12 de julho de 2017
11 de julho de 2017
OTIMISMO CAUTELAR
Os portugueses têm vindo a
respirar dum certo alívio daqueles momentos de constrangimento por que
passaram, daquele sufoco com que foram afastados da esperança de melhores
tempos, então lançados num futuro cada vez mais incerto.
Caminhando ao contrário do
desejável pelos homens e mulheres deste Portugal rumo aos nove séculos de existência,
com a responsabilidade emanada dos senhores das governações precedentes, uma onda
de indignação vinha surgindo na trajetória entre Passos e o esbanjador Cavaco.
Dos restantes também há memórias
sulcadas de ventos e marés, onde o nosso país se posicionou em situações
angustiantes com três “ajudas” externas, os lamentos em desabafos nas
expressões pejorativas de que Portugal está de “tanga”, num “pântano” ou “para
nos afundarmos mais no buraco que nos cavaram”, como o “monstro”, de Cavaco, para
além de casos em que a justiça envolveu líderes políticos.
Em 43 anos de democracia, esta foi
tantas vezes vilipendiada por um mundo desejoso mais na condução dos seus
interesses exclusivos: partidos políticos, candidatos a candidatos do exercício
do poder em nome do povo, mas com vídeo-algibeiras; sindicatos, organizações
sem fim, os políticos de circo, e por aí fora.
Se atentarmos no espaço que
medeia duas décadas, entre o ano 1997 e 2017, os consumidores portugueses estão
mais otimistas do que nunca, pois o Instituto Nacional de Estatística (INE) o
explica: “O indicador de confiança dos consumidores aumentou em maio,
prolongando a trajetória positiva observada desde o início de 2013 e atingindo
o valor máximo da série iniciada em novembro de 1997”. Este regresso ao final
de 1997 procura perceber o que se mantem – e o que inevitavelmente mudou – nas
razões que sustentam a confiança dos portugueses. Uma delas evidencia-se – o emprego. O desemprego está a descer e
atinge valores semelhantes aos de 2009, antes do pico da crise.
Há 20 anos havia, contudo, mais
razões para otimismo. O país aproximava-se de um objetivo ambicioso: o pleno emprego. A Expo 98 recebia 26
milhões de visitantes. Só em 1997
venderam-se, segundo a revista Visão, 230
mil casas em Portugal, proporcionando a que 45% das pessoas tivessem “casa
própria” impulsionadas pelo crédito barato. No futebol, os nortenhos festejavam
nos Aliados, o tetra, muito antes do agora celebrado pelo Benfica no Marquês.
Já muito mais cedo também o havia atingido o Sporting (aliás, foi o primeiro).
Ainda em 1997, Marcelo Rebelo de
Sousa era o sorridente líder da oposição. Ainda não se havia notabilizado pelas
selfies. Os telemóveis (quatro
milhões de utilizadores há 20 anos, sexto lugar no ranking europeu…) só faziam
e recebiam chamadas…
Seguiram-se depois más notícias e
o pessimismo, como nos termos atrás referidos, que teve um período de 14 anos.
Entretanto, com o atual governo,
a confiança dos consumidores bate novo máximo de quase 20 anos. Voltou a
aumentar em junho para um novo máximo desde novembro de 1997, e o clima
económico continuou também a subir para o máximo desde junho de 2002, divulgou
o INE.
Ainda segundo este instituto, em
junho, os indicadores de confiança aumentaram na indústria transformadora, na
construção e obras públicas e no comércio, tendo diminuído nos serviços.
A evolução do indicador de
confiança dos consumidores no último mês resultou do “contributo positivo” das
expetativas relativas à evolução do desemprego, da situação económica do país e
da situação financeira do agregado familiar, tendo as expetativas sobre a
evolução da poupança contribuído negativamente.
No entanto, a grande catástrofe
de incêndios no interior do País, com evidência em Pedrógão Grande, não evitou
que a 50 Km da cosmopolita Coimbra, como exemplo, em pleno século XXI, morressem
64 portugueses, tão desprotegidos e abandonados como se vivêssemos ainda no
século XIX, para além das perdas patrimoniais e milhões de prejuízos.
Ainda o País vivia o trauma desta
catástrofe, quando surge o ridículo furto de armamento do Campo Militar de
Tancos.
Comentários para quê, depois de
já terem desaparecido 50 armas Glock de
uma arrecadação da Direção Nacional da PSP, em Lisboa? Vêm agora os serviços de
segurança apontar para crime organizado.
Poderão explicar-nos por que a
videovigilância se encontrava em baixo? Os sensores inutilizados? As vedações
estragadas? As rondas feitas com intervalos de 20 horas? Estas coisas,
combinando entre si, não combinam com o país que, como se referiu no início
deste texto, tem vindo a respirar dum certo alívio na vida da maioria de cada
um de nós, que parece estar no bom caminho, mas, paradoxalmente, com estes
meandros que sulcam o bom trabalho que tem vindo a ser desempenhado na vertente
económica e financeira.
No otimismo de colecionar boas
notícias, como vinha acontecendo, no devaneio daquele golo do Eder no futebol, à
campeã canção europeia sem maus cheiros; ao nosso Ronaldo, melhor do mundo;
esquecendo o andarmos sempre cabisbaixos aquando da troika; consolados por não ter vindo o diabo, torna-se agora
imperativo que este otimismo não venha a ser esmorecido pelas condutas
inoperacionais de alguns comandantes das unidades do palácio governamental.
(In "fórum Covilhã", de 11/07/2017)
14 de junho de 2017
PORTUGAL PACÍFICO
Ao longo da existência do ser
humano no planeta sempre houve guerras, atentados e quaisquer outras formas de
eliminar o homem. Isto já vem dos templos bíblicos, começando pelos filhos de
Adão e Eva, em que Caim matou seu irmão Abel. Segundo um estudo publicado na
revista Plos One, o primeiro
assassínio confirmado da história foi há 430 mil anos em Espanha, mais propiamente
em Atapuerca, na província de Burgos.
Vejamos o Exílio (anos 587-538
a.C.) que foi um momento duro para o povo israelita, com Nabucodonosor, rei da
Babilónia, a destruir Jerusalém e a levar deportados os habitantes da Cidade
Santa para a capital do seu Império. Foi um tempo de provação, a conseguir
sobreviver naquela situação desesperada.
E o fim trágico de homens e
mulheres da História estende-se por um mar de nomes: Seneca, fugindo da
crueldade de Nero; Sócrates (o grego…), Viriato, Sertório, Júlio César,
Arquimides, Aníbal, o herói cartaginês; Catão, Joana D’Arc, Robispierre, o
general Gomes Freire de Andrade, Galileu, Aristofeles, Fernão de Magalhães,
Alexandre Magno, o Duque de Orleans, Cícero, Rosseau, Lavoisier, Lincoln,
Henrique IV, Plínio, Inês de Castro, Martin Moniz, Maria Stuart, Marco António,
que morreu atravessando o peito com uma espada, indo soltar o último alento no
seio da volúvel Cleópatra; D. Francisco de Almeida, Eduardo VIII, de
Inglaterra, entre muitos outros, portugueses e de outras nacionalidades.
A estas figuras podemos ainda
juntar o atentado que vitimou o nosso rei D. Carlos e o Príncipe Herdeiro, Luís
Filipe, em 1 de fevereiro de 1908. Numa visita à Torre do Tombo encontrei estas
palavras manuscritas pelo punho do rei D. Manuel II, último rei português, cujo
relato poderá ser inserido em futuras crónicas: “As minhas memórias desde 1 de fevereiro de 1908, D. Manuel Rei (Torre
do Tombo). 21 de maio de 1908 (notas absolutamente íntimas). Há já uns poucos
dias que tinha a ideia de escrever para mim estas notas internas, desde o dia 1
de fevereiro de 1908, dia do horroroso atentado no qual perdi barbaramente
assassinados o meu querido Pai e o meu tão querido Irmão. Isto que aqui escrevo
é ao correr da pena, mas vou dizer pouco e claramente e também sem estilo tudo
o que se passou. Talvez isto seja curioso para mim num dia se Deus me der vida
e saúde. Isto é uma declaração que eu faço a mim mesmo. Como isto é uma
história íntima do meu reinado vou iniciá-lo pelo horroroso e cruel atentado
(…)”.
Já no tempo do Estado Novo,
Salazar escapou ao único atentado de que foi alvo, no dia 4 de julho de 1937.
No dia 5 de junho de 2017 comemoraram-se
50 anos da Guerra dos Seis Dias, que ocorreu às 7h45 do dia 5 de junho de 1967,
aquela que mudou Israel e o Médio Oriente. Foi um ponto de viragem na História.
Tal como a I Guerra Mundial, foi uma guerra que ninguém previa nem queria. O
culpado foi o Presidente egípcio, coronel Nasser, querendo a liderança política
do mundo árabe, vinha a propagandear a intenção de destruir Israel. Os
israelitas levaram a sério este desafio. No entanto, Israel com três milhões de
judeus, era como o “David israelita”, e os árabes, com 300 milhões de almas,
eram como o “Golias árabe”. Os generais opunham-se a uma guerra em três
frentes: Egipto, Jordânia e Síria. Com a população em pânico, surge o ministro
da Defesa, general Moshe Dayan (o que não tinha um olho) e, em seis dias, vence
esta guerra em três frentes. Recordo-me perfeitamente desta guerra, que fazia
ocupar os noticiários da RTP, e várias páginas dos jornais, de grande formato,
como o Diário de Notícias, o Século e o Diário Popular, para já não falar dos
jornais nortenhos. A televisão portuguesa ainda tinha um único canal a preto e
branco, com o jornalista Gomes Ferreira a dar ênfase aos noticiários. Ainda não
possuía televisão em casa porque os aparelhos eram caros e os salários do
funcionalismo público e dos operários de lanifícios, uma miséria (a televisão
que só surgiu no nosso País uma década antes), mas recordo-me de ver os
noticiários nos cafés da Cidade: no Central, no Leitão ou no Danúbio, do
Caninhas, já desaparecidos; ou então na Pastelaria Triunfo, do Sr. Tomé; ou ainda
no Café Montanha, do ourondense Laranjo. No ano seguinte ingressava no serviço
militar obrigatório. Na primeira viagem que fiz a Israel, em 2007, o guia contou-nos
que esteve como combatente judeu na Guerra dos Seis Dias.
A nossa História de Portugal
se contempla feitos gloriosos como as batalhas ganhas, com evidência para a de
Aljubarrota, assim como as grandes descobertas, como o caminho marítimo para a
Índia e o Brasil, também teve enormes desgraças como a Batalha de Alcácer
Quibir, a participação na I Grande Guerra e, mais recentemente, a Guerra do
Ultramar, em que ainda hoje há muitos jovens de então, hoje já septuagenários,
a sofrer de deficiências físicas e morais, num autêntico stress pós traumático,
geralmente envolvidos nos vários núcleos da Liga dos Combatentes espalhados
pelo País.
O Papa Francisco tem vindo a
condenar veementemente a indiferença do mundo face ao martírio de cristãos e
não só.
Entretanto, Portugal é um dos
países mais pacíficos do mundo e acaba de subir ao pódio neste ranking.
Efetivamente, Portugal vive tempos dourados. A somar a todas as conquistas
(políticas, desportivas e culturais), Portugal goza de um nível de paz
certamente invejado por esse mundo fora. Os dados da Global Peace Index (GPI) de 2017 comprovam não só que Portugal é um
país pacífico como é dos mais pacíficos do mundo. Esta análise é feita a 163 países.
Portugal comete a proeza de passar do quinto lugar (ocupado o ano passado)
diretamente para o pódio, para o terceiro lugar. À frente de Portugal está a
Islândia (o país mais pacífico do mundo desde 2008) e a Nova Zelândia, ocupando
o segundo lugar. No extremo oposto, obviamente sem surpresas, está a Síria,
classificada como sendo o país menos pacífico pelo quinto ano consecutivo. O
Afeganistão, o Iraque, o Sudão do Sul e o Iémen completam os últimos cinco.
(In "Notícias da Covilhã", de 15-06-2017)
EXORTAÇÃO DE SANTO ANTÓNIO
Entre a depressão e a euforia,
há sempre um feliz momento em que Santo António nos exorta à esperança de
melhores dias, ele, o santo casamenteiro, o milagreiro, o santo das coisas
perdidas.
Às vezes é preciso desligar o
“complicómetro”, como referiu David Dinis, diretor do Público. É neste
pensamento que eu vou conseguindo o tempo do meu tempo de várias tarefas. E,
neste contexto, até Santo António, no seu dia 13 de junho, fez coincidir o “seu
dia” com o “meu dia” desta crónica.
Mas vejamos o que tem
acontecido neste Portugal dos últimos tempos, em que não foram só bênçãos, ou,
como na gíria futebolística, “aquela pontinha de sorte”, mas, afinal, em acreditar
naquele célebre substantivo feminino que dá pelo nome de geringonça, saído nas
páginas do Público, das crónicas de Vasco Pulido Valente, em 31.08.2014, e
amplificado no Parlamento pelo ex-líder do CDS e vice-primeiro ministro, Paulo
Portas, em 10.11.2015. Portugal cresceu, como crescem os países com saudáveis
democracias. Soube, com notáveis homens e mulheres, o que é cair no fundo e
levantar-se de novo. Uma grande lição para o mundo.
Portugal deixou assim de ser o
dos três “éfes” (Fado, Futebol e Fátima), porque o esplendor noutros feitos
veio dizer-nos que nada se faz por acaso. Salvador Sobral ganhou na canção como
nunca tinha sucedido. Já antes tínhamos ganho o Campeonato da Europa, e um
português, da Beira Baixa, eleito secretário-geral da ONU. Muitos factos, que
não cabem neste espaço, se poderiam juntar, daqueles que os políticos gostam
tanto de dar valor quando estão no Governo para se assumirem como autores do
sucesso, ou, então, paradoxalmente, desvalorizar, quando ausentes do poleiro
governativo, na tentativa de que seja extraída uma ilação, que poderia ser melhor
se fossem eles a mandar.
E como já não há mais mundo
para descobrir, as descobertas portuguesas ficam-se pela história, aliás, de
grandes estórias da nossa História. Mas o mesmo já não podemos dizer dos
santos, e, para se juntar ao Santo António de Portugal, a São Nuno Álvares
Pereira, a Santa Isabel de Portugal e a outros santos e beatos, aí temos mais
dois santos portugueses: Santa Jacinta Marto e São Francisco Marto, nomeados
pelo Papa Francisco, que se deslocou a Fátima, para esse efeito, na recente
comemoração do Centenário da Aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos. De
notar que a Covilhã também tem um santo, o Beato Francisco Álvares, que foi
operário da indústria de lanifícios. Faleceu no século XVI e foi beatificado no
século XIX.
Numa altura em que já quase
cheira a férias, não pela minha parte porque já estou nas vitalícias, mas de
muita gente da nossa gente, a minha Covilhã vai-se vestindo de cores. Vêm aí os
Santos Populares, com Santo António à frente da filarmónica, tonificada pelo
cheiro das sardinhas assadas.
E, vai daí, este ano de
eleições, com as Marchas da Covilhã a animar a malta, onde já mexem há muito os
ensaios, dias não são dias, e, entre uma litrada ou uma bejeca, há sempre uma
caracolada no Primor.
Passadas as marchas, as fugas
para junto do mar, com mais copos nas esplanadas, que o sol brilha em Portugal.
E o IRS já foi e já veio o
reembolso, para a maioria. Um regalo. Há que jogar uma cartada, debaixo duma
parreira, de preferência.
Férias são férias. Este mês
não é preciso pensar em coisas sérias. As eleições são só em outubro. Os
cortejos ainda tardam a passar.
Olhando agora a minha Terra –
a mui nobre Manchester Lusitana doutros tempos, universitária dos dias de hoje
–, mirando-a de dentro para fora, e de fora para dentro, vamos deixar que os
ventos que aí vêm ouçam, como na voz de Eduardo Nascimento, porque “Ela quis
viver/E o mundo correr/Prometeu voltar/Se o vento mudar”. Mas é preciso
continuar: “E o vento mudou/E ela não voltou/Sei que ela mentiu/P’ra sempre fugiu”.
A Covilhã também é geradora da
AMIZADE, e, nas suas várias vertentes, esta palavra tão bonita transforma-se em
FESTA; como costumo dizer: A AMIZADE É UMA FESTA!
Em Dia de Santo António,
coincidente com o dia desta crónica, como atrás já referi, e no seguimento do
que vem sendo um saudável hábito, o simbolismo desta data, na espontaneidade
dum ato empresarial passado, na mente dum visionário português de rija têmpera,
que trouxe de fora para dentro do País uma dinâmica empresarial que todo o
Portugal não ignora, vai ser comemorado, na simplicidade dum almoço-convívio,
nas Penhas da Saúde.
(In "Fórum Covilhã", de 13-06-2017)
16 de maio de 2017
PARA ALÉM DO CENTENÁRIO EXISTE UM GRANDE CLUBE
Habituei-me a gostar do desporto, e do futebol em
particular, desde menino e moço, como tantos de nós, pelo que isto não é
novidade alguma.
Mas particularizar coletividades ou instituições, por
este ou aquele pormenor que passou pelas nossas vidas, já se reveste de outra
atitude. Está no nosso âmago.
Naqueles idos anos 60 do
século passado vivia intensamente a vida do clube da minha Terra – o Sporting
Clube da Covilhã – e também apreciava com uma certa profundidade todos os
clubes que com ele vinham jogar.
Não só os mais famosos clubes
da então Primeira Divisão (hoje, I Liga), mas também dum tempo nostálgico da CUF
do Barreiro, do Lusitano de Évora, do Clube Oriental de Lisboa, do Atlético
Clube de Portugal, do Caldas Sport Clube, do Sport Comércio e Salgueiros.
Foi assim que também surgiu o
Sporting Clube Olhanense, sabendo que era uma das coletividades que percorria
maior distância, vindo de terras algarvias, para chegar às faldas da Serra da
Estrela, na sua porta principal que é a Covilhã. Era então uma cidade laneira
com muitas fábricas de lanifícios distribuídas ao longo das ribeiras da
Carpinteira e da Degoldra; e pela sua região, como o Tortosendo, Unhais da
Serra e o Teixoso. Hoje, não deixando esse vínculo, seu ex-libris, é mais uma
cidade universitária, com a sua Universidade da Beira Interior recentemente
considerada uma das melhores 150 novas universidades do mundo.
Mais tarde, ainda nos anos 60,
vou iniciar o serviço militar obrigatório, no antigo CISMI, em Tavira. Logo aí,
um dos instrutores do meu pelotão, era o 1.º Cabo Miliciano Santa Rita, que
jogava no Farense. Depois, aos sábados
ou domingos, alguns passeios com os colegas, e, de comboio, lembro-me de ter
ido até Olhão. Daqui enviei um postal sobre a cidade, que ainda conservo, à
então minha namorada. Enfim, foi o futebol, os clubes, os jogadores, a vida
gravada de uma certa nostalgia.
Depois, o “bichinho” da
escrita leva-me a publicar o meu segundo livro, este sobre a vida do Sporting
Clube da Covilhã, em 1992. E parecia não parar, quer por via de entusiasmo pessoal,
nas suas figuras e factos, ou por incitamento de amigos. E, assim, sobre a vida
do clube serrano vieram a surgir mais três obras, em 1993, 1998 e 2007.
O meu olhar voltou-se para as
terras algarvias, com relevo para Olhão, nas pesquisas de antigos atletas que
integraram as cores verde-brancas do clube da minha Terra. E isto porque Olhão,
e o Algarve, foi um viveiro onde o Sporting da Covilhã (SCC) foi buscar valores
para a sua equipa: José Rita, os irmãos Cávem, Helder Toledo, Francisco
Palmeiro, Eminêncio, e o grande amigo, já desaparecido, Fernando Cabrita.
Depois, outros que haviam vestido a camisola do SCC, também passaram pelo
Olhanense (SCO), como o guarda-redes Arnaldo, e o Adventino.
Passando pelos jornais, como
cronista, levou-me ao contacto com o quinzenário “O Olhanense”, o qual passei a
assinar, fruto duma amizade espontânea, e no sentido de colaboração comigo, do
saudoso e já falecido carola, Augusto Ramos Teixeira, com quem conversei várias
vezes telefonicamente, mas que o destino não me deixou conhecê-lo pessoalmente.
Assim como o antigo diretor, Herculano Valente.
Entre crises desportivas, e
outras vertentes da vida, mas risonhas, se foram avivando lembranças de clubes,
de seus jornais, com tudo o que os mesmos inserem, memórias vivas, outras já
desaparecidas, ganhando-se também um rol de amizades.
Assim aconteceu com o Sporting
Olhanense, e o seu Jornal de excelência, que dá prazer ler, quando se vê aquela
quantidade de colaboradores que lhe dão um cunho cultural importante, muito para
além do desporto em exclusivo, o que é sintomático de uma cultura citadina
interessante, e, como eu também gosto, na memorização de coisas, factos e
figuras do passado, nas teclas do computador do amigo, que também não conheço
pessoalmente, Mário Proença, a alma do Jornal.
Tive a felicidade, sim, de
conhecer pessoalmente, num jogo entre o SCC e SCO, na Covilhã, Júlio Favinha,
então diretor do vosso clube, depois de me dar a conhecer.
Mais tarde, num jantar
comemorativo dos Leões da Serra, na Covilhã, tive também o prazer de conhecer o
amigo Presidente do Olhanense e Diretor deste Jornal, José Isidoro Sousa, e sua
Esposa, que se encontravam na minha mesa.
A amizade é uma festa, como eu
costumo dizer, independentemente de crises e situações menos boas por que os
clubes passam.
Vem, pois, a propósito, nestas
comemorações que se realizaram dos 105 anos do SCO, de formular os meus votos
de longa vida para o grande Clube que é o Sporting Clube Olhanense, recheado de
muitos pergaminhos na sua vida desportiva, ao serviço não só da Cidade que o
viu nascer, mas também deste Portugal de quase nove séculos.
Entre tristes e ledas
madrugadas se vai caminhando na vida das coletividades, como a atual crise por
que está a passar o SCO, mas não há que baixar os braços, e é de remar contra a
maré, e prosseguir o caminho no sentido de o mais rapidamente possível, voltar
ao lugar que merece no panorama do futebol português. O Clube da minha Terra
também já passou, por várias vezes, por situações análogas. Não baixar os
braços, como é timbre dos homens do mar, é ganhar ânimo para que depois da
tempestade venha a bonança. Ela virá, com certeza.
O Clube, o Jornal (que o meu
SCC deixou de ter), os Livros. São estes que também trazem as estórias para a
história das Coletividades. Na minha biblioteca tenho, de Raminhos Bispo, “O
Sporting Clube Olhanense – 90 Anos de História”, em dois volumes, que já me
deliciou com as descrições de alguns jogos entre os nossos dois Clubes, então
na antiga Primeira Divisão. Também nos meus faço algumas referências aos nossos
Clubes. São memórias que ficam.
E como a história não pára,
ela continua. Vai surgir um quinto livro sobre a História do Sporting Clube da
Covilhã, já no prelo, da autoria dum amigo destas causas, Miguel Saraiva,
animado pela sua coordenação e principal obreiro do site Histórias do SCC.
Tenho o prazer de, por seu convite, prefaciar e fazer a apresentação desta
importante e muito interessante obra.
Renovo os meus votos das
maiores felicidades para o Sporting Clube Olhanense, num abraço a todos os seus
obreiros, e na esperança de, como sói dizer-se, darem a volta ao texto e, na
próxima época, terem a alegria de poderem regressar ao convívio da II Liga,
donde agora não deviam partir.
(In "O Olhanense", de 15-05-2017)
10 de maio de 2017
O NÓ GÓRDIO E A CAIXA DE PANDORA
Depois de olharmos para o
outro lado do planeta, lá para as bandas de três oceanos, o assombro estonteou
o mundo porque uma parte desta Terra não conseguiu cortar o nó górdio, e vimos
a indesejável eleição de Donald Trump. Já mais próximos das águas geladas da
pesca do bacalhau, um dos males saídos da Caixa de Pandora, para a (des)União
Europeia, foi o Brexit.
Conseguimos, entretanto,
safar-nos dum dos outros males libertados do grande jarro dado por Zeus a
Pandora, aquela mulher que tinha um único defeito, a curiosidade. Ela foi
criada por Hefeso e Atena, a pedido de Zeus, com o fim de agradar aos homens,
segundo o mito grego. Mas, de todos os males libertados, entre os quais a
Frente Nacional de Marine Le Pen, ficou de facto, lá dentro, a esperança. E foi
neste otimismo que os franceses, elegendo Macron, também conseguiram cortar o
tal nó górdio, aliviando um pouco a Europa.
Voltemo-nos agora para este
nosso Portugal à beira-mar plantado, um País de heróis, de sábios e de santos,
aventureiros e descobridores de novos mundos, como aprendemos na Primária dos
nossos tempos já duma certa longevidade. Se bem que da sua caixa de Pandora
também saíram alguns maldosos, egoístas e chico-espertos.
Chega assim, mais uma vez, um
tempo de eleições, e aquelas que mais estão próximas das pessoas – as
autárquicas.
Cada dia que passa mais se
aproxima o 1 de outubro, e, vai daí, tudo se prepara para os embates, os
despiques, as desforras, os esclarecimentos, a tentativa de convencer, na
euforia mais dos apaniguados; na esperança de podermos confiar neste ou naquele
que possa mudar o rumo do que não gostámos, e fazer aquilo que mais carece.
Pela nossa região também já
começam a desfraldar sinais ajuizadores, muitos deles saídos do prematuro, num
palpite de agitação de muitas bandeiras, latente no espírito de almas que sonham
transformar a dormição de um concelho, no deleite das suas energias
arrebatadoras de uma ação sem tréguas, a favor do acordar.
O concelho da Covilhã conhece
já cinco candidatos, e, para a sua população, podemos dizer, como se exprimia a
minha avó: “Bonda!”
Não tenhamos ilusões, face ao
contexto em que as candidaturas se movimentam, com muita dispersão de votos,
retirando-os uns aos outros, não vai haver qualquer maioria absoluta, nem na
esperança nada contida do candidato julgado profeta. Recordemos a dívida que
deixou e que embaraçou a gestão camarária atual. Depois, o seu modo comportamental
no período do seu interregno, maldizente de pessoas e instituições de quem
agora espera o voto. Dos seis objetivos que apontou muito haveria que dizer que
não cabe neste espaço.
O candidato que se encontra na
atual liderança municipal tem que se dotar de total transparência no
acolhimento que teve com a mão cheia de colaboradores, mormente no que diz
respeito aos seus salários. E, depois, a informação do motivo por que não se
realizaram promessas havidas.
Como vão os sociais-democratas
fazer frente ao candidato independente? Conseguirão reunir o exército que se
destroçara com a anterior eleição do candidato do MAC, então submisso ao atual
candidato independente? E como reconciliar a sua quota-parte de
responsabilidade com o anterior Presidente, então desta força partidária, e
atual independente, nas ações que permitiram chegar a um caos de dívida?
Pensamos que os comunistas
terão que se empenhar muito fortemente para poderem conseguir um vereador.
Resta o candidato que já não é
surpresa, covilhanense, do seio de uma família ilustre de antigos industriais,
movido pelo impulso de transformar a Covilhã de novo no mapa de Portugal, como
ele refere, duma forma cuidadosa, ele que fora anteriormente também um dos
homens do Governo de Portugal.
Há assim uma gama de figuras
que querem governar o Concelho da Covilhã. Para que possamos ajuizar melhor
quem vai defender os genuínos interesses deste Concelho, temos que acreditar no
que nos vão transmitir, depois de conhecermos as suas equipas, mas para isso há
que refletir conscientemente sobre o que fizeram, o que deixaram de fazer, as
omissões, as inverdades, as capacidades individuais dos que vão formar as
equipas, e exigir transparência, mas que assumam mesmo tais atitudes e não só
nas palavras de circunstância e arrebatadoras na altura das campanhas
eleitorais, plenas de sorrisos e abraços. E, acima de tudo, não esquecer o que
durante estes quatro anos fizeram os de dentro e os de fora.
Por último, que os candidatos
confirmem nas suas campanhas se, perdendo, assumem o lugar na vereação, pois
ainda nos recordamos quando Carlos Pinto perdeu as eleições a favor de Jorge
Pombo, quando nem ele nem a sua equipa aceitaram a sua qualidade de vereadores,
tendo que aparecer uma segunda equipa. Recordam-se?
Ter amor à Covilhã e trabalhar
em prol da mesma, gloriar-se com as vitórias, mas também assumir as derrotas,
aceitando a democracia, é o que esperamos de todos os candidatos.
(In "Notícias da Covilhã", de 11-05-2017)
9 de maio de 2017
FÁTIMA: APARIÇÕES OU VISÕES?
Na minha infância, que já
dista sete décadas, viveu-se com o medo da Rússia, império do mal; do comunismo
e suas ideias subversivas; e, nas igrejas, com as missas em latim, rezava-se
pela sua conversão. Em tempo de Guerra Fria, e ainda antes do Concílio Vaticano
II, falar-se de Fátima, ou da Cova da Iria, era implicitamente falar-se das
aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos, numa ótica de conversão dos homens
do mal. Como ainda hoje. Eles, pastorinhos, são os irmãos Jacinta e Francisco
Marto, e a sua prima Lúcia. Sempre, ou quase, sob o signo do temor, como a
visão do inferno apresentada aos referidos pastorinhos, inserida na primeira
parte do segredo; depois, na segunda parte do mesmo, o anúncio do castigo e dos
meios para evitá-lo. Foram então estas duas partes do segredo reveladas por
Lúcia em 31 de agosto de 1941, a pedido do Bispo de Leiria. Restava a terceira
parte, escrita por Lúcia em 3 de janeiro de 1944, ficando o mesmo em envelope
selado e guardado pelo Bispo de Leiria.
Em tempos de grande
iliteracia, e dum regime ditatorial no nosso País, de brandos costumes, mas
infiltrado da polícia política de má memória, restava ao comum dos cidadãos a
pergunta mil vezes surgida: “O que estará escrito na terceira parte do segredo
de Fátima?”.
Se dizer mal do regime
instaurado em Portugal era outra direção ao medo, como da prisão ou outras
represálias, mais não restava ao pobre povo português do que, não desejando
acatar a pobreza que grassava muitas vezes dissimulada, refugiar-se na
emigração para solos da França, Alemanha ou Suíça, já que no Brasil o cruzeiro
pouco valia.
Os que ficavam, na tasca era
uma das formas de conviver, ou nas coletividades nascentes sob a égide da então
FNAT; já que outros domingueiros optava por ir à bola.
A Amália era a nossa diva do
fado. Quando o 1º de Maio emergia, com o Dia do Trabalhador negado, o futebol
jogado já na era televisiva a preto e branco, surgida neste Portugal de 1957, dava
azo a uma transmissão a seu jeito para fazer esquecer as agruras da vida, no
oportunismo daquele dia… na expressão “Três F”, aqueles três pilares da
ditadura salazarista: “Futebol, Fado e Fátima”.
Mas Fátima que foi um lugar é
agora uma cidade, sede de freguesia e que o Papa João Paulo II elevou à categoria
de sede de diocese com a cidade de Leiria, passando a designar-se Diocese de
Leiria-Fátima, desde 13 de maio de 1984. Faz assim colocar Portugal no mapa do
mundo. Contudo, Fátima não diz tudo sobre Portugal, nem é o retrato da religião
católica no nosso País.
Se bem que todos os anos são
diferentes, este ano de 2017 é um ano especial porque se celebram 100 anos que
Nossa Senhora foi vista em Fátima.
Segundo a “Voz do Trabalho”, o Assistente Nacional da LOC/MTC refere que
“Ela escolheu Portugal e três crianças para falar de Paz num tempo de guerras:
homens contra homens, nações contra nações, homens contra Deus”. E ainda:
“Muitas vezes achamos que as questões políticas e as soluções sociais que a
sociedade civil vai formulando são as únicas capazes na construção da paz. A
primeira grande afirmação de Fátima, de ontem e de hoje, continua a ser que sem
Deus não há verdadeira construção da paz, seja no coração de cada um, seja nas
famílias, seja nas relações de trabalho, seja entre povos e nações”.
Segundo o Padre Gonçalo
Portocarrero de Almada, “Na Cova da Iria os pastorinhos tiveram visões e não
aparições, mas o valor não é menor porque, como notou Bento XVI, visões têm uma
força de presença tal que equivalem à manifestação externa sensível”.
Efetivamente, só no dia 13 de
maio se celebra o centenário da primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima e
já existem muitas alegadas “desmitificações” do fenómeno ocorrido na Cova da
Iria, o fenómeno de Fátima. Alguns o reduzem, ou pretendem reduzir, a uma mera
narrativa que é reinterpretada ao bel-prazer de cada um. Mesmo para alguns,
tudo não terá passado de um embuste político-religioso, para que foram
aliciadas criancinhas iletradas. Para outros, terá tido uma “mãozinha clerical
e intenção marcadamente antirrepublicana. Também os que, embora afirmando-se
fiéis, olham com desdém para este tipo de fenómenos que reprovam em nome da sua
impoluta racionalidade, mais livre-pensadora do que verdadeiramente católica”.
O que é certo e verdade é que
a própria Igreja portuguesa, de início, não reagiu positivamente às aparições.
Só a 13 de maio de 1922 se iniciou a investigação canónica relativamente aos
acontecimentos de Fátima, que concluiu somente em 13 de outubro de 1930,
aprovando o culto das aparições, que, contudo, não constituem matéria de fé.
Ainda sobre o tema aparições
ou visões, o Padre Anselmo Borges, em entrevista ao jornal Expresso, de
16-04-2017, declarou que “É preciso também distinguir aparições de visões. É
evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. A distinção entre aparições
e visões não é nenhuma novidade pois, como recordou Bento XVI, “a antropologia
teológica distingue, neste âmbito, três formas de perceção ou “visão”: a visão
dos sentidos, ou seja, a perceção externa corpórea; a perceção interior; e a
visão espiritual”.
Também D. Carlos Azevedo, em
entrevista ao Público, de 21 de abril, diz que é o momento de se falar com a
“linguagem exata” sobre o que se passou há 100 anos na Cova da Iria: “foram
visões místicas, não aparições”. “Penso que o Papa Francisco, ao vir a
Portugal, vai iluminar a atualidade da mensagem de Fátima. O fenómeno da Cova
da Iria acontece na I Guerra Mundial e aponta já para a II Guerra – “se não
mudarem os critérios de vida, vem uma guerra pior”. Agora o Papa tem falado numa
terceira guerra “em episódios””
O que é certo e verdade é que podemos ser
crentes ou não, acreditar nas aparições ou não, ter uma fé mais esclarecida ou
não, mas não podemos ignorar o fenómeno e a relevância de Fátima.
Francisco e Jacinta Marto,
pastores analfabetos, vão ser santos da Igreja Católica. O Papa Francisco
aprovou o milagre necessário para a canonização dos dois irmãos, que faleceram,
ainda crianças, vítimas da gripe espanhola. A prima Lúcia, a mais velha dos
videntes, faleceu aos 97 anos.
Na Peregrinação Nacional a
Fátima, das Conferências Vicentinas Portuguesas, na Assembleia realizada no
Auditório Paulo VI, no passado dia 22 de abril, a madeirense, Dr. Graça Alves,
referiu-se assim, na sua excelente palestra: “Quem é esta Mulher que, há 100
anos, como agora, nos pede que baixemos as armas e que nos deixemos guiar pela
dimensão do infinito que existe dentro de nós? A quem pertence, afinal, esta
voz que aplacou os medos dos pastorinhos: “Sou do Céu” e que nos toma nos
braços e nos pega ao colo e nos diz aquilo que disse a Lúcia naquele dia de
junho de 1917. Se a Senhora voltasse hoje, talvez dissesse exatamente a mesma coisa que disse no dia 13 de julho de
há 100 anos atrás: “Se fizerem o que eu disser, salvar-se-ão, e muitas almas
terão paz”.
(In "fórum Covilhã", de 09-05-2017)
21 de abril de 2017
O INDUBITÁVEL
Com todo o prazer, continuo a
digitar as teclas do computador naquela vontade indómita em transpor para o
papel, preferencialmente, o pensamento que redunda na escrita.
Talvez não seja estranho o facto
desta minha conduta já existir com os órgãos da comunicação social há mais de
meio século. Ter espaço próprio nos jornais é uma honra, um privilégio, e, por
isso, a honestidade que sempre deve ser um sinal distintivo.
Este propósito de igualdade na
forma de atuação para com todos não quer dizer que tenham que nos maniatar a
atitudes retrógradas de nos amarrar ao pensamento exclusivo dos detentores de
alguns órgãos da comunicação social, desde que não se vá ferir a linha de rumo
desses mesmos órgãos, como sejam na sua vertente religiosa, política ou
desportiva, por exemplo. Há sempre diferentes modos de pensar, como de agir.
E se neste número d’ “O
Combatente da Estrela” continuo a ter a alegria de poder colaborar, porque
gosto de escrever, porque está no meu âmago, não posso deixar de memorizar, com
saudade, um outro órgão cultural e recreativo, restritamente militar –
FRONTEIROS DA BEIRA – do extinto RI 12 – Regimento de Infantaria Ligeira, na
Guarda, que, em 1971 teve também alguma minha colaboração, então como Furriel
Miliciano. Guardo-a religiosamente.
Volvidos 22 anos, via referências
à minha pessoa sobre uma minha publicação, no jornal “El Adelanto”, de
Salamanca, em dois números do mês de agosto de 1993. Sempre a escrita!...
Mas não são só as crónicas, ou
outra colaboração cultural avulsa, que ocupam parte da minha absorção de tempo,
porquanto surgem as publicações em livro.
E aqui chega a altura de, sobre o
título desta crónica, prestar o devido esclarecimento. É que, como os prezados
camaradas e leitores deste periódico podem verificar, se atentos, deixei, a meu
pedido, efetuado em 2 de janeiro de 2017, de poder colaborar um pouco mais com
este jornal, na qualidade de subdiretor, face a um compromisso já antes
assumido com uma personalidade de alto prestígio nacional para a publicação da
história de uma atividade que há séculos existe em Portugal, tornando-se
incompatível conseguir obter tempo suficiente para a concretização da mesma sem
me desvincular de compromissos posteriormente assumidos.
O Diretor deste Jornal, e a
Direção da Liga, compreendeu perfeitamente a indubitabilidade da razão da minha
decisão. E eu só tenho que lhes agradecer terem confiado nos meus méritos
aquando do convite que me fizeram para a assunção da subdireção.
De ventos e marés se fazem, e,
mormente, se mantêm no grande navio a flutuar, em águas menos agitadas, as
instituições, como esta, a Liga dos Combatentes; e outras que podem ser seus satélites
ou não, que giram como a Lua à volta da Terra; mas tem que estar patente o rumo
na direção certa para que, ao chegar ao fim, se encontrem todos sãos e salvos.
Só na compreensão, e capacidade
de saber encontrar o caminho certo, e não na tropelia do turbilhão de decisões
precipitadas, se podem reunir consensos para harmonizar um contraditório.
E é no confronto de ideias, na
respeitabilidade pelas mesmas, ainda que não concordantes, que se encontra a
pedra angular da casa que ajudámos a construir.
É preciso saber interpretar, quando
alguém lança a agitação e depois duma forma pusilânime foge do local onde
deixou a ventania, o porquê da sua atitude, optando pelo silenciamento.
Há que continuar o caminho certo
removendo as arestas que molestam, mas não deixando de encontrar a resposta
convincente, sempre no genuíno interesse de todos, como sempre souberam obter
os que se localizam ao leme desta grande embarcação que é a Liga dos
Combatentes.
(In "O Combatente da Estrela", n.º 106, de Abril a Junho/2017)
12 de abril de 2017
REFLEXÃO ÀS AUTÁRQUICAS
Enquanto vemos reduzir o nosso
tempo de vida, não obstante o aumento generalizado da nossa existência no
Planeta, depois do muito que já vimos passar, continuam a verificar-se mudanças,
na certeza que também prosseguirão as narrativas da vida de cada um, em
particular, e de todos, em geral.
Completamos 41 anos de
democracia constitucional, o que, paradoxalmente, se contrapõe a outros tantos
41 anos que tivemos de ditadura em Portugal.
De tão prolongada ditadura
deveríamos ter uma democracia verdadeiramente prudente e tranquila.
De facto, vive-se hoje muito
melhor do que há mais de quatro décadas, mas esse bem-estar em termos de bens
de consumo não quer dizer que se mantenham os valores, estes que constituem a
essência de um Estado e que transformam o povo.
É que o respeito pelas
instituições, sua credibilidade, e os ensinamentos que o poder público devia
dar, assim como a imparcialidade, justiça e retidão nos negócios duma sociedade
moderna estão a léguas da realidade.
Muito do que aqui poderíamos
dizer é como chover no molhado, quanto à nossa justiça, ao poder legislativo,
e, porque não, mesmo ao quarto poder, onde se dá ênfase ao insulto emanado dos
homens e mulheres dessas mesmas instituições, num exagero de repetições de casos
anómalos quão doentios para todos nós. Para já não dizer das vergonhosas
discussões políticas que impedem acordos de regime.
Vamos ter as eleições
autárquicas, definidoras de como pode ser visto o país, mas incisivas nos meios
onde vivemos.
Neste tempo quaresmal, ainda a
procissão vai no adro e já começaram algumas pré-campanhas eleitorais. Começam
a sair da casca: uns, fabulando entre “A Lebre e a Tartaruga”; outros entre “A
Raposa e a Cegonha”; outros ainda, esquecendo-se do seu passado egocentrista.
A profunda reflexão vai, pois,
para este estado de alma de cada um, dos que poderemos escolher, e dos quais
tantas vezes nos enganámos.
Vamos então ao nosso meio
citadino e concelhio – a nossa mui amada Covilhã –, sejam almas de raiz ou de
coração, onde a trombeta já deu sinal de três assumidos candidatos à “catedral”.
É bom que os sermões que agora
se vão ouvindo pelos vários “púlpitos” políticos dos que ainda vão a tempo de
participar na procissão, entrem na profundidade de quem tem ouvidos para ouvir,
e não só daqueles em que a voz entra por um ouvido e sai pelo outro, nas várias
tribunas que se vão distribuindo.
Os argumentos que nos fazem
querer esquecer os corredores das discórdias, fruto dum egocentrismo contemporizado
nas iniciativas, nem todas pessoais, mas assumidas como tal, duma visão de
transformar uma cidade a qualquer preço, é bom que tenhamos um pouco de
reflexão sobre o passado.
Entre sorrisos, beijos e
abraços, promessas (que não serão cumpridas), desejos de passar a governar a
cidade e o concelho para todos de igual modo, mesmo para com os adversários
políticos, como, mais uma vez, irá ser anunciado, não só para os apaniguados,
mas também para os indecisos, para os distraídos, ou para os maldizentes pelo
que vêm; será o inevitável dos candidatos para tentar a adesão às suas causas,
vibrando por esses palanques que irão surgir por todo o lado.
O ideal é que haja um
candidato que nos convença da sua sacra decisão de respeitar escrupulosamente,
sob pena de se demitir, todas as suas promessas, na assunção do estudo aprofundado
que soube obter dos meandros da política concelhia. E que sabe atuar sem
ofender, sem utilizar a pusilanimidade, mas antes a frontalidade perante o seu
opositor; a céu aberto, e não escondido em blogues e outras coisas mais, num
ridículo anonimato, que agora já terminou, deduzimos, porque foi gato escondido
com o rabo de fora; quando as frentes não correm de feição, isto é, aceitar a
democracia.
Nestes 41 anos de eleições
autárquicas, basta de vermos que o genuíno interesse das populações é muitas
vezes adulterado pelo polvilhar dos interesses pessoais, favores aos
apaniguados, subtilmente apregoando-se a necessidade de utilização de boys e girls desnecessários, que aumentam a despesa autárquica, em
desfavor da utilização dos funcionários existentes, ainda que tenham tido opção
política diferente da que acabara de surgir na liderança autárquica. Então para
que servem as leis disciplinadoras?
Não conhecemos em profundidade
as autarquias vizinhas, mas reconhecemos avanços em relação à covilhanense.
Porquê? Qual o motivo porque o ex-autarca albicastrense, Joaquim Morão, e antes
autarca idanhense, foi uma personalidade sempre querida pelas suas populações,
saindo pela porta larga da “catedral”? Na Covilhã, ganharia com maioria
absoluta! Fica a reflexão.
Na parte que toca à atual
autarquia covilhanense, socialista, temos muita pena de ter de dizer que os
objetivos não foram minimamente cumpridos, e, como já havíamos alertado em
tempos, há que refletir se esta força política insere no seu seio pessoas à
altura desta nobre missão, servindo as populações, em vez de se guerrearem
interna e extramuros. Para além da assinalável parte cultural, onde estão as empresas
anunciadas para substituir algumas que se transferiram? Mas a parte mais
negativa vai para os aspetos nebulosos em que tiveram atuação desastrada,
quando, afinal, se acusava o anterior executivo.
Os social democratas
conseguiram reunir algumas das suas tropas que haviam desertado por força dum
general sem rumo na fase final do seu anterior mandato, que passou a castigar,
sem rei nem roque, quem ao mesmo não venerasse. Afinal, se verificarmos o
séquito de muitos do seu anterior exército, vários foram os que foram “passados
à espada”. É que o general, então, não soube escolher os seus soldados.
Surge à ribalta uma
personalidade, sobejamente conhecida a nível nacional, que já disse não ir
dizer mal de ninguém, e, como covilhanense que é, ainda que não residente na
mesma, propõe-se manter a ordem não reinante. Será que vamos ter o homem certo
no lugar certo? Se assim for, suba ele ao palanque, imponha a espada de D.
Afonso Henriques, o engenho de Nuno Álvares Pereira, e as descobertas da égide
do Infante D. Henrique. Se todos têm amor à Covilhã, faça-se como D. Manuel II,
que, apesar do seu exílio nos arredores de Londres, ainda sem problemas de
Brexit, foi um grande patriota.
Sejamos nós, também, grandes
Covilhanenses, mas de verdade!
Voltaremos ao assunto quando
oportuno.
(In "Notícias da Covilhã", de 13/04/2017)
11 de abril de 2017
EM ABRIL, EFEMÉRIDES MIL
O sol radia nestes primeiros
dias de abril, quase uma quinzena após o equinócio primaveril. Aguarda-se, com
alguma ansiedade, o solstício de verão, um pouco lá mais para diante.
Vamos passando o tempo que
resta do tempo das nossas vidas. Para muitos, como nós, já nem metade daquele que
já vivemos conseguimos atingir. Por nós passaram acontecimentos marcantes, quer
de âmbito pessoal, quer inseridos, com todos, na vida desta aldeia global. Pela
casa comum, os meses são repletos de efemérides, mais recentes umas que outras.
Ainda no pretérito 25 de março
foi celebrado o 60.º aniversário do Tratado de Roma. Uma celebração merecida
porque foi consolidada a paz, a liberdade e a democracia.
Os fundadores, Alcide de
Gasperi, Paul-Henri Spaak, Konrad Adenauer, Robert Schuman, Winston Churchill e
Jean Monnet, se hoje soubessem o estado em que a União se encontra, para a qual
tanto se esforçaram para fazer uma Europa forte, ficariam aterrorizados. Encontra-se
mergulhada na maior crise da sua vida, que é resultante de muitas crises, entre
as quais, o “Brexit” e uma vaga nacionalista.
Mas é de abril que nós falamos
e, entre outras versões, o dia 1 de abril transformou-se no “dia das mentiras”,
numa brincadeira surgida em França. Desde o começo do século XVI, o Ano Novo
era festejado no dia 25 de março, data que marcava a chegada da primavera. As
festas duravam uma semana e terminavam no dia 1 de abril. Em 1564, depois da
adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX de França determinou que o ano
novo seria comemorado no dia 1 de janeiro. Alguns franceses resistiram à
mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano se iniciara
a 1 de abril. Outros, gozadores, passaram então a ridicularizá-los, enviando
presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Ficou assim o dia
das mentiras.
Mas abril tem para os
portugueses um significado muito especial, pois foi a Revolução dos Cravos, no
dia 25 daquele celebríssimo ano de 1974, que pôs fim ao regime autoritário do
Estado Novo, vigente desde 1933. Sobre esta data e os momentos de esperança,
raivados pelos que pretendiam manter-se sob o véu obscurante e protetor do
antigo regime, muito já se escreveu.
Vamos então memorizar outras
datas comemorativas, deste mês de abril, duma forma aleatória, seguindo a ordem
cronológica dos seus dias.
Para além do já referido sobre
o dia primeiro do mês, podemos ainda mencionar que no dia 1 de abril de 1435
morreu D. Nuno Álvares Pereira; e em 1 de abril de 1939 terminou a Guerra Civil
Espanhola e começou assim a ditadura franquista.
No dia 2 de abril do ano 1976
foi concluída e elaborada a Constituição da República Portuguesa após o 25 de
Abril. No mesmo dia e mês, mas do ano 1982, as forças especiais argentinas
invadiram as Ilhas Malvinas, dando início à Guerra das Malvinas. Mas em 2005, continuando
com referência ao mesmo dia e mês, faleceu João Paulo II. Já no dia 3 de abril
de 1954 vinha a falecer o diplomata português que teve a coragem de desobedecer
a Salazar, Aristide de Sousa Mendes. Passemos para o dia 4 de abril – Dia da
NATO, com 12 nações a assinarem o Tratado do Atlântico Norte, em 1949; e, nesse
mesmo dia e mês, do ano 1968, o assassinato de Martin Luther King Jr., em
Memphis. Anos mais adiante, com as mesmas referências, falecia o grande militar
português, Salgueiro Maia. Outros acontecimentos, ao longo deste mês de abril:
dia 5, no ano 1976, o Incidente em Tian’anmen, em Pequim, contra a repressão do
regime chinês. Dia 6, do ano 1385: D. João I é aclamado rei nas Cortes de
Coimbra. Dia 7 de abril é o Dia Mundial da Saúde, com a criação da Organização
Mundial da Saúde, pelas Nações Unidas, em 1948. Já o dia 8 pertence ao Dia
Mundial dos Ciganos, sendo certo que a 9 de abril se comemora o Dia do
Combatente, tendo em conta que foi em 9 de abril de 1918 que, durante a
Primeira Guerra Mundial, se iniciou a Batalha de La Lys, com pesadas baixas do
Corpo Expedicionário Português perante as forças imperiais alemãs. Recordam-se
do Titanic? Pois deixou o porto de Southampton, com destino à cidade de Nova
Iorque, em 10 de abril de 1912. Em 11 de abril de 1357 nasceu D. João I. Em 12
de abril de 1861 começou a Guerra Civil Americana. A 13 de abril do ano 1987,
Portugal e China assinaram a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a
Questão de Macau. A 14 de abril de 1931 é declarada a Segunda República
Espanhola após a abdicação do rei Afonso XIII. A 15 de abril de 1912, o RMS
Titanic naufraga no Oceano Atlântico após a colisão com um iceberg. No Dia
Mundial da Voz, que se celebra a 16 de abril, mas reportando-nos aos anos 1889,
1908 e 1927, nasciam Charlie Chaplin (Charlot), António Lopes Ribeiro e o Papa
Bento XVI, respetivamente. Em 17 de abril de 1521 nasceu Martinho Lutero; e, em
1790, faleceu Benjamin Franklin. O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios
celebra-se a 18 de abril, data em que, no ano 1842 nasceu o escritor Antero de
Quental; e, no ano de 1955, faleceu Albert Einstein. Em 19 de abril de 1506 foi
o início do Massacre dos judeus em Lisboa, causando a morte de 3000 pessoas. Em
20 de abril de 1233, o Papa Gregório IX editou duas bulas que marcaram o início
da Inquisição papal, mas, contra esta tristeza, registe-se que em 20 de abril
de 1972, a Apollo 16 pousou na Lua. Em 21 de abril de 1960 foi oficialmente
inaugurada a cidade de Brasília, substituindo Rio de Janeiro como a capital do
Brasil. Em 22 de abril do ano de 1500, Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil. No
Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, que se realiza a 23 de abril, nasceu,
no ano de 1185, D. Afonso II de Portugal; e, na mesma data, mas reportando-se
ao ano de 1616, faleceram o escritor espanhol Miguel de Cervantes, e o
dramaturgo, poeta e ator inglês, William Shakespeare. Voltando-nos agora para
uma data da antiguidade, mais propriamente ao ano 1184 a. C., no dia 24 de
abril foi a Guerra de Troia, que, segundo a tradição, os gregos entraram em
Troia utilizando o Cavalo de Troia; para, lá mais para diante, no mesmo dia e
mês, mas do ano 1112, se comemorar o falecimento do Conde D. Henrique, pai de
D. Afonso Henriques, o qual ficou sepultado na Sé de Braga. O dia 25 de abril
de 1974 já foi mais atrás referido. Em 26 de abril do ano 1500, foi celebrada a
primeira missa no Brasil por frei Henrique de Coimbra. E, lamentavelmente, no
mesmo dia e mês do ano 1986 ocorria o acidente nuclear de Chernobil. Em 27 de
abril do ano 1908 iniciaram-se os Jogos Olímpicos de Verão; e, muito antes, no
mesmo dia e mês do ano 1521 morria Fernão de Magalhães. No dia 28 de abril de
1889 nascia António de Oliveira Salazar; tendo, muito antes, no dia 29 de abril
do ano 711, ocorrido a Conquista islâmica da Hispânia, com as tropas mouras a
desembarcarem em Gibraltar e a invadirem a Península Ibérica. Por último, no
dia 30 de abril do ano 1949 nascia o português António Guterres, atual
Secretário Geral das Nações Unidas.
(In "fórum Covilhã", de 11/04/2017)
15 de março de 2017
ISTO
Há quem viva com a nostalgia do
passado, olhando para aquilo que viveu como o melhor tempo da sua vida. Isto,
se numa atitude excessivamente retroativa, pode obstaculizar na mudança daquilo
que precisa de ser mudado e melhorado. Há grandes lições a tirar do passado,
recente ou remoto, mas também há grandes descobertas e algumas surpresas. Isto
quer dizer que há assim uma oportunidade de renovar o que tem de ser renovado e
esquecer o que deve ser esquecido. Isto também é bom olhar para esse tempo porque
pode conter sinais inequívocos daquilo que é importante para nós no presente e
permite determinar prioridades para o futuro.
O homem tanto vive na maior
abastança como sobrevive na maior pobreza. Isto é um autêntico paradoxo. Com a
subida ou descida da esperança de vida, a iliteracia, a higiene, a segurança, o
homem está cá para o que der e vier e se adaptar às boas ou más condições que é
capaz de construir, renascendo todos os dias.
Isto é assim mesmo. Nascemos no Deus, Pátria e Família de Oliveira Salazar.
Assistimos, na Rocha Conde de Óbidos, ao paquete Santa Maria está entre nós, depois de algum tempo ter desfraldado
pelos mares como Santa Liberdade, com
Henrique Galvão. Mas já antes havíamos assistido ao nascer da televisão, isto
no ano de 1957, com a vinda da linda Rainha Isabel II da Inglaterra, e os seus
dois filhotes, isto, na altura, o Carlos e a Ana. E, mais tarde, o Xá da
Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi. E, nos seus écrans
da televisão, a preto e branco, de um só canal, durante 21 anos, recordámos
o Jorge Alves, no seu Cartaz TV, da RTP, com a inesquecível frase: “Olá amigos!”. No desporto, o habitual
jornalista, isto é, Alves dos Santos.
Mas isto também quer dizer, que,
em 1958, vimos o General Humberto Delgado a causar arrepios a Salazar, e também
os bufos da PIDE instalados e encapotados em tudo quanto era sítio.
Isto, avançando no tempo, dava
para memorizar mais, mas vamos pelas guerras africanas, prenúncio do que nos
obrigaria a entrar em contingentes militares para defender Guiné, Angola e Moçambique,
com o Angola é Nossa!, depois de
Nehru ter invadido Goa, e lá ficámos sem a primeira possessão ultramarina –
Índia Portuguesa. Isto quer dizer que a memória terá que fazer uma pequena
marcha atrás para a independência do então Congo Belga, que após várias
alterações passou a denominar-se República do Zaire e atualmente República
Democrática do Congo. Recordamo-nos das lutas desenfreadas entre Kasavubu,
Lumunda, e depois com as garras de Mobutu. Mais tarde, a morte de Che Guevara e
a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
E, com isto, chega a nossa vez de
vestir a farda militar, estávamos no ano 1968, por obrigação, com uns cá, e,
outros a caminho das então Províncias Ultramarinas, regressando, os que
felizmente conseguiram, mas com problemas de stress traumático e, outros,
molestados fisicamente. Mas, já em 1969, houve um documento histórico num
Manifesto da Oposição Democrática ao regime vigente, com António Alçada
Batista, para as eleições fantoches, mais uma vez, que se avizinharam. Que,
isto de fantoches, na rua, nos tempos que correm já não se vêm, mas, nesses
tempos, era fácil cativar muitas gente para um simples espetáculo de rua, com
esse bonecos de vos aguda
E é ainda que em 1969, como
militares, encontrando-nos adidos em Paço de Arcos a frequentar um curso de
testes psicotécnicos, em Caxias, demos uma salto a Lisboa, à noite, para
assistirmos ao filme Helga – o Segredo da Maternidade, que se estreara no
cinema Vox, na Avenida de Roma, no dia 24 de julho desse ano. Este filme, para
maiores de 21 anos (altura da maioridade) custou-nos 25$00, muita massa para
esse tempo. Chegara a Portugal e trouxe consigo a polémica. Num país castrado
pelo regime de Salazar, Helga – O Segredo da Maternidade, veio, com o seu
realismo, abalar as estruturas mais conservadoras, pouco acostumadas a tanta
verdade assim exposta.
Veio o 25 de Abril a cores, com o
ano 1975 a preto e branco, depois os anos 76, 77; e os anos 80 dos governos
épicos de Mário Soares, o novo paradigma da União Europeia, o nunca me engano e raramente tenho dúvidas
de Cavaco, as dúvidas de Guterres, a “fuga europeia” de Durão Barroso; e, isto
vai daí, seguiram-se Santana Lopes, Sócrates, Passos, até chegarmos aqui, a
isto – a Geringonça, inventada por Vasco Pulido Valente na sua então habitual
crónica no Público, na “histórica” data de 31 de agosto de 2014, muito bem
aproveitada por Paulo Portas, que, se adivinhasse o seu sucesso, talvez não lhe
desse ênfase no Parlamento. É que assim voltou-se o feitiço contra o
feiticeiro, tal o sucesso com que a mesma envolve o governo de António Costa.
(In "Notícias da Covilhã", de 16/03/2017)
14 de março de 2017
O FEMINISMO
Já não é a primeira vez que
escrevo sob o tema “A Mulher”. Curiosamente, isto foi acontecendo em cada
quadriénio, para além dos casos individuais: “As Mais Bonitas” – 2004; “A
Mulher na Sociedade Portuguesa” – 2008; “O Reino das Mulheres” – 2012.
Regresso hoje ao tema, tendo em
conta que recentemente (8 de março) se comemorou o Dia Internacional da Mulher.
Acho que os dias internacionais, e
outros dias comemorativos, acabam por ser já demasiado extensivos a muitas
figuras e a muitas coisas, tornando as celebrações pouco sentidas, nuns casos,
noutros desprezadas.
Não será o caso do que se reporta
à Mulher, no seu Dia Internacional, pelos motivos sobejamente conhecidos, ou ao
Dia da Mãe, por exemplo.
Se tivermos em conta que a mulher
foi ao longo dos tempos da sua existência sempre envolta pelo sofrimento, nas muitas
vertentes da sua vivência desde que veio ao Planeta – maldita serpente que
iludiu Eva a comer a maçã proibida – o que é certo e verdade é que sem a mulher
o homem não raiava na sua plena felicidade, ainda que, nos tempos que correm,
muitos possam tornar esta parte discutível.
Não falando já da escravidão a
que sempre foi votada, desde os tempos bíblicos, às religiões muçulmanas
radicais, a mulher foi desde sempre envolta nos mais perniciosos costumes e
abusos, como sejam as mutilações genitais nos países africanos de grande
atraso, às proibições de se poderem desenvolver culturalmente, às poligamias,
etc. Se até o Rei David e seu filho Rei Salomão, a. C., consta terem tido mil
mulheres, por aqui se pode ver a finalidade com que, desde sempre, foi
considerada para o prazer.
A mulher veio ao de cima e lançou
o grito do Ipiranga, que há muito tardava, embora ainda hoje perdure como nos
tempos de outrora, em muitas zonas da Terra, em pleno Século XXI, desta era
robótica.
Até à revisão do Código Civil em
1977 era indubitável que, em casa, era o homem que mandava, sem hipótese de
protesto da mulher, já que a lei não estava do seu lado. O “poder marital” foi
substituído pelo conceito de “deveres de cooperação”. Passou então a ditar que
“o dever de cooperação importa para os cônjuges a obrigação de socorro e
auxílio mútuos e a de assumirem em conjunto as responsabilidades inerentes à
vida da família que fundaram”.
Sendo certo que o Código Civil de
1966, que vigorou entre 1967 e o final dos anos 70 recuou na igualdade que
tinha sido garantida nas Leis da Família em 1910; logo após a implantação da
República, as mulheres portuguesas passaram a ter novos direitos, como, por
exemplo, os maridos deixaram de poder obrigá-las a regressar ao domicílio
conjugal; elas continuaram a ter de adotar a residência dos maridos e a ter de
segui-los, situação que veio a mudar em 1977. Entre outras alterações, o
divórcio foi legalizado em Portugal em 1910, atribuindo o mesmo peso ao
adultério deles e delas. A virgindade das mulheres, que podia ser motivo para
anular uma união, só desapareceu do Código Civil em 1977.
Com o Estado Novo, houve mais
retrocessos que avanços. O direito de voto às mulheres foi concedido nos anos
30 do século XX, mas no entanto tinham que ter estudos secundários, enquanto
aos homens “bastava saber ler e escrever”. Só com o 25 de Abril foi conseguido
o voto universal, garantido nas primeiras eleições livres. Muitas outras
alterações houve que não cabem neste espaço.
Mas falemos ainda da mulher, que,
segundo o escritor Honoré de Balzac, “É o ser mais perfeito entre as criaturas;
é uma criação transitória entre o homem e o anjo”; ou, segundo o escritor Jack
London, “O homem distingue-se dos outros animais por ser o único que maltrata a
sua fêmea”; ou na forma humorística do ator Marcel Achard: “Quando mais gosto
das mulheres é quando beijam, porque então têm de estar caladas”, não
esquecendo o dramaturgo William Shakespeare que refere “Quando uma rapariga diz
‘não’ com humildade, deseja que isso se entenda como um ‘sim’ ”.
De Norte a Sul do País
debateu-se, em várias vertentes, e com vários apoios, a condição das mulheres,
algumas sob o mote “Não Me Calo”.
E as suas justas reivindicações,
ao longo dos tempos, têm paulatinamente sido conseguidas. Pois o que começou –
Dia Internacional da Mulher – “como homenagem à greve organizada em 1908 pela
União Internacional das trabalhadoras do setor de vestuário nos Estados Unidos
é hoje uma oportunidade para as mulheres de todo o mundo demonstrarem o seu
empenho na igualdade política, económica e social”.
Ainda que Portugal esteja entre
os melhores países da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Económico – para as mulheres trabalharem, no que toca à igualdade entre homens
e mulheres no mercado de trabalho, elas ainda ganham menos dois salários do que
eles, tendo em conta, entre outras situações, que os homens ganham mais 16,7%
do que as mulheres, com um caminho a percorrer até à meta da igualdade ainda
longo, segundo dados do Eurostat.
Muitos avanços já foram
conseguidos, como nas vinte maiores empresas cotadas na bolsa de valores de
Lisboa – PSI-20, as quais têm de integrar 20 mulheres na gestão.
E elas são algumas das mulheres
mais poderosas do mundo, segundo a crítica, ainda que discutível nalguns casos:
Merkel. Chanceler alemã que manda na
Europa; Theresa May. A mulher à
frente do Brexit no Reino Unido; Isabel
dos Santos. Empresária com fama de ser dura a negociar; Christine Lagarde. Diretora-geral do
Fundo Monetário Internacional (FMI); Aung
San Suu Kyi. A mulher de ferro da Birmânia. Angelina Jolie. Atriz e ativista; Marine Le Pen. Candidata
presidencial francesa e líder do partido de extrema-direita Frente
Nacional; Janet Yellen. Americana,
Presidente da Reserva Federal; Federica
Mogherini. Alta representante da União Europeia para a Política Externa; Helen Clark. Administradora do Programa
de Desenvolvimento das Nações Unidas. Park
Geun-hye. Presidente da Coreia do Sul. Sheryl
Sandberg. Diretora de operações do Facebook; Mary Barra. Presidente da General Motors (GM); Ana Patricia Botín. Presidente do grupo Santander; Marissa Mayer. Presidente da Yahoo; Nicola Sturgeon. Primeira Ministra da
Escócia; Ginni Rometty. CEO da IBM; Indra Nooyi. CEO da PepsiCo; Paula Amorim. É a nova chairwoman da
Galp.
21 de fevereiro de 2017
ODE À COVILHÃ
Fim-de-semana,
um pouco de descanso. De segunda a sexta-feira é o rodopiar quotidiano, fazendo
com que o dia tenha mais de vinte e quatro horas.
No
sábado e domingo, o Sr. Neves ou a D. Luísa deixam-me os jornais no Repolho. A
simpatia habitual: “Bom dia, Sr. João, aqui estão os jornais”. É a forma
acolhedora das gentes covilhanenses.
Muito
se tem falado nas gerações. Conhecedores das dificuldades económicas e de
emprego dos nossos ascendentes, foi a geração de 60, da qual sou herdeiro, que lhe
coube a esperança de melhores dias, ainda em tempo de ditadura, com os “empregos
para toda a vida”; e, depois, com o 25 de Abril, “os direitos adquiridos”, num
desenfrear de salários, sempre a subir; no querer tudo, desde casa própria e
casa de férias, mais que um automóvel, duas ou três televisões em casa, um
telemóvel para cada bolso, a segurança no emprego.
Sempre
se pensou que um dia chegaria a altura das nossas reformas, e que seria o
descanso, daria para todos, e, como no aproveitar é que está o ganho, vai daí,
reformas antecipadas, muitas principescamente, até que a corda ficou demasiado
à chuva e começou a minguar.
Surge
então a “geração rasca”, que irritou muitos dos seus herdeiros, ofendidos ou
envergonhados. Mas as reformas, para os seus horizontes, começaram a ver-se num
túnel profundo, quase sem luz no fundo.
Licenciados,
muitos, colocações poucas; e empregos sem direcção dos seus cursos, pelo que
são os call centers, hipermercados, e outras ocupações que acolhem,
precariamente, esta juventude.
Mas,
tal como na máquina de fazer pipocas, passaram a saltar, em quantidade
acelerada, para os corredores do desemprego, muitos das gerações referidas. Surge
agora, muito a propósito, na canção da banda Deolinda, a “geração parva, a
geração sem remuneração”, que vai viver pior que a dos seus pais.
E,
lá está, a “geração de 60”
foi em Portugal uma das primeiras a ser sucedida, em décadas, por outras que
viverão pior, até que surja a “geração do deixa andar”.
Também
a Covilhã, a caminho do século e meio de cidade, sentiu na pele os efeitos
nefastos, desta encruzilhada de indecisões governamentais, para o futuro dos
seus filhos, de raiz ou de coração, e a perplexidade, em muitas fases destas
gerações, de como solucionar o combate às golfadas de desemprego.
A
par dos melhoramentos e obras de vulto que se aconselhavam na cidade e
concelho, ou a modernidade assim o exigia, ou ainda fruto da sapiência dos seus
autarcas, com rasgos de inteligência, irmanados nos seus colaboradores,
sobressaiu o esforço para diminuir o flagelo dos sofredores do desemprego,
através da consecução de empresas para a Covilhã.
Se,
no primeiro caso, a Covilhã já se pode orgulhar de possuir uma rede viária
importante; com a A23, tornando-se no entanto imperiosa a ligação a Coimbra, em
situação idêntica, da montanha ao vale da cidade levou uma transformação
aprazível a todos os títulos, com a criação de muitas infra-estruturas que
proporcionaram meios diversos de acolhimento, recreio e bem-estar da sua
população, e também de quem nos quer visitar; no segundo caso, o ter
proporcionado a opção covilhanense como a melhor para o estabelecimento de
empresas tecnológicas, foi a cereja em cima do bolo, para uma cidade e região,
que, tal como o País, necessita de ver aumentados os números dos empregos.
Depois
do Call Center, que aceitou vários jovens, surge agora o Novo Data Center da
PT, na Covilhã, cujo projecto deverá criar cinco centenas de postos de
trabalho.
É
pois fruto da influência do trabalho emanado da criação, há uns anos, do
Parkurbis, onde a Covilhã se coloca assim na linha da frente das bases
tecnológicas, nesta que também podemos chamar “geração tecnológica”.
E,
se ainda há tempos, a bandeira das cores municipais se envaidecia com a ponte
pedonal da Carpinteira, do arquitecto Carrilho da Graça, referida na revista
americana de especialidade turística, Travel & Leisure, como um dos sete
destinos mais interessantes do mundo em termos de design, bem se pode orgulhar
o líder da municipalidade covilhanense, Carlos Pinto ,
de ver no âmbito da sua acção municipal, que a Cidade e Concelho tomou outro
rosto mais condizente com o valor das suas gentes e de quem aqui trabalha.
Mas
também sabemos que a alma do Parkurbis – Parque de Ciência e da Tecnologia da
Covilhã, assim como coordenador do trabalho do Novo Data Center da PT na
Covilhã é o Vereador Pedro Farromba,
pelo que será fácil encontrar o sucessor de Carlos
Pinto para a Câmara da Covilhã.
JOÃO DE JESUS NUNES
joao.jesus.nunes@mail.telepac.pt
(In quinzenário "O Olhanense", de 01/03/2011; e semanário "Notícias da Covilhã", de 03/03/2011)
A republicação deste texto, integral e não parcial, deve-se ao facto do cidadão Carlos Pinto, ex-Presidente da Câmara Municipal da Covilhã, o ter inserido, parcialmente, na parte que lhe interessou, no seu facebook pessoal, com uma foto minha, grande, originando que as pessoas, não reparando na data, em números reduzidos, deduzam que é recente. Isto verifica-se pelos comentários que têm vindo a surgir. Por outro lado, induzem em erro de percepção sobre um meu eventual apoio à sua candidatura em construção. Ainda é cedo para poder, conscientemente, e não pela consciência dos outros, assumir uma posição de apoio a qualquer dos candidatos que venham a surgir, na sua globalidade.
Estranho é o facto de o cidadão Carlos Pinto me ter bloqueado no acesso ao seu facebook pessoal, quando, afinal, ele publicou aquele meu texto.
Daqui se infere, como é óbvio, aquele dito antigo: "Aqui há gato!..."
João de Jesus Nunes
14 de fevereiro de 2017
A MENTIRA
Todos mentimos. Não significa
que seja algo bom, ético e que vá conduzir à felicidade. Certo é que vemos
pessoas sofrendo com mentiras, em várias vertentes das suas vidas. Seria
interessante entender porque as pessoas mentem, ainda que seja uma das formas
de superar as traições, omissões, falsidades e mentiras.
Qual a causa de haver tanta
mentira no mundo? O Professor Felipe de Souza diz que “a pessoa que mente pensa que é melhor, mais vantajoso dizer uma
inverdade do que dizer a verdade. A verdade é sentida como algo que provocará
uma resposta pior e desfavorável. Esta é a causa das mentiras”. Porém algumas
pessoas desenvolvem uma grande capacidade de mentir. Quem mais mente não
acredita nas suas mentiras. Mas outras gentes há, que, mentindo, acreditam que
as suas mentiras são verdades. Neste último caso, o Professor Felipe de Souza
diz que “há um indício de doença mental,
pois acreditar fielmente em suas próprias mentiras pode significar um distúrbio
psicológico grave”. Há algum tempo surgiu a expressão “disfunção cognitiva
temporária”, na Assembleia da República, pelo Secretário de Estado do Tesouro e
Finanças, Mourinho Félix, aquando da discussão na especialidade da proposta de
Orçamento do Estado para 2017, referindo-se à proposta do PSD relativamente à
Caixa Geral de Depósitos. Gerou-se enorme polémica.
O que é verdade é que o uso da
linguagem excessivamente forte é comum nos parlamentos. Vejam-se os casos
surgidos nalguns países asiáticos e até na Itália em que chegaram a vias de
facto. Os excessos parlamentares têm tradição em Portugal. Almeida Garrett foi
um dos mais brilhantes utilizadores. E Brito Camacho, respondendo a um deputado
que vociferou: “eu tenho só um partido”,
saiu-lhe esta: “Então tome lá cuidado não
lhe partam o outro!”. Já depois do 25 de Abril, a deputada centrista
Natália Correia fez um pequeno poema a um deputado que defendia que só devia
fazer sexo quando se queria fazer um filho, poema que terminava dizendo que ele
era capado. E quando algumas mulheres, apoiantes da Unita, foram à Jamba e
disseram que aquilo era uma cidade muito organizada e que até tinha um polícia
sinaleiro, Natália Correia não perdoou, dizendo: “O que as senhoras mais admiraram foi certamente o cassetete do
polícia!”.
Num artigo que publiquei em 24
de outubro de 1997, a propósito dum autarca da altura ter mentido a uma
instituição desta Cidade, referi que no jornal Vida Económica, de 3 de outubro
daquele ano, sob o título “200 petas/dia”,
dizia o seguinte: “(…) de acordo com
um estudo publicado pelo The Sunday Telegraph, do Reino Unido, as pessoas
mentem de oito em oito minutos, no mínimo, na maior parte trata-se de pequenas
mentiras, embora sejam mentiras”.
Ora bem, não só as mentiras de
Trump, que, no seu egocentrismo boçal e alucinado, certamente não lhe permitem
ver a diferença entre verdades e inverdades, são fator para que esta palavra
seja uma das mais repetidas de sempre, como também, por cá, a sobrevivência da mui
badalada “geringonça”, faz referir Vicente Jorge Silva, no Público, ser “um termo que, só por si, pacificamente adotado
por quase toda a gente, resume a pequenez da “política à portuguesa”.
Recentemente realizou-se, na
Universidade do Minho, um colóquio sob o tema “Mentira e Hipocrisia na Política
e Vida Moral”, ideia defendida pela norte-americana Ruth W. Grant; no qual
estiveram presentes cerca de 40 especialistas de 15 países; tendo sublinhado
que há uma grande mudança na mentira, e a diferença é quantitativa mas também
qualitativa, refletindo sobretudo acerca das questões da moral política. Hoje
recorre-se mais à mentira. O controlo dos factos feitos pelo site PolitiFact ao
discurso de Trump, nas presidenciais americanas, apontaram para 76% de
falsidades; e a mentira, quando exposta, sobrevive ao confronto com os factos,
resistindo bem ao embate. Ruth W. Grant recordou que, até aqui, as mentiras em
política tinham sobretudo que ver com aquilo por quem as proferia se assumia ou
não responsável. Quando apanhado em falso, o político passava por um momento de
embaraço público, sentindo a obrigação de se retratar. Agora, quando
confrontado com os factos, o político continua a mentir, não obstante ser uma
mentira à prova de factos. No debate sobre “verdade
à prova de factos”, lá veio o alegado arsenal de armas de destruição maciça
que serviu para justificar a guerra no Iraque. E é neste tempo “trompetista”
que surge a “pós-verdade”, tendo a Oxford Dictionaries a elegido palavra do ano
2016, justamente por causa de Trump e do “Brexit”. Foi definida como o conceito
que designa as circunstâncias em que os factos objetivos são menos
preponderantes na formação da opinião pública do que as paixões e convicções.
Temos então aí o campeão da
mentira – Donald Trump – e a este assunto se foram referindo os jornais do
mundo: o New York Times recapitulou os substantivos usados pelo jornal e pela
média americana para caraterizar as inexatidões ditas ou twetadas por Trump:
inverdades, falsificações, equívocos, erros. O jornal mais influente do mundo,
o NYT, escreveu que Trump repete uma mentira sobre as eleições e que é um
rematado mentiroso. Ele mente frequentemente e sem problemas. Mente sobre as
coisas sérias e sobre as triviais. Entronizada na Casa Branca, a pós-verdade
incorpora os preconceitos, pregando e ampliando indefinidamente, nas redes
sociais, a mentira que parece ser verdade.
Vêm aí as eleições autárquicas
e, também aí, a mentira tem oportunidade de surgir nas suas encapotadas vestes
para, mais tarde, não ter hipótese de se ocultar. É que, conforme o ditado, uma
mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade
de se vestir. Ou seja, é apenas a verdade mascarada, agora que entrámos no mês
do Carnaval. E ainda, se a consciência tranquila se ri das mentiras da fama, o
que é certo e verdade é que mesmo a mentira mais complicada é mais simples que
a verdade, tendo também em conta que um silêncio pode por vezes ser a mais
cruel das mentiras.
A mentira é pois um componente
que faz parte da vida de alguns políticos e, com as raras exceções de sempre,
tal conceito já se incorporou na definição que o povo faz dos seus
representantes, mas que ele mesmo se encarrega de lhes dar um mandato.
Recordam-se que Richard Nixon teve de renunciar à presidência americana porque
mentiu sobre Watergate? Tentou obstruir o trabalho de investigação e negou sua
responsabilidade na invasão do edifício Watergate, em Washington. Pois é, já Platão,
o filósofo da Grécia Antiga, comparou a aplicação do uso autorizado da mentira,
em política, ao uso que o médico faz da sonegação da verdade e do veneno com
finalidade curativa.
O povo diz que atrás de mentira, mentira vem; e já
Aristóteles afirmava que a vantagem que
têm os mentirosos é a de não serem acreditados quando dizem a verdade.
Aguardemos então a próxima
campanha eleitoral para as autárquicas no nosso País. Estejamos atentos às
mentiras que ao longo dos tempos nos foram insufladas. Mas também na reflexão
das mentiras para um promissor futuro. O melhor candidato será, obviamente, o
que menos mentir, ou, então, o que melhor mentir.
8 de fevereiro de 2017
AS CONFERÊNCIAS DE SÃO VICENTE DE PAULO NA DIOCESE DA GUARDA
A Sociedade de S. Vicente de
Paulo já estava estruturada e organizada antes da sua entrada, instalação e
expansão em Portugal, que ocorreu no ano de 1859 (reinado de D. Pedro V). Teve
os seus antecedentes em S. Vicente de Paulo que nasceu na aldeia de Pouy, nas
Landes, a sudoeste de França, em abril de 1581 e veio a falecer na Casa de S.
Lázaro, em Paris, em 27 de setembro de 1660. Vicente de Paulo lançara, dois
séculos antes, a semente da Sociedade que viria a ter o seu nome, porque a
iniciara no seu espírito de amor aos pobres. A Sociedade acabaria por ser
fundada em Paris, no ano de 1833. Nenhuma obra de caridade foi estranha a
Vicente de Paulo e esse princípio foi trazido para a Regra da Sociedade de S.
Vicente de Paulo. Veio a ser aclamado Patrono de todas as obras de caridade. Desde
o século XVII que a semente da vocação e missão vicentina mesmo para leigos ficou
latente e só mais tarde, já em 1833, em Paris, ela realmente brotou, sendo António
Frederico Ozanam o seu grande fundador. Naquele seu impulso, para com seus
companheiros, lançou o grito: “Façamos o que fazia Nosso Senhor Jesus Cristo
quando pregava o Evangelho: Vamos aos pobres”. Assim, Ozanam, com o seu
companheiro Augusto Le Taillandier, dirigiu-se a casa de uma família pobre que
conheciam e vivia nos arredores de Paris. Levaram-lhe, simbolizando o seu afeto
e interesse, alguma lenha para aquecer. Iniciava-se assim a prática da visita
domiciliária, o processo que se tornou típico da ação destes leigos que
passaram a denominar-se “vicentinos”, membros de uma Conferência, inicialmente
chamada da Caridade, e, meses depois, “Conferência de S. Vicente de Paulo”.
Preparava-se então a entrada
da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Portugal, depois de já se ter instalado em
vários países. Foi já no declinar do ano 1859, a 27 de setembro, que o Padre
Emídio Eugénio Miel, Superior da Igreja de S. Luís, em Lisboa, a viria a
fundar, passando a designar-se “Conferência de Lisboa”. Multiplicar-se-ia pelo
País fora, sendo o Porto o seu núcleo mais denso.
Chegava à Guarda, com o maior
núcleo de assistência aos necessitados e a forte implantação nesta Diocese, com
a Covilhã a sobressair, desde o seu início, nestas tarefas solidárias e
caritativas. E era no seu seio que vinha a ser fundada, em 12 de novembro de
1899, a Conferência de Santa Maria Maior (Nossa Senhora de Lourdes), na
Covilhã.
Como não havia qualquer
Conselho na Diocese da Guarda, ficou sob a tutela do Conselho Central do Porto.
A Conferência dedicou-se à visita domiciliária.
Não era a Conferência de Santa
Maria Maior, na Covilhã, a única Conferência na Diocese da Guarda. Existia nesta
cidade, desde 01 de dezembro 1891, mas só agregada a Paris em 1909, a
Conferência de São Luís Gonzaga, que lutava com grande dificuldade apesar da
esmola superior a 400$00 com que o Prelado a contemplava. Tinha esta
Conferência vários sacerdotes como seus membros, entre os quais o anterior
Bispo D. Tomaz Gomes de Almeida. De qualquer modo, o Bispo D. Manuel Vieira de
Matos, também considerando indispensável a ação da Sociedade de S. Vicente de
Paulo, ajudou a levantar a Conferência da Guarda que entrara em grande
declínio. Nesta ação vicentina também se terá destacado o Bispo Covilhanense,
D. Manuel Damasceno Costa, que depois foi Bispo de Angra, onde viria a falecer.
No domingo, 5 de Fevereiro passado, foi homenageado pelo Município
Covilhanense, com missa solene na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, presidida
pelo Bispo da Diocese, D. Manuel Felício; e uma exposição no Museu de Arte
Sacra, na comemoração dos 150 anos do seu nascimento.
A Conferência de Santa Maria Maior, na
Covilhã, apoiava o Albergue dos Pobres (hoje Lar de São José), fundado em 1900.
Dois anos após a sua abertura, em 10 de junho de 1902, conseguiu esta
Conferência a vinda das Irmãzinhas dos Pobres para cuidar do Albergue. Há
muitos anos que partiram. A Conferência decidiu ainda ceder ao Albergue as quotas
dos seus 168 subscritores, reconhecendo e valorizando a boa obra desta
Instituição.
Em 19 de março de 1903 é
fundada na Covilhã a Conferência de Nossa Senhora da Conceição.
Em 29 de junho de 1905,
aproveitado a festa de São Pedro, foi fundada na Covilhã a sua terceira Conferência
Masculina sob a invocação de S. Pedro. Em 1905, na Covilhã, nasceu em algumas
Senhoras o desejo de constituírem um Conferência Feminina – a Conferência de
Santa Maria Maior.
Em 03/12/1910 foi fundado na
Covilhã o Conselho Particular (hoje designado Conselho de Zona) que ia contudo
encontrando dificuldades na coordenação das Conferências a que ele estavam
ligadas. É que tinham poucos membros ativos para tão grande ação. Foi
organizado em 25/02/1924. O Conselho Particular da Covilhã dependia do Conselho
Central Masculino do Porto, tendo sido nessa altura que o Conselho da Covilhã,
por sugestão do Prelado, reuniu as Conferências da Covilhã numa só. Passou
assim a serem consideradas apenas duas Conferências na Diocese da Guarda: a
Conferência da Covilhã, resultante da fusão das existentes; e a Conferência da
Guarda.
Em 19 de fevereiro de 1911
surgiu ainda na Covilhã a Conferência de São Martinho. Entretanto, para a mesma
Diocese, surgia em 20 de novembro de 1913 a Conferência Feminina de Nossa
Senhora da Serra, em Castelo Novo, no Fundão, que só foi agregada em 1947.
Na Covilhã, as Conferências que
em 1921 se tinham fundido numa só, a partir de 1923 voltaram a passar a funcionar
separadamente.
Em 1925, as Conferências
Vicentinas na Diocese da Guarda foram aumentadas com a fundação da Conferência
de Pinhel; Conferência de Alpedrinha, em 26/11/1925; e a Conferência das Donas,
em 15/01/1925. Na Covilhã, surgia ainda, em 30 de agosto de 1925, o Grupo
Nun’Álvares, formado por escuteiros.
No ano de 1944, na Diocese da
Guarda, a Covilhã continuava a ser a zona da diocese com mais vocações
vicentinas.
Também na Covilhã, as
Conferências continuavam a ter apreciável dinâmica que, por exemplo, se concretizou
na criação da Cozinha Económica que funcionava através de uma caderneta de
senhas distribuídas aos pobres, assim adquirindo direito a refeições, bem como
auxílio moral. Esta instituição hoje já não existe. Era uma obra de vulto se
atentarmos que só no ano findo de 1945 servia a pobres 72.980 refeições, no
valor de 105.498$10.
Em 20/01/1935 ainda surgiria
na Covilhã uma Conferência de Jovens – Conferência de S. Tomás de Aquino; uma
em Unhais da Serra, em 11/10/1932, e, no Ferro, em janeiro de 1935; e em 16 de
janeiro e 3 de fevereiro de 1938, mais duas Conferências, em Aldeia de S.
Francisco de Assis.
Todas estas já não existem,
como também deixaram de existir mais estas, fundadas na Covilhã, em 1//1/1946 –
a de S. Tarcísio; e no Bairro de S. Vicente de Paulo, que se ia construindo, no
dia 02/12/1949. No Tortosendo, em 1947, ainda em vigor, surgiria a Conferência
de Nossa Senhora da Oliveira.
Sem dúvida que era, e ainda é,
a Covilhã, o núcleo mais dinâmico da Sociedade de S. Vicente de Paulo da
Diocese da Guarda.
Atualmente, a Covilhã continua
a sua ação em prol da solidariedade social e caritativa, nas Conferências de
São Vicente de Paulo, assistindo mais de três centenas de famílias, englobadas
no seu Conselho de Zona, das quais fazem parte as seguintes Conferências, numa
ação de grande dinamismo: Conceição, Santa Maria, S. Pedro, S. Martinho, S.
José (Penedos Altos), Canhoso, Tortosendo, Fundão e Alpedrinha, embora esta
última só distribua alimentos.
(In "Notícias da Covilhã", de 09/02/2017)




