31 de julho de 2018

A CABRA, O PASTOR E O MONGE


A minha última crónica referiu-se aos cafés tradicionais nas cidades. E o café bebida como e quando surgiu nos estabelecimentos com a mesma designação? A lenda mais conhecida das suas origens reporta-se ao ano 575 em que um pastor etíope, de nome Kaldi, apercebeu-se que suas cabras ficavam mais espertas ao comer as folhas e frutos do cafeeiro. Não podiam conciliar o sono e ficavam em grande agitação. Estupefacto, decide provar os bagos vermelhos do arbusto e começou a sentir maior vivacidade. Um monge da região, informado sobre o facto, fez então uma infusão dos bagos para resistir ao sono enquanto orava. Teria acabado de inventar o café!

Existem várias datas apontadas. Mais certo será o local da origem – Etiópia – na localidade de Kaffa, não tendo, no entanto, esta palavra sido a génese de Café (Coffe em inglês). O Iémen seria um  centro de cultivo importante, de onde se propagou pelo resto do mundo árabe. Chega à Europa, onde por volta de 1570 o café é introduzido em Itália, na cidade de Veneza.

Na Inglaterra, em 1652, foi aberta a primeira casa de café da Europa Ocidental, seguindo-se a Itália dois anos depois. Em 1672 cabe a Paris inaugurar a sua primeira casa de café, e foi precisamente na França que, pela primeira vez, se adicionou o açúcar ao café, no ano de 1713.

Outras versões têm sido referidas para explicar o aparecimento do café, sempre envolvendo personagens ou povos árabes.

Embora diferindo as histórias e o grau de fantasia, todas são unânimes quanto               às qualidades excitantes do café e, em geral, situam a sua origem entre a Europa, o Iémen, e a Arábia, mais citada a Etiópia.  Já quanto à época da primeira utilização do café e de forma de preparar a bebida as opiniões são mais diversificadas.

Recordo que quando eu tinha 13 anos, o Imperador da Etiópia, Hailé Selassié, visitou Portugal entre os dias 26 e 31 de julho de 1959, tendo lido a notícia e visto uma foto no então Diário Popular, Diário de Notícias, e na revista Flama, sobre a visita e o descarregamento de umas toneladas de café, de um navio, oferta do Imperador da Etiópia, na sua visita a Portugal. Tínhamos então a velhinha Biblioteca Municipal, ao Jardim. Também recordo que o presidente da Câmara da Covilhã, Dr. José Ranito Baltazar, e membro da União Nacional, se deslocou a Lisboa para  oferecer uma prenda do Município (penso que uma tapeçaria) ao Imperador, tendo sido escritas umas palavras, num pergaminho, pelo falecido Matos Pombo, então administrativo dos Serviços Municipalizados da Covilhã. Mais tarde, o Dr. José Ranito Baltazar mandaria inutilizar a medalha que lhe oferecera o Imperador Hailé Selassié, revoltado pelo facto de a Etiópia ter votada na ONU contra o colonialismo português.

A partir de 1615 o café começou a ser saboreado no Continente Europeu, trazido por mercadores, principalmente italianos, nas suas frequentes viagens ao oriente. O hábito de tomar café, principalmente em Veneza, estava associado aos encontros sociais e á música que ocorriam nas alegres Botteghe Del Caffé. As cafeterias desenvolveram-se na Europa durante o século XVII, enquanto florescia o Iluminismo e se planejava a Revolução Francesa.

Bom, o café é atualmente a bebida preparada mais consumida no mundo, sendo servidas cerca de 400 bilhões de xícaras por ano. O tipo de café mais comum é o arábica, ocupando cerca de três quartos da produção mundial.

As dúvidas são menores quanto à primeira casa onde o café era servido publicamente. Consta que terá sido em Constantinopla onde dois mercadores sírios, Hakin e Shams, cerca de 1555, ali abriram dois estabelecimentos no bairro Tahtakale, próximo do bazar egípcio. Conforme referiu Lemaire, o primeiro café que existiu na Europa – ou mais precisamente na parte europeia do Império Otomano – foi em Belgrado, em 1552.  No entanto, o Kiva Han datado de 1475 deve ser realmente o mais antigo café de Constantinopla, e do mundo. Depois de Constantinopla e de Belgrado, os cafés iriam surgir um pouco por toda a Europa, a começar por Veneza e depois Inglaterra.

Os mercadores que negociavam com o Oriente foram naturalmente dos primeiros a trazer o café para a Europa Ocidental. Um deles, Daniel Edwards, tinha um criado, de nome Pasqua Rosée, que em 1652 abre o primeiro café em Londres.

Os cafés londrinos proliferaram rapidamente. Este rápido crescimento foi naturalmente devido ao crescente número de clientes que frequentavam os cafés pelas mais variadas razões. Se bem que houvesse algumas raras exceções, a esmagadora maioria destes clientes eram homens, que passavam bastantes horas em animadas conversas, recolhendo indicações e sabendo novidades que pudessem ser úteis aos seus negócios, ou simplesmente por pensarem que este convívio lhes favorecia o seu estatuto social.

É que além de lugares de convívio, os cafés londrinos tiveram um papel importante na criação de serviços sociais e económicos, tais como serviços privados de correios.

As pessoas que se queriam encontrar, em vez de perguntar onde moravam, era comum perguntar quais os cafés que frequentavam.

Os serviços de correios em Inglaterra começam por ser limitados à distribuição de mensagens oficiais, só sendo abertos ao público por Carlos I, em 1635. Os cafés eram ainda locais de leilões dos mais variados objetos, obras de arte, livros e mercadorias. Os cafés serviam, sobretudo, de locais onde trocavam informações e se emitiam panfletos e outros meios informativos. Os cafés serviam inclusivamente de lugares onde médicos davam consultas e onde se fazia publicidade de remédios para os mais variados males. Eram ainda centros onde se especulava sobre ciência, literatura e filosofia. Eram mesmo conhecidos pelas “universidades de um penny”, em alusão ao preço de uma chávena de café, em torno da qual se podiam passar horas de conversa que também eram, muitas vezes, horas de aprendizagem e fonte de cultura e, principalmente, onde se tratava de negócios. A maior parte das transações comerciais e das operações financeiras eram ali concluídas.

Foi este leque de funções que diferenciou os cafés londrinos dos seus congéneres de outros países.

(in "Notícias da Covilhã", de 02-08-2018; e "O Olhanense", de 01-08-2018)

12 de julho de 2018

O ÊXITO TAMBÉM DEPENDE DA CORAGEM


Se bem se recordam, no número anterior d’O Combatente da Estrela, escrevi que só com a alma que cada um infunde, dentro da sua missão, se pode chegar a bom porto, porque o caminho se faz caminhando. E, também, neste âmbito, assim a robustez de uma publicação.

A divulgação da notícia e dos textos de opinião, neste contexto, quer seja por via de um jornal, de um boletim ou de uma revista, terá que ter uma periodicidade no mínimo trimestral, para que possa ser constante elo de ligação entre os seus habituais leitores e os seus devotos associados, como no caso do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes. Aqui tem marcado os pontos máximos. Mais: essa forma de publicação terá que ser enviada graciosamente aos seus associados, pelo correio, no caso em papel; ou pela via online. Nesta vertente, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes exerce aqui a exemplaridade de uma das suas missões, com a nota máxima.

Quantas vezes encontro um antigo Colega da então Escola Industrial e Comercial Campos Melo, ou um antigo Camarada das várias unidades militares por onde passei, após décadas de desencontros, e, qual a minha admiração quando me dizem: “Eu vejo a tua cara com frequência!...” E à minha pergunta, se é da leitura dos jornais regionais, a resposta vem direcionada para “O Combatente da Estrela”.

Casos surgem em que existe uma publicação anual e só é entregue aos associados no dia do aniversário da instituição, ficando os restantes associados, residentes por este País fora, sem qualquer elo de ligação à mesma.

Outro pormenor de enorme atração em ser associado de uma instituição como o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes (e reporto-me a esta instituição porque é para o seu órgão de comunicação que escrevo) é o facto de tantas vezes, quando nos encontramos no dia a dia, geralmente já todos aposentados, podermos dizer ou perguntar: “Vou ali à Liga!” – “Foste à Liga?” – “Sabes se lá está Fulano na Liga?”. Isto significa também que uma instituição, com sede e onde há associados, exige a porta aberta. No caso deste Núcleo, lá vamos, dentro do horário afixado, sempre encontrando alguém, dirigentes e alguns associados, para a leitura de jornais diários, de periódicos regionais, de cá, e para além do concelho e do distrito. E alguma cavaqueira que vem sempre a propósito.

E se algum antigo Combatente passa para o outro lado da vida, ele surge no próximo número d’O Combatente da Estrela”. Mais uma missão cumprida: recordar os que partiram. Depois, as várias atividades exercidas na dinâmica do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes surgem, conforme sempre é divulgado, atempadamente, no espaço de três meses ou ainda menos.

Para isto é preciso ter aquela coragem de manter desfraldada a bandeira e não a desenrolar só anualmente em dia de festa.

Vou terminar estes pingos de reflexão, não esquecendo que sempre que um associado pretende contribuir para uma ação cultural, como, por exemplo, a apresentação de uma sua obra, geralmente alusiva à passagem pelas antigas Colónias, tem o empenho dos dirigentes do Núcleo para que a possa condignamente apresentar na Biblioteca Municipal.

Por vezes encontramos por aí sedes próprias, de portas fechadas aos associados, de instituições em pleno coração da cidade, onde se podiam fazer várias atividades para o público ver.

A minha especial satisfação neste número vai no sentido de, como associado, poder anunciar aos leitores e associados deste Núcleo, ter contribuído com a referida coragem para o êxito, já assumido por muitos, de uma publicação de grande envergadura, inédita a nível nacional, sobre a atividade seguradora.

Assim, espero que no dia 8 de setembro, pelas 15 horas, o Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã possa “ser invadido” com muitas presenças, vindas de vários pontos do País, para a apresentação do meu último livro “O Documento Antigo: uma outra forma de ver os seguros”.

E porquê realçar este trabalho, que iniciei em 2014 e me custou centenas de horas de trabalho, do qual rejeitei receber qualquer importância de direitos de autor?

É que, sendo um livro de aturadas investigações, destinado não só a estudiosos e a profissionais de seguros, é também para todos quantos têm a curiosidade de querer conhecer a génese dos seguros no mundo e no nosso País.  Foi, pela primeira vez, reunido num só volume de 888 páginas e, duma forma inédita, romanceado, partindo de duas partes: I – Os Seguros, da Antiguidade até ao Século XVIII; II – Os primórdios do Seguro em Portugal até aos nossos dias.

E é aqui que, na parte romanesca, estão ficcionadas várias tertúlias, iniciadas em Valbom, Gondomar e Porto, passando por Leiria, Algarve, e depois Covilhã, Castelo Branco e Lisboa.

Ao longo das tertúlias romanceadas que suportam as transcrições que dão corpo à obra, as personagens ficcionadas ou inspiradas em figuras reais desta cidade, atuam de forma a aligeirar a leitura do texto, criando um romance coerente e com final feliz contentes com o que aprenderam sobre a evolução dos seguros desde os seus primórdios.

Pois a Covilhã, com várias instituições e figuras citadinas, é referida ao longo dos vários capítulos do livro, no contexto romanesco, onde sobressaem muitas personagens reais, quase todas covilhanenses, nas várias tertúlias, entre as quais vários elementos do seio do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, e também da Casa da Covilhã em Lisboa.

A tal coragem partiu da iniciativa do então CEO e Administrador da Liberty Seguros em Portugal, Dr. José António de Sousa, que renunciou ao seu mandato em 31 de maio, depois o ter anunciado muito previamente, e que me solicitou este trabalho, sendo uma grande honra o seu prefácio. A apresentação do livro será efetuada pelo novo CEO e Administrador da Liberty em Portugal, Dr. Rogério Bicho, que igualmente honrará o autor.

Aqui deixo o apelo para quem puder e quiser estar presente, certamente não ficará desiludido.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 111, de julho de 2018)

11 de julho de 2018

SÍMBOLOS DAS CIDADES


A Pastelaria Suíça, um símbolo do Rossio e de Lisboa, vai fechar, perto de completar 100 anos. Sim, conforme foi comunicado pela Câmara Municipal de Lisboa, a histórica pastelaria da Baixa vai encerrar as portas. Foi aberta em 1922. Como ela já havia fechado o Café Chave de Ouro, célebre por Humberto Delgado lá ter dito o “obviamente demito-o”, referindo-se a Salazar.

Também por todo o País há e houve emblemáticos cafés, que foram verdadeiras referências nas cidades.

Na Covilhã tivemos os icónicos Café Montalto e Café Leitão. O Café Montalto foi inaugurado simultaneamente com o Teatro Cine da Covilhã, em 31 de maio de 1954. Local onde se reuniam os industriais de lanifícios e se faziam negócios, mas onde os operários não entravam para não se encontrarem com os patrões e porque não eram ali bem vistos. Constituído por três pisos: r/chão para o café propriamente dito, existindo na cave os bilhares e as máquinas de jogo. Por cima do café ficava o restaurante terminando em varandim, com vista para o café. Era, pois, o café dos senhores de altas posses, da alta e média burguesia. Aqui se vinham a formar grupos dependentes de negócios e interesses.

Já no Café Leitão, situado numa cave, reunia-se uma classe de menores posses, geralmente funcionários dos correios e camarários ou ligados ao operariado com algum sentido reivindicativo e com gosto pelos jogos de damas e outros existentes nos cafés.

A cultura singrava por aqui ao invés do Montalto onde era mais secundarizada e, geralmente se erguia na voz de José Vicente Milhano, ou então os homens ligados à organização da Feira Popular do Sporting.

Foi no Café Leitão que o escritor Ferreira de Castro começou a escrever “A Lã e a Neve”.

Tanto no Montanto como no Leitão era habitual ver-se o engraxador de sapatos e sempre havia o Leal para que não faltasse a leitura dos jornais que vinham fresquinhos do comboio.

Em paralelo com os célebres cafés covilhanenses, também em Évora existia (e ainda existe, se bem que algo transformado, mas mantendo algumas caraterísticas originais, como a porta giratória) o Café Arcada. Era de facto o café da tradição, situado na Praça de Giraldo. A sua abertura aconteceu em 14 de fevereiro de 1942 (uma dúzia de anos antes do Café Montalto da Covilhã). Era então considerado um dos melhores do País, com 100 mesas, tido como um acontecimento social de grande impacto no quotidiano citadino. Chegou a ter uma orquestra. Tinha dois pisos. Nos primeiros tempos o Arcada foi frequentado pela burguesia local, pequenos grupos de intelectuais, gente do reviralho, profissionais liberais e estudantes liceais. Os latifundiários e aos agricultores frequentavam o Café Camões, à Porta Nova. Mas com a perda de centralidade desta zona e o acrescido ganho de importância da Praça de Giraldo, estes passaram a tomar de assalto o Arcada às terças-feiras, dia do mercado semanal. Em plena praça e no interior do café se discutiam e apalavravam negócios, tendo ali chegado a funcionar uma informal bolsa de gado.

No seu romance “Aparição” o escritor Vergílio Ferreira relata bem o ambiente do Café Arcada quando nele entrou pela primeira vez em 1946: “… acabámos por marcar o encontro para o dia seguinte no Arcada sem que o Moura se lembrasse de que era uma terça-feira, ou seja dia de mercado. Com efeito, ao entrar no café, após o almoço, tive a surpresa de ver aquele vasto túnel apinhado de gente. O corredor atravancava-se de negociantes, porque era ali, entre bebidas, que se realizava o mercado da semana. A terça-feira era o “dia de porcos”, como soube mais tarde que lhe chamavam…”

O escritor Vergílio Ferreira ficou aliás com uma marca indelével do Arcada, pois foi ali que o seu colega e padrinho de casamento, Alberto Miranda, lhe pagou a boda, a qual consistiu num galão a cada um e bolos, conforme revelou.

Entretanto, com o passar do tempo, aos lavradores veio juntar-se uma corte de gente ligada ao mundo dos touros e ao marialvismo rural, composta por ganadeiros, toureiros e aprendizes, moços de forcados, apoderados, equitadores, aficionados e professores e alunos da Escola de Regentes Agrícolas. Com a subida do Lusitano à I Divisão em 1952 a fama do Café chegou a Lisboa. Os adeptos do Sporting, do Benfica e do Belenenses, do Vitória de Setúbal e do Barreirense, que aos milhares se deslocavam a Évora para apoiar as suas equipas, conheceram-no, apreciaram-no e dele fizeram grande propaganda na capital e arredores.

Ora, na cidade laneira também assim acontecia com o Sporting da Covilhã, e, na mesma altura, jogavam na I Divisão Nacional (hoje I Liga) ambos os clubes (Lusitano de Évora e Sporting da Covilhã: 1952/53 a 1956/57, ininterruptamente, e, depois, de 1958/59 a 1961/62).

Poderíamos ainda falar n’A Brasileira – lembram-se do slogan “O melhore café é o da Brasileira? – que esteve encerrado no Porto durante muito tempo. Inaugurado em 1903 passou por convulsões. Novamente ostenta o nome A Brasileira, e novamente voltou às origens.

O espaço não o permite pois gostaria de ainda poder falar no Lloyd’s Coffee House, de Londres, onde se iniciou o seguro marítimo e a génese, ou um dos fortes hábitos de tomar um café, juntamente com a concretização de negócios.

E, regressando ao nosso País, depois do Terramoto de 1755, em Lisboa, foram instalados em novos edifícios no Terreiro do Paço, no dia 1 de janeiro de 1769, a Casa dos Seguros juntamente com a Junta do Comércio, a Aula do Comércio, a Mesa do Bem-Comum dos Mercadores, a Assembleia dos Negociantes e a Casa do Café.

Os interessados sobre esta interessante vertente histórica sobre os cafés ligados à vida dos negócios poderão encontrá-la em livro já editado e a ser apresentado no dia 8 de setembro.

(In "Notícias da Covilhã", de 12-07-2018)


10 de julho de 2018

In "fórum Covilhã", de 10-07-2018



OS MAUS DA FITA


Lembram-se dos tempos dos filmes de “Charlot”, aquele vagabundo trapalhão, de calças largas, sapatos tortos, bengala e bigode aparado (o britânico Charles Spencer Chaplin), que nos deliciavam com frequência, no final da década de 50 e início da de 60 do século passado?

Pois era o tempo do cinema mudo em que os filmes tinham sempre uma personagem que dava o corpo a todas as maldades. O cinema cresceu, perdeu esta faceta ingénua das coisas, mas a expressão ficou sempre para designar os vilões, na personificação de todo o mal.

Vem o tema a propósito duma controvérsia gerada em abril passado sobre o Museu das Descobertas, que Fernando Medina, Presidente da Câmara de Lisboa, prometeu levar por diante aquando da sua campanha para a presidência da mesma.

Só que não há concordância com aquele nome por um grupo de mais de cem académicos, numa carta publicada pelo Expresso, vindo a crescer as vozes contrárias, referindo que, para os não europeus, a ideia de que foram “descobertos” é problemática: “Ter-se-ão os povos africanos, asiáticos e americanos, de histórias milenares, sentido ‘descobertos’ pelos portugueses?”

A face dos maus da fita vem depois de o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em visita de abril de 2017 efetuada ao Senegal, na ilha de Gorée, antigo entreposto nas rotas atlânticas do tráfico de escravos, “não ter reconhecido a longa e sinuosa história da responsabilidade portuguesa no comércio e escravização de africanos, nem as outras formas de opressão que em nome do país foram praticadas e legalmente sustentadas nas colónias africanas até à extinção do regime colonial português em 1974/75”. As declarações do Presidente português reavivaram o branqueamento da opressão colonial, cujo projeto colonial português era visto como “missão civilizadora”.

Embora o Presidente da República tenha dito que Portugal reconheceu injustiça da escravatura quando a aboliu em 1761, pelo Marquês de Pombal, e depois alargámos essa abolição mais tarde, no século XIX, não pediu perdão pela escravatura, como já o havia feito em 1992, o Papa São João Paulo II. Curiosidade é que à Ilha de Gorée foram os navegadores portugueses os primeiros a chegar em 1444, à qual deram o nome de Ilha da Palma. Calcula-se que pelo menos 12 milhões de escravos africanos tenham sido capturados e retirados do continente, ao longo do triste período do comércio negreiro.

Historiadores dos EUA dizem que Portugal deve pedir desculpa por tráfico de escravos, focando esse pedido de desculpas como reconhecimento das consequências, terminando com a criação de um museu ou de um centro de investigação. É que, segundo dizem, embora não ajudassem  os 5,8 milhões de africanos tornados escravos e embarcados em navios com a bandeira de Portugal, nem tão-pouco aqueles que foram mortos em guerras causadas por tráfico de escravos, e por aqueles que sofreram há centenas de anos, seria, contudo, um passo em frente para melhorar a relação hoje em dia entre pessoas com cores diferentes.

Entretanto, Matilde Sousa Franco, vem dizer que há quase quatro décadas defende a criação deste museu com o nome de Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, e não Museu das Descobertas, no nosso país, em que Portugal foi autor não só da primeira Globalização como, no século XXI, continua a destacar-se como “pioneiro” no diálogo intercultural.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os índios descobriram que havia outras pessoas sem serem eles. Assim, o historiador João Paulo Oliveira e Costa considera que a designação Museu dos Descobrimentos seria inadequada. “O processo dos Descobrimentos é historicamente curto, dura só até meados do século XVI, deixando assim de fora 90% do que foi a Expansão portuguesa, com os aspetos mais negros da Expansão em que está previsto um núcleo dedicado à escravatura”.

Os argumentos a favor dos termos “Descobrimentos”, “Descobertas” ou “Expansão” foram objeto de substituição apresentada como o espaço museológico vir a chamar-se “A Viagem”. O que é certo e verdade é que desde D. João V, pelo menos, que Portugal se apresenta ao mundo como país dos Descobrimentos.

Para muitos estão ainda em causa alguns dos aspetos mais negros da Expansão, e em resposta a toda a controvérsia, António Costa disse que “não temos de ter uma relação complexada com os Descobrimentos. É preciso é ‘descolonizar os Descobrimentos’”. É que também a escravatura “faz parte da nossa História e não pode, não tem como e não deve ser ignorada”.

Outra forma de denominar o futuro museu é Museu Portugal Global, na opinião de outros historiadores, porque Portugal é dos poucos países do Mundo que de forma decisiva contribuíram para a História da Humanidade. Tal aconteceu quando, na expressão de Camões, demos novos mundos ao Mundo.

O ilustre pensador Eduardo Lourenço declarou então que se não vê necessidade de “crucificar” o passado de Portugal, independentemente das consequências negativas, como a escravidão, pois que as descobertas tiveram na génese uma motivação “louvável” e quando tantos países da Europa cometeram “crueldades” muito maiores. “Fomos os mais pacíficos, dos povos do sul da Europa”.

Já Rui Tavares, in Público, refere que “quem era escravo em Portugal continuou a sê-lo e, pior ainda, continuou a gerar filhos escravos, até que o Marquês de Pombal publicou em 1773 uma ‘lei do ventre livre’ segundo a qual os filhos e filhas das escravas nasceriam livres.”

A abolição da escravatura em toda a jurisdição portuguesa verificou-se em 29 de abril de 1878, ou seja, há 140 anos, sendo certo que em 1930 ainda havia em Lisboa gente que tinha nascido escrava.

Sobre este assunto muito haveria que dizer, mas não cabe neste espaço, pelo que oportunamente surgirá em livro editado, a ser apresentado em 8 de setembro.

(In "fórum Covilhã", de 10-10-2018)

24 de junho de 2018

O DOCUMENTO ANTIGO: UMA OUTRA FORMA DE VER OS SEGUROS



O meu livro acima titulado vai ser apresentado no dia 8 de setembro no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, pelas 15 horas.

Trata-se de um trabalho de 888 páginas, romanceado, que conta as origens e toda a História do Seguro deste a Antiguidade até finais do Século XVII, na sua I Parte; e desde os Primórdios do Seguro em Portugal até aos dias de hoje, na II Parte.

É frequentemente intervalado com partes romanceadas em ficcionadas tertúlias de lugares comuns, reais, e que integram personagens reais geralmente covilhanenses e de ficção, desde Valbom, Gondomar, Porto, Leiria, Algarve, Covilhã, Castelo Branco e Lisboa, falando também, no seu contexto, de figuras e eventos da região.

O prefácio é do Dr. José António de Sousa e o livro será apresentado pelo atual CEO e Administrador da Liberty Seguros em Portugal, Dr. Rogério Bicho.





João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

13 de junho de 2018

NO EMARANHAR DE IDEIAS


São os telejornais, são as notícias em papel, são as inúmeras online que nos fustigam diariamente a cabeça. 

A prudência revela agora falta de ponderação. Foi assim substituída pela ousada exteriorização da ingenuidade, qual pacovice.

Assistimos constantemente às polémicas no seio dos senhores do futebol, com as suas espertezas arrivistas. E não há quem os tire de lá para fora porque os interesses instalados subsistem. Corroem o que de bom existia:  a salutar distração, a amizade clubística, o encontro de ideias, a vigorosa disputa no campo dentro do espírito Mens sana in corpore sano, lema agora substituído por “muitos milhões para as gestões de aldrabões”.

Ditadores e destruidores por um lado, com cenas de terror nos locais de trabalho; outros envoltos em acusações de vouchers, Operação Lex, E-Toupeira, é indubitável que assim cada vez mais se contribui para a apatia ao desporto e a ausência dos campos de futebol.

Nesta pandemia do futebol, parece que tudo serve de pretexto para encher televisões e as redes sociais.

As escassas notícias para além do futebol que ainda conseguem fazer-se ouvir são quase dissipadas. A fronteira que desapareceu entre canais noticiosos e desportivos tornou-se uma autêntica competição para ver quem mais fala da bola.

Recorde-se o que sucedeu com a conferência de imprensa de Bruno de Carvalho, com todos os canais noticiosos, durante largo tempo, à mesma hora, em direto, a ouvir “Sua Excelência”, que mais parecia o Papa ou Marcelo Rebelo de Sousa.

É por isso que José Pacheco Pereira, in Público de 9 de junho, diz que “o futebol é a coisa mais parecida com a máfia que existe em Portugal – ou melhor, é a nossa máfia lusitana”.

Para além-fronteiras temos Emmanuel Macron com a sua preocupação contra as fake news, a colocar os jornalistas em xeque. Arrancou assim em França o debate sobre as propostas de lei do Presidente para travar a propagação de informação manipulada, com a oposição a dizer que a liberdade de imprensa pode estar em risco. Terá servido de exemplo o seu homólogo americano Donald Trump.

Já na Irlanda do Norte tem a Amnistia Internacional a apoiar a campanha para mudar a lei do aborto que a considera “incompatível” com os direitos humanos. E por cá, neste País de brandos costumes, mas de modernos padrões de humanismo, não há interesse em transpor na mesma ideia, a anulação dessa lei? Certamente por isso a preocupação pela redução da natalidade não é assim tão evidente como os governantes apregoam.

Valha-nos ao menos não ter sido aprovada a lei a favor da eutanásia, com grande estranheza do voto contra do Partido Comunista.

Já agora que falei de “brandos costumes”, este mito criado pelo Estado Novo, e mais tarde reforçado pelo ex-primeiro-ministro almirante Pinheiro de Azevedo, no “Verão Quente” de 1975, quando, durante o discurso que proferiu na manifestação do Terreiro do Paço de apoio ao seu Governo, um petardo rebentou no meio dos manifestantes, e, no meio de gritos, correria, fumo por cima da multidão e algumas chamas, o almirante sem medo clamava: “É só fumaça”, “O povo é sereno”, a História e o próprio jornalismo têm desfeito este mito mostrando que desde os tempos longínquos que os portugueses praticaram atos e crimes horrendos, da Monarquia à República.

Só não se compreende por que é que sendo a corrupção o principal problema do país, os dados oficiais mostram que o número de processos sobre este flagelo é diminuto quando comparado com a perceção da corrupção obtida através dos media.

Deve haver milhões de barris a abarrotar de euros para os funcionários públicos, para os professores e polícias, que detêm, estes dois últimos, mais de duas dezenas de sindicatos, cada classe.

Razão tem João Miguel Tavares, in Público de 7 e 9 de junho, de contestar as progressões automáticas das carreiras dos professores, mantendo privilégios que “têm aos poucos vindo a roubar à profissão o prestígio, a autoridade e a simpatia que ela deveria ter junto da comunidade que é suposto servir”, tendo em conta que a progressão está estruturada em torno do tempo de serviço, daí o conflito entre o Governo e sindicatos. Isto tão só neste contexto de os professores aceitarem que bons e maus tenham progressões semelhantes. É certo que no meio disto há injustiças, com uns “escandalosamente mal pagos; outros escandalosamente bem pagos”.

Entretanto, o resultado da avaliação dos alunos foi desastroso, de que alguns professores são co-responsáveis. Em Matemática, o insucesso é generalizado: só 10% dos alunos conseguiram calcular a área de um polígono que envolvia a área de dois triângulos e dois retângulos. Setenta e dois por cento dos estudantes do 5.º ano não conseguira identificar o rio Mondego, e outras coisas mais.

Isto é a generalidade do nosso país, mas, como toda a regra tem exceção, aí vemos a Universidade da Beira Interior orgulhosamente a manter-se dentro das melhores 150 universidades do mundo, com menos de 50 primaveras, contra ventos e marés da injustiça que o Governo à mesma teima em manter o “subfinanciamento crónico”.
(In "Notícias da Covilhã", de 14-06-2018)



12 de junho de 2018

OS “MORTOS” QUE AINDA VIVEM


Não me estou a referir, como crente, à vida além-túmulo. Não estou a fazer referência à memória dos que partiram e que estão vivos na perenidade das nossas mentes, enquanto viventes deste planeta.

Não tenho a pretensão de fazer reviver a lenda de D. Sebastião, naquela que fora a falta de certezas sobre a sua real morte, o que na altura redundou desesperadamente na esperança de que o rei pudesse retornar ao trono de Portugal, numa manhã de nevoeiro. Aceito, contudo, que o covilhanense Aires Teles de Meneses, Alcaide-mor da Covilhã que serviu na Índia e acompanhou posteriormente D. Sebastião, na Batalha de Alcácer Quibir, onde ficou prisioneiro, tivesse sido resgatado e regressado à Covilhã, encontrando-se sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Mas também não posso deixar de manifestar a minha repulsa pelo facto de na altura em que escrevo esta crónica, tivesse sido objeto de um ato provocado por um vivo mas morto de espírito, aquando duma ação solidária de transporte de bens alimentícios do Banco Alimentar para uma instituição de Caridade, conjuntamente com mais dois colegas, ao ser abordado rispidamente e fora da habitual educação dos seus camaradas, polícias, com ar de excessiva autoridade para se fazer notar publicamente, quando terminávamos em correria o nosso trabalho voluntário, com a anuência e compreensão de dois ou três condutores à nossa retaguarda, que aguardavam com compreensão o términus do nosso trabalho. É que aquele vivo, mas morto de imaginação, certamente estaria com o estômago bem satisfeito enquanto nós, voluntariamente, procurávamos ir ao encontro de estômagos vazios. Ao invés desta sua conduta, já outros seus colegas, em situações similares, procuraram ajudar-nos na solução do trânsito.

No Público de 3 de junho, era dada a notícia de que o piloto russo desaparecido há 30 anos no Afeganistão, dado como morto, encontra-se ainda vivo e pretende regressar a casa. A aeronave havia sido derrubada durante a intervenção das tropas da ex-URSS no país, em 1987. É um facto que, por enquanto, não se sabe exatamente por que é que não deu sinais de vida durante estes anos. É, indubitavelmente, estranho!

Sobre os mortos da Primeira Grande Guerra e, depois da década de sessenta, no que diz respeito aos antigos Combatentes do Ultramar, houve casos insólitos de indivíduos dados como mortos e que, mais tarde, surgiram vivos. Recordo numa reportagem dum dos canais televisivos, um antigo combatente, numa das terras deste Portugal, a reclamar que ele estava ali vivo, era ele mesmo e não o que constava com o seu nome e datas de nascimento e falecimento,  na tabuleta duma sepultura que indicava. Erros da história. E os problemas com a rejeição das suas famílias, algumas já tendo reconstituído as mesmas com outros parceiros?!

Tenho um amigo que integra o nosso grupo de casais que se reúne frequentemente. Conforme contei em tempos, é um outro dos que fora dado como morto, mas que depois se verificou estar vivo. Aquando dum acidente de viação conjuntamente com outros colegas que se faziam transportar na mesma viatura, durante uma deslocação no tempo do serviço militar obrigatório, um grave acidente era noticiado nos jornais sobre a situação de três feridos graves e um morto, que era este nosso amigo. Já se encontrava na morgue para ser autopsiado quando o funcionário da mesma que ia recolher o considerado “cadáver” lhe vê cair o braço da mesa de pedra onde se encontrava depositado, dando sinal de vida. Afinal, descuidadamente, não havia um morto. O suposto morto estava vivo e é hoje um grande companheiro na nossa amizade.

Há tempos também nos foi dada indicação de uma pessoa que havia falecido. Todas as indicações recaiam nesse indivíduo. Qual o meu espanto quando consultava a necrologia num dos locais habituais, já próximo da noite, e, olhando para o lado, vejo essa pessoa, supostamente a encontrar na necrologia, sentada numas escadas, de telemóvel na mão…

Há, de facto, situações estranhas, mas sempre é bom o grito de alegria pelos vivos que “deixaram” de estar mortos.

É pena que hoje, por este nosso país, ainda nos deparemos não com mortos que felizmente “ressuscitaram”, só tendo surgido o acontecimento por lapsos profissionais ou de outra vertente qualquer, mas sim, sem surpresa a existência de muitos mortos-vivos.

(In "fórum Covilhã", de 12-06-2018)

1 de junho de 2018

In Quinzenário "O Olhanense", de 01-06-2018


UMA HONRA COLABORAR HÁ 25 ANOS COM O JORNAL “O OLHANENSE”


Por vezes as várias ocupações em trabalhos culturais que estão em fase carente e de alguma pressão para o seu término não me permitem olhar com uma atenção mais cuidada para os periódicos onde tenho o privilégio de poder opinar, como é o caso deste excelente jornal, superiormente dirigido por dois Amigos: o seu Diretor José Isidoro Silva Sousa e o Diretor Adjunto Mário Proença.

Por isso só hoje endereço os meus parabéns, não só ao Sporting Clube Olhanense pelas suas bonitas 106 primaveras, como também ao Jornal O Olhanense pelos seus 55 anos de vida plena de conteúdos que fazem inveja a muitas outras publicações análogas.

Como é que este serrano, nascido há 72 anos numa aldeia do concelho da Covilhã teve contacto e se inseriu, como “colaborador permanente” no Jornal O Olhanense?

Esse facto devo-o a um Amigo, que  não cheguei a conhecer pessoalmente e que já partiu para o outro lado da vida, Augusto Ramos Teixeira, quando, em 1993, me contactou telefonicamente a propósito dum pedido que coloquei nos jornais desportivos nacionais para a tentativa de localizar Velhas Glória do Sporting Clube da Covilhã, o que deu origem ao meu segundo livro sobre a história do clube serrano, donde viriam a surgir mais duas obras sobre o mesmo, e a prefaciar e apresentar a quinta de um autor Amigo, no pretérito ano.

Daí que, tendo conhecimento da existência deste quinzenário, o Amigo Augusto Teixeira me enviou um exemplar e o contacto com o falecido Diretor Honorário a Título Póstumo, Herculano Valente (ainda não era diretor) onde passei a, esporadicamente, ver publicados alguns dos textos enviados, e algumas referências à minha pessoa, na bondade daquele Homem.

Posteriormente, quando tive conhecimento do seu insólito falecimento, e que pensaria vir a terminar aqui as minhas linhas opinativas e informativas, fui agarrado pela mão incentivadora de Mário Proença para a continuidade, o que faço, com muita alegria, até aos dias de hoje, tanto mais que, a partir do momento em que este grande Senhor tomou aos ombros a responsabilidade do quinzenário, o que é certo e verdade é que o Jornal O Olhanense subiu muitos degraus na sua melhoria, o que dá gosto colaborar com o mesmo, principalmente para quem conhece os meandros de manter um periódico a circular regularmente.

Depois, o seu Diretor e meu prezado Amigo, José Isidoro Sousa, é o único que conheci pessoalmente num jantar de aniversário do meu clube serrano, que, casualmente, ficou com a esposa na minha mesa. Mais tarde conheci o Senhor Júlio Favinha.

Como desde os meus 17 anos tive contacto de escrever nos jornais, inclusive num boletim militar enquanto estive no serviço militar obrigatório, e, depois, mais assiduamente desde que me aposentei da minha atividade profissional, com regularidade em dois semanários e, trimestralmente, no órgão do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, de que fui subdiretor, geraram-se ainda mais raízes ligadas à escrita.

Em 2014 foi-me solicitado por um especial Amigo, CEO e Administrador da empresa que representei durante 40 anos, para escrever a história da atividade que então exercia, que é ancestral, levando a minha aventura de aceitar tal tarefa a vê-la agora já na mão do editor, romanceada, tendo passado algures pelo Algarve, pelo que também tem um bocadinho da colaboração do Amigo Mário Proença, a quem pedi algumas informações.

E é nesta veia de pensamento que mantenho acesa a chama da continuidade de transpor para o papel, a expressão do que sinto, do que penso, do que me rodeia, norteado sempre pela minha linha de pensamento, mas também na aceitação da opinião democrática dos outros.

E é neste contexto, que se consegue viajar pelo Portugal de todos nós, e pelo Mundo, através dos órgãos de comunicação social.

(In "O Olhanense", de 01-06-2018)



30 de maio de 2018

A USURA E A IGREJA


Embora na origem usura signifique juro, o seu conceito jurídico é mais alargado. Em direito, a usura “é um crime cometido por quem, com intuito de obter um benefício patrimonial, conseguir que outra pessoa se obrigue a conceder-lhe uma vantagem pecuniária desajustada à contraprestação, aproveitando-se da necessidade, inexperiência, incapacidade ou dependência dessa pessoa”.

Para quê estar a falar, mais uma vez, de corrupção, de fraude, de roubo ou de furto? Deixemos estes substantivos descansados, estas quatro palavras, das mais referidas na comunicação social, num fartar desta linguagem, que vai da política ao futebol, do ensino à religião, num etc. alongado. Deixemos esta desgraça! Que tal desgraça não passa de um euromilhões para muitos, como nos temos vindo a aperceber. Até parece já não se poder dar sentido a outras formas honesta de vivermos neste planeta.

São casos e mais casos só no nosso país, que não acontecem somente nas grandes urbes, mas também no nosso meio, no nosso distrito, no nosso concelho, na nossa cidade.

Mas vamos ao assunto que dá força ao título desta crónica.

O combate da usura não foi uma luta exclusiva da Igreja, mas as autoridades católicas foram, sem dúvida, as que mais persistentemente se opuseram à usura, que foi a maior preocupação da Igreja medieval no domínio económico.

A condenação da usura prolongou-se por muitos séculos. Ainda hoje, embora raramente, surgem iniciativas visando limitar juros e lucros.

A preocupação muito antiga de proibir ou limitar a remuneração (juro) do mutuante explica-se pela natureza particular dos empréstimos em tempos mais recuados, geralmente destinados a fazer face aos gastos entre duas colheitas. Se o juro não fosse limitado, os camponeses ficavam à mercê dos usurários que podiam, com as suas exigências, levar os mutuários ao extremo de se venderem como escravos para pagar dívidas.

A legitimidade ou ilegitimidade do juro é, portanto, assunto que vem desde a Antiguidade e que teve, aos longo dos séculos, oscilações e posições muito diferenciadas.

Os filósofos gregos começaram por se manifestar contra o juro. Aristófanes desaprova-o, Platão (428 a 347 a. C.) e Aristóteles (384 a 322 a. C.) consideram o juro contrário à natureza das coisas.

Os Romanos tomaram posições idênticas. Catão (234 a 149 a. C.) equipara o juro ao homicídio, Séneca (3 a. C. a 65) e Plutarco (35 a 120) condenaram igualmente o juro.

Mas as posições dos filósofos nem sempre foram as definidas nas leis ou as seguidas na prática corrente. Mais tarde, a Lei das Doze Tábuas (449 – 479 a. C.) limitou o juro máximo dos empréstimos a 12% ao ano. É que houve mesmo épocas em que os especuladores romanos chegaram a cobrar juros de 48% ao ano. Marcus Julius Brutus (84 a 42 a. C.), líder político militar romano, um dos assassinos de Júlio César, foi um dos prestamistas que emprestava a este juro.

Foi a Igreja que moveu uma luta mais persistente e mais continuada contra a usura. Para a Igreja, usura era toda a operação que implicava o pagamento de um juro. Assim sendo, o comércio e a banca, intimamente relacionados com o juro, eram atividades interditas, ficando os mercadores e os banqueiros sujeitos à excomunhão, o que na Idade Média era uma penalização muito mais temida pelos cristãos do que seria mais tarde.

A Igreja baseava a sua posição nas Escrituras, tando do Antigo como do Novo Testamento. Dos textos do Antigo Testamento: no Êxodo, cap. XXII,25; no Levítico, cap. XXV, 35 a 37; no Deuteronómio, cap. XXIII, 19 e 20. No Novo Testamento: Evangelho de S. Lucas, cap. VI, 34-35. Até ao século IV, os Doutores e Chefes da Igreja mantêm esta posição, considerando o juro contrário à misericórdia e ao humanismo. Daí em diante a situação vai mudar e o que começa a ser condenação nos Concílios de Arles (314), Niceia (325) e Elvira (305 ou 306) é apenas um juro cobrado por clérigos. Só a partir do Terceiro Concílio de Latrão (1170) e de Lyon (1274) é que a repreensão seria também aplicada aos leigos. A Igreja partia de dois pressupostos: um ligado à noção de tempo e outro ligado à profissão de comerciante.

Quanto ao primeiro, considerava a Igreja que sendo o tempo pertença de Deus não era suscetível de ser vendido. E como o juro era associado à ideia de venda do tempo, tinha de ser condenado. O segundo pressuposto estava relacionado com o conceito em que eram tidos os comerciantes. Os pensadores cristãos consideravam o comércio como associado à fraude e à avareza, causador da luxúria e potencial fonte de corrupção e de deterioração das boas maneiras e das virtudes, fonte de contacto com mercadores e estrangeiros.

Os jurisconsultos da época terão especulado acerca dos contornos do conceito de usura, permitindo depois chegar às soluções que justificaram uma flexibilização das posições da Igreja. Com uma nova expansão económica e, com ela, um maior desenvolvimento do comércio, começam a surgir interrogações quanto à doutrina da Igreja nesta matéria e fazem-se ouvir as primeiras vozes discordantes. Para essa flexibilização contribuíram também as opiniões de São Tomás de Aquino quanto à usura e aos comerciantes. O motivo que mais determinou a mudança de posições da Igreja foi que os mercadores a financiavam largamente quando disso havia necessidade. É assim que, a partir de determinada altura, vemos os mercadores a serem considerados pela Igreja como bons cristãos e a serem dispensados da Comunhão, do descanso dominical e do jejum, por imperativos de profissão.

A Igreja acabou, de facto, por tolerar a usura e mais tarde admiti-la desde que não houvesse excessos. A perseguição da usura ainda se estendeu por muitos anos.

(In "Notícias da Covilhã", de 31-05-2018)











8 de maio de 2018

“RIPA NA RAPAQUECA”


Neste mês de maio do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dezoito, como se escrevia nas atas municipais de outrora, já para além da Idade da Pedra e dos Metais, deu-me na tola de evocar expressões que, usadas pela minha avó materna, que partiu há muito quase centenária (o que hoje já não é novidade, mas naqueles tempos era), fazem momentos de humor entre amigos, quando sentados à mesa, principalmente de lautos apetites.
- “Anda côme, que isto não está ruim!”. Dizia a avó Rita. E, pelas bandas da Pousadinha algumas vezes a acompanhei ao curral (que isto de pocilga é mais para os tempos modernos) para “botar a vianda aos bácoros”, com o “Vaidoso” e o “Malhado” que eram também dos nossos melhores amigos, mas já esticaram o pernil, salvo seja, as patas, a contentarem-se com os dias de sol, descansando à sombra duma figueira, enquanto as galinhas e os marrecos aproveitavam o farelo que lhes davam para além do milho.  Cinco mil réis talvez não custasse um bácoro (e era preciso ver se não tinha grainha) mas o dinheiro não dava para tudo e era preciso pagar a décima, quando alguns também arrotavam com a taxa militar porque haviam ficado livres da tropa. Livraram-se, sim, porque até podiam ir parar a algum quartel longe da famelga que não fosse o Batalhão de Caçadores 2 da Covilhã, para já não falar dos desgraçados que foram obrigados a embarcar para a Índia, com Goa muito falada.
Eram os anos 50 da nossa era, mas do outro século. E entre “bota aí mais uma pinga que a comida não está somenos”, que isto de comeres e beberes é que nos dão vida, porque a própria vida são dois dias, havia por vezes aquele grito:
- “Esse bandido do Salazar é que é o culpado!...”. Lá levava um raspanete o atrevidote, que, um pouco mais avinagrado, lançava o bode expiatório da miserável féria que não dava sequer para comprar o milho painço para as pombas, quando até aos coelhos lhes chegou a malina.
E dizia o avisador cauteloso: - “Tu não sabes que por ter morrido o Carmona e lá estar o Craveiro Lopes, ainda há por aí muitos bufos?!... Ainda vais parar às grades!”
É que isto também não é para todos terem vivido em dois séculos.
E agora, já que os herdeiros bateram a bota, coube-nos a desgraça de termos de limpar o pinhal.
Mas, Ripa na Rapaqueca, porque fez agora treze anos, no dia 6 de maio, que faleceu o jornalista e locutor desportivo Jorge Perestrelo. Uma das figuras do jornalismo desportivo mais importantes da rádio portuguesa. São dele esta expressão que se tornou célebre, assim como “É disto que o meu povo gosta”, e “O que é isso, ó meu?” Relatou dois mil e um golos à boleia de gritos, de entusiasmo e de um ritmo que dava o dom de cativar todo e qualquer ouvido. Era aí, no golo, no momento em que o futebol celebra, que mais encantava. Como fez em 2004, no Estádio da Luz, quando viu Ricardo, um guarda-redes, a marcar a outro, ao da Inglaterra, quando a Seleção Nacional ganhou nos penáltis nos quartos de final do Europeu.
Jorge Perestrelo era assim mesmo: vivia e relatava tudo de alma cheia, como se de um adepto se tratasse. Fosse qual fosse a equipa. No dia anterior ao de se lhe calar definitivamente a sua voz, ainda estava de headphones na cabeça e de microfone na mão, a relatar, sem saber, o último golo da sua vida, o que Miguel Garcia marcou em Alkmaar, na Holanda, que apurou no último minuto o Sporting para a final da Taça UEFA. Aí, sim, não se cansou de gritar “Golo!”, antes de dizer “Te amo Sporting!”.
Usava a voz como um pincel para colorir o que via. Foi na SIC e na TSF onde passou largos anos da sua carreira, que celebrizou expressões como as atrás referidas. Quando via no relvado alguém a falhar um golo feito ou a fazer algum disparate, era comum questionar: “O que é isso ó meu?”, a que já aludimos.
Tinha um estilo emocionante, vibrante e muito alegre. A maneira de narrar o futebol, as palavras que inventou para descrever toda a emoção no futebol. E ainda se lhe conhecia mais esta expressão: “Eu com a minha barriguinha chegava e faturava”. Foram inúmeras as expressões evidenciando o seu fulgor.
Do 25 de Abril, do 1º de Maio e dos 50 anos de Maio de 68 já muito se falou. Voltamo-nos para política? Sobre os fantasmas do PS? Os venerandos José Sócrates, Manuel Pinho e quejandos que também participam na festa dos espertos?
Agora até temos a Coreia do Norte com a Coreia do Sul a procurarem a paz! Felizmente!... Que seja uma realidade!...
Mas desta vez não estou disposto a falar destes temas. Bonda! – Como dizia a minha avó, e Ripa na Rapaqueca!... como se expressava Jorge Perestrelo.
Entretanto, não posso deixar de me congratular com o facto do Papa Francisco ter nomeado bispo de Viseu, o padre António Luciano dos Santos Costa, que chegou a paroquiar na Covilhã e a exercer outras funções, pelo que formulo os melhores votos de sucessos pastorais, com muita pena de não passar a ser ele o Bispo da minha Diocese – a Guarda. O meu abraço amigo.




(In "fórum Covilhã", de 08-05-2018)

18 de abril de 2018

A FORÇA DE UM PERIÓDICO


É indubitável que a dinâmica que transmite a força anímica para o surgimento de quaisquer páginas de um periódico, seja na sua vertente em papel ou pela via online, tem que depender de um ser humano, e, esse, é obviamente uma pessoa, mas uma pessoa que tem que ter alma. Essa pessoa é vista, obviamente, no seu plural.
O meu “batismo” a escrever num jornal reporta-se ao ano de 1964, ou seja, há 54 anos.
Já em 1972, após ter terminado o serviço militar obrigatório, um meu artigo num órgão da comunicação social regional levou ao sussurro em algumas instituições públicas, o que, nos tempos da outra senhora, era de certo modo arriscado. Mas o jornal deixou passar. E dos meus documentos extraídos da Torre do Tombo tão só consta o carimbo da P.I.D.E. com a indicação “Nos registos desta Polícia nada consta em seu desabono”.
Se é necessário objetar sobre o poder político, nomeadamente o autárquico, há os órgãos próprios para o fazer, que não este. Já o fiz quando oportuno, não só aquando das agitações dos ventos predominantes da última década, como também em 1978.
Mas na vertente militar, mais próxima deste periódico, a minha intervenção foi escrever no “Fronteiros da Beira – Firme como Rochas”, órgão cultural e recreativo do Regimento de Infantaria 12, da Guarda, em 1971. E, da já numerosa participação em mais de uma dezena de periódicos, também a alusão, com fotos, em agosto de 1993, com uma referência que me fizeram no jornal espanhol “El Adelanto”, sobre uma obra publicada.
É com base neste preâmbulo, afastando dele qualquer intenção egocentrista, que me leva a ter aquela vontade indómita na colaboração d’O Combatente da Estrela, porquanto, ao longo do seu percurso, sempre teve colaboradores com alma.
Não sendo fácil, há sempre estórias da história de vida de cada um, testemunhos verdadeiramente sentidos de muitos na sua passagem pelos tempos tenebrosos das Guerra nas Colónias, denominadas pelo antigo regime de Ultramar Português.
E não só, depois, também numa outra vertente cultural de outros temas apropriados, dando conta das atividades desenvolvidas, duma instituição em movimento, dum núcleo com alma.
Tendo estado presente no Fórum do Associativismo da Covilhã, no dia 17 de março, pode-se afirmar que entre as 248 agremiações que possui o Concelho, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes é um dos que inquestionavelmente merece o devido apoio financeiro face à sua obra.
Pena é que na Assembleia Geral dos Sócios realizada no dia 24 de março não tivesse havido possibilidade de ser encontrada uma lista para que os Corpos Sociais a eleger pudessem dar continuidade aos destinos desta prestigiosa Instituição, para o próximo biénio, esperando-se que essa situação possa ser encontrada já no próximo dia 14 de abril.
Foram as Contas e o Relatório do Conselho Fiscal aprovados, assim como também o Plano de Atividades previstas pela atual Direção para o ano 2018, embora este sujeito a alterações.
O Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes possui atualmente 820 sócios, entre Combatentes (732), Efetivos, Extraordinários e Apoiantes, registando 3 Beneméritos.
No ano transato participou em vários eventos evocativos dos Antigos Combatentes em várias localidades da região e teve ainda a sua participação, com cinco elementos e guião, no Aniversário da Liga dos Combatentes –  Aniversário do Armistício/Centenário da Grande Guerra na Evocação do fim da Guerra do Ultramar.
Por cá, ou seja, na Covilhã onde se encontra a sede do Núcleo, realizaram várias cerimónias, destacando-se: a Evocativa do Dia do Combatente, Dia de Finados, com a habitual Romagem ao Talhão da Covilhã (e também ao do Fundão), com toques gravados e deposição de coroa de flores.
Na solidariedade, para com os seus Camaradas antigos Combatentes, sócios carenciados, tem o Núcleo da Covilhã estado atento e prestado, dentro das suas possibilidades e no âmbito das caraterísticas de cada necessidade, ainda que revestidos alguns casos de excecionalidade, o seu incondicional apoio.
Mas não é tudo, porquanto no Programa de Cuidados de Saúde, o Núcleo da Covilhã é apoiado pelo CAMPS-BI, que tem um espaço na sede do próprio Núcleo. Para além de 39 sessões realizadas têm sido atendidos, de forma individual, de caráter psicológico perto de uma centena de indivíduos, e duas dezenas de caráter social. Para além de outras ações do CAMPS-BI, no seio do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, foram efetuadas sessões de grupo muito perto de centena e meia.
Depois também existe a parte lúdica e essencialmente cultural, destacando-se as visitas a Sevilha e Córdoba; ao Palácio de Belém e Revista no Casino Estoril; ao Porto ao Air Race Bull; ao Alto Minho – Braga – Castro Laboreiro – Arcos de Valdevez; Malafaia e Porto. Também uma edição anual que vem sendo continuada é a Feira de Trocas e Colecionismo da Covilhã.
Tal como de início falei, as páginas de um jornal dependem de humanos, que, impregnados daquela força anímica, terão que ter alma, para que possam brotar ideias que se convertam na atenção dos leitores, e não numa passagem transversal, ou num simples olhar para a capa e dum folhear desinteressado.
Assim também o Núcleo da Covilhã, na vertente da religiosidade, não tem esquecido todos quantos partiram para o outro lado da vida, para os crentes, naquele espírito de ter ainda presentes os camaradas eternamente ausentes, como as já referidas Romagens ao Cemitério.
E, para os que ainda se mantêm no número dos vivos, as Peregrinações a Fátima, quer de âmbito Nacional pela Liga (realizou duas), mas mormente através da inerente a este Núcleo que vai a caminho da XII Peregrinação.
Neste ano de 2018 já se realizou uma visita no concelho de Penacova para degustação da lampreia; ao museu de Vila Viçosa; e aos golfinhos, em Setúbal.
Também foi celebrado o 92.º Aniversário deste Núcleo, no dia 11 de março, com a presença do Secretário-Geral Nacional da Liga, Coronel Lucas Hilário. Foi aqui admitida a hipótese de se concretizar o almejado Centro de Apoio, sonho antigo, cujo Núcleo dispõe de projeto e de terreno atribuído pela Câmara já lá vão 19 anos. Pode-se prever a construção do Lar para 72 utentes e Centro de Dia (250), além de valências nas áreas de saúde e social, incluindo a nova sede do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes.
Este Núcleo, como já foi referido, em movimento, com alma, vai integrar também as comemorações do 100º Aniversário da participação da Covilhã, através do extinto Regimento de Infantaria 21, na Primeira Grande Guerra (1914-1918).
É também previsível que se concretize, ainda neste ano em curso, por parte da Câmara Municipal, a alteração ao Monumento dos Combatentes, conhecido como “Soldado Desconhecido”, pretendendo o Núcleo da Covilhã dar todo o apoio à edilidade covilhanense para as comemorações a levar a efeito durante o ano evocando o centenário do Armistício.
E ainda, no dia 23 de fevereiro foi a apresentação, na Biblioteca Municipal, do livro “Danos Colaterais”, do prof. José Eduardo Tendeiro, antigo combatente dos primeiros anos da Guerra do Ultramar, onde ressaltam facetas importantes romanceadas da sua vivência em teatro de guerra. A participação neste evento cultural foi de grande interesse para os participantes, para além de amigos do autor, também muitos antigos combatentes. O prof. Tendeiro é também um dos colaboradores, com alma, d’O Combatente da Estrela e d’O Combatente, da Liga dos Combatentes.
E nesta envolvente de espaços preenchidos, em várias vertentes em prol dos antigos combatentes, associados, e servindo a própria cidade covilhanense e seu concelho, e, porque não, a Liga dos Combatentes nacional, o Núcleo da Covilhã pode aplicar bem a frase, exortando, do poeta espanhol António Machado – “O caminho faz-se caminhando”. E, daí, as edições deste jornal continuarem a ser eco da alma dos seus Colaboradores.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 110, de abril/2018)


11 de abril de 2018

COMO TUDO SE PASSA


Poderíamos hoje estar a falar sobre efemérides, pois aconteceu há 50 anos a Primavera de Praga, com a Checoslováquia, então 8.ª potência industrial do mundo, a ser invadida pelas tropas russas, na noite de 20 para 21 de agosto de 1968. Foram entre 400 a 500 mil soldados do Pacto de Varsóvia a atravessarem a fronteira. Mas hoje, excetuando a Crimeia, e a ajuda aos seus apaniguados beligerantes, a Rússia opta por invadir por processos mais sofisticados, através da Internet.
Poderíamos estar a falar sobre o Maio de 68, com as greves estudantis em França, naquela expressão de “É proibido proibir”.
Poderíamos ainda estar a falar do assassinato de Martin Luther King, também há 50 anos, Nobel da Paz em 1964, conhecido como “Gandhi da América”, naquele fatídico dia 4 de abril de 1968, com o assassino a fugir para Portugal e a refugiar-se em Lisboa.
Assim, o ano de 1968 foi repleto de eventos importantes, entre eles invenções que mudaram o mundo, conflitos que quebraram barreiras e música que ficou para a História. Foram descobertas científicas, tecnológicas e avanços sociais e políticos que marcaram aquele ano. Vivia-se um clima internacional pesado devido à Guerra Fria entre a Rússia e os Estados Unidos. Além disso, também a Guerra do Vietname ainda estava a decorrer e a primeira aeronave Boeing 747 era lançada pela primeira vez. Um mundo bastante diferente daquele que conhecemos hoje.
De outros eventos ou memórias, referem-se alguns casos que se tomam de conhecimento no nosso País, nos dias que correm, depois de 44 anos do 25 de Abril.
Num ridículo de ganância, inveja ou de chico-espertismo, –  Que raio! – afinal o que se passa com o Sindicato da PSP? Sindicato?... Não!... São 16 sindicatos, segundo o Diário de Notícias, e 36 mil dias de folga para os 3680 dirigentes e delegados. “São os próprios sindicatos a dizer que ‘é uma vergonha’ o que se passa na polícia. Três sindicatos têm mais dirigentes que sócios”. Eles têm vários nomes. O primeiro a ser criado e o mais representativo é a Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), e, depois, há para todos os gostos: Vertical, Independente, Autónomo, Livre, Polícias do Porto, e uma mão cheia deles, que, por culpa governamental, não cria leis para disciplinar esta nova geringonça.
Segundo é referido, o sindicato mais recente – Organização Sindical dos Polícias –, nascido em fevereiro, conta com 459 dirigentes e delegados para 451 associados!... “É uma vergonha!” – Quem o diz é o presidente da ASPP.
Depois, claro, há falta de polícias em determinadas localidades; vemo-los aos pares em certas ruas, para quê, quando na rua de cima ou na de baixo não passa lá nenhum?
Os polícias vão comemorar o seu dia histórico do sindicalismo policial – os “Secos e Molhados” – Recordam-se? Tão só para rir, dos tempos cavaquistas.
Sentimo-nos mais seguros quando vemos polícias na rua, ou na estrada, e não nos gabinetes (esse lugar é para civis). Hoje têm mais urbanidade e cultura que noutros tempos, excetuando um ou outro caso que se refugia no uso da farda, para um excesso de autoridade. Entretanto, são mais humanos e menos polícias.
Outro caso que merece reparo são os distribuidores do correio na Covilhã, conhecidos como carteiros. De quando em vez, e isto reportando-nos aos últimos anos, com forte incidência no que está em curso, é um autêntico caos na distribuição, nesta cidade dos lanifícios e universitária, que deveria ser mais respeitada pelos homens que mais parecem convertidos na ignorância de não conhecerem o nome das ruas da cidade – e tão só nos reportando à Rua Mateus Fernandes – com cartas frequentemente a ser entregues em números de porta errados. Já foram apresentadas várias reclamações por escrito e pessoais, mas o problema persiste.
Parece vir a propósito, pois acabamos de ler no Jornal O Gaiato, de 31 de março de 2018. “Informamos que desde 2016 até ao presente, mais acentuadamente no ano de 2017, temos conhecimento que muita correspondência que nos é dirigida, é extraviada, segundo contacto posterior do Remetente. Apesar de, por várias vezes, o comunicarmos aos serviços competentes dos CTT, o problema persiste. Esta situação tem provocado algum desconforto às pessoas que nos escrevem e que, não obtendo resposta à sua correspondência, ficam alarmadas e preocupadas com o que fazer, principalmente quando enviaram um cheque como donativo”.
Esperemos que tudo se recomponha para bem de todos, mas de todos, porque todos necessitamos da boa prestação dum serviço, seja ele qual for.



(In "Notícias da Covilhã", de 12/04/2018)

10 de abril de 2018

A POLÍTICA E A COMUNICAÇÃO EM ABISMOS FACEBOOKIANOS


Há muito que se adivinhavam receios de manipulação de massas, no seio de algumas redes sociais, mais em evidência no Facebook, tanto quanto sub-repticiamente. Agora veio aquele a ter de levantar o véu do seu artifício.
A sua utilização ousada como forma de entretenimento e de discussão de ideias, aceitando mexer com emoções, deu azo a que a racionalidade fosse rara de eficácia.
O Facebook, criado em 2004 por Mark Zuckerberg, para ser uma plataforma de comunicação entre pessoas, face aos acontecimentos de que é acusado e que dos mesmos fizeram acontecer situações catastróficas no planeta, tornou-se na perfeição de uma ferramenta destinada a explorar medos, inseguranças e ódios. Tornou-se um “monstro”.
Ainda que Mark Zuckerberg seja um génio, talvez comparável aos matemáticos da formação da Teoria das Probabilidades, dos séculos XVII e XVIII: James Franklin, Ian Hacking, Philippe Picard, Blaise Pascal, Fermat, Huygens, Jacob Bernoulli, Nicolaus Bernoulli, Pierre Montmort, Abraham de Moivre ou Pierre-Simon Laplace, que também tiveram alguns desentendimentos, mas, paradoxalmente, a credibilidade cresceu neles, ao invés do que agora aconteceu com o fundador do Facebook que ultrapassou os limites dessa mesma credibilidade, é demasiado penoso para quem pensa que também os seus dados pessoais possam ter sido utilizados para fins que não autorizaria.
A comunicação social não deixa de registar todas as peripécias desta rede social e dos seus mentores:
Matteo Salvini, o populista italiano que venceu as eleições legislativas em 4 de março disse: “Obrigado a Deus pela Internet, obrigado a Deus pelas redes sociais, obrigado a Deus pelo Facebook”.
Brad Parscale, diretor de campanha de Donald Trump, disse em Lisboa, aproveitando a Web Summit: “Ganhámos as eleições no Facebook”.
No referendo pelo “Brexit” britânico, que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia é referida  “uma análise de sentimentos aos utilizadores no Facebook, a par de uma segmentação muito fina de informação capaz de manipular as emoções dos eleitores”.
O jornal britânico Observer confirma que o próprio Facebook sabia de tudo mas optou por tentar esconder os factos do grande público.
E é pela recolha de dados do Facebook, de tão extensa e apurada, que os mesmos acabaram por ser comprados pela Cambridge Analytica, que, nos estudos para promover a compra de publicidade na rede social, o próprio Facebook demonstrou como conseguia influenciar os votos em vários escrutínios.
Das investigações, tornadas públicas, apercebeu-se a forma como decorreu a manipulação sobre a candidatura de Hillary Clinton, e a intervenção da Rússia, decisiva na campanha eleitoral americana a favor de Donald Trump.
As acusações de que a empresa britânica Cambridge Analytica usou o Facebook para recolher dados de cerca de 50 milhões de utilizadores, sem estes saberem, obrigaram o fundador desta rede, depois de algum silêncio, ao pedido de desculpas. E, posteriormente, a fazer alterações para maior privacidade e não utilização abusiva dos dados pessoais. Chega, ou é como colocar a raposa a guardar as galinhas?
Deu para perceber que o Facebook tende a privilegiar as publicações mais comentadas e partilhadas, não utilizando a credibilidade como critério. É assim apontado como fator decisivo na disseminação de informação tendenciosa e falsa, fenómeno que ficou popularizado pela expressão fake news.
Na União Europeia, onde a informação digital é considerada um direito fundamental, o uso indevido dos dados da empresa já foi alvo de várias investigações e até multado o Facebook.
Segundo André Macedo, a uma entrevista do economista e professor catedrático Manuel Mira Godinho, à RTP 3, refere que “há 90 anos, Estaline disse aos escritores soviéticos que a força ideológica era mais importante do que a capacidade militar e pediu-lhes que se tornassem engenheiros da alma humana. Quase um século depois, a digitalização das nossas vidas abriu uma via rápida para os recantos mais escondidos. A alma humana tem hoje a porta escancarada, nunca revelámos tanto sobre as nossas vidas, os nossos gostos e preferências e, nem sequer nos apercebemos da devassa e dos riscos que corremos, como a compra de dados do Facebook para fins políticos”.
Num país onde há muitos tolos, como o nosso, compete ao Estado agir, com outras ferramentas, as que tiver à mão, para limitar o poder destas entidades que nos estão acima. E como ninguém gosta de passar por pateta, por este andar certamente a conveniência é deixar de perder tempo em locais onde é exatamente esse o papel que nos destinam.
Nos dias que correm, a privacidade, ainda que imperfeita, é uma utopia. Estamos sempre descobertos. Vejamos, por exemplo, a nível de Estado, o e-fatura, como tudo aquilo que o fisco se arroga de saber. E, no meio desta floresta de enigmas da privacidade, ainda há; para além dos verdadeiros pobres, que ainda existem, até de mais; os novos pobres, que são os ignorantes, os que vivem sem tempo para pensar, falando de mais no Facebook.
Por cá, nesta terra laboriosa, laneira e universitária, curiosamente já se sente o silêncio dos predadores do Facebook de outras alturas.


(In "Fórum Covilhã", de 10/04/2018)

14 de março de 2018

“O DOCUMENTO ANTIGO – UMA OUTRA FORMA DE VER OS SEGUROS”


É este o título que dei ao meu próximo livro, romanceado, a entregar ao editor até ao próximo mês de maio, fruto do convite feito, proveniente de uma forte amizade, pelo CEO e Administrador da Liberty Seguros, naquele célebre 13 de junho de 2014. Depois de muitas pesquisas e contactos, geradores do interesse não só dos profissionais da atividade, a qual deixei em 1 de setembro de 2012, mas também no emergir de novas amizades, vai surgir no âmbito do ineditismo que sempre votei às obras publicadas.
Consciente da aventura em que aceitei tal convite, uma vez que já existem variadíssimas obras congéneres, por autores consagrados, não deixou de me envolver naquele risco por que foi a minha atividade durante quatro décadas.
Entre a narrativa ficcional e a veracidade, remete para a realidade dos seguros deste a Antiguidade até ao final do Século XVII, numa primeira parte; e depois dos anos 70 até aos nossos dias, para a segunda parte.
O romance começa algures no Norte, para os lados de Valbom-Gondomar, dará continuidade na Covilhã e Fundão, Castelo Branco, Lisboa e Algarve.
E, agora fora do contexto da obra a publicar, porque amigos que vou encontrando se me dirigem desejosos de recordar facetas e acontecimentos do passado, não só da vivência dos lugares como de factos ocorridos e que já poucos recordam, vou tentar aqui trazer algumas reminiscências, sujeito a repetições de outras crónicas anteriores, quer neste periódico quer noutros onde as tivesse publicado.
O gosto pela história e demais eventos marcantes da sociedade portuguesa e do mundo, advém-me do tempo em que meu Pai nos dava conhecimento, ainda em criança, de algumas notícias dos jornais, geralmente da parte da manhã, de alguns acontecimentos vindos no Diário de Notícias ou n’ O Século, para já não falar nos extintos Novidades, A Voz ou Diário da Manhã, na Pousadinha, onde residíamos. Ainda ali não havia energia elétrica e, consequentemente, a inexistência de uma telefonia. Também a televisão só viria a nascer em Portugal em março de 1957, a preto e branco, de um só canal. Quem não tinha televisor em casa (que era impossível na Pousadinha), e eram muitos, ia para os cafés e outros locais públicos ver os programas da sua preferência. A leitura dos jornais, atrás referida, teria sempre de acontecer antes da entrada para a Biblioteca Municipal, na Covilhã, para onde ainda teria de palmilhar uns quilómetros, seu local de trabalho. O transporte nas então designadas camionetas da carreira, de José Nunes Correia & Filhos, Lda, não podia ser quotidianamente utilizado, por razões dos fracos recursos económicos, daqueles tempos salazaristas, mesmo pelos operários da indústria de lanifícios. Era daqueles tempos em que esses autocarros tinham umas grades em cima do teto para colocar os volumes maiores e, atrás, descia a grade de acesso, originando que a garotada se agarrasse às mesmas quando o autocarro partia, aproveitando uma breve boleia, breve porquanto o motorista logo que se apercebesse fazia sair o cobrador para afugentar a rapaziada atrevida.
Teria eu os meus seis anos, o segundo mais velho de um quinteto, todos nascidos na casa da Pousadinha, com o apoio da improvisada parteira, senhora Lucinda, que sempre que necessário a iam buscar à Fonte das Galinhas, na Covilhã. Mais tarde viríamos a formar um sexteto, sem música para além de alguma berraria ou choro.
Durante parte da manhã ainda o senhor professor Martins, como era conhecido por aquelas bandas, na nossa casa da Pousadinha ensinava muitos dos alunos – rapazes e raparigas – já em altura de terem que frequentar os Cursos da Campanha Nacional de Adultos.
Por ali residiam alguns vizinhos, os mais conhecidos, Mário Eufrásio e a mulher, cujas filhas mais velhas também assistiam às aulas do professor Martins.
Em 18 de abril de 1951 faleceu o então Presidente da República marechal António Óscar de Fragoso Carmona – o primeiro que eu conheci em fotos e retratos nas escolas, e nos jornais, com o meu Pai a mostrar-me as imagens do funeral do presidente. Já a Rainha Isabel II da Inglaterra, com o marido e os filhos, ainda pequenos – a Ana e o Carlos –  recordo a sua vinda a Portugal, já não residia na Pousadinha. A rainha Isabel II visitou Portugal cinco anos depois de ter sido coroada. A RTP, recém-nascida, como atrás faço referência, realizou a sua primeira grande cobertura noticiosa durante esse acontecimento, cuja visita aconteceu entre 18 e 23 de fevereiro de 1957 e concentrou as atenções do país e também do estrangeiro. Nessa altura era então Presidente da República o General Francisco Higino Craveiro Lopes e Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. Gostava de ver na revista Flama e nas capas dos jornais as fotos da vinda da rainha e família a Lisboa.
O Hino Nacional, que o professor Martins (antes exercera esta atividade) também ensinava na escola aos alunos tinha três estrofes, portanto, muito mais comprido. Só mais tarde, pelo Diário do Governo de 4 de setembro de 1957 duas foram eliminadas, ficando então o hino como o atual. Tenho em meu poder uma bandeira nacional desse tempo, quando o Hino Nacional ainda tinha as estrofes seguintes:

Desfralda a invicta Bandeira,                                                   Saudai o Sol que desponta
À luz viva do teu céu!                                                                Sobre um ridente porvir;
Brade a Europa à Terra inteira:                                                Seja o eco de uma afronta
Portugal não pereceu                                                                 O sinal do ressurgir.   
Beija o solo teu jucundo                                                            Raios dessa aurora forte
O Oceano, a rugir d’amor,                                                        São como beijos de mãe,
E o teu braço vencedor                                                             Que nos guardam, nos sustêm,
Deu mundos novos ao Mundo!                                                Contra as injúrias da sorte.


(In "Notícias da Covilhã", de 15/03/2018) * Estas últimas estrofes não foram publicadas no semanário por falta de espaço *