22 de novembro de 2015

PONTOS NOS “IS”

A informação que se impunha aconteceu agora com o esclarecimento do JF de 19 de novembro de 2015, independentemente da minha amizade existente com o autor do site historiascc e o jornalista do JF.
Pretende-se assim que não haja usurpação dos direitos de autor.
Não pretendo escrever mais obras sobre o SCC, pois bastam as quatro (quase cinco, com as duas edições) que, com centenas



horas de pesquisas e envolvimento de muita gente, muitos já falecidos; e com algum prejuízo de âmbito familiar, profissional (na altura) e até financeiro; deixei à Covilhã a história do maior Clube da Região, ousadia que ninguém ainda havia assumido.
E, que mais não fosse, ofereci ao Clube todos os livros, encadernados, e várias compilações sobre a nobre Coletividade Serrana, de grande volume, encadernadas, num total de 9, em 12.06.2002.
Do Clube do meu coração – o Sporting Clube da Covilhã – nada tenho de ressentimento, independentemente de pontos de vista que em determinadas ocasiões podem divergir. Posso mesmo afirmar que os Dirigentes do SCC reconheceram oficialmente, por várias vezes, todo este trabalho, com condutas que inequivocamente me honraram.
Quanto a novos elementos de estórias para a continuidade da história dos Leões da Serra, que não foram abarcados nos livros já escritos, ou a sua atualização, já que a história não se completa, é de saudar nas iniciativas dos seus mentores, mas que jamais das buscas se omitam as fontes.
Tal não aconteceu no texto de 2 de abril de 2015, do JF, com o destaque de “Grande Tema”, sob o título “A História do Futebol na Covilhã”, e, depois, lamentavelmente, na repetição do erro, na revista do JF alusiva aos “145 anos da Covilhã-Cidade”, nas páginas 50 a 53, sob o título “A Origem do Futebol na Covilhã”, parte integrante do Jornal do Fundão de 15 de outubro de 2015, se bem que um excelente trabalho do jornalista do JF, mas pecando por omissão das reais fontes.
Fica assim reposta a autenticidade da autoria da história escrita do SCC, tendo a certeza que com a minha última obra, em junho de 2007, dei a minha contribuição para lançar o clube, a nível nacional, de todas as divisões, na vanguarda daqueles que têm mais publicações sobre a sua história, só ultrapassado pelos três clubes grandes da I Liga.
Aqui vão mencionados, por ordem cronológica:

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DO SPORTING CLUBE DA COVILHÃ – 1991
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: A.P.A.E. Campos Melo
1ª. Edição – 150 exemplares
Composto na Gráfica do Notícias da Covilhã em 1991 – 565 páginas

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SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DO SPORTING CLUBE DA COVILHÃ – 1992
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: A.P.A.E. Campos Melo da Covilhã
2.ª Edição (renovada) – 300 exemplares
Composto e impresso na Gráfica do Tortosendo em abril de 1992 – 696 páginas
Depósito Legal n.º 55229/92


FIGURAS E FACTOS DO SPORTING CLUBE DA COVILHÃ
Nas Comemorações do seu 70º Aniversário – 1923 – 1993
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: Sporting Clube da Covilhã
1.ª Edição – 500 exemplares
Execução gráfica: Gráfica União da Beira, Lda – Fundão, em 1993 – 568 páginas
Depósito Legal n.º 68547/93

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SPORTING CLUBE DA COVILHÃ – PASSADO E PRESENTE
Bodas de Diamante – 1923 – 1998
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: Sporting Clube da Covilhã
1.ª Edição: 500 exemplares
Impressão e encadernação: Tipografia do Jornal do Fundão, Lda – Fundão,
em novembro de 1998 – 424 páginas
Depósito Legal n.º 130140/98

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SPORTING CLUBE DA COVILHÃ NA TAÇA DE PORTUGAL
Cinquentenário da sua participação na Final – 2 de junho de 2007
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: Sporting Clube da Covilhã
1.ª Edição – 1.000 exemplares
Impressão e acabamentos: Grafisete – Artes Gráficas Lda – Fundão,
em  junho de 2007 – 182 páginas
Depósito Legal n.º 256178/07
ISBN: 978-972-95503-9-3



JOÃO DE JESUS NUNES


18 de novembro de 2015

A DINÂMICA E O ENGENHO DE ALEXANDRE GALVÃO AIBÉO

Lembrei-me deste Covilhanense, nascido nos alvores do século XX, em 16 de abril de 1906, tendo deixado o mundo dos vivos aos 57 anos (escrevo exatamente no dia e mês em que faleceu: 01-11-1963) porquanto se aproxima o Natal.
Os traços da sua personalidade e a sua inteligência deram-lhe a oportunidade de deixar obras que ilustram atos importantes na vida da Cidade e do Concelho.
Quando agora se entregam as iluminações das ruas da cidade, e de certos eventos, principalmente na época natalícia, a empresas de fora, naquela altura dos anos 40 a 60 do século passado, era da autoria de Alexandre Aibéo que saíam as maravilhosas e artísticas iluminações, com a mão-de-obra dos funcionários dos então Serviços Municipalizados, onde ele era Diretor-Delegado. Contribuíam assim para o sucesso de solenidades da cidade, tais como as ornamentações com iluminações no edifício da Câmara Municipal, comemorativa do 25.º aniversário do Prof. Oliveira Salazar no Governo, em 1953, com a silhueta do então Presidente do Conselho; iluminação do monumento de Nossa Senhora da Conceição, da Covilhã, e de algumas ruas da cidade, nas festas comemorativas do centenário de Lourdes que se realizaram na Covilhã, de 27 a 29 de junho de 1958, com a presença do Núncio Apostólico, Cardeal D. Fernando Cento; na mesma altura, silhueta de Pio XII, no edifício da Câmara Municipal; iluminação da Feira Popular do Sporting da Covilhã, no Jardim público, em 1961; ainda no mesmo ano, em 20 de maio, decoração e iluminação da sua responsabilidade, do edifício da Câmara Municipal, Pelourinho e algumas ruas da cidade, aquando da visita das relíquias do Condestável, na altura Beato Nuno Álvares Pereira; por último, no mesmo ano da sua morte, ornamentação, com iluminação do edifício da Câmara Municipal e Centro Cívico, aquando das visitas do Presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek de Oliveira, em janeiro de 1963; e do Presidente da República Portuguesa, Almirante Américo Thomaz, em junho do mesmo ano.
Os Aibéos foram nomes de destaque na vida citadina, tendo vivido à Ponte do Rato, numa casa destruída com os profundos melhoramentos e alterações que se fizeram – Rossio do Rato. Esta ponte chamava-se “Barreira” porquanto quem quisesse atravessá-la para entrar na Covilhã (há mais de um século) tinha de pagar e mostrar o que transportava.
Dos cinco irmãos, o João, o José e o António tinham uma oficina, na altura denominada “Aibéo & Irmãos” onde fabricavam peças para as fábricas de lanifícios. Foram eles que construíram o primeiro carro de bombeiros da Covilhã e os primeiros esquis de Portugal.
Alexandre Galvão Aibéo depois de ter frequentado o Liceu de Castelo Branco tirou o Curso Comercial na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, e o diploma de eletricista, por correspondência.
Aos 21 anos foi indigitado pelo Eng.º Michaelis de Vasconcelos, do Porto, para organizar os Serviços Municipalizados, tornando-se gerente comercial, tendo-se dedicado de alma e coração ao seu trabalho, nunca aceitando propostas de melhores lugares fora da terra que amava acima de tudo – a Covilhã. Passados alguns anos foi nomeado Diretor-Delegado dos SMC (posteriormente com a designação de SMAS, e, atualmente, ADC-Águas da Covilhã) que ocupou até à sua morte.
Muito novo fez parte da Corporação dos Bombeiros Voluntários da Covilhã e integrou outros órgãos dirigentes de instituições e coletividades da Cidade, entre as quais o Clube Nacional de Montanhismo, do qual foi presidente.
Foi o iniciador e impulsionador do Carnaval da Neve. Fez o saneamento e eletrificação das fábricas de lanifícios da cidade e quase todo o concelho. Depois de muito instado pelo então Governador Civil de Castelo Branco, aceitou ser provedor da Santa Casa da Misericórdia da Covilhã onde mostrou bem as suas capacidades no dirigismo, com bastante rigor. Chegou a organizar o cortejo de oferendas a favor do hospital, com excelentes resultados. Era sempre chamado para fazer parte das comissões de festas da cidade, comemorações, homenagens, visitas e receções, para as quais estava sempre pronto.
Com todo este trabalho em prol da Covilhã, não temos conhecimento, nem a família, que lhe tivesse sido prestado reconhecimento por tudo o que fez.
O último projeto que não chegou a realizar foi o parque de jogos que hoje existe com o seu nome, pertencente ao Grupo Desportivo da Mata – o Parque Alexandre Aibéo.

Faleceu num acidente de automóvel, mas resultante de doença súbita, a caminho do Porto, onde ia adquirir os candeeiros para a inauguração da Barragem do Viriato, nas Penhas da Saúde (Serra da Estrela).

(In "Notícias da Covilhã", de 19-11-2015)

10 de novembro de 2015

QUIMERA APOCALÍTICA

Na altura em que escrevo esta crónica o País aguarda o desenrolar dos acontecimentos que presumivelmente irão resultar nos únicos onze dias de poder na administração do governo então empossado.
Uma considerável parte das gentes portuguesas pretende agora outro cambiante para dar forma diferente ao colorido do retângulo português: de Melgaço ao Funchal; de Seia a Rabo de Boi; ou de Miranda do Douro à Lage das Flores. Quer fugir daqueles tons escuros, pouco cinzentos, representados na tez daqueles que procuraram outro florir em terras da estranja. Foi assim que deu azo à diminuição da população portuguesa, pelo quinto ano consecutivo. Portugal é ainda o 12.º país do mundo com mais emigração, para além de ser a sexta população mais envelhecida do planeta.
E foram o “S. Pedro e o S. Paulo” do anterior famigerado governo que ainda deram uma mãozinha para que não houvesse na Europa outro país com mais emigrantes do que Portugal.
E para também continuarmos na vanguarda das necessidades, aí está Portugal com mais pobres do que em 1974.
Muito provável pouco tempo para um período governativo, sendo o pessoal da tenda constrangido a sair do seu conforto, naquele travo amargo de um Governo a prazo, do qual não rezará a História, já que o sistema político irá mudar o seu funcionamento e, talvez, algumas páginas da História possam registar tão só esta alteração.
Já não há interjeições que possam exprimir algum sentido de respeitabilidade pelo homem de Boliqueime, porque não dá para acreditar o que o representante máximo deste pedaço planetário mais ocidental da Europa está sendo de provocação. Se levarmos Cavaco a sério estamos a ir de encontro a uma crise constitucional prolongada. Ele ainda pensa como no tempo da Guerra Fria. A Maria que trate dele.
As tomadas de posição de Cavaco Silva – o Presidente da República para alguns portugueses –são monstruosas, aquando da indigitação de Passos Coelho como primeiro-ministro, aqui como ato perfeitamente normal; são também paradoxais face ao seu então discurso de tomada de posse, em que seria “o presidente de todos os portugueses”. De quais? Os do seu partido? São ainda de uma incoerência atroz, ele que dizia que “sabe o que faz e nunca se engana”. Efetivamente, afirmar que não se deveria aceitar que o BE e o PCP/PEV tenham uma participação plena nos governos de Portugal revela uma autêntica falta de cultura política e democrática.
É certo e verdade que aqueles partidos de esquerda, durante a campanha eleitoral privilegiaram como bombo da festa os socialistas, mas também haja a memória das decisões irrevogáveis, que se transformaram numa farsa de oportunismo, passando-se uma esponja sob a palavra dada de um mentiroso, que era conhecido pelo Paulinho das feiras. Mas Cavaco incitar os deputados socialistas à desobediência assenta no pressuposto que sonha com uma situação apocalítica.
Portugal pode mudar dentro de dias, e se tal funcionar bem, inaugurará uma nova era.
Mas voltando a Cavaco, aquele que prezava acima de tudo a estabilidade e as soluções de governo com apoio maioritário, agora já parece tomar como opção governos de minoria. Pois é, o importante mesmo é que o seu partido esteja presente. Total incoerência.
O homem que deveria dar o exemplo e foi um dos causadores “do estado a que isto chegou” faz gerar um alarmismo despropositado sobre a formação de um novo Governo de esquerda, apresentando essa decisão como aquela que nos pode conduzir ao fim dos tempos. E a agressividade com que a direita enfrenta qualquer desafio à sua dominação, leva a ferir a democracia. Esperemos que o caricato não surja nos ministros então empossados, ainda que por onze dias, telefonando para os seus familiares, como surgiu em 1987 com o famigerado Dias Loureiro, dizendo: “Pai, já sou ministro!”.
O discurso de Cavaco, lido no dia 22 de outubro, foi a afirmação de um verdadeiro golpe de Estado, tornando-se assim o pirómano, aquele que já era conhecido por atear fogos de instabilidade no país. Figuras importantes da vida política do País, e não só, consideraram “excessivas” as palavras de Cavaco na comunicação que fez ao país; outros que “foi o pior discurso de um Presidente da República desde 1974”; que não se “lembram, depois do PREC, de uma crise tão profunda e tão angustiante como esta que hoje vivemos”.
Pois é, o Sr. Silva, como uma vez um madeirense do seu partido lhe chamou, em demanda com ele, abriu precedentes com o gerar deste conflito mostrando como a comunicação do presidente, que deveria ser de todos os portugueses, está no limite do abuso e da usurpação de poderes.
Reconhecendo-se embora que o provável futuro governo de esquerda que se prepara para subir ao poder no dia 10 de novembro, é de poucas oportunidades e de muitos perigos, há que ter fé e esperança na mudança, já que o Presidente da República que muitos desejam vê-lo partir, não pode impor as suas convicções à soberania popular. Há que acreditar que o apocalipse vislumbrado por Cavaco não passou de uma indisposição como já lhe acontecera em público. Também é certo que, na falta de medicação atempada, tal indisposição só lhe passará quando outro o substituir. Que o tempo passe depressa!


(In "fórum Covilhã", de 10.11.2015)

1 de novembro de 2015

FOI UM ÊXITO O CONVÍVIO DO EXTINTO “C.R.P. ESTRELA DESPORTIVA DE SÃO PEDRO”, NA COVILHÃ

Conforme tínhamos vindo a anunciar, realizou-se no dia 24 de outubro, no GIR do Rodrigo, o almoço-convívio anual de memórias do extinto “Centro de Recreio Popular Estrela Desportiva de São Pedro”.
Desta vez tinha como inovação a apresentação do livro “Breve Resenha do Centro de Recreio Popular Estrela Desportiva de São Pedro”, escrito pelo antigo associado João de Jesus Nunes, o qual foi oferecido a todos os presentes e convidados deste evento.
A apresentação esteve a cargo do Dr. António Manuel Parente Antunes, que a todos encantou pela forma clarividente da mesma. O autor, um dos membros da Comissão do evento, disse nas suas palavras, e já anteriormente o vinha afirmando, que se pretendia este ano sair da rotina e transmitir a outras coletividades, neste caso do mesmo âmbito, inseridas no INATEL (anteriormente designada FNAT) que os seus dirigentes mantenham a ousadia, nestes tempos difíceis, como também outrora o foram, de manterem as suas coletividades ativas e não as deixando acabar como aconteceu com o antigo CRP Estrela de São Pedro, e também com o CRP Águias de Santa Maria. É que a Covilhã é detentora do maior número de agentes culturais de todo o distrito. Tanto mais numa altura em que se acentua como uma CIDADE CULTURAL.
Estiveram presentes os presidentes de algumas das coletividades convidadas, do Inatel: Centro Popular de Trabalhadores dos Pinhos Mansos (Tortosendo), CRP do Rodrigo, Leões da Floresta, Oriental de São Martinho, e Arsenal de São Francisco.
Da edilidade covilhanense esteve, por uns breves momentos, o Vereador Carlos Martins, que se deslocou propositadamente de mais de cem quilómetros onde se encontrava, e voltou ao local donde viera.
Falou por último a Gestora da Loja do Inatel na Covilhã, Dr.ª Margarida Pereira.
O encerramento deste evento foi com chave de ouro, através da jovem fadista covilhanense, médica em Lisboa, Daniela Runa. Subiram ainda ao palco, para que a voz do fado não lhes doesse, José Manuel Matias e João Figueiredo.
Após o partir do bolo comemorativo, alguns dos presentes ainda pediram mais livros para desta vez adquirir para seus familiares e amigos, que não estiveram presentes.
Excelente organização para a tranquilidade de uns bons momentos de descontração.

João de Jesus Nunes

21 de outubro de 2015

A RASPADINHA

O outono vai a meio. As vindimas já se fizeram. Não é muito usual haver por estes lados concertinas e tambores, nem cantores ao vivo e em despique. Chegam agora as castanhas, que assadas são um regalo, na companhia da jeropiga.
Diariamente lá está o quiosque habitual para o meu jornal de preferência. E os regionais complementam-no. Mas é no sábado e domingo que, noutra banca de jornais, assisto às raspagens. Na minha frente apressa o passo alguém que pressente que também me dirijo para lá.
Enfileiro-me para adquirir o jornal. Cá fora, sob uma mesa de madeira, já se raspa…
Aguardo a vez. Mas se o meu antecessor adquire uma revista, lá vai também o pedido de uma raspadinha. Perco tempo…Do outro lado da fila, já uma senhora mostra a raspadinha sortuda.
E é neste andar quotidiano que se raspa, raspa, raspa… e volta a raspar!...
Vêm as notícias. Primeiro as parangonas. Depois as crónicas.
As eleições para o governo deste Portugal, por muitos desejado, e por outros rejeitado, já passaram à frente. Antes delas, naquele período do pregão, a gentinha raspava de devagar, devagarinho.
Veio a euforia! Os que nos tramaram a vida compraram logo uma raspadinha d’ouro. Eles lá pensaram: com uma raspadinha de um euro afinal eles contentam-se… E começaram a raspar com força.
Raspa, raspa, raspa… e volta a raspar!...
Mas, maldito mas… da euforia passaram à ansiedade, tendo acertado nas sondagens mas com falhanço na imaginação necessária para gerir o dia depois. A preocupação de deixarem o poder é notória.
Os risos sarcásticos de dentro da Coligação duraram pouco tempo. Quem havia semeado os ventos da arrogância, de um governo que não ouviu ninguém e não falou com ninguém, que fez o que lhe deu na real gana, tantas vezes na ilegalidade, “quebrando contratos com os mais necessitados, ao mesmo tempo que lembrava a intangibilidade dos contratos com os mais poderosos”, acusando os outros de serem “piegas”, de serem culpados por estarem desempregados, de serem velhos do Restelo, como tantas outras baboseiras que soltaram daquelas bocas, permitiu que na altura do julgamento, uma parte maioritária dos que votaram contra o Governo sejam agora capazes de os impedir de governar, ainda que correndo muitos riscos.
E enquanto os socialistas, como Partido charneira, decidem, com os ventos de feição, jogar a raspadinha à esquerda ou à direita, o Zé Povo vai também tentando a sua sorte: raspa, raspa, raspa… e volta a raspar!...
É preciso mudança! Temos vivido sob uma grande mentira, em que os responsáveis políticos, para se perpetuarem no poder, produzem ilusões, medos e ansiedade social, levando as pessoas ao ponto de se maltratarem a si próprias, gerando dúvidas e insegurança em si mesmas.
Há que haver uma profunda reflexão do que queremos e para onde vamos, independentemente de raspar mais devagar ou com mais força; de comprar raspadinhas de ouro ou de um euro. A sortuda não está para breve, pelo que há que se ponderar. É que as vindimas são feitas até ao lavar dos cestos.

Raspa, raspa, raspa… e volta a raspar!...

(In "Notícias da Covilhã", de 22-10-2015)

18 de outubro de 2015

CHEGÁMOS!


Neste ano da graça de dois mil e quinze, mês de outubro, completámos cem números de “O Combatente da Estrela”.

Podemos agora voltar-nos para o que foi o “antes”, o que está sendo o “durante”, e o que poderá ser o “depois”.

São três fases do tempo daquele tempo que tem a nossa vida: para uns mais longa, para outros mais curta.

Seja como for, entre virtudes e defeitos se fez a vida humana. E foi, é e será, nesta forma comportamental de cada um; mais dinâmica ou menos ativa, mais tolerante ou de índole agressiva, na tez de serenidade ou no semblante neurótico, cada qual com a sua alma assim tatuada, entre considerações e repulsas; que assim se construiu ou vai arquitetando o espaço temporal das nossas existências.

E é assim que, na amálgama de conceitos, mas no respeito pelo mundo que nos circunda, nasceu este pequeno jornal, na sua forma, mas grande na sua generosidade de querer fazer chegar, ao maior número possível de leitores, aquele abraço no sentir de quem passou por uma parte dura da História de Portugal.

Mas também, como órgão de cultura, várias facetas da vida citadina, onde nos inserimos e, por isso, e por natureza, também onde poisam as nossas preocupações.

O tempo vai caminhando veloz, mas a parte integrante dos acontecimentos que constituem muitas páginas da História de Portugal; daquela juventude que nós fomos, dos anos sessenta a setenta do século XX, em que surgiu a bravura na defesa da Pátria, a dor dos companheiros que se viram tombar em combate, lá longe, longe das famílias, as marcas indeléveis na carne, ou a doença depressiva que todos trouxeram, numa incompreensão dos senhores da Nação de outrora; jamais se poderá dissipar, e é nas páginas de “O Combatente da Estrela” que muitos testemunhos, notícias, reportagens, entrevistas, ou textos diversos dão o sinal de que a História das Guerras em África terá que continuar a ser lida, meditada, por tudo o que se passou, e, também, por tudo o que não querem assumir como reflexo dessas lutas fratricidas de então.

Durante o espaço que medeia entre o primeiro número de “O Combatente da Estrela” que viu a luz da gráfica em janeiro de 1988 e este mês de outubro de 2015, nos seus cem números, os obreiros do jornal, que durante muito tempo quase se reduziram ao trabalho desdobrado do seu Diretor, o mesmo desde início, muitos acontecimentos surgiram na vida da Liga dos Combatentes, da Cidade e do País.

No seio da Liga, muitos foram os que deixaram o mundo dos vivos, alguns prematuramente. Todos foram respeitados no simbolismo fúnebre e na recordação das suas memórias com inserção da notícia, com foto, neste periódico. Também nas transladações para o espaço próprio nos Cemitérios Municipais, e nas romagens em cada 1.º de Novembro.

Depois, há a preocupação dos que ainda vivem o resto das suas vidas, e, daí, a persistência na construção do tão almejado Centro de Dia e Lar de Terceira Idade, conforme temos dado notícias neste jornal, sempre que oportuno.

As notícias também têm vindo a lume, neste periódico, sobre as consultas psicológicas gratuitas, no apoio que a Liga dá aos seus Associados, e não só, também a todos os antigos Combatentes que à mesma se dirijam.

A solidariedade também se estende aos mais necessitados.

Embora separado da Liga dos Combatentes, como organização particular, mas de antigos Combatentes, que emergiu do que surge na Tabanca de Matosinhos, onde alguns antigos Combatentes da Covilhã ali se juntaram aos seus colegas, no encontro por que é conhecido o local de encontro, todas as quartas-feiras, de ex-Combatentes da Guiné, hoje Guiné-Bissau, para um almoço de confraternização, surgiu a Tertúlia dos Combatentes, cujo evento temos dado conhecimento nas páginas de “O combatente da Estrela”.

Todos os meses se reúnem, num restaurante da cidade, para um almoço, antigos Combatentes, cujo número vai crescendo, sempre ultrapassando a centena de participantes. A anteceder o almoço costuma haver uma caminhada, ou, quando tal não é possível, mormente no inverno rigoroso, reúnem-se os antigos Combatentes num café para conversar sobre determinado tema, ou, então visitas culturais, como foram ao Museu de Arte Sacra, Universidade da Beira Interior, etc.

A espiritualidade também não fica sem lugar e então há anualmente uma peregrinação a Fátima. O lazer e recreação também estão presentes na Liga dos Combatentes, pelo que são várias as viagens programadas para os associados, seus familiares e amigos, de cujo relato damos notícia n ´”O Combatente da Estrela”.

Como não podia deixar de ser, na preocupação com os seus associados, e no âmbito cultural, têm-se organizado algumas Conferências, com debate, alusivas a vários temas, mormente sobre a situação dos antigos Combatentes.

O “depois” passa incondicionalmente pela continuidade da caminhada que os obreiros da Liga dos Combatentes estão a fazer, e, neste contexto, também “O Combatente da Estrela” será o elo de ligação entre as suas estruturas e os seus associados e leitores em geral, ao serviço da Cidade Covilhanense, e seu Concelho, ao qual pertence.
(In "O Combatente da Estrela" - N.º 100 - Edição Especial - outubro 2015)

13 de outubro de 2015

VITÓRIA DE PIRRO


Contra ventos e marés a coligação Portugal à Frente (PaF), sem sensação, face às últimas sondagens, acabou por vencer as eleições legislativas, saindo vencido o Partido Socialista (PS) que, meses antes, era dado como partido vencedor, incontestavelmente na opinião pública e no próprio seio das gentes da direita.

No entanto, a vitória da PaF, constituída pelo PSD e CDS/PP, com os seus 38,6% de eleitorado contra 32,4% do que votou no PS, acabou por ver dissiparem-se as grandes alegrias das suas gentes face às indecisões sobre a obtenção de maioria absoluta ou relativa.

E os seus semblantes começavam então a ser diferentes quando uma brisa soprava na direção da esquerda.

Mas neste intervalo até aos resultados finais, algumas coisas iam emergindo, entre aqueles que sempre se consideram vencedores mesmo perdendo – caso da CDU, aos grandes vencedores: Catarina Martins, do Bloco de Esquerda (BE) e as próprias sondagens que vinham sendo desacreditadas.

O líder do PS, António Costa, foi o grande derrotado da noite eleitoral. Depois de tanta austeridade durante quatro anos, tinha a obrigação de ganhar as eleições legislativas. Para além de culpa própria que se traduziu em vários fatores, como ter acreditado na corrida da lebre e da tartaruga em que ele representou a lebre, e ao sair-lhe o tiro pela culatra na expressão do “soube a pouco” que levou o seu antecessor António José Seguro (ele um dos vencedores) a ser traído a meio do campeonato de líder do seu partido, viu também na esquerda, mormente da parte do Partido Comunista, erguerem-se os manguais da malha no PS ao invés da Coligação PaF.

E, falando de campeonato, os vencedores Passos Coelho e Paulo Portas tiveram, ao longo da legislatura, a parcialidade do árbitro que sempre fora nomeado, Cavaco Silva, sem que lhes mostrasse o cartão amarelo e muito menos o vermelho.

No terreno do jogo, ainda surgiram algumas expulsões como Marinho e Pinto, do Partido Democrático Republicano, e, quando ainda se encontrava no aquecimento, o jogo acabaria por terminar sem ser utilizado Rui Tavares, do partido Livre. Para já não falar nas memórias de Sócrates.

Dos mais de nove milhões de eleitores inscritos, 56,89% exerceram o direito de voto, sendo que, ao contrário do que as projeções anunciaram ao início da noite, neste caso para gáudio da PaF, a abstenção também quis ganhar, sendo a mais alta de sempre em eleições legislativas, com 43,11% de eleitores a não irem às urnas.

Voltando ainda à final do campeonato governativo, como foi possível que os mais de cinco milhões de “espetadores” que entraram nos vários estádios e introduziram o seu bilhete nas urnas da esperança, aceitaram continuar com a equipa técnica geral quando houve quatro anos de austeridade, desemprego, emigração, sacrifícios de vária ordem e um treinador novo anunciado no partido da oposição, e de mais de cem mil jovens por ano a procurarem outros clubes no estrangeiro, a custo zero, em detrimento de Portugal que os preparou e neles investiu fortemente?

Acontece porém que, no rescaldo após o jogo, já na fase das entrevistas dos jornalistas, nos balneários, se chega à conclusão que, afinal, a vitória do clube Portugal à Frente não vai chegar para passar a eliminatória. É uma vitória amarga. É que há mais clubes interessados em não descerem de divisão e se manterem no “arco da governação”. Eles unidos podem eliminar o vencedor da contenda.

E como o povo não é estúpido, havendo sempre vencedores e vencidos, sabe que não ter medo é uma das melhores armas.

Assim, só para falar no nosso distrito de Castelo Branco, o PS ganhou, e, na Covilhã deu um forte contributo com quase o dobro dos votos no PS em relação à coligação PaF.

O País inclinou-se para a Esquerda. A soma dos votos dos “Clubes” que a integram é superior aos do vencedor. Não podem agora jogar (governar) a seu bel-prazer. Também o fragilizado presidente da agremiação, Cavaco Silva, agora não pode fechar os olhos às tropelias do vencedor, com total impunidade e complacência meiga.

Claro que a Coligação foi a vencedora; que a CDU perdeu, embora com um deputado a mais; que Catarina Martins, do BE foi a “jogadora” mais em evidência na peleja, muito bem preparada, decidida e veemente sem nunca perder a calma, sorrindo zombeteira quando era necessário, personalizou o que queríamos e precisávamos de ouvir. Ela recuperou a tradição do combate da História de Portugal, como Deu-la-Deu Martins, ou a Padeira de Aljubarrota.

E, assim, nesta apagada e vil tristeza que tem assolado o nosso querido retângulo à beira-mar plantado, chega-se à conclusão que a Coligação de Direita foi a vencedora mas é uma vitória de Pirro.


(In "fórum Covilhã", de 13-10-2015)

16 de setembro de 2015

O ILUSTRE COVILHANENSE, DR. DUARTE SIMÕES, COM A ALMA DE UM GRANDE VISIONÁRIO


Fisicamente era de uma grande estatura, mas muito inferior à grandeza da sua alma, numa forte nobreza de caráter, probo, onde a sua magnanimidade se impunha como visionário em prol da sua Covilhã.

De horizontes largos, bem depressa integrou um grupo de dinâmicos e corajosos covilhanenses, em redor do grupo de trabalho para o Planeamento Regional da Cova da Beira, no qual viria a emergir o ensino superior na Covilhã, através da fundação do Instituto Politécnico, em 11 de agosto de 1973, com a entrada dos primeiros alunos dos cursos de Engenharia Têxtil e Administração e Contabilidade, no quadro da então chamada “Reforma Veiga Simão”. Esses primeiros 143 alunos foram recebidos em 1975.

Volvida meia dúzia de anos, surgia assim, em julho de 1979, a conversão do Instituo Politécnico em Instituto Universitário da Beira Interior (Lei 44/79, de 11 de setembro); e, em 30 de abril de 1986, o Instituto Universitário passa à atual Universidade da Beira Interior.

Mas voltando a esta insigne figura, de seu nome completo, Duarte de Almeida Cordeiro Simões, nasceu na Covilhã em 28 de fevereiro de 1927. Com 11 anos ingressou no Colégio Militar onde estudou até ao 7.º ano (atual 12º). Não sendo seduzido pela carreira militar, optou por se matricular, no ano de 1945, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, no qual completou 4 licenciaturas (Administração Comercial, Finanças, Aduaneiras e Diplomacia).

Iniciou a sua atividade docente na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, como professor provisório, nos anos 1952/1955, seguindo depois para a Escola Comercial Veiga Beirão, em Lisboa, nos anos 1955/1956. Viria a interromper a sua atividade docente, durante seis anos, passando a exercer as funções de Gestor em várias empresas privadas, quando, em 1962, regressa ao ensino, passando por Caldas da Rainha, Lisboa e, finalmente, fixando-se na sua Terra natal – a Covilhã. É assim que, de 1965 a 1974 vem a acumular as funções docentes com as de gestor público e secretário-geral do grupo de trabalho para o Planeamento Regional da Cova da Beira.

E concretiza-se o seu grande sonho, num pensamento há muito gerado na sua mente. A criação em 1974 dos Institutos Politécnicos em Portugal foi a ocasião chegada, a grande oportunidade. O Instituto Politécnico da Covilhã abriu uma nova etapa da história do ensino. O Dr. Duarte Simões vem a ser o seu primeiro diretor. Vem a dedicar-se com todo o empenho à grande tarefa de transformar a que fora, em tempos, a “Real Fábrica de Panos” numa grande catedral do ensino, contribuindo assim para o ressurgir daquela que fora a cidade lã – cidade fábrica, na cidade da cultura.

Só que, muito cedo, esta notável figura covilhanense deixou o mundo dos vivos, no malogrado dia 8 de agosto de 1979.

Tendo o diretor da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, Eng.º Ernesto de Melo e Castro, atingido a reforma, coube ao Dr. Duarte Simões tomar interinamente a direção da mesma, de 1966 a 1967. Verificaram-se imediatamente alterações: cursos têxteis de formação equiparados em igualdade e equivalência aos cursos gerais de Comércio. Pediu autorização para funcionarem as secções preparatórias aos institutos. Conseguiu a criação do curso de Habilitação Complementar para os Institutos, a funcionar em regime de experiência piloto, por ordem do Ministro da Educação Nacional, Veiga Simão, no sentido de preparar a entrada dos alunos nos institutos universitários a criar por aquele membro do Governo.

Em 1972 foi nomeado como correspondente do Fundo de Fomento de Exportação, cessando as suas funções em junho de 1974 e, bem assim, as de diretor interino dos Serviços Municipalizados da Covilhã.

Podemos mesmo dizer que foi o Dr. Duarte Simões o principal dinamizador e homem-chave das comemorações do Centenário da Cidade da Covilhã, da realização das Feiras de Atividades Económicas, do Parque Industrial, e da Cooperativa dos Fruticultores, entre outras suas iniciativas. Foi ainda o responsável por relatórios visando a criação do Ensino Pós-Secundário na Covilhã, em colaboração, reorganização e reconversão da indústria de lanifícios; relatório de proposta para planeamento da Cova da Beira; sobre os Serviços Municipalizados, e Serra da Estrela – Desenvolvimento Turístico.

Por despacho do Ministro da Educação e Cultura de 18 de setembro de 1974 foi nomeado para a Comissão Instaladora do Instituto Politécnico da Covilhã, lugar criado pelo Decreto-Lei n.º 402/73, de agosto passado. Em 10 de setembro do mesmo ano foi nomeado Presidente daquela que viria a ser a Universidade da Beira Interior.

Na Escola Industrial foi professor de Contabilidade e Cálculo Comercial. Ainda chegou a ser meu professor de Contabilidade, embora por pouco tempo.

Foi autor das seguintes obras: Planeamento Regional, Poesia – Esperança e Ânimo, Serra da Estrela (Bases para programação do seu desenvolvimento turístico – 1975).

Casou com a Dr.ª Maria Ascensão Albuquerque Amaral de Figueiredo Simões, também ela dedicada à Escola Campos Melo, e à Covilhã, tendo sido a Presidente do Conselho Diretivo aquando das Comemorações do Centenário da Escola Campos Melo.

Com o desaparecimento do Dr. Duarte Simões, a cidade e região ficaram mais pobres. A Covilhã admirava-o pelo seu dinamismo, o seu espírito empreendedor e lutador por tudo quanto representava o progresso da região.

A edilidade covilhanense deliberou dar o seu nome a uma das ruas da cidade e homenageá-lo, a título póstumo, com a medalha de ouro da cidade.
(In "Notícias da Covilhã", de 17.09.2015)

8 de setembro de 2015

AQUELA QUE FOI A MONO-INDÚSTRIA NA COVILHÃ

Os tempos mudaram. As crises generalizadas que o País sempre enfrentou, desde que foi fundado, acentuaram-se nalguns setores. Um deles foi o da indústria de lanifícios.
Os dias que correm, face às transformações no mundo, com a globalização, na modernidade, com as descobertas científicas, são incomparáveis aos de ontem.
Contudo, há modos de vida que se encontram enraizados nas populações, que deram prosseguimento à vivência local dos mesmos, como o sangue a correr nas suas veias.
Hoje, a Covilhã, já não é a Covilhã da mono-indústria mas duma vertente de atividades que vão do ensino universitário, maioritariamente, a uma série de pequenas indústrias, com exceção de meia dúzia de grandes empresas de lanifícios; comércio em menor escala, e diversidade de serviços, entre os quais as novas tecnologias.
As crises da indústria de lanifícios na Covilhã são ancestrais. Hoje vemos a existência de muito poucas empresas fabris, entre as quais a maior ibérica, comparativamente com as de mais de uma centena de outrora.
Preservam-se ainda muitos imóveis das antigas fábricas de lanifícios, quase todos devolutos ou em adiantado estado de degradação, com as suas gigantes chaminés, que são ainda o ex-líbris da Covilhã, continuando a tecer o futuro.
A grande crise da indústria de lanifícios do século XX acentuou-se, remontando há quase meio século. Trinta mil pessoas a viver juntas nesta cidade interior do País – referência ao ano de 1968, altura em que deixei a Covilhã temporariamente, durante 42 meses, para cumprir o serviço militar obrigatório.
A Covilhã, inteira, dependia de 130 fábricas que aqui laboravam 48 a 50 por cento da produção nacional de lanifícios. Um terço da população desta cidade, de então (dez mil operários inscritos), trabalhando nesta indústria, sentiam grandes dificuldades, com seus fracos salários.
Nessa altura, já 23 fábricas haviam encerrado por falência. Alguns empresários colocavam os bens em nome de seus filhos, com a tendência para se criarem sociedades de capital limitado. Capitalistas e agiotas aproveitavam a situação, fazendo negócios chorudos para as necessidades imediatas, empurrando o industrial na ruína ou em situações de grande dificuldade. A banca impunha condições exigentes, como nas aberturas de crédito.
Mas em qualquer outro ponto do País onde se trabalhasse em lanifícios, encontravam-se operários e técnicos covilhanenses, com nítida fuga de mão-de-obra para o estrangeiro.
A Covilhã esteve durante muito tempo, com as suas crises têxteis, de costas voltadas para a Serra. Havia uma ideia errada do fenómeno sócio-económico desta cidade. A presença de tão grande concentração industrial com dezenas de fábricas que descem a serra e se estendem pelos vales, e a aparência próspera dos seus habitantes, induziam em erro. Havia uma vida artificial com as pessoas a usufruírem de artigos de luxo em detrimento de bens de primeira necessidade. Nessa altura havia um único hotel na Covilhã – “Solneve”, de Artur de Almeida Campos, que não teve nos seus descendentes a sua força empresarial.
O investimento no equipamento industrial, iniciado 15 anos antes, por parte de empresários, movimentou números elevadíssimos, confiando no futuro, pensando principalmente nas exportações.
Se bem que esta tenha sido a mola real para o desenvolvimento da indústria têxtil covilhanense, foi, simultaneamente, uma das razões principais da crise que então se principiou a delinear. Um dos motivos maiores da crise financeira dos empresários foi no corte de crédito que os bancos fizeram, ou as condições a curto prazo, insustentáveis. Outras causas das dificuldades foi o fraco poder de compra do mercado nacional. Segundo o falecido industrial José Rabaça, o que acontecia na Covilhã era a existência de um excessivo número de micro-empresas. Depois, na Covilhã não havia a indústria completa mas sim a setorial. Enquanto na fábrica completa tudo se conjuga para uma fabricação de artigo final, mais economicamente produzido, nas atividades setoriais procura-se atingir o mesmo benefício à custa do sacrifício da secção alheia. A maior empresa de lanifícios do nosso país não possuía ainda secção de acabamentos (ultimação).
A reconversão desta indústria deparou com um obstáculo intransponível: a falta de preparação de muitos industriais e o seu feroz individualismo. Era o tradicionalismo familiar que imperava. Fábricas passando de pais para filhos. Estes, em muitos casos, com evidente impreparação.
Também a inexistência de um Instituto Industrial na Covilhã. Havia apenas a Escola Industrial e Comercial Campos Melo. Hoje o problema está resolvido com a Universidade da Beira Interior.
Ainda não tínhamos entrado na União Europeia mas, entretanto, segundo acordos da EFTA, logo que um produto atingisse ou ultrapasse 15 por cento de exportações, deixava de estar sob proteção pautal, podendo assim os produtos de outros parceiros entrar livremente no nosso pobre mercado, com concorrência aberta da Grã- Bretanha e da Suíça.
Depois da lã da região, com a industrialização, a Covilhã passou a ser um consumidor dos grandes fornecedores mundiais de lã – a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Mas nunca deixou de se mover em volta da sua indústria secular.
Para obstar aos problemas da mono-indústria, nunca foi levado a sério, ou com entusiasmo férreo, o desenvolvimento do Turismo, numa zona privilegiada como é a Serra da Estrela, com a sua porta principal na Covilhã.
Naquela altura, há quase meio século, o turismo na Covilhã não passava duma pequena sala iluminada, no Centro Cívico, onde se encontrava um taciturno funcionário dizendo quase não a tudo, embora com um sorriso, porque não havia informações. Para além do “Solneve”, existia apenas, nas Penhas da Saúde, a “Estalagem do Pastor” e o velho “Hotel das Penhas da Saúde”.
Os operários e empregados dos lanifícios recebiam à semana, dando assim a ilusão de um desafogo económico na Covilhã. O dinheiro corria sempre. Havia sempre dinheiro fresco. As casas comerciais utilizavam as pequenas prestações mensais – “as deixas” – que atraíam o operariado. Um fato não se pagava, descontava-se na féria. Daqui o poder andar-se bem vestido, ou gastar dinheiro numas cervejas ou nuns cafés. O “Montalto”, à sexta-feira tinha os agiotas e espetadores que desde a hora do almoço aguardavam que um empresário aflito lhes vendesse uma letra de 70 contos por 40, ou lhes pedissem empréstimos para pagar a féria ao pessoal, preferindo este sistema à busca direta de um banco, a fim de que este não se apercebesse das dificuldades em que se debatia. Era o coração de uma crise que se reforçava na Covilhã.
Hoje, apesar das várias crises, a Covilhã está indubitavelmente muito melhor. Outros tempos.


(In "fórum Covilhã", de 08.09.2015)

26 de agosto de 2015

A ÍNCLITA GERAÇÃO TAMBÉM REFERENCIOU A COVILHÃ

Desde sempre Portugal esteve envolvido em crises e soube encontrar soluções. Umas vezes, por ousadia, outras, pelo génio e sapiência dos seus homens e mulheres.
Nos tempos que correm, e ao longo destes quase nove séculos da existência de Portugal, não deixam de surgir indesejáveis dificuldades, tantas vezes evitáveis, presságio de sustos doutrora.
No dia 21 de agosto comemoraram-se os 600 anos da tomada de Ceuta. Este feito histórico, que poderia ter redundado num desastre, acabou por ter um fim feliz, fruto da participação, neste ato audacioso, da “Ínclita Geração”.
Na Europa já não havia lugar para mais aventuras. Fora feita a paz com os castelhanos, ainda não total, e, assim, também a sua desistência de nos perseguir, resolvida que foi a crise de sucessão originada com a morte de D. Fernando. Após o “Interregno”,1383 -1385, e a derrota dos castelhanos na Batalha de Aljubarrota em 14 de agosto de 1385, com o reforço da chamada Aliança Inglesa através do casamento entre o Mestre de Avis – D. João I e D. Filipa de Lencastre; com o génio do audaz militar, Condestável Nuno Álvares Pereira, eis que a inspiração, o sonho, é ultrapassar as fronteiras europeias. Ali tão perto ficava o norte de África muçulmano.
Após a Batalha de Aljubarrota, era ratificada, no Porto, por D. João I, em 6 de outubro de 1385, a mercê que concede a renda do souto de Alcambar, ao convento de S. Francisco da Covilhã destinada a concluir as obras da igreja (atualmente Igreja de Nossa Senhora da Conceição).
Os portugueses, que constituíam apenas um milhão de habitantes, contra os dez milhões de hoje, na madrugada de 21 de agosto de 1415, quando o sol começou a nascer, proporcionaram aos habitantes de Ceuta, ver “na linha do horizonte um cenário tão grandioso como assustador”. Eram 20 mil homens que desembarcavam nas mais de 200 naus, fustas e galés, armados por D. João I. Pela primeira vez, na história de Portugal de menos de quatro séculos, os portugueses arriscaram sair do seu cantinho europeu na conquista dum pedaço de África.
D. João I, então com 58 anos, desde muito cedo encontrou o apoio entusiástico dos seus filhos mais velhos, D. Duarte, D. Henrique e D. Pedro. Após resolvidas as incertezas sobre vários pontos: distância e ausência de meio de transporte para chegar a Ceuta; a falta de gente; o futuro das relações com Castela; sobre os proveitos a tirar da conquista, bem como custos de manutenção da praça, garantido o apoio dos filhos, procurou também a aliança do condestável, D. Nuno Álvares Pereira, que se tornara a estrela do regime, agora com 55 anos, assim como da sua mulher, D. Filipa de Lencastre. Os filhos do rei ficaram encarregados cada um da sua missão, cabendo ao infante D. Henrique responsabilizar-se pelas tropas das Beiras e Trás-os-Montes que embarcariam no Porto a 13 ou a 14 de julho. Neste contingente seguiam covilhanenses, entre os quais D. Diogo Álvares da Cunha, colaborador do Infante D. Henrique, aquando da tomada de Ceuta. Frei Diogo Álvares da Cunha, que professou na Ordem de Cristo após aquela expedição, era neto da rainha D. Leonor Teles e de seu primeiro marido, João Lourenço da Cunha. A tomada da cidade de Ceuta para muitos marcou o início da expansão. A 19 de maio de 1426, D. Diogo entrou no capítulo geral da sua ordem de Tomar. Após a expedição às Canárias, em 1424, passou a ser comendador do Castelejo e Castelo Novo. Em 1438 recebeu 15.781 reis de soldo pelo seu serviço em Ceuta. Está sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Covilhã, onde é visível uma lápide com inscrição.
Entretanto um surto de peste, a poucos meses da partida, veio dificultar os planos, e D. João I parte viúvo para Ceuta, porquanto D. Filipa de Lencastre sucumbe desta doença, em 19 de julho de 1415. Também, D. Nuno Álvares Pereira, idoso e cansado, tentou adiar a partida.
O que é certo e verdade é que, independentemente destas dificuldades com que não contavam, aconteceu, com ousadia, mas com êxito, a tomada de Ceuta a 21 de agosto de 1415.
“Ao Infante D. Henrique é-lhe concedido por D. João I, em 2 de setembro de 1415, pela primeira vez, o senhorio da Covilhã, para além da alcaidaria-mor. O grande impulsionador dos Descobrimentos e da Expansão, raras vezes terá passado pelo território da Beira Baixa. Devido a estes títulos que lhe foram concedidos a sua ação ter-se-á refletido forçosamente aqui. Terras e indivíduos sob a sua jurisdição terão beneficiado das diligências por ele efetuadas. Dos navegadores ao seu serviço, nove eram da Covilhã”.
Segundo o “Público”, nos seus tempos áureos, Ceuta fora uma cidade do tamanho de Lisboa. Chegou a ter 62 bibliotecas científicas e 24 mil casas comerciais.
Em fevereiro de 1641, o governador de Ceuta, D. Francisco de Almeida, jurou obediência a Filipe IV. Desde então, a cidade permaneceu espanhola até hoje, embora ainda conserve as armas portuguesas desse tempo.
As comemorações que se realizaram na Covilhã, no dia 22 de agosto, revestiram-se de grande esplendor mas, lamentavelmente, sem qualquer eco nos jornais de referência nacionais.


(In "Notícias da Covilhã", de 27.08.2015)

11 de agosto de 2015

PEDALANDO

Falta de tempo, ou é preciso dar tempo ao tempo? É preciso é pedalar!...
Escrevo esta crónica na véspera da etapa da Volta a Portugal em bicicleta, rumo à Torre. E, mais um ano, num amável convite da Liberty Seguros, lá estarei naquela etapa-rainha da Serra da Estrela, e, no dia seguinte, em Castelo Branco, na excelência de um convívio entre muitos amigos. E o tema é quem mais pedala, num reforçar da pedalada para o resto do ano.
Agosto é o mês preferencial para muita gente entrar de férias. Como já me encontro nas vitalícias, para mim o Verão não é a silly season. Contrariamente, é uma altura de boas recordações da minha juventude, associadas ao prazer do reencontro com velhos amigos.
Terminei a “Breve Resenha do Centro de Recreio Popular Estrela Desportiva de São Pedro – 1944 – 1972” que os participantes no próximo almoço-convívio, a realizar em 24 de outubro, terão oportunidade de apreciar, no folhear de algumas páginas de indeléveis recordações. Eu próprio, nos meus dezoito anos, de fato e gravata, em pleno Verão, como era usual naqueles tempos dos anos 60 do século passado, lá estou… Reminiscências do passado.
Era eu funcionário público até ao regresso do serviço militar, e, nessa altura, eram os que tinham menos regalias sociais – nenhumas!... – E ganhavam mal, o que me levou a um gesto de indignação reportados, naquele tempo de censura à imprensa, num artigo publicado no “Notícias da Covilhã” em 1972 – “Uma sóbria profissão – o funcionalismo público”, tendo o primeiro, “A Covilhã precisa de um museu”, sido publicado no mesmo semanário em 1964, com que iniciei escrever nos jornais.
É que, voltando ao pedalar, vem atualmente referido para a função pública, a sugestão que o Governo fez para que passassem a usar aquele velocípede de duas rodas. Se já havia mobilidade na função pública, agora faz-se de bicicleta… Esta sugestão integra-se num conjunto de medidas para reduzir em 20% as emissões de CO2 dos automóveis do Estado e também os gastos com combustível. É o programa para a mobilidade sustentável.
Pois é, na viragem que foi do mês de julho para o mês de agosto, boa parte do país está em descanso e em mobilidade. Com menos tranquilidade se encontram os nossos políticos, na preparação das listas para as eleições legislativas, que, lá de lançar a bênção para a calmaria, está o venerável santo de Boliqueime. Nunca se engana exceto as vezes que já não se lembra. No meu tempo de juventude, analogamente a este homem de estado, existia o “cabeça de abóbora”.
Entre as ondas do mar e a folhagem que se agita nos campos, vão surgindo labaredas em matos e florestas. Coisas que não havia nos anos 50 e 60 do século passado, excetuando casos esporádicos.
E outras chamas, que não as do fogo, vão incendiando, paulatinamente e com ardil, este Povo que, noutros tempos, nem sequer conheciam o significado da palavra corrupção.
Já nem vamos falar em mais nomes, sobejamente conhecidos dos portugueses, porquanto já cheiram a bafio. De vez em quando lá emergem mais uns quantos que se vão juntar ao rol das “estrelas do ardil”, ou daqueles que por obras demoníacas se “enganaram”. Mas, vamos lá, numa de benevolência, são todos bons rapazes. Nós é que não estávamos habituados, n’é?!
Sou ainda do tempo do pirolito, aquela bebida que até finais dos anos 50 fez a delícia de adultos e principalmente da pequenada que viam nela um “dois em um” pois além de beberem o refrigerante, tinham a oportunidade, partindo a garrafa, de ficar com a bolinha de vidro que servia de tampa. A sentença de morte do pirolito surgiu quando o governo, por razões sanitárias, mandou substituir a garrafa por outra com carica.
E então chega a vez de, naquela década dos princípios dos anos 60, poder trazer de “dentro para fora”, uma memória que ficou dos nossos tempos de meninos e moços, solteiros e bons rapazes, em que as algibeiras andavam sempre leves, por falta de semanada, ou mesada, inexistentes, e algum dinheirito lá se conseguia dos paupérrimos salários das nossas primeiras atividades, que a grande fatia era para entregar em casa, aos pais. Essa memória ainda hoje é objeto de riso, naquela do “copo de leite e um bolo”.
É que, no jogo dos matraquilhos, na Pensão de São Francisco, onde ficavam hospedados alguns dos jogadores que vinham para o Sporting da Covilhã, o vício minguava as poucas moedas que continham os nossos bolsos. Daí que já não dava para saciar um pouco o estômago, de noite, na Pastelaria Lisbonense, com um habitual copo de leite e um bolo.
Certo dia azarento, o José Alberto Neves, que, tal como nós, ali havíamos deixado as nossas míseras economias, lamentou-se numa daquelas, refletindo sobre tamanho azar: “Valia mais termos ido beber um copo de leite e um bolo!...”. Esta perdurou no tempo e, de vez em quando soltam-se-nos as palavras sobre esta recordação, para quem viveu esses tempos, como o José Augusto Ferreira da Silva.
Outros tempos!...

(In "fórum Covilhã", de 11.08.2015)

14 de julho de 2015

SÓ SEI QUE NADA SEI

1. Na altura em que redijo esta crónica Portugal está de luto. Desapareceu do mundo dos vivos Maria Barroso, a eterna primeira-dama portuguesa. Esta grande Senhora morreu no hospital que fundou – Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. Mulher “determinada na defesa de causas e com o seu caráter humanista e força solidária”, que “valeu a pena ter vivido”, segundo a própria disse ao jornal i, em maio deste ano, aquando do seu 90º aniversário natalício.
2. E, enquanto neste “contentamento descontente”, surgido entre o “oxi”(não) e o “nai” (sim), os gregos procuram ansiosamente por uma resolução para a sua vivência, os Senhores da Europa certamente que também sentirão as suas pressões, sistólica e diastólica, alteradas (“Pecámos contra a dignidade dos povos da Grécia, Portugal e Irlanda” –  Jean-Claude Juncker – presidente  da Comissão Europeia que criticou modelo da “troika” e anterior equipa liderada por Durão Barroso, que se limitou a confiar em técnicos).
Vamos ver se a permuta de cabeças, no Ministério das Finanças grego, com a entrada do aristocrata Tsakalotos em substituição do académico Varoufakis, mantendo a mesma ideologia, dará o resultado desejado.
Jamais assistimos a uma posição de força de um país da moeda única, como o surgido com a Grécia, berço da democracia. Efetivamente foi na Grécia Antiga que nasceu a democracia, quando em 507 a. C., os atenienses, liderados por Clístenes, foram autorizados a falar e votar para as leis da cidade-Estado. Entretanto, surgiria o domínio turco durante um longo tempo de 350 anos, e, com a independência da Grécia em 1821, seria marcado o início da Grécia moderna.
O que é certo e verdade é que os gregos deram a toda a Europa e a todo o mundo uma lição de coragem e dignidade.
Em tempo de guerra, o maior perigo absorve o menor, faz-se pouco caso dos perigos dos mares; e as estações mais inclementes se estimam as mais favoráveis para escapar à vigilância do inimigo. Também aqui, os gregos com o Syriza, e o seu líder Alexis Tsipras, souberam, e compreenderam, ainda que duma forma pungente, que a constância seria a arma forte contra a genuflexão, esta atitude muito do agrado de Merkel e Hollande, e, até mesmo por estas bandas domiciliárias, da “simpática” Maria Luís Albuquerque, que nos “brindou” com a informação de que o País “tem os cofres cheios”.
3. Depois da troika estrangeira ter deixado o nosso País, ficou a troika nacional (Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva), e, com este arranjo assim vai a nossa troika (a portuguesa), iludindo os portugueses, com elogios hipócritas aos credores e fazendo de conta que há um apaziguamento no país, chegando-se ao ponto caricato do homem de Boliqueime condecorar, no Dia de Portugal, com a Ordem do Infante D. Henrique, o costureiro de Maria Cavaco Silva. Logo surgiu o humor nas redes sociais, de que a esposa de Cavaco também lhe tinha falado para condecorar quem lhe arranjava as unhas…
E é assim que temos o retrato da desconfiança portuguesa. Como será então possível dar o salto qualitativo para o desenvolvimento e a solidez democrática?
Segundo um trabalho de São José Almeida, na Revista 2 do Público de 14 de junho, referindo-se à Confiança, dizia:
- “Quando o país parece pronto a arrancar para uma nova etapa de desenvolvimento, a questão é saber até que ponto será limitada pelos baixos níveis de confiança existentes na sociedade portuguesa”. E eu refiro, por exemplo, as mentiras continuadas dos governantes, mormente do seu líder; o não dizerem a verdade aos portugueses; a irrevogabilidade de uma decisão que, afinal, voltou com a palavra atrás, do antigo beijoqueiro das feiras; as inverdades do homem de Boliqueime: “Podem confiar no BES!”.
- “Quando as pessoas olham para o futuro e acham que o futuro não promete nada a não ser novas ameaças, essa unidade quebra-se”. E eu recordo o empurrar os jovens cérebros para fora do País; as constantes ameaças de já não haver dinheiro para a constituição de futuras pensões de reforma; a falta de confiança nos tribunais; nos governantes que continuam a não temer e a surgir novas surpresas de corrupção; os que passeiam por esse País fora banhado por um enriquecimento inexplicável, naquela de “Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem”.
A confiança é, pois, fator fundamental para o desenvolvimento económico. O País continua com medo de ir para a rua. Os portugueses têm pânico de expor a sua opinião: Portugal é um país com muitos acobardados.
Segundo Guilherme de Oliveira Martins, verificamos que a sustentabilidade económica só se verificou em cinco períodos: descobrimentos, ouro do Brasil, emigrantes, volfrâmio e fundos comunitários. Tudo isto foi exterior. 80% da população vive entre Setúbal e Braga, numa faixa de 80 Km do mar para o interior. Era expetável que a partir de 1986, com a entrada na CEE, Portugal abandonasse “o seu estatuto de semiperiférico e se juntasse ao clube dos desenvolvidos, o que não aconteceu”.
Há um indicador em que Portugal está à frente de todos os países desde 1990: a confiança na Igreja. O cardeal D. Manuel Clemente diz que uma realidade “tem tudo a ver com a confiança”: “O que cria confiança é o conhecimento, e o que cria desconfiança é o isolamento”.
A confiança na justiça e nas instituições tem sido abalada pelos sucessivos casos de corrupção que envolvem figuras do Estado, da política ou da sociedade – o que descredibiliza perante a sociedade os que deveriam ser referência num país com “tradições que são difíceis e negativas”, como aponta Jorge Sampaio.
O País assistiu à falência de três bancos com contornos criminais: BPN, BPP e BES. A confiança abala-se no sentido de perguntarmos: “Em quem é que eu acredito?”
4. A Covilhã continua na sua senda cultural, vincando perfeitamente a sua condição de detentora do maior número de agentes culturais do Concelho, em relação a todo o distrito de Castelo Branco. Em cima da minha secretária um desdobrável da Agenda Cultural do Município da Covilhã, em formato original, dobrado em origami, cuja configuração é para quem goste; mais parecendo que foi concebida na inspiração de alguém enquanto passava a ferro…
E, depois de muitas polémicas, num acerbo de linguagem pouco própria do anterior líder do executivo camarário, as gentes covilhanenses já se começaram a aperceber que, afinal, valeu a pena a mudança. O trabalho está a surgir e havia muita treta, o que não obsta que considere que também nesta há boys, girls e interesses instalados.
5. Gala Tribuna Desportiva: - À hora que redijo este texto ainda não teve lugar este grandioso evento, que, pela 2.ª vez consecutiva, se realiza no Castelo de Belmonte, durante a noite de sábado, dia 11 de julho. Promover a distinção, ao longo do ano desportivo, de muitas figuras e coletividades da região, mormente do distrito de Castelo Branco, não está ao alcance de qualquer pessoa, mas sim dos melhores. Por isso, está de parabéns, mais uma vez, o impulsionador da Grande Gala, e diretor da Tribuna Desportiva, Pedro Martins, e também o Dr.  

António Pinto Dias Rocha, presidente do Município de Belmonte.

(In "fórum Covilhã", de 14.07.2015)

8 de julho de 2015

VERTENTES DA SOLIDARIEDADE

Ao longo do ano são várias as instituições que unem os seus membros, num sentido solidário, procurando minimizar as depauperadas algibeiras de muitos que se vêm constrangidos, nos tempos que correm, nos caminhos da míngua do que mais é indispensável para a sua sobrevivência e de seus familiares. E, então, é hábito os peditórios junto das grandes superfícies, por essas instituições: Banco Alimentar Contra a Fome, Cruz Vermelha, Santa Casa da Misericórdia, como exemplo. De âmbito nacional conhecem-se as recolhas do Banco Alimentar, numa ação altamente profícua, cujos géneros alimentares recolhidos são depois distribuídos por várias instituições parceiras, onde se inserem as Conferências de S. Vicente de Paulo, e alguns Centros e Lares da Região, que é vasta.
As Conferências de S. Vicente de Paulo, que geralmente não as vemos nesse âmbito de recolha de alimentos, pelas grandes superfícies, têm a seu cargo uma enormidade de carentes, a quem procura satisfazer, dentro das possibilidades de cada organização, nos vários aspetos das necessidades daqueles, que vão, para além dos géneros alimentares para colmatar algumas lacunas dos bens mais necessários, também na parte da saúde, através de ajuda nos medicamentos ou viagens para os locais de tratamento fora da cidade, a luz, água, gás, renda da casa, e sei lá que mais. Mas, dentro do espírito que envolve a Caridade, o mais importante é, tantas e tantas vezes, aquela palavra de conforto que se leva aos semblantes carregados, daquela gente ávida de enormes desabafos, no seio da sua solidão.
Nesta envolvência de ajuda conscienciosa ao próximo, procuram os membros das Conferências analisar cada caso para que se evitem abusos, através das normais fontes de informação, a solicitar aos necessitados, e sempre sob anonimato.
Isto não invalida que muitas vezes são as Conferências confrontadas com condutas impróprias de quem necessita, ocultando rendimentos ou ajudas que entretanto já recebem de outras instituições, que nem sempre é possível em cruzamento de dados.
Foi assim sugerido, em determinada altura, que as mesmas instituições que regularmente distribuem géneros alimentares, fornecessem as listas de quem ajudam, a fim de que não houvesse as mesmas pessoas a receberam de várias instituições ao mesmo tempo, em detrimento de outras a quem tem que se reduzir, ou não entregar, a dose de géneros que iriam melhorar a sua escassez de recursos.
É que, uma coisa é ter necessidade, outra coisa é dar jeito…
Vem isto a propósito de alguns reparos que ouvimos por esta cidade. Também estranhamos porque é que há tanta relutância em prestar informações que viriam a evitar os já referidos abusos.
No dia 5 de julho realizou-se o Convívio Vicentino, no Seminário do Tortosendo, desta vez a cargo da Conferência de S. José, do Canhoso, onde estiveram presentes, para além dos representantes do Conselho de Zona da Covilhã, o Rev.º Padre Henrique Rios, cerca de quatro dezenas de vicentinos das várias Conferências da Cidade da Covilhã e Tortosendo, e também o Presidente do Conselho Superior, Correia Saraiva, que é a entidade máxima das Conferências em Portugal. Esta Conferência do Canhoso comemorou também o seu 10º aniversário.
A Sociedade de S. Vicente de Paulo foi fundada pelo francês António Frederico Ozanam, e seus companheiros, em 1833, em Paris, com o nome de Conferência da Caridade. Em 4 de fevereiro de 1834 passou a dedignar-se Sociedade de São Vicente de Paulo.
Numa altura difícil, da vida em França, com guerras existentes, e, depois, pelo mundo fora, a Sociedade de S. Vicente de Paulo tem uma história rica, em toda a sua forma de ajudar os que mais necessitam e dentro do espírito da Caridade.
Muito do que gostaria de escrever não cabe neste espaço, mas dentro dos muitos países por onde se irradiou, gerando milhares de Conferências Vicentinas, chegou também a Portugal, embora tardiamente, no ano 1859, tendo, curiosamente, entrado na Grécia e na Alemanha, em 1846; em Espanha, em 1850; em Inglaterra e Irlanda em 1844; e em Itália, em 1842.
Na Diocese da Guarda viria a ser fundada a 1.ª Conferência Vicentina – Conferência de S. Luís Gonzaga – em 01/12/1891, mas só agregada em 1909. Mas seria a Covilhã, e continua a ser, o grande baluarte das Conferências Vicentinas da Diocese da Guarda, quatro delas já centenárias: Santa Maria Maior (inicialmente com a denominação de Nossa Senhora de Lourdes), fundada em 12/11/1899 (agregada em 18/12/1899); Nossa Senhora da Conceição, fundada em 19/03/1903 (agregada em 20/02/1905); S. Pedro, fundada em 29/06/1905 (agregada em 19/03/1906); S. Martinho, fundada em 19/02/1911 (agregada em 22/05/1911).
Depois, no âmbito do Conselho de Zona da Covilhã (antiga designação de Conselho Particular), fundado em 03/12/1910, existem ainda as seguintes Conferências: Tortosendo, fundada em 04/05/1924 (agregada em 29/09/1924); Alpedrinha, fundada em 26/11/1925 (agregada em 11/04/1927); S. José – Bairro dos Penedos Altos, fundada em 08/04/1951 (agregada em 27/05/1957); Imaculada Conceição de Maria – Fundão, fundada em 04/07/1949 (agregada em 14/05/1964).
Muitas outras Conferências existiram na Covilhã, diversas freguesias do seu Concelho e na região beirã, que, entretanto, estão desativadas.
De recordar que as Conferências da Cidade Covilhanense para além de prestarem vários auxílios, ao longo dos tempos, também estiveram envolvidas na criação de instituições de grande mérito.
A Conferência de Santa Maria Maior apoiava o Albergue dos Pobres (hoje Lar de S. José), fundado em 1900. Foi nesse ano que se conseguiu a vinda das Irmãzinhas dos pobres para cuidar do Albergue, as quais chegaram em 10 de junho de 1902 à Covilhã. Depois foi a criação da Cozinha Económica, mais tarde entregue à Santa Casa da Misericórdia da Covilhã. Estiveram também presentes na construção das casas do Património dos Pobres.

Enfim, uma riqueza da história das Conferências de São Vicente de Paulo na cidade covilhanense.

(In "Notícias da Covilhã" de 09-07-2015)

29 de junho de 2015

TUDO MUDA DE TAMANHO

Para a página de âmbito desportivo deste número, hei por bem inserir um texto que se encontrava arquivado nos meus documentos antigos e que se destinava a ser publicado, em 1998, no 3.º número d’ “O Refugiense”, volvida então uma dúzia de anos após o surgimento do último número. Fora um convite do então Presidente da Direção daquela Coletividade de prestígio da Cidade Covilhanense, João Torrão, e de outro amigo, Vitor Fazendeiro, mas o jornalinho acabaria por não sair.
Recordo assim, n’ ”O Combatente da Estrela”, alguns momentos altos por que também passava, nessa altura, o nosso SPORTING CLUBE DA COVILHÃ, com a presença amiga de alguns antigos e valorosos atletas dos “Leões da Serra”, os quais já partiram para o outro lado da vida.
E, então, referia que em janeiro de 1998 li um artigo do jornalista Pedro Rolo Duarte, na revista do Diário de Notícias, versando o tema “mudança de formato”.
E dizia: “Tudo muda de tamanho. Começou com o “mini” a revolucionar a indústria automóvel e nunca mais parou (…). Reconheço que há razões objetivas para “encurtar” objetos. Mas não me obriguem a dizer que gosto de ver uma obra de arte enfiada numa caixa quadrada de plástico com doze centímetros de lado (…). Os formatos mudam como muda o tempo: de repente, aí estão garrafas de bebidas “formatadas” pela Europa com menos cinco centilitros de capacidade. A vodka, o whisky ou o vinho do Porto custam o mesmo, ou custam mais, mas trazem menos (…). Mas a tragédia não fica por aqui. Mudam diariamente os formatos dos telemóveis, muda o formato das fotografias, mudam os tamanhos dos comprimidos e a espessura dos relógios. Adaptamo-nos a tudo. Está em marcha a campanha que nos levará a adotar teclados ditos ergonómicos para os computadores, ratos sofisticados com formatos que se assemelham mais a porcos do que a ratos, e não tarda nada mudam-nos o formato da televisão (…). Há três semanas mudou o formato de mais um jornal. Chegou a vez do “Jornal de Notícias”. Já antes tinha sido assim com “A Bola” e, antes ainda, com este mesmo “Diário de Notícias” que tenho na mãos (…). Mas, que querem, cada vez que vejo mudar o formato de um jornal, como cada vez que assisto a uma reedição em CD de obras que só havia em vinil? Sinto-me perdido. Fico triste, tenho saudades. Sinto-me isolado. Só eu gosto de abrir um jornal broadsheet e tirar-lhe o vinco que o dobra ao meio. Só eu gosto de ficar com dores nos braços depois de ler o “Expresso”. No futuro, mudam o formato dos Homens, que podem deixar de ser “ao alto” para passarem a ser “ao baixo”, e posso arrumar as botas. Depois dos clones, vão arranjar maneira de fazer criaturas transportáveis, pessoas que se arrumam facilmente numa pasta de tamanho A4 (…). Não gosto do que vejo. Sou contra a mudança do formato (…) e, “cuidado: um dia mudam-lhe o formato…”
É do domínio público que o Refúgio, e o seu “Refugiense”, é uma das franjas da Cidade que tem gente dinâmica, simples e humilde, que sente a amizade do “tamanho” de uma montanha e o reconhecimento por quem outrora deu nome à Cidade Covilhanense, do “formato” da Lua Cheia.
Vem isto a propósito da receção que um grupo de amigos refugienses prestou a duas Velhas Glórias do Sporting Clube da Covilhã, na manhã do dia 6 de junho de 1998, aquando do encerramento das Bodas de Diamante daquele clube leonino.
Passo a respigar parte da página 224 do livro que uns dias mais tarde saiu, sob o título “Sporting Clube da Covilhã – Passado e Presente”, a saber:
“ (…) No Grupo Recreativo Refugiense, calorosa receção por um grupo de entusiastas; 6 de junho de 1998. Já passava das 13 horas. Um grupo de calorosos amigos do SCC, refugienses, e não só, conforme previamente combinado, aguardou a chegada dos antigos atletas, para o almoço-convite. O grupo era pequeno porque muitos, com muita pena de não poderem participar, tinham já compromisso assumido no almoço do Núcleo Sportinguista da Covilhã, que inaugurava a sua sede, com a presença do presidente do Sporting Clube de Portugal. Toca o nosso telemóvel. É o Suarez que informa já se encontrar no Pelourinho, vindo de Vigo, acompanhado do seu simpático amigo, Avelino Villar Pineda. De seguida, surge Fernando Cabrita, acompanhado de seu genro, António Livramento. São os cumprimentos e os abraços, a recordação de alguns amigos e de antigos colegas. Chegada a hora do repasto, num restaurante do Refúgio, vem dar um abraço a estas duas velhas glórias, com surpresa dos mesmos, outra velha glória serrana, João Lanzinha, que acabaria, por atenção aos seus colegas, ir ao jantar de encerramento do SCC.
Mataram-se saudades, memorizaram-se tempos de outrora, do Sporting e da Cidade, curvando-se no respeito pela memória dos que recentemente haviam partido e perguntaram por muitos antigos colegas, valorosos como eles no tempo da I Divisão, nos Leões da Serra (alguns até residiam na Covilhã), e estranhavam por que não estavam ali, para poderem participar no jantar de encerramento das Bodas de Diamante do Sporting da Covilhã, clube que tão bem representaram noutros tempos. Na vida, por vezes, surgem algumas omissões, talvez incompreensões, quiçá esquecimentos.”
Os horizontes de visão no reconhecimento pelas figuras marcantes de uma coletividade de prestígio da Cidade, como é o SCC, têm “tamanhos” ou “formatos” diferentes, conforme as maneiras de sentir ou de ver pelos dirigentes.
Os refugienses souberam entretanto dizer Presente! Ainda nos lembramos de vós!
Aproveitamos para, através deste espaço e deste local, enviar os parabéns ao Sporting Clube da Covilhã pelo brilhantismo e entusiasmo com que terminaram a época finda de 2014/2015 e que, só por um triz não subiu à I Liga do Futebol Nacional.
Boa sorte para a próxima época!

João de Jesus Nunes

 (In "O Combatente da Estrela", n.º 99, de julho a setembro de 2015)

QUASE…

Na dinâmica em que se envolveu uma das grandes instituições da cidade Covilhanense que dá pelo nome de “Liga dos Combatentes – Núcleo da Covilhã”, acaba por ver reforçada essa envolvência fruto da nova Direção, então empossada, que reuniu entre si vários Colaboradores interessados no rumo para o êxito.
Atingimos, n’ “O Combatente da Estrela”, já o número que antecede o centésimo, o que é, sem dúvida, de realçar, desde o primeiro que viu a luz da comunicação social no já distante ano de 1988, mês de janeiro. Manter-se-ia com a sua periocidade mensal até maio de 1990; e, depois, numa tentativa de manutenção desta mesma saída regular, com algumas fases mais alargadas, surgiria um hiato com o seu número 61, em janeiro/fevereiro de 1964.
Uns anos mais tarde, sentida a falta deste órgão, viria a ressurgir, com outra dinâmica, agora trimestral, até aos dias de hoje.
Como “CARTÃO DE APRESENTAÇÃO”, inserido no primeiro número, registamos o seguinte: “Chamo-me “O COMBATENTE DA ESTRELA”; tenho a IDADE que hoje teria Viriato; Sou SOLTEIRO, CASADO, DIVORCIADO e VIÚVO; professo todas as religiões, por isso, sou ECUMÉNICO; sou, por inteiro, PATRIOTA, logo, não tenho partido; SIRVO social e culturalmente a comunidade dos vivos; GLORIFICO os que morreram em combate e também não esqueço os que combateram; ABOMINO os desertores e falsários, a quem chamo cobardes!!!”
Consultando todos os números anteriores o leitor pode constatar duma riqueza cultural, nas várias vertentes: história citadina, envolvente da vida dos antigos Combatentes, desporto local, defesa dos interesses da Covilhã, reflexões de combatentes, notícias, entrevistas variadas, e um rol de curiosidades, tudo na base de autodidatas.
Sem qualquer favor trata-se duma publicação que em nada fica aquém de muitas outras que proliferam por este País fora.
Verifica-se o interesse pel’“O Combatente da Estrela” no recrudescer de novos Leitores e também de Colaboradores, sintoma de que estamos no bom caminho.
Criámos duas páginas destinadas a entrevistas com antigos Combatentes, geralmente acompanhadas de fotografias dos locais, nas Colónias, onde prestaram serviço por obrigação, sendo desta forma que muitas pessoas, principalmente as novas gerações, se apercebem que, na História de Portugal, não foram só as grandes batalhas, as conquistas e os descobrimentos que fizeram resplandecer o nome de Portugal, também ainda hoje há heróis, muitos nossos familiares e amigos, merecedores de serem inspirados das páginas dos Lusíadas, “Que eu canto o peito ilustre Lusitano”.
E porque estamos QUASE no centésimo número d’“O Combatente da Estrela” queremos anunciar que o mesmo irá sair como número especial, a fim de comemorarmos todo este trabalho gracioso mas com muito carinho, ao longo dos anos, na colaboração de autênticos autodidatas, conforme já foi referido.
Alguns eventos se irão proporcionar para comemorar os 100 números d’“O Combatente da Estrela”.
Seria de grande injustiça se não informasse que, desde o seu primeiro número, esteve sempre na liderança da responsabilidade pela vida deste periódico o Presidente da Direção do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, e também Diretor do jornal, que, aliás, o tem sido ininterruptamente, desde o seu início.
Para ele não pode deixar de ir uma palavra de gratidão.

João de Jesus  Nunes

(In "O Combatente da Estrela", n.º 99, de maio a setº 2015)


24 de junho de 2015

SAUDADE E AMIZADE DE MÃOS DADAS

Pois é, também lá estive!... Neste matar de saudades de outros tempos – os da então Escola Industrial e Comercial Campos Melo – fábrica do ensino para muitos obreiros da indústria rainha de então – os lanifícios, nesta Terra – a minha Covilhã – daquela têmpera forte de Viriato, dos Montes Hermínios!
Havia lido algures que antigos alunos da Escola Campos Melo, onde o Engº. Ernesto Manuel Melo e Castro lecionou iam confraternizar com
ele, vindo do Brasil, num almoço-convívio, ali para as bandas do Teixoso.
Inscritos eram só os alunos dos Cursos Técnico de Tecelagem e Debuxo… mas, qual “intruso”, cabia-me fazer o papel tipo “Crónica dos Bons Malandros”, de Mário Zambujal, já que eu era do Curso Geral do Comércio, e, desta vertente, fui o único presente na confraternização, participando também da felicidade dos outros antigos colegas.
- “Trouxeste a máquina fotográfica?” Logo na minha receção, a voz do Gregório Menina, que isto de ajudar na entrada lá estava o João Lázaro, o pequeno grande jogador dos tempos dos Leões da Serra… que outro, também tendo envergado a camisola verde-branca, briosamente, estava lá dentro – Jorge Cipriano, vindo do norte.
Os cumprimentos na mistura de alguma
curiosidade lá prosseguiam: à entrada, sentado já estava o poeta, escritor, mas antes o antigo professor de debuxo, junto de sua filha Maria Alberta; e, com orgulho do seu professor, o Américo Maceiras Caetano, promotor da iniciativa, que veio de Vila Nova de Famalicão, lhe mostrava o seu 1º. Livro de Debuxo.
- “Olha o Aníbal Gonçalves, do Retaxo!” “E tu, quês és?” “O Neto”. “Eh! Pá, desculpa que não te conhecia, és o Olívio Costa Neto!”
As entradas, o bom vinho da região… e, não faltou o belíssimo pão-de-ló.
José Esteves Patrocínio veio de Torres Vedras; e, enquanto o Ferreira Andrade me mostrava umas fotos antigas, de antigos colegas do 2.º ano do Curso Técnico de Tecelagem, em conversa com o Jorge Almeida, entrava o também antigo professor, Engº. César Oliveira, que fôra colega do homenageado.
João José Milhano recordava os tempos de meu vizinho, junto à Escola Industrial, e, sequenciando, chegavam outros, ou já entre si cavaqueavam, entre eles, o Cravino, Carlos Gouveia, Jerónimo Serra, António Nave, João António Coelho.
Já havia chegado o Rui Pereira, com o filho, quando se avista o Jorge Trindade e o Castro Martins; da Figueira da Foz não quis deixar de estar presente o Jorge Correia, acompanhado da esposa. Eram mais de três dezenas, onde estava também o Mangana e o Prof. Dr. Santos Silva.
Na altura do café, eis que o José Rosa Dias, da organização, dita de sua justiça: vão falar, em nome dos antigos alunos, o Américo Maceiras Caetano; em nome dos antigos professores, o Engº. César Oliveira; e encerra o Engº Ernesto Melo e Castro.
Neste feliz encontro de antigos alunos do curso de Debuxo da Escola Industrial da Covilhã, como abreviadamente era conhecida, com os seus antigos professores de Debuxo, atrás referidos, num almoço muito bem servido, a festa foi permanente, na recordação de tempos idos, no matar de saudades.
Maceiras Caetano agradeceu a presença de todos; o Engº. César Oliveira recordou a sua passagem por Bradford na mesma altura do Engº. Ernesto Melo e Castro, em 1956, altura em que conheceu Ernesto Melo e Castro, tendo este o ajudado a adaptar-se à nova realidade, uma vez que havia vários alunos da Covilhã e ele ere o único de Lisboa.
No encerramento das breves palavras dos oradores, falou o Engº. Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro (que vai a Itália participar num encontro de poetas), informando que, estando no Brasil, ficou muito sensibilizado por ter sido convidado para este almoço de confraternização, recordando que no período que exerceu a sua missão docente na Escola Campos Melo formou 143 debuxadores, também ele tendo aprendido ao longo desse tempo a ser cada vez melhor, tanto na área do debuxo como na área das letras: “Estava deprimido face a um grave problema de saúde, e dizia: o que é que eu agora faço? Vou ao Teixoso estar com os meus amigos. Vocês não foram os meus únicos alunos, foram os primeiros!” E falando sobre os tecidos, que têm vida, concluiu: “O tecido é uma metáfora da vida”.
Recordou ainda, nestes ambientes de repasto, o que dizia o professor “Tudo estava muito bom, mas o melhor prato foi o da confraternização”.
de Religião e Moral, Padre Joaquim Santos Morgadinho, do seu tempo:
Por fim terminou: “Orgulho-me de ter sido vosso professor! Estou muito feliz!”

E, de facto, também todos saíram deste convívio, muito alegres, muito felizes.

(In "fórum Covilhã", de 23.06.2015 e "Notícias da Covilhã", de 25.06.2015)