14 de março de 2017

O FEMINISMO

Já não é a primeira vez que escrevo sob o tema “A Mulher”. Curiosamente, isto foi acontecendo em cada quadriénio, para além dos casos individuais: “As Mais Bonitas” – 2004; “A Mulher na Sociedade Portuguesa” – 2008; “O Reino das Mulheres” – 2012.
Regresso hoje ao tema, tendo em conta que recentemente (8 de março) se comemorou o Dia Internacional da Mulher.
Acho que os dias internacionais, e outros dias comemorativos, acabam por ser já demasiado extensivos a muitas figuras e a muitas coisas, tornando as celebrações pouco sentidas, nuns casos, noutros desprezadas.
Não será o caso do que se reporta à Mulher, no seu Dia Internacional, pelos motivos sobejamente conhecidos, ou ao Dia da Mãe, por exemplo.
Se tivermos em conta que a mulher foi ao longo dos tempos da sua existência sempre envolta pelo sofrimento, nas muitas vertentes da sua vivência desde que veio ao Planeta – maldita serpente que iludiu Eva a comer a maçã proibida – o que é certo e verdade é que sem a mulher o homem não raiava na sua plena felicidade, ainda que, nos tempos que correm, muitos possam tornar esta parte discutível.
Não falando já da escravidão a que sempre foi votada, desde os tempos bíblicos, às religiões muçulmanas radicais, a mulher foi desde sempre envolta nos mais perniciosos costumes e abusos, como sejam as mutilações genitais nos países africanos de grande atraso, às proibições de se poderem desenvolver culturalmente, às poligamias, etc. Se até o Rei David e seu filho Rei Salomão, a. C., consta terem tido mil mulheres, por aqui se pode ver a finalidade com que, desde sempre, foi considerada para o prazer.
A mulher veio ao de cima e lançou o grito do Ipiranga, que há muito tardava, embora ainda hoje perdure como nos tempos de outrora, em muitas zonas da Terra, em pleno Século XXI, desta era robótica.
Até à revisão do Código Civil em 1977 era indubitável que, em casa, era o homem que mandava, sem hipótese de protesto da mulher, já que a lei não estava do seu lado. O “poder marital” foi substituído pelo conceito de “deveres de cooperação”. Passou então a ditar que “o dever de cooperação importa para os cônjuges a obrigação de socorro e auxílio mútuos e a de assumirem em conjunto as responsabilidades inerentes à vida da família que fundaram”.
Sendo certo que o Código Civil de 1966, que vigorou entre 1967 e o final dos anos 70 recuou na igualdade que tinha sido garantida nas Leis da Família em 1910; logo após a implantação da República, as mulheres portuguesas passaram a ter novos direitos, como, por exemplo, os maridos deixaram de poder obrigá-las a regressar ao domicílio conjugal; elas continuaram a ter de adotar a residência dos maridos e a ter de segui-los, situação que veio a mudar em 1977. Entre outras alterações, o divórcio foi legalizado em Portugal em 1910, atribuindo o mesmo peso ao adultério deles e delas. A virgindade das mulheres, que podia ser motivo para anular uma união, só desapareceu do Código Civil em 1977.
Com o Estado Novo, houve mais retrocessos que avanços. O direito de voto às mulheres foi concedido nos anos 30 do século XX, mas no entanto tinham que ter estudos secundários, enquanto aos homens “bastava saber ler e escrever”. Só com o 25 de Abril foi conseguido o voto universal, garantido nas primeiras eleições livres. Muitas outras alterações houve que não cabem neste espaço.
Mas falemos ainda da mulher, que, segundo o escritor Honoré de Balzac, “É o ser mais perfeito entre as criaturas; é uma criação transitória entre o homem e o anjo”; ou, segundo o escritor Jack London, “O homem distingue-se dos outros animais por ser o único que maltrata a sua fêmea”; ou na forma humorística do ator Marcel Achard: “Quando mais gosto das mulheres é quando beijam, porque então têm de estar caladas”, não esquecendo o dramaturgo William Shakespeare que refere “Quando uma rapariga diz ‘não’ com humildade, deseja que isso se entenda como um ‘sim’ ”.
De Norte a Sul do País debateu-se, em várias vertentes, e com vários apoios, a condição das mulheres, algumas sob o mote “Não Me Calo”.
E as suas justas reivindicações, ao longo dos tempos, têm paulatinamente sido conseguidas. Pois o que começou – Dia Internacional da Mulher – “como homenagem à greve organizada em 1908 pela União Internacional das trabalhadoras do setor de vestuário nos Estados Unidos é hoje uma oportunidade para as mulheres de todo o mundo demonstrarem o seu empenho na igualdade política, económica e social”.
Ainda que Portugal esteja entre os melhores países da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico – para as mulheres trabalharem, no que toca à igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, elas ainda ganham menos dois salários do que eles, tendo em conta, entre outras situações, que os homens ganham mais 16,7% do que as mulheres, com um caminho a percorrer até à meta da igualdade ainda longo, segundo dados do Eurostat.
Muitos avanços já foram conseguidos, como nas vinte maiores empresas cotadas na bolsa de valores de Lisboa – PSI-20, as quais têm de integrar 20 mulheres na gestão.
E elas são algumas das mulheres mais poderosas do mundo, segundo a crítica, ainda que discutível nalguns casos: Merkel. Chanceler alemã que manda na Europa; Theresa May. A mulher à frente do Brexit no Reino Unido; Isabel dos Santos. Empresária com fama de ser dura a negociar; Christine Lagarde. Diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI); Aung San Suu Kyi. A mulher de ferro da Birmânia. Angelina Jolie. Atriz e ativista; Marine Le Pen. Candidata  presidencial francesa e líder do partido de extrema-direita Frente Nacional; Janet Yellen. Americana, Presidente da Reserva Federal; Federica Mogherini. Alta representante da União Europeia para a Política Externa; Helen Clark. Administradora do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. Park Geun-hye. Presidente da Coreia do Sul. Sheryl Sandberg. Diretora de operações do Facebook; Mary Barra. Presidente da General Motors (GM); Ana Patricia Botín. Presidente do grupo Santander; Marissa Mayer. Presidente da Yahoo; Nicola Sturgeon. Primeira Ministra da Escócia; Ginni Rometty. CEO da IBM; Indra Nooyi. CEO da PepsiCo; Paula Amorim. É a nova chairwoman da Galp.


(In "Fórum Covilhã", de 14/03/2017)

21 de fevereiro de 2017

ODE À COVILHÃ

Fim-de-semana, um pouco de descanso. De segunda a sexta-feira é o rodopiar quotidiano, fazendo com que o dia tenha mais de vinte e quatro horas.
No sábado e domingo, o Sr. Neves ou a D. Luísa deixam-me os jornais no Repolho. A simpatia habitual: “Bom dia, Sr. João, aqui estão os jornais”. É a forma acolhedora das gentes covilhanenses.
Muito se tem falado nas gerações. Conhecedores das dificuldades económicas e de emprego dos nossos ascendentes, foi a geração de 60, da qual sou herdeiro, que lhe coube a esperança de melhores dias, ainda em tempo de ditadura, com os “empregos para toda a vida”; e, depois, com o 25 de Abril, “os direitos adquiridos”, num desenfrear de salários, sempre a subir; no querer tudo, desde casa própria e casa de férias, mais que um automóvel, duas ou três televisões em casa, um telemóvel para cada bolso, a segurança no emprego.
Sempre se pensou que um dia chegaria a altura das nossas reformas, e que seria o descanso, daria para todos, e, como no aproveitar é que está o ganho, vai daí, reformas antecipadas, muitas principescamente, até que a corda ficou demasiado à chuva e começou a minguar.
Surge então a “geração rasca”, que irritou muitos dos seus herdeiros, ofendidos ou envergonhados. Mas as reformas, para os seus horizontes, começaram a ver-se num túnel profundo, quase sem luz no fundo.
Licenciados, muitos, colocações poucas; e empregos sem direcção dos seus cursos, pelo que são os call centers, hipermercados, e outras ocupações que acolhem, precariamente, esta juventude.
Mas, tal como na máquina de fazer pipocas, passaram a saltar, em quantidade acelerada, para os corredores do desemprego, muitos das gerações referidas. Surge agora, muito a propósito, na canção da banda Deolinda, a “geração parva, a geração sem remuneração”, que vai viver pior que a dos seus pais.
E, lá está, a “geração de 60” foi em Portugal uma das primeiras a ser sucedida, em décadas, por outras que viverão pior, até que surja a “geração do deixa andar”.
Também a Covilhã, a caminho do século e meio de cidade, sentiu na pele os efeitos nefastos, desta encruzilhada de indecisões governamentais, para o futuro dos seus filhos, de raiz ou de coração, e a perplexidade, em muitas fases destas gerações, de como solucionar o combate às golfadas de desemprego.
A par dos melhoramentos e obras de vulto que se aconselhavam na cidade e concelho, ou a modernidade assim o exigia, ou ainda fruto da sapiência dos seus autarcas, com rasgos de inteligência, irmanados nos seus colaboradores, sobressaiu o esforço para diminuir o flagelo dos sofredores do desemprego, através da consecução de empresas para a Covilhã.
Se, no primeiro caso, a Covilhã já se pode orgulhar de possuir uma rede viária importante; com a A23, tornando-se no entanto imperiosa a ligação a Coimbra, em situação idêntica, da montanha ao vale da cidade levou uma transformação aprazível a todos os títulos, com a criação de muitas infra-estruturas que proporcionaram meios diversos de acolhimento, recreio e bem-estar da sua população, e também de quem nos quer visitar; no segundo caso, o ter proporcionado a opção covilhanense como a melhor para o estabelecimento de empresas tecnológicas, foi a cereja em cima do bolo, para uma cidade e região, que, tal como o País, necessita de ver aumentados os números dos empregos.
Depois do Call Center, que aceitou vários jovens, surge agora o Novo Data Center da PT, na Covilhã, cujo projecto deverá criar cinco centenas de postos de trabalho.
É pois fruto da influência do trabalho emanado da criação, há uns anos, do Parkurbis, onde a Covilhã se coloca assim na linha da frente das bases tecnológicas, nesta que também podemos chamar “geração tecnológica”.
E, se ainda há tempos, a bandeira das cores municipais se envaidecia com a ponte pedonal da Carpinteira, do arquitecto Carrilho da Graça, referida na revista americana de especialidade turística, Travel & Leisure, como um dos sete destinos mais interessantes do mundo em termos de design, bem se pode orgulhar o líder da municipalidade covilhanense, Carlos Pinto, de ver no âmbito da sua acção municipal, que a Cidade e Concelho tomou outro rosto mais condizente com o valor das suas gentes e de quem aqui trabalha.
Mas também sabemos que a alma do Parkurbis – Parque de Ciência e da Tecnologia da Covilhã, assim como coordenador do trabalho do Novo Data Center da PT na Covilhã  é o Vereador Pedro Farromba, pelo que será fácil encontrar o sucessor de Carlos Pinto para a Câmara da Covilhã.

JOÃO DE JESUS NUNES
joao.jesus.nunes@mail.telepac.pt

(In quinzenário "O Olhanense", de 01/03/2011; e semanário "Notícias da Covilhã", de 03/03/2011)

A republicação deste texto, integral e não parcial, deve-se ao facto do cidadão Carlos Pinto, ex-Presidente da Câmara Municipal da Covilhã, o ter inserido, parcialmente, na parte que lhe interessou, no seu facebook pessoal, com uma foto minha, grande, originando que as pessoas, não reparando na data, em números reduzidos, deduzam que é recente. Isto verifica-se pelos comentários que têm vindo a surgir. Por outro lado, induzem em erro de percepção sobre um meu eventual apoio à sua candidatura em construção. Ainda é cedo para poder, conscientemente, e não pela consciência dos outros, assumir uma posição de apoio a qualquer dos candidatos que venham a surgir, na sua globalidade.
Estranho é o facto de o cidadão Carlos Pinto me ter bloqueado no acesso ao seu facebook pessoal, quando, afinal, ele publicou aquele meu texto.
Daqui se infere, como é óbvio, aquele dito antigo: "Aqui há gato!..."

João de Jesus Nunes

14 de fevereiro de 2017

A MENTIRA

Todos mentimos. Não significa que seja algo bom, ético e que vá conduzir à felicidade. Certo é que vemos pessoas sofrendo com mentiras, em várias vertentes das suas vidas. Seria interessante entender porque as pessoas mentem, ainda que seja uma das formas de superar as traições, omissões, falsidades e mentiras.
Qual a causa de haver tanta mentira no mundo? O Professor Felipe de Souza diz que “a pessoa que mente pensa que é melhor, mais vantajoso dizer uma inverdade do que dizer a verdade. A verdade é sentida como algo que provocará uma resposta pior e desfavorável. Esta é a causa das mentiras”. Porém algumas pessoas desenvolvem uma grande capacidade de mentir. Quem mais mente não acredita nas suas mentiras. Mas outras gentes há, que, mentindo, acreditam que as suas mentiras são verdades. Neste último caso, o Professor Felipe de Souza diz que “há um indício de doença mental, pois acreditar fielmente em suas próprias mentiras pode significar um distúrbio psicológico grave”. Há algum tempo surgiu a expressão “disfunção cognitiva temporária”, na Assembleia da República, pelo Secretário de Estado do Tesouro e Finanças, Mourinho Félix, aquando da discussão na especialidade da proposta de Orçamento do Estado para 2017, referindo-se à proposta do PSD relativamente à Caixa Geral de Depósitos. Gerou-se enorme polémica.
O que é verdade é que o uso da linguagem excessivamente forte é comum nos parlamentos. Vejam-se os casos surgidos nalguns países asiáticos e até na Itália em que chegaram a vias de facto. Os excessos parlamentares têm tradição em Portugal. Almeida Garrett foi um dos mais brilhantes utilizadores. E Brito Camacho, respondendo a um deputado que vociferou: “eu tenho só um partido”, saiu-lhe esta: “Então tome lá cuidado não lhe partam o outro!”. Já depois do 25 de Abril, a deputada centrista Natália Correia fez um pequeno poema a um deputado que defendia que só devia fazer sexo quando se queria fazer um filho, poema que terminava dizendo que ele era capado. E quando algumas mulheres, apoiantes da Unita, foram à Jamba e disseram que aquilo era uma cidade muito organizada e que até tinha um polícia sinaleiro, Natália Correia não perdoou, dizendo: “O que as senhoras mais admiraram foi certamente o cassetete do polícia!”.
Num artigo que publiquei em 24 de outubro de 1997, a propósito dum autarca da altura ter mentido a uma instituição desta Cidade, referi que no jornal Vida Económica, de 3 de outubro daquele ano, sob o título “200 petas/dia”, dizia o seguinte: “(…) de acordo com um estudo publicado pelo The Sunday Telegraph, do Reino Unido, as pessoas mentem de oito em oito minutos, no mínimo, na maior parte trata-se de pequenas mentiras, embora sejam mentiras”.
Ora bem, não só as mentiras de Trump, que, no seu egocentrismo boçal e alucinado, certamente não lhe permitem ver a diferença entre verdades e inverdades, são fator para que esta palavra seja uma das mais repetidas de sempre, como também, por cá, a sobrevivência da mui badalada “geringonça”, faz referir Vicente Jorge Silva, no Público, ser “um termo que, só por si, pacificamente adotado por quase toda a gente, resume a pequenez da “política à portuguesa”.
Recentemente realizou-se, na Universidade do Minho, um colóquio sob o tema “Mentira e Hipocrisia na Política e Vida Moral”, ideia defendida pela norte-americana Ruth W. Grant; no qual estiveram presentes cerca de 40 especialistas de 15 países; tendo sublinhado que há uma grande mudança na mentira, e a diferença é quantitativa mas também qualitativa, refletindo sobretudo acerca das questões da moral política. Hoje recorre-se mais à mentira. O controlo dos factos feitos pelo site PolitiFact ao discurso de Trump, nas presidenciais americanas, apontaram para 76% de falsidades; e a mentira, quando exposta, sobrevive ao confronto com os factos, resistindo bem ao embate. Ruth W. Grant recordou que, até aqui, as mentiras em política tinham sobretudo que ver com aquilo por quem as proferia se assumia ou não responsável. Quando apanhado em falso, o político passava por um momento de embaraço público, sentindo a obrigação de se retratar. Agora, quando confrontado com os factos, o político continua a mentir, não obstante ser uma mentira à prova de factos. No debate sobre “verdade à prova de factos”, lá veio o alegado arsenal de armas de destruição maciça que serviu para justificar a guerra no Iraque. E é neste tempo “trompetista” que surge a “pós-verdade”, tendo a Oxford Dictionaries a elegido palavra do ano 2016, justamente por causa de Trump e do “Brexit”. Foi definida como o conceito que designa as circunstâncias em que os factos objetivos são menos preponderantes na formação da opinião pública do que as paixões e convicções.
Temos então aí o campeão da mentira – Donald Trump – e a este assunto se foram referindo os jornais do mundo: o New York Times recapitulou os substantivos usados pelo jornal e pela média americana para caraterizar as inexatidões ditas ou twetadas por Trump: inverdades, falsificações, equívocos, erros. O jornal mais influente do mundo, o NYT, escreveu que Trump repete uma mentira sobre as eleições e que é um rematado mentiroso. Ele mente frequentemente e sem problemas. Mente sobre as coisas sérias e sobre as triviais. Entronizada na Casa Branca, a pós-verdade incorpora os preconceitos, pregando e ampliando indefinidamente, nas redes sociais, a mentira que parece ser verdade.
Vêm aí as eleições autárquicas e, também aí, a mentira tem oportunidade de surgir nas suas encapotadas vestes para, mais tarde, não ter hipótese de se ocultar. É que, conforme o ditado, uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir. Ou seja, é apenas a verdade mascarada, agora que entrámos no mês do Carnaval. E ainda, se a consciência tranquila se ri das mentiras da fama, o que é certo e verdade é que mesmo a mentira mais complicada é mais simples que a verdade, tendo também em conta que um silêncio pode por vezes ser a mais cruel das mentiras.
A mentira é pois um componente que faz parte da vida de alguns políticos e, com as raras exceções de sempre, tal conceito já se incorporou na definição que o povo faz dos seus representantes, mas que ele mesmo se encarrega de lhes dar um mandato. Recordam-se que Richard Nixon teve de renunciar à presidência americana porque mentiu sobre Watergate? Tentou obstruir o trabalho de investigação e negou sua responsabilidade na invasão do edifício Watergate, em Washington. Pois é, já Platão, o filósofo da Grécia Antiga, comparou a aplicação do uso autorizado da mentira, em política, ao uso que o médico faz da sonegação da verdade e do veneno com finalidade curativa.
O povo diz que atrás de mentira, mentira vem; e já Aristóteles afirmava que a vantagem que têm os mentirosos é a de não serem acreditados quando dizem a verdade.
Aguardemos então a próxima campanha eleitoral para as autárquicas no nosso País. Estejamos atentos às mentiras que ao longo dos tempos nos foram insufladas. Mas também na reflexão das mentiras para um promissor futuro. O melhor candidato será, obviamente, o que menos mentir, ou, então, o que melhor mentir.


 (In "Fórum Covilhã", de 14/02/2017)

8 de fevereiro de 2017

AS CONFERÊNCIAS DE SÃO VICENTE DE PAULO NA DIOCESE DA GUARDA

A Sociedade de S. Vicente de Paulo já estava estruturada e organizada antes da sua entrada, instalação e expansão em Portugal, que ocorreu no ano de 1859 (reinado de D. Pedro V). Teve os seus antecedentes em S. Vicente de Paulo que nasceu na aldeia de Pouy, nas Landes, a sudoeste de França, em abril de 1581 e veio a falecer na Casa de S. Lázaro, em Paris, em 27 de setembro de 1660. Vicente de Paulo lançara, dois séculos antes, a semente da Sociedade que viria a ter o seu nome, porque a iniciara no seu espírito de amor aos pobres. A Sociedade acabaria por ser fundada em Paris, no ano de 1833. Nenhuma obra de caridade foi estranha a Vicente de Paulo e esse princípio foi trazido para a Regra da Sociedade de S. Vicente de Paulo. Veio a ser aclamado Patrono de todas as obras de caridade. Desde o século XVII que a semente da vocação e missão vicentina mesmo para leigos ficou latente e só mais tarde, já em 1833, em Paris, ela realmente brotou, sendo António Frederico Ozanam o seu grande fundador. Naquele seu impulso, para com seus companheiros, lançou o grito: “Façamos o que fazia Nosso Senhor Jesus Cristo quando pregava o Evangelho: Vamos aos pobres”. Assim, Ozanam, com o seu companheiro Augusto Le Taillandier, dirigiu-se a casa de uma família pobre que conheciam e vivia nos arredores de Paris. Levaram-lhe, simbolizando o seu afeto e interesse, alguma lenha para aquecer. Iniciava-se assim a prática da visita domiciliária, o processo que se tornou típico da ação destes leigos que passaram a denominar-se “vicentinos”, membros de uma Conferência, inicialmente chamada da Caridade, e, meses depois, “Conferência de S. Vicente de Paulo”.
Preparava-se então a entrada da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Portugal, depois de já se ter instalado em vários países. Foi já no declinar do ano 1859, a 27 de setembro, que o Padre Emídio Eugénio Miel, Superior da Igreja de S. Luís, em Lisboa, a viria a fundar, passando a designar-se “Conferência de Lisboa”. Multiplicar-se-ia pelo País fora, sendo o Porto o seu núcleo mais denso.
Chegava à Guarda, com o maior núcleo de assistência aos necessitados e a forte implantação nesta Diocese, com a Covilhã a sobressair, desde o seu início, nestas tarefas solidárias e caritativas. E era no seu seio que vinha a ser fundada, em 12 de novembro de 1899, a Conferência de Santa Maria Maior (Nossa Senhora de Lourdes), na Covilhã.
Como não havia qualquer Conselho na Diocese da Guarda, ficou sob a tutela do Conselho Central do Porto. A Conferência dedicou-se à visita domiciliária.
Não era a Conferência de Santa Maria Maior, na Covilhã, a única Conferência na Diocese da Guarda. Existia nesta cidade, desde 01 de dezembro 1891, mas só agregada a Paris em 1909, a Conferência de São Luís Gonzaga, que lutava com grande dificuldade apesar da esmola superior a 400$00 com que o Prelado a contemplava. Tinha esta Conferência vários sacerdotes como seus membros, entre os quais o anterior Bispo D. Tomaz Gomes de Almeida. De qualquer modo, o Bispo D. Manuel Vieira de Matos, também considerando indispensável a ação da Sociedade de S. Vicente de Paulo, ajudou a levantar a Conferência da Guarda que entrara em grande declínio. Nesta ação vicentina também se terá destacado o Bispo Covilhanense, D. Manuel Damasceno Costa, que depois foi Bispo de Angra, onde viria a falecer. No domingo, 5 de Fevereiro passado, foi homenageado pelo Município Covilhanense, com missa solene na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, presidida pelo Bispo da Diocese, D. Manuel Felício; e uma exposição no Museu de Arte Sacra, na comemoração dos 150 anos do seu nascimento.
 A Conferência de Santa Maria Maior, na Covilhã, apoiava o Albergue dos Pobres (hoje Lar de São José), fundado em 1900. Dois anos após a sua abertura, em 10 de junho de 1902, conseguiu esta Conferência a vinda das Irmãzinhas dos Pobres para cuidar do Albergue. Há muitos anos que partiram. A Conferência decidiu ainda ceder ao Albergue as quotas dos seus 168 subscritores, reconhecendo e valorizando a boa obra desta Instituição.
Em 19 de março de 1903 é fundada na Covilhã a Conferência de Nossa Senhora da Conceição.
Em 29 de junho de 1905, aproveitado a festa de São Pedro, foi fundada na Covilhã a sua terceira Conferência Masculina sob a invocação de S. Pedro. Em 1905, na Covilhã, nasceu em algumas Senhoras o desejo de constituírem um Conferência Feminina – a Conferência de Santa Maria Maior.
Em 03/12/1910 foi fundado na Covilhã o Conselho Particular (hoje designado Conselho de Zona) que ia contudo encontrando dificuldades na coordenação das Conferências a que ele estavam ligadas. É que tinham poucos membros ativos para tão grande ação. Foi organizado em 25/02/1924. O Conselho Particular da Covilhã dependia do Conselho Central Masculino do Porto, tendo sido nessa altura que o Conselho da Covilhã, por sugestão do Prelado, reuniu as Conferências da Covilhã numa só. Passou assim a serem consideradas apenas duas Conferências na Diocese da Guarda: a Conferência da Covilhã, resultante da fusão das existentes; e a Conferência da Guarda.
Em 19 de fevereiro de 1911 surgiu ainda na Covilhã a Conferência de São Martinho. Entretanto, para a mesma Diocese, surgia em 20 de novembro de 1913 a Conferência Feminina de Nossa Senhora da Serra, em Castelo Novo, no Fundão, que só foi agregada em 1947.
Na Covilhã, as Conferências que em 1921 se tinham fundido numa só, a partir de 1923 voltaram a passar a funcionar separadamente.
Em 1925, as Conferências Vicentinas na Diocese da Guarda foram aumentadas com a fundação da Conferência de Pinhel; Conferência de Alpedrinha, em 26/11/1925; e a Conferência das Donas, em 15/01/1925. Na Covilhã, surgia ainda, em 30 de agosto de 1925, o Grupo Nun’Álvares, formado por escuteiros.
No ano de 1944, na Diocese da Guarda, a Covilhã continuava a ser a zona da diocese com mais vocações vicentinas.
Também na Covilhã, as Conferências continuavam a ter apreciável dinâmica que, por exemplo, se concretizou na criação da Cozinha Económica que funcionava através de uma caderneta de senhas distribuídas aos pobres, assim adquirindo direito a refeições, bem como auxílio moral. Esta instituição hoje já não existe. Era uma obra de vulto se atentarmos que só no ano findo de 1945 servia a pobres 72.980 refeições, no valor de 105.498$10. 
Em 20/01/1935 ainda surgiria na Covilhã uma Conferência de Jovens – Conferência de S. Tomás de Aquino; uma em Unhais da Serra, em 11/10/1932, e, no Ferro, em janeiro de 1935; e em 16 de janeiro e 3 de fevereiro de 1938, mais duas Conferências, em Aldeia de S. Francisco de Assis.   
Todas estas já não existem, como também deixaram de existir mais estas, fundadas na Covilhã, em 1//1/1946 – a de S. Tarcísio; e no Bairro de S. Vicente de Paulo, que se ia construindo, no dia 02/12/1949. No Tortosendo, em 1947, ainda em vigor, surgiria a Conferência de Nossa Senhora da Oliveira.
Sem dúvida que era, e ainda é, a Covilhã, o núcleo mais dinâmico da Sociedade de S. Vicente de Paulo da Diocese da Guarda.

Atualmente, a Covilhã continua a sua ação em prol da solidariedade social e caritativa, nas Conferências de São Vicente de Paulo, assistindo mais de três centenas de famílias, englobadas no seu Conselho de Zona, das quais fazem parte as seguintes Conferências, numa ação de grande dinamismo: Conceição, Santa Maria, S. Pedro, S. Martinho, S. José (Penedos Altos), Canhoso, Tortosendo, Fundão e Alpedrinha, embora esta última só distribua alimentos.

(In "Notícias da Covilhã", de 09/02/2017)

18 de janeiro de 2017

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA – II

Com este mesmo título publiquei um artigo em 23 de março de 2006. Vem a propósito, para esta crónica, o que então escrevera há mais de uma década.
Falemos então de Mário Soares e António Costa que, indubitavelmente, irão ficar nas páginas da História de Portugal, por motivos diferentes.
A geração que hoje se situa entre os 40 e os 50 anos não esteve à altura do legado do 25 de Abril. Não correspondeu às expetativas emanadas deste movimento depois de a Europa ter também deixado de ser o sonho após a perda de África.
É que o lugar do sonho depressa foi ocupado por uma geração sem sentido, fascinada com o novo-riquismo do dinheiro a crédito e no facilitismo bancário. O resultado de hoje foi deixar aos filhos um país menos esperançoso.
Mário Soares ensaiou um caminho em busca de um Portugal aberto, moderno e cosmopolita. Foi um lutador antes e após 25 de Abril, na firme convicção de que só se curariam as feridas do fim do império e de eliminar a pobreza de âmbito material e moral do salazarismo se o seu destino se fixasse ao das democracias do Ocidente. Ele e os democratas que inspiraram o 25 de Abril ajudaram a derrotar as tentativas totalitárias do Verão de 1975. Neste sentido muito bem ilustrou Manuel Carvalho, na sua “Memória futura”, do Público. Quase tudo já se escreveu e se disse sobre Mário Soares, o qual inequivocamente se irá perpetuar nos anais da história portuguesa. O povo português soube responder, em várias vertentes, no seu último adeus: “Obrigado, Mário Soares!”. Sendo laico e agnóstico esteve na defesa da Igreja. E, dando grande exemplo a muitos católicos, esteve casado com a sua única mulher, Maria Barroso, quase sete décadas.
Não tive contactos com Mário Soares mas algumas vezes estive perto dele. Na sua primeira visita à Covilhã, e à porta da sede do Partido Socialista, então sediada na Rua Comendador Campos Melo, depois de muitos abraços e beijos, onde não faltava a popular Seabra, falava num acontecimento importante, que não recordo, que dizia vir publicado no Diário de Notícias desse dia, o qual ainda não tinha comprado. Como eu levava o jornal debaixo do braço, apressei-me a oferecer-lho.
Naquele ano de 2006, no meu aludido artigo, registava o facto de que Portugal atravessava a crise mais prolongada dos últimos 25 anos, pois que, em vez de uma doença súbita, a então crise era de uma agonia prolongada. Os anos foram passando e os receios mantiveram-se. Vamos respirando um pouco melhor.
Memorizando algumas efemérides da altura, saltei para o ano 1961 com o pretexto de recordar o líder soviético, Nikita Krustchev, que denunciou Estaline, com o seu “discurso secreto” deixando sementes que germinaram com Gorbatchov. Vivia-se a guerra fria com o presidente americano John Kennedy a manter os Estados Unidos mergulhado no pântano vietnamita e no fracasso da Baía dos Porcos, em Cuba, na crise dos mísseis nucleares.
Naquela década de 60, do precedente século, em Portugal vivia-se a ditadura e o mundo exigia, na ONU (hoje com o português António Guterres como seu secretário-geral) a independência das colónias portuguesas. Nikita Krutchev, que era a favor da libertação das mesmas (então designadas províncias ultramarinas), numa ida às Nações Unidas, para se fazer ouvir, proporcionou um espetáculo cujas fotos correram as capas dos jornais portugueses, ao bater com o sapato, que descalçara, na tribuna donde pretendia falar. Em Portugal, cada vez mais pressionado para entregar as colónias, viu-se confrontado com Nehru a mandar invadir Goa. Surgiram assim, por todo o País, grandes manifestações patrióticas contra a invasão da Índia Portuguesa. Também as houve na Covilhã. Da Escola Industrial, o diretor Ernesto de Melo e Castro dava ordens: “Todos à manifestação ao Pelourinho!”. Eu também lá estive no meio da multidão que, num ápice, se aglomerou. Bandeiras e cartazes improvisados serviam para a manifestação contra a invasão da Índia Portuguesa, em cuja possessão ultramarina se encontravam muitos militares portugueses a tentar resistir. Recordo-me, no Pelourinho, de alguns colegas estudantes da Escola Industrial, do Liceu e do Colégio Moderno, no meio daquele maralhal. Entre eles havia um cartaz empunhado pelo estudante João Rosa Lã (anos mais tarde viria a ser Embaixador de Portugal em Madrid, Paris e Marrocos) que dizia: “Deem Toddy ao Krustchev!”. Nesse tempo passava todos os dias pela televisão (de um único canal a preto e branco) a publicidade ao Toddy.
É aqui que surge agora António Costa, numa visita histórica à Índia, incluindo Goa donde tem a sua origem. É, de facto, “uma ocasião política que nos permite entrever o arco que vai da primeira globalização – quando Vasco da Gama chegou à Índia em 1498 – até à crise da globalização presente”, nas palavras de Rui Tavares. De facto, é esta em que um político português com origens em Goa e no antigo Estado Português da Índia visita a República da Índia.
As relações entre Portugal e a Índia não foram fáceis. Curioso é que, no mesmo ano em que o primeiro-ministro português, António Costa, nasceu, em 1961, Goa foi anexada pela Índia, junto com os outros territórios portugueses no subcontinente indiano.
A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, com uma das economias mundiais que mais cresce.
A grande esperança é que desta visita venham vantagens acrescidas para Portugal.





 (In "Notícias da Covilhã", de 19-01-2017)

10 de janeiro de 2017

A NOVA IGNORÂNCIA

Vem o título desta primeira crónica do ano da graça de 2017 a ser reflexo das que escreveram José Pacheco Pereira no Público de 31 de dezembro, e a resposta, de António Guerreiro, na revista Ípsilon de 6 de janeiro. Depois, a repercussão das críticas, inseridas no mesmo jornal de 7 de janeiro, por Pacheco Pereira.
“Parece que falar da ignorância coloca logo quem o faz numa situação de arrogância intelectual”, diz Pacheco Pereira.
“Acompanha outro tipo de fenómenos como o populismo, a chamada “pós-verdade”, a circulação indiferenciada de notícias falsas, e, o que é mais grave, a indiferença sobre a sua verificação”.
Temos visto, de vez em quando, de uma forma subtil mas, paradoxalmente, na envolvente de uma raiva não contida, algumas críticas direcionadas para textos publicados por articulistas em periódicos desta região, que incomodam quem critica, sem a frontalidade na nomeação dos seus autores, evitando o óbvio contraditório. Serão assim sempre censurados no âmbito da cobardia. São, geralmente, os detentores de espaços que não só lhes pertencem, mas que se julgam como tal, arrogados num pedestal em que para aí se arrastaram.
Os casos, verídicos, que nos chegaram ao conhecimento, da forma como algumas instituições deixaram passar alunos, nas “Novas Oportunidades”, para obtenção dos 9.º e 12.º anos brada aos céus; e como alguns alunos do ensino superior redigem, assobiando para o lado quanto à ortografia, é de autêntica risada, melhor dizendo, tristeza. Isto nada tem a ver com o facto de termos sido uns ases, pela primeira vez acima da média da OCDE, com os melhores resultados de sempre nos testes PISA 2015, em Literacia Científica, Leitura e Matemática.
E, embora tenhamos as gerações mais qualificadas, estamos alheios à nova ignorância. É que a sociedade potencia o uso das novas tecnologias que fazem as pessoas olharem para os telemóveis centenas de vezes, diariamente, com os adolescentes na linha da frente. Não há as grandes relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interações de grupos, na interpretação bem lúcida quão esclarecedora de Pacheco Pereira. A maior punição para um adolescente é retirar-lhe o telemóvel. É deprimente ver em qualquer sítio, seja na entrada da escola, num restaurante, ou mesmo na rua, pessoas que embora estejam juntas, não se falam. Falam para o invisível, do aparelho que sai do bolso, ou então nem da mão sai, estando sempre numa atenção latente ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, tirando Selfies, entrando no Facebook, às catervas de vezes ao dia. Nesta ignorância que integra a sociedade, deixou de haver silêncio e tempo para pensar, deixando a curiosidade de olhar para fora, ao invés se metem na sua abstração. E ninguém os detenha, os incomode, os irrite, deixem-nos em paz. Se atentarmos no que se escreve no Facebook, ficamos a conhecer melhor as pessoas na sua ignorância, que, nalguns casos, é de pasmar, independentemente de terem ou não algum canudo.  
Já António Guerreiro contesta: “E tal como não há “nova ignorância”, também não é novo querer combatê-la com os instrumentos da crítica da ideologia. Mas como pode Pacheco Pereira excluir-se do processo da “nova ignorância”, e denunciá-la, se participa ativamente nos meios que a produzem? A esta pergunta também me vejo obrigado a responder: não tenho tais ilusões e estou consciente da contradição a que me exponho semanalmente”.
Pelo que se deduz, na contemplação das redes sociais, muitos dos seus utilizadores têm aqui a sua fonte onde vêm beber quase toda a sua informação. Não será esta, quantas vezes, uma “nova ignorância” no ataque ao saber? E, tal como António Guerreiro escreve, também todos os que escrevemos nos jornais nos expomos à crítica, se bem que é da discussão que nasce a luz, segundo o provérbio.
Vamos agora ter neste novo ano um dos maiores riscos para o mundo com a presidência ignorante dos Estados Unidos em que as redes sociais o alcantilaram ao poder. Nestes ventos de “trumpestade”, a vitória de Donald Trump constitui a segunda grande surpresa internacional do ano, depois do Brexit. E como em relação ao “adeus europeu” de Londres, com Trump na Casa Branca, sabemos melhor quem perdeu do que quem venceu. Será que o povo americano foi assim tão ignorante, elegendo um presidente politicamente incorreto, populista, reacionário, isolacionista, racista, demagogo, machista, sexista, aventureiro, impreparado, e o mais que se lhe queira chamar? É óbvio que venceu, e em democracia os resultados de uma eleição são sempre legítimos.
Habituámo-nos a olhar para os EUA como a maior democracia do mundo e ao seu presidente como o líder do mundo livre. Os verdadeiros democratas não conseguem ver isso em Donald Trump.

Tendo ocorrido o falecimento do primeiro Presidente da República civil, Mário Soares, após a Revolução dos Cravos, no dia 7 de janeiro, que sucedera ao general Ramalho Eanes, aquele que foi um grande democrata e eterno lutador pela liberdade, com justiça quase todos os jornais dizem: “Obrigado Mário Soares!”.


(In "Fórum Covilhã", de 10-01-2017)

29 de dezembro de 2016

COMO GERINGONÇA DOURADA (CGD)

Naquele tempo estávamos nos primeiros anos da década de sessenta do século passado. Como habitualmente, minutos antes das nove, aguardávamos que se aproximassem as horas para início do trabalho. Daí também o encontro com alguns dos colegas administrativos, debaixo das arcadas da Câmara Municipal, junto à porta da então Repartição Técnica, mais tarde designada Serviço de Obras e Urbanização. Um pouco de conversa matinal, o puxar de um cigarro, e o deleite num arregalar os olhos pelas jovens que também passavam, de caminhar ligeiro, para o emprego, Escola Industrial, Liceu ou Colégio Moderno; algumas, antigas colegas. E um ou outro amigo que subia as escadas para a Repartição de Finanças, sediadas um pouco mais acima.
O Fernando Pedrosa Gonçalves, jovem como eu (ainda nem sequer tínhamos sido chamados para o serviço militar) mostra-me uma caderneta da Caixa Geral de Depósitos (CGD) depois de ter aberto a sua primeira conta bancária. Como é que isso se faz? Perguntei-lhe. E, não é que, a partir daí, passei também a ser cliente da CGD Crédito e Previdência, como na altura se designava… Ala! Que já são horas! E lá subimos as escadarias do Município, cada um para a sua secção: eu para a “Contabilidade”; ele para as “Contribuições e Impostos”.
Rios de tinta têm passado pelos jornais, e o barulhar das águas pelas televisões e nas redes sociais, sobre o processo pelo qual a CGD tem passado. Ele já vem desde que a crise financeira internacional mostrou a nudez de todos os defeitos da forma de ter um banco público no nosso País. É que ele navega ao sabor dos ventos que sopram das interferências políticas da cor do partido da altura. Mostra-se assim uma péssima displicência gerencial.
O já enfadonho caso da administração da CGD, com contratação e renúncia posterior de António Domingues para a sua presidência, é de bradar aos céus. É deveras incompreensível a conduta deste homem da breve liderança, aceitando a gestão dum banco público com a exigência de um estatuto especialíssimo, obviamente diferente ao de outros detentores de cargos públicos como os gestores públicos, exigindo a omissão do seu património. Mas a que pretexto?
Não nos podemos esquecer que a CGD tem estado envolvida nos grandes escândalos do regime, com o locupletar de figuras sobejamente conhecidas.
Já surge na perplexidade de muitas mentes a pergunta anónima e sentida porque é que a CGD tem que ter sempre como presidente uma figura externa ou então um apaniguado que se move à volta do poder? Não seria mais apropriado, é a minha opinião, encontrar, como agora foi o caso de Paulo Macedo, um gestor de méritos e créditos firmados? E até, porque não, mesmo a conveniência de convidar uma figura dentro dos trabalhadores da CGD? Onde está a motivação para esses trabalhadores se empenharem verdadeiramente a darem o melhor de si, até à exaustão, se caso fosse necessário?
Será que o vencimento que o Presidente da CGD – uma instituição pública – dizem que vai receber de 423 mil euros anuais (igual ao que iria receber António Domingues) não é uma grande humilhação para o grande exército de trabalhadores portugueses a ganhar o salário mínimo como o que se paga em Portugal?
O que foi ontem, o que é hoje, não sabemos o que será amanhã a CGD!... De uma casa que foi de grande confiança no passado por ser um banco do Estado, consequentemente pensando-se ser a garantia das poupanças e dos empréstimos, mormente da habitação, dos portugueses de boas intenções, passou hoje a ser uma autêntica geringonça dourada para ainda muitos dos que a vão tentar direcionar para águas mais tranquilas destes ventos agitados, quais passagens do Cabo das Tormentas que depois foi batizado de Boa Esperança pelos nossos descobridores do século XV.
E mais, a comissão executiva da CGD irá custar em salários cerca de 2.465 milhões de euros brutos por ano, é o que consta.
A Caixa deveria ser 100% pública, muito forte e ter uma missão bem definida: regulador do mercado; fazer mudar de intenção os abusos na banca privada (já que o Banco de Portugal, como regulador, é tantas vezes inerte) e financiadora da economia real, que, em boa verdade, não são as grandes empresas mas sim as PME e as microempresas que são aquelas que geram 90% do emprego em Portugal. Claramente que não é arruinar crédito, mas sim dar crédito a empresas de grande viabilidade com projetos sérios e com possibilidade forte de serem conseguidos, atribuindo-se-lhes esse crédito à medida que se vai vendo a sua aplicação na empresa. Obviamente que também haveria a necessidade da concessão de crédito a particulares em condições acessíveis e exigentes ajudando assim a classe média a cimentar-se.
Não é a CGD que mantém o grosso do número de clientes nos funcionários públicos deste País, e os reformados? Então, com uma boa gestão certamente a CGD tem a obrigação de ser altamente rentável.
Neste ano prestes a terminar, e agora que há uma nova liderança nesta instituição, haja a esperança de se dar a volta ao texto, como sói dizer-se, e os líderes, que têm salários dourados, sintam a obrigação de transmitir rápida confiança à população portuguesa, e aos emigrantes, que sempre viram na Caixa uma entidade credível, com aquela garantia de estabilidade e de proteção para as poupanças de uma vida, cujo património se transformou na tal geringonça nas últimas duas décadas.
O espaço não permite mais narrativas, ainda que muito houvesse a dizer, pelo que vamos ficar por aqui.

Desejamos a todos os leitores e suas famílias um Santo Natal e um Feliz Ano 2017.

(In "Notícias da Covilhã", de 29-12-2016)

22 de dezembro de 2016

LINHA DA FRENTE

Mais um ano vai chegar ao fim, nesta 2ª década, do século XXI, do terceiro milénio d. C.
Neste século em que ainda nos vamos mantendo, nesta vida passageira, muitos acontecimentos foram e vão surgindo, entre ventos e marés, no planeta e no meio onde vivemos.
Não podemos deixar de salientar, nos cinco Continentes (excetuando a Oceania), os principais acontecimentos que transformaram o mundo nestas duas primeiras décadas deste século, começando logo em 2001, com os ataques terroristas de 11 de setembro, na América; a Guerra do Afeganistão, no mesmo ano, na Ásia; e, também neste Continente, em 2003, a Guerra do Iraque. Iria surgir a Crise da dívida pública, em 2010, na Europa; e, neste mesmo Continente, já em 2015, a grave Crise migratória, quando, em 2011, na África, havia surgido uma ligeira esperança com a Primavera Árabe, mas que, paradoxalmente, se transformaria rapidamente num Inferno.
Mas voltemo-nos para o nosso Portugal – o melhor País do Mundo – à beira-mar plantado neste retângulo da costa mais ocidental da Europa, como aprendemos nos livros da Primária.
Sempre fomos um país sofredor desde os tempos imemoriais da nossa história, mas sempre soubemos aventurar-nos com as conquistas e descobertas quando já não havia mais para conquistar. Mas continuando no sofrimento, aí nos espevitámos contra a opressão, por várias vezes, fosse em 1640 ou depois em 25 de Abril de 1974. Mesmo assim, tiveram os militares portugueses que enfrentar a Primeira Grande Guerra (1914/18), lamentavelmente sem qualquer preparação para este acontecimento bélico, de grande mortandade; e, depois, também onde a preparação muito deixou a desejar, nas chamadas guerras subversiva das antigas Colónias, onde muito de nós, na nossa juventude, fomos carne para canhão, no pendor dos senhores da governação ditatorial de então, cujas feridas em muitos ainda se mantêm, ainda que mais não sejam pelo stress pós-traumático, doença que também afetou as famílias.
Chega a vez da Liga dos Combatentes, sob a tutela do Ministério da Defesa Nacional, com os seus vários núcleos diversificados pelo País fora, que, nos seus objetivos se define por promover a exaltação do amor à Pátria e a divulgação, em especial entre os jovens, do significado dos símbolos nacionais, bem como a defesa intransigente dos valores morais e históricos de Portugal; promover o prestígio de Portugal, designadamente através de ações de intercâmbio com associações congéneres estrangeiras; promover a proteção e auxílio mútuo e a defesa dos legítimos interesses espirituais, morais e materiais dos sócios; cooperar com os órgãos de soberania e da Administração Pública com vista à realização dos seus objetivos, nomeadamente no que respeita à adoção de medidas de assistência e situações de carência económica dos associados e de recompensa daqueles a quem a Pátria deva distinguir por atos ou feitos relevantes praticados ao seu serviço; e criar, manter e desenvolver departamentos ou estabelecimentos de ensino, cultura, trabalho e solidariedade social em benefício geral do País e direto dos seus associados.
Já na parte que concerne aos sócios, eles podem ser sócios combatentes, sócios efetivos, sócios extraordinários, sócios honorários, sócios beneméritos, e sócios apoiantes.
Como podem verificar, não é vedada a qualidade sócio a quem não foi antigo combatente, e, como tal, possui a faculdade de integrar o Núcleo da Liga dos Combatentes, nas restantes hipóteses de admissão, a saber: são sócios efetivos os cidadãos que prestem ou tenham prestado serviço nas Forças Armadas Portuguesas, mas que não preencham as condições referidas no número anterior (ou seja, de “sócios combatentes”); são sócios extraordinários os cônjuges, os cônjuges sobrevivos e os ascendentes e descendentes até ao 2.º grau dos sócios combatentes e dos sócios efetivos; são sócios apoiantes as pessoas singulares ou coletivas, nacionais ou estrangeiras, que apoiem de forma regular com donativos ou quotização os núcleos em que estejam filiados.
E é nesta vertente que convidamos, neste Natal de 2016, para que venham engrossar o número dos associados deste Núcleo da Liga dos Combatentes da Covilhã. Recordamos que, neste mesmo ano, lhe foi atribuída a Medalha de Mérito Municipal - Grau Prata, pela edilidade covilhanense.
A dinâmica duma instituição vale pelo que são os seus obreiros, desde as atividades desenvolvidas em prol dos seus associados e no âmbito dos seus estatutos, à transparência dos seus atos, os quais estarão sempre na linha da frente nas Assembleias do Núcleo, o que só assim se pode enquadrar no título deste editorial. Que todos sejam fortes participantes na próxima Assembleia do Núcleo a realizar em 2017.
Vamos comemorar o Natal de 2016 junto das nossas Famílias, na fé dos Combatentes, tendo ou não integrado os contingentes do Ultramar, nas memórias de quantos passaram o Natal em vários momentos, alguns nos navios que os transportavam a caminho das Colónias; outros que nem sequer tinham hipótese de receber uma carta da família porque os seus familiares não sabiam escrever; e outros ainda, que se sentiam sofredores ao ver os seus camaradas lerem as cartas ou aerogramas de familiares; e lá surgia, de vez em quando, como bálsamo, numa carta de um amigo, uma referência: “tua mãe manda dizer: está tudo bem por cá. Espero que tudo te esteja a correr bem por aí”, conforme foi contado por dois antigos combatentes, sócios deste Núcleo, numa entrevista ao programa “Hora do Combatente”, da RCB.
Vamos terminar, porque o espaço e o tempo não permitem alongar, sem que nos sintamos orgulhosos porque no dia em que escrevemos estas linhas, dois portugueses, um deles de origem beirã, honraram o nome de Portugal e registam, a letras de ouro, mais uma página da sua História: o Engenheiro António Guterres, antigo Primeiro-Ministro de Portugal fez o seu juramento nas Nações Unidas como Secretário-Geral da ONU. Outro português, na área desportiva, Cristiano Ronaldo, acaba por ganhar, pela 4.ª vez, a Bola de Ouro, continuando assim a ser considerado o Melhor Jogador do Mundo.

Desejamos a todos os que integram esta grande instituição que é o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, Sócios e suas Famílias, um Santo Natal e um Feliz Ano 2017.

(In "O Combatente da Estrela", n.º  105, de janeiro a março de 2017)

O ANO 2016 COM LUTO NO FUTEBOL

Não podia aproximar-se do final do ano a notícia mais triste para o mundo do futebol, como a que ocorreu na madrugada do dia 29 de novembro.
Um acidente com o avião boliviano que transportava jogadores e equipa técnica da Chapecoense, chocou com um morro perto do aeroporto de Medellín, dizimando esta equipa brasileira. No total foram 71 pessoas perecidas neste desastre aéreo, na sua maioria jogadores e membros da equipa técnica do clube brasileiro de futebol. Apenas seis pessoas sobreviveram.
O mais lamentável deste acidente, depois de encontradas as caixas negras do avião, e após averiguações, foi o facto de se vir a apurar que o avião caiu, a poucos minutos do destino, por falta de combustível, tanto mais que ele não explodiu ao colidir com a zona de montanha. Era pilotado pelo dono da companhia aérea.
“O mundo do desporto, em geral, e do futebol em particular, está de luto”, afirmou Pedro Proença, presidente da Liga de Futebol Portuguesa.
O Chapacoense, equipa da cidade de Chapecó, no estado de Santa Catarina, foi fundado em 1973 e passou por uma grave crise financeira em 2005. Estava agora a viver a melhor temporada desportiva da história. O Clube conquistou seis títulos; cinco campeonatos estaduais e uma Copa Santa Catarina. Pretendia a conquista da Taça Sul-Americana e, num gesto bonito, foi-lhe agora atribuída a conquista dessa Taça.
Por todo o planeta se sentiu o abalo desta triste notícia e, em Portugal, foi guardado um minuto de silêncio em todos os jogos efetuados sob a égide da Liga e Federação Portuguesa de Futebol, tanto mais que alguns jogadores tinham já representado clubes em Portugal, como o caso de Caio Júnior.
Recordamos que outros acidentes de aviação com equipas de futebol já haviam ocorrido no século XX, por todo o Mundo, sempre trágicos:
Torino – 4 de maio de 1949
O avião em que a equipa do Torino regressava a casa depois de um jogo particular com o Benfica, em Lisboa, despenhou-se sobre o campanário da Basília de Superga, em Turim, por causa da neblina. Morreram 31 pessoas, vitimando 18 jogadores e cinco elementos da equipa técnica.
Manchester United – 6 de fevereiro de 1958
Um avião em que viajava o Manchester United caiu em Munique, na Alemanha, devido à camada de neve presente na pista que fez com que o avião falhasse no momento da descolagem. Morreram 23 pessoas. Sete jogadores sobreviveram, entre eles, Bobby Charlton, e oito faleceram neste acidente.
Seleção Olímpica da Dinamarca – 16 de julho de 1960
Após descolagem do aeroporto de Copenhaga, o avião caiu sobre Oresund. No acidente só o piloto escapou, tendo os oito atletas, que se preparavam para disputar os Jogos Olímpicos em Itália, acabado por morrer.


Green Cross – 3 de abril de 1961
Parte da equipa chilena do Green Cross, incluindo 8 jogadores e 2 treinadores e dirigentes, num total de 24 pessoas, morreram num acidente numa zona montanhosa da província de Linares, Chile, nos Andes, a 350 quilómetros de Santiago do Chile.
The Strongest – 26 de setembro de 1969
Durante o regresso da comitiva boliviana do The Strongest à Bolívia, o avião desapareceu dos radares aéreos. No dia seguinte foi encontrado na região de Viloco, a 70 quilómetros a sul de La Paz, na cordilheira andina Tree Cruces, onde todos os 74 ocupantes a bordo morreram, incluindo 17 jogadores.
Pakhtakor Tashkent – 11 de agosto de 1979
Um avião russo que transportava a equipa do Pakhatakor Tashkent para Minsk, onde defrontava o Dínamo, no momento em que sobrevoava a Ucrânia, o avião chocou com outro, entre Minsk e Taskent, e morreram todas as 178 pessoas, 17 das quais de futebol Taskent, do Uzbequistão.
Alianza Lima – 8 de dezembro de 1987
A equipa do Allianza Lima voltava para a cidade do Lima mas acabaria por cair no Oceano Pacífico, perto da localidade peruana de Ventanilla, nas proximidades de Lima. A bordo do avião seguiam 53 pessoas e só o piloto sobreviveu ao acidente. Entre as vítimas estavam 16 jogadores de futebol do Club Allianza de Lima (Peru).
Colorful 11 – 7 de junho de 1989
A equipa do Colorfull 11 viajava com destino ao Suriname para realizarem um jogo particular. Durante a aproximação ao aeroporto da chegada, o avião caiu e das 178 pessoas a bordo só 11 sobreviveram. A este acidente escaparam nomes como Ruud Gullit e Frank Rijkaard, que não conseguiram autorização para viajar.
Seleção da Zâmbia – 27 de abril de 1993
Um avião da Força Aérea da Zâmbia que se dirigia para Dakar, no Senegal caiu no oceano Atlântico, na Costa do Gabão, pouco depois de uma escala técnica em Libreville, no Gabão. No acidente morreram os 30 ocupantes, incluindo 18 jogadores e os técnicos da seleção de futebol da Zâmbia. Apenas o capitão da equipa se salvou porque viajou noutro voo.
Ficam assim as memórias de todos os que foram forçados a deixar prematuramente o mundo dos vivos.

A ideia por que já passei quando algumas vezes viajei de avião, com grande parte do setor comercial e chefias, das empresas que representei, dividindo parte da comitiva por dois voos, não é prática para uma equipa de futebol, como é óbvio, mas seria uma forma de maior segurança.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 105, de janeiro a março de 2017)

13 de dezembro de 2016

MUROS TRANSPONÍVEIS

Antes de mais, parabéns pelo quinto aniversário do fórum Covilhã, ocorrido no passado dia 29 de novembro, na simbologia do que é um órgão da comunicação social jovem mas com uma dinâmica de lutar contra ventos e marés, independentemente de muros que, por vezes, uns quantos lhe querem colocar no caminho, na sua tacanhez de espírito.
Neste país de brandos costumes têm-se vindo a erguer muros, impedindo a livre circulação da vida na sociedade, proporcionando assim que não deixemos para trás o sofrimento e a injustiça, assim como a existência de soluções de desenvolvimento desequilibrado e precário.
Já por si, as barreiras ocultantes dos muros acabaram por cair graças à poderosíssima revolução tecnológica. Esta, na associação com acontecimentos de natureza económica e outros diversos, a todos aproximou e dotou de instrumentos. E, desta feita, permite-nos conhecer o outro lado do muro, escondido, e, como é óbvio, darmo-nos a conhecer também a nós próprios.
Resultado: o invisível tornou-se visível, e a longitude ficou próxima. E, como não podia deixar de ser, o desconhecido passou a ser conhecido.
A globalidade deste conhecimento é assaz importante para que sejam identificadas situações de exclusão que a vida não pode admitir, assim como desequilíbrios e assimetrias que não se podem comportar.
Ao contrário de derrubar muros, paradoxalmente têm-se vindo a erguer, muitas vezes contra a força dos ventos.
No entanto, outros muros que deveriam existir, fortemente construídos, para que não soçobrassem com os vendavais da corrupção, e outras formas de encher as disfarçadas algibeiras de uns quantos, mantiveram-se duma fragilidade incrível, sem que os guardas desses muros estivessem devidamente vigilantes, deixando nos mesmos construir janelas.
Vejamos, para além dos casos relevantes e mediáticos que vivemos nos últimos anos, ou seja o BCP, o BPN, o BPP, a PT, o BES e mais recentemente o BANIF, as falhas importantes na forma como as decisões foram tomadas, nomeadamente como alguém da PT conseguiu meter quase 1000 milhões de euros em empresas do Grupo Espírito Santo que já estavam tecnicamente falidas, sem serem controladas pelos acionistas.
Não há assim muros que resistam com pessoas erradas, imbuídas de energia criminosa.
Segundo José António de Sousa, ao Vida Económica, no caso do BES que, sendo fiscalizado pelo menos por nove estruturas (Fiscalização externa/auditoria de contas, feita pela KPMG, uma das mais prestigiadas empresas multinacionais da área; Comissão de Auditoria do Conselho de Administração, Departamento de Compliance, Comité de Risco Global, Comissão de acompanhamento do risco de crédito, Departamento de auditoria interna e de inspeção do próprio banco, Agências de rating, Regulador (Banco de Portugal e Banco Central Europeu) e CMVM), “o que aconteceu, quer no BES, quer em todos os outros casos mencionados, é que quem tem o controle da Administração de uma instituição financeira consegue fazer passar todo o tipo de operações irregulares sem que estes 9 olhos todos os possam detetar, por muito que procurem! As situações em que as irregularidades saltam para a ribalta pública só são despoletadas quando há uma denúncia, ou quando a situação se degrada a tal ponto que a instituição já não consegue honrar os seus compromissos”.
E, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa, logo após a sua investidura: “Este é o nosso momento. A oportunidade de voltarmos ao melhor daquilo que somos. De liderar pelo exemplo com a dignidade, integridade e honra que construíram este país, e que voltarão a construí-lo uma vez mais”; vamos então transpor os muros que nos colocam no caminho que desejamos percorrer, para que possamos ser “um oásis de estabilidade” conforme refere uma publicação norte-americana.
Ainda assim, o jornal online não deixa de destacar a “cadeira confortável” em que António Costa se senta neste momento, numa altura em que “tantos líderes europeus enfrentam ameaças existenciais”, tal como partidos políticos da zona euro.
De facto, a “geringonça” inventada por Vasco Pulido Valente no Público (sobre o PS) e mais tarde Paulo Portas a usá-la para ilustrar a solução do governo, com a direita a ridicularizar esta situação, afinal está a dar resultado e “dá no goto” à oposição.
O muro que separa os “pecadores” por se terem misturado com as esquerdas não conseguiu ser transposto pelo diabo, que se encontrava do outro lado aguardando a sua queda. E nem sequer o conseguiu saltar.
E, não fosse o diabo tecê-las, aí está a CGD. Eis que, num ápice, se substituiu um “insubstituível” por um outro, augurando-se um bom casamento, como naquela parte evangélica em que foi servido o melhor vinho, no final do mesmo, em vez do pior vinho.
Ao longo deste ano de 2016, que vai terminar, muitas coisas aconteceram no seu percurso de 365 dias, não só de âmbito nacional, como local, e mesmo internacional, transpondo ou esbarrando em muitos muros, desde a política, a economia, o clima, a cultura, as catástrofes, a pobreza, as perseguições, e muitas outras mãos cheias de eventos, de várias intencionalidades, que não cabem neste espaço.

Vamos ficar por aqui, na esperança de no próximo ano podermos prosseguir no contacto com os prezados leitores. A todos desejamos um Feliz Natal, extensivo às suas famílias, e que o Ano 2017 venha repleto das maiores felicidades.

(In "Fórum Covilhã", de 13-12-2016)

7 de dezembro de 2016


1º BOLETIM DO TOTOBOLA

 1º Boletim do Totobola, surgido em 24-09-1961, pela mão do Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o Covilhanense Dr. José Guilherme Rato de Melo e Castro. De notar que o primeiro jogo foi logo um Olhanense - Sp. Covilhã


16 de novembro de 2016

DOUTORES NO PAÍS DAS MENTIRAS

Já não é só de agora que casos como os que recentemente ocorreram no seio do Governo vêm, em muitas cabecinhas pensadoras, conferir-lhes um superior status social na ostentação de um título.
É indubitável que os recentes casos de falsas licenciaturas são mais esse sinal da importância que no nosso país se atribui a ser tratado por “Doutor” ou “Engenheiro”.
Não é que um curso superior não seja importante para a vida profissional de quem o completa apesar de nos últimos anos ter aumentado o número de desempregados licenciados e estarem cheios os call centers e os hipermercados com licenciados.
O que é certo e verdade é que este fenómeno não se encontra noutros países europeus, a começar por Espanha e muito menos na Grã-Bretanha.
Parece-nos que se tem verificado esta tendência para a mentira numa altura de mais facilitismo para obtenção de uma licenciatura pelo Processo de Bolonha, o que veio já algumas empresas a preferirem para os seus quadros quem obteve os seus cursos pré Bolonha.
É que na política quase vai valendo tudo, não havendo receio (o que é de estranhar) que se venha a descobrir o que se esconde no véu da mentira. Será que haverá tanta ingenuidade nos pseudodoutores? E, pior ainda, nos que no âmbito do amiguismo ou jogo de interesses (com a agravante de se verificaram em serviços do Estado), dão encobrimento a esta ostentação?
Curioso, a pretexto deste assunto, um caso que se passou com um antigo colega, conimbricense, na então minha atividade profissional, nos finais dos anos setenta do século passado, ou princípios de oitenta, durante uma reunião nacional de formação, em Lisboa. Ali ouvimos um grande elogio aquele colega, pelo subdiretor da empresa, porque, aquele colega, “na sua humildade, nem sequer se vangloriou de ter já completado duas licenciaturas, o que se apraz registar”. Passado pouco tempo já o mesmo constava com o título de“Dr.” atrás do seu nome, nas comunicações de serviço, e até colocado em tarefas num serviço hierarquicamente superior. Também pouco tempo durou esta surpresa, porque outra vinha pôr cobro à mentira que tinha apresentado no seio da empresa, quando chegaram à conclusão que confiaram na palavra mas não se concretizou na realidade. Resultado: o homem ainda não tinha concluído os cursos. E a situação foi voltar-se o feitiço contra o feiticeiro. Aqui fica bem patente aquela velha expressão de que mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo.
E, voltando à ostentação do título de “doutor”, foi notório, após as últimas eleições autárquicas num concelho desta região, a envolvência em polémicas do anterior presidente da autarquia que completara o curso superior havia poucos meses, a tentar denegrir publicamente o atual presidente, tratando-o por “senhor”, este que tem o curso superior há mais de duas décadas, enquanto que o polémico ex-autarca fazia salientar na escrita o seu “nobre” título de “Dr.”, quase sempre no uso do subterfúgio. Aqui está uma prova de que a imagem dos títulos pesam no ego de algumas pessoas.
Há dias houve uma chamada de atenção quando surgiu na net a notícia de haver certificados do 12.º ano à venda. O país enlouqueceu!
Ora, o assunto em questão reporta-se às notícias vindas a público relativamente às falsas licenciaturas de Nuno Félix e Rui Roque, respetivamente adjunto dos Assuntos Regionais do primeiro-ministro António Costa; e chefe de gabinete do secretário de Estado da Juventude e do Desporto, do mesmo Governo, com a sua inserção no Diário da República.
Já anteriormente houve outros “falsos licenciados”, no primeiro Governo de Passos Coelho, com Miguel Relvas, a quem lhe foi retirada a licenciatura; e também José Sócrates tinha visto a sua licenciatura pela Universidade Independente ser posta em causa pela forma irregular como teria sido concluída. A equivalência concedida ao antigo primeiro-ministro foi considerada nula, mas este manteve o título de engenheiro.
Mas será que não se pode chegar aos pontos mais elevados da política, ou de outras situações normais da vida deste pedaço do planeta mais ocidental da Europa, sem um curso superior? Que eu saiba, houve um grande Presidente do Brasil, de nome Lula da Silva, e um grande escritor português que chegou a Prémio Nobel da Literatura – José Saramago –, que não eram doutores nem engenheiros.
Nesta petulância que vem grassando pelo país em que, não poucas vezes, se protege o atrevimento, se enaltece a ignorância e se honra o demérito, não seria ocasião soberana para se tomarem decisões definitivas e rigorosas para pôr fim a este descrédito e abusos? E, se começarmos a revolver a terra de má semente caída, ainda temos que nos preocupar com aqueles que plagiam, e escrevem livros, a ser verdade, como tendo sido outros, objeto de notícias recentes na comunicação social. É que, como diz João Miguel Tavares, “a cultura jobs for the boys está muito longe de ter esmorecido”.
E tocamos também num ponto, conforme refere José Pacheco Pereira: “A contínua degradação da política e do pessoal político (…) e a crescente importância de carreiras pseudoprofissionalizadas, que se fazem dentro dos partidos por critérios que pouco têm que ver com a seriedade, o mérito, a capacidade política, profissional e técnica, têm mais que ver com fidelidades e intrigas de grupo e com acesso ao poder do Estado por via do poder partidário”.

E até recordamos uma expressão antiga dos chamados “doutores da mula ruça”. Terá sido talvez por isso que, no domingo, dia 6 de novembro, estes doutores da TVI transmitiram parcialmente a missa da Igreja de S. Tiago, na Covilhã, no aniversário da Fraternidade Nuno Álvares, parcial e não globalmente, quando no programa dava das 11 às 12,30 horas. Pois é, como alguém disse, reclamando para aquela estação televisiva: “A publicidade pesa mais alto”. No entanto, apraz registar a resposta da TVI, horas depois, ao reclamante: “Informamos que a sua crítica construtiva mereceu a nossa melhor atenção e foi reencaminhada para a nossa Direção de Programação”.

(In "Notícias da Covilhã", de 17-11-2016)

8 de novembro de 2016

A CIMEIRA DA CPLP E A ILEGITIMIDADE DE UMA ADESÃO

Sobre este assunto me referi, neste mesmo espaço, no verão de 2014 (“Dos oito séculos da Língua Portuguesa à pobre diplomacia”).
Volto ao tema face à Cimeira da Comunidade dos Povos da Língua Portuguesa (CPLP), realizada em Brasília, na República Federal do Brasil, nos dias 31 de outubro e 1 de novembro.
Como é sabido, esta Comunidade completou, em julho, 20 anos e a personalidade inspiradora da sua criação dá pelo nome de Jaime Gama, então Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, ainda que já tivesse sido sonhada por muitos ao longo dos tempos, mais de uma década antes do seu nascimento. Pois tal aconteceu aquando de uma sua visita oficial a Cabo Verde, em 1983, para uma reunião dos membros dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), na qual se referiu nestes termos: “O processo mais adequado para tornar consistente e descentralizar o diálogo tricontinental dos sete países de língua portuguesa espalhados por África, Europa e América seria realizar cimeiras rotativas bienais de Chefes de Estado ou Governo, promover encontros anuais de Ministros de Negócios Estrangeiros, efetivar consultas políticas frequentes entre diretores políticos e encontros regulares de representantes na ONU ou em outras organizações internacionais, bem como avançar com a constituição de um grupo de língua portuguesa no seio da União Interparlamentar”.
O mundo vivia tempos de Guerra Fria e o Brasil estava no processo de transição democrática. A diplomacia portuguesa vivia momentos eufóricos e de grande atividade na sequência da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à CEE.
O processo evoluiu e ganhou a dinâmica decisiva na década de 90, mas já então, em novembro de 1989, no Brasil, no primeiro encontro de Chefes de Estado e de Governo dos países de Língua Portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe), a convite de José Sarney, Presidente brasileiro, se decidiu criar o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), cuja instituição se ocuparia da promoção e difusão do idioma comum da Comunidade.
Com a evolução na continuidade, depois de vários eventos realizados, e decisões tomadas, em 17 de julho de 1996, em Lisboa, na nova Cimeira é criada a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O número de países aderentes passou a oito, em 20 de maio de 2002, com a independência de Timor-Leste. Entretanto, depois de um circunstanciado processo de adesão, em 2014, surgiu o nono membro da Comunidade – a Guiné Equatorial.
Tendo em conta que a CPLP se rege por princípios entre os quais o “primado da paz, da democracia, do estado de direito, dos direitos humanos e da justiça social”, têm vindo a surgir incompatibilidades com a Guiné Equatorial, desde do seu início, em virtude do seu presidente Teodoro Obiang não abolir a pena de morte, refugiando-se em subterfúgios; assim como não se fala o português (ainda que tenha mencionado ser acolhida como a terceira língua falada no país), no ridículo advindo de um país em que sabe que, para integrar a Comunidade, a primeira razão de ser é a língua portuguesa; e cuja página oficial da Internet está apenas disponível em espanhol, inglês e francês. A adesão da Guiné Equatorial, em 2014, teve patrocinadores fortes como Angola, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau; e o Brasil, com a sua carta de interesses.
Esta organização internacional parece estar em declínio face a opiniões diversificadas de cidadãos dos vários países integrantes, numa deceção com que encaram o presente e o futuro de uma comunidade cuja existência parece dizer cada vez menos aos milhões de cidadãos que dela fazem parte, onde a crise, que atingiu vários países, e as consequências da globalização, são fatores influentes nas tomadas de posição.
Depois, foi o abrir de portas a novos membros, como a Guiné Equatorial, que não partilham os valores democráticos e a defesa dos direitos humanos.
Ora, nas negociações desta última Cimeira, em Brasília, em que o Primeiro-ministro português, António Costa, propôs “liberdade de fixação de residência” na CPLP, sendo uma boa ideia e justa não deixa de ser despropositada já que, penso, jamais passará pela peneira dos parceiros do espaço Schengen, os quais já sentem na pele os efeitos com os migrantes que teimam com a Europa para poderem viver com tranquilidade. Nas mesmas negociações tratou-se da entrada de cinco novos países como observadores associados – República Checa, Eslováquia, Hungria, Costa do Marfim e Uruguai – que assim se juntam às Ilhas Maurícias, Namíbia, Senegal, Turquia, Japão e Geórgia.
Pois bem, em vez da Guiné Equatorial, preferia a admissão do Uruguai, que, embora falando o espanhol, não tem idioma oficial; e também pela razão história “de que a República Oriental do Uruguai, como é seu nome constitucional, foi criada para servir de tampão entre o Brasil e a Argentina, sucessora do império português e do império espanhol. Muita gente já ouviu falar da uruguaia Colónia do Sacramento, que foi a mais meridional das cidades portuguesas e se situa em frente a Buenos Aires. Todo o Uruguai foi, no início do século XIX, parte do Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves, com o nome de Província Cisplatina. Após 1822, o Uruguai passou a fazer parte do Império Brasileiro. Em 1825, o Uruguai tornou-se independente”. E a língua portuguesa é de ensino obrigatório nas escolas do país. A pena de morte foi abolida em 1907.
Sabemos, contudo, que é enorme o potencial da CPLP já que se prevê que o número de falantes de português em todo o mundo ultrapasse os 300 milhões, em meados do século. Por outro lado, metade das novas reservas de gás e petróleo recentemente descobertas situam-se no seu espaço.

Esta crónica não nos permite inserir mais conteúdo importante, como é óbvio, pois daria pano para mangas, como sói dizer-se. No entanto referir que nesta XI Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) houve a congratulação com a escolha de António Guterres para o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas, “o primeiro cidadão de um Estado membro da CPLP a ocupar tão elevada posição”.

(In "fórum Covilhã", de 08-11-2016)

26 de outubro de 2016

PADROEIRA DA COVILHÃ

“Qual a razão de Nossa Senhora da Conceição ser a padroeira da Covilhã, ou seja, qual a justificação histórica, religiosa, cultural ou outra que levou a essa atribuição específica à nossa cidade?” É uma pergunta que me foi colocada por um covilhanense, radicado em Lisboa.
Não é fácil encontrar essa razão, duma forma particular para a Covilhã, porque as fontes consultadas são escassas e não conduzem a uma clareza, mas antes a uma suposição, sendo que também era nosso desiderato conhecer verdadeiramente a sua génese, assim como a da Paróquia da Conceição, considerada padroeira Nossa Senhora da Conceição mas cujo patrono é S. Francisco de Assis, e, por isso, a Igreja é mais conhecida por Igreja de S. Francisco.
 Várias têm sido as festas e peregrinações de Nossa Senhora (sem especificar o título, mas mais referenciadas com o de Fátima), que passaram pela Covilhã, com pompa e circunstância, nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado, a que já fiz referência em artigos publicados no Notícias da Covilhã, em 2004, 2008 e 2012, relacionados mais com o Monumento a Nossa Senhora da Conceição. Já no atual século surgiram duas peregrinações de Nossa Senhora no Arciprestado da Covilhã: 4 de janeiro a 1 de fevereiro e 2009; e no dia 9 de outubro de 2015.
A devoção a Nossa Senhora é uma história secular e glorificante que arrancou logo nos primórdios da Nacionalidade. Sedimentou-se e alargou sobretudo com a Restauração no século XVII. A maior parte das catedrais, como a da diocese da Guarda, criada em 1203, e grande número de igrejas paroquias, tomaram a Virgem Maria para padroeira das suas catedrais. Já o Conde D. Henrique e D. Teresa, a 12 de abril de 1120, doaram o couto de Braga “à Virgem Maria, em cuja honra estava fundada, na cidade de Braga, a igreja metropolitana”. D. Afonso Henriques, ao tomar as rédeas do governo, elegeria Santa Maria de Braga para padroeira e rainha de Portugal nascente. D. João I que tinha grande devoção à Virgem Maria, particularmente à sua Assunção, cuja vigília coincidia com a da grande vitória de Aljubarrota, fez a promessa, que cumpriu, quando da batalha de Aljubarrota, de ir a “pé a Santa Maria da Oliveira, que era na vila de Guimarães”.
Todas as catedrais portuguesas foram dedicadas, em 1394, ao mistério da Assunção, por bula de Bonifácio IX. Este ambiente assuncionista levou os fiéis a tomarem a Senhora da Assunção como sua protetora e padroeira de Portugal. O Santo Condestável Nuno Álvares Pereira, como grande devoto da Virgem, ia haurir forças para os combates diante da sua imagem, andando a peregrinar de igreja em igreja, às vezes a “pé e descalço em romaria a Santa Maria”. Conquistada Ceuta, a 21 de agosto de 1415, o Infante D. Henrique enviou uma imagem de Santa Maria, mandando-lhe pôr o nome de Santa Maria de África. Assim como mandou levantar no Restelo, na margem direita do Tejo, um templo a Santa Maria de Belém. Antes de embarcarem para a viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia, Vasco da Gama e outros capitães passaram em vigília, nesta capela do Restelo, a noite de 7 para 8 de julho de 1497.
Encontrando na Virgem uma proteção sempre pronta, os portugueses foram levados a considerá-la como padroeira da Nação. Este padroado, embora não se conheça proclamação oficial anterior à de D. João IV em 1646, já era reconhecido desde o século XIV, pelo menos, como o demonstram vários documentos.
Mas porque também à Covilhã diz respeito, a Virgem Maria foi ainda chamada Santa Maria de Agosto, em vez de Assunção, como o fizera D. Afonso III, ao fixar, em 1260, a feira da Covilhã.
O século XIX foi também um século marcadamente mariano, e o patrocínio de Maria, nas horas amargas da descristianização de muitos, e desânimo de tantos, aparecia como uma tábua de auxílio e salvação.
Mas se Portugal tinha já uma especial e oficial devoção e crença na Imaculada Conceição (provisão do rei D. João IV, de 25/3/1646), elas ampliaram-se com a definição desse dogma (8/12/1854).
Quanto à Covilhã, enquanto que em 13 de maio de 1946 era coroada a imagem de Nossa Senhora de Fátima, da Capelinha das Aparições (coroa oferecida pelas mulheres portuguesas); em 13 de maio do ano seguinte, o pároco de S. Pedro da Covilhã, padre José Domingues Carreto, impulsionava com grande entusiasmo a coroação da imagem de Nossa Senhora de Fátima da freguesia de São Pedro, com a coroa em ouro, objeto de oferta voluntária de senhoras daquela freguesia, cujas cerimónias, com grande brilhantismo, tiveram lugar no Pelourinho.
Mas já antes, no dia 10 de outubro de 1904, era inaugurado na Covilhã o monumento a Nossa Senhora da Conceição (imagem que, tendo sido mandada construir em França, veio vestida de Nossa Senhora de Lourdes, por lapso dos franceses), fruto duma comissão de pessoas gradas da Covilhã que resolveu consagrar a Cidade a Nossa Senhora, nas comemorações das bodas de ouro da proclamação dogmática da Imaculada Conceição de Maria. Dessa comissão faziam parte, entre outros, os padres João Rodrigues Mouta, Gregório Lopes Arroz, José Costa Tavares e Oliveira Pinto. Para além da Câmara Municipal da Covilhã também integrou a comissão o 1.º Conde da Covilhã, Cândido Calheiros; o Dr. João Ferraz de Carvalho Megre e Gregório Baltazar.
Não conseguimos encontrar qualquer referência concreta à origem de Padroeira da Covilhã. No entanto, na parte final da ata n.º 19 da Reunião Ordinária da Câmara Municipal da Covilhã, de 12 de maio de 1943, o Vereador Dr. António Pereira Espiga Júnior “falou acerca do grande êxito espiritual que foi a Solene Consagração do Concelho da Covilhã a Nossa Senhora da Conceição, realizada por promoção da municipalidade, no passado dia 9. A romagem ao Monumento à Virgem foi impressionante de beleza e de fé e nela se incorporaram perto de dez mil pessoas. A consagração escrita pelo Senhor Presidente (Dr. Luís Victor Tavares Batista) e lida por ele, estando rodeado de todas as Juntas de Freguesia do Concelho, é um belo documento cristão (…)”.
No “Notícias da Covilhã” de 16 de maio de 1943 fazia grande referência à “Consagração do Concelho da Covilhã ao Imaculado Coração de Maria”: “Na Colina Sagrada do nosso Monumento à Imaculada Padroeira de Portugal, tem este lugar sido teatro de atos religiosos e patrióticos da maior grandeza e solenidade; desde a sua inauguração em 1904 têm-se ali juntado milhares de pessoas implorando a proteção da augusta Padroeira da nossa Terra. Julgamos porém poder afirmar que a romagem do passado domingo foi a mais importante de todas pela sua projeção nacional e pelos efeitos que deve ter em benefício da Covilhã. A resolução corajosa do Exm.º Presidente da Câmara de consagrar o concelho ao Imaculado Coração de Maria transcende, na ordem moral todos os empreendimentos que o seu consulado camarário tem realizado e está realizando no progresso material da Covilhã. (…) Ora, o Senhor Presidente da Câmara da Covilhã (…) quis ter a nobreza de, antecipando-se a outras regiões do país, seguir atrás do Santo Padre Pio XII e dos Venerandos Prelados Portugueses, entregando-nos e confiando-nos à proteção daquela que sendo Mãe de Deus é, tem sido e será a amada Padroeira de Portugal. (…) Com as nossas felicitações ao Senhor Presidente da Câmara, só nos resta fazer votos por que a Virgem Imaculada se tenha benigna e maternalmente dignado receber os destinos do nosso Concelho”.
A única vez que se falou no termo “Padroeira” foi aquela acima, “Padroeira da nossa Terra”, pelo que é natural que, de todos estes eventos solenes, saísse, de forma intrínseca, o reconhecimento de que Nossa Senhora passara a ser também designada Padroeira da Covilhã, como já o era do país, e de tantas outras cidades, com as várias denominações: Fátima, Assunção ou Conceição.

Seja como for, ainda que de forma consuetudinária, Nossa Senhora jamais deixará de ser a Padroeira da Covilhã e da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, na fé de todos os Covilhanenses.

(In "Notícias da Covilhã", de 27-10-2016)