16 de maio de 2017

PARA ALÉM DO CENTENÁRIO EXISTE UM GRANDE CLUBE

Habituei-me a gostar do desporto, e do futebol em particular, desde menino e moço, como tantos de nós, pelo que isto não é novidade alguma.
Mas particularizar coletividades ou instituições, por este ou aquele pormenor que passou pelas nossas vidas, já se reveste de outra atitude. Está no nosso âmago.
Naqueles idos anos 60 do século passado vivia intensamente a vida do clube da minha Terra – o Sporting Clube da Covilhã – e também apreciava com uma certa profundidade todos os clubes que com ele vinham jogar.
Não só os mais famosos clubes da então Primeira Divisão (hoje, I Liga), mas também dum tempo nostálgico da CUF do Barreiro, do Lusitano de Évora, do Clube Oriental de Lisboa, do Atlético Clube de Portugal, do Caldas Sport Clube, do Sport Comércio e Salgueiros.
Foi assim que também surgiu o Sporting Clube Olhanense, sabendo que era uma das coletividades que percorria maior distância, vindo de terras algarvias, para chegar às faldas da Serra da Estrela, na sua porta principal que é a Covilhã. Era então uma cidade laneira com muitas fábricas de lanifícios distribuídas ao longo das ribeiras da Carpinteira e da Degoldra; e pela sua região, como o Tortosendo, Unhais da Serra e o Teixoso. Hoje, não deixando esse vínculo, seu ex-libris, é mais uma cidade universitária, com a sua Universidade da Beira Interior recentemente considerada uma das melhores 150 novas universidades do mundo.
Quando terminavam os jogos com o Sporting da Covilhã, nós, miúdos, esperávamos que saíssem os atletas de ambas as equipas. Recordo do Olhanense, por exemplo, o guarda-redes Filhó e o Reina. Depois, a partir de segunda-feira era ver na antiga Biblioteca Municipal, sediada então ao Jardim Público, os jornais, principalmente “O Comércio do Porto” porque vinha recheado de todos os resultados e equipas que haviam jogado, duma forma minuciosa.
Mais tarde, ainda nos anos 60, vou iniciar o serviço militar obrigatório, no antigo CISMI, em Tavira. Logo aí, um dos instrutores do meu pelotão, era o 1.º Cabo Miliciano Santa Rita, que jogava no Farense.  Depois, aos sábados ou domingos, alguns passeios com os colegas, e, de comboio, lembro-me de ter ido até Olhão. Daqui enviei um postal sobre a cidade, que ainda conservo, à então minha namorada. Enfim, foi o futebol, os clubes, os jogadores, a vida gravada de uma certa nostalgia.
Depois, o “bichinho” da escrita leva-me a publicar o meu segundo livro, este sobre a vida do Sporting Clube da Covilhã, em 1992. E parecia não parar, quer por via de entusiasmo pessoal, nas suas figuras e factos, ou por incitamento de amigos. E, assim, sobre a vida do clube serrano vieram a surgir mais três obras, em 1993, 1998 e 2007.
O meu olhar voltou-se para as terras algarvias, com relevo para Olhão, nas pesquisas de antigos atletas que integraram as cores verde-brancas do clube da minha Terra. E isto porque Olhão, e o Algarve, foi um viveiro onde o Sporting da Covilhã (SCC) foi buscar valores para a sua equipa: José Rita, os irmãos Cávem, Helder Toledo, Francisco Palmeiro, Eminêncio, e o grande amigo, já desaparecido, Fernando Cabrita. Depois, outros que haviam vestido a camisola do SCC, também passaram pelo Olhanense (SCO), como o guarda-redes Arnaldo, e o Adventino.
Passando pelos jornais, como cronista, levou-me ao contacto com o quinzenário “O Olhanense”, o qual passei a assinar, fruto duma amizade espontânea, e no sentido de colaboração comigo, do saudoso e já falecido carola, Augusto Ramos Teixeira, com quem conversei várias vezes telefonicamente, mas que o destino não me deixou conhecê-lo pessoalmente. Assim como o antigo diretor, Herculano Valente.
Entre crises desportivas, e outras vertentes da vida, mas risonhas, se foram avivando lembranças de clubes, de seus jornais, com tudo o que os mesmos inserem, memórias vivas, outras já desaparecidas, ganhando-se também um rol de amizades.
Assim aconteceu com o Sporting Olhanense, e o seu Jornal de excelência, que dá prazer ler, quando se vê aquela quantidade de colaboradores que lhe dão um cunho cultural importante, muito para além do desporto em exclusivo, o que é sintomático de uma cultura citadina interessante, e, como eu também gosto, na memorização de coisas, factos e figuras do passado, nas teclas do computador do amigo, que também não conheço pessoalmente, Mário Proença, a alma do Jornal.
Tive a felicidade, sim, de conhecer pessoalmente, num jogo entre o SCC e SCO, na Covilhã, Júlio Favinha, então diretor do vosso clube, depois de me dar a conhecer.
Mais tarde, num jantar comemorativo dos Leões da Serra, na Covilhã, tive também o prazer de conhecer o amigo Presidente do Olhanense e Diretor deste Jornal, José Isidoro Sousa, e sua Esposa, que se encontravam na minha mesa.
A amizade é uma festa, como eu costumo dizer, independentemente de crises e situações menos boas por que os clubes passam.
Vem, pois, a propósito, nestas comemorações que se realizaram dos 105 anos do SCO, de formular os meus votos de longa vida para o grande Clube que é o Sporting Clube Olhanense, recheado de muitos pergaminhos na sua vida desportiva, ao serviço não só da Cidade que o viu nascer, mas também deste Portugal de quase nove séculos.
Entre tristes e ledas madrugadas se vai caminhando na vida das coletividades, como a atual crise por que está a passar o SCO, mas não há que baixar os braços, e é de remar contra a maré, e prosseguir o caminho no sentido de o mais rapidamente possível, voltar ao lugar que merece no panorama do futebol português. O Clube da minha Terra também já passou, por várias vezes, por situações análogas. Não baixar os braços, como é timbre dos homens do mar, é ganhar ânimo para que depois da tempestade venha a bonança. Ela virá, com certeza.
O Clube, o Jornal (que o meu SCC deixou de ter), os Livros. São estes que também trazem as estórias para a história das Coletividades. Na minha biblioteca tenho, de Raminhos Bispo, “O Sporting Clube Olhanense – 90 Anos de História”, em dois volumes, que já me deliciou com as descrições de alguns jogos entre os nossos dois Clubes, então na antiga Primeira Divisão. Também nos meus faço algumas referências aos nossos Clubes. São memórias que ficam.
E como a história não pára, ela continua. Vai surgir um quinto livro sobre a História do Sporting Clube da Covilhã, já no prelo, da autoria dum amigo destas causas, Miguel Saraiva, animado pela sua coordenação e principal obreiro do site Histórias do SCC. Tenho o prazer de, por seu convite, prefaciar e fazer a apresentação desta importante e muito interessante obra.
Renovo os meus votos das maiores felicidades para o Sporting Clube Olhanense, num abraço a todos os seus obreiros, e na esperança de, como sói dizer-se, darem a volta ao texto e, na próxima época, terem a alegria de poderem regressar ao convívio da II Liga, donde agora não deviam partir.




(In "O Olhanense", de 15-05-2017)


10 de maio de 2017

O NÓ GÓRDIO E A CAIXA DE PANDORA

Depois de olharmos para o outro lado do planeta, lá para as bandas de três oceanos, o assombro estonteou o mundo porque uma parte desta Terra não conseguiu cortar o nó górdio, e vimos a indesejável eleição de Donald Trump. Já mais próximos das águas geladas da pesca do bacalhau, um dos males saídos da Caixa de Pandora, para a (des)União Europeia, foi o Brexit.
Conseguimos, entretanto, safar-nos dum dos outros males libertados do grande jarro dado por Zeus a Pandora, aquela mulher que tinha um único defeito, a curiosidade. Ela foi criada por Hefeso e Atena, a pedido de Zeus, com o fim de agradar aos homens, segundo o mito grego. Mas, de todos os males libertados, entre os quais a Frente Nacional de Marine Le Pen, ficou de facto, lá dentro, a esperança. E foi neste otimismo que os franceses, elegendo Macron, também conseguiram cortar o tal nó górdio, aliviando um pouco a Europa.
Voltemo-nos agora para este nosso Portugal à beira-mar plantado, um País de heróis, de sábios e de santos, aventureiros e descobridores de novos mundos, como aprendemos na Primária dos nossos tempos já duma certa longevidade. Se bem que da sua caixa de Pandora também saíram alguns maldosos, egoístas e chico-espertos.
Chega assim, mais uma vez, um tempo de eleições, e aquelas que mais estão próximas das pessoas – as autárquicas.
Cada dia que passa mais se aproxima o 1 de outubro, e, vai daí, tudo se prepara para os embates, os despiques, as desforras, os esclarecimentos, a tentativa de convencer, na euforia mais dos apaniguados; na esperança de podermos confiar neste ou naquele que possa mudar o rumo do que não gostámos, e fazer aquilo que mais carece.
Pela nossa região também já começam a desfraldar sinais ajuizadores, muitos deles saídos do prematuro, num palpite de agitação de muitas bandeiras, latente no espírito de almas que sonham transformar a dormição de um concelho, no deleite das suas energias arrebatadoras de uma ação sem tréguas, a favor do acordar.
O concelho da Covilhã conhece já cinco candidatos, e, para a sua população, podemos dizer, como se exprimia a minha avó: “Bonda!”
Não tenhamos ilusões, face ao contexto em que as candidaturas se movimentam, com muita dispersão de votos, retirando-os uns aos outros, não vai haver qualquer maioria absoluta, nem na esperança nada contida do candidato julgado profeta. Recordemos a dívida que deixou e que embaraçou a gestão camarária atual. Depois, o seu modo comportamental no período do seu interregno, maldizente de pessoas e instituições de quem agora espera o voto. Dos seis objetivos que apontou muito haveria que dizer que não cabe neste espaço.
O candidato que se encontra na atual liderança municipal tem que se dotar de total transparência no acolhimento que teve com a mão cheia de colaboradores, mormente no que diz respeito aos seus salários. E, depois, a informação do motivo por que não se realizaram promessas havidas.
Como vão os sociais-democratas fazer frente ao candidato independente? Conseguirão reunir o exército que se destroçara com a anterior eleição do candidato do MAC, então submisso ao atual candidato independente? E como reconciliar a sua quota-parte de responsabilidade com o anterior Presidente, então desta força partidária, e atual independente, nas ações que permitiram chegar a um caos de dívida?
Pensamos que os comunistas terão que se empenhar muito fortemente para poderem conseguir um vereador.
Resta o candidato que já não é surpresa, covilhanense, do seio de uma família ilustre de antigos industriais, movido pelo impulso de transformar a Covilhã de novo no mapa de Portugal, como ele refere, duma forma cuidadosa, ele que fora anteriormente também um dos homens do Governo de Portugal.
Há assim uma gama de figuras que querem governar o Concelho da Covilhã. Para que possamos ajuizar melhor quem vai defender os genuínos interesses deste Concelho, temos que acreditar no que nos vão transmitir, depois de conhecermos as suas equipas, mas para isso há que refletir conscientemente sobre o que fizeram, o que deixaram de fazer, as omissões, as inverdades, as capacidades individuais dos que vão formar as equipas, e exigir transparência, mas que assumam mesmo tais atitudes e não só nas palavras de circunstância e arrebatadoras na altura das campanhas eleitorais, plenas de sorrisos e abraços. E, acima de tudo, não esquecer o que durante estes quatro anos fizeram os de dentro e os de fora.
Por último, que os candidatos confirmem nas suas campanhas se, perdendo, assumem o lugar na vereação, pois ainda nos recordamos quando Carlos Pinto perdeu as eleições a favor de Jorge Pombo, quando nem ele nem a sua equipa aceitaram a sua qualidade de vereadores, tendo que aparecer uma segunda equipa. Recordam-se?

Ter amor à Covilhã e trabalhar em prol da mesma, gloriar-se com as vitórias, mas também assumir as derrotas, aceitando a democracia, é o que esperamos de todos os candidatos.

(In "Notícias da Covilhã", de 11-05-2017)

9 de maio de 2017

FÁTIMA: APARIÇÕES OU VISÕES?

Na minha infância, que já dista sete décadas, viveu-se com o medo da Rússia, império do mal; do comunismo e suas ideias subversivas; e, nas igrejas, com as missas em latim, rezava-se pela sua conversão. Em tempo de Guerra Fria, e ainda antes do Concílio Vaticano II, falar-se de Fátima, ou da Cova da Iria, era implicitamente falar-se das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos, numa ótica de conversão dos homens do mal. Como ainda hoje. Eles, pastorinhos, são os irmãos Jacinta e Francisco Marto, e a sua prima Lúcia. Sempre, ou quase, sob o signo do temor, como a visão do inferno apresentada aos referidos pastorinhos, inserida na primeira parte do segredo; depois, na segunda parte do mesmo, o anúncio do castigo e dos meios para evitá-lo. Foram então estas duas partes do segredo reveladas por Lúcia em 31 de agosto de 1941, a pedido do Bispo de Leiria. Restava a terceira parte, escrita por Lúcia em 3 de janeiro de 1944, ficando o mesmo em envelope selado e guardado pelo Bispo de Leiria.
Em tempos de grande iliteracia, e dum regime ditatorial no nosso País, de brandos costumes, mas infiltrado da polícia política de má memória, restava ao comum dos cidadãos a pergunta mil vezes surgida: “O que estará escrito na terceira parte do segredo de Fátima?”.
Se dizer mal do regime instaurado em Portugal era outra direção ao medo, como da prisão ou outras represálias, mais não restava ao pobre povo português do que, não desejando acatar a pobreza que grassava muitas vezes dissimulada, refugiar-se na emigração para solos da França, Alemanha ou Suíça, já que no Brasil o cruzeiro pouco valia.
Os que ficavam, na tasca era uma das formas de conviver, ou nas coletividades nascentes sob a égide da então FNAT; já que outros domingueiros optava por ir à bola.
A Amália era a nossa diva do fado. Quando o 1º de Maio emergia, com o Dia do Trabalhador negado, o futebol jogado já na era televisiva a preto e branco, surgida neste Portugal de 1957, dava azo a uma transmissão a seu jeito para fazer esquecer as agruras da vida, no oportunismo daquele dia… na expressão “Três F”, aqueles três pilares da ditadura salazarista: “Futebol, Fado e Fátima”.
Mas Fátima que foi um lugar é agora uma cidade, sede de freguesia e que o Papa João Paulo II elevou à categoria de sede de diocese com a cidade de Leiria, passando a designar-se Diocese de Leiria-Fátima, desde 13 de maio de 1984. Faz assim colocar Portugal no mapa do mundo. Contudo, Fátima não diz tudo sobre Portugal, nem é o retrato da religião católica no nosso País.
Se bem que todos os anos são diferentes, este ano de 2017 é um ano especial porque se celebram 100 anos que Nossa Senhora foi vista em Fátima.  Segundo a “Voz do Trabalho”, o Assistente Nacional da LOC/MTC refere que “Ela escolheu Portugal e três crianças para falar de Paz num tempo de guerras: homens contra homens, nações contra nações, homens contra Deus”. E ainda: “Muitas vezes achamos que as questões políticas e as soluções sociais que a sociedade civil vai formulando são as únicas capazes na construção da paz. A primeira grande afirmação de Fátima, de ontem e de hoje, continua a ser que sem Deus não há verdadeira construção da paz, seja no coração de cada um, seja nas famílias, seja nas relações de trabalho, seja entre povos e nações”.
Segundo o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, “Na Cova da Iria os pastorinhos tiveram visões e não aparições, mas o valor não é menor porque, como notou Bento XVI, visões têm uma força de presença tal que equivalem à manifestação externa sensível”.
Efetivamente, só no dia 13 de maio se celebra o centenário da primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima e já existem muitas alegadas “desmitificações” do fenómeno ocorrido na Cova da Iria, o fenómeno de Fátima. Alguns o reduzem, ou pretendem reduzir, a uma mera narrativa que é reinterpretada ao bel-prazer de cada um. Mesmo para alguns, tudo não terá passado de um embuste político-religioso, para que foram aliciadas criancinhas iletradas. Para outros, terá tido uma “mãozinha clerical e intenção marcadamente antirrepublicana. Também os que, embora afirmando-se fiéis, olham com desdém para este tipo de fenómenos que reprovam em nome da sua impoluta racionalidade, mais livre-pensadora do que verdadeiramente católica”.
O que é certo e verdade é que a própria Igreja portuguesa, de início, não reagiu positivamente às aparições. Só a 13 de maio de 1922 se iniciou a investigação canónica relativamente aos acontecimentos de Fátima, que concluiu somente em 13 de outubro de 1930, aprovando o culto das aparições, que, contudo, não constituem matéria de fé.
Ainda sobre o tema aparições ou visões, o Padre Anselmo Borges, em entrevista ao jornal Expresso, de 16-04-2017, declarou que “É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. A distinção entre aparições e visões não é nenhuma novidade pois, como recordou Bento XVI, “a antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de perceção ou “visão”: a visão dos sentidos, ou seja, a perceção externa corpórea; a perceção interior; e a visão espiritual”.
Também D. Carlos Azevedo, em entrevista ao Público, de 21 de abril, diz que é o momento de se falar com a “linguagem exata” sobre o que se passou há 100 anos na Cova da Iria: “foram visões místicas, não aparições”. “Penso que o Papa Francisco, ao vir a Portugal, vai iluminar a atualidade da mensagem de Fátima. O fenómeno da Cova da Iria acontece na I Guerra Mundial e aponta já para a II Guerra – “se não mudarem os critérios de vida, vem uma guerra pior”. Agora o Papa tem falado numa terceira guerra “em episódios””
 O que é certo e verdade é que podemos ser crentes ou não, acreditar nas aparições ou não, ter uma fé mais esclarecida ou não, mas não podemos ignorar o fenómeno e a relevância de Fátima.
Francisco e Jacinta Marto, pastores analfabetos, vão ser santos da Igreja Católica. O Papa Francisco aprovou o milagre necessário para a canonização dos dois irmãos, que faleceram, ainda crianças, vítimas da gripe espanhola. A prima Lúcia, a mais velha dos videntes, faleceu aos 97 anos.

Na Peregrinação Nacional a Fátima, das Conferências Vicentinas Portuguesas, na Assembleia realizada no Auditório Paulo VI, no passado dia 22 de abril, a madeirense, Dr. Graça Alves, referiu-se assim, na sua excelente palestra: “Quem é esta Mulher que, há 100 anos, como agora, nos pede que baixemos as armas e que nos deixemos guiar pela dimensão do infinito que existe dentro de nós? A quem pertence, afinal, esta voz que aplacou os medos dos pastorinhos: “Sou do Céu” e que nos toma nos braços e nos pega ao colo e nos diz aquilo que disse a Lúcia naquele dia de junho de 1917. Se a Senhora voltasse hoje, talvez dissesse exatamente  a mesma coisa que disse no dia 13 de julho de há 100 anos atrás: “Se fizerem o que eu disser, salvar-se-ão, e muitas almas terão paz”.

(In "fórum Covilhã", de 09-05-2017)

21 de abril de 2017

O INDUBITÁVEL

Com todo o prazer, continuo a digitar as teclas do computador naquela vontade indómita em transpor para o papel, preferencialmente, o pensamento que redunda na escrita.
Talvez não seja estranho o facto desta minha conduta já existir com os órgãos da comunicação social há mais de meio século. Ter espaço próprio nos jornais é uma honra, um privilégio, e, por isso, a honestidade que sempre deve ser um sinal distintivo.
Este propósito de igualdade na forma de atuação para com todos não quer dizer que tenham que nos maniatar a atitudes retrógradas de nos amarrar ao pensamento exclusivo dos detentores de alguns órgãos da comunicação social, desde que não se vá ferir a linha de rumo desses mesmos órgãos, como sejam na sua vertente religiosa, política ou desportiva, por exemplo. Há sempre diferentes modos de pensar, como de agir.
E se neste número d’ “O Combatente da Estrela” continuo a ter a alegria de poder colaborar, porque gosto de escrever, porque está no meu âmago, não posso deixar de memorizar, com saudade, um outro órgão cultural e recreativo, restritamente militar – FRONTEIROS DA BEIRA – do extinto RI 12 – Regimento de Infantaria Ligeira, na Guarda, que, em 1971 teve também alguma minha colaboração, então como Furriel Miliciano. Guardo-a religiosamente.
Volvidos 22 anos, via referências à minha pessoa sobre uma minha publicação, no jornal “El Adelanto”, de Salamanca, em dois números do mês de agosto de 1993.  Sempre a escrita!...
Mas não são só as crónicas, ou outra colaboração cultural avulsa, que ocupam parte da minha absorção de tempo, porquanto surgem as publicações em livro.
E aqui chega a altura de, sobre o título desta crónica, prestar o devido esclarecimento. É que, como os prezados camaradas e leitores deste periódico podem verificar, se atentos, deixei, a meu pedido, efetuado em 2 de janeiro de 2017, de poder colaborar um pouco mais com este jornal, na qualidade de subdiretor, face a um compromisso já antes assumido com uma personalidade de alto prestígio nacional para a publicação da história de uma atividade que há séculos existe em Portugal, tornando-se incompatível conseguir obter tempo suficiente para a concretização da mesma sem me desvincular de compromissos posteriormente assumidos.
O Diretor deste Jornal, e a Direção da Liga, compreendeu perfeitamente a indubitabilidade da razão da minha decisão. E eu só tenho que lhes agradecer terem confiado nos meus méritos aquando do convite que me fizeram para a assunção da subdireção.
De ventos e marés se fazem, e, mormente, se mantêm no grande navio a flutuar, em águas menos agitadas, as instituições, como esta, a Liga dos Combatentes; e outras que podem ser seus satélites ou não, que giram como a Lua à volta da Terra; mas tem que estar patente o rumo na direção certa para que, ao chegar ao fim, se encontrem todos sãos e salvos.
Só na compreensão, e capacidade de saber encontrar o caminho certo, e não na tropelia do turbilhão de decisões precipitadas, se podem reunir consensos para harmonizar um contraditório.
E é no confronto de ideias, na respeitabilidade pelas mesmas, ainda que não concordantes, que se encontra a pedra angular da casa que ajudámos a construir.
É preciso saber interpretar, quando alguém lança a agitação e depois duma forma pusilânime foge do local onde deixou a ventania, o porquê da sua atitude, optando pelo silenciamento.

Há que continuar o caminho certo removendo as arestas que molestam, mas não deixando de encontrar a resposta convincente, sempre no genuíno interesse de todos, como sempre souberam obter os que se localizam ao leme desta grande embarcação que é a Liga dos Combatentes.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 106, de Abril a Junho/2017)

12 de abril de 2017

REFLEXÃO ÀS AUTÁRQUICAS

Enquanto vemos reduzir o nosso tempo de vida, não obstante o aumento generalizado da nossa existência no Planeta, depois do muito que já vimos passar, continuam a verificar-se mudanças, na certeza que também prosseguirão as narrativas da vida de cada um, em particular, e de todos, em geral.
Completamos 41 anos de democracia constitucional, o que, paradoxalmente, se contrapõe a outros tantos 41 anos que tivemos de ditadura em Portugal.
De tão prolongada ditadura deveríamos ter uma democracia verdadeiramente prudente e tranquila.
De facto, vive-se hoje muito melhor do que há mais de quatro décadas, mas esse bem-estar em termos de bens de consumo não quer dizer que se mantenham os valores, estes que constituem a essência de um Estado e que transformam o povo.
É que o respeito pelas instituições, sua credibilidade, e os ensinamentos que o poder público devia dar, assim como a imparcialidade, justiça e retidão nos negócios duma sociedade moderna estão a léguas da realidade.
Muito do que aqui poderíamos dizer é como chover no molhado, quanto à nossa justiça, ao poder legislativo, e, porque não, mesmo ao quarto poder, onde se dá ênfase ao insulto emanado dos homens e mulheres dessas mesmas instituições, num exagero de repetições de casos anómalos quão doentios para todos nós. Para já não dizer das vergonhosas discussões políticas que impedem acordos de regime.
Vamos ter as eleições autárquicas, definidoras de como pode ser visto o país, mas incisivas nos meios onde vivemos.
Neste tempo quaresmal, ainda a procissão vai no adro e já começaram algumas pré-campanhas eleitorais. Começam a sair da casca: uns, fabulando entre “A Lebre e a Tartaruga”; outros entre “A Raposa e a Cegonha”; outros ainda, esquecendo-se do seu passado egocentrista.
A profunda reflexão vai, pois, para este estado de alma de cada um, dos que poderemos escolher, e dos quais tantas vezes nos enganámos.
Vamos então ao nosso meio citadino e concelhio – a nossa mui amada Covilhã –, sejam almas de raiz ou de coração, onde a trombeta já deu sinal de três assumidos candidatos à “catedral”.
É bom que os sermões que agora se vão ouvindo pelos vários “púlpitos” políticos dos que ainda vão a tempo de participar na procissão, entrem na profundidade de quem tem ouvidos para ouvir, e não só daqueles em que a voz entra por um ouvido e sai pelo outro, nas várias tribunas que se vão distribuindo.
Os argumentos que nos fazem querer esquecer os corredores das discórdias, fruto dum egocentrismo contemporizado nas iniciativas, nem todas pessoais, mas assumidas como tal, duma visão de transformar uma cidade a qualquer preço, é bom que tenhamos um pouco de reflexão sobre o passado.
Entre sorrisos, beijos e abraços, promessas (que não serão cumpridas), desejos de passar a governar a cidade e o concelho para todos de igual modo, mesmo para com os adversários políticos, como, mais uma vez, irá ser anunciado, não só para os apaniguados, mas também para os indecisos, para os distraídos, ou para os maldizentes pelo que vêm; será o inevitável dos candidatos para tentar a adesão às suas causas, vibrando por esses palanques que irão surgir por todo o lado.
O ideal é que haja um candidato que nos convença da sua sacra decisão de respeitar escrupulosamente, sob pena de se demitir, todas as suas promessas, na assunção do estudo aprofundado que soube obter dos meandros da política concelhia. E que sabe atuar sem ofender, sem utilizar a pusilanimidade, mas antes a frontalidade perante o seu opositor; a céu aberto, e não escondido em blogues e outras coisas mais, num ridículo anonimato, que agora já terminou, deduzimos, porque foi gato escondido com o rabo de fora; quando as frentes não correm de feição, isto é, aceitar a democracia.
Nestes 41 anos de eleições autárquicas, basta de vermos que o genuíno interesse das populações é muitas vezes adulterado pelo polvilhar dos interesses pessoais, favores aos apaniguados, subtilmente apregoando-se a necessidade de utilização de boys e girls desnecessários, que aumentam a despesa autárquica, em desfavor da utilização dos funcionários existentes, ainda que tenham tido opção política diferente da que acabara de surgir na liderança autárquica. Então para que servem as leis disciplinadoras?
Não conhecemos em profundidade as autarquias vizinhas, mas reconhecemos avanços em relação à covilhanense. Porquê? Qual o motivo porque o ex-autarca albicastrense, Joaquim Morão, e antes autarca idanhense, foi uma personalidade sempre querida pelas suas populações, saindo pela porta larga da “catedral”? Na Covilhã, ganharia com maioria absoluta! Fica a reflexão.
Na parte que toca à atual autarquia covilhanense, socialista, temos muita pena de ter de dizer que os objetivos não foram minimamente cumpridos, e, como já havíamos alertado em tempos, há que refletir se esta força política insere no seu seio pessoas à altura desta nobre missão, servindo as populações, em vez de se guerrearem interna e extramuros. Para além da assinalável parte cultural, onde estão as empresas anunciadas para substituir algumas que se transferiram? Mas a parte mais negativa vai para os aspetos nebulosos em que tiveram atuação desastrada, quando, afinal, se acusava o anterior executivo.
Os social democratas conseguiram reunir algumas das suas tropas que haviam desertado por força dum general sem rumo na fase final do seu anterior mandato, que passou a castigar, sem rei nem roque, quem ao mesmo não venerasse. Afinal, se verificarmos o séquito de muitos do seu anterior exército, vários foram os que foram “passados à espada”. É que o general, então, não soube escolher os seus soldados.
Surge à ribalta uma personalidade, sobejamente conhecida a nível nacional, que já disse não ir dizer mal de ninguém, e, como covilhanense que é, ainda que não residente na mesma, propõe-se manter a ordem não reinante. Será que vamos ter o homem certo no lugar certo? Se assim for, suba ele ao palanque, imponha a espada de D. Afonso Henriques, o engenho de Nuno Álvares Pereira, e as descobertas da égide do Infante D. Henrique. Se todos têm amor à Covilhã, faça-se como D. Manuel II, que, apesar do seu exílio nos arredores de Londres, ainda sem problemas de Brexit, foi um grande patriota.
Sejamos nós, também, grandes Covilhanenses, mas de verdade!

Voltaremos ao assunto quando oportuno.

(In "Notícias da Covilhã", de 13/04/2017)

11 de abril de 2017

EM ABRIL, EFEMÉRIDES MIL

O sol radia nestes primeiros dias de abril, quase uma quinzena após o equinócio primaveril. Aguarda-se, com alguma ansiedade, o solstício de verão, um pouco lá mais para diante.
Vamos passando o tempo que resta do tempo das nossas vidas. Para muitos, como nós, já nem metade daquele que já vivemos conseguimos atingir. Por nós passaram acontecimentos marcantes, quer de âmbito pessoal, quer inseridos, com todos, na vida desta aldeia global. Pela casa comum, os meses são repletos de efemérides, mais recentes umas que outras.
Ainda no pretérito 25 de março foi celebrado o 60.º aniversário do Tratado de Roma. Uma celebração merecida porque foi consolidada a paz, a liberdade e a democracia.
Os fundadores, Alcide de Gasperi, Paul-Henri Spaak, Konrad Adenauer, Robert Schuman, Winston Churchill e Jean Monnet, se hoje soubessem o estado em que a União se encontra, para a qual tanto se esforçaram para fazer uma Europa forte, ficariam aterrorizados. Encontra-se mergulhada na maior crise da sua vida, que é resultante de muitas crises, entre as quais, o “Brexit” e uma vaga nacionalista.
Mas é de abril que nós falamos e, entre outras versões, o dia 1 de abril transformou-se no “dia das mentiras”, numa brincadeira surgida em França. Desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado no dia 25 de março, data que marcava a chegada da primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1 de abril. Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX de França determinou que o ano novo seria comemorado no dia 1 de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano se iniciara a 1 de abril. Outros, gozadores, passaram então a ridicularizá-los, enviando presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Ficou assim o dia das mentiras.
Mas abril tem para os portugueses um significado muito especial, pois foi a Revolução dos Cravos, no dia 25 daquele celebríssimo ano de 1974, que pôs fim ao regime autoritário do Estado Novo, vigente desde 1933. Sobre esta data e os momentos de esperança, raivados pelos que pretendiam manter-se sob o véu obscurante e protetor do antigo regime, muito já se escreveu.
Vamos então memorizar outras datas comemorativas, deste mês de abril, duma forma aleatória, seguindo a ordem cronológica dos seus dias.
Para além do já referido sobre o dia primeiro do mês, podemos ainda mencionar que no dia 1 de abril de 1435 morreu D. Nuno Álvares Pereira; e em 1 de abril de 1939 terminou a Guerra Civil Espanhola e começou assim a ditadura franquista.
No dia 2 de abril do ano 1976 foi concluída e elaborada a Constituição da República Portuguesa após o 25 de Abril. No mesmo dia e mês, mas do ano 1982, as forças especiais argentinas invadiram as Ilhas Malvinas, dando início à Guerra das Malvinas. Mas em 2005, continuando com referência ao mesmo dia e mês, faleceu João Paulo II. Já no dia 3 de abril de 1954 vinha a falecer o diplomata português que teve a coragem de desobedecer a Salazar, Aristide de Sousa Mendes. Passemos para o dia 4 de abril – Dia da NATO, com 12 nações a assinarem o Tratado do Atlântico Norte, em 1949; e, nesse mesmo dia e mês, do ano 1968, o assassinato de Martin Luther King Jr., em Memphis. Anos mais adiante, com as mesmas referências, falecia o grande militar português, Salgueiro Maia. Outros acontecimentos, ao longo deste mês de abril: dia 5, no ano 1976, o Incidente em Tian’anmen, em Pequim, contra a repressão do regime chinês. Dia 6, do ano 1385: D. João I é aclamado rei nas Cortes de Coimbra. Dia 7 de abril é o Dia Mundial da Saúde, com a criação da Organização Mundial da Saúde, pelas Nações Unidas, em 1948. Já o dia 8 pertence ao Dia Mundial dos Ciganos, sendo certo que a 9 de abril se comemora o Dia do Combatente, tendo em conta que foi em 9 de abril de 1918 que, durante a Primeira Guerra Mundial, se iniciou a Batalha de La Lys, com pesadas baixas do Corpo Expedicionário Português perante as forças imperiais alemãs. Recordam-se do Titanic? Pois deixou o porto de Southampton, com destino à cidade de Nova Iorque, em 10 de abril de 1912. Em 11 de abril de 1357 nasceu D. João I. Em 12 de abril de 1861 começou a Guerra Civil Americana. A 13 de abril do ano 1987, Portugal e China assinaram a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a Questão de Macau. A 14 de abril de 1931 é declarada a Segunda República Espanhola após a abdicação do rei Afonso XIII. A 15 de abril de 1912, o RMS Titanic naufraga no Oceano Atlântico após a colisão com um iceberg. No Dia Mundial da Voz, que se celebra a 16 de abril, mas reportando-nos aos anos 1889, 1908 e 1927, nasciam Charlie Chaplin (Charlot), António Lopes Ribeiro e o Papa Bento XVI, respetivamente. Em 17 de abril de 1521 nasceu Martinho Lutero; e, em 1790, faleceu Benjamin Franklin. O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios celebra-se a 18 de abril, data em que, no ano 1842 nasceu o escritor Antero de Quental; e, no ano de 1955, faleceu Albert Einstein. Em 19 de abril de 1506 foi o início do Massacre dos judeus em Lisboa, causando a morte de 3000 pessoas. Em 20 de abril de 1233, o Papa Gregório IX editou duas bulas que marcaram o início da Inquisição papal, mas, contra esta tristeza, registe-se que em 20 de abril de 1972, a Apollo 16 pousou na Lua. Em 21 de abril de 1960 foi oficialmente inaugurada a cidade de Brasília, substituindo Rio de Janeiro como a capital do Brasil. Em 22 de abril do ano de 1500, Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil. No Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, que se realiza a 23 de abril, nasceu, no ano de 1185, D. Afonso II de Portugal; e, na mesma data, mas reportando-se ao ano de 1616, faleceram o escritor espanhol Miguel de Cervantes, e o dramaturgo, poeta e ator inglês, William Shakespeare. Voltando-nos agora para uma data da antiguidade, mais propriamente ao ano 1184 a. C., no dia 24 de abril foi a Guerra de Troia, que, segundo a tradição, os gregos entraram em Troia utilizando o Cavalo de Troia; para, lá mais para diante, no mesmo dia e mês, mas do ano 1112, se comemorar o falecimento do Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, o qual ficou sepultado na Sé de Braga. O dia 25 de abril de 1974 já foi mais atrás referido. Em 26 de abril do ano 1500, foi celebrada a primeira missa no Brasil por frei Henrique de Coimbra. E, lamentavelmente, no mesmo dia e mês do ano 1986 ocorria o acidente nuclear de Chernobil. Em 27 de abril do ano 1908 iniciaram-se os Jogos Olímpicos de Verão; e, muito antes, no mesmo dia e mês do ano 1521 morria Fernão de Magalhães. No dia 28 de abril de 1889 nascia António de Oliveira Salazar; tendo, muito antes, no dia 29 de abril do ano 711, ocorrido a Conquista islâmica da Hispânia, com as tropas mouras a desembarcarem em Gibraltar e a invadirem a Península Ibérica. Por último, no dia 30 de abril do ano 1949 nascia o português António Guterres, atual Secretário Geral das Nações Unidas.

(In "fórum Covilhã", de 11/04/2017)


15 de março de 2017

ISTO

Há quem viva com a nostalgia do passado, olhando para aquilo que viveu como o melhor tempo da sua vida. Isto, se numa atitude excessivamente retroativa, pode obstaculizar na mudança daquilo que precisa de ser mudado e melhorado. Há grandes lições a tirar do passado, recente ou remoto, mas também há grandes descobertas e algumas surpresas. Isto quer dizer que há assim uma oportunidade de renovar o que tem de ser renovado e esquecer o que deve ser esquecido. Isto também é bom olhar para esse tempo porque pode conter sinais inequívocos daquilo que é importante para nós no presente e permite determinar prioridades para o futuro.
O homem tanto vive na maior abastança como sobrevive na maior pobreza. Isto é um autêntico paradoxo. Com a subida ou descida da esperança de vida, a iliteracia, a higiene, a segurança, o homem está cá para o que der e vier e se adaptar às boas ou más condições que é capaz de construir, renascendo todos os dias.
Isto é assim mesmo. Nascemos no Deus, Pátria e Família de Oliveira Salazar. Assistimos, na Rocha Conde de Óbidos, ao paquete Santa Maria está entre nós, depois de algum tempo ter desfraldado pelos mares como Santa Liberdade, com Henrique Galvão. Mas já antes havíamos assistido ao nascer da televisão, isto no ano de 1957, com a vinda da linda Rainha Isabel II da Inglaterra, e os seus dois filhotes, isto, na altura, o Carlos e a Ana. E, mais tarde, o Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi. E, nos seus écrans da televisão, a preto e branco, de um só canal, durante 21 anos, recordámos o Jorge Alves, no seu Cartaz TV, da RTP, com a inesquecível frase: “Olá amigos!”. No desporto, o habitual jornalista, isto é, Alves dos Santos.
Mas isto também quer dizer, que, em 1958, vimos o General Humberto Delgado a causar arrepios a Salazar, e também os bufos da PIDE instalados e encapotados em tudo quanto era sítio.
Isto, avançando no tempo, dava para memorizar mais, mas vamos pelas guerras africanas, prenúncio do que nos obrigaria a entrar em contingentes militares para defender Guiné, Angola e Moçambique, com o Angola é Nossa!, depois de Nehru ter invadido Goa, e lá ficámos sem a primeira possessão ultramarina – Índia Portuguesa. Isto quer dizer que a memória terá que fazer uma pequena marcha atrás para a independência do então Congo Belga, que após várias alterações passou a denominar-se República do Zaire e atualmente República Democrática do Congo. Recordamo-nos das lutas desenfreadas entre Kasavubu, Lumunda, e depois com as garras de Mobutu. Mais tarde, a morte de Che Guevara e a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
E, com isto, chega a nossa vez de vestir a farda militar, estávamos no ano 1968, por obrigação, com uns cá, e, outros a caminho das então Províncias Ultramarinas, regressando, os que felizmente conseguiram, mas com problemas de stress traumático e, outros, molestados fisicamente. Mas, já em 1969, houve um documento histórico num Manifesto da Oposição Democrática ao regime vigente, com António Alçada Batista, para as eleições fantoches, mais uma vez, que se avizinharam. Que, isto de fantoches, na rua, nos tempos que correm já não se vêm, mas, nesses tempos, era fácil cativar muitas gente para um simples espetáculo de rua, com esse bonecos de vos aguda
E é ainda que em 1969, como militares, encontrando-nos adidos em Paço de Arcos a frequentar um curso de testes psicotécnicos, em Caxias, demos uma salto a Lisboa, à noite, para assistirmos ao filme Helga – o Segredo da Maternidade, que se estreara no cinema Vox, na Avenida de Roma, no dia 24 de julho desse ano. Este filme, para maiores de 21 anos (altura da maioridade) custou-nos 25$00, muita massa para esse tempo. Chegara a Portugal e trouxe consigo a polémica. Num país castrado pelo regime de Salazar, Helga – O Segredo da Maternidade, veio, com o seu realismo, abalar as estruturas mais conservadoras, pouco acostumadas a tanta verdade assim exposta.

Veio o 25 de Abril a cores, com o ano 1975 a preto e branco, depois os anos 76, 77; e os anos 80 dos governos épicos de Mário Soares, o novo paradigma da União Europeia, o nunca me engano e raramente tenho dúvidas de Cavaco, as dúvidas de Guterres, a “fuga europeia” de Durão Barroso; e, isto vai daí, seguiram-se Santana Lopes, Sócrates, Passos, até chegarmos aqui, a isto – a Geringonça, inventada por Vasco Pulido Valente na sua então habitual crónica no Público, na “histórica” data de 31 de agosto de 2014, muito bem aproveitada por Paulo Portas, que, se adivinhasse o seu sucesso, talvez não lhe desse ênfase no Parlamento. É que assim voltou-se o feitiço contra o feiticeiro, tal o sucesso com que a mesma envolve o governo de António Costa.

(In "Notícias da Covilhã", de 16/03/2017)

14 de março de 2017

O FEMINISMO

Já não é a primeira vez que escrevo sob o tema “A Mulher”. Curiosamente, isto foi acontecendo em cada quadriénio, para além dos casos individuais: “As Mais Bonitas” – 2004; “A Mulher na Sociedade Portuguesa” – 2008; “O Reino das Mulheres” – 2012.
Regresso hoje ao tema, tendo em conta que recentemente (8 de março) se comemorou o Dia Internacional da Mulher.
Acho que os dias internacionais, e outros dias comemorativos, acabam por ser já demasiado extensivos a muitas figuras e a muitas coisas, tornando as celebrações pouco sentidas, nuns casos, noutros desprezadas.
Não será o caso do que se reporta à Mulher, no seu Dia Internacional, pelos motivos sobejamente conhecidos, ou ao Dia da Mãe, por exemplo.
Se tivermos em conta que a mulher foi ao longo dos tempos da sua existência sempre envolta pelo sofrimento, nas muitas vertentes da sua vivência desde que veio ao Planeta – maldita serpente que iludiu Eva a comer a maçã proibida – o que é certo e verdade é que sem a mulher o homem não raiava na sua plena felicidade, ainda que, nos tempos que correm, muitos possam tornar esta parte discutível.
Não falando já da escravidão a que sempre foi votada, desde os tempos bíblicos, às religiões muçulmanas radicais, a mulher foi desde sempre envolta nos mais perniciosos costumes e abusos, como sejam as mutilações genitais nos países africanos de grande atraso, às proibições de se poderem desenvolver culturalmente, às poligamias, etc. Se até o Rei David e seu filho Rei Salomão, a. C., consta terem tido mil mulheres, por aqui se pode ver a finalidade com que, desde sempre, foi considerada para o prazer.
A mulher veio ao de cima e lançou o grito do Ipiranga, que há muito tardava, embora ainda hoje perdure como nos tempos de outrora, em muitas zonas da Terra, em pleno Século XXI, desta era robótica.
Até à revisão do Código Civil em 1977 era indubitável que, em casa, era o homem que mandava, sem hipótese de protesto da mulher, já que a lei não estava do seu lado. O “poder marital” foi substituído pelo conceito de “deveres de cooperação”. Passou então a ditar que “o dever de cooperação importa para os cônjuges a obrigação de socorro e auxílio mútuos e a de assumirem em conjunto as responsabilidades inerentes à vida da família que fundaram”.
Sendo certo que o Código Civil de 1966, que vigorou entre 1967 e o final dos anos 70 recuou na igualdade que tinha sido garantida nas Leis da Família em 1910; logo após a implantação da República, as mulheres portuguesas passaram a ter novos direitos, como, por exemplo, os maridos deixaram de poder obrigá-las a regressar ao domicílio conjugal; elas continuaram a ter de adotar a residência dos maridos e a ter de segui-los, situação que veio a mudar em 1977. Entre outras alterações, o divórcio foi legalizado em Portugal em 1910, atribuindo o mesmo peso ao adultério deles e delas. A virgindade das mulheres, que podia ser motivo para anular uma união, só desapareceu do Código Civil em 1977.
Com o Estado Novo, houve mais retrocessos que avanços. O direito de voto às mulheres foi concedido nos anos 30 do século XX, mas no entanto tinham que ter estudos secundários, enquanto aos homens “bastava saber ler e escrever”. Só com o 25 de Abril foi conseguido o voto universal, garantido nas primeiras eleições livres. Muitas outras alterações houve que não cabem neste espaço.
Mas falemos ainda da mulher, que, segundo o escritor Honoré de Balzac, “É o ser mais perfeito entre as criaturas; é uma criação transitória entre o homem e o anjo”; ou, segundo o escritor Jack London, “O homem distingue-se dos outros animais por ser o único que maltrata a sua fêmea”; ou na forma humorística do ator Marcel Achard: “Quando mais gosto das mulheres é quando beijam, porque então têm de estar caladas”, não esquecendo o dramaturgo William Shakespeare que refere “Quando uma rapariga diz ‘não’ com humildade, deseja que isso se entenda como um ‘sim’ ”.
De Norte a Sul do País debateu-se, em várias vertentes, e com vários apoios, a condição das mulheres, algumas sob o mote “Não Me Calo”.
E as suas justas reivindicações, ao longo dos tempos, têm paulatinamente sido conseguidas. Pois o que começou – Dia Internacional da Mulher – “como homenagem à greve organizada em 1908 pela União Internacional das trabalhadoras do setor de vestuário nos Estados Unidos é hoje uma oportunidade para as mulheres de todo o mundo demonstrarem o seu empenho na igualdade política, económica e social”.
Ainda que Portugal esteja entre os melhores países da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico – para as mulheres trabalharem, no que toca à igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, elas ainda ganham menos dois salários do que eles, tendo em conta, entre outras situações, que os homens ganham mais 16,7% do que as mulheres, com um caminho a percorrer até à meta da igualdade ainda longo, segundo dados do Eurostat.
Muitos avanços já foram conseguidos, como nas vinte maiores empresas cotadas na bolsa de valores de Lisboa – PSI-20, as quais têm de integrar 20 mulheres na gestão.
E elas são algumas das mulheres mais poderosas do mundo, segundo a crítica, ainda que discutível nalguns casos: Merkel. Chanceler alemã que manda na Europa; Theresa May. A mulher à frente do Brexit no Reino Unido; Isabel dos Santos. Empresária com fama de ser dura a negociar; Christine Lagarde. Diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI); Aung San Suu Kyi. A mulher de ferro da Birmânia. Angelina Jolie. Atriz e ativista; Marine Le Pen. Candidata  presidencial francesa e líder do partido de extrema-direita Frente Nacional; Janet Yellen. Americana, Presidente da Reserva Federal; Federica Mogherini. Alta representante da União Europeia para a Política Externa; Helen Clark. Administradora do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. Park Geun-hye. Presidente da Coreia do Sul. Sheryl Sandberg. Diretora de operações do Facebook; Mary Barra. Presidente da General Motors (GM); Ana Patricia Botín. Presidente do grupo Santander; Marissa Mayer. Presidente da Yahoo; Nicola Sturgeon. Primeira Ministra da Escócia; Ginni Rometty. CEO da IBM; Indra Nooyi. CEO da PepsiCo; Paula Amorim. É a nova chairwoman da Galp.


(In "Fórum Covilhã", de 14/03/2017)

21 de fevereiro de 2017

ODE À COVILHÃ

Fim-de-semana, um pouco de descanso. De segunda a sexta-feira é o rodopiar quotidiano, fazendo com que o dia tenha mais de vinte e quatro horas.
No sábado e domingo, o Sr. Neves ou a D. Luísa deixam-me os jornais no Repolho. A simpatia habitual: “Bom dia, Sr. João, aqui estão os jornais”. É a forma acolhedora das gentes covilhanenses.
Muito se tem falado nas gerações. Conhecedores das dificuldades económicas e de emprego dos nossos ascendentes, foi a geração de 60, da qual sou herdeiro, que lhe coube a esperança de melhores dias, ainda em tempo de ditadura, com os “empregos para toda a vida”; e, depois, com o 25 de Abril, “os direitos adquiridos”, num desenfrear de salários, sempre a subir; no querer tudo, desde casa própria e casa de férias, mais que um automóvel, duas ou três televisões em casa, um telemóvel para cada bolso, a segurança no emprego.
Sempre se pensou que um dia chegaria a altura das nossas reformas, e que seria o descanso, daria para todos, e, como no aproveitar é que está o ganho, vai daí, reformas antecipadas, muitas principescamente, até que a corda ficou demasiado à chuva e começou a minguar.
Surge então a “geração rasca”, que irritou muitos dos seus herdeiros, ofendidos ou envergonhados. Mas as reformas, para os seus horizontes, começaram a ver-se num túnel profundo, quase sem luz no fundo.
Licenciados, muitos, colocações poucas; e empregos sem direcção dos seus cursos, pelo que são os call centers, hipermercados, e outras ocupações que acolhem, precariamente, esta juventude.
Mas, tal como na máquina de fazer pipocas, passaram a saltar, em quantidade acelerada, para os corredores do desemprego, muitos das gerações referidas. Surge agora, muito a propósito, na canção da banda Deolinda, a “geração parva, a geração sem remuneração”, que vai viver pior que a dos seus pais.
E, lá está, a “geração de 60” foi em Portugal uma das primeiras a ser sucedida, em décadas, por outras que viverão pior, até que surja a “geração do deixa andar”.
Também a Covilhã, a caminho do século e meio de cidade, sentiu na pele os efeitos nefastos, desta encruzilhada de indecisões governamentais, para o futuro dos seus filhos, de raiz ou de coração, e a perplexidade, em muitas fases destas gerações, de como solucionar o combate às golfadas de desemprego.
A par dos melhoramentos e obras de vulto que se aconselhavam na cidade e concelho, ou a modernidade assim o exigia, ou ainda fruto da sapiência dos seus autarcas, com rasgos de inteligência, irmanados nos seus colaboradores, sobressaiu o esforço para diminuir o flagelo dos sofredores do desemprego, através da consecução de empresas para a Covilhã.
Se, no primeiro caso, a Covilhã já se pode orgulhar de possuir uma rede viária importante; com a A23, tornando-se no entanto imperiosa a ligação a Coimbra, em situação idêntica, da montanha ao vale da cidade levou uma transformação aprazível a todos os títulos, com a criação de muitas infra-estruturas que proporcionaram meios diversos de acolhimento, recreio e bem-estar da sua população, e também de quem nos quer visitar; no segundo caso, o ter proporcionado a opção covilhanense como a melhor para o estabelecimento de empresas tecnológicas, foi a cereja em cima do bolo, para uma cidade e região, que, tal como o País, necessita de ver aumentados os números dos empregos.
Depois do Call Center, que aceitou vários jovens, surge agora o Novo Data Center da PT, na Covilhã, cujo projecto deverá criar cinco centenas de postos de trabalho.
É pois fruto da influência do trabalho emanado da criação, há uns anos, do Parkurbis, onde a Covilhã se coloca assim na linha da frente das bases tecnológicas, nesta que também podemos chamar “geração tecnológica”.
E, se ainda há tempos, a bandeira das cores municipais se envaidecia com a ponte pedonal da Carpinteira, do arquitecto Carrilho da Graça, referida na revista americana de especialidade turística, Travel & Leisure, como um dos sete destinos mais interessantes do mundo em termos de design, bem se pode orgulhar o líder da municipalidade covilhanense, Carlos Pinto, de ver no âmbito da sua acção municipal, que a Cidade e Concelho tomou outro rosto mais condizente com o valor das suas gentes e de quem aqui trabalha.
Mas também sabemos que a alma do Parkurbis – Parque de Ciência e da Tecnologia da Covilhã, assim como coordenador do trabalho do Novo Data Center da PT na Covilhã  é o Vereador Pedro Farromba, pelo que será fácil encontrar o sucessor de Carlos Pinto para a Câmara da Covilhã.

JOÃO DE JESUS NUNES
joao.jesus.nunes@mail.telepac.pt

(In quinzenário "O Olhanense", de 01/03/2011; e semanário "Notícias da Covilhã", de 03/03/2011)

A republicação deste texto, integral e não parcial, deve-se ao facto do cidadão Carlos Pinto, ex-Presidente da Câmara Municipal da Covilhã, o ter inserido, parcialmente, na parte que lhe interessou, no seu facebook pessoal, com uma foto minha, grande, originando que as pessoas, não reparando na data, em números reduzidos, deduzam que é recente. Isto verifica-se pelos comentários que têm vindo a surgir. Por outro lado, induzem em erro de percepção sobre um meu eventual apoio à sua candidatura em construção. Ainda é cedo para poder, conscientemente, e não pela consciência dos outros, assumir uma posição de apoio a qualquer dos candidatos que venham a surgir, na sua globalidade.
Estranho é o facto de o cidadão Carlos Pinto me ter bloqueado no acesso ao seu facebook pessoal, quando, afinal, ele publicou aquele meu texto.
Daqui se infere, como é óbvio, aquele dito antigo: "Aqui há gato!..."

João de Jesus Nunes

14 de fevereiro de 2017

A MENTIRA

Todos mentimos. Não significa que seja algo bom, ético e que vá conduzir à felicidade. Certo é que vemos pessoas sofrendo com mentiras, em várias vertentes das suas vidas. Seria interessante entender porque as pessoas mentem, ainda que seja uma das formas de superar as traições, omissões, falsidades e mentiras.
Qual a causa de haver tanta mentira no mundo? O Professor Felipe de Souza diz que “a pessoa que mente pensa que é melhor, mais vantajoso dizer uma inverdade do que dizer a verdade. A verdade é sentida como algo que provocará uma resposta pior e desfavorável. Esta é a causa das mentiras”. Porém algumas pessoas desenvolvem uma grande capacidade de mentir. Quem mais mente não acredita nas suas mentiras. Mas outras gentes há, que, mentindo, acreditam que as suas mentiras são verdades. Neste último caso, o Professor Felipe de Souza diz que “há um indício de doença mental, pois acreditar fielmente em suas próprias mentiras pode significar um distúrbio psicológico grave”. Há algum tempo surgiu a expressão “disfunção cognitiva temporária”, na Assembleia da República, pelo Secretário de Estado do Tesouro e Finanças, Mourinho Félix, aquando da discussão na especialidade da proposta de Orçamento do Estado para 2017, referindo-se à proposta do PSD relativamente à Caixa Geral de Depósitos. Gerou-se enorme polémica.
O que é verdade é que o uso da linguagem excessivamente forte é comum nos parlamentos. Vejam-se os casos surgidos nalguns países asiáticos e até na Itália em que chegaram a vias de facto. Os excessos parlamentares têm tradição em Portugal. Almeida Garrett foi um dos mais brilhantes utilizadores. E Brito Camacho, respondendo a um deputado que vociferou: “eu tenho só um partido”, saiu-lhe esta: “Então tome lá cuidado não lhe partam o outro!”. Já depois do 25 de Abril, a deputada centrista Natália Correia fez um pequeno poema a um deputado que defendia que só devia fazer sexo quando se queria fazer um filho, poema que terminava dizendo que ele era capado. E quando algumas mulheres, apoiantes da Unita, foram à Jamba e disseram que aquilo era uma cidade muito organizada e que até tinha um polícia sinaleiro, Natália Correia não perdoou, dizendo: “O que as senhoras mais admiraram foi certamente o cassetete do polícia!”.
Num artigo que publiquei em 24 de outubro de 1997, a propósito dum autarca da altura ter mentido a uma instituição desta Cidade, referi que no jornal Vida Económica, de 3 de outubro daquele ano, sob o título “200 petas/dia”, dizia o seguinte: “(…) de acordo com um estudo publicado pelo The Sunday Telegraph, do Reino Unido, as pessoas mentem de oito em oito minutos, no mínimo, na maior parte trata-se de pequenas mentiras, embora sejam mentiras”.
Ora bem, não só as mentiras de Trump, que, no seu egocentrismo boçal e alucinado, certamente não lhe permitem ver a diferença entre verdades e inverdades, são fator para que esta palavra seja uma das mais repetidas de sempre, como também, por cá, a sobrevivência da mui badalada “geringonça”, faz referir Vicente Jorge Silva, no Público, ser “um termo que, só por si, pacificamente adotado por quase toda a gente, resume a pequenez da “política à portuguesa”.
Recentemente realizou-se, na Universidade do Minho, um colóquio sob o tema “Mentira e Hipocrisia na Política e Vida Moral”, ideia defendida pela norte-americana Ruth W. Grant; no qual estiveram presentes cerca de 40 especialistas de 15 países; tendo sublinhado que há uma grande mudança na mentira, e a diferença é quantitativa mas também qualitativa, refletindo sobretudo acerca das questões da moral política. Hoje recorre-se mais à mentira. O controlo dos factos feitos pelo site PolitiFact ao discurso de Trump, nas presidenciais americanas, apontaram para 76% de falsidades; e a mentira, quando exposta, sobrevive ao confronto com os factos, resistindo bem ao embate. Ruth W. Grant recordou que, até aqui, as mentiras em política tinham sobretudo que ver com aquilo por quem as proferia se assumia ou não responsável. Quando apanhado em falso, o político passava por um momento de embaraço público, sentindo a obrigação de se retratar. Agora, quando confrontado com os factos, o político continua a mentir, não obstante ser uma mentira à prova de factos. No debate sobre “verdade à prova de factos”, lá veio o alegado arsenal de armas de destruição maciça que serviu para justificar a guerra no Iraque. E é neste tempo “trompetista” que surge a “pós-verdade”, tendo a Oxford Dictionaries a elegido palavra do ano 2016, justamente por causa de Trump e do “Brexit”. Foi definida como o conceito que designa as circunstâncias em que os factos objetivos são menos preponderantes na formação da opinião pública do que as paixões e convicções.
Temos então aí o campeão da mentira – Donald Trump – e a este assunto se foram referindo os jornais do mundo: o New York Times recapitulou os substantivos usados pelo jornal e pela média americana para caraterizar as inexatidões ditas ou twetadas por Trump: inverdades, falsificações, equívocos, erros. O jornal mais influente do mundo, o NYT, escreveu que Trump repete uma mentira sobre as eleições e que é um rematado mentiroso. Ele mente frequentemente e sem problemas. Mente sobre as coisas sérias e sobre as triviais. Entronizada na Casa Branca, a pós-verdade incorpora os preconceitos, pregando e ampliando indefinidamente, nas redes sociais, a mentira que parece ser verdade.
Vêm aí as eleições autárquicas e, também aí, a mentira tem oportunidade de surgir nas suas encapotadas vestes para, mais tarde, não ter hipótese de se ocultar. É que, conforme o ditado, uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir. Ou seja, é apenas a verdade mascarada, agora que entrámos no mês do Carnaval. E ainda, se a consciência tranquila se ri das mentiras da fama, o que é certo e verdade é que mesmo a mentira mais complicada é mais simples que a verdade, tendo também em conta que um silêncio pode por vezes ser a mais cruel das mentiras.
A mentira é pois um componente que faz parte da vida de alguns políticos e, com as raras exceções de sempre, tal conceito já se incorporou na definição que o povo faz dos seus representantes, mas que ele mesmo se encarrega de lhes dar um mandato. Recordam-se que Richard Nixon teve de renunciar à presidência americana porque mentiu sobre Watergate? Tentou obstruir o trabalho de investigação e negou sua responsabilidade na invasão do edifício Watergate, em Washington. Pois é, já Platão, o filósofo da Grécia Antiga, comparou a aplicação do uso autorizado da mentira, em política, ao uso que o médico faz da sonegação da verdade e do veneno com finalidade curativa.
O povo diz que atrás de mentira, mentira vem; e já Aristóteles afirmava que a vantagem que têm os mentirosos é a de não serem acreditados quando dizem a verdade.
Aguardemos então a próxima campanha eleitoral para as autárquicas no nosso País. Estejamos atentos às mentiras que ao longo dos tempos nos foram insufladas. Mas também na reflexão das mentiras para um promissor futuro. O melhor candidato será, obviamente, o que menos mentir, ou, então, o que melhor mentir.


 (In "Fórum Covilhã", de 14/02/2017)

8 de fevereiro de 2017

AS CONFERÊNCIAS DE SÃO VICENTE DE PAULO NA DIOCESE DA GUARDA

A Sociedade de S. Vicente de Paulo já estava estruturada e organizada antes da sua entrada, instalação e expansão em Portugal, que ocorreu no ano de 1859 (reinado de D. Pedro V). Teve os seus antecedentes em S. Vicente de Paulo que nasceu na aldeia de Pouy, nas Landes, a sudoeste de França, em abril de 1581 e veio a falecer na Casa de S. Lázaro, em Paris, em 27 de setembro de 1660. Vicente de Paulo lançara, dois séculos antes, a semente da Sociedade que viria a ter o seu nome, porque a iniciara no seu espírito de amor aos pobres. A Sociedade acabaria por ser fundada em Paris, no ano de 1833. Nenhuma obra de caridade foi estranha a Vicente de Paulo e esse princípio foi trazido para a Regra da Sociedade de S. Vicente de Paulo. Veio a ser aclamado Patrono de todas as obras de caridade. Desde o século XVII que a semente da vocação e missão vicentina mesmo para leigos ficou latente e só mais tarde, já em 1833, em Paris, ela realmente brotou, sendo António Frederico Ozanam o seu grande fundador. Naquele seu impulso, para com seus companheiros, lançou o grito: “Façamos o que fazia Nosso Senhor Jesus Cristo quando pregava o Evangelho: Vamos aos pobres”. Assim, Ozanam, com o seu companheiro Augusto Le Taillandier, dirigiu-se a casa de uma família pobre que conheciam e vivia nos arredores de Paris. Levaram-lhe, simbolizando o seu afeto e interesse, alguma lenha para aquecer. Iniciava-se assim a prática da visita domiciliária, o processo que se tornou típico da ação destes leigos que passaram a denominar-se “vicentinos”, membros de uma Conferência, inicialmente chamada da Caridade, e, meses depois, “Conferência de S. Vicente de Paulo”.
Preparava-se então a entrada da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Portugal, depois de já se ter instalado em vários países. Foi já no declinar do ano 1859, a 27 de setembro, que o Padre Emídio Eugénio Miel, Superior da Igreja de S. Luís, em Lisboa, a viria a fundar, passando a designar-se “Conferência de Lisboa”. Multiplicar-se-ia pelo País fora, sendo o Porto o seu núcleo mais denso.
Chegava à Guarda, com o maior núcleo de assistência aos necessitados e a forte implantação nesta Diocese, com a Covilhã a sobressair, desde o seu início, nestas tarefas solidárias e caritativas. E era no seu seio que vinha a ser fundada, em 12 de novembro de 1899, a Conferência de Santa Maria Maior (Nossa Senhora de Lourdes), na Covilhã.
Como não havia qualquer Conselho na Diocese da Guarda, ficou sob a tutela do Conselho Central do Porto. A Conferência dedicou-se à visita domiciliária.
Não era a Conferência de Santa Maria Maior, na Covilhã, a única Conferência na Diocese da Guarda. Existia nesta cidade, desde 01 de dezembro 1891, mas só agregada a Paris em 1909, a Conferência de São Luís Gonzaga, que lutava com grande dificuldade apesar da esmola superior a 400$00 com que o Prelado a contemplava. Tinha esta Conferência vários sacerdotes como seus membros, entre os quais o anterior Bispo D. Tomaz Gomes de Almeida. De qualquer modo, o Bispo D. Manuel Vieira de Matos, também considerando indispensável a ação da Sociedade de S. Vicente de Paulo, ajudou a levantar a Conferência da Guarda que entrara em grande declínio. Nesta ação vicentina também se terá destacado o Bispo Covilhanense, D. Manuel Damasceno Costa, que depois foi Bispo de Angra, onde viria a falecer. No domingo, 5 de Fevereiro passado, foi homenageado pelo Município Covilhanense, com missa solene na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, presidida pelo Bispo da Diocese, D. Manuel Felício; e uma exposição no Museu de Arte Sacra, na comemoração dos 150 anos do seu nascimento.
 A Conferência de Santa Maria Maior, na Covilhã, apoiava o Albergue dos Pobres (hoje Lar de São José), fundado em 1900. Dois anos após a sua abertura, em 10 de junho de 1902, conseguiu esta Conferência a vinda das Irmãzinhas dos Pobres para cuidar do Albergue. Há muitos anos que partiram. A Conferência decidiu ainda ceder ao Albergue as quotas dos seus 168 subscritores, reconhecendo e valorizando a boa obra desta Instituição.
Em 19 de março de 1903 é fundada na Covilhã a Conferência de Nossa Senhora da Conceição.
Em 29 de junho de 1905, aproveitado a festa de São Pedro, foi fundada na Covilhã a sua terceira Conferência Masculina sob a invocação de S. Pedro. Em 1905, na Covilhã, nasceu em algumas Senhoras o desejo de constituírem um Conferência Feminina – a Conferência de Santa Maria Maior.
Em 03/12/1910 foi fundado na Covilhã o Conselho Particular (hoje designado Conselho de Zona) que ia contudo encontrando dificuldades na coordenação das Conferências a que ele estavam ligadas. É que tinham poucos membros ativos para tão grande ação. Foi organizado em 25/02/1924. O Conselho Particular da Covilhã dependia do Conselho Central Masculino do Porto, tendo sido nessa altura que o Conselho da Covilhã, por sugestão do Prelado, reuniu as Conferências da Covilhã numa só. Passou assim a serem consideradas apenas duas Conferências na Diocese da Guarda: a Conferência da Covilhã, resultante da fusão das existentes; e a Conferência da Guarda.
Em 19 de fevereiro de 1911 surgiu ainda na Covilhã a Conferência de São Martinho. Entretanto, para a mesma Diocese, surgia em 20 de novembro de 1913 a Conferência Feminina de Nossa Senhora da Serra, em Castelo Novo, no Fundão, que só foi agregada em 1947.
Na Covilhã, as Conferências que em 1921 se tinham fundido numa só, a partir de 1923 voltaram a passar a funcionar separadamente.
Em 1925, as Conferências Vicentinas na Diocese da Guarda foram aumentadas com a fundação da Conferência de Pinhel; Conferência de Alpedrinha, em 26/11/1925; e a Conferência das Donas, em 15/01/1925. Na Covilhã, surgia ainda, em 30 de agosto de 1925, o Grupo Nun’Álvares, formado por escuteiros.
No ano de 1944, na Diocese da Guarda, a Covilhã continuava a ser a zona da diocese com mais vocações vicentinas.
Também na Covilhã, as Conferências continuavam a ter apreciável dinâmica que, por exemplo, se concretizou na criação da Cozinha Económica que funcionava através de uma caderneta de senhas distribuídas aos pobres, assim adquirindo direito a refeições, bem como auxílio moral. Esta instituição hoje já não existe. Era uma obra de vulto se atentarmos que só no ano findo de 1945 servia a pobres 72.980 refeições, no valor de 105.498$10. 
Em 20/01/1935 ainda surgiria na Covilhã uma Conferência de Jovens – Conferência de S. Tomás de Aquino; uma em Unhais da Serra, em 11/10/1932, e, no Ferro, em janeiro de 1935; e em 16 de janeiro e 3 de fevereiro de 1938, mais duas Conferências, em Aldeia de S. Francisco de Assis.   
Todas estas já não existem, como também deixaram de existir mais estas, fundadas na Covilhã, em 1//1/1946 – a de S. Tarcísio; e no Bairro de S. Vicente de Paulo, que se ia construindo, no dia 02/12/1949. No Tortosendo, em 1947, ainda em vigor, surgiria a Conferência de Nossa Senhora da Oliveira.
Sem dúvida que era, e ainda é, a Covilhã, o núcleo mais dinâmico da Sociedade de S. Vicente de Paulo da Diocese da Guarda.

Atualmente, a Covilhã continua a sua ação em prol da solidariedade social e caritativa, nas Conferências de São Vicente de Paulo, assistindo mais de três centenas de famílias, englobadas no seu Conselho de Zona, das quais fazem parte as seguintes Conferências, numa ação de grande dinamismo: Conceição, Santa Maria, S. Pedro, S. Martinho, S. José (Penedos Altos), Canhoso, Tortosendo, Fundão e Alpedrinha, embora esta última só distribua alimentos.

(In "Notícias da Covilhã", de 09/02/2017)

18 de janeiro de 2017

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA – II

Com este mesmo título publiquei um artigo em 23 de março de 2006. Vem a propósito, para esta crónica, o que então escrevera há mais de uma década.
Falemos então de Mário Soares e António Costa que, indubitavelmente, irão ficar nas páginas da História de Portugal, por motivos diferentes.
A geração que hoje se situa entre os 40 e os 50 anos não esteve à altura do legado do 25 de Abril. Não correspondeu às expetativas emanadas deste movimento depois de a Europa ter também deixado de ser o sonho após a perda de África.
É que o lugar do sonho depressa foi ocupado por uma geração sem sentido, fascinada com o novo-riquismo do dinheiro a crédito e no facilitismo bancário. O resultado de hoje foi deixar aos filhos um país menos esperançoso.
Mário Soares ensaiou um caminho em busca de um Portugal aberto, moderno e cosmopolita. Foi um lutador antes e após 25 de Abril, na firme convicção de que só se curariam as feridas do fim do império e de eliminar a pobreza de âmbito material e moral do salazarismo se o seu destino se fixasse ao das democracias do Ocidente. Ele e os democratas que inspiraram o 25 de Abril ajudaram a derrotar as tentativas totalitárias do Verão de 1975. Neste sentido muito bem ilustrou Manuel Carvalho, na sua “Memória futura”, do Público. Quase tudo já se escreveu e se disse sobre Mário Soares, o qual inequivocamente se irá perpetuar nos anais da história portuguesa. O povo português soube responder, em várias vertentes, no seu último adeus: “Obrigado, Mário Soares!”. Sendo laico e agnóstico esteve na defesa da Igreja. E, dando grande exemplo a muitos católicos, esteve casado com a sua única mulher, Maria Barroso, quase sete décadas.
Não tive contactos com Mário Soares mas algumas vezes estive perto dele. Na sua primeira visita à Covilhã, e à porta da sede do Partido Socialista, então sediada na Rua Comendador Campos Melo, depois de muitos abraços e beijos, onde não faltava a popular Seabra, falava num acontecimento importante, que não recordo, que dizia vir publicado no Diário de Notícias desse dia, o qual ainda não tinha comprado. Como eu levava o jornal debaixo do braço, apressei-me a oferecer-lho.
Naquele ano de 2006, no meu aludido artigo, registava o facto de que Portugal atravessava a crise mais prolongada dos últimos 25 anos, pois que, em vez de uma doença súbita, a então crise era de uma agonia prolongada. Os anos foram passando e os receios mantiveram-se. Vamos respirando um pouco melhor.
Memorizando algumas efemérides da altura, saltei para o ano 1961 com o pretexto de recordar o líder soviético, Nikita Krustchev, que denunciou Estaline, com o seu “discurso secreto” deixando sementes que germinaram com Gorbatchov. Vivia-se a guerra fria com o presidente americano John Kennedy a manter os Estados Unidos mergulhado no pântano vietnamita e no fracasso da Baía dos Porcos, em Cuba, na crise dos mísseis nucleares.
Naquela década de 60, do precedente século, em Portugal vivia-se a ditadura e o mundo exigia, na ONU (hoje com o português António Guterres como seu secretário-geral) a independência das colónias portuguesas. Nikita Krutchev, que era a favor da libertação das mesmas (então designadas províncias ultramarinas), numa ida às Nações Unidas, para se fazer ouvir, proporcionou um espetáculo cujas fotos correram as capas dos jornais portugueses, ao bater com o sapato, que descalçara, na tribuna donde pretendia falar. Em Portugal, cada vez mais pressionado para entregar as colónias, viu-se confrontado com Nehru a mandar invadir Goa. Surgiram assim, por todo o País, grandes manifestações patrióticas contra a invasão da Índia Portuguesa. Também as houve na Covilhã. Da Escola Industrial, o diretor Ernesto de Melo e Castro dava ordens: “Todos à manifestação ao Pelourinho!”. Eu também lá estive no meio da multidão que, num ápice, se aglomerou. Bandeiras e cartazes improvisados serviam para a manifestação contra a invasão da Índia Portuguesa, em cuja possessão ultramarina se encontravam muitos militares portugueses a tentar resistir. Recordo-me, no Pelourinho, de alguns colegas estudantes da Escola Industrial, do Liceu e do Colégio Moderno, no meio daquele maralhal. Entre eles havia um cartaz empunhado pelo estudante João Rosa Lã (anos mais tarde viria a ser Embaixador de Portugal em Madrid, Paris e Marrocos) que dizia: “Deem Toddy ao Krustchev!”. Nesse tempo passava todos os dias pela televisão (de um único canal a preto e branco) a publicidade ao Toddy.
É aqui que surge agora António Costa, numa visita histórica à Índia, incluindo Goa donde tem a sua origem. É, de facto, “uma ocasião política que nos permite entrever o arco que vai da primeira globalização – quando Vasco da Gama chegou à Índia em 1498 – até à crise da globalização presente”, nas palavras de Rui Tavares. De facto, é esta em que um político português com origens em Goa e no antigo Estado Português da Índia visita a República da Índia.
As relações entre Portugal e a Índia não foram fáceis. Curioso é que, no mesmo ano em que o primeiro-ministro português, António Costa, nasceu, em 1961, Goa foi anexada pela Índia, junto com os outros territórios portugueses no subcontinente indiano.
A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, com uma das economias mundiais que mais cresce.
A grande esperança é que desta visita venham vantagens acrescidas para Portugal.





 (In "Notícias da Covilhã", de 19-01-2017)

10 de janeiro de 2017

A NOVA IGNORÂNCIA

Vem o título desta primeira crónica do ano da graça de 2017 a ser reflexo das que escreveram José Pacheco Pereira no Público de 31 de dezembro, e a resposta, de António Guerreiro, na revista Ípsilon de 6 de janeiro. Depois, a repercussão das críticas, inseridas no mesmo jornal de 7 de janeiro, por Pacheco Pereira.
“Parece que falar da ignorância coloca logo quem o faz numa situação de arrogância intelectual”, diz Pacheco Pereira.
“Acompanha outro tipo de fenómenos como o populismo, a chamada “pós-verdade”, a circulação indiferenciada de notícias falsas, e, o que é mais grave, a indiferença sobre a sua verificação”.
Temos visto, de vez em quando, de uma forma subtil mas, paradoxalmente, na envolvente de uma raiva não contida, algumas críticas direcionadas para textos publicados por articulistas em periódicos desta região, que incomodam quem critica, sem a frontalidade na nomeação dos seus autores, evitando o óbvio contraditório. Serão assim sempre censurados no âmbito da cobardia. São, geralmente, os detentores de espaços que não só lhes pertencem, mas que se julgam como tal, arrogados num pedestal em que para aí se arrastaram.
Os casos, verídicos, que nos chegaram ao conhecimento, da forma como algumas instituições deixaram passar alunos, nas “Novas Oportunidades”, para obtenção dos 9.º e 12.º anos brada aos céus; e como alguns alunos do ensino superior redigem, assobiando para o lado quanto à ortografia, é de autêntica risada, melhor dizendo, tristeza. Isto nada tem a ver com o facto de termos sido uns ases, pela primeira vez acima da média da OCDE, com os melhores resultados de sempre nos testes PISA 2015, em Literacia Científica, Leitura e Matemática.
E, embora tenhamos as gerações mais qualificadas, estamos alheios à nova ignorância. É que a sociedade potencia o uso das novas tecnologias que fazem as pessoas olharem para os telemóveis centenas de vezes, diariamente, com os adolescentes na linha da frente. Não há as grandes relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interações de grupos, na interpretação bem lúcida quão esclarecedora de Pacheco Pereira. A maior punição para um adolescente é retirar-lhe o telemóvel. É deprimente ver em qualquer sítio, seja na entrada da escola, num restaurante, ou mesmo na rua, pessoas que embora estejam juntas, não se falam. Falam para o invisível, do aparelho que sai do bolso, ou então nem da mão sai, estando sempre numa atenção latente ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, tirando Selfies, entrando no Facebook, às catervas de vezes ao dia. Nesta ignorância que integra a sociedade, deixou de haver silêncio e tempo para pensar, deixando a curiosidade de olhar para fora, ao invés se metem na sua abstração. E ninguém os detenha, os incomode, os irrite, deixem-nos em paz. Se atentarmos no que se escreve no Facebook, ficamos a conhecer melhor as pessoas na sua ignorância, que, nalguns casos, é de pasmar, independentemente de terem ou não algum canudo.  
Já António Guerreiro contesta: “E tal como não há “nova ignorância”, também não é novo querer combatê-la com os instrumentos da crítica da ideologia. Mas como pode Pacheco Pereira excluir-se do processo da “nova ignorância”, e denunciá-la, se participa ativamente nos meios que a produzem? A esta pergunta também me vejo obrigado a responder: não tenho tais ilusões e estou consciente da contradição a que me exponho semanalmente”.
Pelo que se deduz, na contemplação das redes sociais, muitos dos seus utilizadores têm aqui a sua fonte onde vêm beber quase toda a sua informação. Não será esta, quantas vezes, uma “nova ignorância” no ataque ao saber? E, tal como António Guerreiro escreve, também todos os que escrevemos nos jornais nos expomos à crítica, se bem que é da discussão que nasce a luz, segundo o provérbio.
Vamos agora ter neste novo ano um dos maiores riscos para o mundo com a presidência ignorante dos Estados Unidos em que as redes sociais o alcantilaram ao poder. Nestes ventos de “trumpestade”, a vitória de Donald Trump constitui a segunda grande surpresa internacional do ano, depois do Brexit. E como em relação ao “adeus europeu” de Londres, com Trump na Casa Branca, sabemos melhor quem perdeu do que quem venceu. Será que o povo americano foi assim tão ignorante, elegendo um presidente politicamente incorreto, populista, reacionário, isolacionista, racista, demagogo, machista, sexista, aventureiro, impreparado, e o mais que se lhe queira chamar? É óbvio que venceu, e em democracia os resultados de uma eleição são sempre legítimos.
Habituámo-nos a olhar para os EUA como a maior democracia do mundo e ao seu presidente como o líder do mundo livre. Os verdadeiros democratas não conseguem ver isso em Donald Trump.

Tendo ocorrido o falecimento do primeiro Presidente da República civil, Mário Soares, após a Revolução dos Cravos, no dia 7 de janeiro, que sucedera ao general Ramalho Eanes, aquele que foi um grande democrata e eterno lutador pela liberdade, com justiça quase todos os jornais dizem: “Obrigado Mário Soares!”.


(In "Fórum Covilhã", de 10-01-2017)

29 de dezembro de 2016

COMO GERINGONÇA DOURADA (CGD)

Naquele tempo estávamos nos primeiros anos da década de sessenta do século passado. Como habitualmente, minutos antes das nove, aguardávamos que se aproximassem as horas para início do trabalho. Daí também o encontro com alguns dos colegas administrativos, debaixo das arcadas da Câmara Municipal, junto à porta da então Repartição Técnica, mais tarde designada Serviço de Obras e Urbanização. Um pouco de conversa matinal, o puxar de um cigarro, e o deleite num arregalar os olhos pelas jovens que também passavam, de caminhar ligeiro, para o emprego, Escola Industrial, Liceu ou Colégio Moderno; algumas, antigas colegas. E um ou outro amigo que subia as escadas para a Repartição de Finanças, sediadas um pouco mais acima.
O Fernando Pedrosa Gonçalves, jovem como eu (ainda nem sequer tínhamos sido chamados para o serviço militar) mostra-me uma caderneta da Caixa Geral de Depósitos (CGD) depois de ter aberto a sua primeira conta bancária. Como é que isso se faz? Perguntei-lhe. E, não é que, a partir daí, passei também a ser cliente da CGD Crédito e Previdência, como na altura se designava… Ala! Que já são horas! E lá subimos as escadarias do Município, cada um para a sua secção: eu para a “Contabilidade”; ele para as “Contribuições e Impostos”.
Rios de tinta têm passado pelos jornais, e o barulhar das águas pelas televisões e nas redes sociais, sobre o processo pelo qual a CGD tem passado. Ele já vem desde que a crise financeira internacional mostrou a nudez de todos os defeitos da forma de ter um banco público no nosso País. É que ele navega ao sabor dos ventos que sopram das interferências políticas da cor do partido da altura. Mostra-se assim uma péssima displicência gerencial.
O já enfadonho caso da administração da CGD, com contratação e renúncia posterior de António Domingues para a sua presidência, é de bradar aos céus. É deveras incompreensível a conduta deste homem da breve liderança, aceitando a gestão dum banco público com a exigência de um estatuto especialíssimo, obviamente diferente ao de outros detentores de cargos públicos como os gestores públicos, exigindo a omissão do seu património. Mas a que pretexto?
Não nos podemos esquecer que a CGD tem estado envolvida nos grandes escândalos do regime, com o locupletar de figuras sobejamente conhecidas.
Já surge na perplexidade de muitas mentes a pergunta anónima e sentida porque é que a CGD tem que ter sempre como presidente uma figura externa ou então um apaniguado que se move à volta do poder? Não seria mais apropriado, é a minha opinião, encontrar, como agora foi o caso de Paulo Macedo, um gestor de méritos e créditos firmados? E até, porque não, mesmo a conveniência de convidar uma figura dentro dos trabalhadores da CGD? Onde está a motivação para esses trabalhadores se empenharem verdadeiramente a darem o melhor de si, até à exaustão, se caso fosse necessário?
Será que o vencimento que o Presidente da CGD – uma instituição pública – dizem que vai receber de 423 mil euros anuais (igual ao que iria receber António Domingues) não é uma grande humilhação para o grande exército de trabalhadores portugueses a ganhar o salário mínimo como o que se paga em Portugal?
O que foi ontem, o que é hoje, não sabemos o que será amanhã a CGD!... De uma casa que foi de grande confiança no passado por ser um banco do Estado, consequentemente pensando-se ser a garantia das poupanças e dos empréstimos, mormente da habitação, dos portugueses de boas intenções, passou hoje a ser uma autêntica geringonça dourada para ainda muitos dos que a vão tentar direcionar para águas mais tranquilas destes ventos agitados, quais passagens do Cabo das Tormentas que depois foi batizado de Boa Esperança pelos nossos descobridores do século XV.
E mais, a comissão executiva da CGD irá custar em salários cerca de 2.465 milhões de euros brutos por ano, é o que consta.
A Caixa deveria ser 100% pública, muito forte e ter uma missão bem definida: regulador do mercado; fazer mudar de intenção os abusos na banca privada (já que o Banco de Portugal, como regulador, é tantas vezes inerte) e financiadora da economia real, que, em boa verdade, não são as grandes empresas mas sim as PME e as microempresas que são aquelas que geram 90% do emprego em Portugal. Claramente que não é arruinar crédito, mas sim dar crédito a empresas de grande viabilidade com projetos sérios e com possibilidade forte de serem conseguidos, atribuindo-se-lhes esse crédito à medida que se vai vendo a sua aplicação na empresa. Obviamente que também haveria a necessidade da concessão de crédito a particulares em condições acessíveis e exigentes ajudando assim a classe média a cimentar-se.
Não é a CGD que mantém o grosso do número de clientes nos funcionários públicos deste País, e os reformados? Então, com uma boa gestão certamente a CGD tem a obrigação de ser altamente rentável.
Neste ano prestes a terminar, e agora que há uma nova liderança nesta instituição, haja a esperança de se dar a volta ao texto, como sói dizer-se, e os líderes, que têm salários dourados, sintam a obrigação de transmitir rápida confiança à população portuguesa, e aos emigrantes, que sempre viram na Caixa uma entidade credível, com aquela garantia de estabilidade e de proteção para as poupanças de uma vida, cujo património se transformou na tal geringonça nas últimas duas décadas.
O espaço não permite mais narrativas, ainda que muito houvesse a dizer, pelo que vamos ficar por aqui.

Desejamos a todos os leitores e suas famílias um Santo Natal e um Feliz Ano 2017.

(In "Notícias da Covilhã", de 29-12-2016)