18 de outubro de 2015

CHEGÁMOS!


Neste ano da graça de dois mil e quinze, mês de outubro, completámos cem números de “O Combatente da Estrela”.

Podemos agora voltar-nos para o que foi o “antes”, o que está sendo o “durante”, e o que poderá ser o “depois”.

São três fases do tempo daquele tempo que tem a nossa vida: para uns mais longa, para outros mais curta.

Seja como for, entre virtudes e defeitos se fez a vida humana. E foi, é e será, nesta forma comportamental de cada um; mais dinâmica ou menos ativa, mais tolerante ou de índole agressiva, na tez de serenidade ou no semblante neurótico, cada qual com a sua alma assim tatuada, entre considerações e repulsas; que assim se construiu ou vai arquitetando o espaço temporal das nossas existências.

E é assim que, na amálgama de conceitos, mas no respeito pelo mundo que nos circunda, nasceu este pequeno jornal, na sua forma, mas grande na sua generosidade de querer fazer chegar, ao maior número possível de leitores, aquele abraço no sentir de quem passou por uma parte dura da História de Portugal.

Mas também, como órgão de cultura, várias facetas da vida citadina, onde nos inserimos e, por isso, e por natureza, também onde poisam as nossas preocupações.

O tempo vai caminhando veloz, mas a parte integrante dos acontecimentos que constituem muitas páginas da História de Portugal; daquela juventude que nós fomos, dos anos sessenta a setenta do século XX, em que surgiu a bravura na defesa da Pátria, a dor dos companheiros que se viram tombar em combate, lá longe, longe das famílias, as marcas indeléveis na carne, ou a doença depressiva que todos trouxeram, numa incompreensão dos senhores da Nação de outrora; jamais se poderá dissipar, e é nas páginas de “O Combatente da Estrela” que muitos testemunhos, notícias, reportagens, entrevistas, ou textos diversos dão o sinal de que a História das Guerras em África terá que continuar a ser lida, meditada, por tudo o que se passou, e, também, por tudo o que não querem assumir como reflexo dessas lutas fratricidas de então.

Durante o espaço que medeia entre o primeiro número de “O Combatente da Estrela” que viu a luz da gráfica em janeiro de 1988 e este mês de outubro de 2015, nos seus cem números, os obreiros do jornal, que durante muito tempo quase se reduziram ao trabalho desdobrado do seu Diretor, o mesmo desde início, muitos acontecimentos surgiram na vida da Liga dos Combatentes, da Cidade e do País.

No seio da Liga, muitos foram os que deixaram o mundo dos vivos, alguns prematuramente. Todos foram respeitados no simbolismo fúnebre e na recordação das suas memórias com inserção da notícia, com foto, neste periódico. Também nas transladações para o espaço próprio nos Cemitérios Municipais, e nas romagens em cada 1.º de Novembro.

Depois, há a preocupação dos que ainda vivem o resto das suas vidas, e, daí, a persistência na construção do tão almejado Centro de Dia e Lar de Terceira Idade, conforme temos dado notícias neste jornal, sempre que oportuno.

As notícias também têm vindo a lume, neste periódico, sobre as consultas psicológicas gratuitas, no apoio que a Liga dá aos seus Associados, e não só, também a todos os antigos Combatentes que à mesma se dirijam.

A solidariedade também se estende aos mais necessitados.

Embora separado da Liga dos Combatentes, como organização particular, mas de antigos Combatentes, que emergiu do que surge na Tabanca de Matosinhos, onde alguns antigos Combatentes da Covilhã ali se juntaram aos seus colegas, no encontro por que é conhecido o local de encontro, todas as quartas-feiras, de ex-Combatentes da Guiné, hoje Guiné-Bissau, para um almoço de confraternização, surgiu a Tertúlia dos Combatentes, cujo evento temos dado conhecimento nas páginas de “O combatente da Estrela”.

Todos os meses se reúnem, num restaurante da cidade, para um almoço, antigos Combatentes, cujo número vai crescendo, sempre ultrapassando a centena de participantes. A anteceder o almoço costuma haver uma caminhada, ou, quando tal não é possível, mormente no inverno rigoroso, reúnem-se os antigos Combatentes num café para conversar sobre determinado tema, ou, então visitas culturais, como foram ao Museu de Arte Sacra, Universidade da Beira Interior, etc.

A espiritualidade também não fica sem lugar e então há anualmente uma peregrinação a Fátima. O lazer e recreação também estão presentes na Liga dos Combatentes, pelo que são várias as viagens programadas para os associados, seus familiares e amigos, de cujo relato damos notícia n ´”O Combatente da Estrela”.

Como não podia deixar de ser, na preocupação com os seus associados, e no âmbito cultural, têm-se organizado algumas Conferências, com debate, alusivas a vários temas, mormente sobre a situação dos antigos Combatentes.

O “depois” passa incondicionalmente pela continuidade da caminhada que os obreiros da Liga dos Combatentes estão a fazer, e, neste contexto, também “O Combatente da Estrela” será o elo de ligação entre as suas estruturas e os seus associados e leitores em geral, ao serviço da Cidade Covilhanense, e seu Concelho, ao qual pertence.
(In "O Combatente da Estrela" - N.º 100 - Edição Especial - outubro 2015)

13 de outubro de 2015

VITÓRIA DE PIRRO


Contra ventos e marés a coligação Portugal à Frente (PaF), sem sensação, face às últimas sondagens, acabou por vencer as eleições legislativas, saindo vencido o Partido Socialista (PS) que, meses antes, era dado como partido vencedor, incontestavelmente na opinião pública e no próprio seio das gentes da direita.

No entanto, a vitória da PaF, constituída pelo PSD e CDS/PP, com os seus 38,6% de eleitorado contra 32,4% do que votou no PS, acabou por ver dissiparem-se as grandes alegrias das suas gentes face às indecisões sobre a obtenção de maioria absoluta ou relativa.

E os seus semblantes começavam então a ser diferentes quando uma brisa soprava na direção da esquerda.

Mas neste intervalo até aos resultados finais, algumas coisas iam emergindo, entre aqueles que sempre se consideram vencedores mesmo perdendo – caso da CDU, aos grandes vencedores: Catarina Martins, do Bloco de Esquerda (BE) e as próprias sondagens que vinham sendo desacreditadas.

O líder do PS, António Costa, foi o grande derrotado da noite eleitoral. Depois de tanta austeridade durante quatro anos, tinha a obrigação de ganhar as eleições legislativas. Para além de culpa própria que se traduziu em vários fatores, como ter acreditado na corrida da lebre e da tartaruga em que ele representou a lebre, e ao sair-lhe o tiro pela culatra na expressão do “soube a pouco” que levou o seu antecessor António José Seguro (ele um dos vencedores) a ser traído a meio do campeonato de líder do seu partido, viu também na esquerda, mormente da parte do Partido Comunista, erguerem-se os manguais da malha no PS ao invés da Coligação PaF.

E, falando de campeonato, os vencedores Passos Coelho e Paulo Portas tiveram, ao longo da legislatura, a parcialidade do árbitro que sempre fora nomeado, Cavaco Silva, sem que lhes mostrasse o cartão amarelo e muito menos o vermelho.

No terreno do jogo, ainda surgiram algumas expulsões como Marinho e Pinto, do Partido Democrático Republicano, e, quando ainda se encontrava no aquecimento, o jogo acabaria por terminar sem ser utilizado Rui Tavares, do partido Livre. Para já não falar nas memórias de Sócrates.

Dos mais de nove milhões de eleitores inscritos, 56,89% exerceram o direito de voto, sendo que, ao contrário do que as projeções anunciaram ao início da noite, neste caso para gáudio da PaF, a abstenção também quis ganhar, sendo a mais alta de sempre em eleições legislativas, com 43,11% de eleitores a não irem às urnas.

Voltando ainda à final do campeonato governativo, como foi possível que os mais de cinco milhões de “espetadores” que entraram nos vários estádios e introduziram o seu bilhete nas urnas da esperança, aceitaram continuar com a equipa técnica geral quando houve quatro anos de austeridade, desemprego, emigração, sacrifícios de vária ordem e um treinador novo anunciado no partido da oposição, e de mais de cem mil jovens por ano a procurarem outros clubes no estrangeiro, a custo zero, em detrimento de Portugal que os preparou e neles investiu fortemente?

Acontece porém que, no rescaldo após o jogo, já na fase das entrevistas dos jornalistas, nos balneários, se chega à conclusão que, afinal, a vitória do clube Portugal à Frente não vai chegar para passar a eliminatória. É uma vitória amarga. É que há mais clubes interessados em não descerem de divisão e se manterem no “arco da governação”. Eles unidos podem eliminar o vencedor da contenda.

E como o povo não é estúpido, havendo sempre vencedores e vencidos, sabe que não ter medo é uma das melhores armas.

Assim, só para falar no nosso distrito de Castelo Branco, o PS ganhou, e, na Covilhã deu um forte contributo com quase o dobro dos votos no PS em relação à coligação PaF.

O País inclinou-se para a Esquerda. A soma dos votos dos “Clubes” que a integram é superior aos do vencedor. Não podem agora jogar (governar) a seu bel-prazer. Também o fragilizado presidente da agremiação, Cavaco Silva, agora não pode fechar os olhos às tropelias do vencedor, com total impunidade e complacência meiga.

Claro que a Coligação foi a vencedora; que a CDU perdeu, embora com um deputado a mais; que Catarina Martins, do BE foi a “jogadora” mais em evidência na peleja, muito bem preparada, decidida e veemente sem nunca perder a calma, sorrindo zombeteira quando era necessário, personalizou o que queríamos e precisávamos de ouvir. Ela recuperou a tradição do combate da História de Portugal, como Deu-la-Deu Martins, ou a Padeira de Aljubarrota.

E, assim, nesta apagada e vil tristeza que tem assolado o nosso querido retângulo à beira-mar plantado, chega-se à conclusão que a Coligação de Direita foi a vencedora mas é uma vitória de Pirro.


(In "fórum Covilhã", de 13-10-2015)

16 de setembro de 2015

O ILUSTRE COVILHANENSE, DR. DUARTE SIMÕES, COM A ALMA DE UM GRANDE VISIONÁRIO


Fisicamente era de uma grande estatura, mas muito inferior à grandeza da sua alma, numa forte nobreza de caráter, probo, onde a sua magnanimidade se impunha como visionário em prol da sua Covilhã.

De horizontes largos, bem depressa integrou um grupo de dinâmicos e corajosos covilhanenses, em redor do grupo de trabalho para o Planeamento Regional da Cova da Beira, no qual viria a emergir o ensino superior na Covilhã, através da fundação do Instituto Politécnico, em 11 de agosto de 1973, com a entrada dos primeiros alunos dos cursos de Engenharia Têxtil e Administração e Contabilidade, no quadro da então chamada “Reforma Veiga Simão”. Esses primeiros 143 alunos foram recebidos em 1975.

Volvida meia dúzia de anos, surgia assim, em julho de 1979, a conversão do Instituo Politécnico em Instituto Universitário da Beira Interior (Lei 44/79, de 11 de setembro); e, em 30 de abril de 1986, o Instituto Universitário passa à atual Universidade da Beira Interior.

Mas voltando a esta insigne figura, de seu nome completo, Duarte de Almeida Cordeiro Simões, nasceu na Covilhã em 28 de fevereiro de 1927. Com 11 anos ingressou no Colégio Militar onde estudou até ao 7.º ano (atual 12º). Não sendo seduzido pela carreira militar, optou por se matricular, no ano de 1945, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, no qual completou 4 licenciaturas (Administração Comercial, Finanças, Aduaneiras e Diplomacia).

Iniciou a sua atividade docente na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, como professor provisório, nos anos 1952/1955, seguindo depois para a Escola Comercial Veiga Beirão, em Lisboa, nos anos 1955/1956. Viria a interromper a sua atividade docente, durante seis anos, passando a exercer as funções de Gestor em várias empresas privadas, quando, em 1962, regressa ao ensino, passando por Caldas da Rainha, Lisboa e, finalmente, fixando-se na sua Terra natal – a Covilhã. É assim que, de 1965 a 1974 vem a acumular as funções docentes com as de gestor público e secretário-geral do grupo de trabalho para o Planeamento Regional da Cova da Beira.

E concretiza-se o seu grande sonho, num pensamento há muito gerado na sua mente. A criação em 1974 dos Institutos Politécnicos em Portugal foi a ocasião chegada, a grande oportunidade. O Instituto Politécnico da Covilhã abriu uma nova etapa da história do ensino. O Dr. Duarte Simões vem a ser o seu primeiro diretor. Vem a dedicar-se com todo o empenho à grande tarefa de transformar a que fora, em tempos, a “Real Fábrica de Panos” numa grande catedral do ensino, contribuindo assim para o ressurgir daquela que fora a cidade lã – cidade fábrica, na cidade da cultura.

Só que, muito cedo, esta notável figura covilhanense deixou o mundo dos vivos, no malogrado dia 8 de agosto de 1979.

Tendo o diretor da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, Eng.º Ernesto de Melo e Castro, atingido a reforma, coube ao Dr. Duarte Simões tomar interinamente a direção da mesma, de 1966 a 1967. Verificaram-se imediatamente alterações: cursos têxteis de formação equiparados em igualdade e equivalência aos cursos gerais de Comércio. Pediu autorização para funcionarem as secções preparatórias aos institutos. Conseguiu a criação do curso de Habilitação Complementar para os Institutos, a funcionar em regime de experiência piloto, por ordem do Ministro da Educação Nacional, Veiga Simão, no sentido de preparar a entrada dos alunos nos institutos universitários a criar por aquele membro do Governo.

Em 1972 foi nomeado como correspondente do Fundo de Fomento de Exportação, cessando as suas funções em junho de 1974 e, bem assim, as de diretor interino dos Serviços Municipalizados da Covilhã.

Podemos mesmo dizer que foi o Dr. Duarte Simões o principal dinamizador e homem-chave das comemorações do Centenário da Cidade da Covilhã, da realização das Feiras de Atividades Económicas, do Parque Industrial, e da Cooperativa dos Fruticultores, entre outras suas iniciativas. Foi ainda o responsável por relatórios visando a criação do Ensino Pós-Secundário na Covilhã, em colaboração, reorganização e reconversão da indústria de lanifícios; relatório de proposta para planeamento da Cova da Beira; sobre os Serviços Municipalizados, e Serra da Estrela – Desenvolvimento Turístico.

Por despacho do Ministro da Educação e Cultura de 18 de setembro de 1974 foi nomeado para a Comissão Instaladora do Instituto Politécnico da Covilhã, lugar criado pelo Decreto-Lei n.º 402/73, de agosto passado. Em 10 de setembro do mesmo ano foi nomeado Presidente daquela que viria a ser a Universidade da Beira Interior.

Na Escola Industrial foi professor de Contabilidade e Cálculo Comercial. Ainda chegou a ser meu professor de Contabilidade, embora por pouco tempo.

Foi autor das seguintes obras: Planeamento Regional, Poesia – Esperança e Ânimo, Serra da Estrela (Bases para programação do seu desenvolvimento turístico – 1975).

Casou com a Dr.ª Maria Ascensão Albuquerque Amaral de Figueiredo Simões, também ela dedicada à Escola Campos Melo, e à Covilhã, tendo sido a Presidente do Conselho Diretivo aquando das Comemorações do Centenário da Escola Campos Melo.

Com o desaparecimento do Dr. Duarte Simões, a cidade e região ficaram mais pobres. A Covilhã admirava-o pelo seu dinamismo, o seu espírito empreendedor e lutador por tudo quanto representava o progresso da região.

A edilidade covilhanense deliberou dar o seu nome a uma das ruas da cidade e homenageá-lo, a título póstumo, com a medalha de ouro da cidade.
(In "Notícias da Covilhã", de 17.09.2015)

8 de setembro de 2015

AQUELA QUE FOI A MONO-INDÚSTRIA NA COVILHÃ

Os tempos mudaram. As crises generalizadas que o País sempre enfrentou, desde que foi fundado, acentuaram-se nalguns setores. Um deles foi o da indústria de lanifícios.
Os dias que correm, face às transformações no mundo, com a globalização, na modernidade, com as descobertas científicas, são incomparáveis aos de ontem.
Contudo, há modos de vida que se encontram enraizados nas populações, que deram prosseguimento à vivência local dos mesmos, como o sangue a correr nas suas veias.
Hoje, a Covilhã, já não é a Covilhã da mono-indústria mas duma vertente de atividades que vão do ensino universitário, maioritariamente, a uma série de pequenas indústrias, com exceção de meia dúzia de grandes empresas de lanifícios; comércio em menor escala, e diversidade de serviços, entre os quais as novas tecnologias.
As crises da indústria de lanifícios na Covilhã são ancestrais. Hoje vemos a existência de muito poucas empresas fabris, entre as quais a maior ibérica, comparativamente com as de mais de uma centena de outrora.
Preservam-se ainda muitos imóveis das antigas fábricas de lanifícios, quase todos devolutos ou em adiantado estado de degradação, com as suas gigantes chaminés, que são ainda o ex-líbris da Covilhã, continuando a tecer o futuro.
A grande crise da indústria de lanifícios do século XX acentuou-se, remontando há quase meio século. Trinta mil pessoas a viver juntas nesta cidade interior do País – referência ao ano de 1968, altura em que deixei a Covilhã temporariamente, durante 42 meses, para cumprir o serviço militar obrigatório.
A Covilhã, inteira, dependia de 130 fábricas que aqui laboravam 48 a 50 por cento da produção nacional de lanifícios. Um terço da população desta cidade, de então (dez mil operários inscritos), trabalhando nesta indústria, sentiam grandes dificuldades, com seus fracos salários.
Nessa altura, já 23 fábricas haviam encerrado por falência. Alguns empresários colocavam os bens em nome de seus filhos, com a tendência para se criarem sociedades de capital limitado. Capitalistas e agiotas aproveitavam a situação, fazendo negócios chorudos para as necessidades imediatas, empurrando o industrial na ruína ou em situações de grande dificuldade. A banca impunha condições exigentes, como nas aberturas de crédito.
Mas em qualquer outro ponto do País onde se trabalhasse em lanifícios, encontravam-se operários e técnicos covilhanenses, com nítida fuga de mão-de-obra para o estrangeiro.
A Covilhã esteve durante muito tempo, com as suas crises têxteis, de costas voltadas para a Serra. Havia uma ideia errada do fenómeno sócio-económico desta cidade. A presença de tão grande concentração industrial com dezenas de fábricas que descem a serra e se estendem pelos vales, e a aparência próspera dos seus habitantes, induziam em erro. Havia uma vida artificial com as pessoas a usufruírem de artigos de luxo em detrimento de bens de primeira necessidade. Nessa altura havia um único hotel na Covilhã – “Solneve”, de Artur de Almeida Campos, que não teve nos seus descendentes a sua força empresarial.
O investimento no equipamento industrial, iniciado 15 anos antes, por parte de empresários, movimentou números elevadíssimos, confiando no futuro, pensando principalmente nas exportações.
Se bem que esta tenha sido a mola real para o desenvolvimento da indústria têxtil covilhanense, foi, simultaneamente, uma das razões principais da crise que então se principiou a delinear. Um dos motivos maiores da crise financeira dos empresários foi no corte de crédito que os bancos fizeram, ou as condições a curto prazo, insustentáveis. Outras causas das dificuldades foi o fraco poder de compra do mercado nacional. Segundo o falecido industrial José Rabaça, o que acontecia na Covilhã era a existência de um excessivo número de micro-empresas. Depois, na Covilhã não havia a indústria completa mas sim a setorial. Enquanto na fábrica completa tudo se conjuga para uma fabricação de artigo final, mais economicamente produzido, nas atividades setoriais procura-se atingir o mesmo benefício à custa do sacrifício da secção alheia. A maior empresa de lanifícios do nosso país não possuía ainda secção de acabamentos (ultimação).
A reconversão desta indústria deparou com um obstáculo intransponível: a falta de preparação de muitos industriais e o seu feroz individualismo. Era o tradicionalismo familiar que imperava. Fábricas passando de pais para filhos. Estes, em muitos casos, com evidente impreparação.
Também a inexistência de um Instituto Industrial na Covilhã. Havia apenas a Escola Industrial e Comercial Campos Melo. Hoje o problema está resolvido com a Universidade da Beira Interior.
Ainda não tínhamos entrado na União Europeia mas, entretanto, segundo acordos da EFTA, logo que um produto atingisse ou ultrapasse 15 por cento de exportações, deixava de estar sob proteção pautal, podendo assim os produtos de outros parceiros entrar livremente no nosso pobre mercado, com concorrência aberta da Grã- Bretanha e da Suíça.
Depois da lã da região, com a industrialização, a Covilhã passou a ser um consumidor dos grandes fornecedores mundiais de lã – a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Mas nunca deixou de se mover em volta da sua indústria secular.
Para obstar aos problemas da mono-indústria, nunca foi levado a sério, ou com entusiasmo férreo, o desenvolvimento do Turismo, numa zona privilegiada como é a Serra da Estrela, com a sua porta principal na Covilhã.
Naquela altura, há quase meio século, o turismo na Covilhã não passava duma pequena sala iluminada, no Centro Cívico, onde se encontrava um taciturno funcionário dizendo quase não a tudo, embora com um sorriso, porque não havia informações. Para além do “Solneve”, existia apenas, nas Penhas da Saúde, a “Estalagem do Pastor” e o velho “Hotel das Penhas da Saúde”.
Os operários e empregados dos lanifícios recebiam à semana, dando assim a ilusão de um desafogo económico na Covilhã. O dinheiro corria sempre. Havia sempre dinheiro fresco. As casas comerciais utilizavam as pequenas prestações mensais – “as deixas” – que atraíam o operariado. Um fato não se pagava, descontava-se na féria. Daqui o poder andar-se bem vestido, ou gastar dinheiro numas cervejas ou nuns cafés. O “Montalto”, à sexta-feira tinha os agiotas e espetadores que desde a hora do almoço aguardavam que um empresário aflito lhes vendesse uma letra de 70 contos por 40, ou lhes pedissem empréstimos para pagar a féria ao pessoal, preferindo este sistema à busca direta de um banco, a fim de que este não se apercebesse das dificuldades em que se debatia. Era o coração de uma crise que se reforçava na Covilhã.
Hoje, apesar das várias crises, a Covilhã está indubitavelmente muito melhor. Outros tempos.


(In "fórum Covilhã", de 08.09.2015)

26 de agosto de 2015

A ÍNCLITA GERAÇÃO TAMBÉM REFERENCIOU A COVILHÃ

Desde sempre Portugal esteve envolvido em crises e soube encontrar soluções. Umas vezes, por ousadia, outras, pelo génio e sapiência dos seus homens e mulheres.
Nos tempos que correm, e ao longo destes quase nove séculos da existência de Portugal, não deixam de surgir indesejáveis dificuldades, tantas vezes evitáveis, presságio de sustos doutrora.
No dia 21 de agosto comemoraram-se os 600 anos da tomada de Ceuta. Este feito histórico, que poderia ter redundado num desastre, acabou por ter um fim feliz, fruto da participação, neste ato audacioso, da “Ínclita Geração”.
Na Europa já não havia lugar para mais aventuras. Fora feita a paz com os castelhanos, ainda não total, e, assim, também a sua desistência de nos perseguir, resolvida que foi a crise de sucessão originada com a morte de D. Fernando. Após o “Interregno”,1383 -1385, e a derrota dos castelhanos na Batalha de Aljubarrota em 14 de agosto de 1385, com o reforço da chamada Aliança Inglesa através do casamento entre o Mestre de Avis – D. João I e D. Filipa de Lencastre; com o génio do audaz militar, Condestável Nuno Álvares Pereira, eis que a inspiração, o sonho, é ultrapassar as fronteiras europeias. Ali tão perto ficava o norte de África muçulmano.
Após a Batalha de Aljubarrota, era ratificada, no Porto, por D. João I, em 6 de outubro de 1385, a mercê que concede a renda do souto de Alcambar, ao convento de S. Francisco da Covilhã destinada a concluir as obras da igreja (atualmente Igreja de Nossa Senhora da Conceição).
Os portugueses, que constituíam apenas um milhão de habitantes, contra os dez milhões de hoje, na madrugada de 21 de agosto de 1415, quando o sol começou a nascer, proporcionaram aos habitantes de Ceuta, ver “na linha do horizonte um cenário tão grandioso como assustador”. Eram 20 mil homens que desembarcavam nas mais de 200 naus, fustas e galés, armados por D. João I. Pela primeira vez, na história de Portugal de menos de quatro séculos, os portugueses arriscaram sair do seu cantinho europeu na conquista dum pedaço de África.
D. João I, então com 58 anos, desde muito cedo encontrou o apoio entusiástico dos seus filhos mais velhos, D. Duarte, D. Henrique e D. Pedro. Após resolvidas as incertezas sobre vários pontos: distância e ausência de meio de transporte para chegar a Ceuta; a falta de gente; o futuro das relações com Castela; sobre os proveitos a tirar da conquista, bem como custos de manutenção da praça, garantido o apoio dos filhos, procurou também a aliança do condestável, D. Nuno Álvares Pereira, que se tornara a estrela do regime, agora com 55 anos, assim como da sua mulher, D. Filipa de Lencastre. Os filhos do rei ficaram encarregados cada um da sua missão, cabendo ao infante D. Henrique responsabilizar-se pelas tropas das Beiras e Trás-os-Montes que embarcariam no Porto a 13 ou a 14 de julho. Neste contingente seguiam covilhanenses, entre os quais D. Diogo Álvares da Cunha, colaborador do Infante D. Henrique, aquando da tomada de Ceuta. Frei Diogo Álvares da Cunha, que professou na Ordem de Cristo após aquela expedição, era neto da rainha D. Leonor Teles e de seu primeiro marido, João Lourenço da Cunha. A tomada da cidade de Ceuta para muitos marcou o início da expansão. A 19 de maio de 1426, D. Diogo entrou no capítulo geral da sua ordem de Tomar. Após a expedição às Canárias, em 1424, passou a ser comendador do Castelejo e Castelo Novo. Em 1438 recebeu 15.781 reis de soldo pelo seu serviço em Ceuta. Está sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Covilhã, onde é visível uma lápide com inscrição.
Entretanto um surto de peste, a poucos meses da partida, veio dificultar os planos, e D. João I parte viúvo para Ceuta, porquanto D. Filipa de Lencastre sucumbe desta doença, em 19 de julho de 1415. Também, D. Nuno Álvares Pereira, idoso e cansado, tentou adiar a partida.
O que é certo e verdade é que, independentemente destas dificuldades com que não contavam, aconteceu, com ousadia, mas com êxito, a tomada de Ceuta a 21 de agosto de 1415.
“Ao Infante D. Henrique é-lhe concedido por D. João I, em 2 de setembro de 1415, pela primeira vez, o senhorio da Covilhã, para além da alcaidaria-mor. O grande impulsionador dos Descobrimentos e da Expansão, raras vezes terá passado pelo território da Beira Baixa. Devido a estes títulos que lhe foram concedidos a sua ação ter-se-á refletido forçosamente aqui. Terras e indivíduos sob a sua jurisdição terão beneficiado das diligências por ele efetuadas. Dos navegadores ao seu serviço, nove eram da Covilhã”.
Segundo o “Público”, nos seus tempos áureos, Ceuta fora uma cidade do tamanho de Lisboa. Chegou a ter 62 bibliotecas científicas e 24 mil casas comerciais.
Em fevereiro de 1641, o governador de Ceuta, D. Francisco de Almeida, jurou obediência a Filipe IV. Desde então, a cidade permaneceu espanhola até hoje, embora ainda conserve as armas portuguesas desse tempo.
As comemorações que se realizaram na Covilhã, no dia 22 de agosto, revestiram-se de grande esplendor mas, lamentavelmente, sem qualquer eco nos jornais de referência nacionais.


(In "Notícias da Covilhã", de 27.08.2015)

11 de agosto de 2015

PEDALANDO

Falta de tempo, ou é preciso dar tempo ao tempo? É preciso é pedalar!...
Escrevo esta crónica na véspera da etapa da Volta a Portugal em bicicleta, rumo à Torre. E, mais um ano, num amável convite da Liberty Seguros, lá estarei naquela etapa-rainha da Serra da Estrela, e, no dia seguinte, em Castelo Branco, na excelência de um convívio entre muitos amigos. E o tema é quem mais pedala, num reforçar da pedalada para o resto do ano.
Agosto é o mês preferencial para muita gente entrar de férias. Como já me encontro nas vitalícias, para mim o Verão não é a silly season. Contrariamente, é uma altura de boas recordações da minha juventude, associadas ao prazer do reencontro com velhos amigos.
Terminei a “Breve Resenha do Centro de Recreio Popular Estrela Desportiva de São Pedro – 1944 – 1972” que os participantes no próximo almoço-convívio, a realizar em 24 de outubro, terão oportunidade de apreciar, no folhear de algumas páginas de indeléveis recordações. Eu próprio, nos meus dezoito anos, de fato e gravata, em pleno Verão, como era usual naqueles tempos dos anos 60 do século passado, lá estou… Reminiscências do passado.
Era eu funcionário público até ao regresso do serviço militar, e, nessa altura, eram os que tinham menos regalias sociais – nenhumas!... – E ganhavam mal, o que me levou a um gesto de indignação reportados, naquele tempo de censura à imprensa, num artigo publicado no “Notícias da Covilhã” em 1972 – “Uma sóbria profissão – o funcionalismo público”, tendo o primeiro, “A Covilhã precisa de um museu”, sido publicado no mesmo semanário em 1964, com que iniciei escrever nos jornais.
É que, voltando ao pedalar, vem atualmente referido para a função pública, a sugestão que o Governo fez para que passassem a usar aquele velocípede de duas rodas. Se já havia mobilidade na função pública, agora faz-se de bicicleta… Esta sugestão integra-se num conjunto de medidas para reduzir em 20% as emissões de CO2 dos automóveis do Estado e também os gastos com combustível. É o programa para a mobilidade sustentável.
Pois é, na viragem que foi do mês de julho para o mês de agosto, boa parte do país está em descanso e em mobilidade. Com menos tranquilidade se encontram os nossos políticos, na preparação das listas para as eleições legislativas, que, lá de lançar a bênção para a calmaria, está o venerável santo de Boliqueime. Nunca se engana exceto as vezes que já não se lembra. No meu tempo de juventude, analogamente a este homem de estado, existia o “cabeça de abóbora”.
Entre as ondas do mar e a folhagem que se agita nos campos, vão surgindo labaredas em matos e florestas. Coisas que não havia nos anos 50 e 60 do século passado, excetuando casos esporádicos.
E outras chamas, que não as do fogo, vão incendiando, paulatinamente e com ardil, este Povo que, noutros tempos, nem sequer conheciam o significado da palavra corrupção.
Já nem vamos falar em mais nomes, sobejamente conhecidos dos portugueses, porquanto já cheiram a bafio. De vez em quando lá emergem mais uns quantos que se vão juntar ao rol das “estrelas do ardil”, ou daqueles que por obras demoníacas se “enganaram”. Mas, vamos lá, numa de benevolência, são todos bons rapazes. Nós é que não estávamos habituados, n’é?!
Sou ainda do tempo do pirolito, aquela bebida que até finais dos anos 50 fez a delícia de adultos e principalmente da pequenada que viam nela um “dois em um” pois além de beberem o refrigerante, tinham a oportunidade, partindo a garrafa, de ficar com a bolinha de vidro que servia de tampa. A sentença de morte do pirolito surgiu quando o governo, por razões sanitárias, mandou substituir a garrafa por outra com carica.
E então chega a vez de, naquela década dos princípios dos anos 60, poder trazer de “dentro para fora”, uma memória que ficou dos nossos tempos de meninos e moços, solteiros e bons rapazes, em que as algibeiras andavam sempre leves, por falta de semanada, ou mesada, inexistentes, e algum dinheirito lá se conseguia dos paupérrimos salários das nossas primeiras atividades, que a grande fatia era para entregar em casa, aos pais. Essa memória ainda hoje é objeto de riso, naquela do “copo de leite e um bolo”.
É que, no jogo dos matraquilhos, na Pensão de São Francisco, onde ficavam hospedados alguns dos jogadores que vinham para o Sporting da Covilhã, o vício minguava as poucas moedas que continham os nossos bolsos. Daí que já não dava para saciar um pouco o estômago, de noite, na Pastelaria Lisbonense, com um habitual copo de leite e um bolo.
Certo dia azarento, o José Alberto Neves, que, tal como nós, ali havíamos deixado as nossas míseras economias, lamentou-se numa daquelas, refletindo sobre tamanho azar: “Valia mais termos ido beber um copo de leite e um bolo!...”. Esta perdurou no tempo e, de vez em quando soltam-se-nos as palavras sobre esta recordação, para quem viveu esses tempos, como o José Augusto Ferreira da Silva.
Outros tempos!...

(In "fórum Covilhã", de 11.08.2015)

14 de julho de 2015

SÓ SEI QUE NADA SEI

1. Na altura em que redijo esta crónica Portugal está de luto. Desapareceu do mundo dos vivos Maria Barroso, a eterna primeira-dama portuguesa. Esta grande Senhora morreu no hospital que fundou – Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. Mulher “determinada na defesa de causas e com o seu caráter humanista e força solidária”, que “valeu a pena ter vivido”, segundo a própria disse ao jornal i, em maio deste ano, aquando do seu 90º aniversário natalício.
2. E, enquanto neste “contentamento descontente”, surgido entre o “oxi”(não) e o “nai” (sim), os gregos procuram ansiosamente por uma resolução para a sua vivência, os Senhores da Europa certamente que também sentirão as suas pressões, sistólica e diastólica, alteradas (“Pecámos contra a dignidade dos povos da Grécia, Portugal e Irlanda” –  Jean-Claude Juncker – presidente  da Comissão Europeia que criticou modelo da “troika” e anterior equipa liderada por Durão Barroso, que se limitou a confiar em técnicos).
Vamos ver se a permuta de cabeças, no Ministério das Finanças grego, com a entrada do aristocrata Tsakalotos em substituição do académico Varoufakis, mantendo a mesma ideologia, dará o resultado desejado.
Jamais assistimos a uma posição de força de um país da moeda única, como o surgido com a Grécia, berço da democracia. Efetivamente foi na Grécia Antiga que nasceu a democracia, quando em 507 a. C., os atenienses, liderados por Clístenes, foram autorizados a falar e votar para as leis da cidade-Estado. Entretanto, surgiria o domínio turco durante um longo tempo de 350 anos, e, com a independência da Grécia em 1821, seria marcado o início da Grécia moderna.
O que é certo e verdade é que os gregos deram a toda a Europa e a todo o mundo uma lição de coragem e dignidade.
Em tempo de guerra, o maior perigo absorve o menor, faz-se pouco caso dos perigos dos mares; e as estações mais inclementes se estimam as mais favoráveis para escapar à vigilância do inimigo. Também aqui, os gregos com o Syriza, e o seu líder Alexis Tsipras, souberam, e compreenderam, ainda que duma forma pungente, que a constância seria a arma forte contra a genuflexão, esta atitude muito do agrado de Merkel e Hollande, e, até mesmo por estas bandas domiciliárias, da “simpática” Maria Luís Albuquerque, que nos “brindou” com a informação de que o País “tem os cofres cheios”.
3. Depois da troika estrangeira ter deixado o nosso País, ficou a troika nacional (Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva), e, com este arranjo assim vai a nossa troika (a portuguesa), iludindo os portugueses, com elogios hipócritas aos credores e fazendo de conta que há um apaziguamento no país, chegando-se ao ponto caricato do homem de Boliqueime condecorar, no Dia de Portugal, com a Ordem do Infante D. Henrique, o costureiro de Maria Cavaco Silva. Logo surgiu o humor nas redes sociais, de que a esposa de Cavaco também lhe tinha falado para condecorar quem lhe arranjava as unhas…
E é assim que temos o retrato da desconfiança portuguesa. Como será então possível dar o salto qualitativo para o desenvolvimento e a solidez democrática?
Segundo um trabalho de São José Almeida, na Revista 2 do Público de 14 de junho, referindo-se à Confiança, dizia:
- “Quando o país parece pronto a arrancar para uma nova etapa de desenvolvimento, a questão é saber até que ponto será limitada pelos baixos níveis de confiança existentes na sociedade portuguesa”. E eu refiro, por exemplo, as mentiras continuadas dos governantes, mormente do seu líder; o não dizerem a verdade aos portugueses; a irrevogabilidade de uma decisão que, afinal, voltou com a palavra atrás, do antigo beijoqueiro das feiras; as inverdades do homem de Boliqueime: “Podem confiar no BES!”.
- “Quando as pessoas olham para o futuro e acham que o futuro não promete nada a não ser novas ameaças, essa unidade quebra-se”. E eu recordo o empurrar os jovens cérebros para fora do País; as constantes ameaças de já não haver dinheiro para a constituição de futuras pensões de reforma; a falta de confiança nos tribunais; nos governantes que continuam a não temer e a surgir novas surpresas de corrupção; os que passeiam por esse País fora banhado por um enriquecimento inexplicável, naquela de “Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem”.
A confiança é, pois, fator fundamental para o desenvolvimento económico. O País continua com medo de ir para a rua. Os portugueses têm pânico de expor a sua opinião: Portugal é um país com muitos acobardados.
Segundo Guilherme de Oliveira Martins, verificamos que a sustentabilidade económica só se verificou em cinco períodos: descobrimentos, ouro do Brasil, emigrantes, volfrâmio e fundos comunitários. Tudo isto foi exterior. 80% da população vive entre Setúbal e Braga, numa faixa de 80 Km do mar para o interior. Era expetável que a partir de 1986, com a entrada na CEE, Portugal abandonasse “o seu estatuto de semiperiférico e se juntasse ao clube dos desenvolvidos, o que não aconteceu”.
Há um indicador em que Portugal está à frente de todos os países desde 1990: a confiança na Igreja. O cardeal D. Manuel Clemente diz que uma realidade “tem tudo a ver com a confiança”: “O que cria confiança é o conhecimento, e o que cria desconfiança é o isolamento”.
A confiança na justiça e nas instituições tem sido abalada pelos sucessivos casos de corrupção que envolvem figuras do Estado, da política ou da sociedade – o que descredibiliza perante a sociedade os que deveriam ser referência num país com “tradições que são difíceis e negativas”, como aponta Jorge Sampaio.
O País assistiu à falência de três bancos com contornos criminais: BPN, BPP e BES. A confiança abala-se no sentido de perguntarmos: “Em quem é que eu acredito?”
4. A Covilhã continua na sua senda cultural, vincando perfeitamente a sua condição de detentora do maior número de agentes culturais do Concelho, em relação a todo o distrito de Castelo Branco. Em cima da minha secretária um desdobrável da Agenda Cultural do Município da Covilhã, em formato original, dobrado em origami, cuja configuração é para quem goste; mais parecendo que foi concebida na inspiração de alguém enquanto passava a ferro…
E, depois de muitas polémicas, num acerbo de linguagem pouco própria do anterior líder do executivo camarário, as gentes covilhanenses já se começaram a aperceber que, afinal, valeu a pena a mudança. O trabalho está a surgir e havia muita treta, o que não obsta que considere que também nesta há boys, girls e interesses instalados.
5. Gala Tribuna Desportiva: - À hora que redijo este texto ainda não teve lugar este grandioso evento, que, pela 2.ª vez consecutiva, se realiza no Castelo de Belmonte, durante a noite de sábado, dia 11 de julho. Promover a distinção, ao longo do ano desportivo, de muitas figuras e coletividades da região, mormente do distrito de Castelo Branco, não está ao alcance de qualquer pessoa, mas sim dos melhores. Por isso, está de parabéns, mais uma vez, o impulsionador da Grande Gala, e diretor da Tribuna Desportiva, Pedro Martins, e também o Dr.  

António Pinto Dias Rocha, presidente do Município de Belmonte.

(In "fórum Covilhã", de 14.07.2015)

8 de julho de 2015

VERTENTES DA SOLIDARIEDADE

Ao longo do ano são várias as instituições que unem os seus membros, num sentido solidário, procurando minimizar as depauperadas algibeiras de muitos que se vêm constrangidos, nos tempos que correm, nos caminhos da míngua do que mais é indispensável para a sua sobrevivência e de seus familiares. E, então, é hábito os peditórios junto das grandes superfícies, por essas instituições: Banco Alimentar Contra a Fome, Cruz Vermelha, Santa Casa da Misericórdia, como exemplo. De âmbito nacional conhecem-se as recolhas do Banco Alimentar, numa ação altamente profícua, cujos géneros alimentares recolhidos são depois distribuídos por várias instituições parceiras, onde se inserem as Conferências de S. Vicente de Paulo, e alguns Centros e Lares da Região, que é vasta.
As Conferências de S. Vicente de Paulo, que geralmente não as vemos nesse âmbito de recolha de alimentos, pelas grandes superfícies, têm a seu cargo uma enormidade de carentes, a quem procura satisfazer, dentro das possibilidades de cada organização, nos vários aspetos das necessidades daqueles, que vão, para além dos géneros alimentares para colmatar algumas lacunas dos bens mais necessários, também na parte da saúde, através de ajuda nos medicamentos ou viagens para os locais de tratamento fora da cidade, a luz, água, gás, renda da casa, e sei lá que mais. Mas, dentro do espírito que envolve a Caridade, o mais importante é, tantas e tantas vezes, aquela palavra de conforto que se leva aos semblantes carregados, daquela gente ávida de enormes desabafos, no seio da sua solidão.
Nesta envolvência de ajuda conscienciosa ao próximo, procuram os membros das Conferências analisar cada caso para que se evitem abusos, através das normais fontes de informação, a solicitar aos necessitados, e sempre sob anonimato.
Isto não invalida que muitas vezes são as Conferências confrontadas com condutas impróprias de quem necessita, ocultando rendimentos ou ajudas que entretanto já recebem de outras instituições, que nem sempre é possível em cruzamento de dados.
Foi assim sugerido, em determinada altura, que as mesmas instituições que regularmente distribuem géneros alimentares, fornecessem as listas de quem ajudam, a fim de que não houvesse as mesmas pessoas a receberam de várias instituições ao mesmo tempo, em detrimento de outras a quem tem que se reduzir, ou não entregar, a dose de géneros que iriam melhorar a sua escassez de recursos.
É que, uma coisa é ter necessidade, outra coisa é dar jeito…
Vem isto a propósito de alguns reparos que ouvimos por esta cidade. Também estranhamos porque é que há tanta relutância em prestar informações que viriam a evitar os já referidos abusos.
No dia 5 de julho realizou-se o Convívio Vicentino, no Seminário do Tortosendo, desta vez a cargo da Conferência de S. José, do Canhoso, onde estiveram presentes, para além dos representantes do Conselho de Zona da Covilhã, o Rev.º Padre Henrique Rios, cerca de quatro dezenas de vicentinos das várias Conferências da Cidade da Covilhã e Tortosendo, e também o Presidente do Conselho Superior, Correia Saraiva, que é a entidade máxima das Conferências em Portugal. Esta Conferência do Canhoso comemorou também o seu 10º aniversário.
A Sociedade de S. Vicente de Paulo foi fundada pelo francês António Frederico Ozanam, e seus companheiros, em 1833, em Paris, com o nome de Conferência da Caridade. Em 4 de fevereiro de 1834 passou a dedignar-se Sociedade de São Vicente de Paulo.
Numa altura difícil, da vida em França, com guerras existentes, e, depois, pelo mundo fora, a Sociedade de S. Vicente de Paulo tem uma história rica, em toda a sua forma de ajudar os que mais necessitam e dentro do espírito da Caridade.
Muito do que gostaria de escrever não cabe neste espaço, mas dentro dos muitos países por onde se irradiou, gerando milhares de Conferências Vicentinas, chegou também a Portugal, embora tardiamente, no ano 1859, tendo, curiosamente, entrado na Grécia e na Alemanha, em 1846; em Espanha, em 1850; em Inglaterra e Irlanda em 1844; e em Itália, em 1842.
Na Diocese da Guarda viria a ser fundada a 1.ª Conferência Vicentina – Conferência de S. Luís Gonzaga – em 01/12/1891, mas só agregada em 1909. Mas seria a Covilhã, e continua a ser, o grande baluarte das Conferências Vicentinas da Diocese da Guarda, quatro delas já centenárias: Santa Maria Maior (inicialmente com a denominação de Nossa Senhora de Lourdes), fundada em 12/11/1899 (agregada em 18/12/1899); Nossa Senhora da Conceição, fundada em 19/03/1903 (agregada em 20/02/1905); S. Pedro, fundada em 29/06/1905 (agregada em 19/03/1906); S. Martinho, fundada em 19/02/1911 (agregada em 22/05/1911).
Depois, no âmbito do Conselho de Zona da Covilhã (antiga designação de Conselho Particular), fundado em 03/12/1910, existem ainda as seguintes Conferências: Tortosendo, fundada em 04/05/1924 (agregada em 29/09/1924); Alpedrinha, fundada em 26/11/1925 (agregada em 11/04/1927); S. José – Bairro dos Penedos Altos, fundada em 08/04/1951 (agregada em 27/05/1957); Imaculada Conceição de Maria – Fundão, fundada em 04/07/1949 (agregada em 14/05/1964).
Muitas outras Conferências existiram na Covilhã, diversas freguesias do seu Concelho e na região beirã, que, entretanto, estão desativadas.
De recordar que as Conferências da Cidade Covilhanense para além de prestarem vários auxílios, ao longo dos tempos, também estiveram envolvidas na criação de instituições de grande mérito.
A Conferência de Santa Maria Maior apoiava o Albergue dos Pobres (hoje Lar de S. José), fundado em 1900. Foi nesse ano que se conseguiu a vinda das Irmãzinhas dos pobres para cuidar do Albergue, as quais chegaram em 10 de junho de 1902 à Covilhã. Depois foi a criação da Cozinha Económica, mais tarde entregue à Santa Casa da Misericórdia da Covilhã. Estiveram também presentes na construção das casas do Património dos Pobres.

Enfim, uma riqueza da história das Conferências de São Vicente de Paulo na cidade covilhanense.

(In "Notícias da Covilhã" de 09-07-2015)

29 de junho de 2015

TUDO MUDA DE TAMANHO

Para a página de âmbito desportivo deste número, hei por bem inserir um texto que se encontrava arquivado nos meus documentos antigos e que se destinava a ser publicado, em 1998, no 3.º número d’ “O Refugiense”, volvida então uma dúzia de anos após o surgimento do último número. Fora um convite do então Presidente da Direção daquela Coletividade de prestígio da Cidade Covilhanense, João Torrão, e de outro amigo, Vitor Fazendeiro, mas o jornalinho acabaria por não sair.
Recordo assim, n’ ”O Combatente da Estrela”, alguns momentos altos por que também passava, nessa altura, o nosso SPORTING CLUBE DA COVILHÃ, com a presença amiga de alguns antigos e valorosos atletas dos “Leões da Serra”, os quais já partiram para o outro lado da vida.
E, então, referia que em janeiro de 1998 li um artigo do jornalista Pedro Rolo Duarte, na revista do Diário de Notícias, versando o tema “mudança de formato”.
E dizia: “Tudo muda de tamanho. Começou com o “mini” a revolucionar a indústria automóvel e nunca mais parou (…). Reconheço que há razões objetivas para “encurtar” objetos. Mas não me obriguem a dizer que gosto de ver uma obra de arte enfiada numa caixa quadrada de plástico com doze centímetros de lado (…). Os formatos mudam como muda o tempo: de repente, aí estão garrafas de bebidas “formatadas” pela Europa com menos cinco centilitros de capacidade. A vodka, o whisky ou o vinho do Porto custam o mesmo, ou custam mais, mas trazem menos (…). Mas a tragédia não fica por aqui. Mudam diariamente os formatos dos telemóveis, muda o formato das fotografias, mudam os tamanhos dos comprimidos e a espessura dos relógios. Adaptamo-nos a tudo. Está em marcha a campanha que nos levará a adotar teclados ditos ergonómicos para os computadores, ratos sofisticados com formatos que se assemelham mais a porcos do que a ratos, e não tarda nada mudam-nos o formato da televisão (…). Há três semanas mudou o formato de mais um jornal. Chegou a vez do “Jornal de Notícias”. Já antes tinha sido assim com “A Bola” e, antes ainda, com este mesmo “Diário de Notícias” que tenho na mãos (…). Mas, que querem, cada vez que vejo mudar o formato de um jornal, como cada vez que assisto a uma reedição em CD de obras que só havia em vinil? Sinto-me perdido. Fico triste, tenho saudades. Sinto-me isolado. Só eu gosto de abrir um jornal broadsheet e tirar-lhe o vinco que o dobra ao meio. Só eu gosto de ficar com dores nos braços depois de ler o “Expresso”. No futuro, mudam o formato dos Homens, que podem deixar de ser “ao alto” para passarem a ser “ao baixo”, e posso arrumar as botas. Depois dos clones, vão arranjar maneira de fazer criaturas transportáveis, pessoas que se arrumam facilmente numa pasta de tamanho A4 (…). Não gosto do que vejo. Sou contra a mudança do formato (…) e, “cuidado: um dia mudam-lhe o formato…”
É do domínio público que o Refúgio, e o seu “Refugiense”, é uma das franjas da Cidade que tem gente dinâmica, simples e humilde, que sente a amizade do “tamanho” de uma montanha e o reconhecimento por quem outrora deu nome à Cidade Covilhanense, do “formato” da Lua Cheia.
Vem isto a propósito da receção que um grupo de amigos refugienses prestou a duas Velhas Glórias do Sporting Clube da Covilhã, na manhã do dia 6 de junho de 1998, aquando do encerramento das Bodas de Diamante daquele clube leonino.
Passo a respigar parte da página 224 do livro que uns dias mais tarde saiu, sob o título “Sporting Clube da Covilhã – Passado e Presente”, a saber:
“ (…) No Grupo Recreativo Refugiense, calorosa receção por um grupo de entusiastas; 6 de junho de 1998. Já passava das 13 horas. Um grupo de calorosos amigos do SCC, refugienses, e não só, conforme previamente combinado, aguardou a chegada dos antigos atletas, para o almoço-convite. O grupo era pequeno porque muitos, com muita pena de não poderem participar, tinham já compromisso assumido no almoço do Núcleo Sportinguista da Covilhã, que inaugurava a sua sede, com a presença do presidente do Sporting Clube de Portugal. Toca o nosso telemóvel. É o Suarez que informa já se encontrar no Pelourinho, vindo de Vigo, acompanhado do seu simpático amigo, Avelino Villar Pineda. De seguida, surge Fernando Cabrita, acompanhado de seu genro, António Livramento. São os cumprimentos e os abraços, a recordação de alguns amigos e de antigos colegas. Chegada a hora do repasto, num restaurante do Refúgio, vem dar um abraço a estas duas velhas glórias, com surpresa dos mesmos, outra velha glória serrana, João Lanzinha, que acabaria, por atenção aos seus colegas, ir ao jantar de encerramento do SCC.
Mataram-se saudades, memorizaram-se tempos de outrora, do Sporting e da Cidade, curvando-se no respeito pela memória dos que recentemente haviam partido e perguntaram por muitos antigos colegas, valorosos como eles no tempo da I Divisão, nos Leões da Serra (alguns até residiam na Covilhã), e estranhavam por que não estavam ali, para poderem participar no jantar de encerramento das Bodas de Diamante do Sporting da Covilhã, clube que tão bem representaram noutros tempos. Na vida, por vezes, surgem algumas omissões, talvez incompreensões, quiçá esquecimentos.”
Os horizontes de visão no reconhecimento pelas figuras marcantes de uma coletividade de prestígio da Cidade, como é o SCC, têm “tamanhos” ou “formatos” diferentes, conforme as maneiras de sentir ou de ver pelos dirigentes.
Os refugienses souberam entretanto dizer Presente! Ainda nos lembramos de vós!
Aproveitamos para, através deste espaço e deste local, enviar os parabéns ao Sporting Clube da Covilhã pelo brilhantismo e entusiasmo com que terminaram a época finda de 2014/2015 e que, só por um triz não subiu à I Liga do Futebol Nacional.
Boa sorte para a próxima época!

João de Jesus Nunes

 (In "O Combatente da Estrela", n.º 99, de julho a setembro de 2015)

QUASE…

Na dinâmica em que se envolveu uma das grandes instituições da cidade Covilhanense que dá pelo nome de “Liga dos Combatentes – Núcleo da Covilhã”, acaba por ver reforçada essa envolvência fruto da nova Direção, então empossada, que reuniu entre si vários Colaboradores interessados no rumo para o êxito.
Atingimos, n’ “O Combatente da Estrela”, já o número que antecede o centésimo, o que é, sem dúvida, de realçar, desde o primeiro que viu a luz da comunicação social no já distante ano de 1988, mês de janeiro. Manter-se-ia com a sua periocidade mensal até maio de 1990; e, depois, numa tentativa de manutenção desta mesma saída regular, com algumas fases mais alargadas, surgiria um hiato com o seu número 61, em janeiro/fevereiro de 1964.
Uns anos mais tarde, sentida a falta deste órgão, viria a ressurgir, com outra dinâmica, agora trimestral, até aos dias de hoje.
Como “CARTÃO DE APRESENTAÇÃO”, inserido no primeiro número, registamos o seguinte: “Chamo-me “O COMBATENTE DA ESTRELA”; tenho a IDADE que hoje teria Viriato; Sou SOLTEIRO, CASADO, DIVORCIADO e VIÚVO; professo todas as religiões, por isso, sou ECUMÉNICO; sou, por inteiro, PATRIOTA, logo, não tenho partido; SIRVO social e culturalmente a comunidade dos vivos; GLORIFICO os que morreram em combate e também não esqueço os que combateram; ABOMINO os desertores e falsários, a quem chamo cobardes!!!”
Consultando todos os números anteriores o leitor pode constatar duma riqueza cultural, nas várias vertentes: história citadina, envolvente da vida dos antigos Combatentes, desporto local, defesa dos interesses da Covilhã, reflexões de combatentes, notícias, entrevistas variadas, e um rol de curiosidades, tudo na base de autodidatas.
Sem qualquer favor trata-se duma publicação que em nada fica aquém de muitas outras que proliferam por este País fora.
Verifica-se o interesse pel’“O Combatente da Estrela” no recrudescer de novos Leitores e também de Colaboradores, sintoma de que estamos no bom caminho.
Criámos duas páginas destinadas a entrevistas com antigos Combatentes, geralmente acompanhadas de fotografias dos locais, nas Colónias, onde prestaram serviço por obrigação, sendo desta forma que muitas pessoas, principalmente as novas gerações, se apercebem que, na História de Portugal, não foram só as grandes batalhas, as conquistas e os descobrimentos que fizeram resplandecer o nome de Portugal, também ainda hoje há heróis, muitos nossos familiares e amigos, merecedores de serem inspirados das páginas dos Lusíadas, “Que eu canto o peito ilustre Lusitano”.
E porque estamos QUASE no centésimo número d’“O Combatente da Estrela” queremos anunciar que o mesmo irá sair como número especial, a fim de comemorarmos todo este trabalho gracioso mas com muito carinho, ao longo dos anos, na colaboração de autênticos autodidatas, conforme já foi referido.
Alguns eventos se irão proporcionar para comemorar os 100 números d’“O Combatente da Estrela”.
Seria de grande injustiça se não informasse que, desde o seu primeiro número, esteve sempre na liderança da responsabilidade pela vida deste periódico o Presidente da Direção do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, e também Diretor do jornal, que, aliás, o tem sido ininterruptamente, desde o seu início.
Para ele não pode deixar de ir uma palavra de gratidão.

João de Jesus  Nunes

(In "O Combatente da Estrela", n.º 99, de maio a setº 2015)


24 de junho de 2015

SAUDADE E AMIZADE DE MÃOS DADAS

Pois é, também lá estive!... Neste matar de saudades de outros tempos – os da então Escola Industrial e Comercial Campos Melo – fábrica do ensino para muitos obreiros da indústria rainha de então – os lanifícios, nesta Terra – a minha Covilhã – daquela têmpera forte de Viriato, dos Montes Hermínios!
Havia lido algures que antigos alunos da Escola Campos Melo, onde o Engº. Ernesto Manuel Melo e Castro lecionou iam confraternizar com
ele, vindo do Brasil, num almoço-convívio, ali para as bandas do Teixoso.
Inscritos eram só os alunos dos Cursos Técnico de Tecelagem e Debuxo… mas, qual “intruso”, cabia-me fazer o papel tipo “Crónica dos Bons Malandros”, de Mário Zambujal, já que eu era do Curso Geral do Comércio, e, desta vertente, fui o único presente na confraternização, participando também da felicidade dos outros antigos colegas.
- “Trouxeste a máquina fotográfica?” Logo na minha receção, a voz do Gregório Menina, que isto de ajudar na entrada lá estava o João Lázaro, o pequeno grande jogador dos tempos dos Leões da Serra… que outro, também tendo envergado a camisola verde-branca, briosamente, estava lá dentro – Jorge Cipriano, vindo do norte.
Os cumprimentos na mistura de alguma
curiosidade lá prosseguiam: à entrada, sentado já estava o poeta, escritor, mas antes o antigo professor de debuxo, junto de sua filha Maria Alberta; e, com orgulho do seu professor, o Américo Maceiras Caetano, promotor da iniciativa, que veio de Vila Nova de Famalicão, lhe mostrava o seu 1º. Livro de Debuxo.
- “Olha o Aníbal Gonçalves, do Retaxo!” “E tu, quês és?” “O Neto”. “Eh! Pá, desculpa que não te conhecia, és o Olívio Costa Neto!”
As entradas, o bom vinho da região… e, não faltou o belíssimo pão-de-ló.
José Esteves Patrocínio veio de Torres Vedras; e, enquanto o Ferreira Andrade me mostrava umas fotos antigas, de antigos colegas do 2.º ano do Curso Técnico de Tecelagem, em conversa com o Jorge Almeida, entrava o também antigo professor, Engº. César Oliveira, que fôra colega do homenageado.
João José Milhano recordava os tempos de meu vizinho, junto à Escola Industrial, e, sequenciando, chegavam outros, ou já entre si cavaqueavam, entre eles, o Cravino, Carlos Gouveia, Jerónimo Serra, António Nave, João António Coelho.
Já havia chegado o Rui Pereira, com o filho, quando se avista o Jorge Trindade e o Castro Martins; da Figueira da Foz não quis deixar de estar presente o Jorge Correia, acompanhado da esposa. Eram mais de três dezenas, onde estava também o Mangana e o Prof. Dr. Santos Silva.
Na altura do café, eis que o José Rosa Dias, da organização, dita de sua justiça: vão falar, em nome dos antigos alunos, o Américo Maceiras Caetano; em nome dos antigos professores, o Engº. César Oliveira; e encerra o Engº Ernesto Melo e Castro.
Neste feliz encontro de antigos alunos do curso de Debuxo da Escola Industrial da Covilhã, como abreviadamente era conhecida, com os seus antigos professores de Debuxo, atrás referidos, num almoço muito bem servido, a festa foi permanente, na recordação de tempos idos, no matar de saudades.
Maceiras Caetano agradeceu a presença de todos; o Engº. César Oliveira recordou a sua passagem por Bradford na mesma altura do Engº. Ernesto Melo e Castro, em 1956, altura em que conheceu Ernesto Melo e Castro, tendo este o ajudado a adaptar-se à nova realidade, uma vez que havia vários alunos da Covilhã e ele ere o único de Lisboa.
No encerramento das breves palavras dos oradores, falou o Engº. Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro (que vai a Itália participar num encontro de poetas), informando que, estando no Brasil, ficou muito sensibilizado por ter sido convidado para este almoço de confraternização, recordando que no período que exerceu a sua missão docente na Escola Campos Melo formou 143 debuxadores, também ele tendo aprendido ao longo desse tempo a ser cada vez melhor, tanto na área do debuxo como na área das letras: “Estava deprimido face a um grave problema de saúde, e dizia: o que é que eu agora faço? Vou ao Teixoso estar com os meus amigos. Vocês não foram os meus únicos alunos, foram os primeiros!” E falando sobre os tecidos, que têm vida, concluiu: “O tecido é uma metáfora da vida”.
Recordou ainda, nestes ambientes de repasto, o que dizia o professor “Tudo estava muito bom, mas o melhor prato foi o da confraternização”.
de Religião e Moral, Padre Joaquim Santos Morgadinho, do seu tempo:
Por fim terminou: “Orgulho-me de ter sido vosso professor! Estou muito feliz!”

E, de facto, também todos saíram deste convívio, muito alegres, muito felizes.

(In "fórum Covilhã", de 23.06.2015 e "Notícias da Covilhã", de 25.06.2015)

16 de junho de 2015

VIVÊNCIA CITADINA – DE ONTEM PARA HOJE

Na Covilhã a forma de viver foi a encarnação no seu meio ambiente. Noutros tempos, forte no comércio citadino, desenvolvida na indústria laneira, o trabalho foi de uma tenaz vontade.
Incomparável o tempo de outrora com a vivência na atualidade. A mão-de-obra em abundância, inserida num contexto de aprendizagem para que se estava inclinado, deu lugar, hoje, na generalidade, à procura de algo ocupacional, independente do vocacional. Muitos descuraram a futurologia; as novas tecnologias surgiram como um raio. O País quase sempre afocinhado por lobos vestidos de pele de cordeiro. O verdadeiro rebanho continua, como dantes, na servidão da injustiça salarial.
Naqueles tempos – anos cinquenta – para os lados da Pousadinha, algumas raparigas cantavam, aos domingos, enquanto faziam o seu enxoval, sentadas numa laje, ao sol: “Olha a mala; olha a mala; olha a malinha de mão; não é tua nem é minha; é do nosso hidroavião, etc., etc.” e outras cantigas da altura. Os casamentos, a pé, num cortejo até à antiga Igreja de Aldeia do Carvalho, pela estrada fora, de terra batida, obrigavam a palmilhar ainda alguns milhares de metros. No regresso, a boda na casa familiar. Continuava no segundo dia. Da ementa constavam quatro pratos. Vingavam-se os estômagos. E a parição era no domicílio. Chamava-se uma “parteira” já avezada nestas andanças. O puto crescia entre pinheiros, figueiras, cerejeiras, pequenas hortas e caminhos algo pedregosos, regos de água, mas também entre cravos e rosas e flores campestres. Rodeavam a casa as pombas, pintos, galos, galinhas, coelhos, e, um tanto ou quanto afastado, o curral de porcos. Não faltavam os cães e gatos.
Aos sábados, a vez de se ir ao mercado municipal, vulgo, praça; à mercearia e padaria. No regresso havia que se tomar lugar na carreira do José Nunes Correia & Filhos, Lda.
Muitas fábricas de lanifícios então na Covilhã. Mas também havia a metalomecânica.
Outra atividade profissional citadina, usual ao tempo – as empregadas domésticas, de seus aventais brancos.
Mais duma centena de fábricas eram as que circundavam a cidade, junto às ribeiras da Carpinteira, da Degoldra e ribeiro de Flandres. A azáfama do operariado na sua faina: tecelões, afinadores, caneleiros, pegadores de fios, “rebola caixotes”, motoristas, etc…
Na rua os maleiros levavam as malas para os hotéis. O “rei da Alemanha” passava, gazeado, e, do outro lado da rua, ouvia-se o apito do amola-tesouras, que também consertava guarda-chuvas. Noutra rua, travessa ou beco, o farrapeiro do Dominguiso, de saco de serapilheira às costas, apregoava: “peles de coelho ou farrapos!”.
Os ardinas, de sacola ao ombro, ligeiros pelo Pelourinho, a apregoar o Record, a A Bola, o Século, Século Ilustrado, Diário Popular ou do Diário de Notícias.
Os vendedores ambulantes de miudezas (sabonetes, elásticos, pentes, espelhos de bolso), com o seu tabuleiro prendido com uma alça ao pescoço, giravam à porta da praça; no entanto Chico gravateiro avançava até ao Pelourinho. Aqui, também o Ribeiro dos tabacos. De mala de metal na mão, caminhava cauteloso o Pardal, procurando compradores de ouro, enquanto o Humberto vendia cautelas.
Junto à antiga biblioteca municipal, ao jardim, passava a Batistinha dos rebuçados “Avenca”, que vendia na rua, de chinelos e cesta de verga enfiada no braço, baixinha, e sempre de bata.
Volvida uma década, no auge da emigração, eram como as formigas: homens e mulheres saiam ansiosos da Câmara Municipal, com os papéis na mão já tratados, para rumarem a França, Alemanha, Suíça, Luxemburgo.
A ocupação dos territórios portugueses de Goa, Damão e Diu pela União Indiana em 18 de dezembro de 1961, que depois se seguiu o início das guerras em África, não deixavam de atormentar os covilhanenses. As manifestações de apoio à política ultramarina e repúdio pelo que ia acontecendo a Portugal enchiam com naturalidade a Praça do Município.
Surge a década de setenta e, no 25 de abril e 1.º de maio, a enchente do Pelourinho é ainda maior. Era o tempo de viragem.
O povo covilhanense entra em êxtase em 1977 com a estreia da primeira telenovela brasileira – “Gabriela, Cravo e Canela”, substituindo as sessões de esclarecimento do PREC.
Na primeira metade da década de 80 surge na RTP a série televisiva “DALLAS”, com o J.R e a sua mulher, Sue Ellen. Foram 357 episódios que terminaram na década seguinte.
As novas tecnologias iam surgindo com aceleramento. E nem todos as acompanhavam. A Covilhã também foi um dos concelhos em que sentiu grande adversidade nas múltiplas crises que iam surgindo. Quando se pensava que ia haver uma vida nova, risonha, áurea, mais feliz, mais tranquila, de esperança, futuro para os filhos e netos, retrocede-se. Surge o novo milénio e o que vemos? Já toda a gente é conhecedora do estado a que isto chegou. São ainda pertinentes as palavras de Salgueiro Maia.
Ainda pior: a falta de confiança nos governantes sejam a nível do Governo central, ou da autarquia local.
É fartar, vilanagem.

(In "fórum Covilhã", de 16-07-2015)

3 de junho de 2015

A FORÇA DOS VENTOS

A força dos ventos supera as nossas próprias vontades. São muitas vezes expressos de acordo com a sua força e a direção de onde eles estão soprando. Há os de rajada, de lufada, a brisa, tempestades, furacão, tufão e tornados.
Ventos definem assim um equilíbrio de forças físicas que são utilizadas para decomposição e análise do perfil do vento. E, dentre eles, há ainda os ventos de Oeste, ciclones, anticiclones, ventos de monção, e ainda os de montanha. Alguns destes ventos quase que se confundem.
Entre ventos e ventanias, sempre há o bom e o mau; da possibilidade do aproveitamento da energia eólica à fustigação de terrenos, árvores, telhados e outros bens.
Já antes das eólicas havia os moinhos, com leis desde o século V ao XV. E da utilização dos ventos, os barcos à vela já existiam no Egipto 2.800 anos a. C.
Muito mais poderíamos falar dos ventos, incluindo das relações luso-espanholas, donde se ironizou que “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”.
Com ventos e marés nós vamos passando as nossas vidas, e, na parte que nos diz respeito, muitos de nós já começamos a ficar na linha da frente de partida. Salvam-nos os ventos de mudança com o aumento do tempo de vida.
As nossas gerações eram de gente humilde, da aldeia ou da urbe, filhos do trabalho ao cheiro lanífero das fábricas, ou então dos suarentos dias na faina dos campos agrícolas de então.
As novas gerações nem fazem ideia como sopravam os ventos das nossas eras: lugares e aldeias do concelho sem saneamento básico; sem água potável nem eletricidade; à luz de candeeiros de petróleo e braseiras de brasas, com moinha e uma prata por cima, para o aquecimento de inverno; as carnes colocadas no sal por inexistência de refrigeração; a água para consumo, em cântaros, obtida em minas por falta de fontenários; e por aí fora.
No entanto, era gente com palavra, que a mesma fazia lei, nem era preciso ser levada a escrito. A solidariedade não era palavra vã. Durante a longa caminhada, ouvimos dizer que éramos um País em vias de desenvolvimento, e, depois, passámos a um País desenvolvido. Conseguimos sentarmo-nos na mesa dos comensais da União Europeia. O vinho, então distribuído, foi à fartazana. E, como que no milagre dos pães e dos peixes, os cestos das sobras eram bastantes.
O mestre-sala da Organização manda então regar todas as estradas poeirentas com asfalto, e rasgar outras, e outras, e outras.
Alguns velhos do Restelo, de cigarro de onça na ponta dos lábios, preocupam-se com o dia de amanhã, mas os novos do leme, esfregam as mãos, na contagem de tanta massa, que vai chegando numa fresquidão dos tempos.
Entretanto, Chico Buarque já havia profetizado: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor. A minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver a banda passar cantando coisas de amor. O homem sério que contava dinheiro parou, o faroleiro que contava vantagem parou, a namorada que contava as estrelas para ver, ouvir e dar passagem. A moça triste que vivia calada sorriu, a rosa triste que vivia fechada se abriu. E a meninada toda se assanhou pra ver a banda passar cantando coisas de amor. O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou. A moça feia debruçou na janela pensando que a banda tocava pra ela. A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu. A lua cheia que vivia escondida surgiu. Minha cidade toda se enfeitou pra ver a banda passar cantando coisas de amor. Mas para meu desencanto o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar depois que a banda passou. E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois da banda passar, cantando coisas de amor”.

Volvidos 41 anos do 25 de abril, depois da banda passar, o que temos nós? Lisboa com todas as suas decisões e o interior do país deserto, abandonado e esquecido. Um país de doutores no esquecimento dos valores, sem interessar o que se defende mas sim o que se promete. Um país sem justiça em que não interessa o meio para atingir o fim. E tantas ocasiões de ventos ciclónicos que passam a brisas, com políticos a enriquecer sem problemas ou alguém que questione suas fortunas. Bancos que assaltam um país e que o povo ainda ajuda a salvar. Um país sem educação. Quem semeia ventos colhe tempestades. Quando a sociedade global exige níveis de educação altamente sofisticados, em Portugal a educação é o que é, não se podendo reprovar meninos mimados ou malcriados. Uma variedade de ventos indesejáveis que sopram da governação e presidência portuguesa. Oiçam ainda Eduardo Nascimento, porque “o vento mudou e ela não voltou, as aves partiram, as folhas caíram. Ela quis viver e o mundo a correr prometeu voltar se o vento mudar. E o vento mudou e ela não voltou, sei que ela mentiu, p’ra sempre fugiu. Vento, por favor, traz-me o seu amor, vê que eu vou morrer se não mais a ter. Nuvens tenham dó que eu estou tão só, batam-lhe à janela, chorem sobre ela. E as nuvens juraram e quando voltaram soube que mentira, p’ra sempre fugira. Nuvens por favor cubram minha dor já que eu vou morrer se não mais a ter”.

(In "Notícias da Covilhã", de 04.06.2015)

30 de maio de 2015

CRITÉRIOS PARADOXAIS NA ALIMENTAÇÃO

Ainda há pouco tempo se ouvia dizer que o leite era um alimento completo e que deveria ser tomado pelas crianças, jovens e até adultos. Era considerado um superalimento. Um copo de leite bem quente, com mel, no inverno, para a cura duma constipação; ou um copo de leite bem fresco, no verão, satisfaz quem o bebe.
E também ainda não longe nos tempos soava que o café, em demasia, fazia mal.
Na minha infância e adolescência desconhecíamos o que era intolerância ao glúten, que é uma proteína presente no trigo, centeio e cevada – celíaco era uma palavra ignorada; ou à lactose – no leite.
Surgem agora investigações em que, neste contexto, para uns é apontado um papel benéfico o consumo do leite, do café ou dos cereais, sendo que, para outros, os consideram nocivos.
Em que ficamos, afinal?
No caderno 2 do “Público”, de 22 de fevereiro, surgem opiniões diversificadas de responsáveis por esta matéria em termos de saúde.
E assim surge a conjunção “mas” na composição de muitos dos alimentos que comemos, na versão de vários especialistas.
Consumo do leite, “sim, só o materno, enquanto bebés; o de vaca nem pensar…”
Mas outro nutricionista já diz que “sim, tem muitas vantagens”. No entanto, “a proteína do leite de vaca é muito diferente da do leite humano, praticamente o oposto”.
E, numa longa lista de acusações, contra o leite, apontam o elevado teor de gordura saturada que aumenta o risco de doenças cardíacas; e o consumo de grandes quantidades de lactose aumenta as probabilidades de cancro no ovário; ou grandes quantidades de cálcio são um fator de risco para o cancro da próstata e também para a osteoporose. As investigações apontam, neste caso, para o consumo de três ou mais copos de leite por dia.
“Habitualmente consome-se leite numa altura de crescimento, até aos dois ou três anos. Depois disso, não só é dispensável como não é recomendável”.
Entretanto, o coordenador do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável reconhece a existência de uma discussão grande e muita polémica ao redor deste assunto. E afirma que “quem tem dificuldade de acesso a alimentos de qualidade não deveria prescindir do leite”.
Já outra nutricionista aponta, para prevenir a osteoporose, a substituição do leite pelo consumo de couve, brócolos, agrião, rúcula, nabiças, que têm bastante cálcio.
Pois é, “para cada estudo contra o leite, aparece um a favor. A relação entre o consumo do leite  e a doença cardiovascular, por exemplo, a evidência científica é quase nula. Já existe, no entanto, alguma discussão sobre a relação das doenças oncológicas: o consumo moderado parece ser protetor, mas quando em excesso haverá um efeito negativo”.
Na revista “Visão”, de 5 de março, volta a ser referido este tema, sob a pergunta: “Será o leite de vaca bom para os humanos?” E refere que “a intolerância à lactose chega a atingir 70% da população nos países do Sul da Europa e vários estudos apontam hoje o excesso de leite como causa do aumento da incidência de cancro do cólon, ovário, próstata e mama – e, até, de mais fraturas ósseas”.
Curiosidade é a aludida revista 2 do “Público” referir dados históricos sobre o leite, numa referência a um artigo de julho de 2013 da revista “Nature”: “Arqueologia: a revolução do leite”, em que há 11 mil anos, quando a agricultura começou a substituir a caça, as populações do Médio Oriente aprenderam a reduzir a lactose – que não conseguiam digerir por falta de lactase – fermentando o leite para fazer queijo e iogurte; 2500 anos depois, uma mutação genética ocorreu na Europa, mais precisamente na zona da Hungria, dando à população a capacidade de produzir lactase durante toda a vida. “Essa adaptação abria uma nova fonte nutricional que conseguia sustentar as comunidades quando não havia colheitas”. Uma grande parte da população europeia descenderá desses primeiros agricultores que insistiam em continuar a produzir lactase na idade adulta.
Já a revista Visão refere que os primeiros sinais de introdução de laticínios na alimentação humana datam do ano 5000 a.C., pouco tempo após terem ocorrido as últimas mutações genéticas da nossa espécie – precisamente no gene que dá a instrução para a produção da enzima lactase. E, das descobertas havidas, foi afirmado que “pelo menos desde o Neolítico que se consome leite e seus derivados, com vantagens para os povos que o faziam”.
Mas, no Diário de Notícias online, de 6 de março, sob o título “Dieta do Paleolítico: uma moda do tempo das cavernas” é referido que, atualmente, várias pessoas deixam de fora das suas refeições, os cereais, os laticínios, as leguminosas, os açúcares e os alimentos processados, comendo quase como se vivessem na Idade da Pedra. Dizem os adeptos da dieta paleo, inspirada no Paleolítico, que para se manter saudável, perder peso e prevenir uma série de doenças o melhor é alimentar-se como os homens das cavernas: à base de carne, peixe, marisco, ovos, vegetais, fruta e alguns tubérculos. Trata-se de uma ementa que tem vindo a gerar discussão dentro das ciências da nutrição, mas que seduz cada vez mais pessoas.
No que diz respeito ao café, segundo o online “Notícias ao Minuto”, de 3 de março, um estudo levado a efeito por cientistas sul-coreanos, publicado na revista especializada britânica Heart, informava que beber três ou quatro cafés por dia faz bem ao coração. Os cientistas disseram que, no entanto, “serão necessárias mais investigações para confirmar este estudo e determinar a explicação biológica dos supostos efeitos do café para prevenir a obstrução das artérias”. Entretanto, na sua edição online de 11 de março, é referido que o café afeta todas as partes do corpo, promovendo sentimentos bastante distantes dependendo das situações. Segundo aquele diário online, “Os estudos sobre o café são imensos e os benefícios ou riscos associados vão aparecendo, sendo todos eles bastante controversos, dependendo das opiniões dos investigadores”.
Entretanto, a equipa de cientistas dum hospital de Seul concluiu que uma quantidade moderada de café reduz a presença de cálcio nas artérias coronárias, um elemento considerado responsável pela aterosclerose.
Segundo a Visão, todos os efeitos, sejam eles positivos ou negativos, devem-se à cafeína dos grãos de café. No entanto, há outras substâncias como antioxidantes que dão amargura à bebida, um cheiro caraterístico e algumas propriedades saudáveis.
Registo, da revista Visão, o que uma chávena diária de café afeta o nosso corpo, a saber:
Cintura: - Poderá ajudar a perder peso. Em vez de café com leite que representa cerca de 170 calorias, pode-se optar pelo café simples e evitar 160 calorias numa só bebida. Segundo o especialista Nigel Derby, o café, “para além de ser praticamente livre de calorias, pode ainda ser um inibidor do apetite”.
Coração: - Uma chávena de café pode aumentar a frequência cardíaca em 100 batimentos por minuto e esta sensação pode prolongar-se durante uma hora. Pode ainda provocar a contração das artérias, o que aumenta a tensão arterial. Numa pessoa saudável, isto não causará efeitos nocivos e pode mesmo impulsionar a energia e prevenir ataques cardíacos. O excesso de café pode aumentar o risco de ossos quebradiços ou osteoporose, aumentando a perda óssea.
Dentes: -As manchas nos dentes não são culpa do café. A coloração do café é muito superficial, afetando apenas o biofilme, camada fina de bactérias que cobre os dentes e as gengivas, e não penetra através do próprio esmalte.
Hálito: - Este é um facto que ocorre em quem bebe muito café e tem tendência a ter a boca seca. Para além de comer várias vezes ao dia, beber água é também uma boa solução.
Cérebro: - O consumo moderado de café pode reduzir o risco da doença de Alzheimer até 20%, de acordo com um estudo feito no Reino Unido. A cafeína e os antioxidantes presentes no café podem reduzir a inflamação do cérebro e retardar a deterioração das células cerebrais, associadas à memória.
Rins: - O café é diurético – estimula os rins, fazendo com que precise de ir mais vezes à casa de banho.
Pele: - O café pode ter um efeito desidratante no corpo, mas beber regularmente não seca a pele. Positivamente, o café pode estar ligado a um menor risco de cancro da pele, graças aos seus antioxidantes, que limpam os radicais livres e as moléculas ligadas ao cancro e a outras doenças.
Diabetes do tipo 2: - Muitos estudos creem que beber café está relacionado com um menor risco de diabetes do tipo 2. Uma investigação nos EUA concluiu que quem bebia 3-5 chávenas de café por dia tinha menos risco de desenvolver a doença.
Músculos: - Beber café é positivo para os músculos, pois impulsiona-os e fornece-lhes energia. A cafeína incita à queima de gordura por parte dos músculos, para a obtenção de energia, quando esgota a energia fornecida pelos hidratos de carbono. A cafeína ajuda a abrir as vias respiratórias e é semelhante à teofilina, usada no tratamento de asma.
Aqui fica um alerta, ou uma simples informação, tendo em conta os ditos prós e contras nalguns dos “principais” alimentos que tomamos.

(In Revista "ECOS DA APAE", DE MAIO DE 2015)