14 de julho de 2015

SÓ SEI QUE NADA SEI

1. Na altura em que redijo esta crónica Portugal está de luto. Desapareceu do mundo dos vivos Maria Barroso, a eterna primeira-dama portuguesa. Esta grande Senhora morreu no hospital que fundou – Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. Mulher “determinada na defesa de causas e com o seu caráter humanista e força solidária”, que “valeu a pena ter vivido”, segundo a própria disse ao jornal i, em maio deste ano, aquando do seu 90º aniversário natalício.
2. E, enquanto neste “contentamento descontente”, surgido entre o “oxi”(não) e o “nai” (sim), os gregos procuram ansiosamente por uma resolução para a sua vivência, os Senhores da Europa certamente que também sentirão as suas pressões, sistólica e diastólica, alteradas (“Pecámos contra a dignidade dos povos da Grécia, Portugal e Irlanda” –  Jean-Claude Juncker – presidente  da Comissão Europeia que criticou modelo da “troika” e anterior equipa liderada por Durão Barroso, que se limitou a confiar em técnicos).
Vamos ver se a permuta de cabeças, no Ministério das Finanças grego, com a entrada do aristocrata Tsakalotos em substituição do académico Varoufakis, mantendo a mesma ideologia, dará o resultado desejado.
Jamais assistimos a uma posição de força de um país da moeda única, como o surgido com a Grécia, berço da democracia. Efetivamente foi na Grécia Antiga que nasceu a democracia, quando em 507 a. C., os atenienses, liderados por Clístenes, foram autorizados a falar e votar para as leis da cidade-Estado. Entretanto, surgiria o domínio turco durante um longo tempo de 350 anos, e, com a independência da Grécia em 1821, seria marcado o início da Grécia moderna.
O que é certo e verdade é que os gregos deram a toda a Europa e a todo o mundo uma lição de coragem e dignidade.
Em tempo de guerra, o maior perigo absorve o menor, faz-se pouco caso dos perigos dos mares; e as estações mais inclementes se estimam as mais favoráveis para escapar à vigilância do inimigo. Também aqui, os gregos com o Syriza, e o seu líder Alexis Tsipras, souberam, e compreenderam, ainda que duma forma pungente, que a constância seria a arma forte contra a genuflexão, esta atitude muito do agrado de Merkel e Hollande, e, até mesmo por estas bandas domiciliárias, da “simpática” Maria Luís Albuquerque, que nos “brindou” com a informação de que o País “tem os cofres cheios”.
3. Depois da troika estrangeira ter deixado o nosso País, ficou a troika nacional (Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva), e, com este arranjo assim vai a nossa troika (a portuguesa), iludindo os portugueses, com elogios hipócritas aos credores e fazendo de conta que há um apaziguamento no país, chegando-se ao ponto caricato do homem de Boliqueime condecorar, no Dia de Portugal, com a Ordem do Infante D. Henrique, o costureiro de Maria Cavaco Silva. Logo surgiu o humor nas redes sociais, de que a esposa de Cavaco também lhe tinha falado para condecorar quem lhe arranjava as unhas…
E é assim que temos o retrato da desconfiança portuguesa. Como será então possível dar o salto qualitativo para o desenvolvimento e a solidez democrática?
Segundo um trabalho de São José Almeida, na Revista 2 do Público de 14 de junho, referindo-se à Confiança, dizia:
- “Quando o país parece pronto a arrancar para uma nova etapa de desenvolvimento, a questão é saber até que ponto será limitada pelos baixos níveis de confiança existentes na sociedade portuguesa”. E eu refiro, por exemplo, as mentiras continuadas dos governantes, mormente do seu líder; o não dizerem a verdade aos portugueses; a irrevogabilidade de uma decisão que, afinal, voltou com a palavra atrás, do antigo beijoqueiro das feiras; as inverdades do homem de Boliqueime: “Podem confiar no BES!”.
- “Quando as pessoas olham para o futuro e acham que o futuro não promete nada a não ser novas ameaças, essa unidade quebra-se”. E eu recordo o empurrar os jovens cérebros para fora do País; as constantes ameaças de já não haver dinheiro para a constituição de futuras pensões de reforma; a falta de confiança nos tribunais; nos governantes que continuam a não temer e a surgir novas surpresas de corrupção; os que passeiam por esse País fora banhado por um enriquecimento inexplicável, naquela de “Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem”.
A confiança é, pois, fator fundamental para o desenvolvimento económico. O País continua com medo de ir para a rua. Os portugueses têm pânico de expor a sua opinião: Portugal é um país com muitos acobardados.
Segundo Guilherme de Oliveira Martins, verificamos que a sustentabilidade económica só se verificou em cinco períodos: descobrimentos, ouro do Brasil, emigrantes, volfrâmio e fundos comunitários. Tudo isto foi exterior. 80% da população vive entre Setúbal e Braga, numa faixa de 80 Km do mar para o interior. Era expetável que a partir de 1986, com a entrada na CEE, Portugal abandonasse “o seu estatuto de semiperiférico e se juntasse ao clube dos desenvolvidos, o que não aconteceu”.
Há um indicador em que Portugal está à frente de todos os países desde 1990: a confiança na Igreja. O cardeal D. Manuel Clemente diz que uma realidade “tem tudo a ver com a confiança”: “O que cria confiança é o conhecimento, e o que cria desconfiança é o isolamento”.
A confiança na justiça e nas instituições tem sido abalada pelos sucessivos casos de corrupção que envolvem figuras do Estado, da política ou da sociedade – o que descredibiliza perante a sociedade os que deveriam ser referência num país com “tradições que são difíceis e negativas”, como aponta Jorge Sampaio.
O País assistiu à falência de três bancos com contornos criminais: BPN, BPP e BES. A confiança abala-se no sentido de perguntarmos: “Em quem é que eu acredito?”
4. A Covilhã continua na sua senda cultural, vincando perfeitamente a sua condição de detentora do maior número de agentes culturais do Concelho, em relação a todo o distrito de Castelo Branco. Em cima da minha secretária um desdobrável da Agenda Cultural do Município da Covilhã, em formato original, dobrado em origami, cuja configuração é para quem goste; mais parecendo que foi concebida na inspiração de alguém enquanto passava a ferro…
E, depois de muitas polémicas, num acerbo de linguagem pouco própria do anterior líder do executivo camarário, as gentes covilhanenses já se começaram a aperceber que, afinal, valeu a pena a mudança. O trabalho está a surgir e havia muita treta, o que não obsta que considere que também nesta há boys, girls e interesses instalados.
5. Gala Tribuna Desportiva: - À hora que redijo este texto ainda não teve lugar este grandioso evento, que, pela 2.ª vez consecutiva, se realiza no Castelo de Belmonte, durante a noite de sábado, dia 11 de julho. Promover a distinção, ao longo do ano desportivo, de muitas figuras e coletividades da região, mormente do distrito de Castelo Branco, não está ao alcance de qualquer pessoa, mas sim dos melhores. Por isso, está de parabéns, mais uma vez, o impulsionador da Grande Gala, e diretor da Tribuna Desportiva, Pedro Martins, e também o Dr.  

António Pinto Dias Rocha, presidente do Município de Belmonte.

(In "fórum Covilhã", de 14.07.2015)

8 de julho de 2015

VERTENTES DA SOLIDARIEDADE

Ao longo do ano são várias as instituições que unem os seus membros, num sentido solidário, procurando minimizar as depauperadas algibeiras de muitos que se vêm constrangidos, nos tempos que correm, nos caminhos da míngua do que mais é indispensável para a sua sobrevivência e de seus familiares. E, então, é hábito os peditórios junto das grandes superfícies, por essas instituições: Banco Alimentar Contra a Fome, Cruz Vermelha, Santa Casa da Misericórdia, como exemplo. De âmbito nacional conhecem-se as recolhas do Banco Alimentar, numa ação altamente profícua, cujos géneros alimentares recolhidos são depois distribuídos por várias instituições parceiras, onde se inserem as Conferências de S. Vicente de Paulo, e alguns Centros e Lares da Região, que é vasta.
As Conferências de S. Vicente de Paulo, que geralmente não as vemos nesse âmbito de recolha de alimentos, pelas grandes superfícies, têm a seu cargo uma enormidade de carentes, a quem procura satisfazer, dentro das possibilidades de cada organização, nos vários aspetos das necessidades daqueles, que vão, para além dos géneros alimentares para colmatar algumas lacunas dos bens mais necessários, também na parte da saúde, através de ajuda nos medicamentos ou viagens para os locais de tratamento fora da cidade, a luz, água, gás, renda da casa, e sei lá que mais. Mas, dentro do espírito que envolve a Caridade, o mais importante é, tantas e tantas vezes, aquela palavra de conforto que se leva aos semblantes carregados, daquela gente ávida de enormes desabafos, no seio da sua solidão.
Nesta envolvência de ajuda conscienciosa ao próximo, procuram os membros das Conferências analisar cada caso para que se evitem abusos, através das normais fontes de informação, a solicitar aos necessitados, e sempre sob anonimato.
Isto não invalida que muitas vezes são as Conferências confrontadas com condutas impróprias de quem necessita, ocultando rendimentos ou ajudas que entretanto já recebem de outras instituições, que nem sempre é possível em cruzamento de dados.
Foi assim sugerido, em determinada altura, que as mesmas instituições que regularmente distribuem géneros alimentares, fornecessem as listas de quem ajudam, a fim de que não houvesse as mesmas pessoas a receberam de várias instituições ao mesmo tempo, em detrimento de outras a quem tem que se reduzir, ou não entregar, a dose de géneros que iriam melhorar a sua escassez de recursos.
É que, uma coisa é ter necessidade, outra coisa é dar jeito…
Vem isto a propósito de alguns reparos que ouvimos por esta cidade. Também estranhamos porque é que há tanta relutância em prestar informações que viriam a evitar os já referidos abusos.
No dia 5 de julho realizou-se o Convívio Vicentino, no Seminário do Tortosendo, desta vez a cargo da Conferência de S. José, do Canhoso, onde estiveram presentes, para além dos representantes do Conselho de Zona da Covilhã, o Rev.º Padre Henrique Rios, cerca de quatro dezenas de vicentinos das várias Conferências da Cidade da Covilhã e Tortosendo, e também o Presidente do Conselho Superior, Correia Saraiva, que é a entidade máxima das Conferências em Portugal. Esta Conferência do Canhoso comemorou também o seu 10º aniversário.
A Sociedade de S. Vicente de Paulo foi fundada pelo francês António Frederico Ozanam, e seus companheiros, em 1833, em Paris, com o nome de Conferência da Caridade. Em 4 de fevereiro de 1834 passou a dedignar-se Sociedade de São Vicente de Paulo.
Numa altura difícil, da vida em França, com guerras existentes, e, depois, pelo mundo fora, a Sociedade de S. Vicente de Paulo tem uma história rica, em toda a sua forma de ajudar os que mais necessitam e dentro do espírito da Caridade.
Muito do que gostaria de escrever não cabe neste espaço, mas dentro dos muitos países por onde se irradiou, gerando milhares de Conferências Vicentinas, chegou também a Portugal, embora tardiamente, no ano 1859, tendo, curiosamente, entrado na Grécia e na Alemanha, em 1846; em Espanha, em 1850; em Inglaterra e Irlanda em 1844; e em Itália, em 1842.
Na Diocese da Guarda viria a ser fundada a 1.ª Conferência Vicentina – Conferência de S. Luís Gonzaga – em 01/12/1891, mas só agregada em 1909. Mas seria a Covilhã, e continua a ser, o grande baluarte das Conferências Vicentinas da Diocese da Guarda, quatro delas já centenárias: Santa Maria Maior (inicialmente com a denominação de Nossa Senhora de Lourdes), fundada em 12/11/1899 (agregada em 18/12/1899); Nossa Senhora da Conceição, fundada em 19/03/1903 (agregada em 20/02/1905); S. Pedro, fundada em 29/06/1905 (agregada em 19/03/1906); S. Martinho, fundada em 19/02/1911 (agregada em 22/05/1911).
Depois, no âmbito do Conselho de Zona da Covilhã (antiga designação de Conselho Particular), fundado em 03/12/1910, existem ainda as seguintes Conferências: Tortosendo, fundada em 04/05/1924 (agregada em 29/09/1924); Alpedrinha, fundada em 26/11/1925 (agregada em 11/04/1927); S. José – Bairro dos Penedos Altos, fundada em 08/04/1951 (agregada em 27/05/1957); Imaculada Conceição de Maria – Fundão, fundada em 04/07/1949 (agregada em 14/05/1964).
Muitas outras Conferências existiram na Covilhã, diversas freguesias do seu Concelho e na região beirã, que, entretanto, estão desativadas.
De recordar que as Conferências da Cidade Covilhanense para além de prestarem vários auxílios, ao longo dos tempos, também estiveram envolvidas na criação de instituições de grande mérito.
A Conferência de Santa Maria Maior apoiava o Albergue dos Pobres (hoje Lar de S. José), fundado em 1900. Foi nesse ano que se conseguiu a vinda das Irmãzinhas dos pobres para cuidar do Albergue, as quais chegaram em 10 de junho de 1902 à Covilhã. Depois foi a criação da Cozinha Económica, mais tarde entregue à Santa Casa da Misericórdia da Covilhã. Estiveram também presentes na construção das casas do Património dos Pobres.

Enfim, uma riqueza da história das Conferências de São Vicente de Paulo na cidade covilhanense.

(In "Notícias da Covilhã" de 09-07-2015)

29 de junho de 2015

TUDO MUDA DE TAMANHO

Para a página de âmbito desportivo deste número, hei por bem inserir um texto que se encontrava arquivado nos meus documentos antigos e que se destinava a ser publicado, em 1998, no 3.º número d’ “O Refugiense”, volvida então uma dúzia de anos após o surgimento do último número. Fora um convite do então Presidente da Direção daquela Coletividade de prestígio da Cidade Covilhanense, João Torrão, e de outro amigo, Vitor Fazendeiro, mas o jornalinho acabaria por não sair.
Recordo assim, n’ ”O Combatente da Estrela”, alguns momentos altos por que também passava, nessa altura, o nosso SPORTING CLUBE DA COVILHÃ, com a presença amiga de alguns antigos e valorosos atletas dos “Leões da Serra”, os quais já partiram para o outro lado da vida.
E, então, referia que em janeiro de 1998 li um artigo do jornalista Pedro Rolo Duarte, na revista do Diário de Notícias, versando o tema “mudança de formato”.
E dizia: “Tudo muda de tamanho. Começou com o “mini” a revolucionar a indústria automóvel e nunca mais parou (…). Reconheço que há razões objetivas para “encurtar” objetos. Mas não me obriguem a dizer que gosto de ver uma obra de arte enfiada numa caixa quadrada de plástico com doze centímetros de lado (…). Os formatos mudam como muda o tempo: de repente, aí estão garrafas de bebidas “formatadas” pela Europa com menos cinco centilitros de capacidade. A vodka, o whisky ou o vinho do Porto custam o mesmo, ou custam mais, mas trazem menos (…). Mas a tragédia não fica por aqui. Mudam diariamente os formatos dos telemóveis, muda o formato das fotografias, mudam os tamanhos dos comprimidos e a espessura dos relógios. Adaptamo-nos a tudo. Está em marcha a campanha que nos levará a adotar teclados ditos ergonómicos para os computadores, ratos sofisticados com formatos que se assemelham mais a porcos do que a ratos, e não tarda nada mudam-nos o formato da televisão (…). Há três semanas mudou o formato de mais um jornal. Chegou a vez do “Jornal de Notícias”. Já antes tinha sido assim com “A Bola” e, antes ainda, com este mesmo “Diário de Notícias” que tenho na mãos (…). Mas, que querem, cada vez que vejo mudar o formato de um jornal, como cada vez que assisto a uma reedição em CD de obras que só havia em vinil? Sinto-me perdido. Fico triste, tenho saudades. Sinto-me isolado. Só eu gosto de abrir um jornal broadsheet e tirar-lhe o vinco que o dobra ao meio. Só eu gosto de ficar com dores nos braços depois de ler o “Expresso”. No futuro, mudam o formato dos Homens, que podem deixar de ser “ao alto” para passarem a ser “ao baixo”, e posso arrumar as botas. Depois dos clones, vão arranjar maneira de fazer criaturas transportáveis, pessoas que se arrumam facilmente numa pasta de tamanho A4 (…). Não gosto do que vejo. Sou contra a mudança do formato (…) e, “cuidado: um dia mudam-lhe o formato…”
É do domínio público que o Refúgio, e o seu “Refugiense”, é uma das franjas da Cidade que tem gente dinâmica, simples e humilde, que sente a amizade do “tamanho” de uma montanha e o reconhecimento por quem outrora deu nome à Cidade Covilhanense, do “formato” da Lua Cheia.
Vem isto a propósito da receção que um grupo de amigos refugienses prestou a duas Velhas Glórias do Sporting Clube da Covilhã, na manhã do dia 6 de junho de 1998, aquando do encerramento das Bodas de Diamante daquele clube leonino.
Passo a respigar parte da página 224 do livro que uns dias mais tarde saiu, sob o título “Sporting Clube da Covilhã – Passado e Presente”, a saber:
“ (…) No Grupo Recreativo Refugiense, calorosa receção por um grupo de entusiastas; 6 de junho de 1998. Já passava das 13 horas. Um grupo de calorosos amigos do SCC, refugienses, e não só, conforme previamente combinado, aguardou a chegada dos antigos atletas, para o almoço-convite. O grupo era pequeno porque muitos, com muita pena de não poderem participar, tinham já compromisso assumido no almoço do Núcleo Sportinguista da Covilhã, que inaugurava a sua sede, com a presença do presidente do Sporting Clube de Portugal. Toca o nosso telemóvel. É o Suarez que informa já se encontrar no Pelourinho, vindo de Vigo, acompanhado do seu simpático amigo, Avelino Villar Pineda. De seguida, surge Fernando Cabrita, acompanhado de seu genro, António Livramento. São os cumprimentos e os abraços, a recordação de alguns amigos e de antigos colegas. Chegada a hora do repasto, num restaurante do Refúgio, vem dar um abraço a estas duas velhas glórias, com surpresa dos mesmos, outra velha glória serrana, João Lanzinha, que acabaria, por atenção aos seus colegas, ir ao jantar de encerramento do SCC.
Mataram-se saudades, memorizaram-se tempos de outrora, do Sporting e da Cidade, curvando-se no respeito pela memória dos que recentemente haviam partido e perguntaram por muitos antigos colegas, valorosos como eles no tempo da I Divisão, nos Leões da Serra (alguns até residiam na Covilhã), e estranhavam por que não estavam ali, para poderem participar no jantar de encerramento das Bodas de Diamante do Sporting da Covilhã, clube que tão bem representaram noutros tempos. Na vida, por vezes, surgem algumas omissões, talvez incompreensões, quiçá esquecimentos.”
Os horizontes de visão no reconhecimento pelas figuras marcantes de uma coletividade de prestígio da Cidade, como é o SCC, têm “tamanhos” ou “formatos” diferentes, conforme as maneiras de sentir ou de ver pelos dirigentes.
Os refugienses souberam entretanto dizer Presente! Ainda nos lembramos de vós!
Aproveitamos para, através deste espaço e deste local, enviar os parabéns ao Sporting Clube da Covilhã pelo brilhantismo e entusiasmo com que terminaram a época finda de 2014/2015 e que, só por um triz não subiu à I Liga do Futebol Nacional.
Boa sorte para a próxima época!

João de Jesus Nunes

 (In "O Combatente da Estrela", n.º 99, de julho a setembro de 2015)

QUASE…

Na dinâmica em que se envolveu uma das grandes instituições da cidade Covilhanense que dá pelo nome de “Liga dos Combatentes – Núcleo da Covilhã”, acaba por ver reforçada essa envolvência fruto da nova Direção, então empossada, que reuniu entre si vários Colaboradores interessados no rumo para o êxito.
Atingimos, n’ “O Combatente da Estrela”, já o número que antecede o centésimo, o que é, sem dúvida, de realçar, desde o primeiro que viu a luz da comunicação social no já distante ano de 1988, mês de janeiro. Manter-se-ia com a sua periocidade mensal até maio de 1990; e, depois, numa tentativa de manutenção desta mesma saída regular, com algumas fases mais alargadas, surgiria um hiato com o seu número 61, em janeiro/fevereiro de 1964.
Uns anos mais tarde, sentida a falta deste órgão, viria a ressurgir, com outra dinâmica, agora trimestral, até aos dias de hoje.
Como “CARTÃO DE APRESENTAÇÃO”, inserido no primeiro número, registamos o seguinte: “Chamo-me “O COMBATENTE DA ESTRELA”; tenho a IDADE que hoje teria Viriato; Sou SOLTEIRO, CASADO, DIVORCIADO e VIÚVO; professo todas as religiões, por isso, sou ECUMÉNICO; sou, por inteiro, PATRIOTA, logo, não tenho partido; SIRVO social e culturalmente a comunidade dos vivos; GLORIFICO os que morreram em combate e também não esqueço os que combateram; ABOMINO os desertores e falsários, a quem chamo cobardes!!!”
Consultando todos os números anteriores o leitor pode constatar duma riqueza cultural, nas várias vertentes: história citadina, envolvente da vida dos antigos Combatentes, desporto local, defesa dos interesses da Covilhã, reflexões de combatentes, notícias, entrevistas variadas, e um rol de curiosidades, tudo na base de autodidatas.
Sem qualquer favor trata-se duma publicação que em nada fica aquém de muitas outras que proliferam por este País fora.
Verifica-se o interesse pel’“O Combatente da Estrela” no recrudescer de novos Leitores e também de Colaboradores, sintoma de que estamos no bom caminho.
Criámos duas páginas destinadas a entrevistas com antigos Combatentes, geralmente acompanhadas de fotografias dos locais, nas Colónias, onde prestaram serviço por obrigação, sendo desta forma que muitas pessoas, principalmente as novas gerações, se apercebem que, na História de Portugal, não foram só as grandes batalhas, as conquistas e os descobrimentos que fizeram resplandecer o nome de Portugal, também ainda hoje há heróis, muitos nossos familiares e amigos, merecedores de serem inspirados das páginas dos Lusíadas, “Que eu canto o peito ilustre Lusitano”.
E porque estamos QUASE no centésimo número d’“O Combatente da Estrela” queremos anunciar que o mesmo irá sair como número especial, a fim de comemorarmos todo este trabalho gracioso mas com muito carinho, ao longo dos anos, na colaboração de autênticos autodidatas, conforme já foi referido.
Alguns eventos se irão proporcionar para comemorar os 100 números d’“O Combatente da Estrela”.
Seria de grande injustiça se não informasse que, desde o seu primeiro número, esteve sempre na liderança da responsabilidade pela vida deste periódico o Presidente da Direção do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, e também Diretor do jornal, que, aliás, o tem sido ininterruptamente, desde o seu início.
Para ele não pode deixar de ir uma palavra de gratidão.

João de Jesus  Nunes

(In "O Combatente da Estrela", n.º 99, de maio a setº 2015)


24 de junho de 2015

SAUDADE E AMIZADE DE MÃOS DADAS

Pois é, também lá estive!... Neste matar de saudades de outros tempos – os da então Escola Industrial e Comercial Campos Melo – fábrica do ensino para muitos obreiros da indústria rainha de então – os lanifícios, nesta Terra – a minha Covilhã – daquela têmpera forte de Viriato, dos Montes Hermínios!
Havia lido algures que antigos alunos da Escola Campos Melo, onde o Engº. Ernesto Manuel Melo e Castro lecionou iam confraternizar com
ele, vindo do Brasil, num almoço-convívio, ali para as bandas do Teixoso.
Inscritos eram só os alunos dos Cursos Técnico de Tecelagem e Debuxo… mas, qual “intruso”, cabia-me fazer o papel tipo “Crónica dos Bons Malandros”, de Mário Zambujal, já que eu era do Curso Geral do Comércio, e, desta vertente, fui o único presente na confraternização, participando também da felicidade dos outros antigos colegas.
- “Trouxeste a máquina fotográfica?” Logo na minha receção, a voz do Gregório Menina, que isto de ajudar na entrada lá estava o João Lázaro, o pequeno grande jogador dos tempos dos Leões da Serra… que outro, também tendo envergado a camisola verde-branca, briosamente, estava lá dentro – Jorge Cipriano, vindo do norte.
Os cumprimentos na mistura de alguma
curiosidade lá prosseguiam: à entrada, sentado já estava o poeta, escritor, mas antes o antigo professor de debuxo, junto de sua filha Maria Alberta; e, com orgulho do seu professor, o Américo Maceiras Caetano, promotor da iniciativa, que veio de Vila Nova de Famalicão, lhe mostrava o seu 1º. Livro de Debuxo.
- “Olha o Aníbal Gonçalves, do Retaxo!” “E tu, quês és?” “O Neto”. “Eh! Pá, desculpa que não te conhecia, és o Olívio Costa Neto!”
As entradas, o bom vinho da região… e, não faltou o belíssimo pão-de-ló.
José Esteves Patrocínio veio de Torres Vedras; e, enquanto o Ferreira Andrade me mostrava umas fotos antigas, de antigos colegas do 2.º ano do Curso Técnico de Tecelagem, em conversa com o Jorge Almeida, entrava o também antigo professor, Engº. César Oliveira, que fôra colega do homenageado.
João José Milhano recordava os tempos de meu vizinho, junto à Escola Industrial, e, sequenciando, chegavam outros, ou já entre si cavaqueavam, entre eles, o Cravino, Carlos Gouveia, Jerónimo Serra, António Nave, João António Coelho.
Já havia chegado o Rui Pereira, com o filho, quando se avista o Jorge Trindade e o Castro Martins; da Figueira da Foz não quis deixar de estar presente o Jorge Correia, acompanhado da esposa. Eram mais de três dezenas, onde estava também o Mangana e o Prof. Dr. Santos Silva.
Na altura do café, eis que o José Rosa Dias, da organização, dita de sua justiça: vão falar, em nome dos antigos alunos, o Américo Maceiras Caetano; em nome dos antigos professores, o Engº. César Oliveira; e encerra o Engº Ernesto Melo e Castro.
Neste feliz encontro de antigos alunos do curso de Debuxo da Escola Industrial da Covilhã, como abreviadamente era conhecida, com os seus antigos professores de Debuxo, atrás referidos, num almoço muito bem servido, a festa foi permanente, na recordação de tempos idos, no matar de saudades.
Maceiras Caetano agradeceu a presença de todos; o Engº. César Oliveira recordou a sua passagem por Bradford na mesma altura do Engº. Ernesto Melo e Castro, em 1956, altura em que conheceu Ernesto Melo e Castro, tendo este o ajudado a adaptar-se à nova realidade, uma vez que havia vários alunos da Covilhã e ele ere o único de Lisboa.
No encerramento das breves palavras dos oradores, falou o Engº. Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro (que vai a Itália participar num encontro de poetas), informando que, estando no Brasil, ficou muito sensibilizado por ter sido convidado para este almoço de confraternização, recordando que no período que exerceu a sua missão docente na Escola Campos Melo formou 143 debuxadores, também ele tendo aprendido ao longo desse tempo a ser cada vez melhor, tanto na área do debuxo como na área das letras: “Estava deprimido face a um grave problema de saúde, e dizia: o que é que eu agora faço? Vou ao Teixoso estar com os meus amigos. Vocês não foram os meus únicos alunos, foram os primeiros!” E falando sobre os tecidos, que têm vida, concluiu: “O tecido é uma metáfora da vida”.
Recordou ainda, nestes ambientes de repasto, o que dizia o professor “Tudo estava muito bom, mas o melhor prato foi o da confraternização”.
de Religião e Moral, Padre Joaquim Santos Morgadinho, do seu tempo:
Por fim terminou: “Orgulho-me de ter sido vosso professor! Estou muito feliz!”

E, de facto, também todos saíram deste convívio, muito alegres, muito felizes.

(In "fórum Covilhã", de 23.06.2015 e "Notícias da Covilhã", de 25.06.2015)

16 de junho de 2015

VIVÊNCIA CITADINA – DE ONTEM PARA HOJE

Na Covilhã a forma de viver foi a encarnação no seu meio ambiente. Noutros tempos, forte no comércio citadino, desenvolvida na indústria laneira, o trabalho foi de uma tenaz vontade.
Incomparável o tempo de outrora com a vivência na atualidade. A mão-de-obra em abundância, inserida num contexto de aprendizagem para que se estava inclinado, deu lugar, hoje, na generalidade, à procura de algo ocupacional, independente do vocacional. Muitos descuraram a futurologia; as novas tecnologias surgiram como um raio. O País quase sempre afocinhado por lobos vestidos de pele de cordeiro. O verdadeiro rebanho continua, como dantes, na servidão da injustiça salarial.
Naqueles tempos – anos cinquenta – para os lados da Pousadinha, algumas raparigas cantavam, aos domingos, enquanto faziam o seu enxoval, sentadas numa laje, ao sol: “Olha a mala; olha a mala; olha a malinha de mão; não é tua nem é minha; é do nosso hidroavião, etc., etc.” e outras cantigas da altura. Os casamentos, a pé, num cortejo até à antiga Igreja de Aldeia do Carvalho, pela estrada fora, de terra batida, obrigavam a palmilhar ainda alguns milhares de metros. No regresso, a boda na casa familiar. Continuava no segundo dia. Da ementa constavam quatro pratos. Vingavam-se os estômagos. E a parição era no domicílio. Chamava-se uma “parteira” já avezada nestas andanças. O puto crescia entre pinheiros, figueiras, cerejeiras, pequenas hortas e caminhos algo pedregosos, regos de água, mas também entre cravos e rosas e flores campestres. Rodeavam a casa as pombas, pintos, galos, galinhas, coelhos, e, um tanto ou quanto afastado, o curral de porcos. Não faltavam os cães e gatos.
Aos sábados, a vez de se ir ao mercado municipal, vulgo, praça; à mercearia e padaria. No regresso havia que se tomar lugar na carreira do José Nunes Correia & Filhos, Lda.
Muitas fábricas de lanifícios então na Covilhã. Mas também havia a metalomecânica.
Outra atividade profissional citadina, usual ao tempo – as empregadas domésticas, de seus aventais brancos.
Mais duma centena de fábricas eram as que circundavam a cidade, junto às ribeiras da Carpinteira, da Degoldra e ribeiro de Flandres. A azáfama do operariado na sua faina: tecelões, afinadores, caneleiros, pegadores de fios, “rebola caixotes”, motoristas, etc…
Na rua os maleiros levavam as malas para os hotéis. O “rei da Alemanha” passava, gazeado, e, do outro lado da rua, ouvia-se o apito do amola-tesouras, que também consertava guarda-chuvas. Noutra rua, travessa ou beco, o farrapeiro do Dominguiso, de saco de serapilheira às costas, apregoava: “peles de coelho ou farrapos!”.
Os ardinas, de sacola ao ombro, ligeiros pelo Pelourinho, a apregoar o Record, a A Bola, o Século, Século Ilustrado, Diário Popular ou do Diário de Notícias.
Os vendedores ambulantes de miudezas (sabonetes, elásticos, pentes, espelhos de bolso), com o seu tabuleiro prendido com uma alça ao pescoço, giravam à porta da praça; no entanto Chico gravateiro avançava até ao Pelourinho. Aqui, também o Ribeiro dos tabacos. De mala de metal na mão, caminhava cauteloso o Pardal, procurando compradores de ouro, enquanto o Humberto vendia cautelas.
Junto à antiga biblioteca municipal, ao jardim, passava a Batistinha dos rebuçados “Avenca”, que vendia na rua, de chinelos e cesta de verga enfiada no braço, baixinha, e sempre de bata.
Volvida uma década, no auge da emigração, eram como as formigas: homens e mulheres saiam ansiosos da Câmara Municipal, com os papéis na mão já tratados, para rumarem a França, Alemanha, Suíça, Luxemburgo.
A ocupação dos territórios portugueses de Goa, Damão e Diu pela União Indiana em 18 de dezembro de 1961, que depois se seguiu o início das guerras em África, não deixavam de atormentar os covilhanenses. As manifestações de apoio à política ultramarina e repúdio pelo que ia acontecendo a Portugal enchiam com naturalidade a Praça do Município.
Surge a década de setenta e, no 25 de abril e 1.º de maio, a enchente do Pelourinho é ainda maior. Era o tempo de viragem.
O povo covilhanense entra em êxtase em 1977 com a estreia da primeira telenovela brasileira – “Gabriela, Cravo e Canela”, substituindo as sessões de esclarecimento do PREC.
Na primeira metade da década de 80 surge na RTP a série televisiva “DALLAS”, com o J.R e a sua mulher, Sue Ellen. Foram 357 episódios que terminaram na década seguinte.
As novas tecnologias iam surgindo com aceleramento. E nem todos as acompanhavam. A Covilhã também foi um dos concelhos em que sentiu grande adversidade nas múltiplas crises que iam surgindo. Quando se pensava que ia haver uma vida nova, risonha, áurea, mais feliz, mais tranquila, de esperança, futuro para os filhos e netos, retrocede-se. Surge o novo milénio e o que vemos? Já toda a gente é conhecedora do estado a que isto chegou. São ainda pertinentes as palavras de Salgueiro Maia.
Ainda pior: a falta de confiança nos governantes sejam a nível do Governo central, ou da autarquia local.
É fartar, vilanagem.

(In "fórum Covilhã", de 16-07-2015)

3 de junho de 2015

A FORÇA DOS VENTOS

A força dos ventos supera as nossas próprias vontades. São muitas vezes expressos de acordo com a sua força e a direção de onde eles estão soprando. Há os de rajada, de lufada, a brisa, tempestades, furacão, tufão e tornados.
Ventos definem assim um equilíbrio de forças físicas que são utilizadas para decomposição e análise do perfil do vento. E, dentre eles, há ainda os ventos de Oeste, ciclones, anticiclones, ventos de monção, e ainda os de montanha. Alguns destes ventos quase que se confundem.
Entre ventos e ventanias, sempre há o bom e o mau; da possibilidade do aproveitamento da energia eólica à fustigação de terrenos, árvores, telhados e outros bens.
Já antes das eólicas havia os moinhos, com leis desde o século V ao XV. E da utilização dos ventos, os barcos à vela já existiam no Egipto 2.800 anos a. C.
Muito mais poderíamos falar dos ventos, incluindo das relações luso-espanholas, donde se ironizou que “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”.
Com ventos e marés nós vamos passando as nossas vidas, e, na parte que nos diz respeito, muitos de nós já começamos a ficar na linha da frente de partida. Salvam-nos os ventos de mudança com o aumento do tempo de vida.
As nossas gerações eram de gente humilde, da aldeia ou da urbe, filhos do trabalho ao cheiro lanífero das fábricas, ou então dos suarentos dias na faina dos campos agrícolas de então.
As novas gerações nem fazem ideia como sopravam os ventos das nossas eras: lugares e aldeias do concelho sem saneamento básico; sem água potável nem eletricidade; à luz de candeeiros de petróleo e braseiras de brasas, com moinha e uma prata por cima, para o aquecimento de inverno; as carnes colocadas no sal por inexistência de refrigeração; a água para consumo, em cântaros, obtida em minas por falta de fontenários; e por aí fora.
No entanto, era gente com palavra, que a mesma fazia lei, nem era preciso ser levada a escrito. A solidariedade não era palavra vã. Durante a longa caminhada, ouvimos dizer que éramos um País em vias de desenvolvimento, e, depois, passámos a um País desenvolvido. Conseguimos sentarmo-nos na mesa dos comensais da União Europeia. O vinho, então distribuído, foi à fartazana. E, como que no milagre dos pães e dos peixes, os cestos das sobras eram bastantes.
O mestre-sala da Organização manda então regar todas as estradas poeirentas com asfalto, e rasgar outras, e outras, e outras.
Alguns velhos do Restelo, de cigarro de onça na ponta dos lábios, preocupam-se com o dia de amanhã, mas os novos do leme, esfregam as mãos, na contagem de tanta massa, que vai chegando numa fresquidão dos tempos.
Entretanto, Chico Buarque já havia profetizado: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor. A minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver a banda passar cantando coisas de amor. O homem sério que contava dinheiro parou, o faroleiro que contava vantagem parou, a namorada que contava as estrelas para ver, ouvir e dar passagem. A moça triste que vivia calada sorriu, a rosa triste que vivia fechada se abriu. E a meninada toda se assanhou pra ver a banda passar cantando coisas de amor. O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou. A moça feia debruçou na janela pensando que a banda tocava pra ela. A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu. A lua cheia que vivia escondida surgiu. Minha cidade toda se enfeitou pra ver a banda passar cantando coisas de amor. Mas para meu desencanto o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar depois que a banda passou. E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois da banda passar, cantando coisas de amor”.

Volvidos 41 anos do 25 de abril, depois da banda passar, o que temos nós? Lisboa com todas as suas decisões e o interior do país deserto, abandonado e esquecido. Um país de doutores no esquecimento dos valores, sem interessar o que se defende mas sim o que se promete. Um país sem justiça em que não interessa o meio para atingir o fim. E tantas ocasiões de ventos ciclónicos que passam a brisas, com políticos a enriquecer sem problemas ou alguém que questione suas fortunas. Bancos que assaltam um país e que o povo ainda ajuda a salvar. Um país sem educação. Quem semeia ventos colhe tempestades. Quando a sociedade global exige níveis de educação altamente sofisticados, em Portugal a educação é o que é, não se podendo reprovar meninos mimados ou malcriados. Uma variedade de ventos indesejáveis que sopram da governação e presidência portuguesa. Oiçam ainda Eduardo Nascimento, porque “o vento mudou e ela não voltou, as aves partiram, as folhas caíram. Ela quis viver e o mundo a correr prometeu voltar se o vento mudar. E o vento mudou e ela não voltou, sei que ela mentiu, p’ra sempre fugiu. Vento, por favor, traz-me o seu amor, vê que eu vou morrer se não mais a ter. Nuvens tenham dó que eu estou tão só, batam-lhe à janela, chorem sobre ela. E as nuvens juraram e quando voltaram soube que mentira, p’ra sempre fugira. Nuvens por favor cubram minha dor já que eu vou morrer se não mais a ter”.

(In "Notícias da Covilhã", de 04.06.2015)

30 de maio de 2015

CRITÉRIOS PARADOXAIS NA ALIMENTAÇÃO

Ainda há pouco tempo se ouvia dizer que o leite era um alimento completo e que deveria ser tomado pelas crianças, jovens e até adultos. Era considerado um superalimento. Um copo de leite bem quente, com mel, no inverno, para a cura duma constipação; ou um copo de leite bem fresco, no verão, satisfaz quem o bebe.
E também ainda não longe nos tempos soava que o café, em demasia, fazia mal.
Na minha infância e adolescência desconhecíamos o que era intolerância ao glúten, que é uma proteína presente no trigo, centeio e cevada – celíaco era uma palavra ignorada; ou à lactose – no leite.
Surgem agora investigações em que, neste contexto, para uns é apontado um papel benéfico o consumo do leite, do café ou dos cereais, sendo que, para outros, os consideram nocivos.
Em que ficamos, afinal?
No caderno 2 do “Público”, de 22 de fevereiro, surgem opiniões diversificadas de responsáveis por esta matéria em termos de saúde.
E assim surge a conjunção “mas” na composição de muitos dos alimentos que comemos, na versão de vários especialistas.
Consumo do leite, “sim, só o materno, enquanto bebés; o de vaca nem pensar…”
Mas outro nutricionista já diz que “sim, tem muitas vantagens”. No entanto, “a proteína do leite de vaca é muito diferente da do leite humano, praticamente o oposto”.
E, numa longa lista de acusações, contra o leite, apontam o elevado teor de gordura saturada que aumenta o risco de doenças cardíacas; e o consumo de grandes quantidades de lactose aumenta as probabilidades de cancro no ovário; ou grandes quantidades de cálcio são um fator de risco para o cancro da próstata e também para a osteoporose. As investigações apontam, neste caso, para o consumo de três ou mais copos de leite por dia.
“Habitualmente consome-se leite numa altura de crescimento, até aos dois ou três anos. Depois disso, não só é dispensável como não é recomendável”.
Entretanto, o coordenador do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável reconhece a existência de uma discussão grande e muita polémica ao redor deste assunto. E afirma que “quem tem dificuldade de acesso a alimentos de qualidade não deveria prescindir do leite”.
Já outra nutricionista aponta, para prevenir a osteoporose, a substituição do leite pelo consumo de couve, brócolos, agrião, rúcula, nabiças, que têm bastante cálcio.
Pois é, “para cada estudo contra o leite, aparece um a favor. A relação entre o consumo do leite  e a doença cardiovascular, por exemplo, a evidência científica é quase nula. Já existe, no entanto, alguma discussão sobre a relação das doenças oncológicas: o consumo moderado parece ser protetor, mas quando em excesso haverá um efeito negativo”.
Na revista “Visão”, de 5 de março, volta a ser referido este tema, sob a pergunta: “Será o leite de vaca bom para os humanos?” E refere que “a intolerância à lactose chega a atingir 70% da população nos países do Sul da Europa e vários estudos apontam hoje o excesso de leite como causa do aumento da incidência de cancro do cólon, ovário, próstata e mama – e, até, de mais fraturas ósseas”.
Curiosidade é a aludida revista 2 do “Público” referir dados históricos sobre o leite, numa referência a um artigo de julho de 2013 da revista “Nature”: “Arqueologia: a revolução do leite”, em que há 11 mil anos, quando a agricultura começou a substituir a caça, as populações do Médio Oriente aprenderam a reduzir a lactose – que não conseguiam digerir por falta de lactase – fermentando o leite para fazer queijo e iogurte; 2500 anos depois, uma mutação genética ocorreu na Europa, mais precisamente na zona da Hungria, dando à população a capacidade de produzir lactase durante toda a vida. “Essa adaptação abria uma nova fonte nutricional que conseguia sustentar as comunidades quando não havia colheitas”. Uma grande parte da população europeia descenderá desses primeiros agricultores que insistiam em continuar a produzir lactase na idade adulta.
Já a revista Visão refere que os primeiros sinais de introdução de laticínios na alimentação humana datam do ano 5000 a.C., pouco tempo após terem ocorrido as últimas mutações genéticas da nossa espécie – precisamente no gene que dá a instrução para a produção da enzima lactase. E, das descobertas havidas, foi afirmado que “pelo menos desde o Neolítico que se consome leite e seus derivados, com vantagens para os povos que o faziam”.
Mas, no Diário de Notícias online, de 6 de março, sob o título “Dieta do Paleolítico: uma moda do tempo das cavernas” é referido que, atualmente, várias pessoas deixam de fora das suas refeições, os cereais, os laticínios, as leguminosas, os açúcares e os alimentos processados, comendo quase como se vivessem na Idade da Pedra. Dizem os adeptos da dieta paleo, inspirada no Paleolítico, que para se manter saudável, perder peso e prevenir uma série de doenças o melhor é alimentar-se como os homens das cavernas: à base de carne, peixe, marisco, ovos, vegetais, fruta e alguns tubérculos. Trata-se de uma ementa que tem vindo a gerar discussão dentro das ciências da nutrição, mas que seduz cada vez mais pessoas.
No que diz respeito ao café, segundo o online “Notícias ao Minuto”, de 3 de março, um estudo levado a efeito por cientistas sul-coreanos, publicado na revista especializada britânica Heart, informava que beber três ou quatro cafés por dia faz bem ao coração. Os cientistas disseram que, no entanto, “serão necessárias mais investigações para confirmar este estudo e determinar a explicação biológica dos supostos efeitos do café para prevenir a obstrução das artérias”. Entretanto, na sua edição online de 11 de março, é referido que o café afeta todas as partes do corpo, promovendo sentimentos bastante distantes dependendo das situações. Segundo aquele diário online, “Os estudos sobre o café são imensos e os benefícios ou riscos associados vão aparecendo, sendo todos eles bastante controversos, dependendo das opiniões dos investigadores”.
Entretanto, a equipa de cientistas dum hospital de Seul concluiu que uma quantidade moderada de café reduz a presença de cálcio nas artérias coronárias, um elemento considerado responsável pela aterosclerose.
Segundo a Visão, todos os efeitos, sejam eles positivos ou negativos, devem-se à cafeína dos grãos de café. No entanto, há outras substâncias como antioxidantes que dão amargura à bebida, um cheiro caraterístico e algumas propriedades saudáveis.
Registo, da revista Visão, o que uma chávena diária de café afeta o nosso corpo, a saber:
Cintura: - Poderá ajudar a perder peso. Em vez de café com leite que representa cerca de 170 calorias, pode-se optar pelo café simples e evitar 160 calorias numa só bebida. Segundo o especialista Nigel Derby, o café, “para além de ser praticamente livre de calorias, pode ainda ser um inibidor do apetite”.
Coração: - Uma chávena de café pode aumentar a frequência cardíaca em 100 batimentos por minuto e esta sensação pode prolongar-se durante uma hora. Pode ainda provocar a contração das artérias, o que aumenta a tensão arterial. Numa pessoa saudável, isto não causará efeitos nocivos e pode mesmo impulsionar a energia e prevenir ataques cardíacos. O excesso de café pode aumentar o risco de ossos quebradiços ou osteoporose, aumentando a perda óssea.
Dentes: -As manchas nos dentes não são culpa do café. A coloração do café é muito superficial, afetando apenas o biofilme, camada fina de bactérias que cobre os dentes e as gengivas, e não penetra através do próprio esmalte.
Hálito: - Este é um facto que ocorre em quem bebe muito café e tem tendência a ter a boca seca. Para além de comer várias vezes ao dia, beber água é também uma boa solução.
Cérebro: - O consumo moderado de café pode reduzir o risco da doença de Alzheimer até 20%, de acordo com um estudo feito no Reino Unido. A cafeína e os antioxidantes presentes no café podem reduzir a inflamação do cérebro e retardar a deterioração das células cerebrais, associadas à memória.
Rins: - O café é diurético – estimula os rins, fazendo com que precise de ir mais vezes à casa de banho.
Pele: - O café pode ter um efeito desidratante no corpo, mas beber regularmente não seca a pele. Positivamente, o café pode estar ligado a um menor risco de cancro da pele, graças aos seus antioxidantes, que limpam os radicais livres e as moléculas ligadas ao cancro e a outras doenças.
Diabetes do tipo 2: - Muitos estudos creem que beber café está relacionado com um menor risco de diabetes do tipo 2. Uma investigação nos EUA concluiu que quem bebia 3-5 chávenas de café por dia tinha menos risco de desenvolver a doença.
Músculos: - Beber café é positivo para os músculos, pois impulsiona-os e fornece-lhes energia. A cafeína incita à queima de gordura por parte dos músculos, para a obtenção de energia, quando esgota a energia fornecida pelos hidratos de carbono. A cafeína ajuda a abrir as vias respiratórias e é semelhante à teofilina, usada no tratamento de asma.
Aqui fica um alerta, ou uma simples informação, tendo em conta os ditos prós e contras nalguns dos “principais” alimentos que tomamos.

(In Revista "ECOS DA APAE", DE MAIO DE 2015)

21 de maio de 2015

O “ESQUECIMENTO” DOS BONS SERVIÇOS DO MEDIADOR

Estou a escrever, com muito prazer, na Liberty em Acção, na minha qualidade de ex-mediador de seguros, ocupação que terminei para me dedicar a outras causas. Mas continuo atento à atividade seguradora, e, qual frenesi, ainda emerge nas minhas veias o bichinho dum ofício onde me realizei.
A mediação de seguros é um exercício profissional de grande trabalho mas aliciante. E quem é que não gosta de ver da parte do Cliente o reconhecimento dos bons serviços prestados pela pessoa em quem confiou os seus contratos de seguro?
Corria o ano da graça de dois mil e quatro, a dois de julho, a meio da manhã daquela 6.ª feira que fez acelerar um pedido do serviço de peritagem, pelo setor de sinistros de incêndio da Liberty. Nesse dia, fora do que era habitual, liguei um pequeno rádio para ouvir notícias, enquanto trabalhava no computador. E as mesmas fizeram-me logo sobressaltar: “Para Caria já se deslocam os Bombeiros da Covilhã, onde já se encontram os de Belmonte, para acudirem ao incêndio que lavra na fábrica de confeções!”
- Fábrica de confeções? Só lá há uma e é minha cliente! Tento entrar em contacto telefónico com alguém responsável pela empresa, desde a administração a alguns funcionários e, nada!
- Ninguém responde!
Para não perder tempo, redigi um fax, apressado, para a Seguradora, dando conta aos Sinistros da Liberty o que estava a ouvir, presumindo fosse uma empresa ali segurada. Entretanto, pedi à solícita responsável pelos Sinistros – Dr.ª Olga Lucena –, para que diligenciasse a urgência da deslocação duma peritagem para um incêndio industrial, urgência agravada por se tratar dum fim-de-semana.
Enquanto se desenvolveram, num ápice, as ações para a deslocação da peritagem, no trabalho de excelência dos Sinistros da Liberty, peritos que se deslocaram de Lisboa, a uma 6.ª feira, em final da manhã, começaram-me a chegar vários telefonemas, entre os quais do administrador da empresa, para que diligenciasse as ações que então já estavam a decorrer. E o “Venha cá, rápido! Venha cá!” levou-me a acalmar os ânimos dos donos da empresa, informando-os de que tudo se estava a desenvolver para, nesse dia, a uma 6.ª feira, da parte da tarde, se deslocar a ansiosa peritagem.
E foi motivado pelo trabalho de mestria da Dr.ª Olga Lucena, ela, nesse dia, uma autêntica “Comandante dos Bombeiros” que se proporcionou que, concluída a peritagem inicial, pudesse o pessoal da fábrica de confeções começar a retirar os escombros deixados pela explosão de uma caldeira que ainda ocasionou que uma trabalhadora tivesse que ser transportada de urgência para os hospitais de Coimbra. Desloquei-me para o local do sinistro, falei e acalmei os proprietários da empresa, assisti à azáfama de retirada dos escombros da parte afetada para que ainda pudessem laborar na semana seguinte.
Entretanto, fora o lamento da inesperada ocorrência, o tempo passou.
Os semanários da região, entretanto, davam a notícia, e, num outro local, surgia um agradecimento da empresa sinistrada, aos bombeiros, aos senhores engenheiros de um outra unidade industrial que ali se deslocaram para ajudar, e agradecimentos a outras pessoas e entidades.
Ao mediador de seguros, nada! Esquecimento injusto, mais tarde reconhecido por alguns É que, se não fossem as suas diligências rápidas e a eficiência do trabalho dos Sinistros de Incêndio da Liberty, já referido, as tarefas, que tanto desejavam, de retirada dos escombros e poderem começar a trabalhar, ainda que limitados, não teria acontecido, e, certamente, teriam de aguardar pela semana seguinte.

A empresa, entretanto, já se encontra encerrada.                  

(In Revista "Liberty em acção", n.º 40, de maio de 2015)

12 de maio de 2015

VALHA-NOS SANTO AMBRÓSIO

Que isto de escrevermos no prazo limite para a publicação é sempre um risco. O espaço de tempo não perdoa todo o que foi dissipado noutras ocupações. E os textos de opinião nem sempre estão a jeito, extraídos do baú de memórias, ou dos acontecimentos mais recentes.
À toa ocorreu-me este santo, para uma de inspiração. Que, de santos, não tenho opções em especial na minha religiosidade. No entanto, tenho em casa, casualmente, o S. Tomé, não uma mas duas imagens do mesmo. E isto porque, aquando da minha rigorosidade profissional, geralmente pedia, nalguns casos, que fosse transcrito para escrito aquilo que, de responsabilidade, me era informado oralmente. Algumas vezes ficavam melindrados. Mas mais aborrecido ficava eu quando queria demonstrar aquilo que me fora transmitido como certo, de viva voz, e, depois, já não era tanto assim. Foi numa situação destas que me levou a adquirir a imagem do S. Tomé, numa de ironia, dizendo aos então detentores da verdade esquecida:
- Queria mudar de santo mas obrigam-me a ter que continuar a acreditar no S. Tomé: “Ver para crer”. Ponham lá no papel o que agora me informam. Confesso que não me dei mal com esta conduta.
E, como não há duas sem três, outro santo – o Santo Antão – esta contada pela voz de um já falecido amigo, o professor Manuel Lourenço Pereira das Neves, de Orjais, uma figura sempre bem-disposta, de grande humor e amigo do seu amigo. E dizia que, em tempos longínquos, no Colmeal da Torre, na festa de Santo Antão, se contava que quando a procissão saía à rua, num desses anos, começou a chover, e a molhada procissão teve que regressar apressada. Os mordomos esperavam que no próximo ano esta situação não surgisse e o povo ficasse assim mais contente. O que é certo e verdade é que, mal o andor do santo entrava no adro da igreja, começavam a surgir uns pingos de chuva e avolumava-se no decorrer da procissão. A maldição parecia que continuava e, então, a esperança renovava-se para o ano seguinte. Não é que, neste terceiro ano consecutivo, a história se repete? Sai o santo para a rua e começa a chover. O desânimo atinge não só os mordomos como também parte da população, que começa a revoltar-se e a atribuir as culpas ao Santo Antão. Então, param o andor e, alguns mordomos agarram no santo, dirigindo-lhe impropérios, e atiram com ele para o ribeiro onde passavam: - Não nos deixas fazer a festa, vais já tomar banho! E acabou-se a história, com o regresso à igreja, sem o santo.
Temos vindo a assistir a acontecimentos que, julgando alguns ser de bradar aos céus, deveria levar muito a ponderar a análise dos factos, mormente pelos que nela se encontram envolvidos.
Reporto-me assim aos professores que chumbaram nas provas de Português e de Física e Química, da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades. O Instituto de Avaliação Educativa deu conta que chumbaram 63,2% dos 68 professores que fizeram a prova de Física e Química e 60,4% dos 106 que fizeram a prova de Português para o 2.º ciclo do ensino básico. E, aqui, o Ministério da Educação tem razão: “Não se pode ensinar bem o que não se sabe muito bem”. Isto já não era estranho, pois quando há ainda professores, não só do ensino básico, como do secundário, que não sabem distinguir quando o “à” leva “h” ou não; quando se escreve “porque” ou “por que”, assim como outras regras ortográficas, o ensino não vai bem. E isto nada tem a ver com o novo acordo ortográfico.
Já no que toca a pedagogia também há algo a dizer. Chegou-me ao conhecimento que numa escola do ensino básico desta cidade, a professora fez uma divisão interna dos seus alunos, com o conhecimento dos mesmos, desta forma: o grupo dos inteligentes, o grupo dos mais ou menos, e o grupo dos do apoio. Como se sentirão os que têm mais dificuldade perante esta classificação? Que motivação lhes vai na alma? Não será que é a professora que necessita de formação?
Voltamo-nos para outro caso, este mesmo tão de hilariante quão de estúpido, do nosso primeiro-ministro, pela forma anedótica como se referiu, na inauguração da queijaria em Aguiar da Beira, teorizando sobre o português que no futuro há-de fazer um país novo, desenvolvido e sem mais invasores troikanos. O exemplo de Passos Coelho não podia ser mais caricato (talvez o muito queijo que ali comera o tivesse levado ao esquecimento) com o símbolo de Dias Loureiro. Disse então este inteligentíssimo primeiro-ministro que ele, Dias Loureiro, “conheceu mundo, é um empresário bem-sucedido, viu muitas coisas por este mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes, metódicos”. É inacreditável o que este governante na liderança do País afirmou, duma figura que foi arguido no caso do BPN. Isto daria pano para mangas.
Mas, neste País em que 1% dos portugueses tem 21% da riqueza de Portugal, os casos sobre casos não deixam de existir.
A esperança, que já foi acentuada, na mudança, começa a ter contornos de perplexidade pelos cidadãos mais sofredores, se isto não vai ficar mais do mesmo, ou parecido. António Costa também já deu uns tiros nos pés, com aquele sms ao jornalista, com pouca paciência para a comunicação social, apesar de ser filho e irmão de jornalistas. Esperemos que o documento Uma Década para Portugal, elaborado por doze economistas para o Partido Socialista, nas suas propostas para o setor económico, se revistam de uma grande eficácia para Portugal, caso vença as eleições.

Mas, para isso, como diz o povo, na sua proverbial sabedoria, é preciso “juízo e cabeça fresca”. Vejam só as sondagens erradas no caso do Reino Unido, acabando por ganhar, contra o imprevisto, o conservador Cameron, numa primeira maioria absoluta desde 1992.

(In "fórum Covilhã", de 12.05.2015)

16 de abril de 2015

O ELOGIO DAS GLÓRIAS

1 - Foi este o título que o amigo Júlio Freches deu a uma crónica inserida no Jornal do Fundão, de 4 de outubro de 1991, sobre os ídolos serranos do futebol de eleição, que, então, pelo pelado do Santos Pinto, se ia praticando, no século passado, proporcionando assim incontidas alegrias a todos os amantes do futebol de primeira.
E não só ao futebol na sua vertente profissional, como também em locais onde se dava lugar às peladinhas, com o frenesim da juventude – Escola Central, Colégio Moderno, Liceu ou Escola Industrial –, ou a figuras, como “o bom Padre Carreto, para servir com fervor a causa divina de atrair a malta para a sua obra evangélica”.
Veio esta crónica na sequência duma homenagem que foi feita a Velhas Glórias do Sporting Clube da Covilhã (SCC), em 28 de setembro daquele ano, de que fui o seu mentor, no seio da APAE Campos Melo, onde era dirigente, e numa altura em que não era fácil, como hoje, dar ênfase jornalística a este tipo de eventos. Viria assim a sair a 2ª edição do meu primeiro livro sobre os Leões da Serra, em 3 de março de 1992, com a inserção deste evento, já que da 1ª edição, muito limitada, foi objeto de oferta de um exemplar a todas as Velhas Glórias presentes nesta célebre primeira homenagem, as quais se deslocaram de vários pontos do País; e às entidades e outros convidados. Houve grande destaque em toda a Comunicação Social, escrita e falada.
Tive, assim, o prazer de fazer inserir esta interessante crónica de Júlio Freches, na página 653 da obra então saída.
Na sua maior parte, os homenageados que estiveram presentes naquele memorável dia de festa; da iniciativa e a expensas da APAE, e recebidos no Salão Nobre da Câmara Municipal, em tempos difíceis da vida da coletividade serrana, num paradoxo em que, apesar da festa, havia algo de tristeza nas gentes serranas pelas notícias de que o clube passava então, em que, inclusive, até as taças da sua sala de troféus se encontravam penhoradas; já não fazem parte do número dos vivos. Fica, assim, a saudade.
No âmbito do dirigismo do clube serrano, foi uma das Velhas Glórias já falecidas – José de Sousa Gaspar –, seu antigo Presidente da Direção, que teve a amabilidade de aceitar fazer o prefácio de “Subsídios para a História do Sporting Clube da Covilhã”.
É a José de Sousa Gaspar, que, tendo sido meu bom amigo, dedico o texto a seguir, que escrevi nas Penhas da Saúde, no dia 1 de setembro de 2008, onde me encontrava de férias, e ele também, com os seus sobrinhos. E aos Leões da Serra que, nesta época, está a fazer um bom Campeonato, num almejo de alcançar a I Liga do Futebol Português. Neste agigantar, não perca a vereda para o caminho desejado e que, aí, crie um baluarte.
2 - São dez e vinte da manhã de sábado e ainda quase todos se encontram no vale de lençóis. Sento-me numa pedra e estendo os olhos para o horizonte, à minha direita. Ali, o ruído da água que corre, algo lenta, num regato. O ladrar dos cães, ao longe. Uma senhora que passa com um carrinho de bebé, e lá surge um casal a aproveitar o ar fresco e salutar da manhã, caminhando duma vereda de giestas.
Um dia lindo, de sol, com um leve ventinho a condizer, e com a alegria da Natureza.
As casas continuam em sossego, com um outro ruído pela passagem de um carro. No Café Estrela, e no Lindeza, ainda não se vislumbra gente para a bica matinal.
Os pássaros dão-me os bons-dias, ao passar por debaixo das árvores. Estas, orgulhosas da sua fotossíntese, ou seja, da sua função clorofilina, para o seu verdejar, como que numa saudação ao principal clube citadino, vão-se afunilando em forma de catedral, como que a simbolizar a sede da coletividade serrana. Aqui e ali, salpicos de amarelo de relva bravia.
A água continua a correr tranquila, sobre umas pedras que vão surgindo, imóveis no seu banho perene, surgindo, aqui e ali, em direção ao vale, em pequenos rápidos, ou cascatas.
A ponte de pedra de acesso à zona do casario onde se situa o Café Estrela e a desaparecida piscina é de paragem para alguns companheiros. Avistam-se as traseiras do hotel e os bungalows. Alguns bocadinhos de terrenos cultivados. Como é bonita a Natureza! Como é linda a Serra da Estrela!
Enquanto subo uma vereda, as borboletas multicolores vão beijando o chão, no caminho até à estrada alcatroada. Um pássaro assustado levanta voo à frente do nosso lento caminhar, enquanto nos aproximamos da estrada onde passam dois ciclistas.
Uma caminhada destas no sossego matinal, na apreciação indelével, na reflexão, é uma autêntica ovação a Deus!
Na esplanada d’“O Pastor”, um cafezinho com a leitura do jornal. Descendo a Pousada da Juventude, com uma placa por detrás que indica “Baldios das Cortes do Meio – Curral do Vento”, outrora fôra a Colónia Infantil da Montanha, onde estive numas férias, na adolescência, transportado, juntamente com um irmão e irmã mais velha, e muita outra criançada, em camionetas de caixa aberta da Câmara Municipal.
O autocarro da Auto Transportes do Fundão aguarda, fazendo lembrar as antigas camionetas do José Nunes Correia & Filhos, Lda, cujos escritórios e oficinas se situavam ao fundo da Escola Industrial, junto à Cadeia, no términus da Rua Vasco da Gama, no cruzamento com a Calçada Alta, e, ao fundo, uma rua estreita de terra batida, com casas baixinhas, de um só piso, chamada Rua Cruz da Rata.
Numa zona de pequenas propriedades – quintas – exploradas pelo casal Carrola, ali perto se fazia um mercado de suínos, e, mais abaixo, numa outra quinta – da D. Glória – foi aí construído o então novo Liceu. Em frente, a Escola Industrial.

Mas, neste alongar de recordações de tempos de outrora, na inspiração dos ares puros e fortes da Serra da Estrela, com as memórias do Sporting da Covilhã nos tempos áureas da I Divisão Nacional, regressa o pensamento ao local inicial – as Penhas da Saúde – e, já um tanto ou quanto perto, vejo um grupo de amigos passeando na estrada. Após os cumprimentos surge a conversa com o sempre amável José de Sousa Gaspar. Desta vez, a recordação do que é e o que foi a Serra da Estrela!... E, como não podia deixar de ser, também o nosso Sporting da Covilhã. Estavam ali, de facto, dois “Sócios de Mérito” dos Leões da Serra e, ele, também “Sócio de Mérito” da Associação de Futebol de Castelo Branco.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 98, janeiro a abril de 2015)

SENTIR


É este o primeiro número do ano 2015 pelo que vai uma saudação para todos os antigos Combatentes, suas famílias, e quantos nos acompanham; quer como associados, amigos ou simpatizantes, quer como leitores deste órgão; nas memórias e consequências dum tempo das suas vidas, que jamais será dissipado.
O Combatente da Estrela pretende ser o transmissor, de todos os que se irmanam, desse SENTIR.
É, de facto, ao redor de um grupo de antigos Combatentes, a que se juntam outros que cumpriram o serviço militar obrigatório, e não foram mobilizados para o Ultramar, ou lhe deram continuidade, bem como situações diversas, nomeadamente as familiares, que, desta forma, se proporciona um certo conforto neste meio social em que todos são envolvidos.
 As vivências duma realidade passada, numa obstinação dos governantes de então, que preferiram ver a juventude portuguesa a servir de sustento para as suas pertinácias de manter um império a qualquer preço, sobrepuseram-se, nas suas mentes governativas, àquilo que viria a ser muito penoso para a vida de muitos antigos Combatentes, e suas famílias. Uns pagaram esse preço com a sua vida; outros, com o sofrimento contínuo das suas incapacidades físicas; outros ainda, e quase todos, na envolvência de problemas de stress pós-traumático.
Só após a Revolução dos Cravos se reuniram de imediato consensos políticos para se evitar mais sofrimento e perdas humanas, tanto para um lado como para o outro, reunindo os irmãos desavindos na fraternidade de um acordo de aderência à compreensão.
No entanto, das passagens pelo terror surgem hoje más memórias, com todos os efeitos nefastos que se fizeram sentir.
Certamente que, também hoje, em tempo de democracia, as condutas dos homens que conduziram os destinos da Nação de outrora, seriam impensáveis, naqueles moldes em que toda uma juventude dos anos 60, e primeira metade dos anos 70, se viu constrangida a uma obrigação, pegando em armas, deixando empregos ou adiando a entrada nos mesmos; deixando famílias, fossem casados ou solteiros; e alguns mesmo com maleitas.
Neste ambiente de muita confraternização que vai existindo ao redor duma Liga de Combatentes, já com Tertúlias que, no caso covilhanense, vai engrossando em número, quase sempre ultrapassando a centena; ainda que independente do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes; surgem muitas amizades. Afinal, todos viveram, duma forma ou doutra, situações adversas com que não contavam. É assim aqui um ponto de encontro, um escape, um qualquer lenitivo.
Outros eventos de cariz recreativo se vão espraiando por outros lugares, para arejo mental, descobrindo ou recordando encantos duma parte do Globo, ao invés das picadas por que muitos Camaradas passaram, noutras zonas deste Planeta. Há sempre o SENTIR de camaradagem nestes ambientes, também gerador de amizades.
O SENTIR, de dentro para fora e de fora para dentro. O antigo Combatente, que foi mais ou menos sofredor, chegou à conclusão que o stress pós-traumático, como atrás foi referido, com maior ou menor incidência, tem-no dentro de si, e, consequentemente, afeta também a sua família. É assim que, esta perene impressão, física ou moral, esta sensibilidade, leva também a olharmos de dentro do nosso íntimo para o Camarada que carece de apoio, porque a sua tranquilidade não existe, dia e noite. E aí está a ação de uma Psicóloga, que tem ajudado, num esforço de atenuar problemas psicológicos, muitos antigos Combatentes.
O SENTIR, dentro do espírito dos responsáveis da Liga dos Combatentes, extravasa tudo o que possa ser a interioridade de um bem-estar pessoal, e pensa nos Camaradas que morrem, tentando a sua junção, no local próprio, em terreno adquirido no Cemitério.
Mas também é de fora para dentro que o antigo Combatente Covilhanense vai encontrar algum bálsamo divino, nas preces para sufragar as almas dos mortos, e no agradecimento à Virgem, em Fátima, com uma Peregrinação anual, exclusiva do Núcleo da Covilhã, bastante concorrida.
Neste SENTIR do antigo Combatente, que o foi por obrigação e não por vontade própria, terminada que foi a guerra, dele emergiu a amizade, uma amizade entre irmãos que se procuravam eliminar entre si. E até uma nostalgia de passagem pelos lugares sofredores, físicos ou psicológicos, onde as suas vidas poderiam ter o prazo de validade consumado.
Alguns já se deslocaram às antigas Colónias, onde estiveram como militares, em missões mais sensíveis, enquanto outros, naquela de nostalgia, e num rasto de amizade granjeada, ali se deslocam e levam algo do que os africanos mais necessitam, como roupa, calçado ou material didático.
Neste mês de abril, o antigo Combatente Francisco José Rebelo Pereira Nina, desloca-se, pela quarta vez, à Guiné, com custos seus, onde cumpriu a sua missão, de 1972 a 1974.
É sempre com grande entusiasmo que ele, e a comitiva onde se integra, é recebido pelos guineenses, reforçando sempre a amizade.
Afinal, uma guerra terrível em três frentes iniciais que o foi, para quê? A mesma não poderia ter sido evitada? Evidentemente que sim.
Se ela não existisse, não estaríamos integrados na Liga dos Combatentes porquanto, atualmente, já serão somente os Combatentes das Guerras de África que dão força à sua existência.
Se não existisse a Liga dos Combatentes era sinal de que tínhamos vivido sempre em paz. 

(In "O Combatente da Estrela", N.º 98, Janeiro a Abril de 2015)

15 de abril de 2015

É PRECISO COLORIR O 25 DE ABRIL

Os campos também eram verdejantes. Aqui e ali por vezes amarelecidos pelo abandono dos que neles trabalhavam. A emigração fazia vestir de cinza os que partiam, e cinza escuro os que ficavam. O céu azul por vezes criava uma pequena auréola, ou se toldava da fumarada de muitos que, pensativos, sem feitio ou arrojo para passarem de assalto a fronteira, permaneciam taciturnos, no contínuo de uma cigarrada e um copo de três. E o que havia ido às sortes via o tempo acelerar. Bem depressa chegava a altura de ir à Câmara Municipal buscar as guias de marcha para partir no comboio que o havia de transportar o mais próximo do quartel. Aí iria fazer a recruta. Que passava depressa. E a especialidade era um ai, noutra unidade militar. A ordem de serviço do quartel dava-lhe a notícia de que estava mobilizado. Na estação de caminho-de-ferro tapava os ouvidos e cerrava os olhos para não ouvir, e nem sequer ver aquele que também chorava, no acompanhamento do choro dos familiares, na despedida para o Ultramar. Era para uma missão de soberania!
As notícias ocultavam-se neste país de brandos costumes, que isto de ser apanhado na fronteira, como compelido, refratário ou desertor, no processo a instaurar por via do Regulamento de Disciplina Militar, lá teria que responder que “aos costumes disse nada”.
Os que por cá foram passando à peluda viam chegado o tempo de procurarem um novo emprego. Melhor. Mais remunerado e com possibilidade de subir na carreira. O êxodo dos que trabalhavam na função pública era um tanto ou quanto flagrante. Não interessava tanto este emprego, quase garantido para toda a vida. Aqui, era preciso ter o 5.º ano liceal, ou equivalente, para ter acesso na carreira. Mas, num armazém de lanifícios, ou num escritório, com a 4.ª classe tinha-se possibilidade de ganhar o dobro. A apetência era então pelo setor bancário. Também se concorria para a TAP, a CUF e outras empresas de alto gabarito. Mas, passados anos, alguns ainda que com cursos industriais, mandaram os mesmos às malvas, que a indústria então já não é o que era, e encaixavam-se na Segurança Social, num Banco, numa Seguradora, num Centro de Emprego…
Os noticiários e toda a comunicação social, falada ou escrita, sofriam ainda o domínio da censura. Era também o tempo da Guerra Fria. Passando ao lado da mesma, e, na sequência da nossa guerra, lá se sabia que o Zé, da aldeia, também foi chamado para ir formar Batalhão, para Angola, para Moçambique, para a Guiné.
A Pide, o assassínio do General Humberto Delgado, o assalto ao paquete “Santa Maria”, e ao quartel de Beja, ainda não estavam esquecidos. Produziam-se cores negras.
“Cuidado com as conversas aqui porque há por aí bufos da Pide” – voz amiga avisava, baixinho, ao ouvido, no Café Central, do Neve Hotel, já desaparecido da Covilhã. Como também nos já desaparecidos cafés de referência citadinos – o Montalto, o Leitão, a Pastelaria Lisbonense, A Triunfo (ao Jardim), o Danúbio. Mantém-se somente o café Montanha.
Era a altura de se ouvirem, muito em segredo, à noite, as proibidas “Rádio Liberdade” ou “Rádio Portugal Livre”, da Argélia, que se iniciou em 12 de março de 1962.
Os terríveis anos 60 e primeiros de 70 continuavam a fazer jorrar uma juventude lançada numa guerra sem sentido. A revolta, tantas vezes traduzida em stress pós-traumático, dos que regressaram com vida, era quase sempre ofuscada pelos próprios. Mas a morbidez da continuidade duma guerra em várias frentes, começava a assustar as futuras gerações.
Ia-se adivinhando que alguma coisa teria que mudar, ainda que à força. A oposição democrática, no Congresso de Aveiro, decidiu não participar nas eleições fantoches. Estávamos em 1973.
No Teatro-Cine da Covilhã, homens e mulheres afetos à União Nacional e a Marcelo Caetano, que gostavam das suas “Conversas em Família”, na RTP, ouviam agora as vozes vibrantes dos seus oradores, entre os quais o deputado pelo círculo de Castelo Branco, Dr. Rui Pontífice de Sousa, do Tortosendo, que viria a falecer de acidente automóvel, pouco tempo depois. No raio de alguns metros, também no Pelourinho, num andar já demolido do extinto Neve Hotel, reunia-se um grupo de oposicionistas, da Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Também lá estive.
Na Guiné, o General Spínola começava a dar nas vistas. O seu livro “Portugal e o Futuro”, veio dar uma ajuda à reviravolta, abalando o regime ditatorial. O 25 de abril de 1974 aproximava-se!
No dia 14 de março, Marcelo Caetano recebia oficiais-generais dos três ramos das Forças Armadas, numa reunião que ficou conhecida como “Brigada do Reumático”, no intuito de tentar provar que o regime tinha tudo sob controlo. No dia seguinte, eu lia em Lisboa, no “Diário de Notícias”, a notícia da demissão dos generais Costa Gomes e António de Spínola por se terem recusado a participar naquela reunião.
Na manhã daquele sábado, 16 de março, no regresso à Covilhã, algures na estrada, cruzámo-nos com uma coluna militar, todos de semblante carregado. Vinha eu de boleia com o amigo Humberto Andrade. Só mais tarde viemos a saber ter-se tratado do golpe militar, falhado, do Regimento de Infantaria 5, de Caldas da Rainha, que marchava sobre Lisboa.
Mas, na 2.ª feira, 18 de março, a censura prévia acabaria por ser iludida pelo jornal “República”, duma forma brilhante, para comentar a revolta das Caldas, como poderemos ver, aproveitando a derrota do F.C. Porto, na deslocação ao Estádio de Alvalade, com o Sporting, por 2-0: “Os muitos nortenhos que no fim-de-semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos pela derrota. O adversário da capital, mais bem organizado e apetrechado (sobretudo bem informado da estratégia), contando ainda com uma assistência fiel, fez abortar os intentos dos homens do Norte. Mas, parafraseando o que em tempos dissera um astuto comandante, “perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra”…
Entretanto, num outro fim-de-semana, também no meu regresso de Lisboa para a Covilhã, de âmbito profissional (acompanhava-me na viagem o Joaquim Cravino, que cumpria serviço militar), na habitual paragem em Ponte de Sor (ainda não havia a A23), o proprietário do café onde entrámos, conhecido por oposicionista ao regime, fazia questão de nos informar e orgulhava-se de já ter adquirido o livro do General Spínola. Era a revolta que extravasava principalmente na classe média.
E, finalmente, às 22,55 horas do dia 24 de abril, os Emissores Associados de Lisboa transmitiam a canção “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, primeiro sinal do MFA, confirmando que tudo corria bem. No dia seguinte era o 25 de abril que a todos deixou deslumbrados.
E, porque a partir daqui já muito foi fito, e redito, ficam no pensamento todas as cores com que se festejou este grande acontecimento, pelo País fora, e não só. Entretanto, jamais pensaríamos que, volvidos 41 anos, Portugal retrocedesse tanto nos ideais da Revolução dos Cravos, e que hoje, as cores do 25 de abril tenham desmaiado fortemente.

Os cravos murcharam! É preciso voltar a fazer colorir o 25 de abril!

(In "Notícias da Covilhã", de 16-04-2015)

14 de abril de 2015

O FAZ-DE-CONTA

Nunca estivemos tão rodeados de um ambiente de fantasia ou fingimento, neste mundo da imaginação, como nos tempos que vão correndo.
Certamente que muitos dos antigos, que já partiram para o além-mundo; esses homens em que a palavra, sem jura, era suficiente para ditar lei; se hoje assistissem a este estado de coisas, não deixariam de ter um bocejo, e, contemplativos com estas vivências, ficariam atónitos.
Estamos vivendo num tempo em que faz-de-conta que tudo corre normalmente; faz-de-conta que nada aconteceu de mal que nos atormente.
E, pasme-se, até faz-de-conta que na terra d’el-rei D. Aníbal I, e do 1º Ministro, Marquês Passos, há presos políticos quando existem, mais precisamente, políticos presos.
“O que hoje é verdade, amanhã é mentira”, foi uma expressão tomada por um antigo dirigente desportivo vimaranense, sendo certo que, tal conduta paradoxal, ainda hoje continua. Vamos ficando cada vez mais incrédulos e desacreditamos em tudo; enfadados e aborrecidos.
Não há respeito pelas ideias e convicções de cada um, neste país democrático, em que a democracia tantas vezes é amordaçada mesmo por aqueles que a apregoam.
Dar a cara, para alguns, passou a ser uma atitude de medrosos, e, então, vai daí, opta-se pela pusilanimidade, agora muito em voga em blogues anónimos; ou, então, em figuras fictícias (qual método pidesco) introduzidas nas redes sociais, nomeadamente no facebook. Com esta infame encarnação, neste faz-de-conta de que é real, procuram estar atentos ao corrente das ideias “subversivas” daqueles onde se intrometem como “amigos”, ou de quem os rodeiam, e, sempre que possível, no ensejo para lançar farpas aos seus adversários, transformados em inimigos.
Muitos são os que subiram à montanha, com os seus apaniguados, e pregaram o sermão anunciando ter sido eleitos para a todos servir, mas depois deixaram de conhecer o significado “sem exceção”. E o ódio é a arma que passa a imperar, por via de insultos, e outras formas grotescas de se evidenciarem, numa chamada de atenção para aquilo que foram, que fizeram, da obra feita e inacabada. Em vez de ajudar a cidade e seu concelho, talvez lá na sua intimidade exista um certo desejo de ver a terra queimada, para depois, talvez um dia, surgirem regressados como os salvadores da Pátria.
Será que, por outras bandas deste Portugal, esta conduta dos derrotados é tão acirrada; numa ajuda ao descrédito da Terra cujos destinos geriram anteriormente; proporcionando assim o aproveitamento de outras, onde os interessados se vão instalar, por haver menos alarido?
Entretanto, nesta cena boçal, cai o pano deste 1º ato.
E a peça recomeça com o 2.º ato, neste faz-de-conta que ele não existe. Os atores são agora outros. Também quiseram subir à montanha, e, com o seu sermão diferente, que fez reunir mais discípulos, verificou-se que os mesmos se dividiram porque começaram a falar outras línguas, e, por isso, nem todos se entendiam.
Depois de algumas traduções do sermão da montanha, alguns aderiram, por partes, à voz apelativa do senhor do cajado. Não se esqueceram que a peça se intitulava “Faz-de-Conta”, e, vai daí, começaram a encenar.
Através de um pequeno janelo ouvem-se vozes que querem interromper a peça. Um dos atores diz que “Faz-de-conta” que não ouviu; outro dos atores diz que “Faz-de-conta” que é legal; e, um terceiro ator, mais afoito: "Faz-de-Conta” que precisamos de mais quatro atrizes. E, ainda um último ator referiu: “Faz-de-conta” que as atrizes nos exigiram 2500 euros mensais; que as “girls” foram um contributo municipal para o “Dia Internacional da Mulher”.
Bom, isto não teria nada de anormal se não fosse o “Faz-de-Conta” que, no poder, a qualquer nível, são todos iguais!... ou, pelo menos, parecidos.
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Pois é assim, senhora arquiteta Helena Roseta, Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, não é só aí, por esses ares lisboetas, Tejo à vista (nós também cá temos o Zêzere que o faz engrossar) que os partidos “estão muito condicionados” e por isso “deixaram de ser espaços de liberdade”. Por todo o Portugal, e nesta região beirã, há mas é liberdade a mais, e, assim, já estou na mesma linha da sua interrogação: “Querem que na política só estejam, ricos e corruptos?”
É por estas e por outras é que, segundo um estudo realizado pelas Seleções do Reader’s Digest, é a política uma das áreas em que os portugueses menos confiam, numa percentagem de noventa e seis por cento. Assim é na política atual. Enquanto se está no poleiro é que é de aproveitar. Faz-de-conta que é para bem do povo. Que o mesmo é sereno e, isto de alaridos é só fumaça.
Talvez fosse novamente oportuno surgir o discurso do Zé Povinho e o reaparecimento de “Os Ridículos”, para animar a turba, que anda desanimada.

Neste descrédito, até rogo aos Prezados Leitores o favor de “fazerem-de-conta” que nem sequer escrevi este texto.

(In "fórum Covilhã", de 14-04-2015)

25 de março de 2015

DO BACALHAU COM HISTÓRIA À ESTÓRIA DO BACALHAU À ASSIS

São os portugueses os maiores consumidores de bacalhau no mundo, e que o sabem cozinhar melhor, de várias formas (entre elas: bacalhau à Zé do Pipo, bacalhau à lagareiro, bacalhau com broa, bacalhau com natas, pataniscas, suflé de bacalhau, bacalhau de cebolada, caldeirada ou filetes de bacalhau, pastéis de bacalhau, bacalhau cozido com couves, bacalhau assado, arroz de bacalhau, bacalhau no forno), constando haver mais de mil receitas de bacalhau, o que faz com que surjam pratos de excelência. É assim que o bacalhau é sempre fiel à nossa mesa, e, por isso mesmo, intitulado o “fiel amigo”.
A crise até pode estar a conter o consumo, mas o bacalhau não perde o seu lugar de honra à mesa, sobretudo na época natalícia.
A relação com o fiel amigo tem séculos. Segundo várias fontes, o bacalhau tem uma longa história e a presença do bacalhau na dieta dos nossos maiores, ricos, pobres ou remediados, presume-se anterior à fundação da nacionalidade, antes mesmo da constituição do Condado Portucalense.
Portugal, que consome 25% do bacalhau que se pesca em todo o mundo, viu o primeiro acordo que oficializou a existência de embarcações nacionais na pesca do bacalhau, em 1353, entre D. Afonso IV e Eduardo III da Inglaterra, permitindo aos portugueses irem pescar nos mares do Norte.
O auge da pesca do bacalhau surgiu em 1950, tinha então Portugal 70 embarcações, desde arrastões a lugres e veleiros.
Aqueles que têm uma idade mais avançada, como eu, ainda se devem recordar do tempo em que o Estado Novo apostava na captura do bacalhau, promovendo-a como uma forma de regresso de Portugal à sua vocação marítima, isto na mente do controverso patrão dos mares e do bacalhau português, que deu pelo nome de almirante Henrique Tenreiro. Este homem, de má memória para muitos portugueses, tendo começado em 1936 apenas como delegado do governo junto do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau, num vincado espírito de aventura, conseguiu criar um poder de tal forma que, quase se pode dizer, permutou o bacalhau por um “polvo” com muitos tentáculos, entre os quais, a chefia da Legião Portuguesa, a comunicação social, mormente na extinta publicação do regime – “Diário da Manhã”; Fundação Salazar, Liga dos Amigos dos Hospitais, e outras. Conseguiu assim forte poder e protagonismo tornando-se muito poderoso naquele regime. Uma das suas criações interessantes foi a “Bênção dos Bacalhoeiros”, uma cerimónia anual, que os jornais e televisão davam grande ênfase na partida dos lugres para os mares do Norte. Aquando da revolução do 25 de abril de 1974 fugiu do Quartel do Carmo, disfarçado de “ceguinho”.
Voltando ao bacalhau, também pela Covilhã o fiel amigo surge garbosamente por muitos e variados pratos, quer nas mesas dos restaurantes, quer das casas particulares.
Um deles, que agora se deseja “ressuscitar” – o “Bacalhau à Assis” – com que muitos covilhanenses e outras gentes se deliciaram, até à década de setenta do século passado, tem uma história interessante da sua génese.
E conta Jorge Assis que a receita que tem divulgado, através de tertúlias com amigos, sem qualquer aspeto lucrativo, foi criada por seus pais, Sr. Henrique Maria Assis (A-SI), e D. Rosa Fortuna, há mais de oito décadas, nas Penhas da Saúde – Serra da Estrela, numa pensão – restaurante existente no local onde se situa a casa do montanhismo, os quais, surpreendidos por um forte nevão, lançaram mão dos últimos alimentos que lhes restavam e inventaram esta saborosa receita para saciar umas famílias amigas da Covilhã e Tortosendo com casas ali perto, as quais ainda hoje lá existem.
O que é certo e verdade é que este excelente prato – batizado desde então “Bacalhau à Assis” – não mais deixou de ser confecionado pelo seu autor, na aderência de muitos admiradores, até que desapareceu da mesa dos Covilhanenses, com a saída da Covilhã e posterior falecimento do seu autor – Sr. Henrique Assis – figura que deixou rastos de muita amizade e simpatia, no meio industrial desta Cidade e covilhanenses em geral.
Há alguns anos os filhos, que já não residem na Covilhã (eram oito e estão ainda vivos, o Júlio, Henrique e Jorge) têm vindo a promover uma Tertúlia nas Penhas da Saúde, em setembro, onde se juntam umas boas dezenas de amigos convidados para saborearem, numa de nostalgia, o excelente prato “Bacalhau à Assis”.
Esta receita consta num livro que Maria de Lourdes Modesto publicou sobre as várias ementas de cada zona das províncias portuguesas.
Jorge Assis, o filho, que é quem confeciona atualmente o belíssimo prato, no passado dia 28 de fevereiro, na Casa da Covilhã, em Lisboa, para cerca de 70 pessoas, voltou a alegrar os convivas, aproveitando para fazer um workshop com divulgação da receita e confeção.

(In "Notícias da Covilhã", de 26-03-2015)