10 de julho de 2018

OS MAUS DA FITA


Lembram-se dos tempos dos filmes de “Charlot”, aquele vagabundo trapalhão, de calças largas, sapatos tortos, bengala e bigode aparado (o britânico Charles Spencer Chaplin), que nos deliciavam com frequência, no final da década de 50 e início da de 60 do século passado?

Pois era o tempo do cinema mudo em que os filmes tinham sempre uma personagem que dava o corpo a todas as maldades. O cinema cresceu, perdeu esta faceta ingénua das coisas, mas a expressão ficou sempre para designar os vilões, na personificação de todo o mal.

Vem o tema a propósito duma controvérsia gerada em abril passado sobre o Museu das Descobertas, que Fernando Medina, Presidente da Câmara de Lisboa, prometeu levar por diante aquando da sua campanha para a presidência da mesma.

Só que não há concordância com aquele nome por um grupo de mais de cem académicos, numa carta publicada pelo Expresso, vindo a crescer as vozes contrárias, referindo que, para os não europeus, a ideia de que foram “descobertos” é problemática: “Ter-se-ão os povos africanos, asiáticos e americanos, de histórias milenares, sentido ‘descobertos’ pelos portugueses?”

A face dos maus da fita vem depois de o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em visita de abril de 2017 efetuada ao Senegal, na ilha de Gorée, antigo entreposto nas rotas atlânticas do tráfico de escravos, “não ter reconhecido a longa e sinuosa história da responsabilidade portuguesa no comércio e escravização de africanos, nem as outras formas de opressão que em nome do país foram praticadas e legalmente sustentadas nas colónias africanas até à extinção do regime colonial português em 1974/75”. As declarações do Presidente português reavivaram o branqueamento da opressão colonial, cujo projeto colonial português era visto como “missão civilizadora”.

Embora o Presidente da República tenha dito que Portugal reconheceu injustiça da escravatura quando a aboliu em 1761, pelo Marquês de Pombal, e depois alargámos essa abolição mais tarde, no século XIX, não pediu perdão pela escravatura, como já o havia feito em 1992, o Papa São João Paulo II. Curiosidade é que à Ilha de Gorée foram os navegadores portugueses os primeiros a chegar em 1444, à qual deram o nome de Ilha da Palma. Calcula-se que pelo menos 12 milhões de escravos africanos tenham sido capturados e retirados do continente, ao longo do triste período do comércio negreiro.

Historiadores dos EUA dizem que Portugal deve pedir desculpa por tráfico de escravos, focando esse pedido de desculpas como reconhecimento das consequências, terminando com a criação de um museu ou de um centro de investigação. É que, segundo dizem, embora não ajudassem  os 5,8 milhões de africanos tornados escravos e embarcados em navios com a bandeira de Portugal, nem tão-pouco aqueles que foram mortos em guerras causadas por tráfico de escravos, e por aqueles que sofreram há centenas de anos, seria, contudo, um passo em frente para melhorar a relação hoje em dia entre pessoas com cores diferentes.

Entretanto, Matilde Sousa Franco, vem dizer que há quase quatro décadas defende a criação deste museu com o nome de Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, e não Museu das Descobertas, no nosso país, em que Portugal foi autor não só da primeira Globalização como, no século XXI, continua a destacar-se como “pioneiro” no diálogo intercultural.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os índios descobriram que havia outras pessoas sem serem eles. Assim, o historiador João Paulo Oliveira e Costa considera que a designação Museu dos Descobrimentos seria inadequada. “O processo dos Descobrimentos é historicamente curto, dura só até meados do século XVI, deixando assim de fora 90% do que foi a Expansão portuguesa, com os aspetos mais negros da Expansão em que está previsto um núcleo dedicado à escravatura”.

Os argumentos a favor dos termos “Descobrimentos”, “Descobertas” ou “Expansão” foram objeto de substituição apresentada como o espaço museológico vir a chamar-se “A Viagem”. O que é certo e verdade é que desde D. João V, pelo menos, que Portugal se apresenta ao mundo como país dos Descobrimentos.

Para muitos estão ainda em causa alguns dos aspetos mais negros da Expansão, e em resposta a toda a controvérsia, António Costa disse que “não temos de ter uma relação complexada com os Descobrimentos. É preciso é ‘descolonizar os Descobrimentos’”. É que também a escravatura “faz parte da nossa História e não pode, não tem como e não deve ser ignorada”.

Outra forma de denominar o futuro museu é Museu Portugal Global, na opinião de outros historiadores, porque Portugal é dos poucos países do Mundo que de forma decisiva contribuíram para a História da Humanidade. Tal aconteceu quando, na expressão de Camões, demos novos mundos ao Mundo.

O ilustre pensador Eduardo Lourenço declarou então que se não vê necessidade de “crucificar” o passado de Portugal, independentemente das consequências negativas, como a escravidão, pois que as descobertas tiveram na génese uma motivação “louvável” e quando tantos países da Europa cometeram “crueldades” muito maiores. “Fomos os mais pacíficos, dos povos do sul da Europa”.

Já Rui Tavares, in Público, refere que “quem era escravo em Portugal continuou a sê-lo e, pior ainda, continuou a gerar filhos escravos, até que o Marquês de Pombal publicou em 1773 uma ‘lei do ventre livre’ segundo a qual os filhos e filhas das escravas nasceriam livres.”

A abolição da escravatura em toda a jurisdição portuguesa verificou-se em 29 de abril de 1878, ou seja, há 140 anos, sendo certo que em 1930 ainda havia em Lisboa gente que tinha nascido escrava.

Sobre este assunto muito haveria que dizer, mas não cabe neste espaço, pelo que oportunamente surgirá em livro editado, a ser apresentado em 8 de setembro.

(In "fórum Covilhã", de 10-10-2018)

24 de junho de 2018

O DOCUMENTO ANTIGO: UMA OUTRA FORMA DE VER OS SEGUROS



O meu livro acima titulado vai ser apresentado no dia 8 de setembro no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, pelas 15 horas.

Trata-se de um trabalho de 888 páginas, romanceado, que conta as origens e toda a História do Seguro deste a Antiguidade até finais do Século XVII, na sua I Parte; e desde os Primórdios do Seguro em Portugal até aos dias de hoje, na II Parte.

É frequentemente intervalado com partes romanceadas em ficcionadas tertúlias de lugares comuns, reais, e que integram personagens reais geralmente covilhanenses e de ficção, desde Valbom, Gondomar, Porto, Leiria, Algarve, Covilhã, Castelo Branco e Lisboa, falando também, no seu contexto, de figuras e eventos da região.

O prefácio é do Dr. José António de Sousa e o livro será apresentado pelo atual CEO e Administrador da Liberty Seguros em Portugal, Dr. Rogério Bicho.





João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

13 de junho de 2018

NO EMARANHAR DE IDEIAS


São os telejornais, são as notícias em papel, são as inúmeras online que nos fustigam diariamente a cabeça. 

A prudência revela agora falta de ponderação. Foi assim substituída pela ousada exteriorização da ingenuidade, qual pacovice.

Assistimos constantemente às polémicas no seio dos senhores do futebol, com as suas espertezas arrivistas. E não há quem os tire de lá para fora porque os interesses instalados subsistem. Corroem o que de bom existia:  a salutar distração, a amizade clubística, o encontro de ideias, a vigorosa disputa no campo dentro do espírito Mens sana in corpore sano, lema agora substituído por “muitos milhões para as gestões de aldrabões”.

Ditadores e destruidores por um lado, com cenas de terror nos locais de trabalho; outros envoltos em acusações de vouchers, Operação Lex, E-Toupeira, é indubitável que assim cada vez mais se contribui para a apatia ao desporto e a ausência dos campos de futebol.

Nesta pandemia do futebol, parece que tudo serve de pretexto para encher televisões e as redes sociais.

As escassas notícias para além do futebol que ainda conseguem fazer-se ouvir são quase dissipadas. A fronteira que desapareceu entre canais noticiosos e desportivos tornou-se uma autêntica competição para ver quem mais fala da bola.

Recorde-se o que sucedeu com a conferência de imprensa de Bruno de Carvalho, com todos os canais noticiosos, durante largo tempo, à mesma hora, em direto, a ouvir “Sua Excelência”, que mais parecia o Papa ou Marcelo Rebelo de Sousa.

É por isso que José Pacheco Pereira, in Público de 9 de junho, diz que “o futebol é a coisa mais parecida com a máfia que existe em Portugal – ou melhor, é a nossa máfia lusitana”.

Para além-fronteiras temos Emmanuel Macron com a sua preocupação contra as fake news, a colocar os jornalistas em xeque. Arrancou assim em França o debate sobre as propostas de lei do Presidente para travar a propagação de informação manipulada, com a oposição a dizer que a liberdade de imprensa pode estar em risco. Terá servido de exemplo o seu homólogo americano Donald Trump.

Já na Irlanda do Norte tem a Amnistia Internacional a apoiar a campanha para mudar a lei do aborto que a considera “incompatível” com os direitos humanos. E por cá, neste País de brandos costumes, mas de modernos padrões de humanismo, não há interesse em transpor na mesma ideia, a anulação dessa lei? Certamente por isso a preocupação pela redução da natalidade não é assim tão evidente como os governantes apregoam.

Valha-nos ao menos não ter sido aprovada a lei a favor da eutanásia, com grande estranheza do voto contra do Partido Comunista.

Já agora que falei de “brandos costumes”, este mito criado pelo Estado Novo, e mais tarde reforçado pelo ex-primeiro-ministro almirante Pinheiro de Azevedo, no “Verão Quente” de 1975, quando, durante o discurso que proferiu na manifestação do Terreiro do Paço de apoio ao seu Governo, um petardo rebentou no meio dos manifestantes, e, no meio de gritos, correria, fumo por cima da multidão e algumas chamas, o almirante sem medo clamava: “É só fumaça”, “O povo é sereno”, a História e o próprio jornalismo têm desfeito este mito mostrando que desde os tempos longínquos que os portugueses praticaram atos e crimes horrendos, da Monarquia à República.

Só não se compreende por que é que sendo a corrupção o principal problema do país, os dados oficiais mostram que o número de processos sobre este flagelo é diminuto quando comparado com a perceção da corrupção obtida através dos media.

Deve haver milhões de barris a abarrotar de euros para os funcionários públicos, para os professores e polícias, que detêm, estes dois últimos, mais de duas dezenas de sindicatos, cada classe.

Razão tem João Miguel Tavares, in Público de 7 e 9 de junho, de contestar as progressões automáticas das carreiras dos professores, mantendo privilégios que “têm aos poucos vindo a roubar à profissão o prestígio, a autoridade e a simpatia que ela deveria ter junto da comunidade que é suposto servir”, tendo em conta que a progressão está estruturada em torno do tempo de serviço, daí o conflito entre o Governo e sindicatos. Isto tão só neste contexto de os professores aceitarem que bons e maus tenham progressões semelhantes. É certo que no meio disto há injustiças, com uns “escandalosamente mal pagos; outros escandalosamente bem pagos”.

Entretanto, o resultado da avaliação dos alunos foi desastroso, de que alguns professores são co-responsáveis. Em Matemática, o insucesso é generalizado: só 10% dos alunos conseguiram calcular a área de um polígono que envolvia a área de dois triângulos e dois retângulos. Setenta e dois por cento dos estudantes do 5.º ano não conseguira identificar o rio Mondego, e outras coisas mais.

Isto é a generalidade do nosso país, mas, como toda a regra tem exceção, aí vemos a Universidade da Beira Interior orgulhosamente a manter-se dentro das melhores 150 universidades do mundo, com menos de 50 primaveras, contra ventos e marés da injustiça que o Governo à mesma teima em manter o “subfinanciamento crónico”.
(In "Notícias da Covilhã", de 14-06-2018)



12 de junho de 2018

OS “MORTOS” QUE AINDA VIVEM


Não me estou a referir, como crente, à vida além-túmulo. Não estou a fazer referência à memória dos que partiram e que estão vivos na perenidade das nossas mentes, enquanto viventes deste planeta.

Não tenho a pretensão de fazer reviver a lenda de D. Sebastião, naquela que fora a falta de certezas sobre a sua real morte, o que na altura redundou desesperadamente na esperança de que o rei pudesse retornar ao trono de Portugal, numa manhã de nevoeiro. Aceito, contudo, que o covilhanense Aires Teles de Meneses, Alcaide-mor da Covilhã que serviu na Índia e acompanhou posteriormente D. Sebastião, na Batalha de Alcácer Quibir, onde ficou prisioneiro, tivesse sido resgatado e regressado à Covilhã, encontrando-se sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Mas também não posso deixar de manifestar a minha repulsa pelo facto de na altura em que escrevo esta crónica, tivesse sido objeto de um ato provocado por um vivo mas morto de espírito, aquando duma ação solidária de transporte de bens alimentícios do Banco Alimentar para uma instituição de Caridade, conjuntamente com mais dois colegas, ao ser abordado rispidamente e fora da habitual educação dos seus camaradas, polícias, com ar de excessiva autoridade para se fazer notar publicamente, quando terminávamos em correria o nosso trabalho voluntário, com a anuência e compreensão de dois ou três condutores à nossa retaguarda, que aguardavam com compreensão o términus do nosso trabalho. É que aquele vivo, mas morto de imaginação, certamente estaria com o estômago bem satisfeito enquanto nós, voluntariamente, procurávamos ir ao encontro de estômagos vazios. Ao invés desta sua conduta, já outros seus colegas, em situações similares, procuraram ajudar-nos na solução do trânsito.

No Público de 3 de junho, era dada a notícia de que o piloto russo desaparecido há 30 anos no Afeganistão, dado como morto, encontra-se ainda vivo e pretende regressar a casa. A aeronave havia sido derrubada durante a intervenção das tropas da ex-URSS no país, em 1987. É um facto que, por enquanto, não se sabe exatamente por que é que não deu sinais de vida durante estes anos. É, indubitavelmente, estranho!

Sobre os mortos da Primeira Grande Guerra e, depois da década de sessenta, no que diz respeito aos antigos Combatentes do Ultramar, houve casos insólitos de indivíduos dados como mortos e que, mais tarde, surgiram vivos. Recordo numa reportagem dum dos canais televisivos, um antigo combatente, numa das terras deste Portugal, a reclamar que ele estava ali vivo, era ele mesmo e não o que constava com o seu nome e datas de nascimento e falecimento,  na tabuleta duma sepultura que indicava. Erros da história. E os problemas com a rejeição das suas famílias, algumas já tendo reconstituído as mesmas com outros parceiros?!

Tenho um amigo que integra o nosso grupo de casais que se reúne frequentemente. Conforme contei em tempos, é um outro dos que fora dado como morto, mas que depois se verificou estar vivo. Aquando dum acidente de viação conjuntamente com outros colegas que se faziam transportar na mesma viatura, durante uma deslocação no tempo do serviço militar obrigatório, um grave acidente era noticiado nos jornais sobre a situação de três feridos graves e um morto, que era este nosso amigo. Já se encontrava na morgue para ser autopsiado quando o funcionário da mesma que ia recolher o considerado “cadáver” lhe vê cair o braço da mesa de pedra onde se encontrava depositado, dando sinal de vida. Afinal, descuidadamente, não havia um morto. O suposto morto estava vivo e é hoje um grande companheiro na nossa amizade.

Há tempos também nos foi dada indicação de uma pessoa que havia falecido. Todas as indicações recaiam nesse indivíduo. Qual o meu espanto quando consultava a necrologia num dos locais habituais, já próximo da noite, e, olhando para o lado, vejo essa pessoa, supostamente a encontrar na necrologia, sentada numas escadas, de telemóvel na mão…

Há, de facto, situações estranhas, mas sempre é bom o grito de alegria pelos vivos que “deixaram” de estar mortos.

É pena que hoje, por este nosso país, ainda nos deparemos não com mortos que felizmente “ressuscitaram”, só tendo surgido o acontecimento por lapsos profissionais ou de outra vertente qualquer, mas sim, sem surpresa a existência de muitos mortos-vivos.

(In "fórum Covilhã", de 12-06-2018)

1 de junho de 2018

In Quinzenário "O Olhanense", de 01-06-2018


UMA HONRA COLABORAR HÁ 25 ANOS COM O JORNAL “O OLHANENSE”


Por vezes as várias ocupações em trabalhos culturais que estão em fase carente e de alguma pressão para o seu término não me permitem olhar com uma atenção mais cuidada para os periódicos onde tenho o privilégio de poder opinar, como é o caso deste excelente jornal, superiormente dirigido por dois Amigos: o seu Diretor José Isidoro Silva Sousa e o Diretor Adjunto Mário Proença.

Por isso só hoje endereço os meus parabéns, não só ao Sporting Clube Olhanense pelas suas bonitas 106 primaveras, como também ao Jornal O Olhanense pelos seus 55 anos de vida plena de conteúdos que fazem inveja a muitas outras publicações análogas.

Como é que este serrano, nascido há 72 anos numa aldeia do concelho da Covilhã teve contacto e se inseriu, como “colaborador permanente” no Jornal O Olhanense?

Esse facto devo-o a um Amigo, que  não cheguei a conhecer pessoalmente e que já partiu para o outro lado da vida, Augusto Ramos Teixeira, quando, em 1993, me contactou telefonicamente a propósito dum pedido que coloquei nos jornais desportivos nacionais para a tentativa de localizar Velhas Glória do Sporting Clube da Covilhã, o que deu origem ao meu segundo livro sobre a história do clube serrano, donde viriam a surgir mais duas obras sobre o mesmo, e a prefaciar e apresentar a quinta de um autor Amigo, no pretérito ano.

Daí que, tendo conhecimento da existência deste quinzenário, o Amigo Augusto Teixeira me enviou um exemplar e o contacto com o falecido Diretor Honorário a Título Póstumo, Herculano Valente (ainda não era diretor) onde passei a, esporadicamente, ver publicados alguns dos textos enviados, e algumas referências à minha pessoa, na bondade daquele Homem.

Posteriormente, quando tive conhecimento do seu insólito falecimento, e que pensaria vir a terminar aqui as minhas linhas opinativas e informativas, fui agarrado pela mão incentivadora de Mário Proença para a continuidade, o que faço, com muita alegria, até aos dias de hoje, tanto mais que, a partir do momento em que este grande Senhor tomou aos ombros a responsabilidade do quinzenário, o que é certo e verdade é que o Jornal O Olhanense subiu muitos degraus na sua melhoria, o que dá gosto colaborar com o mesmo, principalmente para quem conhece os meandros de manter um periódico a circular regularmente.

Depois, o seu Diretor e meu prezado Amigo, José Isidoro Sousa, é o único que conheci pessoalmente num jantar de aniversário do meu clube serrano, que, casualmente, ficou com a esposa na minha mesa. Mais tarde conheci o Senhor Júlio Favinha.

Como desde os meus 17 anos tive contacto de escrever nos jornais, inclusive num boletim militar enquanto estive no serviço militar obrigatório, e, depois, mais assiduamente desde que me aposentei da minha atividade profissional, com regularidade em dois semanários e, trimestralmente, no órgão do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, de que fui subdiretor, geraram-se ainda mais raízes ligadas à escrita.

Em 2014 foi-me solicitado por um especial Amigo, CEO e Administrador da empresa que representei durante 40 anos, para escrever a história da atividade que então exercia, que é ancestral, levando a minha aventura de aceitar tal tarefa a vê-la agora já na mão do editor, romanceada, tendo passado algures pelo Algarve, pelo que também tem um bocadinho da colaboração do Amigo Mário Proença, a quem pedi algumas informações.

E é nesta veia de pensamento que mantenho acesa a chama da continuidade de transpor para o papel, a expressão do que sinto, do que penso, do que me rodeia, norteado sempre pela minha linha de pensamento, mas também na aceitação da opinião democrática dos outros.

E é neste contexto, que se consegue viajar pelo Portugal de todos nós, e pelo Mundo, através dos órgãos de comunicação social.

(In "O Olhanense", de 01-06-2018)



30 de maio de 2018

A USURA E A IGREJA


Embora na origem usura signifique juro, o seu conceito jurídico é mais alargado. Em direito, a usura “é um crime cometido por quem, com intuito de obter um benefício patrimonial, conseguir que outra pessoa se obrigue a conceder-lhe uma vantagem pecuniária desajustada à contraprestação, aproveitando-se da necessidade, inexperiência, incapacidade ou dependência dessa pessoa”.

Para quê estar a falar, mais uma vez, de corrupção, de fraude, de roubo ou de furto? Deixemos estes substantivos descansados, estas quatro palavras, das mais referidas na comunicação social, num fartar desta linguagem, que vai da política ao futebol, do ensino à religião, num etc. alongado. Deixemos esta desgraça! Que tal desgraça não passa de um euromilhões para muitos, como nos temos vindo a aperceber. Até parece já não se poder dar sentido a outras formas honesta de vivermos neste planeta.

São casos e mais casos só no nosso país, que não acontecem somente nas grandes urbes, mas também no nosso meio, no nosso distrito, no nosso concelho, na nossa cidade.

Mas vamos ao assunto que dá força ao título desta crónica.

O combate da usura não foi uma luta exclusiva da Igreja, mas as autoridades católicas foram, sem dúvida, as que mais persistentemente se opuseram à usura, que foi a maior preocupação da Igreja medieval no domínio económico.

A condenação da usura prolongou-se por muitos séculos. Ainda hoje, embora raramente, surgem iniciativas visando limitar juros e lucros.

A preocupação muito antiga de proibir ou limitar a remuneração (juro) do mutuante explica-se pela natureza particular dos empréstimos em tempos mais recuados, geralmente destinados a fazer face aos gastos entre duas colheitas. Se o juro não fosse limitado, os camponeses ficavam à mercê dos usurários que podiam, com as suas exigências, levar os mutuários ao extremo de se venderem como escravos para pagar dívidas.

A legitimidade ou ilegitimidade do juro é, portanto, assunto que vem desde a Antiguidade e que teve, aos longo dos séculos, oscilações e posições muito diferenciadas.

Os filósofos gregos começaram por se manifestar contra o juro. Aristófanes desaprova-o, Platão (428 a 347 a. C.) e Aristóteles (384 a 322 a. C.) consideram o juro contrário à natureza das coisas.

Os Romanos tomaram posições idênticas. Catão (234 a 149 a. C.) equipara o juro ao homicídio, Séneca (3 a. C. a 65) e Plutarco (35 a 120) condenaram igualmente o juro.

Mas as posições dos filósofos nem sempre foram as definidas nas leis ou as seguidas na prática corrente. Mais tarde, a Lei das Doze Tábuas (449 – 479 a. C.) limitou o juro máximo dos empréstimos a 12% ao ano. É que houve mesmo épocas em que os especuladores romanos chegaram a cobrar juros de 48% ao ano. Marcus Julius Brutus (84 a 42 a. C.), líder político militar romano, um dos assassinos de Júlio César, foi um dos prestamistas que emprestava a este juro.

Foi a Igreja que moveu uma luta mais persistente e mais continuada contra a usura. Para a Igreja, usura era toda a operação que implicava o pagamento de um juro. Assim sendo, o comércio e a banca, intimamente relacionados com o juro, eram atividades interditas, ficando os mercadores e os banqueiros sujeitos à excomunhão, o que na Idade Média era uma penalização muito mais temida pelos cristãos do que seria mais tarde.

A Igreja baseava a sua posição nas Escrituras, tando do Antigo como do Novo Testamento. Dos textos do Antigo Testamento: no Êxodo, cap. XXII,25; no Levítico, cap. XXV, 35 a 37; no Deuteronómio, cap. XXIII, 19 e 20. No Novo Testamento: Evangelho de S. Lucas, cap. VI, 34-35. Até ao século IV, os Doutores e Chefes da Igreja mantêm esta posição, considerando o juro contrário à misericórdia e ao humanismo. Daí em diante a situação vai mudar e o que começa a ser condenação nos Concílios de Arles (314), Niceia (325) e Elvira (305 ou 306) é apenas um juro cobrado por clérigos. Só a partir do Terceiro Concílio de Latrão (1170) e de Lyon (1274) é que a repreensão seria também aplicada aos leigos. A Igreja partia de dois pressupostos: um ligado à noção de tempo e outro ligado à profissão de comerciante.

Quanto ao primeiro, considerava a Igreja que sendo o tempo pertença de Deus não era suscetível de ser vendido. E como o juro era associado à ideia de venda do tempo, tinha de ser condenado. O segundo pressuposto estava relacionado com o conceito em que eram tidos os comerciantes. Os pensadores cristãos consideravam o comércio como associado à fraude e à avareza, causador da luxúria e potencial fonte de corrupção e de deterioração das boas maneiras e das virtudes, fonte de contacto com mercadores e estrangeiros.

Os jurisconsultos da época terão especulado acerca dos contornos do conceito de usura, permitindo depois chegar às soluções que justificaram uma flexibilização das posições da Igreja. Com uma nova expansão económica e, com ela, um maior desenvolvimento do comércio, começam a surgir interrogações quanto à doutrina da Igreja nesta matéria e fazem-se ouvir as primeiras vozes discordantes. Para essa flexibilização contribuíram também as opiniões de São Tomás de Aquino quanto à usura e aos comerciantes. O motivo que mais determinou a mudança de posições da Igreja foi que os mercadores a financiavam largamente quando disso havia necessidade. É assim que, a partir de determinada altura, vemos os mercadores a serem considerados pela Igreja como bons cristãos e a serem dispensados da Comunhão, do descanso dominical e do jejum, por imperativos de profissão.

A Igreja acabou, de facto, por tolerar a usura e mais tarde admiti-la desde que não houvesse excessos. A perseguição da usura ainda se estendeu por muitos anos.

(In "Notícias da Covilhã", de 31-05-2018)











8 de maio de 2018

“RIPA NA RAPAQUECA”


Neste mês de maio do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dezoito, como se escrevia nas atas municipais de outrora, já para além da Idade da Pedra e dos Metais, deu-me na tola de evocar expressões que, usadas pela minha avó materna, que partiu há muito quase centenária (o que hoje já não é novidade, mas naqueles tempos era), fazem momentos de humor entre amigos, quando sentados à mesa, principalmente de lautos apetites.
- “Anda côme, que isto não está ruim!”. Dizia a avó Rita. E, pelas bandas da Pousadinha algumas vezes a acompanhei ao curral (que isto de pocilga é mais para os tempos modernos) para “botar a vianda aos bácoros”, com o “Vaidoso” e o “Malhado” que eram também dos nossos melhores amigos, mas já esticaram o pernil, salvo seja, as patas, a contentarem-se com os dias de sol, descansando à sombra duma figueira, enquanto as galinhas e os marrecos aproveitavam o farelo que lhes davam para além do milho.  Cinco mil réis talvez não custasse um bácoro (e era preciso ver se não tinha grainha) mas o dinheiro não dava para tudo e era preciso pagar a décima, quando alguns também arrotavam com a taxa militar porque haviam ficado livres da tropa. Livraram-se, sim, porque até podiam ir parar a algum quartel longe da famelga que não fosse o Batalhão de Caçadores 2 da Covilhã, para já não falar dos desgraçados que foram obrigados a embarcar para a Índia, com Goa muito falada.
Eram os anos 50 da nossa era, mas do outro século. E entre “bota aí mais uma pinga que a comida não está somenos”, que isto de comeres e beberes é que nos dão vida, porque a própria vida são dois dias, havia por vezes aquele grito:
- “Esse bandido do Salazar é que é o culpado!...”. Lá levava um raspanete o atrevidote, que, um pouco mais avinagrado, lançava o bode expiatório da miserável féria que não dava sequer para comprar o milho painço para as pombas, quando até aos coelhos lhes chegou a malina.
E dizia o avisador cauteloso: - “Tu não sabes que por ter morrido o Carmona e lá estar o Craveiro Lopes, ainda há por aí muitos bufos?!... Ainda vais parar às grades!”
É que isto também não é para todos terem vivido em dois séculos.
E agora, já que os herdeiros bateram a bota, coube-nos a desgraça de termos de limpar o pinhal.
Mas, Ripa na Rapaqueca, porque fez agora treze anos, no dia 6 de maio, que faleceu o jornalista e locutor desportivo Jorge Perestrelo. Uma das figuras do jornalismo desportivo mais importantes da rádio portuguesa. São dele esta expressão que se tornou célebre, assim como “É disto que o meu povo gosta”, e “O que é isso, ó meu?” Relatou dois mil e um golos à boleia de gritos, de entusiasmo e de um ritmo que dava o dom de cativar todo e qualquer ouvido. Era aí, no golo, no momento em que o futebol celebra, que mais encantava. Como fez em 2004, no Estádio da Luz, quando viu Ricardo, um guarda-redes, a marcar a outro, ao da Inglaterra, quando a Seleção Nacional ganhou nos penáltis nos quartos de final do Europeu.
Jorge Perestrelo era assim mesmo: vivia e relatava tudo de alma cheia, como se de um adepto se tratasse. Fosse qual fosse a equipa. No dia anterior ao de se lhe calar definitivamente a sua voz, ainda estava de headphones na cabeça e de microfone na mão, a relatar, sem saber, o último golo da sua vida, o que Miguel Garcia marcou em Alkmaar, na Holanda, que apurou no último minuto o Sporting para a final da Taça UEFA. Aí, sim, não se cansou de gritar “Golo!”, antes de dizer “Te amo Sporting!”.
Usava a voz como um pincel para colorir o que via. Foi na SIC e na TSF onde passou largos anos da sua carreira, que celebrizou expressões como as atrás referidas. Quando via no relvado alguém a falhar um golo feito ou a fazer algum disparate, era comum questionar: “O que é isso ó meu?”, a que já aludimos.
Tinha um estilo emocionante, vibrante e muito alegre. A maneira de narrar o futebol, as palavras que inventou para descrever toda a emoção no futebol. E ainda se lhe conhecia mais esta expressão: “Eu com a minha barriguinha chegava e faturava”. Foram inúmeras as expressões evidenciando o seu fulgor.
Do 25 de Abril, do 1º de Maio e dos 50 anos de Maio de 68 já muito se falou. Voltamo-nos para política? Sobre os fantasmas do PS? Os venerandos José Sócrates, Manuel Pinho e quejandos que também participam na festa dos espertos?
Agora até temos a Coreia do Norte com a Coreia do Sul a procurarem a paz! Felizmente!... Que seja uma realidade!...
Mas desta vez não estou disposto a falar destes temas. Bonda! – Como dizia a minha avó, e Ripa na Rapaqueca!... como se expressava Jorge Perestrelo.
Entretanto, não posso deixar de me congratular com o facto do Papa Francisco ter nomeado bispo de Viseu, o padre António Luciano dos Santos Costa, que chegou a paroquiar na Covilhã e a exercer outras funções, pelo que formulo os melhores votos de sucessos pastorais, com muita pena de não passar a ser ele o Bispo da minha Diocese – a Guarda. O meu abraço amigo.




(In "fórum Covilhã", de 08-05-2018)

18 de abril de 2018

A FORÇA DE UM PERIÓDICO


É indubitável que a dinâmica que transmite a força anímica para o surgimento de quaisquer páginas de um periódico, seja na sua vertente em papel ou pela via online, tem que depender de um ser humano, e, esse, é obviamente uma pessoa, mas uma pessoa que tem que ter alma. Essa pessoa é vista, obviamente, no seu plural.
O meu “batismo” a escrever num jornal reporta-se ao ano de 1964, ou seja, há 54 anos.
Já em 1972, após ter terminado o serviço militar obrigatório, um meu artigo num órgão da comunicação social regional levou ao sussurro em algumas instituições públicas, o que, nos tempos da outra senhora, era de certo modo arriscado. Mas o jornal deixou passar. E dos meus documentos extraídos da Torre do Tombo tão só consta o carimbo da P.I.D.E. com a indicação “Nos registos desta Polícia nada consta em seu desabono”.
Se é necessário objetar sobre o poder político, nomeadamente o autárquico, há os órgãos próprios para o fazer, que não este. Já o fiz quando oportuno, não só aquando das agitações dos ventos predominantes da última década, como também em 1978.
Mas na vertente militar, mais próxima deste periódico, a minha intervenção foi escrever no “Fronteiros da Beira – Firme como Rochas”, órgão cultural e recreativo do Regimento de Infantaria 12, da Guarda, em 1971. E, da já numerosa participação em mais de uma dezena de periódicos, também a alusão, com fotos, em agosto de 1993, com uma referência que me fizeram no jornal espanhol “El Adelanto”, sobre uma obra publicada.
É com base neste preâmbulo, afastando dele qualquer intenção egocentrista, que me leva a ter aquela vontade indómita na colaboração d’O Combatente da Estrela, porquanto, ao longo do seu percurso, sempre teve colaboradores com alma.
Não sendo fácil, há sempre estórias da história de vida de cada um, testemunhos verdadeiramente sentidos de muitos na sua passagem pelos tempos tenebrosos das Guerra nas Colónias, denominadas pelo antigo regime de Ultramar Português.
E não só, depois, também numa outra vertente cultural de outros temas apropriados, dando conta das atividades desenvolvidas, duma instituição em movimento, dum núcleo com alma.
Tendo estado presente no Fórum do Associativismo da Covilhã, no dia 17 de março, pode-se afirmar que entre as 248 agremiações que possui o Concelho, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes é um dos que inquestionavelmente merece o devido apoio financeiro face à sua obra.
Pena é que na Assembleia Geral dos Sócios realizada no dia 24 de março não tivesse havido possibilidade de ser encontrada uma lista para que os Corpos Sociais a eleger pudessem dar continuidade aos destinos desta prestigiosa Instituição, para o próximo biénio, esperando-se que essa situação possa ser encontrada já no próximo dia 14 de abril.
Foram as Contas e o Relatório do Conselho Fiscal aprovados, assim como também o Plano de Atividades previstas pela atual Direção para o ano 2018, embora este sujeito a alterações.
O Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes possui atualmente 820 sócios, entre Combatentes (732), Efetivos, Extraordinários e Apoiantes, registando 3 Beneméritos.
No ano transato participou em vários eventos evocativos dos Antigos Combatentes em várias localidades da região e teve ainda a sua participação, com cinco elementos e guião, no Aniversário da Liga dos Combatentes –  Aniversário do Armistício/Centenário da Grande Guerra na Evocação do fim da Guerra do Ultramar.
Por cá, ou seja, na Covilhã onde se encontra a sede do Núcleo, realizaram várias cerimónias, destacando-se: a Evocativa do Dia do Combatente, Dia de Finados, com a habitual Romagem ao Talhão da Covilhã (e também ao do Fundão), com toques gravados e deposição de coroa de flores.
Na solidariedade, para com os seus Camaradas antigos Combatentes, sócios carenciados, tem o Núcleo da Covilhã estado atento e prestado, dentro das suas possibilidades e no âmbito das caraterísticas de cada necessidade, ainda que revestidos alguns casos de excecionalidade, o seu incondicional apoio.
Mas não é tudo, porquanto no Programa de Cuidados de Saúde, o Núcleo da Covilhã é apoiado pelo CAMPS-BI, que tem um espaço na sede do próprio Núcleo. Para além de 39 sessões realizadas têm sido atendidos, de forma individual, de caráter psicológico perto de uma centena de indivíduos, e duas dezenas de caráter social. Para além de outras ações do CAMPS-BI, no seio do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, foram efetuadas sessões de grupo muito perto de centena e meia.
Depois também existe a parte lúdica e essencialmente cultural, destacando-se as visitas a Sevilha e Córdoba; ao Palácio de Belém e Revista no Casino Estoril; ao Porto ao Air Race Bull; ao Alto Minho – Braga – Castro Laboreiro – Arcos de Valdevez; Malafaia e Porto. Também uma edição anual que vem sendo continuada é a Feira de Trocas e Colecionismo da Covilhã.
Tal como de início falei, as páginas de um jornal dependem de humanos, que, impregnados daquela força anímica, terão que ter alma, para que possam brotar ideias que se convertam na atenção dos leitores, e não numa passagem transversal, ou num simples olhar para a capa e dum folhear desinteressado.
Assim também o Núcleo da Covilhã, na vertente da religiosidade, não tem esquecido todos quantos partiram para o outro lado da vida, para os crentes, naquele espírito de ter ainda presentes os camaradas eternamente ausentes, como as já referidas Romagens ao Cemitério.
E, para os que ainda se mantêm no número dos vivos, as Peregrinações a Fátima, quer de âmbito Nacional pela Liga (realizou duas), mas mormente através da inerente a este Núcleo que vai a caminho da XII Peregrinação.
Neste ano de 2018 já se realizou uma visita no concelho de Penacova para degustação da lampreia; ao museu de Vila Viçosa; e aos golfinhos, em Setúbal.
Também foi celebrado o 92.º Aniversário deste Núcleo, no dia 11 de março, com a presença do Secretário-Geral Nacional da Liga, Coronel Lucas Hilário. Foi aqui admitida a hipótese de se concretizar o almejado Centro de Apoio, sonho antigo, cujo Núcleo dispõe de projeto e de terreno atribuído pela Câmara já lá vão 19 anos. Pode-se prever a construção do Lar para 72 utentes e Centro de Dia (250), além de valências nas áreas de saúde e social, incluindo a nova sede do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes.
Este Núcleo, como já foi referido, em movimento, com alma, vai integrar também as comemorações do 100º Aniversário da participação da Covilhã, através do extinto Regimento de Infantaria 21, na Primeira Grande Guerra (1914-1918).
É também previsível que se concretize, ainda neste ano em curso, por parte da Câmara Municipal, a alteração ao Monumento dos Combatentes, conhecido como “Soldado Desconhecido”, pretendendo o Núcleo da Covilhã dar todo o apoio à edilidade covilhanense para as comemorações a levar a efeito durante o ano evocando o centenário do Armistício.
E ainda, no dia 23 de fevereiro foi a apresentação, na Biblioteca Municipal, do livro “Danos Colaterais”, do prof. José Eduardo Tendeiro, antigo combatente dos primeiros anos da Guerra do Ultramar, onde ressaltam facetas importantes romanceadas da sua vivência em teatro de guerra. A participação neste evento cultural foi de grande interesse para os participantes, para além de amigos do autor, também muitos antigos combatentes. O prof. Tendeiro é também um dos colaboradores, com alma, d’O Combatente da Estrela e d’O Combatente, da Liga dos Combatentes.
E nesta envolvente de espaços preenchidos, em várias vertentes em prol dos antigos combatentes, associados, e servindo a própria cidade covilhanense e seu concelho, e, porque não, a Liga dos Combatentes nacional, o Núcleo da Covilhã pode aplicar bem a frase, exortando, do poeta espanhol António Machado – “O caminho faz-se caminhando”. E, daí, as edições deste jornal continuarem a ser eco da alma dos seus Colaboradores.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 110, de abril/2018)


11 de abril de 2018

COMO TUDO SE PASSA


Poderíamos hoje estar a falar sobre efemérides, pois aconteceu há 50 anos a Primavera de Praga, com a Checoslováquia, então 8.ª potência industrial do mundo, a ser invadida pelas tropas russas, na noite de 20 para 21 de agosto de 1968. Foram entre 400 a 500 mil soldados do Pacto de Varsóvia a atravessarem a fronteira. Mas hoje, excetuando a Crimeia, e a ajuda aos seus apaniguados beligerantes, a Rússia opta por invadir por processos mais sofisticados, através da Internet.
Poderíamos estar a falar sobre o Maio de 68, com as greves estudantis em França, naquela expressão de “É proibido proibir”.
Poderíamos ainda estar a falar do assassinato de Martin Luther King, também há 50 anos, Nobel da Paz em 1964, conhecido como “Gandhi da América”, naquele fatídico dia 4 de abril de 1968, com o assassino a fugir para Portugal e a refugiar-se em Lisboa.
Assim, o ano de 1968 foi repleto de eventos importantes, entre eles invenções que mudaram o mundo, conflitos que quebraram barreiras e música que ficou para a História. Foram descobertas científicas, tecnológicas e avanços sociais e políticos que marcaram aquele ano. Vivia-se um clima internacional pesado devido à Guerra Fria entre a Rússia e os Estados Unidos. Além disso, também a Guerra do Vietname ainda estava a decorrer e a primeira aeronave Boeing 747 era lançada pela primeira vez. Um mundo bastante diferente daquele que conhecemos hoje.
De outros eventos ou memórias, referem-se alguns casos que se tomam de conhecimento no nosso País, nos dias que correm, depois de 44 anos do 25 de Abril.
Num ridículo de ganância, inveja ou de chico-espertismo, –  Que raio! – afinal o que se passa com o Sindicato da PSP? Sindicato?... Não!... São 16 sindicatos, segundo o Diário de Notícias, e 36 mil dias de folga para os 3680 dirigentes e delegados. “São os próprios sindicatos a dizer que ‘é uma vergonha’ o que se passa na polícia. Três sindicatos têm mais dirigentes que sócios”. Eles têm vários nomes. O primeiro a ser criado e o mais representativo é a Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), e, depois, há para todos os gostos: Vertical, Independente, Autónomo, Livre, Polícias do Porto, e uma mão cheia deles, que, por culpa governamental, não cria leis para disciplinar esta nova geringonça.
Segundo é referido, o sindicato mais recente – Organização Sindical dos Polícias –, nascido em fevereiro, conta com 459 dirigentes e delegados para 451 associados!... “É uma vergonha!” – Quem o diz é o presidente da ASPP.
Depois, claro, há falta de polícias em determinadas localidades; vemo-los aos pares em certas ruas, para quê, quando na rua de cima ou na de baixo não passa lá nenhum?
Os polícias vão comemorar o seu dia histórico do sindicalismo policial – os “Secos e Molhados” – Recordam-se? Tão só para rir, dos tempos cavaquistas.
Sentimo-nos mais seguros quando vemos polícias na rua, ou na estrada, e não nos gabinetes (esse lugar é para civis). Hoje têm mais urbanidade e cultura que noutros tempos, excetuando um ou outro caso que se refugia no uso da farda, para um excesso de autoridade. Entretanto, são mais humanos e menos polícias.
Outro caso que merece reparo são os distribuidores do correio na Covilhã, conhecidos como carteiros. De quando em vez, e isto reportando-nos aos últimos anos, com forte incidência no que está em curso, é um autêntico caos na distribuição, nesta cidade dos lanifícios e universitária, que deveria ser mais respeitada pelos homens que mais parecem convertidos na ignorância de não conhecerem o nome das ruas da cidade – e tão só nos reportando à Rua Mateus Fernandes – com cartas frequentemente a ser entregues em números de porta errados. Já foram apresentadas várias reclamações por escrito e pessoais, mas o problema persiste.
Parece vir a propósito, pois acabamos de ler no Jornal O Gaiato, de 31 de março de 2018. “Informamos que desde 2016 até ao presente, mais acentuadamente no ano de 2017, temos conhecimento que muita correspondência que nos é dirigida, é extraviada, segundo contacto posterior do Remetente. Apesar de, por várias vezes, o comunicarmos aos serviços competentes dos CTT, o problema persiste. Esta situação tem provocado algum desconforto às pessoas que nos escrevem e que, não obtendo resposta à sua correspondência, ficam alarmadas e preocupadas com o que fazer, principalmente quando enviaram um cheque como donativo”.
Esperemos que tudo se recomponha para bem de todos, mas de todos, porque todos necessitamos da boa prestação dum serviço, seja ele qual for.



(In "Notícias da Covilhã", de 12/04/2018)

10 de abril de 2018

A POLÍTICA E A COMUNICAÇÃO EM ABISMOS FACEBOOKIANOS


Há muito que se adivinhavam receios de manipulação de massas, no seio de algumas redes sociais, mais em evidência no Facebook, tanto quanto sub-repticiamente. Agora veio aquele a ter de levantar o véu do seu artifício.
A sua utilização ousada como forma de entretenimento e de discussão de ideias, aceitando mexer com emoções, deu azo a que a racionalidade fosse rara de eficácia.
O Facebook, criado em 2004 por Mark Zuckerberg, para ser uma plataforma de comunicação entre pessoas, face aos acontecimentos de que é acusado e que dos mesmos fizeram acontecer situações catastróficas no planeta, tornou-se na perfeição de uma ferramenta destinada a explorar medos, inseguranças e ódios. Tornou-se um “monstro”.
Ainda que Mark Zuckerberg seja um génio, talvez comparável aos matemáticos da formação da Teoria das Probabilidades, dos séculos XVII e XVIII: James Franklin, Ian Hacking, Philippe Picard, Blaise Pascal, Fermat, Huygens, Jacob Bernoulli, Nicolaus Bernoulli, Pierre Montmort, Abraham de Moivre ou Pierre-Simon Laplace, que também tiveram alguns desentendimentos, mas, paradoxalmente, a credibilidade cresceu neles, ao invés do que agora aconteceu com o fundador do Facebook que ultrapassou os limites dessa mesma credibilidade, é demasiado penoso para quem pensa que também os seus dados pessoais possam ter sido utilizados para fins que não autorizaria.
A comunicação social não deixa de registar todas as peripécias desta rede social e dos seus mentores:
Matteo Salvini, o populista italiano que venceu as eleições legislativas em 4 de março disse: “Obrigado a Deus pela Internet, obrigado a Deus pelas redes sociais, obrigado a Deus pelo Facebook”.
Brad Parscale, diretor de campanha de Donald Trump, disse em Lisboa, aproveitando a Web Summit: “Ganhámos as eleições no Facebook”.
No referendo pelo “Brexit” britânico, que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia é referida  “uma análise de sentimentos aos utilizadores no Facebook, a par de uma segmentação muito fina de informação capaz de manipular as emoções dos eleitores”.
O jornal britânico Observer confirma que o próprio Facebook sabia de tudo mas optou por tentar esconder os factos do grande público.
E é pela recolha de dados do Facebook, de tão extensa e apurada, que os mesmos acabaram por ser comprados pela Cambridge Analytica, que, nos estudos para promover a compra de publicidade na rede social, o próprio Facebook demonstrou como conseguia influenciar os votos em vários escrutínios.
Das investigações, tornadas públicas, apercebeu-se a forma como decorreu a manipulação sobre a candidatura de Hillary Clinton, e a intervenção da Rússia, decisiva na campanha eleitoral americana a favor de Donald Trump.
As acusações de que a empresa britânica Cambridge Analytica usou o Facebook para recolher dados de cerca de 50 milhões de utilizadores, sem estes saberem, obrigaram o fundador desta rede, depois de algum silêncio, ao pedido de desculpas. E, posteriormente, a fazer alterações para maior privacidade e não utilização abusiva dos dados pessoais. Chega, ou é como colocar a raposa a guardar as galinhas?
Deu para perceber que o Facebook tende a privilegiar as publicações mais comentadas e partilhadas, não utilizando a credibilidade como critério. É assim apontado como fator decisivo na disseminação de informação tendenciosa e falsa, fenómeno que ficou popularizado pela expressão fake news.
Na União Europeia, onde a informação digital é considerada um direito fundamental, o uso indevido dos dados da empresa já foi alvo de várias investigações e até multado o Facebook.
Segundo André Macedo, a uma entrevista do economista e professor catedrático Manuel Mira Godinho, à RTP 3, refere que “há 90 anos, Estaline disse aos escritores soviéticos que a força ideológica era mais importante do que a capacidade militar e pediu-lhes que se tornassem engenheiros da alma humana. Quase um século depois, a digitalização das nossas vidas abriu uma via rápida para os recantos mais escondidos. A alma humana tem hoje a porta escancarada, nunca revelámos tanto sobre as nossas vidas, os nossos gostos e preferências e, nem sequer nos apercebemos da devassa e dos riscos que corremos, como a compra de dados do Facebook para fins políticos”.
Num país onde há muitos tolos, como o nosso, compete ao Estado agir, com outras ferramentas, as que tiver à mão, para limitar o poder destas entidades que nos estão acima. E como ninguém gosta de passar por pateta, por este andar certamente a conveniência é deixar de perder tempo em locais onde é exatamente esse o papel que nos destinam.
Nos dias que correm, a privacidade, ainda que imperfeita, é uma utopia. Estamos sempre descobertos. Vejamos, por exemplo, a nível de Estado, o e-fatura, como tudo aquilo que o fisco se arroga de saber. E, no meio desta floresta de enigmas da privacidade, ainda há; para além dos verdadeiros pobres, que ainda existem, até de mais; os novos pobres, que são os ignorantes, os que vivem sem tempo para pensar, falando de mais no Facebook.
Por cá, nesta terra laboriosa, laneira e universitária, curiosamente já se sente o silêncio dos predadores do Facebook de outras alturas.


(In "Fórum Covilhã", de 10/04/2018)

14 de março de 2018

“O DOCUMENTO ANTIGO – UMA OUTRA FORMA DE VER OS SEGUROS”


É este o título que dei ao meu próximo livro, romanceado, a entregar ao editor até ao próximo mês de maio, fruto do convite feito, proveniente de uma forte amizade, pelo CEO e Administrador da Liberty Seguros, naquele célebre 13 de junho de 2014. Depois de muitas pesquisas e contactos, geradores do interesse não só dos profissionais da atividade, a qual deixei em 1 de setembro de 2012, mas também no emergir de novas amizades, vai surgir no âmbito do ineditismo que sempre votei às obras publicadas.
Consciente da aventura em que aceitei tal convite, uma vez que já existem variadíssimas obras congéneres, por autores consagrados, não deixou de me envolver naquele risco por que foi a minha atividade durante quatro décadas.
Entre a narrativa ficcional e a veracidade, remete para a realidade dos seguros deste a Antiguidade até ao final do Século XVII, numa primeira parte; e depois dos anos 70 até aos nossos dias, para a segunda parte.
O romance começa algures no Norte, para os lados de Valbom-Gondomar, dará continuidade na Covilhã e Fundão, Castelo Branco, Lisboa e Algarve.
E, agora fora do contexto da obra a publicar, porque amigos que vou encontrando se me dirigem desejosos de recordar facetas e acontecimentos do passado, não só da vivência dos lugares como de factos ocorridos e que já poucos recordam, vou tentar aqui trazer algumas reminiscências, sujeito a repetições de outras crónicas anteriores, quer neste periódico quer noutros onde as tivesse publicado.
O gosto pela história e demais eventos marcantes da sociedade portuguesa e do mundo, advém-me do tempo em que meu Pai nos dava conhecimento, ainda em criança, de algumas notícias dos jornais, geralmente da parte da manhã, de alguns acontecimentos vindos no Diário de Notícias ou n’ O Século, para já não falar nos extintos Novidades, A Voz ou Diário da Manhã, na Pousadinha, onde residíamos. Ainda ali não havia energia elétrica e, consequentemente, a inexistência de uma telefonia. Também a televisão só viria a nascer em Portugal em março de 1957, a preto e branco, de um só canal. Quem não tinha televisor em casa (que era impossível na Pousadinha), e eram muitos, ia para os cafés e outros locais públicos ver os programas da sua preferência. A leitura dos jornais, atrás referida, teria sempre de acontecer antes da entrada para a Biblioteca Municipal, na Covilhã, para onde ainda teria de palmilhar uns quilómetros, seu local de trabalho. O transporte nas então designadas camionetas da carreira, de José Nunes Correia & Filhos, Lda, não podia ser quotidianamente utilizado, por razões dos fracos recursos económicos, daqueles tempos salazaristas, mesmo pelos operários da indústria de lanifícios. Era daqueles tempos em que esses autocarros tinham umas grades em cima do teto para colocar os volumes maiores e, atrás, descia a grade de acesso, originando que a garotada se agarrasse às mesmas quando o autocarro partia, aproveitando uma breve boleia, breve porquanto o motorista logo que se apercebesse fazia sair o cobrador para afugentar a rapaziada atrevida.
Teria eu os meus seis anos, o segundo mais velho de um quinteto, todos nascidos na casa da Pousadinha, com o apoio da improvisada parteira, senhora Lucinda, que sempre que necessário a iam buscar à Fonte das Galinhas, na Covilhã. Mais tarde viríamos a formar um sexteto, sem música para além de alguma berraria ou choro.
Durante parte da manhã ainda o senhor professor Martins, como era conhecido por aquelas bandas, na nossa casa da Pousadinha ensinava muitos dos alunos – rapazes e raparigas – já em altura de terem que frequentar os Cursos da Campanha Nacional de Adultos.
Por ali residiam alguns vizinhos, os mais conhecidos, Mário Eufrásio e a mulher, cujas filhas mais velhas também assistiam às aulas do professor Martins.
Em 18 de abril de 1951 faleceu o então Presidente da República marechal António Óscar de Fragoso Carmona – o primeiro que eu conheci em fotos e retratos nas escolas, e nos jornais, com o meu Pai a mostrar-me as imagens do funeral do presidente. Já a Rainha Isabel II da Inglaterra, com o marido e os filhos, ainda pequenos – a Ana e o Carlos –  recordo a sua vinda a Portugal, já não residia na Pousadinha. A rainha Isabel II visitou Portugal cinco anos depois de ter sido coroada. A RTP, recém-nascida, como atrás faço referência, realizou a sua primeira grande cobertura noticiosa durante esse acontecimento, cuja visita aconteceu entre 18 e 23 de fevereiro de 1957 e concentrou as atenções do país e também do estrangeiro. Nessa altura era então Presidente da República o General Francisco Higino Craveiro Lopes e Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. Gostava de ver na revista Flama e nas capas dos jornais as fotos da vinda da rainha e família a Lisboa.
O Hino Nacional, que o professor Martins (antes exercera esta atividade) também ensinava na escola aos alunos tinha três estrofes, portanto, muito mais comprido. Só mais tarde, pelo Diário do Governo de 4 de setembro de 1957 duas foram eliminadas, ficando então o hino como o atual. Tenho em meu poder uma bandeira nacional desse tempo, quando o Hino Nacional ainda tinha as estrofes seguintes:

Desfralda a invicta Bandeira,                                                   Saudai o Sol que desponta
À luz viva do teu céu!                                                                Sobre um ridente porvir;
Brade a Europa à Terra inteira:                                                Seja o eco de uma afronta
Portugal não pereceu                                                                 O sinal do ressurgir.   
Beija o solo teu jucundo                                                            Raios dessa aurora forte
O Oceano, a rugir d’amor,                                                        São como beijos de mãe,
E o teu braço vencedor                                                             Que nos guardam, nos sustêm,
Deu mundos novos ao Mundo!                                                Contra as injúrias da sorte.


(In "Notícias da Covilhã", de 15/03/2018) * Estas últimas estrofes não foram publicadas no semanário por falta de espaço *

13 de março de 2018

ENTRE O PORTÃO E A PORTA


Desde o portão de entrada na nossa interioridade, onde podemos ouvir ou ver algo que não desejamos, ou não concordamos, até à porta do nosso íntimo, onde se encontra bem instalado o lugar do nosso valor e da nossa coragem, há uma enorme distância. Tanto mais distante quanto maior for esse valor e essa coragem. E, por isso, mesmo longe das muralhas que nos protegem do exterior.
Não é fácil manter essas distâncias quando, por vezes, amiúdas vezes em várias fases da vida, somos confrontados com situações em que nos custa saltar da distância que nos separa da porta da nossa intimidade para o portão que dá obviamente para o exterior.
Comigo já sucedeu algumas vezes. Não consigo abrir a porta do meu íntimo, dos valores que eu reconheço tradicionais de uma educação transmitida, ainda que não totalmente concordante, para aquela enxada que pretende cortar a raiz do pensamento. Dou, por isso, muito valor à liberdade de expressão, pois já vivi no tempo em que tal situação, a exprimir-se contrária aos ventos políticos dominantes, traziam-nos preocupações.
Lembro-me de, nesse famigerado tempo, quando pela noite tinha que baixar o rádio para poder ouvir a Rádio Portugal Livre, de Argel, proibida, pela voz da mulher de Piteira Santos. E do Manuel Alegre. De ser obrigado a assinar declarações como uma que guardo religiosamente, aquando de acesso a promoções de carreira na função pública (“Declaro, por minha honra, que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com ativo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas. – Covilhã, 29 de Maio de 1965”). Recordo-me que numa reunião da Comissão Democrática Eleitoral, em 1973, em que participei, viemos a saber, quando, felizmente, raiou o 25 de Abril de 1974, que o secretário das reuniões era informador da PIDE.
Mas, já antes, no serviço militar obrigatório, denunciei uma atitude corrupta dum superior, embora reformado, que, por interposta pessoa me pretendia ludibriar num favorecimento ilícito a um recruta.
Mais recentemente, não obstante ter sido objeto de uma homenagem de uma coletividade, de um pedido de colaboração municipal de âmbito literário, e de reuniões de associações culturais, onde havia amigos, não deixei que a porta da minha intimidade pudesse deixar vandalizar os valores da expressão livre do pensamento. Discutível, como é óbvio, mas é o meu pensamento. Não o vendo por preço algum. Como humano, objeto de erros, mas, para isso, há os pedidos de desculpa, se entendidos como aceitáveis.
Repudio veementemente todos os vira-casacas, os que voltam com a palavra atrás sem justificação, os chicos-espertos, os falsos amigos.
Prefiro ficar à porta que ao portão.
Podemos ouvir ou ver algo e não querer o que ouvimos, ou vimos, que venha ferir o nosso coração.
Esta voz secreta que só se pode escutar no total recolhimento não está sempre acessível.
O lugar do nosso valor e da nossa coragem, estando longe das muralhas que nos protegem do exterior, está ainda dentro de uma fortaleza interior bem guardada, até de nós mesmos.
É que aceitar, sem prudência, tudo de todos é algo tão imbecil como dar tudo a todos, sem sensatez. Importa guardar as distâncias que nos protegem dos ataques do exterior. Há assim um caminho que vai do portão de nós mesmos até à porta do nosso íntimo.
No início deste ano, Assunção Cristas, presidente do CDS-PP defendeu que o acesso á saúde divide os utentes em “portugueses de primeira, segunda e terceira”, conforme os recursos financeiros que dispõem e o espaço geográfico onde vivam. De acordo com a líder centrista, esta divisão corresponde aos que podem pagar um seguro de saúde e escolher entre público e o privado, os beneficiários da ADSE, e a população sem recursos que lhe permita escolher.
Mas Assunção Cristas esquece-se que, apesar de tudo, todos têm acesso ao Serviço Nacional de Saúde, ninguém fica sem assistência médica.
Mas eu já fui “português de terceira”, nos anos 60 do século passado, quando o funcionalismo público não tinha acesso aos cuidados, ainda que primários, de saúde. Tinha que pagar do seu próprio bolso as consultas e medicamentos, retirados dos seus míseros vencimentos, ou então, lamuriar-se junto dos médicos para que lhe perdoassem a consulta, o que resultava muitas vezes a ficarem com as receitas no bolso por não haver recursos para pagar nas farmácias. Os remédios caseiros nem sempre eram solução e, assim, muitas mazelas ficaram.
Não havia ainda a ADSE. Não havia subsídios de férias nem de Natal. Comia-se o pão que o diabo amassou e tinha que se andar sorridente porque a repulsa redundava em ter à porta, no dia seguinte, ou próximos, um dos homens da maldita polícia política. A caterva de informadores, desde o sacristão, ao homem que atrás falei, ao funcionário de um Sindicato, ao 35 ou ao 23, ao pároco de São Martinho, e a outros mais, ocultos na tentativa de anonimato, obrigava a ter que haver bastantes reservas.
Convém assim guardar bem a porta e espreitar o portão.


(In "fórum Covilhã", de 13/03/2018)

16 de fevereiro de 2018

PAU PARA TODA A OBRA


Hoje, dez de fevereiro do ano da graça de dois mil e dezoito, da era de Cristo, cá dos lados da encosta da Serra da Estrela, na vetusta cidade dos lanifícios e, hoje, mais universitária, deu-me na gana de parar o horizonte de outros temas, e passar a outro estilo de conteúdos. Volto-me então, um pouco, para os solos que pisei, pela primeira vez, vai fazer meio século, por essas terras algarvias onde se insere a importante cidade de Olhão, da restauração.
Efetivamente, foi em 16 de janeiro de 1968 que fui pela primeira vez ao Algarve, então por obrigação militar, em Tavira.
Já escrevia no jornal da minha Terra, embora com pouca regularidade, desde 1964, porque também havia que acautelar os assuntos a abordar, face à PIDE, não me fosse rondar, como a tantos operários, e não só, da Covilhã, que sofreram nas investidas daquela famigerada polícia política.
E, memorizando um pouco os tempos de outrora, como retrata tantas vezes o diretor-adjunto deste quinzenário, nas suas páginas, aprouve-me a minha passagem efémera pela cidade de Olhão, com alguns camaradas, onde aí escrevi um postal ilustrado para a minha namorada, na Covilhã. Ainda não tinham sido inventados os telemóveis… e as chamadas telefónicas, para além de caras, eram interurbanas.
Longe estaria no meu pensamento que, umas décadas mais à frente, ser-me-ia propício vaguear o meu pensamento por Olhão, através das páginas de um periódico, substituindo assim o piso de ruas por páginas de papel.
E é n’O Olhanense que me agrada ver conteúdos tão diversificados, numa base de cultura espelhada em vários artigos de opinião, e na memorização das vivências de outrora, por um insigne cérebro que, tal como eu penso, não é a terceira nem a quarta idade que nos faz parar porque consideramos que a mesma que atingimos é, mais exatamente, a idade da plenitude.
Como em tudo, há sempre alguém que é a roldana, a mola impulsionadora, o chamado “pau para toda a obra” que é conhecedor, sabe do seu ofício, sem do mesmo colher frutos financeiros porque sabe que superiores a esses estão os advindos do amor à causa e o prazer indelével de fazer andar, não deixar parar, não deixar perecer.
Assim vai “O Olhanense”, onde tenho o prazer de quinzenalmente estar presente, com os sacrifícios que se reconhecem, mas com a alma de gentes que sabem acompanhar quem dirige este importante periódico, já de referência nacional, extravasando o âmbito regional.
Gostaria de ver mais artigos de opinião, ou crónicas, da parte feminina, para poderem enriquecer também, com a sua contribuição, o quinzenário de todos nós. Tal como os jardins, também nos jornais ficam bem as flores, porque delas emergem muitas outras interessantes formas de ver e de pensar.
Apercebo-me pelos relatos do principal responsável da continuidade deste quinzenário que, tal como está acontecendo noutros periódicos, a pera não é doce e as dificuldades são grandes, mais enegrecidas, por vezes, pela indiferença de alguns, mas isto é generalizado.
É preciso é continuar a inovar porque quem está de fora sabe perfeitamente que o rumo do Jornal “O Olhanense” está bem traçado, tem sentido, está valorizado, não é um quinzenário exclusivamente desportivo, mas um periódico verdadeiramente cultural.
Por isso, o caminho é continuar em frente, sem desanimar. E venha o próximo número.


(In "O Olhanense", de 15-2-2018)

14 de fevereiro de 2018

DA CORRUPÇÃO AO CHICO-ESPERTISMO


Saio à rua, depois de dar uma olhadela pelas notícias online, e dirijo-me para a minha habitual banca dos jornais, ao jardim, onde os mesmos se encontram desde já reservados.
Saúdo uma vizinha que há muito tempo não via, pergunto se está tudo bem e responde: “Só que, ai, ai, os meus joelhos é que não ajudam!”. Depois outra, a mesma pergunta, e vai daí: “Sabe, Sr. João, o meu problema é a coluna, esta maldita doença!”. Até que resolvi não perguntar mais nada, senão quando surge um amigo, e, nos cumprimentos da praxe, lá vem outra história das doenças da idade. “Sabes? Isto é da PDI!” Ao que eu lhe respondi, sem que ele contasse com esta contradição do vulgarizado significado da sigla: “Olha, toca a todos, a “Potência Deficitária Incomodativa!...”
Antes de entrar no tema em epígrafe, penso mesmo que os trabalhadores que se deixam instrumentalizar demasiado pelos partidos, cujos sindicatos a que estão afetos dizem os defender, poderão ver-se mais tarde envolvidos numa nuvem de arrependimento pelas opções tomadas, como é o caso da Autoeuropa, pelas teimosias que vão levando. Uns dizem que são os comunistas os culpados; certo é que parece que a Autoeuropa está antes afeta à UGT. Se a empresa se deslocasse para o estrangeiro, ou se retirasse para outro local, como outras fizeram, caso da Opel da Azambuja, seria melhor para os trabalhadores ficarem sem emprego? Pois é, o subsídio do desemprego, as reformas antecipadas, etc., sempre resolvem alguma coisa. Mas o mais estranho é que não se trata de quaisquer colaboradores, mas de trabalhadores que se encontram bem pagos, quando muitos licenciado nem ganham metade do seu salário.
Já os encerramentos da ex-Triumph e da Ricon são apontados como “uma infeliz coincidência” num dos períodos mais positivos do setor com forte volume de exportações, lamentando-se os muitos trabalhadores que rumam para o desemprego.
Mas vamos para o tema que hoje trouxe para este espaço, não obstante ele já ter sido debatido nos vários órgãos da comunicação social ad nauseam, uma vez que também o diabo não chegou a vir naquele célebre setembro de Passos Coelho, porque afinal ele já estava/está entranhado no seio e no pensamento de muitos, de várias praças deste país. Portanto, nem vale a pena Manuela Ferreira Leite sugerir ao “novo” PSD para que venda a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua.
Deste fartote de corrupção, entre alta e baixa, fraca e forte, verificada ao longo dos tempos, mas mais acentuada nos dias de hoje, isto no que se repercute no nosso País, entendi classificá-la em três partes: corrupção de 1.ª, de 2ª e de 3.ª categorias.
Eu explico, exemplificando, a começar da mais baixa para a mais elevada. Considero corrupto ou corrompido de 3.ª categoria, aquele romeno que me enganou à entrada do Lidl vendendo-me o almanaque Borda D’Água pelo preço que apontou e vinha inserido na capa do mesmo; e que eu, pensando ser um original como tantos vendidos nas bancas e papelarias, verifiquei depois que era fotocopiado. Até onde vai o chico-espertismo. Ou, então, o recebimento por parte dos serviços da secretaria de um Lar da Terceira Idade, de boa reputação, desta Cidade laneira, de uma luxuosa “comparticipação por fora” para se ter hipótese de ali ser internado um familiar idoso, em que não é passado um recibo comprovativo, o que, para além de transgressão fiscal, também se ficou a desconhecer para que bolso seguiu a volumosa quantia extra, como entrada, para além das mensalidades e outras despesas mais.
Corrupto ou corrompido de 2ª categoria pia mais fino, e aí temos, sem vergonha, o aluguer de uma casa, a um mãe e filho adulto, pobres, sem condições condignas de habitabilidade, onde nem sequer cabe uma cama pequena para um deles dormir, nem os mínimos eletrodomésticos, imprimindo uma desumanização à face da Terra, neste século XXI. Onde estão as fiscalizações ativas e decisórias, para poder impedir o desiderato dos proprietários chico-espertos? Isto também se passa na mais importante cidade dos lanifícios e universitária da Beira Interior. Nesta vertente de categoria ainda integro aquele perito de seguradoras que, subtilmente, indicava clientes aos comerciais para, passado pouco tempo, numa sua prévia combinação com os referidos segurados, passarem a existir sinistros em catadupa, forjados. Descoberto este seu chico-espertismo, e já não sabendo como se desenrascar, acabou num suicídio na A23.
Corrupto ou corrompido de primeira categoria são então os de maior evidência, geralmente ligados a uma teia, envolvidos num polvo (sobre este mesmo tema – “O Polvo” – escrevi um texto em 2 de setembro de 2005, publicado no Notícias da Covilhã, que se encontra em grande parte atual), cujas formas tentaculares de fugir às responsabilidades e se habilitarem ao sorteio da ilibação produz tempo e mais tempo até se chegar ao ponto final dos julgamentos. E, depois, há os recursos, e mais recursos. Aqui vamos encontrar os já muito comentados casos da Operação Marquês, Operação Lex, Operação Fizz, entre outros, para além dos que vão emergindo, como a falsificação de cheques da Segurança Social, o desvio de milhões, pelo reitor de uma universidade privada, não esquecendo os casos da PT, da queda do BES, e por aí fora.
Nesta categoria não há corruptos de fraco gabarito. Podemos, sim, encontrar alguns novos-riquismos e narcisismos doentios.
“Sim, vivemos num país profundamente corrupto”, é o título duma crónica de João Miguel Tavares, do Público.
Estranha-se que outros casos de corrupção não tenham tido qualquer desfecho da Justiça, continuando hoje ainda vivos e, outros, condenados a prisão, como Oliveira e Costa, passeiam livremente.
Se o período Sócrates-Pinto Monteiro foi o “mais negro” da Justiça, conforme atesta no seu livro o juiz jubilado António Bernardo Colaço, não se compreende a pretensão de afastar a procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal. Segundo o versado é que a remoção da procuradora não evitará o julgamento de Sócrates, mas pode facilitar o adiamento para após eleições. Chico-espertismo!
Por tudo isto se vê que todos os casos conhecidos são reveladores da transversalidade da corrupção entre as diversas classes sociais, envolvendo todos os setores da sociedade e da economia.
Pode alegar-se que a justiça está a funcionar normalmente e a fazer o que tem de ser feito, o que é um dado positivo.

(In "Notícias da Covilhã", de 15-2-2018)

13 de fevereiro de 2018

2018 – ANO DE EFEMÉRIDES, MAS TAMBÉM RUMO À 4.ª REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


Depois de terem sido badalados intensamente outros temas, como foram os incêndios do ano findo, e, agora, o ranking das escolas, trago ao leitor memórias que hoje se perpetuam de há meio século, que neste ano se efemerizam, atingindo o cinquentenário dos respetivos acontecimentos, tendo entrado na história do planeta, todas deixando marcas do seu surgimento.
Alguns chamaram a 1968 o ano de todas as revoluções. Uma vaga de movimentos revolucionários sacudiu o mundo há 50 anos, ano em que eu fui cumprir o serviço militar obrigatório, logo em janeiro, por onde andei 42 meses, daí que pouco me tivesse apercebido de alguns destes mesmos acontecimentos. Tínhamos pouco acesso aos jornais e a televisão, de um só canal, a preto e branco, não estava tanto ao nosso alcance como em nossas casas.
Se bem que no final desse ano de 1968 todas as aspirações revolucionárias tinham fracassado, sem nada mudar, o que é certo e verdade é que também já nada continuou a ser igual, nesta parte no que concerne aos jovens estudantes. É que as suas consequências tiveram uma grande importância. Estas revoluções tiveram uma peculiaridade porquanto não pretendiam conquistar o poder, mas tão só mudá-lo.
Se Paris simbolizou esta agitação também houve outros lugares onde tal viriam a surgir, nomeadamente em Berlim, Praga, Roma, Cidade do México. A China mantinha-se na Revolução Cultural. Vivia-se também a guerra do Vietname já numa fase crítica.
Não obstante haver prosperidade, os distúrbios eram indício de um profundo descontentamento. As reivindicações falavam na esperança num mundo melhor. Eram discutidas as estruturas políticas, então vistas como autoritárias. Era, segundo os jovens estudantes, um modelo consumista de um capitalismo obcecado com a rentabilidade. Os processos revolucionários até então tinham estado associados a classes sociais específicas ou a grupos políticos definidos. Os processos revolucionários de 1968 correspondiam aos estados de consciência da geração nascida no pós-guerra. Os universitários foram então os promotores, que tinham aumentado maciçamente quando o ensino superior deixou de ser privilégio só para alguns.
Estas grandes convulsões, não só das que agora me refiro, podem ser retratadas, tanto quanto possível, pela sua ordem cronológica.
Assim, no primeiro dia do primeiro mês desse ano, o Vietcong atacou a embaixada dos Estados Unidos em Saigão, mas, passados poucos dias iniciava-se a Primavera de Praga, na então Checoslováquia, com Dubcek a assumir a sua liderança, numa tentativa de democratizar o regime. Contudo, a Guerra Fria aniquilou a experiência e mergulhou o país numa onda de frustração. No 1.º dia de fevereiro surgiam as brutais imagens de Eddie Adams da guerra do Vietname que impressionaram o mundo. Em meados de março de há cinquenta anos, dava-se o massacre de My Lai no Vietname. Entretanto era encerrada a Universidade de Nanterre, em França. No final deste mês emergiram os distúrbios e repressão racial em Memphis, nos Estados Unidos.
Os primeiros Jogos Olímpicos da América Latina começaram-se a preparar no mês seguinte (abril), no México, mas é também nos primeiros dias deste mês e ano que é assassinado Martin Luther King. Maio viria a ver os confrontos entre os Guardas Vermelhos e o exército a recrudescerem na China, em plena Revolução Cultural. E o célebre “Maio de 68” iria ver o seu início com a Noite das Barricadas em Paris, ponto de inflexão do maio francês.
Encontrava-me no serviço militar em Tavira quando, na parada, oiço na “Rádio CISMI”, daquela unidade militar com o mesmo nome, que, naquele dia 5 de junho de 1968, o senador e candidato favorito às primárias democratas nos Estados Unidos, Robert F. Kennedy, era assassinado.  Entretanto, naquele mesmo mês, das eleições em França saiu vencedor o Partido Gaulista e acabaram os protestos dos estudantes, não voltando a haver outra convulsão de caraterísticas inovadoras e criativas que lhe seja comparável. Os jovens desse tempo hoje andam por perto dos 65/70 anos. Também a religião tinha a sua marca de acontecimentos neste ano, e, assim, em 25 de julho o Papa Paulo VI condenava o uso dos contracetivos na encíclica Humanae vitae. O mês de agosto seria marcado com festivais rock como o de Venice Beach, nos Estados Unidos, mostrando o apogeu da contracultura e da emancipação sexual. A União Soviética (URSS) invadiu a Checoslováquia e, no final deste mês surgiram manifestações nos Estados Unidos contra a guerra do Vietname, na Convenção do Partido Democrata em Chicago.
Em setembro nascia a Teologia da Libertação, com Hans Küng a publicar o manifesto Declaração pela Liberdade da Teologia. O mês de outubro seria terrível para o México, com o Massacre da Praça das Três Culturas. Entretanto, de 12 a 27 deste mesmo mês, realizaram-se os XIX Jogos Olímpicos, na capital mexicana.
O novo presidente americano, Richard Nixon, viu alcançada a sua vitória nas eleições nos Estados Unidos, realizadas no dia 5 de novembro de 1968. Para o último mês do ano, Mao Tsé-tung lançou a campanha de “reeducação” dos jovens das cidades, enviados para campos de trabalhos rurais na China. E, entretanto, a Apollo 8 entrava na órbitra lunar e os astronautas Borman, Lovell e Anders viam, pela primeira vez na história, a face oculta da Lua.
E, daí para cá, o mundo foi evoluindo de tal forma que hoje estamos a rumar a uma 4.ª revolução industrial. Recordemos que foi no século XVIII, em Inglaterra, que se deu a Primeira Revolução Industrial, com a máquina a vapor e do carvão.  Na viragem do século XIX para o século XX, nos Estados Unidos, na Alemanha e em Inglaterra, surgiu a Segunda Revolução Industrial, do petróleo, do motor de combustão interna, do motor elétrico e da produção em massa.  Na segunda metade do século XX, tivemos a Terceira Revolução Industrial, da computação e da Internet.
Bom, a Quarta Revolução Industrial é agora, de acordo com Schwab, e outros, a revolução da digitalização maciça, da aprendizagem automática e da robotização, mas também da nanotecnologia e dos novos materiais, e da biotecnologia, ou seja, tecnologias que fundem os mundos físico, digital e biológico.
Antes das revoluções industriais usávamos as fontes de energia primária (o sol, a água e o vento). As sucessivas revoluções industriais tiveram como consequência um aumento enorme no nível de prosperidade da humanidade, em conjunto com alterações sociais profundas, como o reconhecimento de direitos humanos universais, a alteração nos padrões de fertilidade e o aumento da esperança média de vida.
A Quarta Revolução Industrial traz enormes promessas, por exemplo, com a massificação do carro elétrico, muito mais eficiente que o carro a gasolina ou gasóleo entre outras.

(In "fórum Covilhã", de 13-2-2018)