palmarés resultante do edifício construído com base nessa sua notoriedade televisiva. Mas pode ser o seu fim. É que Marcelo Rebelo de Sousa, o novo presidente de todos os portugueses, já não vai poder falar-nos ao ouvido todas as semanas e não vai poder manter a postura de confortável afastamento das questões concretas da vida política que tão bem cultivou. “Até agora, tivemos na presidência um militar austero, um político nato, um diplomata e um homem que se bastou a si próprio. Chegou a vez de experimentar a “vos amiga” que nos embalou durante mais de uma década”. Portanto, Marcelo vai também ter que saber vestir o seu fato de gala, e sem no mesmo deixar cair nódoas.

É que António Costa subiu ao muro, olhou e, saltando para o lado da esquerda, conseguiu dividir Portugal em duas partes (CDS e PSD do PS, PCP e BE). No entanto as feridas resultantes da peleja entre Costa e Seguro ainda não sararam e as presidenciais lançaram-lhes achas na fogueira, como aconteceu com a candidatura de Maria de Belém. Para onde vai o PS é a pergunta que muitos fazem. Tudo dependerá do sucesso ou fracasso da política económica do governo de António Costa.

(In "fórum Covilhã", de 10.02.2016)

5 de fevereiro de 2016

A BONITA IDADE DE 70 ANOS

Habituei-me, ainda menino e moço, a ler o Jornal do Fundão desde os tempos da antiga Biblioteca Municipal da Covilhã, ao jardim. Posso considerar que este semanário foi meu companheiro na sua génese, mais velho que eu exatamente dois meses. Portanto, sempre que o JF celebra o seu aniversário é uma forma de lembrar também o meu.
Recordo vários momentos, e várias personalidades, que encheram as páginas deste semanário, sempre na enérgica defesa dos interesses da região beirã, no impulso dinâmico e persistente de António Paulouro. O Jornal do Fundão foi e é ainda uma voz que é recebida pelos emigrantes deste pedaço de terra portuguesa. Não esqueço aquando das guerras nas ex-Colónias, os militares portugueses, quantas vezes em notícia e uma foto no JF. Acompanhei a suspensão do Jornal do Fundão pela maldição censória do regime ditatorial de Salazar. Ainda me recordo de à porta da Câmara Municipal, onde então eu era funcionário, o porteiro, com o último número do Jornal do Fundão mo mostrar e dizer: “Foi esta notícia que fez encerrar o Jornal do Fundão”.
Algumas vezes tive o prazer de poder ver alguns textos meus inseridos no espaço deste semanário, bem como algumas referências a eventos onde participei. Ainda tenho em meu poder uma carta do JF datada de 2 de janeiro de 1989 devolvendo-me o valor das ações que então adquirira numa ajuda solicitada pelo Jornal do Fundão e que fora subscrita por muitos amigos durante algumas semanas, oferecendo solidariedade numa hora difícil da sobrevivência do jornal. Nas estantes da minha biblioteca lá estão os livros das Jornadas da Beira Interior, promovidas pelo Jornal do Fundão.
É nesta vertente de leitor que eu desejo a continuidade da força e iniciativas deste Semanário, em prol da Beira Interior. Parabéns!
João de Jesus Nunes

Covilhã

(In "Jornal do Fundão", de 04.02.2016)

13 de janeiro de 2016

UTOPIAS

No dealbar de um novo ano, muitas coisas surgem para fazer. Outras, demasiadamente insolúveis, ficaram ainda para trás. E temos as Presidenciais na aproximação. As promessas diz-se por aí que são para serem cumpridas, com ou sem jura, seja ou não ceguinho… O comboio com a mercadoria dos compromissos vai tendo alguns fardos que se soltam descuradamente. Será que vai haver mais carga a cair? Não queremos mais cegueiras, porque só é cego quem não quer ver. Esta de na terra dos cegos quem tem um olho é rei, era na utopia do de abalada.
Talvez ensaiar a ideia de que o futuro começa agora. Vamos entregar a carta de compromissos ao divino ou ao destino, sendo certo que este depende de nós. Entre os desejos e as resoluções vai uma acentuada diferença.
Já o antigo Presidente americano John F. Kennedy dizia que “A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro”.
O último caixote que caiu da carruagem em andamento ficou “BANIFicado” e vamos pagar mais sem saber porquê. Isto já vão parecendo os tempos da Dona Branca ou, do lado de lá dos Oceanos, de Bernard Madoff. Mas os de cá não são presos.
Na continuidade da convulsão que está a sacudir a Europa, podemos ver o Podemos, como exemplo. Por cá, temos o feminino em evidência na política, o que não se verificava nos tempos de antanho, que é algo de muito positivo.
É preciso mudar de vida: eliminando os meandros colocados no caminho do novo Governo, ter compreensão para com os refugiados oriundos das terras do medo, encontrar formas mais condignas para os idosos que olham para paredes da solidão, e para os miúdos de narizes ranhosos para disfarçar a fome que lhes vai no estômago vazio a caminho da escola; evitar que haja mais desempregados a surgirem às mãos cheias, e os milhares de jovens tirocinados em Portugal mas a caminho da estranja. E mais, e mais, e mais!...
Depois da fartadela de acontecimentos do ano que entrou na sua necrologia, este neófito 2016 começa, como previsto, com a campanha para Presidente da República, insonsa e desinteressante, como está a ser. Com o Governo a fingir-se de morto, neste âmbito, “Marcelo espalha confusão nos eleitores: os de direita, porque acham que ele está a fazer um frete à esquerda, e os de esquerda, porque acham que ele está a usar um disfarce”. E, segundo a opinião de Vasco Pulido Valente, “Segue a fantochada”. É inconcebível como num país tão pequeno, contrastando com outros de maior território, haja tantos candidatos à presidência da República – uma dezena! – sendo que a maioria é de fraca qualidade, alguns deles notoriamente tendo surgido por protagonismo.
É também um ano de efemérides: locais, reginais, nacionais e internacionais. A Escola Secundária Campos Melo completou, no dia 3 de janeiro, 132 anos da sua criação. Tive o prazer de ter colaborado afincadamente, com outros antigos Colegas (alguns já falecidos) e a Presidente do então Conselho Diretivo daquela que foi a Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, nas comemorações do seu centenário, em 1984. E, também de ser um dos fundadores da então primeira associação do país, do género, de antigos professores, alunos e empregados da Escola Campos Melo – APAE, no dia 15 de junho do mesmo ano, agora a caminho dos 32 anos. Se em Viseu, em 16 de março, o Museu Grão Vasco vai comemorar o seu centenário, já em Gouveia, há 100 anos, nascia no dia 28 de janeiro, o escritor Vergílio Ferreira.
No dia 1 de janeiro de 1986 Portugal passava a fazer parte do grupo de 12 Estados membros da então CEE. Hoje a CEE é a União Europeia, integrando 28 países. E atravessa uma série de crises preocupantes. Comemoram-se assim, neste 2016, 30 anos.
Pela segunda vez, na história da República Portuguesa, e em democracia, também 30 anos volvidos, há duas mulheres candidatas à presidência da República, sendo que há três décadas fora Maria de Lurdes Pintassilgo.
Também este ano se comemoram 400 anos da morte do dramaturgo e poeta inglês, William Shakespeare, tendo escrito inúmeras tragédias. Quem não se recorda, por exemplo de “Romeu e Julieta”?
E é ainda neste ano que se comemoram os 500 anos da publicação da obra canónica de Thomas More – Utopia, publicada em 1516. Quinhentos anos depois, o sentido de utopia não se perdeu. E a sua mensagem continua a fazer sentido hoje: “existem alternativas ao que está instituído.

Utopia é uma obra marcada pela realidade, mas também pela ficção. A realidade tende a surpreender a ficção. Mas nunca se resiste ao desafio”.

(In "Notícias da Covilhã", de 14-01-2016)

12 de janeiro de 2016

O PAPEL DO PAPEL

Esta é a minha primeira crónica de 2016. Para trás ficou um ano em que sobraram mais recordações negativas do que positivas da vida pública nacional e internacional.
Refletindo sobre o papel que tiveram muitos dos jornais e a blogosfera pensamos ser preferível virar a página e ter esperança por melhores dias. O problema maior que se levanta é saber quantos dos problemas do ano anterior irão ser endossados para o presente e ainda para anos futuros.
Falar sobre acontecimentos que foram sobejamente narrados pela maioria da comunicação social, de drama, e fantasmagóricos, alguns até às entranhas, não vou repetir. A comunicação social especializada no sensacionalismo até ao enfado se encarrega de tal desiderato.
Bastaram as eleições legislativas, com aquele resultado onde quem parecia que ganhava afinal perdia e quem parecia que perdia afinal ganhava; e com a direita histérica e a esquerda excitada; com os socialistas em curto-circuito; na recordação de Mário Soares que quis ser o Presidente de todos os portugueses, contrapondo com a forma paradoxal como Cavaco acaba o mandato sendo o Presidente de nenhum português, ou melhor, de alguns, ou sejam, ou que estavam nos Jardins de má memória, das Oliveiras podres, entre os Dias desaparecidos presumivelmente por zonas de Loureiros; enfim, disfarçando para que o Estado não voltasse a ficar Salgado.
Mas nem tudo são espinhos, porque também encontramos bom jornalismo. Do relato da falência de bancos constata-se que cinco deles fecharam portas antes do Banif, sendo que, no caso mais dramático, andava todo o mundo; incluindo jornalistas, um triste Presidente da República e um distraído regulador; a elogiar a liderança de Ricardo Salgado e a solidez do BES.
O ano 2016 marcará, felizmente, o fim do “cavaquismo”, inaugurado nos anos 80. Foram mais de 30 indesejáveis anos. Mas os portugueses sempre tiveram a sina de serem um povo habituado a sofrer (na recordação das mulheres dos pescadores naufragados); ou de gostarem que os seus semelhantes sofram (se subiu na vida ou a sorte o bafejou, que os raios o partam);  ou, então, nos receios de que venham males maiores (vale mais votar nestas bestas que já conhecemos, antes que surjam cavalgaduras piores…).
Os jornais atravessam atualmente uma crise, entre o papel e o online. Mas será que o jornal em papel vai mesmo desaparecer? Não acredito! Repito o que transmiti em 15 de março de 2012, na Universidade da Beira Interior, no fórum sobre Jornalismo e Sociedade, no qual tive a honra de ser convidado a participar integrando o painel Jornalismo e Cidadania. E sobre este tema desenvolvi animada conversa com o jornalista Adelino Gomes, da organização nacional deste evento.
O tema sensacionalismo, muito salientado duma breve sondagem que havia efetuado da obtenção de várias figuras da sociedade, repercutia-se, de facto, mais sobre o Correio da Manhã. O que é certo e verdade é que este órgão “nos ensina é que nos jornais é preciso ter uma cultura das notícias”, na opinião de José Pacheco Pereira. E ainda, na sua versão, que o chamado “jornalismo de investigação” está no centro do jornalismo que ainda sobrevive em papel.
A crise dos jornais em papel tem ainda a ver com os hábitos de leitura e procura de notícias, na sua diversificação entre o papel e o online.
Todas as manhãs, as minhas primeiras notícias são áudio, seguindo-se a leitura de vários jornais online, não descurando os jornais em papel, onde a usual banca aguarda pelo seu cliente diário.
Ainda me recordo dos jornais Diário de Notícias e A Bola, que lia na biblioteca, em casa, no jardim público, ou nas unidades militares por onde passei, de grande formato (guardo religiosamente os últimos números). Tínhamos de os dobrar para conseguir ler bem uma notícia. Este facto não é de uma dose de nostalgia, mas tão só um exercício de olhar para o passado e recordar de que forma os jornais estiveram sempre nas nossas vidas de maneiras que já não se repetem.
Registo aqui o que o escritor Mário Cláudio referiu numa entrevista em Belmonte, aquando da segunda edição da Diáspora – Festival Literário de Belmonte, de 2015: “Escrevo à mão os meus livros porque não me vejo a escrever de outra maneira, até porque gosto muito de sentir o cheiro do papel, gosto de riscar e de rasgar e isso não é possível através do computador”. Bom, eu já não faço isso mas gosto, sim, de sentir o cheiro do papel, de dobrar o jornal, de recortar e guardar, evitando assim contribuir para mais abate de árvores, gastando papel com as muitas impressões. No final do mês, o saco com todos os jornais já lidos ainda vai ser útil, numa contribuindo solidária, fazendo a sua entrega no Banco Alimentar Contra a Fome.
Voltando um pouco atrás, existem as diferenciações geracionais entre os mais novos que usam a Internet para se informarem e os mais velhos que ainda mantêm o hábito de comprar os jornais na banca.
Felizmente que há mais de 40 anos passou a haver liberdade de expressão que não é só um direito, assim como o jornalismo livre não é só uma marca da democracia, mas também um dever que deve ser honrado com independência e luta contínua pela verdade, e isto doa a quem doer. Jamais poderá haver jornalismo servil e submisso.
A imprensa livre é um dos pilares de uma sociedade democrática, sendo, no entanto, cada vez mais raro o jornalismo de investigação.
É, no entanto, preciso estar-se atento, para que os media não sejam controlados. Veja-se o caso recente da Polónia, a aprovar uma lei que dá ao Governo o controlo efetivo dos media estatais.
Regressar às famigeradas Comissões de Censura salazarista, ou de Exame Prévio, marcelista, nem é bom pensar. Estamos em democracia.

Vamos esperar que este novo ano de 2016 nos traga formas de melhor encontrarmos a comunicação social, na sua vertente de um são jornalismo; se na digitalização das teclas dos computadores, que continue a manter-se o cheiro do papel.

(In "fórum Covilhã", de 12-01-2016)