30 de maio de 2018

A USURA E A IGREJA


Embora na origem usura signifique juro, o seu conceito jurídico é mais alargado. Em direito, a usura “é um crime cometido por quem, com intuito de obter um benefício patrimonial, conseguir que outra pessoa se obrigue a conceder-lhe uma vantagem pecuniária desajustada à contraprestação, aproveitando-se da necessidade, inexperiência, incapacidade ou dependência dessa pessoa”.

Para quê estar a falar, mais uma vez, de corrupção, de fraude, de roubo ou de furto? Deixemos estes substantivos descansados, estas quatro palavras, das mais referidas na comunicação social, num fartar desta linguagem, que vai da política ao futebol, do ensino à religião, num etc. alongado. Deixemos esta desgraça! Que tal desgraça não passa de um euromilhões para muitos, como nos temos vindo a aperceber. Até parece já não se poder dar sentido a outras formas honesta de vivermos neste planeta.

São casos e mais casos só no nosso país, que não acontecem somente nas grandes urbes, mas também no nosso meio, no nosso distrito, no nosso concelho, na nossa cidade.

Mas vamos ao assunto que dá força ao título desta crónica.

O combate da usura não foi uma luta exclusiva da Igreja, mas as autoridades católicas foram, sem dúvida, as que mais persistentemente se opuseram à usura, que foi a maior preocupação da Igreja medieval no domínio económico.

A condenação da usura prolongou-se por muitos séculos. Ainda hoje, embora raramente, surgem iniciativas visando limitar juros e lucros.

A preocupação muito antiga de proibir ou limitar a remuneração (juro) do mutuante explica-se pela natureza particular dos empréstimos em tempos mais recuados, geralmente destinados a fazer face aos gastos entre duas colheitas. Se o juro não fosse limitado, os camponeses ficavam à mercê dos usurários que podiam, com as suas exigências, levar os mutuários ao extremo de se venderem como escravos para pagar dívidas.

A legitimidade ou ilegitimidade do juro é, portanto, assunto que vem desde a Antiguidade e que teve, aos longo dos séculos, oscilações e posições muito diferenciadas.

Os filósofos gregos começaram por se manifestar contra o juro. Aristófanes desaprova-o, Platão (428 a 347 a. C.) e Aristóteles (384 a 322 a. C.) consideram o juro contrário à natureza das coisas.

Os Romanos tomaram posições idênticas. Catão (234 a 149 a. C.) equipara o juro ao homicídio, Séneca (3 a. C. a 65) e Plutarco (35 a 120) condenaram igualmente o juro.

Mas as posições dos filósofos nem sempre foram as definidas nas leis ou as seguidas na prática corrente. Mais tarde, a Lei das Doze Tábuas (449 – 479 a. C.) limitou o juro máximo dos empréstimos a 12% ao ano. É que houve mesmo épocas em que os especuladores romanos chegaram a cobrar juros de 48% ao ano. Marcus Julius Brutus (84 a 42 a. C.), líder político militar romano, um dos assassinos de Júlio César, foi um dos prestamistas que emprestava a este juro.

Foi a Igreja que moveu uma luta mais persistente e mais continuada contra a usura. Para a Igreja, usura era toda a operação que implicava o pagamento de um juro. Assim sendo, o comércio e a banca, intimamente relacionados com o juro, eram atividades interditas, ficando os mercadores e os banqueiros sujeitos à excomunhão, o que na Idade Média era uma penalização muito mais temida pelos cristãos do que seria mais tarde.

A Igreja baseava a sua posição nas Escrituras, tando do Antigo como do Novo Testamento. Dos textos do Antigo Testamento: no Êxodo, cap. XXII,25; no Levítico, cap. XXV, 35 a 37; no Deuteronómio, cap. XXIII, 19 e 20. No Novo Testamento: Evangelho de S. Lucas, cap. VI, 34-35. Até ao século IV, os Doutores e Chefes da Igreja mantêm esta posição, considerando o juro contrário à misericórdia e ao humanismo. Daí em diante a situação vai mudar e o que começa a ser condenação nos Concílios de Arles (314), Niceia (325) e Elvira (305 ou 306) é apenas um juro cobrado por clérigos. Só a partir do Terceiro Concílio de Latrão (1170) e de Lyon (1274) é que a repreensão seria também aplicada aos leigos. A Igreja partia de dois pressupostos: um ligado à noção de tempo e outro ligado à profissão de comerciante.

Quanto ao primeiro, considerava a Igreja que sendo o tempo pertença de Deus não era suscetível de ser vendido. E como o juro era associado à ideia de venda do tempo, tinha de ser condenado. O segundo pressuposto estava relacionado com o conceito em que eram tidos os comerciantes. Os pensadores cristãos consideravam o comércio como associado à fraude e à avareza, causador da luxúria e potencial fonte de corrupção e de deterioração das boas maneiras e das virtudes, fonte de contacto com mercadores e estrangeiros.

Os jurisconsultos da época terão especulado acerca dos contornos do conceito de usura, permitindo depois chegar às soluções que justificaram uma flexibilização das posições da Igreja. Com uma nova expansão económica e, com ela, um maior desenvolvimento do comércio, começam a surgir interrogações quanto à doutrina da Igreja nesta matéria e fazem-se ouvir as primeiras vozes discordantes. Para essa flexibilização contribuíram também as opiniões de São Tomás de Aquino quanto à usura e aos comerciantes. O motivo que mais determinou a mudança de posições da Igreja foi que os mercadores a financiavam largamente quando disso havia necessidade. É assim que, a partir de determinada altura, vemos os mercadores a serem considerados pela Igreja como bons cristãos e a serem dispensados da Comunhão, do descanso dominical e do jejum, por imperativos de profissão.

A Igreja acabou, de facto, por tolerar a usura e mais tarde admiti-la desde que não houvesse excessos. A perseguição da usura ainda se estendeu por muitos anos.

(In "Notícias da Covilhã", de 31-05-2018)











8 de maio de 2018

“RIPA NA RAPAQUECA”


Neste mês de maio do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dezoito, como se escrevia nas atas municipais de outrora, já para além da Idade da Pedra e dos Metais, deu-me na tola de evocar expressões que, usadas pela minha avó materna, que partiu há muito quase centenária (o que hoje já não é novidade, mas naqueles tempos era), fazem momentos de humor entre amigos, quando sentados à mesa, principalmente de lautos apetites.
- “Anda côme, que isto não está ruim!”. Dizia a avó Rita. E, pelas bandas da Pousadinha algumas vezes a acompanhei ao curral (que isto de pocilga é mais para os tempos modernos) para “botar a vianda aos bácoros”, com o “Vaidoso” e o “Malhado” que eram também dos nossos melhores amigos, mas já esticaram o pernil, salvo seja, as patas, a contentarem-se com os dias de sol, descansando à sombra duma figueira, enquanto as galinhas e os marrecos aproveitavam o farelo que lhes davam para além do milho.  Cinco mil réis talvez não custasse um bácoro (e era preciso ver se não tinha grainha) mas o dinheiro não dava para tudo e era preciso pagar a décima, quando alguns também arrotavam com a taxa militar porque haviam ficado livres da tropa. Livraram-se, sim, porque até podiam ir parar a algum quartel longe da famelga que não fosse o Batalhão de Caçadores 2 da Covilhã, para já não falar dos desgraçados que foram obrigados a embarcar para a Índia, com Goa muito falada.
Eram os anos 50 da nossa era, mas do outro século. E entre “bota aí mais uma pinga que a comida não está somenos”, que isto de comeres e beberes é que nos dão vida, porque a própria vida são dois dias, havia por vezes aquele grito:
- “Esse bandido do Salazar é que é o culpado!...”. Lá levava um raspanete o atrevidote, que, um pouco mais avinagrado, lançava o bode expiatório da miserável féria que não dava sequer para comprar o milho painço para as pombas, quando até aos coelhos lhes chegou a malina.
E dizia o avisador cauteloso: - “Tu não sabes que por ter morrido o Carmona e lá estar o Craveiro Lopes, ainda há por aí muitos bufos?!... Ainda vais parar às grades!”
É que isto também não é para todos terem vivido em dois séculos.
E agora, já que os herdeiros bateram a bota, coube-nos a desgraça de termos de limpar o pinhal.
Mas, Ripa na Rapaqueca, porque fez agora treze anos, no dia 6 de maio, que faleceu o jornalista e locutor desportivo Jorge Perestrelo. Uma das figuras do jornalismo desportivo mais importantes da rádio portuguesa. São dele esta expressão que se tornou célebre, assim como “É disto que o meu povo gosta”, e “O que é isso, ó meu?” Relatou dois mil e um golos à boleia de gritos, de entusiasmo e de um ritmo que dava o dom de cativar todo e qualquer ouvido. Era aí, no golo, no momento em que o futebol celebra, que mais encantava. Como fez em 2004, no Estádio da Luz, quando viu Ricardo, um guarda-redes, a marcar a outro, ao da Inglaterra, quando a Seleção Nacional ganhou nos penáltis nos quartos de final do Europeu.
Jorge Perestrelo era assim mesmo: vivia e relatava tudo de alma cheia, como se de um adepto se tratasse. Fosse qual fosse a equipa. No dia anterior ao de se lhe calar definitivamente a sua voz, ainda estava de headphones na cabeça e de microfone na mão, a relatar, sem saber, o último golo da sua vida, o que Miguel Garcia marcou em Alkmaar, na Holanda, que apurou no último minuto o Sporting para a final da Taça UEFA. Aí, sim, não se cansou de gritar “Golo!”, antes de dizer “Te amo Sporting!”.
Usava a voz como um pincel para colorir o que via. Foi na SIC e na TSF onde passou largos anos da sua carreira, que celebrizou expressões como as atrás referidas. Quando via no relvado alguém a falhar um golo feito ou a fazer algum disparate, era comum questionar: “O que é isso ó meu?”, a que já aludimos.
Tinha um estilo emocionante, vibrante e muito alegre. A maneira de narrar o futebol, as palavras que inventou para descrever toda a emoção no futebol. E ainda se lhe conhecia mais esta expressão: “Eu com a minha barriguinha chegava e faturava”. Foram inúmeras as expressões evidenciando o seu fulgor.
Do 25 de Abril, do 1º de Maio e dos 50 anos de Maio de 68 já muito se falou. Voltamo-nos para política? Sobre os fantasmas do PS? Os venerandos José Sócrates, Manuel Pinho e quejandos que também participam na festa dos espertos?
Agora até temos a Coreia do Norte com a Coreia do Sul a procurarem a paz! Felizmente!... Que seja uma realidade!...
Mas desta vez não estou disposto a falar destes temas. Bonda! – Como dizia a minha avó, e Ripa na Rapaqueca!... como se expressava Jorge Perestrelo.
Entretanto, não posso deixar de me congratular com o facto do Papa Francisco ter nomeado bispo de Viseu, o padre António Luciano dos Santos Costa, que chegou a paroquiar na Covilhã e a exercer outras funções, pelo que formulo os melhores votos de sucessos pastorais, com muita pena de não passar a ser ele o Bispo da minha Diocese – a Guarda. O meu abraço amigo.




(In "fórum Covilhã", de 08-05-2018)

18 de abril de 2018

A FORÇA DE UM PERIÓDICO


É indubitável que a dinâmica que transmite a força anímica para o surgimento de quaisquer páginas de um periódico, seja na sua vertente em papel ou pela via online, tem que depender de um ser humano, e, esse, é obviamente uma pessoa, mas uma pessoa que tem que ter alma. Essa pessoa é vista, obviamente, no seu plural.
O meu “batismo” a escrever num jornal reporta-se ao ano de 1964, ou seja, há 54 anos.
Já em 1972, após ter terminado o serviço militar obrigatório, um meu artigo num órgão da comunicação social regional levou ao sussurro em algumas instituições públicas, o que, nos tempos da outra senhora, era de certo modo arriscado. Mas o jornal deixou passar. E dos meus documentos extraídos da Torre do Tombo tão só consta o carimbo da P.I.D.E. com a indicação “Nos registos desta Polícia nada consta em seu desabono”.
Se é necessário objetar sobre o poder político, nomeadamente o autárquico, há os órgãos próprios para o fazer, que não este. Já o fiz quando oportuno, não só aquando das agitações dos ventos predominantes da última década, como também em 1978.
Mas na vertente militar, mais próxima deste periódico, a minha intervenção foi escrever no “Fronteiros da Beira – Firme como Rochas”, órgão cultural e recreativo do Regimento de Infantaria 12, da Guarda, em 1971. E, da já numerosa participação em mais de uma dezena de periódicos, também a alusão, com fotos, em agosto de 1993, com uma referência que me fizeram no jornal espanhol “El Adelanto”, sobre uma obra publicada.
É com base neste preâmbulo, afastando dele qualquer intenção egocentrista, que me leva a ter aquela vontade indómita na colaboração d’O Combatente da Estrela, porquanto, ao longo do seu percurso, sempre teve colaboradores com alma.
Não sendo fácil, há sempre estórias da história de vida de cada um, testemunhos verdadeiramente sentidos de muitos na sua passagem pelos tempos tenebrosos das Guerra nas Colónias, denominadas pelo antigo regime de Ultramar Português.
E não só, depois, também numa outra vertente cultural de outros temas apropriados, dando conta das atividades desenvolvidas, duma instituição em movimento, dum núcleo com alma.
Tendo estado presente no Fórum do Associativismo da Covilhã, no dia 17 de março, pode-se afirmar que entre as 248 agremiações que possui o Concelho, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes é um dos que inquestionavelmente merece o devido apoio financeiro face à sua obra.
Pena é que na Assembleia Geral dos Sócios realizada no dia 24 de março não tivesse havido possibilidade de ser encontrada uma lista para que os Corpos Sociais a eleger pudessem dar continuidade aos destinos desta prestigiosa Instituição, para o próximo biénio, esperando-se que essa situação possa ser encontrada já no próximo dia 14 de abril.
Foram as Contas e o Relatório do Conselho Fiscal aprovados, assim como também o Plano de Atividades previstas pela atual Direção para o ano 2018, embora este sujeito a alterações.
O Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes possui atualmente 820 sócios, entre Combatentes (732), Efetivos, Extraordinários e Apoiantes, registando 3 Beneméritos.
No ano transato participou em vários eventos evocativos dos Antigos Combatentes em várias localidades da região e teve ainda a sua participação, com cinco elementos e guião, no Aniversário da Liga dos Combatentes –  Aniversário do Armistício/Centenário da Grande Guerra na Evocação do fim da Guerra do Ultramar.
Por cá, ou seja, na Covilhã onde se encontra a sede do Núcleo, realizaram várias cerimónias, destacando-se: a Evocativa do Dia do Combatente, Dia de Finados, com a habitual Romagem ao Talhão da Covilhã (e também ao do Fundão), com toques gravados e deposição de coroa de flores.
Na solidariedade, para com os seus Camaradas antigos Combatentes, sócios carenciados, tem o Núcleo da Covilhã estado atento e prestado, dentro das suas possibilidades e no âmbito das caraterísticas de cada necessidade, ainda que revestidos alguns casos de excecionalidade, o seu incondicional apoio.
Mas não é tudo, porquanto no Programa de Cuidados de Saúde, o Núcleo da Covilhã é apoiado pelo CAMPS-BI, que tem um espaço na sede do próprio Núcleo. Para além de 39 sessões realizadas têm sido atendidos, de forma individual, de caráter psicológico perto de uma centena de indivíduos, e duas dezenas de caráter social. Para além de outras ações do CAMPS-BI, no seio do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, foram efetuadas sessões de grupo muito perto de centena e meia.
Depois também existe a parte lúdica e essencialmente cultural, destacando-se as visitas a Sevilha e Córdoba; ao Palácio de Belém e Revista no Casino Estoril; ao Porto ao Air Race Bull; ao Alto Minho – Braga – Castro Laboreiro – Arcos de Valdevez; Malafaia e Porto. Também uma edição anual que vem sendo continuada é a Feira de Trocas e Colecionismo da Covilhã.
Tal como de início falei, as páginas de um jornal dependem de humanos, que, impregnados daquela força anímica, terão que ter alma, para que possam brotar ideias que se convertam na atenção dos leitores, e não numa passagem transversal, ou num simples olhar para a capa e dum folhear desinteressado.
Assim também o Núcleo da Covilhã, na vertente da religiosidade, não tem esquecido todos quantos partiram para o outro lado da vida, para os crentes, naquele espírito de ter ainda presentes os camaradas eternamente ausentes, como as já referidas Romagens ao Cemitério.
E, para os que ainda se mantêm no número dos vivos, as Peregrinações a Fátima, quer de âmbito Nacional pela Liga (realizou duas), mas mormente através da inerente a este Núcleo que vai a caminho da XII Peregrinação.
Neste ano de 2018 já se realizou uma visita no concelho de Penacova para degustação da lampreia; ao museu de Vila Viçosa; e aos golfinhos, em Setúbal.
Também foi celebrado o 92.º Aniversário deste Núcleo, no dia 11 de março, com a presença do Secretário-Geral Nacional da Liga, Coronel Lucas Hilário. Foi aqui admitida a hipótese de se concretizar o almejado Centro de Apoio, sonho antigo, cujo Núcleo dispõe de projeto e de terreno atribuído pela Câmara já lá vão 19 anos. Pode-se prever a construção do Lar para 72 utentes e Centro de Dia (250), além de valências nas áreas de saúde e social, incluindo a nova sede do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes.
Este Núcleo, como já foi referido, em movimento, com alma, vai integrar também as comemorações do 100º Aniversário da participação da Covilhã, através do extinto Regimento de Infantaria 21, na Primeira Grande Guerra (1914-1918).
É também previsível que se concretize, ainda neste ano em curso, por parte da Câmara Municipal, a alteração ao Monumento dos Combatentes, conhecido como “Soldado Desconhecido”, pretendendo o Núcleo da Covilhã dar todo o apoio à edilidade covilhanense para as comemorações a levar a efeito durante o ano evocando o centenário do Armistício.
E ainda, no dia 23 de fevereiro foi a apresentação, na Biblioteca Municipal, do livro “Danos Colaterais”, do prof. José Eduardo Tendeiro, antigo combatente dos primeiros anos da Guerra do Ultramar, onde ressaltam facetas importantes romanceadas da sua vivência em teatro de guerra. A participação neste evento cultural foi de grande interesse para os participantes, para além de amigos do autor, também muitos antigos combatentes. O prof. Tendeiro é também um dos colaboradores, com alma, d’O Combatente da Estrela e d’O Combatente, da Liga dos Combatentes.
E nesta envolvente de espaços preenchidos, em várias vertentes em prol dos antigos combatentes, associados, e servindo a própria cidade covilhanense e seu concelho, e, porque não, a Liga dos Combatentes nacional, o Núcleo da Covilhã pode aplicar bem a frase, exortando, do poeta espanhol António Machado – “O caminho faz-se caminhando”. E, daí, as edições deste jornal continuarem a ser eco da alma dos seus Colaboradores.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 110, de abril/2018)


11 de abril de 2018

COMO TUDO SE PASSA


Poderíamos hoje estar a falar sobre efemérides, pois aconteceu há 50 anos a Primavera de Praga, com a Checoslováquia, então 8.ª potência industrial do mundo, a ser invadida pelas tropas russas, na noite de 20 para 21 de agosto de 1968. Foram entre 400 a 500 mil soldados do Pacto de Varsóvia a atravessarem a fronteira. Mas hoje, excetuando a Crimeia, e a ajuda aos seus apaniguados beligerantes, a Rússia opta por invadir por processos mais sofisticados, através da Internet.
Poderíamos estar a falar sobre o Maio de 68, com as greves estudantis em França, naquela expressão de “É proibido proibir”.
Poderíamos ainda estar a falar do assassinato de Martin Luther King, também há 50 anos, Nobel da Paz em 1964, conhecido como “Gandhi da América”, naquele fatídico dia 4 de abril de 1968, com o assassino a fugir para Portugal e a refugiar-se em Lisboa.
Assim, o ano de 1968 foi repleto de eventos importantes, entre eles invenções que mudaram o mundo, conflitos que quebraram barreiras e música que ficou para a História. Foram descobertas científicas, tecnológicas e avanços sociais e políticos que marcaram aquele ano. Vivia-se um clima internacional pesado devido à Guerra Fria entre a Rússia e os Estados Unidos. Além disso, também a Guerra do Vietname ainda estava a decorrer e a primeira aeronave Boeing 747 era lançada pela primeira vez. Um mundo bastante diferente daquele que conhecemos hoje.
De outros eventos ou memórias, referem-se alguns casos que se tomam de conhecimento no nosso País, nos dias que correm, depois de 44 anos do 25 de Abril.
Num ridículo de ganância, inveja ou de chico-espertismo, –  Que raio! – afinal o que se passa com o Sindicato da PSP? Sindicato?... Não!... São 16 sindicatos, segundo o Diário de Notícias, e 36 mil dias de folga para os 3680 dirigentes e delegados. “São os próprios sindicatos a dizer que ‘é uma vergonha’ o que se passa na polícia. Três sindicatos têm mais dirigentes que sócios”. Eles têm vários nomes. O primeiro a ser criado e o mais representativo é a Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), e, depois, há para todos os gostos: Vertical, Independente, Autónomo, Livre, Polícias do Porto, e uma mão cheia deles, que, por culpa governamental, não cria leis para disciplinar esta nova geringonça.
Segundo é referido, o sindicato mais recente – Organização Sindical dos Polícias –, nascido em fevereiro, conta com 459 dirigentes e delegados para 451 associados!... “É uma vergonha!” – Quem o diz é o presidente da ASPP.
Depois, claro, há falta de polícias em determinadas localidades; vemo-los aos pares em certas ruas, para quê, quando na rua de cima ou na de baixo não passa lá nenhum?
Os polícias vão comemorar o seu dia histórico do sindicalismo policial – os “Secos e Molhados” – Recordam-se? Tão só para rir, dos tempos cavaquistas.
Sentimo-nos mais seguros quando vemos polícias na rua, ou na estrada, e não nos gabinetes (esse lugar é para civis). Hoje têm mais urbanidade e cultura que noutros tempos, excetuando um ou outro caso que se refugia no uso da farda, para um excesso de autoridade. Entretanto, são mais humanos e menos polícias.
Outro caso que merece reparo são os distribuidores do correio na Covilhã, conhecidos como carteiros. De quando em vez, e isto reportando-nos aos últimos anos, com forte incidência no que está em curso, é um autêntico caos na distribuição, nesta cidade dos lanifícios e universitária, que deveria ser mais respeitada pelos homens que mais parecem convertidos na ignorância de não conhecerem o nome das ruas da cidade – e tão só nos reportando à Rua Mateus Fernandes – com cartas frequentemente a ser entregues em números de porta errados. Já foram apresentadas várias reclamações por escrito e pessoais, mas o problema persiste.
Parece vir a propósito, pois acabamos de ler no Jornal O Gaiato, de 31 de março de 2018. “Informamos que desde 2016 até ao presente, mais acentuadamente no ano de 2017, temos conhecimento que muita correspondência que nos é dirigida, é extraviada, segundo contacto posterior do Remetente. Apesar de, por várias vezes, o comunicarmos aos serviços competentes dos CTT, o problema persiste. Esta situação tem provocado algum desconforto às pessoas que nos escrevem e que, não obtendo resposta à sua correspondência, ficam alarmadas e preocupadas com o que fazer, principalmente quando enviaram um cheque como donativo”.
Esperemos que tudo se recomponha para bem de todos, mas de todos, porque todos necessitamos da boa prestação dum serviço, seja ele qual for.



(In "Notícias da Covilhã", de 12/04/2018)

10 de abril de 2018

A POLÍTICA E A COMUNICAÇÃO EM ABISMOS FACEBOOKIANOS


Há muito que se adivinhavam receios de manipulação de massas, no seio de algumas redes sociais, mais em evidência no Facebook, tanto quanto sub-repticiamente. Agora veio aquele a ter de levantar o véu do seu artifício.
A sua utilização ousada como forma de entretenimento e de discussão de ideias, aceitando mexer com emoções, deu azo a que a racionalidade fosse rara de eficácia.
O Facebook, criado em 2004 por Mark Zuckerberg, para ser uma plataforma de comunicação entre pessoas, face aos acontecimentos de que é acusado e que dos mesmos fizeram acontecer situações catastróficas no planeta, tornou-se na perfeição de uma ferramenta destinada a explorar medos, inseguranças e ódios. Tornou-se um “monstro”.
Ainda que Mark Zuckerberg seja um génio, talvez comparável aos matemáticos da formação da Teoria das Probabilidades, dos séculos XVII e XVIII: James Franklin, Ian Hacking, Philippe Picard, Blaise Pascal, Fermat, Huygens, Jacob Bernoulli, Nicolaus Bernoulli, Pierre Montmort, Abraham de Moivre ou Pierre-Simon Laplace, que também tiveram alguns desentendimentos, mas, paradoxalmente, a credibilidade cresceu neles, ao invés do que agora aconteceu com o fundador do Facebook que ultrapassou os limites dessa mesma credibilidade, é demasiado penoso para quem pensa que também os seus dados pessoais possam ter sido utilizados para fins que não autorizaria.
A comunicação social não deixa de registar todas as peripécias desta rede social e dos seus mentores:
Matteo Salvini, o populista italiano que venceu as eleições legislativas em 4 de março disse: “Obrigado a Deus pela Internet, obrigado a Deus pelas redes sociais, obrigado a Deus pelo Facebook”.
Brad Parscale, diretor de campanha de Donald Trump, disse em Lisboa, aproveitando a Web Summit: “Ganhámos as eleições no Facebook”.
No referendo pelo “Brexit” britânico, que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia é referida  “uma análise de sentimentos aos utilizadores no Facebook, a par de uma segmentação muito fina de informação capaz de manipular as emoções dos eleitores”.
O jornal britânico Observer confirma que o próprio Facebook sabia de tudo mas optou por tentar esconder os factos do grande público.
E é pela recolha de dados do Facebook, de tão extensa e apurada, que os mesmos acabaram por ser comprados pela Cambridge Analytica, que, nos estudos para promover a compra de publicidade na rede social, o próprio Facebook demonstrou como conseguia influenciar os votos em vários escrutínios.
Das investigações, tornadas públicas, apercebeu-se a forma como decorreu a manipulação sobre a candidatura de Hillary Clinton, e a intervenção da Rússia, decisiva na campanha eleitoral americana a favor de Donald Trump.
As acusações de que a empresa britânica Cambridge Analytica usou o Facebook para recolher dados de cerca de 50 milhões de utilizadores, sem estes saberem, obrigaram o fundador desta rede, depois de algum silêncio, ao pedido de desculpas. E, posteriormente, a fazer alterações para maior privacidade e não utilização abusiva dos dados pessoais. Chega, ou é como colocar a raposa a guardar as galinhas?
Deu para perceber que o Facebook tende a privilegiar as publicações mais comentadas e partilhadas, não utilizando a credibilidade como critério. É assim apontado como fator decisivo na disseminação de informação tendenciosa e falsa, fenómeno que ficou popularizado pela expressão fake news.
Na União Europeia, onde a informação digital é considerada um direito fundamental, o uso indevido dos dados da empresa já foi alvo de várias investigações e até multado o Facebook.
Segundo André Macedo, a uma entrevista do economista e professor catedrático Manuel Mira Godinho, à RTP 3, refere que “há 90 anos, Estaline disse aos escritores soviéticos que a força ideológica era mais importante do que a capacidade militar e pediu-lhes que se tornassem engenheiros da alma humana. Quase um século depois, a digitalização das nossas vidas abriu uma via rápida para os recantos mais escondidos. A alma humana tem hoje a porta escancarada, nunca revelámos tanto sobre as nossas vidas, os nossos gostos e preferências e, nem sequer nos apercebemos da devassa e dos riscos que corremos, como a compra de dados do Facebook para fins políticos”.
Num país onde há muitos tolos, como o nosso, compete ao Estado agir, com outras ferramentas, as que tiver à mão, para limitar o poder destas entidades que nos estão acima. E como ninguém gosta de passar por pateta, por este andar certamente a conveniência é deixar de perder tempo em locais onde é exatamente esse o papel que nos destinam.
Nos dias que correm, a privacidade, ainda que imperfeita, é uma utopia. Estamos sempre descobertos. Vejamos, por exemplo, a nível de Estado, o e-fatura, como tudo aquilo que o fisco se arroga de saber. E, no meio desta floresta de enigmas da privacidade, ainda há; para além dos verdadeiros pobres, que ainda existem, até de mais; os novos pobres, que são os ignorantes, os que vivem sem tempo para pensar, falando de mais no Facebook.
Por cá, nesta terra laboriosa, laneira e universitária, curiosamente já se sente o silêncio dos predadores do Facebook de outras alturas.


(In "Fórum Covilhã", de 10/04/2018)

14 de março de 2018

“O DOCUMENTO ANTIGO – UMA OUTRA FORMA DE VER OS SEGUROS”


É este o título que dei ao meu próximo livro, romanceado, a entregar ao editor até ao próximo mês de maio, fruto do convite feito, proveniente de uma forte amizade, pelo CEO e Administrador da Liberty Seguros, naquele célebre 13 de junho de 2014. Depois de muitas pesquisas e contactos, geradores do interesse não só dos profissionais da atividade, a qual deixei em 1 de setembro de 2012, mas também no emergir de novas amizades, vai surgir no âmbito do ineditismo que sempre votei às obras publicadas.
Consciente da aventura em que aceitei tal convite, uma vez que já existem variadíssimas obras congéneres, por autores consagrados, não deixou de me envolver naquele risco por que foi a minha atividade durante quatro décadas.
Entre a narrativa ficcional e a veracidade, remete para a realidade dos seguros deste a Antiguidade até ao final do Século XVII, numa primeira parte; e depois dos anos 70 até aos nossos dias, para a segunda parte.
O romance começa algures no Norte, para os lados de Valbom-Gondomar, dará continuidade na Covilhã e Fundão, Castelo Branco, Lisboa e Algarve.
E, agora fora do contexto da obra a publicar, porque amigos que vou encontrando se me dirigem desejosos de recordar facetas e acontecimentos do passado, não só da vivência dos lugares como de factos ocorridos e que já poucos recordam, vou tentar aqui trazer algumas reminiscências, sujeito a repetições de outras crónicas anteriores, quer neste periódico quer noutros onde as tivesse publicado.
O gosto pela história e demais eventos marcantes da sociedade portuguesa e do mundo, advém-me do tempo em que meu Pai nos dava conhecimento, ainda em criança, de algumas notícias dos jornais, geralmente da parte da manhã, de alguns acontecimentos vindos no Diário de Notícias ou n’ O Século, para já não falar nos extintos Novidades, A Voz ou Diário da Manhã, na Pousadinha, onde residíamos. Ainda ali não havia energia elétrica e, consequentemente, a inexistência de uma telefonia. Também a televisão só viria a nascer em Portugal em março de 1957, a preto e branco, de um só canal. Quem não tinha televisor em casa (que era impossível na Pousadinha), e eram muitos, ia para os cafés e outros locais públicos ver os programas da sua preferência. A leitura dos jornais, atrás referida, teria sempre de acontecer antes da entrada para a Biblioteca Municipal, na Covilhã, para onde ainda teria de palmilhar uns quilómetros, seu local de trabalho. O transporte nas então designadas camionetas da carreira, de José Nunes Correia & Filhos, Lda, não podia ser quotidianamente utilizado, por razões dos fracos recursos económicos, daqueles tempos salazaristas, mesmo pelos operários da indústria de lanifícios. Era daqueles tempos em que esses autocarros tinham umas grades em cima do teto para colocar os volumes maiores e, atrás, descia a grade de acesso, originando que a garotada se agarrasse às mesmas quando o autocarro partia, aproveitando uma breve boleia, breve porquanto o motorista logo que se apercebesse fazia sair o cobrador para afugentar a rapaziada atrevida.
Teria eu os meus seis anos, o segundo mais velho de um quinteto, todos nascidos na casa da Pousadinha, com o apoio da improvisada parteira, senhora Lucinda, que sempre que necessário a iam buscar à Fonte das Galinhas, na Covilhã. Mais tarde viríamos a formar um sexteto, sem música para além de alguma berraria ou choro.
Durante parte da manhã ainda o senhor professor Martins, como era conhecido por aquelas bandas, na nossa casa da Pousadinha ensinava muitos dos alunos – rapazes e raparigas – já em altura de terem que frequentar os Cursos da Campanha Nacional de Adultos.
Por ali residiam alguns vizinhos, os mais conhecidos, Mário Eufrásio e a mulher, cujas filhas mais velhas também assistiam às aulas do professor Martins.
Em 18 de abril de 1951 faleceu o então Presidente da República marechal António Óscar de Fragoso Carmona – o primeiro que eu conheci em fotos e retratos nas escolas, e nos jornais, com o meu Pai a mostrar-me as imagens do funeral do presidente. Já a Rainha Isabel II da Inglaterra, com o marido e os filhos, ainda pequenos – a Ana e o Carlos –  recordo a sua vinda a Portugal, já não residia na Pousadinha. A rainha Isabel II visitou Portugal cinco anos depois de ter sido coroada. A RTP, recém-nascida, como atrás faço referência, realizou a sua primeira grande cobertura noticiosa durante esse acontecimento, cuja visita aconteceu entre 18 e 23 de fevereiro de 1957 e concentrou as atenções do país e também do estrangeiro. Nessa altura era então Presidente da República o General Francisco Higino Craveiro Lopes e Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. Gostava de ver na revista Flama e nas capas dos jornais as fotos da vinda da rainha e família a Lisboa.
O Hino Nacional, que o professor Martins (antes exercera esta atividade) também ensinava na escola aos alunos tinha três estrofes, portanto, muito mais comprido. Só mais tarde, pelo Diário do Governo de 4 de setembro de 1957 duas foram eliminadas, ficando então o hino como o atual. Tenho em meu poder uma bandeira nacional desse tempo, quando o Hino Nacional ainda tinha as estrofes seguintes:

Desfralda a invicta Bandeira,                                                   Saudai o Sol que desponta
À luz viva do teu céu!                                                                Sobre um ridente porvir;
Brade a Europa à Terra inteira:                                                Seja o eco de uma afronta
Portugal não pereceu                                                                 O sinal do ressurgir.   
Beija o solo teu jucundo                                                            Raios dessa aurora forte
O Oceano, a rugir d’amor,                                                        São como beijos de mãe,
E o teu braço vencedor                                                             Que nos guardam, nos sustêm,
Deu mundos novos ao Mundo!                                                Contra as injúrias da sorte.


(In "Notícias da Covilhã", de 15/03/2018) * Estas últimas estrofes não foram publicadas no semanário por falta de espaço *

13 de março de 2018

ENTRE O PORTÃO E A PORTA


Desde o portão de entrada na nossa interioridade, onde podemos ouvir ou ver algo que não desejamos, ou não concordamos, até à porta do nosso íntimo, onde se encontra bem instalado o lugar do nosso valor e da nossa coragem, há uma enorme distância. Tanto mais distante quanto maior for esse valor e essa coragem. E, por isso, mesmo longe das muralhas que nos protegem do exterior.
Não é fácil manter essas distâncias quando, por vezes, amiúdas vezes em várias fases da vida, somos confrontados com situações em que nos custa saltar da distância que nos separa da porta da nossa intimidade para o portão que dá obviamente para o exterior.
Comigo já sucedeu algumas vezes. Não consigo abrir a porta do meu íntimo, dos valores que eu reconheço tradicionais de uma educação transmitida, ainda que não totalmente concordante, para aquela enxada que pretende cortar a raiz do pensamento. Dou, por isso, muito valor à liberdade de expressão, pois já vivi no tempo em que tal situação, a exprimir-se contrária aos ventos políticos dominantes, traziam-nos preocupações.
Lembro-me de, nesse famigerado tempo, quando pela noite tinha que baixar o rádio para poder ouvir a Rádio Portugal Livre, de Argel, proibida, pela voz da mulher de Piteira Santos. E do Manuel Alegre. De ser obrigado a assinar declarações como uma que guardo religiosamente, aquando de acesso a promoções de carreira na função pública (“Declaro, por minha honra, que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com ativo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas. – Covilhã, 29 de Maio de 1965”). Recordo-me que numa reunião da Comissão Democrática Eleitoral, em 1973, em que participei, viemos a saber, quando, felizmente, raiou o 25 de Abril de 1974, que o secretário das reuniões era informador da PIDE.
Mas, já antes, no serviço militar obrigatório, denunciei uma atitude corrupta dum superior, embora reformado, que, por interposta pessoa me pretendia ludibriar num favorecimento ilícito a um recruta.
Mais recentemente, não obstante ter sido objeto de uma homenagem de uma coletividade, de um pedido de colaboração municipal de âmbito literário, e de reuniões de associações culturais, onde havia amigos, não deixei que a porta da minha intimidade pudesse deixar vandalizar os valores da expressão livre do pensamento. Discutível, como é óbvio, mas é o meu pensamento. Não o vendo por preço algum. Como humano, objeto de erros, mas, para isso, há os pedidos de desculpa, se entendidos como aceitáveis.
Repudio veementemente todos os vira-casacas, os que voltam com a palavra atrás sem justificação, os chicos-espertos, os falsos amigos.
Prefiro ficar à porta que ao portão.
Podemos ouvir ou ver algo e não querer o que ouvimos, ou vimos, que venha ferir o nosso coração.
Esta voz secreta que só se pode escutar no total recolhimento não está sempre acessível.
O lugar do nosso valor e da nossa coragem, estando longe das muralhas que nos protegem do exterior, está ainda dentro de uma fortaleza interior bem guardada, até de nós mesmos.
É que aceitar, sem prudência, tudo de todos é algo tão imbecil como dar tudo a todos, sem sensatez. Importa guardar as distâncias que nos protegem dos ataques do exterior. Há assim um caminho que vai do portão de nós mesmos até à porta do nosso íntimo.
No início deste ano, Assunção Cristas, presidente do CDS-PP defendeu que o acesso á saúde divide os utentes em “portugueses de primeira, segunda e terceira”, conforme os recursos financeiros que dispõem e o espaço geográfico onde vivam. De acordo com a líder centrista, esta divisão corresponde aos que podem pagar um seguro de saúde e escolher entre público e o privado, os beneficiários da ADSE, e a população sem recursos que lhe permita escolher.
Mas Assunção Cristas esquece-se que, apesar de tudo, todos têm acesso ao Serviço Nacional de Saúde, ninguém fica sem assistência médica.
Mas eu já fui “português de terceira”, nos anos 60 do século passado, quando o funcionalismo público não tinha acesso aos cuidados, ainda que primários, de saúde. Tinha que pagar do seu próprio bolso as consultas e medicamentos, retirados dos seus míseros vencimentos, ou então, lamuriar-se junto dos médicos para que lhe perdoassem a consulta, o que resultava muitas vezes a ficarem com as receitas no bolso por não haver recursos para pagar nas farmácias. Os remédios caseiros nem sempre eram solução e, assim, muitas mazelas ficaram.
Não havia ainda a ADSE. Não havia subsídios de férias nem de Natal. Comia-se o pão que o diabo amassou e tinha que se andar sorridente porque a repulsa redundava em ter à porta, no dia seguinte, ou próximos, um dos homens da maldita polícia política. A caterva de informadores, desde o sacristão, ao homem que atrás falei, ao funcionário de um Sindicato, ao 35 ou ao 23, ao pároco de São Martinho, e a outros mais, ocultos na tentativa de anonimato, obrigava a ter que haver bastantes reservas.
Convém assim guardar bem a porta e espreitar o portão.


(In "fórum Covilhã", de 13/03/2018)

16 de fevereiro de 2018

PAU PARA TODA A OBRA


Hoje, dez de fevereiro do ano da graça de dois mil e dezoito, da era de Cristo, cá dos lados da encosta da Serra da Estrela, na vetusta cidade dos lanifícios e, hoje, mais universitária, deu-me na gana de parar o horizonte de outros temas, e passar a outro estilo de conteúdos. Volto-me então, um pouco, para os solos que pisei, pela primeira vez, vai fazer meio século, por essas terras algarvias onde se insere a importante cidade de Olhão, da restauração.
Efetivamente, foi em 16 de janeiro de 1968 que fui pela primeira vez ao Algarve, então por obrigação militar, em Tavira.
Já escrevia no jornal da minha Terra, embora com pouca regularidade, desde 1964, porque também havia que acautelar os assuntos a abordar, face à PIDE, não me fosse rondar, como a tantos operários, e não só, da Covilhã, que sofreram nas investidas daquela famigerada polícia política.
E, memorizando um pouco os tempos de outrora, como retrata tantas vezes o diretor-adjunto deste quinzenário, nas suas páginas, aprouve-me a minha passagem efémera pela cidade de Olhão, com alguns camaradas, onde aí escrevi um postal ilustrado para a minha namorada, na Covilhã. Ainda não tinham sido inventados os telemóveis… e as chamadas telefónicas, para além de caras, eram interurbanas.
Longe estaria no meu pensamento que, umas décadas mais à frente, ser-me-ia propício vaguear o meu pensamento por Olhão, através das páginas de um periódico, substituindo assim o piso de ruas por páginas de papel.
E é n’O Olhanense que me agrada ver conteúdos tão diversificados, numa base de cultura espelhada em vários artigos de opinião, e na memorização das vivências de outrora, por um insigne cérebro que, tal como eu penso, não é a terceira nem a quarta idade que nos faz parar porque consideramos que a mesma que atingimos é, mais exatamente, a idade da plenitude.
Como em tudo, há sempre alguém que é a roldana, a mola impulsionadora, o chamado “pau para toda a obra” que é conhecedor, sabe do seu ofício, sem do mesmo colher frutos financeiros porque sabe que superiores a esses estão os advindos do amor à causa e o prazer indelével de fazer andar, não deixar parar, não deixar perecer.
Assim vai “O Olhanense”, onde tenho o prazer de quinzenalmente estar presente, com os sacrifícios que se reconhecem, mas com a alma de gentes que sabem acompanhar quem dirige este importante periódico, já de referência nacional, extravasando o âmbito regional.
Gostaria de ver mais artigos de opinião, ou crónicas, da parte feminina, para poderem enriquecer também, com a sua contribuição, o quinzenário de todos nós. Tal como os jardins, também nos jornais ficam bem as flores, porque delas emergem muitas outras interessantes formas de ver e de pensar.
Apercebo-me pelos relatos do principal responsável da continuidade deste quinzenário que, tal como está acontecendo noutros periódicos, a pera não é doce e as dificuldades são grandes, mais enegrecidas, por vezes, pela indiferença de alguns, mas isto é generalizado.
É preciso é continuar a inovar porque quem está de fora sabe perfeitamente que o rumo do Jornal “O Olhanense” está bem traçado, tem sentido, está valorizado, não é um quinzenário exclusivamente desportivo, mas um periódico verdadeiramente cultural.
Por isso, o caminho é continuar em frente, sem desanimar. E venha o próximo número.


(In "O Olhanense", de 15-2-2018)

14 de fevereiro de 2018

DA CORRUPÇÃO AO CHICO-ESPERTISMO


Saio à rua, depois de dar uma olhadela pelas notícias online, e dirijo-me para a minha habitual banca dos jornais, ao jardim, onde os mesmos se encontram desde já reservados.
Saúdo uma vizinha que há muito tempo não via, pergunto se está tudo bem e responde: “Só que, ai, ai, os meus joelhos é que não ajudam!”. Depois outra, a mesma pergunta, e vai daí: “Sabe, Sr. João, o meu problema é a coluna, esta maldita doença!”. Até que resolvi não perguntar mais nada, senão quando surge um amigo, e, nos cumprimentos da praxe, lá vem outra história das doenças da idade. “Sabes? Isto é da PDI!” Ao que eu lhe respondi, sem que ele contasse com esta contradição do vulgarizado significado da sigla: “Olha, toca a todos, a “Potência Deficitária Incomodativa!...”
Antes de entrar no tema em epígrafe, penso mesmo que os trabalhadores que se deixam instrumentalizar demasiado pelos partidos, cujos sindicatos a que estão afetos dizem os defender, poderão ver-se mais tarde envolvidos numa nuvem de arrependimento pelas opções tomadas, como é o caso da Autoeuropa, pelas teimosias que vão levando. Uns dizem que são os comunistas os culpados; certo é que parece que a Autoeuropa está antes afeta à UGT. Se a empresa se deslocasse para o estrangeiro, ou se retirasse para outro local, como outras fizeram, caso da Opel da Azambuja, seria melhor para os trabalhadores ficarem sem emprego? Pois é, o subsídio do desemprego, as reformas antecipadas, etc., sempre resolvem alguma coisa. Mas o mais estranho é que não se trata de quaisquer colaboradores, mas de trabalhadores que se encontram bem pagos, quando muitos licenciado nem ganham metade do seu salário.
Já os encerramentos da ex-Triumph e da Ricon são apontados como “uma infeliz coincidência” num dos períodos mais positivos do setor com forte volume de exportações, lamentando-se os muitos trabalhadores que rumam para o desemprego.
Mas vamos para o tema que hoje trouxe para este espaço, não obstante ele já ter sido debatido nos vários órgãos da comunicação social ad nauseam, uma vez que também o diabo não chegou a vir naquele célebre setembro de Passos Coelho, porque afinal ele já estava/está entranhado no seio e no pensamento de muitos, de várias praças deste país. Portanto, nem vale a pena Manuela Ferreira Leite sugerir ao “novo” PSD para que venda a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua.
Deste fartote de corrupção, entre alta e baixa, fraca e forte, verificada ao longo dos tempos, mas mais acentuada nos dias de hoje, isto no que se repercute no nosso País, entendi classificá-la em três partes: corrupção de 1.ª, de 2ª e de 3.ª categorias.
Eu explico, exemplificando, a começar da mais baixa para a mais elevada. Considero corrupto ou corrompido de 3.ª categoria, aquele romeno que me enganou à entrada do Lidl vendendo-me o almanaque Borda D’Água pelo preço que apontou e vinha inserido na capa do mesmo; e que eu, pensando ser um original como tantos vendidos nas bancas e papelarias, verifiquei depois que era fotocopiado. Até onde vai o chico-espertismo. Ou, então, o recebimento por parte dos serviços da secretaria de um Lar da Terceira Idade, de boa reputação, desta Cidade laneira, de uma luxuosa “comparticipação por fora” para se ter hipótese de ali ser internado um familiar idoso, em que não é passado um recibo comprovativo, o que, para além de transgressão fiscal, também se ficou a desconhecer para que bolso seguiu a volumosa quantia extra, como entrada, para além das mensalidades e outras despesas mais.
Corrupto ou corrompido de 2ª categoria pia mais fino, e aí temos, sem vergonha, o aluguer de uma casa, a um mãe e filho adulto, pobres, sem condições condignas de habitabilidade, onde nem sequer cabe uma cama pequena para um deles dormir, nem os mínimos eletrodomésticos, imprimindo uma desumanização à face da Terra, neste século XXI. Onde estão as fiscalizações ativas e decisórias, para poder impedir o desiderato dos proprietários chico-espertos? Isto também se passa na mais importante cidade dos lanifícios e universitária da Beira Interior. Nesta vertente de categoria ainda integro aquele perito de seguradoras que, subtilmente, indicava clientes aos comerciais para, passado pouco tempo, numa sua prévia combinação com os referidos segurados, passarem a existir sinistros em catadupa, forjados. Descoberto este seu chico-espertismo, e já não sabendo como se desenrascar, acabou num suicídio na A23.
Corrupto ou corrompido de primeira categoria são então os de maior evidência, geralmente ligados a uma teia, envolvidos num polvo (sobre este mesmo tema – “O Polvo” – escrevi um texto em 2 de setembro de 2005, publicado no Notícias da Covilhã, que se encontra em grande parte atual), cujas formas tentaculares de fugir às responsabilidades e se habilitarem ao sorteio da ilibação produz tempo e mais tempo até se chegar ao ponto final dos julgamentos. E, depois, há os recursos, e mais recursos. Aqui vamos encontrar os já muito comentados casos da Operação Marquês, Operação Lex, Operação Fizz, entre outros, para além dos que vão emergindo, como a falsificação de cheques da Segurança Social, o desvio de milhões, pelo reitor de uma universidade privada, não esquecendo os casos da PT, da queda do BES, e por aí fora.
Nesta categoria não há corruptos de fraco gabarito. Podemos, sim, encontrar alguns novos-riquismos e narcisismos doentios.
“Sim, vivemos num país profundamente corrupto”, é o título duma crónica de João Miguel Tavares, do Público.
Estranha-se que outros casos de corrupção não tenham tido qualquer desfecho da Justiça, continuando hoje ainda vivos e, outros, condenados a prisão, como Oliveira e Costa, passeiam livremente.
Se o período Sócrates-Pinto Monteiro foi o “mais negro” da Justiça, conforme atesta no seu livro o juiz jubilado António Bernardo Colaço, não se compreende a pretensão de afastar a procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal. Segundo o versado é que a remoção da procuradora não evitará o julgamento de Sócrates, mas pode facilitar o adiamento para após eleições. Chico-espertismo!
Por tudo isto se vê que todos os casos conhecidos são reveladores da transversalidade da corrupção entre as diversas classes sociais, envolvendo todos os setores da sociedade e da economia.
Pode alegar-se que a justiça está a funcionar normalmente e a fazer o que tem de ser feito, o que é um dado positivo.

(In "Notícias da Covilhã", de 15-2-2018)

13 de fevereiro de 2018

2018 – ANO DE EFEMÉRIDES, MAS TAMBÉM RUMO À 4.ª REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


Depois de terem sido badalados intensamente outros temas, como foram os incêndios do ano findo, e, agora, o ranking das escolas, trago ao leitor memórias que hoje se perpetuam de há meio século, que neste ano se efemerizam, atingindo o cinquentenário dos respetivos acontecimentos, tendo entrado na história do planeta, todas deixando marcas do seu surgimento.
Alguns chamaram a 1968 o ano de todas as revoluções. Uma vaga de movimentos revolucionários sacudiu o mundo há 50 anos, ano em que eu fui cumprir o serviço militar obrigatório, logo em janeiro, por onde andei 42 meses, daí que pouco me tivesse apercebido de alguns destes mesmos acontecimentos. Tínhamos pouco acesso aos jornais e a televisão, de um só canal, a preto e branco, não estava tanto ao nosso alcance como em nossas casas.
Se bem que no final desse ano de 1968 todas as aspirações revolucionárias tinham fracassado, sem nada mudar, o que é certo e verdade é que também já nada continuou a ser igual, nesta parte no que concerne aos jovens estudantes. É que as suas consequências tiveram uma grande importância. Estas revoluções tiveram uma peculiaridade porquanto não pretendiam conquistar o poder, mas tão só mudá-lo.
Se Paris simbolizou esta agitação também houve outros lugares onde tal viriam a surgir, nomeadamente em Berlim, Praga, Roma, Cidade do México. A China mantinha-se na Revolução Cultural. Vivia-se também a guerra do Vietname já numa fase crítica.
Não obstante haver prosperidade, os distúrbios eram indício de um profundo descontentamento. As reivindicações falavam na esperança num mundo melhor. Eram discutidas as estruturas políticas, então vistas como autoritárias. Era, segundo os jovens estudantes, um modelo consumista de um capitalismo obcecado com a rentabilidade. Os processos revolucionários até então tinham estado associados a classes sociais específicas ou a grupos políticos definidos. Os processos revolucionários de 1968 correspondiam aos estados de consciência da geração nascida no pós-guerra. Os universitários foram então os promotores, que tinham aumentado maciçamente quando o ensino superior deixou de ser privilégio só para alguns.
Estas grandes convulsões, não só das que agora me refiro, podem ser retratadas, tanto quanto possível, pela sua ordem cronológica.
Assim, no primeiro dia do primeiro mês desse ano, o Vietcong atacou a embaixada dos Estados Unidos em Saigão, mas, passados poucos dias iniciava-se a Primavera de Praga, na então Checoslováquia, com Dubcek a assumir a sua liderança, numa tentativa de democratizar o regime. Contudo, a Guerra Fria aniquilou a experiência e mergulhou o país numa onda de frustração. No 1.º dia de fevereiro surgiam as brutais imagens de Eddie Adams da guerra do Vietname que impressionaram o mundo. Em meados de março de há cinquenta anos, dava-se o massacre de My Lai no Vietname. Entretanto era encerrada a Universidade de Nanterre, em França. No final deste mês emergiram os distúrbios e repressão racial em Memphis, nos Estados Unidos.
Os primeiros Jogos Olímpicos da América Latina começaram-se a preparar no mês seguinte (abril), no México, mas é também nos primeiros dias deste mês e ano que é assassinado Martin Luther King. Maio viria a ver os confrontos entre os Guardas Vermelhos e o exército a recrudescerem na China, em plena Revolução Cultural. E o célebre “Maio de 68” iria ver o seu início com a Noite das Barricadas em Paris, ponto de inflexão do maio francês.
Encontrava-me no serviço militar em Tavira quando, na parada, oiço na “Rádio CISMI”, daquela unidade militar com o mesmo nome, que, naquele dia 5 de junho de 1968, o senador e candidato favorito às primárias democratas nos Estados Unidos, Robert F. Kennedy, era assassinado.  Entretanto, naquele mesmo mês, das eleições em França saiu vencedor o Partido Gaulista e acabaram os protestos dos estudantes, não voltando a haver outra convulsão de caraterísticas inovadoras e criativas que lhe seja comparável. Os jovens desse tempo hoje andam por perto dos 65/70 anos. Também a religião tinha a sua marca de acontecimentos neste ano, e, assim, em 25 de julho o Papa Paulo VI condenava o uso dos contracetivos na encíclica Humanae vitae. O mês de agosto seria marcado com festivais rock como o de Venice Beach, nos Estados Unidos, mostrando o apogeu da contracultura e da emancipação sexual. A União Soviética (URSS) invadiu a Checoslováquia e, no final deste mês surgiram manifestações nos Estados Unidos contra a guerra do Vietname, na Convenção do Partido Democrata em Chicago.
Em setembro nascia a Teologia da Libertação, com Hans Küng a publicar o manifesto Declaração pela Liberdade da Teologia. O mês de outubro seria terrível para o México, com o Massacre da Praça das Três Culturas. Entretanto, de 12 a 27 deste mesmo mês, realizaram-se os XIX Jogos Olímpicos, na capital mexicana.
O novo presidente americano, Richard Nixon, viu alcançada a sua vitória nas eleições nos Estados Unidos, realizadas no dia 5 de novembro de 1968. Para o último mês do ano, Mao Tsé-tung lançou a campanha de “reeducação” dos jovens das cidades, enviados para campos de trabalhos rurais na China. E, entretanto, a Apollo 8 entrava na órbitra lunar e os astronautas Borman, Lovell e Anders viam, pela primeira vez na história, a face oculta da Lua.
E, daí para cá, o mundo foi evoluindo de tal forma que hoje estamos a rumar a uma 4.ª revolução industrial. Recordemos que foi no século XVIII, em Inglaterra, que se deu a Primeira Revolução Industrial, com a máquina a vapor e do carvão.  Na viragem do século XIX para o século XX, nos Estados Unidos, na Alemanha e em Inglaterra, surgiu a Segunda Revolução Industrial, do petróleo, do motor de combustão interna, do motor elétrico e da produção em massa.  Na segunda metade do século XX, tivemos a Terceira Revolução Industrial, da computação e da Internet.
Bom, a Quarta Revolução Industrial é agora, de acordo com Schwab, e outros, a revolução da digitalização maciça, da aprendizagem automática e da robotização, mas também da nanotecnologia e dos novos materiais, e da biotecnologia, ou seja, tecnologias que fundem os mundos físico, digital e biológico.
Antes das revoluções industriais usávamos as fontes de energia primária (o sol, a água e o vento). As sucessivas revoluções industriais tiveram como consequência um aumento enorme no nível de prosperidade da humanidade, em conjunto com alterações sociais profundas, como o reconhecimento de direitos humanos universais, a alteração nos padrões de fertilidade e o aumento da esperança média de vida.
A Quarta Revolução Industrial traz enormes promessas, por exemplo, com a massificação do carro elétrico, muito mais eficiente que o carro a gasolina ou gasóleo entre outras.

(In "fórum Covilhã", de 13-2-2018)


9 de janeiro de 2018

O PARADOXO DE PORTUGAL EM 2017

Não hajam dúvidas, o ano que findou mostrou-nos duas facetas bem distintas na sua rotação dos 365 dias. E entre o copo meio cheio ou o copo meio vazio não podemos deixar de nos firmar na realidade dos acontecimentos surgidos; uns, excessivamente otimistas; outros, justificadamente pessimistas.   
Comecemos pelos primeiros. 2017 foi o ano em que a economia cresceu mais do que o previsto, o desemprego continuou a baixar e os juros da dívida caíram a pique. Portugal conseguiu dar um pontapé nas agências de rating, e lá saiu do lixo. Ainda neste ano, António Guterres subiu ao mais alto galarim duma organização mundial, tomando posse como secretário-geral das Nações Unidas. Já Mário Centeno conseguiu a sua eleição para presidente do Eurogrupo. Não bastassem estas boas notícias, ainda assim 2017 foi o ano em que Portugal foi eleito como o melhor destino turístico do mundo.  Em relação a décadas atrás isto não passaria de um sonho.
O grande problema é que Portugal não tem apenas um défice para corrigir, mas muitos mais, e muito sérios.
Quanto aos segundos, não podemos deixar de sentir profundamente a amargura pelo que também se passou no ano 2017, longe, muito longe de alguma vez ser pensada. Foram os incêndios de Pedrógão Grande e em muitas outras terras deste Portugal em destruição continuada, como se viu. Foram mais de uma centena de pessoas que perderam a vida nos fogos, em situações horríveis, para além dos que perderam todos os seus haveres, casas, animais, campos, florestas, e a sua própria dignidade. A falta de meios humanos, técnicos, e de competência, sobre o combate aos incêndios, e da Proteção Civil, deixaram muito a desejar, ao longo de décadas, e, depois, as culpas são sempre atiradas de uns para os outros, já que a reforma da floresta tem sido sempre adiada.   
Até os nossos militares passaram a integrar o anedotário português com o assalto aos paióis de Tancos. Seria impensável nas nossas consciências, mas o que é certo e verdade é que tal sucedeu. Onde está a nossa segurança? Em quem devemos confiar? E, depois, a palavra muitas vezes dita duma forma hostil – a vergonha nacional – foi ainda ser possível em 2017 entrar num hospital público com uma doença e morrer de outra, provocada pelo próprio hospital. Outro aspeto lamentável é descobrirmos que as instituições de solidariedade social, que todos nós ajudámos a financiar se transformaram, quantas vezes, em instituições de solidariedade pessoal.
Valha-nos o Presidente-Rei, como agora alguns chamam a Marcelo, seguindo o que teve esse primeiro cognome, ou seja, Sidónio Pais, no poema-elogio fúnebre de Fernando Pessoa. É que, o queixume sobre a paciência dos portugueses para o ver neste permanente vaivém de beijos, abraços, selfies e outros afetos tornou-se numa banalidade que já ninguém o ouve. Este excesso de protagonismo no drama dos incêndios “converteu-se numa espécie de capricho de intelectuais que o povo sereno e carente de proximidade não tem paciência para levar a sério”. Marcelo tem sido, de facto, o principal garante da estabilidade política que o país viveu nestes últimos dois anos, depois da traumática experiência do ajustamento e da troika. Chegou mesmo ao ponto de ultrapassar o Governo como no caso dos sem-abrigo, em que pediu muito mais apoio para estes. E nãos deixemos de recordar quando Marcelo assumiu o papel de supremo magistrado disposto a atuar sempre que o Governo se punha a assobiar para o lado em momentos de profunda comoção coletiva, como aconteceu depois da segunda vaga de incêndios dramáticos em outubro. É por isso que o exuberante otimismo de António Costa necessita de ser travado.
2017 fica também marcado pela superficialidade com que os políticos têm governado o país, sem preocupação nem interesse em salvaguardar o bem-estar e a vida de todos os que moram em qualquer parte de Portugal.
Para terminar o ano sem o colorido político, lá tinha que acontecer mais uma falcatrua daqueles em quem os portugueses devíam confiar, e que, a partir de agora, ficam sempre, sobre eles, de pé atrás, sempre, porque não há que confiar em nenhuns. Há, sim, que exigir e provar. Estar sempre atentos para com os bem-falantes, os que nos querem fazer passar por ingénuos, talvez por ignorantes quando a democracia implantada em Portugal já leva mais de quatro décadas.
A indignação foi geral nos conceituados jornalistas dos principais órgãos da comunicação social. O indigno espetáculo clandestino que a classe política portuguesa acabou por dar nos últimos dias que restavam para o final de 2017, teve a agravante de, no segredo dos deuses, se verificar que já se arrastava a negociata do financiamento partidário aprovada às escondidas, e já vinha de há muitos meses. Excetuando o PAN e o CDS, todos os demais partidos portugueses não recearam e se expuseram ao escândalo perante os seus próprios eleitores, a opinião pública em geral e o regime democrático, que já duvido que representem, ocultando, em segredo, um negócio para benefício dos próprios. Como é que partidos que se enfrentam com agressividade e insultos no Parlamento se mostraram tão amigos e colaborantes na defesa dos seus próprios interesses? Esta classe política tem que se penitenciar. Esperemos que o Presidente da República vete esta lei.

E, como o texto já vai longo, vamos ficar por aqui, aguardando os acontecimentos. Muita coisa mais haveria a dizer.

(In "fórum Covilhã", de 09/01/2018)

3 de janeiro de 2018

NATAL NO TEMPO DO PADRE CARRETO E O ASILO COM D. GONZAGA

Ainda em época natalícia e no surgimento de um novo ano, proporcionam-se sempre algumas memórias da ancestralidade das nossas vidas, num ambiente ameno entre familiares, antigos colegas e amigos, daqueles idos tempos da década de 50 do século XX. Era a catequese, que geralmente se designava de doutrina; e a escola primária, hoje ensino básico.
A diferença abismal entre a inexistência de meios de distração, para além dos cinemas paroquiais, e do Teatro do Pina, para os mais velhos, e o futebol no Santos Pinto, quando o havia aos domingos, com os relatos na Emissora Nacional, muito ouvidos pelas tabernas; e a falta da televisão que só em 1957 surgiu no nosso País, e o que hoje envolve esta era digital; levava a reunir-se então  a criançada na Igreja de São João de Malta, freguesia de São Pedro, paroquiada pelo padre José Domingues Carreto, para a “Novena do Menino Jesus”, de 16 a 24 de dezembro.
A rapaziada entoava então o cântico ao Menino Jesus, com uma expressão forte que ficou na memória de alguns, hoje já avós e bisavós:

Ó Infante Suavíssimo
Ó meu Amado Jesus
Vinde alumiar minha alma
Vinde dar ao mundo luz.
Ó meu Amado Jesus
Ó meu Amado Jesus
Delícias do coração
Só por vós se pode estar
Só por vós se pode estar
Toda a noite em oração.

Já a escola onde andei na primária – “Asilo – Associação Protetora da Infância”, era frequentada por alunos pobres (um deles ia descalço), por remediados e por alguns de certo modo abastados,  numa polivalência de interesses.
Esta associação que depois foi transformada em escola, foi criada em 9 de junho de 1870, no reinado de D. Luís, com o nome “Real Associação Protetora da Infância Desvalida”, destinada à criação de um asilo, cuja inauguração se verificou em 25 de julho de 1871. Teve efémera duração.
Por falta de utentes, em substituição do asilo foi criada uma escola destinada à instrução primária; e uma biblioteca (estatutos aprovados em 22 de dezembro de 1904 e regulamentos em 26 de junho de 1905).
Deixou de ser escola primária em 1968, pelas alegadas razões de existirem na cidade escolas primárias em número suficiente. Passou a ATL – Atividades de Tempos Livres.
Os principais fundadores foram Francisco Joaquim da Silva Campos Melo (Visconde da Coriscada) e José Maria Veiga da Silva Campos Melo (fundador da Escola Industrial).
Entretanto, atentemos sobre a sua biblioteca, criada numa dependência do Asilo em 4 de junho de 1882, que foi a primeira biblioteca pública aberta no País depois das de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora. No ano de 1880, aquando das comemorações do tricentenário da morte de Camões, teve esta instituição grande preponderância no relevo dado ás comemorações. Era então Presidente da Câmara José Maria Veiga da Silva Campos Melo.
Em reunião da Assembleia Geral de sócios realizada em 19 de junho de 2000 foi deliberado e aprovado transferir para a Biblioteca Municipal da Covilhã, a Biblioteca Heitor Pinto. A transferência foi efetuada em 25 de abril de 2001, tendo sido celebrado com a Câmara um protocolo de colaboração com vista à salvaguarda, preservação e difusão do fundo documental estimado em cerca de 3 383 monografias, nomeadamente livros do século XVI.
A família Campos Melo dedicou muito carinho pela causa desta instituição. Era várias vezes visitada pelo Eng.º Ernesto de Melo e Castro, e pela sua esposa, D. Gonzaga, que algumas vezes se deslocava sozinha; muito conversadora, e disciplinadora com os alunos, por quem tinham muito respeito. Já na Escola Industrial, D. Gonzaga tornava-se uma educadora compulsiva das alunas, onde não faltavam os ralhetes, em que, qualquer desmando era objeto de forte indignação da sua parte. Respeitinho… Dos meus colegas de classe, no Asilo, recordo Rui Terenas, Carlos Fernandes, Coelho Saraiva, Albuquerque, Jorge Mota, António Chiquita, António Carriço, Mangana Nogueira, Fernandes Berto, Carlos Garcia, Luís Reis, Raul Loriga, José Bichinho, Pais da Silva, Isento, Bernardino, João Aguilar, Gil Alves, José Alberto Ruas, Duarte Brito, José Manuel Jorge, João Manteigueiro Mota e Virgílio Trindade, alguns já falecidos.
A encarregada da limpeza e da cozinha era a D. Maria Helena. Na parte da secretaria estava em par time o Sr. Belmiro, funcionário da Subdelegação de Saúde. Aos sábados de manhã, em que também havia aulas, era dividida por uma parte de Religião e Morão dada por umas freiras do Colégio das Doroteias, e, de vez em quando, pelo padre José Andrade. Seguia-se uma parte de instrução da Mocidade Portuguesa, ministrada por um sargento do Batalhão de Caçadores 2, então sediado na Covilhã, e, outras vezes, pelo João Machado, do Teixoso, já falecido, que estudava na Escola Industrial e Comercial Campos Melo.
Entretanto, o imóvel desta instituição, que foi escola, tendo sido objeto de obras de beneficiação, encontra-se sem qualquer utilidade, na Rua dos Combatentes da Grande Guerra, por parte dos seus proprietários, devoluto, quando havia muito como ser utilizado.


(In "Notícias da Covilhã, de 04/01-2018)




21 de dezembro de 2017

POIS, MAIS UM FINAL DE ANO

Que raio! Hoje, domingo, dia três do décimo segundo mês do ano dois mil e dezassete, depois de Cristo, não tinha ainda inspiração para um título a dar a este texto. Pensei um, mas, alto lá, pode vir a emanar nalguma errónea interpretação face a crónicas anteriormente publicadas. Outros destinar-se-ão para publicações noutros periódicos.
Não me esqueço duma lição de Língua e História Pátria, que o meu saudoso professor da Escola Industrial e Comercial Campos Melo, Dr. Manuel de Castro Martins, que tem o nome numa das ruas desta Cidade, nos disse, naqueles idos tempos dos finais dos anos cinquenta do século XX: “Quando quiserdes procurar inspiração basta fazer uma pequena viagem e, na tranquilidade de espírito, ela ajudará”.
Estava, então, exatamente na altura de sair à banca dos jornais: o quotidiano Público, onde vou dando uma olhadela pelos meus cronistas de eleição (que, outros, nem transversalmente lhes dou cavaco), leva-me, sempre, a ir lendo, pelo passeio fora, as crónicas mais apelativas. Há uns bons tempos atrás, as primeiras eram as do “fundador” da geringonça – Vasco Pulido Valente – que, nem ele adivinharia o que de transformação iria proporcionar ao País, de tal forma que até o Ministro das Finanças, Mário Centeno, é quase certo (à hora que escrevo estas linhas) como, também, Presidente do Eurogrupo. De facto, como diz Rui Tavares, in Público, “Às vezes, o nosso trabalho mais importante é ver o óbvio. Às vezes, o trabalho mais difícil é admiti-lo. Ver o óbvio parece demasiado fácil. Admitir o óbvio parece demasiado simples. E nós preferimos, por múltiplas razões pessoais e sociais, passar por complexos e difíceis”.
O final do ano, que se aproxima a passos largos, faz-nos emergir nas memórias impensáveis de mórbidas surpresas ocorridas no Portugal de todos nós, como foi o inferno dos incêndios, jamais visto ou algo pensado; isto, paradoxalmente, num país em que uma das grandes riquezas é a floresta, repleto de tamanhos encantos paisagísticos, então transformados numa dantesca panorâmica de cinzas e destruição.
Já antes se haviam realizado as eleições autárquicas, terminando assim o ribombar na vozearia dos prós e dos contras, no óbvio de se aceitar a democracia.
Depois, como todos os anos, nesta peregrinação no planeta, alguns dos nossos e figuras sobejamente conhecidas do nosso País, para só dele falar, deixaram o mundo dos vivos.
É o que me ocorre num pedaço de memória na transversalidade deste ano da graça de 2017.
Voltemo-nos agora, no que se insere no nosso meio, para aquele movimento organizado ou prática de associação de grupos sociais, quer seja na vertente cultural, quer na cívica ou laboral, para defesa de interesses ou de obtenção de objetivos comuns, cuja designação os dicionários registam na palavra associativismo.
Tendo já sido objeto de referências e até debates autárquicos não há dúvida que o Concelho da Covilhã tem o pendor do maior número de agentes culturais de todo o distrito, há muitos anos referido. Daí a responsabilidade de cada instituição, seja ela de que cariz for, se empenhar com ações justificativas da sua existência e manutenção, nas atividades que às mesmas dirão respeito, sempre que possível na criatividade em prol da sociedade onde se inserem.
Não vou falar das muitas existentes neste Concelho, mas tão só deste Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, do qual tenho orgulho de ser associado e colaborar no seu órgão trimestral – O Combatente da Estrela. Se, por vezes, podem existir ventos e marés fruto da sua existência, e não da passividade em ações desenvolvidas, sintoma de que há vida e não inércia, há conhecimentos e não ignorância do que por aqui se faz, a realidade resume-se naquela vertente de que a instituição prevalece nos requisitos que urge para se integrar no verdadeiro associativismo.
Basta uma leitura atenta deste periódico para se verificarem as várias atividades desenvolvidas ao longo do ano neste Núcleo, os artigos de opinião de distintos Colaboradores, sem esquecer os Associados, independentemente de serem ou não Antigos Combatentes (alguns não o foram, porque não foram chamados, mas cumpriram a sua obrigação militar), e, mormente, quando se separaram eternamente de nós, pela parte física, porque espiritualmente continuam vivos.
O Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes continua bem vivo, como atrás referi, e, não só pelas razões referidas, como também por outras ações desenvolvidas ao longo do ano, já sobejamente conhecidas, como, ainda, ter a sua sede aberta, onde, para além de poderem confraternizar, pela manhã ou pela tarde, há sempre um jornal diário, e outros periódicos para leitura.
Se falarmos nas ações do CAMPS da Beira Interior no seio deste Núcleo, podemos verificar quanto valor não tem a sua ação na terapia de acompanhamento psicológico dos associados, e suas famílias, face à perturbação do stress pós-traumático de guerra, conforme já foi referido no último número.
Depois, o associativismo não se faz sem pessoas, quer sejam as da sua massa de associados quer a dos seus dirigentes, estes que são a mola impulsionadora que faz andar a máquina, que a oleia com o seu dinamismo, que lhe incute entusiasmo, que lhe gera criatividade.
Nesta situação, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes tem vindo a ser bem servido, ao longo dos tempos, dos obreiros que conseguem manter a pedra angular desta instituição, entre, por vezes, altos e baixos; pudera, não fossem eles humanos, e, consequentemente, com pontos de vista que podem, por vezes, divergir de parte da construção. No fundo, ao longo dos tempos, todos deram parte do seu esforço em prol do Núcleo, não tivessem eles sido Antigos Combatentes!
Por último, não nos podemos esquecer que quem se encontra ao leme do navio tem a grande responsabilidade de o fazer chegar a bom porto, independentemente de, por vezes, os mares se encontrarem agitados, mas, nesta vertente, é preciso a inteligência de saber procurar as águas tranquilas. O Núcleo da Covilhã sempre soube encontrar esse Comandante e, já lá vão décadas, que o mesmo se encontra a saber encontrar os ventos favoráveis na rota certa.

Porque as palavras já se alongaram, resta-me desejar a todos quantos entraram nesta embarcação, sejam eles dirigentes, associados, colaboradores deste jornal e amigos, da CAMPS-BI, e aos prezados leitores, bem como a todas as suas famílias, os votos de um Santo Natal e um Feliz Ano Novo.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 109 - Dezembro/2017)