9 de agosto de 2016

SÃO FÉRIAS, SENHORES

Com esta canícula, em período de férias, iniciada a silly season (quando alguns dizem que neste ano a mesma nem chegou a existir), com o futebol ainda em preparação para as grandes contendas desportivas, na época que já emergiu para novas grandes decisões, não há grande inspiração para o cronista.
Os portugueses numa onda ganhadora de títulos. Ainda não se vê D. Marcelo I, da era de Costa, cansado de tanta atribuição de comendas. Que isto de medalhas é só mandar executá-las. Estamos na Europa (e prenúncio na América) com o feminino a botar de sua justiça: Angela Merkel, Theresa May e Hillary Clinton. Há pelo menos um respirar de alívio por falta de tédio: deixou de se falar tanto em sanções, atentados, Brexit, o êxtase patriótico no retorno à unidade orgânica da pátria com o fim das divisões malvadas, ainda que temporariamente enquanto o cachecol da seleção esteve em todos, e, como diz Pacheco Pereira, também “com os artistas menores do PSD, porque o maior mantém a compostura de primeiro-ministro no exílio. Traz a bandeirinha à lapela e a zanga com o destino que lhe deu a geringonça no bolso”. Entretanto, Portugal ganhou mais um título – “A Taça das Zero Sanções”.
Mas para se ganhar no campeonato político é preciso uma intensa atividade, com a persistência como último fôlego, no tempo de compensação das disputas desportivas da alta competição, ou no seu período de prolongamento.
Consta que valeu terem os “árbitros assistentes” Jean-Claude Juncker (luxemburguês) e Carlos Moedas (português) levantado bem as bandeirinhas ao “árbitro” Jeroen Dijsselbloem que queria assinalar grande penalidade contra Portugal.
Agora o estranho é que o Goldman Sachs tenha escolhido outro árbitro, que passou à reserva, José Manuel Durão Barroso, lusitano, para ir apanhar Pokémons “americanos”, nos seus jardins, considerada já uma escolha provocatória.
É que Barroso ocupou durante dois anos o cargo de primeiro-ministro de Portugal e dez anos presidente da Comissão Europeia, sem ter conseguido pescar em Portugal peixe algum para além do cherne. E em Bruxelas ser um alto servidor de Merkel, varrendo o lixo para debaixo do tapete. Ele que foi apanhado a dormir pela crise que em 2008 varreu a Europa.
Bom, mas agora são férias, senhores.
É uma oportunidade para na recente febre da busca de Pokémons encontrarmos, como têm dito, um valioso analisador do estado da nossa vida coletiva.
Pelas Américas teremos eleições presidenciais lá para Novembro. Donald Trump devia ir numa cápsula para outro planeta, o despromovido Plutão.
Mas, já que estou numa destas de visitar, pela segunda vez, Israel e Jerusalém, daqui por uns dias, como o fizera há nove anos, trago a este espaço as principais figuras israelitas do momento, que, tal como por outras bandas do planeta, têm as suas composturas próprias, aceites por uns, repudiadas por outros.
O Primeiro-ministro é Benjamin Netanyahu, nascido em 1949, do partido Likud, que está cumprindo o seu 2.º mandato, e que iniciou em 31 de março de 2009 (o 1.º mandato exerceu-o de 18 de junho de 1996 a 6 de julho de 1999).
O cargo de Primeiro-ministro do Estado de Israel é o mais alto do governo, apesar de que oficialmente o Chefe de Estado seja o Presidente.
Mas há uma outra figura, controversa, que se chama Avigdor Lieberman, o mais contestado, que é o ministro da Defesa de Israel, desta potência nuclear, campeã da ocupação ilegal de outro povo.
Os árabes israelitas, ou seja, palestinianos que ficaram com cidadania israelita em 1948, são hoje um quinto da população de Israel. O equivalente a dois milhões de portugueses, só que com menos direitos.
Lieberman é um judeu de língua russa, nascido na ex-URSS, como muitos que vieram entretanto morar para Israel. Em julho passado Lieberman resolveu comparar o escritor Mahmoud Darwish a Hitler e dizer que os poemas dele são “um fuel do terrorismo”, segundo narra a jornalista Alexandra Lucas Coelho, a residir em Jerusalém, “ofendendo assim não apenas todos os palestinianos, como milhões de árabes que têm Darwish como um dos maiores nomes da sua cultura”.
Mahmoud Darwish, que morreu em 2008, foi sempre um laico. Nascido na Galileia, teve de fugir com a família para o Líbano em 1947. Quando voltou, depois da declaração do Estado de Israel, já não podia ser cidadão. Fez-se comunista em Haifa, no Norte de Israel, integrando a OLP, já no exílio, e escreveu a declaração nacional da Palestina para Arafat ler. Saiu da OLP em desacordo com os Acordos de Oslo, que não resolviam a questão dos refugiados palestinianos no Líbano, Síria e Jordânia. Ao mesmo tempo não punha em causa a existência de Israel, defendendo a solução dois estados. Foi um forte crítico do Hamas, e da divisão palestiniana em 2007. Os palestinianos veneram-no como símbolo nacional. A sua prosa e poesia fazem parte de currículos escolares do Levante ao Magrebe.
Mahmoud Darwish quando namorava a judia Tamar Ben Ami, escreveu várias cartas de amor, e alguns poemas, alguns deles vistos pelos palestinianos como uma referência à pátria.
Antes de Tamar, outra judia marcou o seu percurso: Shoshana Lapidot, professora de hebraico, enviada pelo governador militar para Yasif, a aldeia onde a família do poeta se instalou quando o pai decidiu fugir das tendas de refugiados no Líbano.
Observemos a doçura dos versos do poeta Darwish para a sua amada Tamar Ben Ami, a quem considerava a judia de “olhos cor de mel”: “Tamari (diminutivo carinhoso), não estou a escrever mas a sussurrar ao teu ouvido/ (…) Estás no meu quarto/na minha cama/na minha mala/no meu livro/na minha caneta/no meu coração e no meu sangue/ Teu Mahmoud.”

Em 1967, Mahmoud Darwish foi preso, porque as autoridades militares israelitas consideravam os seus poemas subversivos. Em 1970, ele mudou-se para Moscovo. Em 1992, Darwish entrou na Cisjordânia pondo fim ao exílio.

(In "fórum Covilhã", de 09-08-2016)

24 de julho de 2016

A DIMENSÃO DO ANTIGO INTERNACIONAL PORTUGUÊS, VICENTE LUCAS

Este texto foi iniciado no final do encontro entre as seleções do País de Gales e da Bélgica, com a vitória do primeiro, em 1 de julho, ficando assim a conhecer-se o adversário para a Seleção de Portugal, nas meias-finais do Campeonato Europeu de Futebol 2016, a realizar-se em França.
Foi, assim, a 4.ª vez que Portugal chegou às meias-finais (1984, 2000 e 2012 e 2016), sendo certo que no ano 2004 foi vice-campeão europeu, e, neste caso, passou uma 5.ª vez pelas meias-finais.
Mas, o que é certo e verdade é que, depois de muitas críticas, Portugal acabou por vencer o País de Gales por 2-0, passando, pela segunda vez na sua história, à final, desta vez com a França, que, entretanto, derrotara a Alemanha por aquele mesmo resultado.
Chegado o momento decisivo da final, no inolvidável domingo,10 de julho, Portugal acaba mesmo por se sagrar Campeão Europeu de Futebol, ao ganhar à França, em sua própria casa, por 1-0, golo de Éder, pela primeira vez na sua história, ficando assim assinalado este facto numa das páginas de ouro dos anais do desporto português
Sobre a génese deste Campeonato, considerando ter havido muitas oportunidades para a realização de jogos internacionais a nível de seleção, a Europa foi o último continente a desenvolver um campeonato para as suas Federações.
Somente em 1958 se começou a disputar o Campeonato da Europa, inicialmente com a designação de Taça Henri Delaunay, em homenagem ao seu fundador e principal ideólogo da prova. Foi o primeiro presidente da UEFA. Depois passou a designar-se de Taça da Europa das Nações. Em 1968 foi abandonada esta designação para a atual: Campeonato Europeu de Futebol. Inicialmente a prova funcionou de moldes diferentes.
Portugal integrou o Campeonato Europeu, pela primeira vez, em 21 de junho de 1959, com o primeiro jogo na Alemanha Oriental, onde ganhou por 2-0. Neste encontro jogaram dois irmãos: Sebastião da Fonseca Lucas, mais conhecido por Matateu, já falecido; e Vicente Lucas da Fonseca. Os golos de Portugal foram marcados por Matateu e Coluna. No segundo jogo, realizado no nosso país, em 28 de junho, Portugal ganhou à Alemanha Oriental por 3-2.
Vamos dar evidência à figura incontestável de VICENTE LUCAS, de seu nome completo Vicente da Fonseca Lucas, que nasceu em Moçambique em 24-09-1935. Veio para Portugal, envergando a camisola do Clube de Futebol “Os Belenenses”, ombreando com seu irmão, Matateu.
Estreou-se pela Seleção Portuguesa em 3 de junho de 1959, em Lisboa, frente à Escócia (1-0), tendo sido o seu último jogo, no Campeonato do Mundo de Futebol de 1966, em 23 de junho de 1966 (há cinquenta anos), em Liverpool, frente à Coreia do Norte (5-3). A sua posição em campo era a defesa e médio.
Pouco falador, bondoso, Vicente tornou-se numa das figuras mais queridas da história do futebol português. O seu estilo subtil e instintivo marcou uma época, tendo sido um defesa de categoria ímpar, de técnica apuradíssima e impressionante rapidez de movimentos. Na sua capacidade de antecipar os lances e os movimentos do adversário, chegava sempre primeiro às bolas em disputa, tendo alicerçado uma carreira que o Mundo apreciou.
Cinco anos depois de ter assinado pelo Belenenses, Vicente chegou à Seleção Nacional na qual não teve uma presença muito firme. Os confrontos com o Brasil, sobretudo aquela célebre vitória de abril de 1963, em Lisboa (1-0) criaram um facto inesquecível na vida do defesa central português: a forma como soube marcar Pelé, a grande estrela do futebol mundial, permitindo à imprensa rejubilar em manchete: “Vicente meteu Pelé no bolso”. Não admira, portanto, que das suas 20 internacionalizações, Vicente some 6 contra o Brasil.
Com 30 anos, parecia que Vicente iria ter mais 4 ou 5 épocas ao mais alto nível para dar ao seu clube – O Belenenses, e à Seleção Nacional Portuguesa, mas o fatal destino não permitiu que assim acontecesse. Logo no início da época seguinte, no fatídico dia 7 de outubro de 1966, um acidente de viação fez-lhe perder uma das vistas. O infortúnio atingira brutal e precocemente o fim da carreira de Vicente.
Em 22 de janeiro de 1967, uma vénia coletiva varreu o país desportivo, com jogos a decorrerem em 17 campos de norte a sul sob o mesmo denominador, e isto diz tudo sobre a dimensão de Vicente Lucas.
Recordo-me de também o Sporting da Covilhã se ter associado num desses encontros, com o Benfica de Castelo Branco, em Castelo Branco. Foi a justa homenagem ao grande Homem e Desportista, todos se unindo para mitigar o infortúnio de um jogador de eleição.
Recentemente, Vicente Lucas teve um novo irritante adversário. A recente amputação parcial da perna esquerda vai obrigar o antigo defesa/médio que brilhou no Mundial de 1966 “a um processo de recuperação que exige uma dose de empenho tão generosa como aquela que, durante anos a fio, derramou sobre o relvado. É mais um revés num corpo massacrado pelo azar que foi forçado a virar costas ao futebol demasiado cedo”, quando, em outubro desse ano de glória da seleção em Inglaterra, sofreu, como já referi, um acidente de viação que lhe inutilizou um olho.
E, assim terminamos este texto, da “Memória Redonda – Simplesmente Vicente”, como tão bem o interpretou o “Público”, de 6 de março de 2016.
As memórias dos dois irmãos, a jogar no Belenenses, e na Seleção Nacional, são diferentes, na verdade. No campo e fora dele. Matateu, mais imponente e extrovertido. Vicente, mais subtil e discreto. Matateu um predador de área. Vicente uma sombra permanente para os adversários.
É verdade que Vicente Lucas nunca se sagrou campeão nacional, mas conquistou algo bem mais valioso que um troféu: o respeito e a admiração de um povo.

Como Vicente Lucas, também os valorosos atletas que integraram a Seleção de Portugal, neste Campeonato Europeu de Futebol de 2016, são credores do respeito e admiração de todos nós.

(In "O Combatente da Estrela", de julho a setembro de 2016)

TAMBÉM SOMOS UMA CASA DE CULTURA

Chegámos ao verão ansiosamente esperado depois da inexistente primavera ter sido, neste ano da graça de dois mil e dezasseis, um indevido continuar do inverno, quase… Esperemos que tenha sido tão só um virar de página.
Assim, conforme anunciámos no anterior número d’O Combatente da Estrela, e como o atesta a reportagem inserta neste, as Comemorações dos noventa anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes revestiram-se de grande brilhantismo. Mais de duas centenas de pessoas participaram nos diversos atos das Comemorações que se concluíram com o almoço-convívio no Hotel das Penhas da Saúde.
Na sua grande maioria éramos conhecidos, amigos ou antigos companheiros de jornada, quer nos tempos saudosos da escolaridade, das várias atividades profissionais, muitos na indústria laneira, não só na Covilhã, quer por este país fora, e até além-fronteiras; e, como não podia deixar de ser, dos difíceis tempos da obrigatoriedade do serviço militar, em tempo de guerra nas Colónias, designadas na altura de Ultramar.
Diz-se que o tempo cura as feridas, mas a profundidade com que foram sulcadas em muitos casos, jamais desaparecem das mentes de cada um dos envolvidos nesses meandros da incompreensão por que foram tantos jovens lançados às feras. Alguns textos aqui reproduzidos pelos vários Colaboradores são disso testemunho real.
A juventude de hoje, que não se vê envolvida no serviço militar obrigatório, em tempo de paz (não fazia mal nenhum, nesta situação, antes pelo contrário) jamais se aperceberá do que foi a sua antecessora dos anos sessenta e setenta do século passado, ao ser retirada do seio da sua família, para ser enviada para as terras africanas, e não só, na incerteza do seu regresso, volvidos muitos meses, após terminarem os seus tempos de serviço, e poder ainda ser com vida.
Alguns familiares não aguentaram o choque inicial da partida dos seus filhos, como podem verificar no texto, em parte comovente, inserido neste número, na rubrica “Conte-nos a sua história”.
Mas agora, entre a diversidade de casos; uns que regressaram sem problemas de maior, ao invés, outros com deficiências na sua carne, incuráveis, mais ou menos acentuadas; um denominador comum a quase todos abrange com os problemas traumáticos gerados. Que nunca desaparecem. Para isso a Direção Central da Liga dos Combatentes disponibilizou aos Núcleos o acesso a consultas com psicólogas, aos antigos Combatentes e suas famílias, assim como outros apoios.
Para além dos sofredores no terreno militar, daqueles ex-territórios longínquos, ficaram outros (as) sofredores (as), na Terra-Mãe, que também, em muitíssimos casos, ainda estão a suportar na vivência em comum, as doenças das mentes, muitas vezes sem se terem muito bem apercebido da mudança de comportamentos que afetou o agregado familiar.
Será pois nesta compreensão; que é também uma união, uma força, um sentir, e também uma revolta, por que existe esta instituição, abarcando todas as classes sociais, que se irmanam neste grande elo de ligação – a força do dever cumprido – e, agora na tranquilidade do não perigo iminente; que podem encontrar aquele lenitivo, para a recordação das memórias dos tempos de medo, mas, também, no meio daqueles tempos conturbados, o que os seus olhos viram de deslumbramento geográfico, que só a incompreensão dos senhores da guerra, e dos que para ela nos atiraram, mancharam a paisagem com tinta de sangue.
Efetivamente, a história desses famigerados tempos de 1961 a 1974 vieram lançar um enorme e injusto castigo à juventude de então, mas “não houve tempo” de punir justamente os causadores de tanta maldade.
Poderia esta Instituição, que aliás foi criada com base nos Combatentes da Grande Guerra, e depois continuadora com os Combatentes do Ultramar, ser uma como tantas Instituições ou Coletividades que grassam por este Concelho, para já não falar do país, que não passam se não para manter em atividade um simples bar, ou, como agora está em voga, aproveitar um leque de viagens, que também despertam o espírito, e fazer alguns eventos normais ao longo do ano para preencher o espaço duma gerência.
Poderia também ser uma dessas muitas Instituições ou Coletividades em que o aspeto cultural é o de somenos importância, que isso é matéria enfadonha. Para saber as novidades, na mesa de leitura podem lá encontrar os jornais desportivos.
Felizmente que neste Núcleo da Liga dos Combatentes da Covilhã, os meses são preenchidos com várias atividades de vários âmbitos, onde a Cultura tem um papel de primordial importância.
É, pois, também uma Casa de Cultura.
Daí que as equipas diretivas encontram-se verdadeiramente empenhadas no prosseguimento desses objetivos que têm traçado.
Dá gosto assim trabalhar, porque todos os dias são convívios, cada qual ao seu gosto, cada qual à sua maneira, cada qual num fazedor de novos amigos!
É por isso, como sempre tenho dito, que a amizade é uma festa.
Neste contexto, a Direção do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, para além de ter prestado tributo a todos os antigos e atuais dirigentes, em ato simbólico de reunião num almoço-convívio, também se propôs recordá-los através duma brochura, ainda em preparação, para que as memórias de todos quantos passaram pelo dirigismo desta Instituição se perpetuem. Fazendo assim jus à memória de todos quantos ombrearam nas várias tarefas para manter de pé, e neste fervor, uma Instituição que é merecedora do respeito não só do Concelho e Cidade onde se encontra inserida, mas também do país.
O relato que vamos dando conta dos vários eventos, ao longo dos anos que se vão seguindo, assim o atesta.

Este espaço da escrita está cada vez a ficar-me mais reduzido, mas não posso terminar sem referir aqui um Amigo pessoal que precocemente nos deixou, o Dr. Rui Nunes Proença Delgado, que foi um dos fundadores d’O Combatente da Estrela. Um grande historiador sobre a Covilhã, onde deixou excelentes obras sobre a sua história, as quais tive o privilégio de lhas adquirir, todas autografadas. Aliás, eu era sempre um alvo por ele indicado para estar presente na apresentação das mesmas. E conversámos várias vezes sobre os livros e as crónicas.

(In "O Combatente da Estrela", de julho a setembro de 2016)

12 de julho de 2016

A SANÇÃO E O SANSÃO

Vão desaparecendo figuras carismáticas da vida artística portuguesa. O humor também faz parte do lenitivo de que tanto necessitamos nas nossas vidas; cujo pendor não chega aos taciturnos, que também os há. Aqueles que veem sempre o mundo todo do avesso. E que nada contribuem para o melhorar. Mas também há outros macambúzios que não aceitam críticas no vermelhão das suas vergonhas, arremessando as suas culpas para o abstrato, em ferroadas inventivas por falta de inércia a vários níveis. Que nem o momento eufórico do futebol nacional, a nível da Seleção de todos nós, os envolvem patrioticamente.
Mas, como diziam os que entretanto já partiram, Camilo de Oliveira (a semana passada, com 91 anos) e Ivone Silva, na canção “Ai Agostinho, Aí Agostinha”; do programa de humor “Sabadabadu”, que surgiu na RTP1 em 1981; de facto “Este país perdeu o tino. A armar ao fino, a armar ao fino. Este país é um colosso; está tudo grosso, está tudo grosso. Isto é que vai uma crise, isto é que vai uma crise!”.
Sentido de humor bastante atual, com os nossos governantes no palanque a tentarem rumar contra a União Europeia, esta na sua dualidade de injustiça e teimosia, pela pretensão de que sejam aplicadas sanções a Portugal, pelo défice excessivo em 0,2%. Já António Costa havia criticado a troika que impôs quatro anos de austeridade recordando que as instituições europeias não pouparam aplausos ao anterior executivo português, elogiado pelo FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, por ter sido um “bom aluno” e ter executado bem o programa de ajustamento.
E o primeiro-ministro e líder socialista não aceita que os elogios tenham ficado para o anterior Governo, que, “apesar de ter sido um aluno excecional, excedeu em 0,2% (360 milhões de euros) os limites do défice, nem que as instituições europeias, que co executaram o programa de ajustamento, queiram agora aplicar sanções a Portugal”. “Mas qual é a moralidade de quem andou a apoiar esse Governo para agora querer aplicar sanções?” Apontou os muitos sacrifícios que foram exigidos aos portugueses.
E a decisão das sanções que forem tomadas pela UE continuam a ser adiadas, à hora que escrevo esta crónica. Bruxelas hesita em sancionar, ou como encontrar uma sanção, tendo em conta que os Portugueses já não querem ser os Calimeros da Europa. A situação indefinida dos espanhóis também nos pode afetar, embora os problemas sejam deles. E é que agora, nesta talvez impensada fragilidade da UE (a fragmentação pelo menos já foi iniciada pelo Reino Unido), Bruxelas deve agir no sentido de que “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. Por isso, ansiosamente os governantes portugueses aguardam “serenamente” as decisões, como diz António Costa.
Sabemos que na Europa, os comissários, os ministros das Finanças, os líderes políticos e das instituições dividem-se entre os ortodoxos que defendem as penalizações, como inevitáveis; e aqueles que defendem uma maior flexibilidade das regras orçamentais europeias a fim de evitar as sanções. A decisão que for tomada sobre o futuro de Portugal e Espanha terá que nesse compromisso refletir sensibilidades diferentes, agradando a gregos e a troianos.
E querer impor sanções a Portugal e Espanha e não à França, porque “a França é a França”, como referiu Jean-Claude-Juncker, é o exemplo do que é a Europa de hoje, indiferente ao voto nacional, comportando-se de forma diferente conforme o tamanho dos países.
Pela parte que nos toca, foi com enorme alegria que vimos, e sentimos, uma “saudável sanção portuguesa” imposta à França, no domingo, 10 de julho, sagrando-se Portugal, pela primeira vez na história, Campeão Europeu de Futebol!
O Presidente da República destacou a unidade contra as sanções mas os partidos da direita criticam o Governo. Passos Coelho disse que o Governo atirou credibilidade do país “pela janela fora”. E o maior partido da oposição passa culpas de eventuais sanções para o PS. É inacreditável que numa altura em que aplicação de medidas corretivas a Portugal está ao rubro, o PSD venha dizer que, se estivesse no Governo, a história era outra. Mas qual história? A da continuidade do grassar da pobreza? E a antiga ministra das Finanças, Maria Luis Albuquerque, a referir que “Se eu fosse ministra, as sanções não se colocavam”.
Mas que isto de ministro de Finanças também se verificou a leviandade do alemão Wolfgang Schäuble, perdendo mais uma oportunidade de estar calado, pois que numa altura em que os mercados estão nervosos com as ondas de choque do “Brexit”, falou na possibilidade de Portugal ser alvo de um novo resgate, neste anúncio falso e incendiário. Depois, vendo o erro que cometeu, veio corrigir o que anteriormente tinha dito: “Os portugueses não o querem e não vão precisar dele (segundo resgate) se cumprirem as regras europeias”. Onde está a credibilidade deste senhor? E, como de humor já falei atrás, penso que não foi por causa destas palavras de Schäuble que os alemães perderam com a França, nas meias-finais do Campeonato Europeu de Futebol…
Este senhor todo-poderoso alemão faz recordar uma história bíblica – Sansão que liderou durante vinte anos, Israel, no tempo do domínio dos filisteus. Quando Sansão foi a Gaza, Dalila disse a Sansão: “Você me fez de boba; mentiu para mim! Agora conte-me, por favor, como você pode ser amarrado?”. Dalila receberia mil e cem moedas de prata se conseguisse saber donde provinha a força de Sansão.
Ora, será que a “Dadila” portuguesa, ex-ministra das Finanças, paga a peso de ouro e não de prata, pela Arrow, conseguiria saber o segredo da força do “Sansão” Schäuble, ainda que fosse pela quarta vez, que era cortar o cabelo do guerreiro para o enfraquecer? É que as famosas possíveis sanções a Portugal dizem respeito a três anos (2013 a 2015). Neste período Maria Luís Albuquerque foi ministra das Finanças. E por três vezes falhou as metas do défice. E, assim, no quarto ano, faz campanha contra o atual ministro das Finanças.

Aquele Sansão tinha força, mas estas sanções são uma farsa.

(In "fórum Covilhã", de 12-07-2016)

6 de julho de 2016

A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA FOI HÁ 135 ANOS

1 - As viagens de exploração portuguesas a África haviam-se iniciado a 7 de julho de 1877, com o trio Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto. A ideia partiu de Luciano Cordeiro, escritor, historiador, político e geógrafo português que, tendo desempenhado cargos governativos, dois anos antes havia fundado a Sociedade de Geografia de Lisboa (10 de novembro de 1875), com um grupo de 74 subscritores. O seu objetivo: promover e auxiliar o estudo e progresso das ciências geográficas e correlativas. Existia já um movimento europeu de exploração e colonização, direcionado para o continente africano.
Esta Sociedade surgiu tardia, na defesa da posição portuguesa em África, face ao forte surto expansionista europeu, com exploradores de todas as grandes potências europeias, lançados numa verdadeira rivalidade pela prospeção dos territórios.
Na Conferência de Berlim, realizada de 15 de novembro de 1884 a 26 de fevereiro de 1885, com o encontro de líderes europeus (Alemanha, Grã-Bretanha, França, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Estados Unidos, Suécia, Áustria-Hungria e Império Otomano), teve o objetivo de dividir África e definir arbitrariamente fronteiras. Nesta conferência Portugal apresentou um projeto – o célebre Mapa cor-de-rosa – que consistia em ligar Angola a Moçambique. Não obstante todos concordarem com o projeto, os ingleses roeram o acordo com Portugal e marimbaram-se para o Tratado de Windsor, assinado entre a Inglaterra e Portugal, em 1386. Cedemos. Foi o Ultimato Britânico a Portugal.
Oito anos antes os nossos exploradores iniciavam a sua expedição a África, tendo regressado, triunfalmente, em 1 de março de 1880, somente Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens.
2 Entretanto, em agosto de 1881, a Sociedade de Geografia de Lisboa promove e organiza a Expedição Científica à Serra da Estrela, durante quinze dias, com início no dia 1 de agosto, auxiliada pelo Governo e pela Junta Geral do Distrito da Guarda. Integrou esta expedição o médico, Dr. Sousa Martins, cujos esforços desenvolveu no sentido de chamar a atenção dos meios científicos e clínicos de então para as condições que esta região oferecia para o tratamento da tuberculose, que grassava na época. Surgiu assim o Sanatório Sousa Martins, na Guarda, inaugurado pelo Rei D. Carlos e Rainha D. Amélia, em 18 de maio de 1907. Mais tarde surgiu na Serra da Estrela o Sanatório dos Ferroviários, mandado construir pelos Caminhos-de-ferro, para tratamento da tuberculose dos seus funcionários. Demorou oito anos a construir (1928-1936).
Desta expedição resultou a elaboração de relatórios das várias secções científicas. O interesse do Dr. Sousa Martins na realização da expedição prendeu-se com a necessidade de conhecer a meteorologia e as condições sanitárias da região dada a importância então atribuída ao clima no tratamento da tuberculose pulmonar. Assim, em conjunto com Hermenegildo Capelo, que também integrou a expedição, requereu ao Governo a instalação de um posto meteorológico na Serra, e ele lá está, nas Penhas Douradas, desde janeiro de 1882.
De harmonia com o regulamento, “A expedição divide-se nas seguintes secções: a) seções de estudo: de agronomia e silvicultura; de antropologia, de arqueologia, de botânica, de etnografia, de geologia, de hidrografia (estudo das torrentes); de hidrologia mineromedicinal, de medicina, de meteorologia, de zoologia, de zootécnica; b) secções auxiliares: de trabalhos químicos, de trabalhos fotográficos; c) secções de serviço: de serviço médico de socorros aos membros da expedição que deles carecem; de serviço administrativo de secretaria, tesouraria, transportes, correio, rancho, etc.”. Foram 100 os elementos que a constituíram.
Como não é possível, por falta de espaço, enumerar muitos dos interessantes factos que ocorreram nesta expedição à Serra da Estrela, respiguei dos relatórios de algumas das secções, algo de curiosidades no que concerne a vários aspetos, como a aventura, o medo, as lendas, memorização de alguns nomes de sítios por que muitos de nós já passámos, ou ouvimos falar.
Certo é, que na secção de “Medicina – Subsecção de Hidrologia Mineromedicinal” se deu ênfase às águas termais sulfurosas das Caldas de Manteigas e de Unhais da Serra, e as respetivas fontes.
Na secção de “Arqueologia” fez-se evidência às estações pré-históricas (do tipo Citânia e de Sabroso), para, nos monumentos megalíticos, se realçarem as Antas, Sepulturas em rocha, Penedos com gravuras e Antinhas.
Já a secção de “Etnografia” é uma das mais recheadas de conteúdo histórico, na parte inerente às “Lendas da Serra da Estrela na Tradição Escrita”, onde a vida de Viriato é francamente em evidência. São ainda referidas as “Comunicações das lagoas com o mar, fluxo e refluxo, bramidos quando há tempestade”. Depois, nas “Interpretações locativas”, falou-se na origem possível de “Monte Hermínio”, sendo que “uma tradição que chegou aos nossos dias designa a Serra da Estrela o Hermínio Maior; a de Marvão, o Hermínio Menor”.~
E também o Malhão Grande ou Malhão da Estrela, nome dado ao ponto culminante da serra, designação que os pastores da localidade empregam. E cujo local se passou a chamar Torre, depois de colocada uma pirâmide, a qual foi mandada construir em 1806 pelo príncipe regente D. João. As aventuras dos expedicionários: “Se de dia e a distância ninguém observa os Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido, imagine-se o que nós sentiríamos às dez da noite aos vermo-nos presos no cume do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira, eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos! (…) Aqui, onde a natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir infinitamente pequeno. (…) Chegado a este ponto fomos descendo, recomendando-nos o pastor que não olhássemos para os lados por causa da vertigem do abismo e que descêssemos de costas, não deslocando nunca uma mão sem ter a outra firme e segura ao rochedo. Estivemos parados algum tempo sem poder prosseguir nem retroceder. Estávamos suspensos entre a vida e a morte! Causava horror olhar para os lados ou para a frente. Fitámos então a vista nas estrelas para não sentirmos a vertigem do abismo cavado a nossos pés. – Estão salvos, disse-nos o pastor, porque desceram de noite e não viram o precipício”.
Sendo a maior secção, aqui se falou dos Cântaros, Fontes e Lagoas dos Vales do Zêzere e do Alva (Chafariz del-Rei, Lagoa do Paxão, Lagoas dos Cântaros ou das Salgadeiras; Fonte de Paulo Martins; Fonte dos Perus, Lagoa Escura, Lagoa Comprida, Lagoa Redonda, Lagoa Seca, Lagoa das Favas); Rua dos Mercadores, Penhas Douradas, Agulha, Espinhaço de Cão, Covão, Nave, sendo certo que as palavras penedo, penedia, penhasco, rocha, rochedo, penha, etc., vulgarmente empregadas como sinónimos, têm todavia significações diversas, consagradas pelo uso da gente rude, algumas das quais coincidem com as que os respetivos termos são assinaladas na linguagem culta.
Por último, na secção de “Botânica” muita coisa foi dita que seria de grande fastio aqui enumerar, pois foram 716 espécies as mencionadas, com as suas localizações. Só referir que o Cervum, assim se denomina o nardus stricta, que atapeta uma grande parte do terreno dos planaltos; é uma erva muito rasteira e resistente. E também o nosso conhecido zimbro, juniperus communis.
As explorações botânicas na Serra da Estrela já haviam sido efetuadas, por várias vezes, ao longo do século XIX, sendo que a primeira expedição teve lugar em julho de 1798.

(In "Notícias da Covilhã", de 07-07-2016)













25 de junho de 2016

A “CUNHA” NA SOCIEDADE

Cunha (figurado): pedido especial realizado por alguém a favor de outra pessoa; recomendação; empenho (in “infopédia – Dicionário Porto Editora”).
Quem ainda não se serviu, ou “meteu uma cunha”, durante as várias vertentes da sua vida?
Durante o período escolar, ao longo da vida profissional, na ação pública, na política, ou noutra qualquer situação, a dona “cunha” sempre desempenhou o seu papel na sociedade. E cobre todas as classes sociais.
Obviamente que quando se é ainda muito jovem para exercer uma atividade profissional, como era antigamente, sem a “cunha” era difícil o rapazinho ou a menina entrar em qualquer lugar.
Aquilo que agora já não acontece com tanta facilidade, naqueles tempos, sem formação adequada para solicitar um emprego, as faces ficavam rosadas nalgum revés de entrevista, naquele gaguejo da inexperiência. E, por vezes, quem era competente ficava prejudicado por força do outro que entregou o assunto à dona “cunha”.
Recordo que durante o serviço militar obrigatório não quis satisfazer uma “cunha” que me caiu nas mãos, de um sargento, indiretamente vinda de um outro, seu superior, na sala de aula onde exercia as funções, no RAL 4, em Leiria, para que determinados recrutas na especialidade fossem classificados com notas mais elevadas que outros. Uma imediata denúncia ao comandante resolveu o assunto. Veio-se assim a descobrir que o filho de um industrial de tapetes obsequiava o interessado nestes bens… tapetes!... E os candidatos a beneficiados poderiam prejudicar outros seus camaradas, com este engodo, para as pautas de mobilização para as Colónias, sabia-se lá!
Se é para memorizar os efeitos, ou possíveis efeitos da “cunha”, então aí vai mais esta: em determinada fase da minha vida profissional vi-me confrontado com a responsabilidade de selecionar um candidato a empregado na empresa da qual era o gestor. As “cunhas” começaram imediatamente a surgir como formigas, por todos os cantos da Cidade, e não só. Eram de conhecidos, amigos, familiares, desconhecidos, do senhor inspetor da CP, de políticos que vinham desde logo dizer que não estavam afetos a quaisquer partidos, e sei lá que mais, pois jurei não voltar a aceitar tal missão.
Depois, ainda houve, no tempo da outra senhora, as “cunhas” com cartas de muita humildade, contando em choro a vida de infelicidade, dirigidas ao pai-previdência, que um emprego no Estado vinha resolver a vida infeliz do agregado familiar onde se inseria. Vi cartas dessas na Câmara Municipal da Covilhã dirigidas à D. Berta Craveiro Lopes, mulher do Presidente da República de então, general Craveiro Lopes.
Para entrada num Banco, o Padre Morgadinho por vezes dava uma ajuda, amigo que era da família do Dr. Miguel Quina, desde que a família não fosse comunista, porque consta que acusava aos senhores da ditadura quem era do contra, conforme constou do Dr. Castro Martins, assim me informou a esposa, Dr.ª Edite, ambos falecidos professores da Escola Industrial e Comercial Campos Melo, como eu sempre gostei de a tratar.
As cartas de recomendação de antigamente foram substituídas pelos cartões partidários de hoje, entre boys e girls, com altos vencimentos, muitos daqueles sem qualidade alguma, em detrimento dos que verdadeiramente andaram a queimar as pestanas e se viram defraudados por este enxame de admissões, sem rei nem roque.
Os partidos políticos tornaram-se com o tempo e a democracia um lugar da “cunha”. Maior ênfase é para os que acedem ao poder político central, mas também em grande quantidade no âmbito das autarquias.
E como reconheço que a pouca apetência para a leitura é evidente, sem que se acentue mais a iliteracia, e nem todos vão ler esta revista, que ajudei a fundar, digam-me lá, verdade ou mentira, se entendem que o Sr. Miguel Relvas não conversou com a dona “cunha”, vestida ou não de calças de ganga, ou de minissaia, para aquele “doutor” ser um inexistente licenciado, que isto de doutores é como chapéus há muitos.
Literalmente há milhares de “cunhas”, que aumentam quanto mais poderosas forem as funções daquele a quem se pede um favor.
Há, contudo, muitas centenas de “cunhas” para pessoas fora das altas burocracias do Estado mas que estão colocadas numa situação estratégica para o favoritismo de emprego e carreira.
A origem das “cunhas” atinge todas as classes sociais e todas as áreas da sociedade portuguesa.
Em Portugal é indubitável que a dona “cunha” faz parte da sua história social. E continua a ser essencial na vida dos portugueses, ainda que hoje tenha outros nomes, e outros meandros.

A proximidade com o poder, seja ele qual for, continua a ser uma enorme vantagem na obtenção de proveitos injustos e uma forma de bloquear o mérito.

(In "Ecos da APAE", Junho de 2016)

20 de junho de 2016

DUAS EXCELENTES EFEMÉRIDES

Chegar à longevidade, nos tempos que correm, já não nos leva à estupefação. Isto no que concerne ao tempo das nossas vidas, com uma duração mais longa, apesar de surgirem muitas exceções nos caminhos de todos nós.
Já fora da generalidade deste bem humano que, duma forma mais ou menos global, podemos vir a beneficiar, dependendo também de vários fatores, muitos deles na dependência dos homens, vamos encontrar outros bens, estes patrimoniais, que podem transcender para uma parte do imaterial.
E é esse património que, para se manter firme como rocha, se torna necessário que os homens do leme consigam manter o barco a flutuar em águas tranquilas, procurando dissipar as tempestades que agitam a navegação. Assim, para o prolongar dessa vida, as instituições têm que contar com o trabalho empenhado daqueles homens de rija têmpera.
E, numa dualidade desse empenhamento, para o seu bem comum, aí se contam os órgãos possuidores das veias de comunicação, do sentir das suas gentes, exprimindo no papel, ou agora nas redes sociais, que, num ápice, chegam duma ponta à outra do mundo, a transmissão noticiosa, e de âmbito cultural, do que se passou, na memorização doutrora, no que hoje se faz e conjeturas para o amanhã. Algumas vezes se terão que passar por tristes e ledas madrugadas.
Ter nascido antes de se terem completado três décadas do surgimento do futebol em Portugal, e permanecendo até aos dias de hoje, com sintomas de muita vida, é sinónimo de ter despontado uma Coletividade com pergaminhos desde os seus primórdios, enraizada naquele nobre povo, nação valente, evocada por Luís de Camões.
Assim o foi demonstrando, ao longo de mais de dez décadas de história, para o esplendor das gentes algarvias, e de Portugal, o Sporting Clube Olhanense.
Tendo já apagado as 104 velas aniversariantes, vão os nossos votos, dos lados de cá da Serra da Estrela, para que possa continuar a caminhar fora dos meandros do emperramento e que muitas glórias venham possibilitar o acender de novas luzes, com o empenho dos heróis do mar.
Não será menos importante enfatizar o papel daquela forma de expressão que carateriza os meios de comunicação social a que se dá o nome de jornalismo.
E é através das páginas da publicação periódica do jornal “O Olhanense”, ainda que a forma em papel, na sua generalidade se confronte com a afronta dos online, que os leitores podem desfrutar de grande fulgor cultural, quinzenalmente. Também para ele, e os seus heróis do mar, nas suas 53 primaveras, sinceros votos de continuidade de longa vida, transmitindo o que de bom têm merecido as suas páginas.
O tempo passa numa correria louca, e, como “a vida é um ai que mal soa”, na voz poética de João de Deus, também tenho o prazer de aproveitar um espaço em “Ecos da Beira Serra”, memorizando já contar duas décadas com alguns textos e crónicas. Como o tempo passa!...
O Jornal “O Olhanense” nasceu em 1963 e eu iniciei o meu contacto com a escrita nos jornais, aos 18 anos, no ano seguinte ao nascimento deste Jornal, obviamente que para as bandas dos hermínios.

Nesta dual intenção, as maiores felicidades para todos os obreiros – heróis do mar – do Sporting Clube Olhanense e jornal “O Olhanense”.


(In "O Olhanense", de 15-06-2016, com o título "Ainda o Aniversário do SCO e do nosso Jornal)


14 de junho de 2016

CELEUMA ENTRE VERDADES E MENTIRAS

Entrou junho com outro semblante em contraste com os meses tristonhos que o precederam. Nestes dias soalheiros muito se vem noticiando, havendo uma grande ementa à escolha, entre comunicação social televisiva, rádio, em papel ou online.
Mas não dá sequer para estalar os dedos, beber um café sossegado e deixar que os outros encontrem soluções rápidas e pacíficas para os problemas do País e da nossa Região.
Ainda temos que contar com o Zé Povinho e os seus manguitos contra as injustiças, cujo Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, deste artista versátil, e seu criador, transbordante de humor e de criatividade, comemora em agosto o centenário da divulgação da sua obra gráfica e cerâmica, ainda atual, símbolo da personalidade do povo português, numa certa maneira de ser lusitana. “Uma certa passividade, mas até falsa, porque os manguitos revelam os gestos de revolta em relação às injustiças”, refere João Alpoim Botelho.
Quando há dias se falou, e escreveu, que a escravatura moderna atinge 45,8 milhões de pessoas no mundo, sendo Brasil e Portugal os países lusófonos com menor percentagem de “escravos modernos”, e que Portugal (dos primeiros países a abolir a escravatura), ainda tem 12.800 escravos, como aquela detenção em Aveiro, de três homens e duas mulheres, indiciados pelos crimes de “escravidão, tráfico de pessoas, roubo, sequestro e coação, abordando as vítimas com falsas promessas, outras vezes com uso de força física”, dá que pensar: Como é possível?!
Assunção Cristas, que fala como o galo canta no poleiro, lá inventou os três “dês” com que o CDS avalia os seis meses do Governo de António Costa: “Desilusão, descrédito e desnorte”, e, numa segunda rodada, outros três “dês”: “desemprego, défice e dívida”. Achei piada à líder de um pequeno partido que das vezes que esteve no poleiro, quer dizer, no poder, só o foi coligado e subjugado pelo PSD. Deveria ver-se ao espelho. É que a tal geringonça vai funcionando.
Isabel dos Santos na Sonangol, filha do presidente angolano. Este é que não está com meias tintas… Normas éticas ou jurídicas, o que é isso? Deixem lá Angola que é dos angolanos, e que o FMI feche os olhos. Corrupção naquele país africano tem outro significado, altamente benévolo, que não o dos dicionários portugueses.
Mas voltemo-nos cá para este cantinho português, à beira-mar plantado, como sempre se poetizou.
O desemprego continua em 12% no final de abril, estando Portugal mais competitivo mas com menos resistência para enfrentar a crise. Pode parecer um contra senso, mas as razões estão fundamentadas nos indicadores que são anualmente apreciados pelo IMD, um organismo com sede em Lausanne, na Suíça, e que pelo vigésimo ano consecutivo produziu o World Competitiveness Yearbook, um relatório onde são posicionadas, em termos de competitividade, as economias de 57 países em todo o mundo.
Se a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) revela uma previsão do crescimento de 1,2% na produção portuguesa para este ano, em vez de 1,6%; também um défice do Estado deverá ficar muito longe da meta de 2,2% do PIB, ou seja, nos 2,9%.
Segundo li, a evolução da sociedade pode estar a tirar-nos anos de vida. Possivelmente seremos as pessoas mais exaustas da história da Humanidade, como a principal culpada do cansaço extremo dos dias que correm, seja físico, mental, emocional e até mesmo espiritual. A fadiga crónica é a doença no momento e é provocada por tudo aquilo que, na verdade, nos deveria estar a facilitar a vida. Consta em dois recentes livros da área da psicologia: “O aumento excessivo do trânsito, as redes sem fio, os padrões de negociação, a constante pressão social, o sexo e as próprias circunstâncias de vida estão à mercê de uma pressa excessiva de viver o mais depressa possível. Parece redundante, mas a verdade é que já não conseguimos fazer nada pausadamente. Tudo é acelerado, tudo é frenético, tudo é irritante, tudo é stressante, tudo é fatigante. A evolução (rapidíssima) da sociedade está a tirar-nos anos de vida. O esgotamento nervoso, a irritabilidade, a agitação, os problemas digestivos, os cabelos secos, frágeis e quebradiços e os pés frios são sintomas que parecem tão banais (à exceção do primeiro), mas que espelham como a exaustão dos dias de hoje é comum e afeta a grande maioria das pessoas”.
Mas não fiquemos por aqui porque os portugueses têm o mais baixo nível de satisfação com a vida, segundo dados da OCDE. Só 46,1% dos adultos consideram que têm uma saúde boa ou muito boa. São os países do Norte da Europa que lideram o ranking.
No mês de maio e neste de junho passou a debater-se a redução das 35 horas de trabalho para os funcionários públicos. Se verificarmos, a semana de trabalho na Europa com 35 horas, só se verifica em Portugal, Irlanda e França, tendo todos os trabalhadores dos restantes países europeus mais horas de trabalho semanal, com 41 horas, à cabeça, na Alemanha.
E que dizer da polémica entre as escolas públicas e privadas com os contratos de associação? Penso que depois de tanta tinta gasta, agora falar mais é chover no molhado. Mas não se pode ocultar que a escola pública possui o nobre objetivo de servir todos os cidadãos: os bons e os maus alunos, assim como os indisciplinados, imigrantes ou ciganos, os pobres, os filhos dos iletrados, os toxicodependentes, os deficientes, os violentos, os doentes, ou os contestatários. Passa-se isto na escola privada? Não será que a escola privada pode selecionar os mais endinheirados?
O País precisa de reformas a sério e esta é uma delas.
Resta-nos esperar pelo destino da própria Europa, por via do referendo britânico, a realizar no dia 23 de junho. Nesta celeuma, será que vai ganhar o “Brexit” e o Reino Unido despede-se da União Europeia?

Esperemos que o desfecho seja pela manutenção do nosso aliado, de muitos anos (por vezes só de nome, naquela “santa” Aliança Inglesa) no grupo da União, para que exista uma Europa forte e não fragmentada.

(In "fórum Covilhã", de 14-06-2016)

7 de junho de 2016

4.º ENCONTRO DAS AMIGAS DA TRAVESSA DO VIRIATO

A amizade é uma festa. E quando ela perdura desde a infância, independentemente das vicissitudes da vida, ecoa de uma alegria reforçada.
Assim vai acontecendo, quase duma forma inédita, num grupo considerável de amigas que viveram no mesmo local – a Travessa do Viriato – na Covilhã, desde os já idos anos quarenta do século passado.
A partir dos anos sessenta do mesmo século foi a inevitável partida para outros pontos do país, face às suas vidas profissionais e constituição de família.
Mas ficou a amizade desde os tempos da sua vivência, de meninas e moças, agora na sua maioria avós.
Têm vindo a comemorar anualmente estes tempos, da sua vivência naquele local, em redor da Igreja de São João de Malta, recheados de memórias, muitas bem vivas.
Neste ano a Comissão de Amigas, então radicadas em Castelo Branco, Abrantes e Covilhã, resolveu que o 4.º Encontro se realizasse, neste dia 5 de junho, radioso, na cidade de Castelo Branco.
Assim aconteceu, com a receção no Jardim do Paço, seguindo-se uma visita à Capela de Nossa Senhora das Graças e depois o almoço num restaurante da cidade.
Algumas lembranças da Comissão às amigas de longa data, incluindo um interessante opúsculo relatando como viveram na Covilhã, naqueles tempos, cheios de dificuldades mas com a alegria jovial, e em redor da Travessa do Viriato, em memórias inesquecíveis.



(In "fórum Covilhã", de 07/06/2016)

18 de maio de 2016

OS 830 ANOS DO 1º FORAL DA COVILHÃ

Neste ano da graça de 2016 comemoram-se 830 anos em que o filho de D. Afonso Henriques, e segundo rei de Portugal, D. Sancho I, concedeu o 1.º foral à então Vila da Covilhã, no ano de 1186:
“Em nome da santa e indivisa trindade Padre, Filho e Espírito Santo. Ámen. Eu, o Rei D. Sancho, filho do Nobilíssimo Rei de Portugal Afonso e da Rainha D. Mafalda, juntamente com minha mulher a Rainha D. Dulce e meu filho o Infante D. Afonso e minhas filhas as Infantas D. Teresa e D. Sancha, queremos restaurar e povoar a Covilhã. Damos e concedemos a todos os que ao presente ou de futuro a quiserem habitar o foral e os costumes da cidade de Évora. Ordenamos que duas partes dos cavaleiros vão ao fossado do Rei e que a terça parte fique na vila com os peões fazendo fossado uma só vez por ano. E quem a ele não for pagará cinco soldos para fossadeira. Por homicídio pagar-se-ão cem soldos ao fisco. O que invadir casa com armas, escudos e espadas pagar-se-ão trezentos soldos, sendo a sétima parte para o fisco. O que furtar pagará nove por um pertencendo duas partes ao queixoso e sete ao fisco. O que forçar mulher e esta gritando disser que foi violentada e o ofensor negar dê-lhe esta outorgamento de três homens da sua igualha e ele jure com doze homens a sua inocência. Se a mulher não tiver outorgamento jurará ele e se não puder jurar pagará à ofendida trezentos soldos sendo a sétima parte para o fisco. A testemunha falsa e o fiel mentiroso paguem sessenta soldos sendo a sétima parte para o fisco e restitua em dobro o que recebeu. O que em assembleia, em mercado ou na igreja ferir alguém pague sessenta soldos metade ao fisco e metade ao concelho. (…) O que tiver um casal, uma junta de bois, 40 ovelhas, um jumento e duas camas tem obrigação de comprar cavalo. O que faltar à promessa de casamento pague ao juiz um soldo. A mulher à face da igreja que abandonar seu marido pagará 300 soldos sendo a 7.ª parte para o fisco. O que abandonar sua mulher pagará ao juiz um dinheiro. (…) Os moradores da Covilhã não pagarão em todo o reino nenhuma multa se não pelo foral da Covilhã. Os cavaleiros de Covilhã serão em juízo considerados como ricos-homens e infanções de Portugal. O gado de Covilhã não pagará o tributo de pasto em terra alheia. (…) Se algum homem retiver à força a filha família restitua-a a seus parentes pague-lhes 300 morabitinos sendo a sétima parte para o fisco e fique além disso homicida. (…) De portagem: tributo de costal de cavalo, de panos de lã ou de linho um soldo. De costal de lã um soldo. De costal de panos de algodão cinco soldos. De carga de peixe um soldo. De carga de jumento seis soldos. De carrega de peles de coelho trazida por cristãos cinco soldos. De carga de coelhos de mouros um morabitino. Tributo de cavalo que se vender no mercado um soldo. De mulo um soldo. De carga de pão ou de vinho três mealhas. De mouro que se vender no mercado um soldo. De mouro que se libertar a décima. Do salário do mouro a quem o seu senhor mandar trabalhar em serviço de outrem a décima parte. De coiro de vaca ou de zebra dois dinheiros.
Esta portagem será paga pelos de fora da vila pertencendo a terça parte dela a quem lhes der hospedagem e ao Rei as outras duas partes. Os moradores da Covilhã não pagarão portagem.
Assinamos-lhes por limite a Estrela e daí por Barelas, vértice das Teixeiras e Fráguas, águas vertentes para o Zêzere, e daí por Boi, no seu curso para o Coa; daí por Sovereira, por cima de Alfereses, pelo curso de Aceifa até Alpreada, no ponto em que desagua no Ponsul e o Ponsul no Tejo, até às portas de Ródão e à Cortiçada; daqui a Valongo e ao porto de Nudeir, por fora de Pera até à serra hermínia, águas vertentes para o Zêzere.
Eu, o Rei Sancho, juntamente com minha mulher a rainha Dulce, com meu filho o infante Afonso e com minhas filhas as infantas D. Teresa e D. Sancha, corroboramos e confirmamos esta carta de nossas próprias mãos.
O que quiser desacatar os limites demarcados pague ao concelho mil soldos em boa moeda.
Feita a presente carta no mês de Setembro da era de 1224.
E o que pretender desacatar a nossa outorga seja maldito de Deus. Amen.
Concedemos que todo o cristão, ainda que seja servo, que habitar na Covilhã durante um ano, fique livre e ingénuo, ele e a sua geração.
E os homens de Covilhã terão o concelho aos limites de Covilhã”.
Assinaram, além de outros: Arcebispo de Braga, Bispo de Lamego, Bispo de Évora, Bispo de Lisboa, Petrus Alfonsi, porta-bandeira do Senhor Rei.
Veio depois a surgir o segundo e último foral dado à Covilhã, por D. Manuel I, no ano de 1510.
Pois bem, selecionando um dos vários dicionários, o online Priberam define “Foral: carta soberana que, regulando a administração de uma localidade, lhe dava certas regalias”. No entanto, Artur de Moura Quintela, em “Subsídios para a Monografia da Covilhã”, diz que “A origem da palavra foral, dizem uns que deriva de foro – contribuição que os povos pagavam aos senhores das terras em que habitavam; e outros de foro – privilégio sobre o modo de regular e decidir as questões perante juízes para aqueles que estavam sujeitos à carta”.
Para melhor compreensão de alguns termos e datas aqui referidas, aí vai a explicação, de harmonia com Artur de Moura Quintela:
- Fossado: consistia em ir com a mão armada a talar os campos agricultados pelo inimigo e destruir-lhes ou roubar-lhes os frutos. A gente do fossado compunha-se de todas as classes: cavaleiros, escudeiros, tropa regular, peões, etc.; enquanto uns colhiam, outros transportavam e outros guardavam os frutos.
- Fossadeira: era a multa imposta aos que faltavam ao fossado.
- Peões: eram homens que combatiam de pé.
- Soldo: foi moeda das mais antigas do reino, lavrada em ouro, prata e cobre.
- Infanções: equivale a moços fidalgos.
O ano de 1224 na era de César veio a corresponder, na era de Cristo, ao ano 1186.
Era enorme, como se viu, a área da Covilhã, pelos limites dados neste foral de D. Sancho.
Numa breve análise a este foral (foram mencionados somente alguns deveres e direitos) se pode verificar que predominavam as multas para quem não cumprisse o determinado no mesmo. Havia diferenças conforme a classe social, assim como entre o homem e a mulher.
Com a carta de foral, a liberdade passou a existir mais na Covilhã, na sua governabilidade, e mais autonomia.
A então Vila da Covilhã, cidade desde 1870, era bastante desenvolvida pois assim o demonstram a concessão de duas cartas de foral, mérito pelo seu desenvolvimento.
Penso que, por este motivo, o Município Covilhanense deveria assinalar esta efeméride, no próximo mês de Setembro, em similaridade como aconteceu com os 600 anos da Tomada de Ceuta, no transato ano, assinalando os 600 anos do Senhorio da Covilhã.

(In "Notícias da Covilhã", de 19-05-2016)


10 de maio de 2016

DO SIMPLEX DA LINGUAGEM AO (DES)ACORDO ORTOGRÁFICO

Naqueles dias, os chefes do povo, os anciãos e os escribas, vendo a firmeza de Pedro e de João e verificando que eram homens iletrados e plebeus, ficaram surpreendidos (Livro dos Actos dos Apóstolos 4,13-21).
Era uma vez… Assim se iniciavam muitas das leituras da Instrução Primária, do meu tempo dos anos cinquenta do século passado, ou se começavam algumas redações.
Se os apóstolos Pedro e João, que eram iletrados, mas pelo poder do Espírito Santo a inspiração divina deu-lhes o “doutoramento”, já nos tempos de outrora, que eram os nossos, apesar da falta dos meios tecnológicos, naquela altura, em relação aos tempos atuais, havia a aquisição de um saber que não era assim facilitado, em contraste com os dias de hoje.
Escrevia-se da mesma maneira (acordo ortográfico de 1945) embora dos nossos pais e avós, os poucos que não eram iletrados, lá víamos escrever pae e mãi, e, nalgumas publicações já amareladas pelo tempo, as palavras pharmácia ou Covilhan (Acordo de 1911).
E se seguirmos com atenção alguma parte do jornalismo, a dificuldade em entender boa parte do vocabulário que se produz e difunde em Portugal é evidente. Nisto, o jornalista Adelino Gomes tem chamado à atenção para esse facto. É que o cidadão comum desconhece o significado da maioria das palavras com que as notícias são apresentadas em público.
Vejamos, por exemplo, na rede de transportes públicos frases como “é obrigatório obliterar o bilhete”. O mesmo acontece nas bulas dos medicamentos assim como nas informações de diversos serviços como os seguros, bancos, eletricidade, entre outras, para já não falar do modo arrogante como as finanças se dirigem aos contribuintes.
É certo que a sociedade se tornou mais complexa e se especializou em vários domínios, cada qual com a tendência do seu próprio linguajar. No entanto, quem tem a responsabilidade da informação para o público deve ter a capacidade de traduzir os conceitos e os termos técnicos, como, por exemplo, as palavras e expressões em inglês.
O conjunto de programas de simplificação a que se designou chamar simplex, mormente nos serviços públicos, é de grande utilidade. Obviamente que também deve envolver a simplicidade e clareza da linguagem utilizada pelos funcionários.
Que isto de linguagem, noutra vertente, por vezes são aquelas bocas que saem dos políticos que dão azo a aproveitamento, quantas vezes duma forma exagerada, para que no jornalismo se gaste muita tinta.
Vejamos o caso mais recente das “salutares bofetadas” oferecidas pelo ex-ministro da Cultura, João Soares, ao crítico literário Augusto M. Seabra e ao colunista Vasco Pulido Valente, que foram um tiro no pé para a sua saída do executivo governamental. Isto faz-me lembrar o tempo das reguadas, na instrução primária (hoje ensino básico). Tive um professor, na segunda classe – professor Raul – no Asilo, em que as reguadas eram dadas no rabo, fazendo ajoelhar os alunos. Resultado: uma acusação de maus tratos, feita por um pai, levou a que o professor fosse obrigado a ir para a reforma compulsiva.
Mas já antes, em 1993, uma piada de mau gosto do então ministro do Ambiente, Carlos Borrego, sobre a morte de 25 doentes sujeitos a hemodiálise que ficaram intoxicados em Évora, levou também à sua demissão do governo de Cavaco Silva. Ainda neste ano, Mário Soares era Presidente da República e fazia uma Presidência Aberta por Lisboa. Nessa altura fazer o trajeto entre Vila Franca de Xira e a capital era um tormento rodoviário de “pára-arranca”. Mário Soares decidiu minorar o problema indo de autocarro com uma comitiva, mas sem batedores, nem escolta policial. A dada altura, um elemento da GNR prepara-se para abrir trânsito ao autocarro, o que não correspondia aos objetivos de Soares. Num impasse, referiu-se ao guarda como “gajo indesejável” e depois passou à ação. “Abre-me aqui uma janela”, disse Soares, acrescentando depois: “Ó senhor guarda, desapareça. Diga ao seu colega para desaparecer. Não queremos polícias”. Em 1994, o então presidente regional da Madeira, Alberto João Jardim, em dois artigos de opinião, descreveu o socialista António Fernandes Loja como “homenzinho”, “ordinarote” e “tira-casaca”; e ainda: Loja era “tão pirado que não vê as próprias grosserias e descobre-as aos outros”, “ao ler isto caem-lhe mais três dentes, dois de raiva e um de senilidade”. Em 1995, o falecido Carlos Candal (PS) lançou o “Breve Manifesto Anti-Portas em Português Suave”. Portas (CDS) é descrito como “garnisé cantante” e Pacheco Pereira (PSD) como “pavão de mono caído”. Mais recentemente foi o ex-ministro da Economia de José Sócrates, Manuel Pinho, que saiu do seu primeiro governo depois de ter feito um gesto impróprio. Em pleno debate no Parlamento, em resposta à bancada comunista, juntou os dedos indicadores à cabeça a imitar cornos, tendo a cena sido captada pelas câmaras da televisão. Ainda podemos recordar, em 2010, a vez de José Sócrates utilizar termos inapropriados. No Parlamento, Francisco Louçã disse que o primeiro-ministro “estava mais manso”. Sócrates não gostou e disse, embora não se tenha ouvido: “manso é a tua tia, pá”.
Pois é, segundo um estudo divulgado em Lisboa, o perfil médio de escolaridade dos portugueses adultos é “bastante baixo” a nível da Europa e com pouca vontade de melhorar.
No dia em que se comemorou a língua portuguesa em todos os Estados-membros da CLP, voltou a reinstalar-se na sociedade portuguesa, duma forma definitiva, a discussão em torno do Acordo Ortográfico de 1990 (AO). Foi o próprio Presidente da República que relançou a discussão em torno do AO, mas ninguém prevê o seu seguimento. Os opositores ao mesmo estão divididos entre os que o querem rasgar e os que o admitem melhorar.
Certo é que a reintrodução do tema pelo Presidente da República obriga a sociedade civil a uma reflexão.
O linguista covilhanense, Malaca Casteleiro, natural do Teixoso, que participou há 30 anos nos primeiros encontros que deram origem depois ao acordo de 1990, desvaloriza as críticas.
Depois dos computadores já estarem preparados a praticar o novo acordo ortográfico, será que vamos voltar atrás? E as crianças e jovens estudantes como vão adaptar-se a este imbróglio entre o antigo e novo Acordo Ortográfico?

Sabemos que o AO tem erros crassos que até os seus apoiantes reconhecem, sem que se tenham preocupado em os corrigir nestes anos. Isto, sim, é que parece mesmo uma geringonça.

(In "fórum Covilhã", de 10-05-2016)

20 de abril de 2016

O ANTES E O DEPOIS

Pertenço ao grupo dos que viveu em dois séculos e em dois regimes políticos. São memórias os tempos insatisfeitos dum cidadão que fora de segunda por ser funcionário público, sem regalias algumas que não fossem as exclusivas dos míseros vencimentos do Estado, “privilegiado” ao não direito à assistência médica.
Gostando-se ou não da profissão, nela se permanecia até ao serviço militar obrigatório, já que, para o setor privado, existia a eterna pergunta: “E a tropa?” Durante o percurso poderia haver alguma hipótese de se concorrer na instituição, para na frágil carreira se subir um pouco mais. A página do Diário do Governo até me colocou em primeiro lugar no concurso, por direito próprio, não “boy” como nos dias de hoje acontece.
Das poucas vezes que uma maleita nos abalava, já que era quase proibitivo apanhá-la face aos poucos recursos salariais, escolhia-se um dos médicos conhecidos que perdoava a consulta, já que o nosso “patrão” tinha muitos trabalhadores e pagava mal. O Dr. Baltazar era o Presidente da Câmara e o Dr. Santos Marques meu professor na Escola Industrial.
Mas corriam os anos sessenta do outro século e aquela gentinha das aldeias, algumas ainda sem energia elétrica ou água canalizada e saneamento, como na zona mineira, lá vinham num corrupio, para se legalizarem na edilidade do concelho e mandarem o país às malvas, que isto de ir de assalto não era para todos, similarmente aos refugiados.
Já antes Cebola se passara a chamar São Jorge da Beira; Sobral de Casegas seria o Sobral de São Miguel e, do outro lado oposto, Aldeia de Mato seria o Vale Formoso de hoje.
Na tropa chegou a vez de nos juntarmos dois manos, furriéis milicianos, um cá e outro na Guiné.
Chegada a altura da peluda, o tempo era de mudar de ares profissionais, e vai de participar em concursos que estivessem mais à mão. Os bancos, centros de emprego ou caixas de previdência eram a propensão mais imediata. Os escritórios ou armazéns fabris da Manchester Portuguesa também já não eram acolhedores para a juventude mormente a que regressava das Colónias.
Do público para o privado, a vida mais exigente mas de contornos mais radiantes.
A Internet ainda não existia em Portugal, e as calculadoras (que davam jeito para a atividade) também não. E muito menos os telemóveis.
As viagens noturnas não eram tão perigosas como nos dias de hoje. Autoestradas no interior nem vê-las… Passar no Alto Alentejo, nas noites de verão, era de parar o carro para um chichi no campo. E, lá mais para dentro do mesmo, os grilos a cantar. Depois do Couço e de Mora era ver se ainda se chegava a tempo de encontrar o café aberto, com posto público, antes das curvas de Niza, para se telefonar para casa, alta noite, a informar o regresso da nossa viagem. Era ainda o tempo das chamadas interurbanas, que não eram imediatas… Como os telemóveis, ainda inexistentes, dariam jeito nessas alturas…
Naquela sexta-feira de 16 de março de 1974 vinha de Lisboa no carro do Manuel Humberto Lopes Andrade quando, perto de Tancos, passámos pelos militares que vinham do RI 5 e se dirigiam para Lisboa. Só depois soubemos pela comunicação social que se tratara da “Revolta das Caldas”. E, já novamente em Lisboa, na segunda-feira, tive conhecimento da demissão dos generais Spínola e Costa Gomes por não terem participado na cerimónia de apoio a Marcelo Caetano – a tal Brigada do Reumático.
Já depois, mas ainda antes do 25 de abril ter surgido, numa outra viagem de sexta-feira em que comigo vinha o Cravino, num café de Ponte de Sor, o proprietário manifestava-se exuberante com a leitura do livro “Portugal e o Futuro”, de Spínola, numa altura em que a Pide ainda atuava.
Adivinhava-se algo de extraordinário que viria por aí, até que surge a Revolução dos Cravos, mas que logo se veio transformar numa situação perniciosa que toldaria o país quase para o abismo.
O mesmo século que nos trazia a Revolução dos Cravos fazia-nos chegar também o famigerado PREC (Processo Revolucionário em Curso).
Quando nas minhas viagens profissionais chegava a uma localidade havia quase sempre uma agitação popular, ou o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara punha na rua o Chefe de Finanças, como em Figueira de Castelo Rodrigo; ou os trabalhadores abriam a porta ao patrão; comícios e mais reuniões de trabalhadores, com as enfadonhas “amplas liberdades democráticas”, de Cunhal, lá para os lados de Vilar Torpim e da Reigada, com tratores e o sindicalista empinado no atrelado, a fazer um plenário de trabalhadores.
E lá surgiam as tentativas de golpe de Estado, às quais acorriam a impedir, por essas estradas fora, os guedelhudos militares do SUV – Soldados Unidos Vencerão, de fralda de fora, juntamente com os GNR e civis, toda aquela falperra de gente a procurar armas nas viaturas dos que passavam.
E assim aconteceu comigo, vindo da Vermiosa, quase às duas da madrugada de um certo dia, na Senhora do Carmo (Teixoso), felizmente pouco antes de ali ter passado o Lelo, funcionário do Banco Borges & Irmão que levou um tiro e foi evacuado de helicóptero para Lisboa, ficando paraplégico.
Tanto ele como o Manuel Andrade já faleceram, este recentemente.
Depois de tanta alegria, de grandes esperanças no horizonte, o que é feito hoje do 25 de Abril?
Onde está a esperança de melhores dias, após tanta corrupção que grassa pelo País inteiro?

Face às notícias vindas a público, em catadupa, em quem havemos de acreditar? Onde estão os homens e mulheres honestos de Portugal? Onde está o País que desejamos, esse Paraíso Real sem paraísos fiscais?

(In "Notícias da Covilhã", de 21-04-2016)

12 de abril de 2016

42 ANOS DE ABRIL, 40 DA CONSTITUIÇÃO

Uma efeméride já passou, pois em 2 de Abril de 1976 foi aprovada a Constituição da República Portuguesa que deu dar lugar ao regime democrático, substituindo a Constituição Política da República Portuguesa de 1933, a da ditadura.
No próximo dia 25 de Abril completar-se-ão mais dois anos que o tempo da primeira efeméride.
Não se vê já o entusiasmo que assaltou o país na exuberância dos cravos que transformaram o sentimento profundo da mudança nas pessoas, aquando dos primeiros acontecimentos da viragem.
O que se terá passado então?
As memórias de um passado canhestro e ditador em que reprimia e não permitiria o que se está a passar nos dias de hoje; com os três poderes em Portugal: Legislativo, Executivo e Judicial, ao qual já se atribui um quarto poder – a Imprensa – e, para mim passou a existir um quinto poder – advogados e consultores –; seria impensável que esse passado, do regime que antecedeu a democracia implantada em 25 de Abril de 1974, fosse transportado para os dias de hoje, apesar de tudo.
No entanto, os homens e as mulheres deste Portugal que vai ficando sem tino, atingidos pelo desânimo, aqueles mais 4desfavorecidos e que ainda viveram os tempos da Revolução e passaram ou ainda passam as passas do Algarve, numa situação que inesperadamente lhes foi adversa, como estarão a julgar o que vai ocorrendo nestes meandros da corrupção, do chico-espertismo, da desonestidade sem fim?
As gerações que surgiram já em plena liberdade mas vêm coartadas todas as suas oportunidades de empregabilidade num país que afugenta a sua juventude, o que dirão aos seus progenitores quando estes lhes falam das dificuldades que tiveram e não desejavam tal situação para os seus filhos?
Enfim, falar hoje do 25 de Abril já não tem aquela força impulsora, intrínseca, indomável que inebriava as nossas almas.
A exemplaridade dos homens e mulheres em quem ainda alguns céticos confiavam, e depois de os verem envolvidos em atos já descritos, leva a uma autêntica debandada dos homens e mulheres da parte do Portugal honesto, face ao crédito por quem eles então tinham.
O poder do dinheiro é mais forte que a forte honestidade. Os exemplos aí estão, quase sempre frescos, com base nas informações veiculadas, e ribombadas, pelo tal quarto poder.
Governantes de todos os setores da sociedade portuguesa, dos governos central e autarquias que se aproveitam das suas condições de eleitos pelo povo que neles julgou alguma honestidade, e que mesmo durante e após os tempos das suas passagens pelos serviços da governação, não têm vergonha na cara, como dizem os brasileiros, o que fazer perante tais factos?
Fica a pergunta para todos nós refletirmos principalmente nos momentos de perplexidade nas decisões a tomar.
De qualquer forma, sempre, mas sempre vale mais a democracia que uma ditadura ainda que encapotada.
Portugal já teve seis Constituições, desde a Monarquia: Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822, Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa de 1826, Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1838, Constituição Política da República Portuguesa de 1911, Constituição Política da República Portuguesa de 1933 e Constituição da República Portuguesa de 1976. Esta última já foi revista, oficialmente, sete vezes. Estes números dão-nos, em síntese, uma dimensão da História e das suas mudanças, mas não chegam para explicar a instável euforia que rodeou o nascimento da última, há 40 anos.
Para ultimar este texto, tão só recordar as revisões que foram efetuadas nesta nossa última Constituição da República Portuguesa:
- 1982, desapareceu o Conselho da Revolução e os poderes do Presidente foram diminuídos. Tornou-se uma Constituição mais civil.
- 1989, foi o fim da irreversibilidade das nacionalizações. Desestatizou-se a economia.
- 1992, foi a adesão a Maastricht. A adaptação à União Europeia.
- 1997, tornou-se o sistema político mais independente dos partidos. Foi dado mais poder aos cidadãos.
- 2001, foi uma revisão considerada técnica. Adaptação à justiça internacional europeia.
- 2004, foi a adoção das novas regras europeias. O aprofundamento europeu.

- 2005, adaptação do regime constitucional português à União Europeia. Foi o referendo europeu.

(In "fórum Covilhã", de 2016-04-12)

8 de abril de 2016

O DESPORTO NA CIDADE DOS LANIFÍCIOS E O SEU GRANDE BALUARTE: SPORTING CLUBE DA COVILHÃ

A então mono indústria – os lanifícios – de décadas passadas, quase sempre andou de braço dado com a grande coletividade que se formou no seio desta Região do Interior, assentando arraiais na Cidade da Covilhã.
A longa e rica história do Sporting Cube da Covilhã jamais foi ultrapassada, no seu palmarés, por qualquer outra coletividade da Região, dos dois distritos – Castelo Branco e Guarda – sendo certo que, até um dos mais próximos distritos, envolvidos nos primórdios do futebol em Portugal e fundação da hoje Federação Portuguesa de Futebol (ex-União Portuguesa de Futebol) – o distrito de Portalegre – não desenvolveu tão bem o futebol nas suas terras de boa gente, pois lá vai o tempo saudoso do Lusitano de Évora ou, em anos mais aproximados, do Elvas, emparceirando com os Leões da Serra na I Divisão, já que o Campomaiorense, de curta passagem, não conseguiu fazer grande história no futebol português. São assim os também chamados Leões da Serra, embora com o futebol um pouco mais tardio, que permanecem como a grande fortaleza do futebol de alta competição, nesta Região Beirã.
Assim, no próximo dia 18 de abril, com início às 16 horas, nas instalações do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior/Real Fábrica Veiga, vai realizar-se uma conferência sob o tema em título, a proferir por João de Jesus Nunes.
É que o Núcleo da Real Fábrica Veiga/Centro de Interpretação dos Lanifícios, sito na Calçada do Biribau (junto ao Parque da Goldra), na Covilhã, nesse dia 18 de abril vai associar-se às comemorações do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que, neste ano, celebrará o Património Desportivo, tema este definido pelo ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios).
“Sempre na égide dos lanifícios, pretende-se evocar as memórias da cidade e do concelho através da articulação entre o desporto/SC Covilhã e a indústria de lanifícios, os empresários e os operários”
Neste sentido, irá ser tratado este tema através da realização de uma “Tarde de Memória no Museu”.
Haverá, se possível, uma exposição documental sobre a Coletividade em questão.
No seguimento da palestra do João Nunes, que versará o tema acima, irão também falar, o autor do site historiascc, Miguel Saraiva, abordando as principais figuras citadinas, industriais de lanifícios, que, numa dualidade de interesses, mas com o denominador comum, servir a Covilhã, colocaram na ribalta o clube serrano.
Por último, o diretor da Tribuna Desportiva, Pedro Martins, versará sobre as coletividades e atletas desta região e concelho, fora da modalidade futebol, que foram campeões nacionais.
Será uma oportunidade de conhecer algo mais sobre o desporto no seio da nossa Cidade, e do nosso Sporting Clube da Covilhã.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 102, de abril a junho de 2016)



NOVE DÉCADAS DE PERSISTÊNCIA

Efetivamente assim acontece. Aproveito o título que se insere nesta coluna, a primeira do ano de 2016, fruto da resposta à pergunta que o jornalista da Rádio Cova da Beira me fez na entrevista para o novo programa – A Hora do Combatente – a sair para o ar todas as 4.ªs feiras, das 10 às 11 horas, relativamente ao facto de o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes ter completado 90 anos em 16 de fevereiro deste ano, e estar a comemorar este nonagésimo aniversário.
- Qual era o título que gostaria de colocar no primeiro número correspondente aos 90 anos?
Para a longevidade desta Instituição contribuíram gentes que se disponibilizaram para colocarem o seu tempo ao serviço na ajuda a quem passou pelas trincheiras, na I Grande Guerra, com situações mórbidas da guerra, quer por doenças adquiridas quer por deficiências físicas, assim como as suas famílias afetadas também por esta grande desgraça, evitável pelos governantes da I República, mas que outros interesses assim o não entenderam (desse tempo já ninguém deve existir); mas que, depois, outra forma de “trincheiras” se abriram com a 2.ª Grande Guerra, a que Portugal escapou com o Tratado de Amizade e Não Agressão. No entanto, outras guerras para desgaste, desmoralização e penetração nas angústias, em várias vertentes, da juventude portuguesas, de parte do 3º quartel do século XX, na então chamada guerra subversiva, por tacanhez de espírito dos nossos governantes em ditadura, de um Portugal orgulhosamente só, foi, mais uma vez, a maldição não só para uma juventude sem culpa, mas também para as suas famílias.
São estas últimas guerras – as chamadas Guerras do Ultramar - que agora prevalecem no corpo e no espírito de muitos, e são mesmo muitos, os que duma juventude oriunda dos anos 60 e até 25 de Abril de 1974, ainda hoje sulcam de patologias, algumas invisíveis, mas que persistem, trauma desses tempos duma guerra de subversão. Por arrasto, neste faval semeado pelo regime opressor e incompreensível, ficaram também muitas famílias, como já foi referido.
E é assim, já que para mal dos nossos pecados ficaram as nefastas memórias dos que já não voltaram, ou de lá vieram fortemente molestados, ficou a feliz iniciativa de se ter gerado uma instituição de âmbito nacional para o apoio já referido, instituição essa ramificada por muitos pontos deste País sofredor, e que, também à Covilhã chegou, há 90 anos.
Quem consegue manter a navegar em águas tranquilas, deitar água na fervura de algumas pequenas tempestades, porque ventos e marés sempre existiram no coletivo, ao longo do somar de anos, é sintoma de que também sempre houve Homens que se irmanaram no espírito da fraternidade, naquela camaradagem que um dia se uniu forte, entre conhecidos e desconhecidos, naquela espontaneidade de abraçar todos como irmãos.
Nove décadas de muitos projetos, muitos anseios, muito trabalho feito, muitos sorrisos abertos, muitas amizades geradas, muita solidariedade havida, aqueles desabafos aceites, aquele bálsamo para algumas famílias.
Nove décadas de muita gente que já passou para o outro lado da vida, alguns precocemente, mas que deixaram cair algumas sementes que, entretanto, geraram o fruto de permanecerem para as nossas memórias.
Quão salutar é ver uma Instituição como o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, com a juventude da terceira idade, a engrossar tertúlias e caminhos de encontro ao pedaço de tempo que ainda resta das vidas de cada um, ocupando os tempos em vertentes de atividades aos seus gostos: camaradagem em pequenos e breves convívios na sede, leitura de jornais, biblioteca para quem o deseje, colecionismo, exposições temáticas, jogos de cartas em torneios, tertúlias, conferências, solidariedade, viagens de recreio ou de degustação, religiosidade na sua oportunidade (sufragar os que já partiram, homenagem nos cemitérios, trasladações, peregrinação a Fátima), apoio aos mais necessitados; consultas e rastreio na área da psicologia, naquele stress traumático; o sempre ansioso órgão cultural da instituição, quer em papel, quer online; as redes sociais, e outras a que a memória não permite transpor para as teclas.

É, pois, a nossa admiração para quantos, ao longo destas nove décadas de bem-fazer, souberam, e sabem, conduzir os destinos da Instituição na excelência dum trabalho associativo e fraterno.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 102, de abril a junho de 2016)