3 de outubro de 2018

O ZÉ DO MEGANE


Como entrámos no Outono, o tempo de férias praticamente acabou, começaram as aulas depois dos protestos dos professores, e dos taxistas terem terminado os seus, contra a “lei Uber”, para além de outros acontecimentos que foram dando corpo à “silly season”, houve algum tempo para leitura.
Pela minha parte, coube-me o deleite de, após ter devorado dois livros, passar a folhear despreocupadamente aquele que escrevi e foi apresentado no passado dia 8 de setembro.
Os meus dedos levaram-me indiscriminadamente para as páginas 119 e 120, da parte romanesca, na tertúlia de Valbom, mas desta vez a ter lugar no Restaurante Margarida, em Leça da Palmeira:
“- Psssstt… - Chamou à atenção o Zé do Megane, para o que se estava a passar, ali bem perto, à porta do restaurante, mas bem fora dele.
Um grupo de cinco turistas visitava o Porto. A carrinha com o cicerone parou à porta. Eram três lindas moças e dois esguios rapazes.
Então dizia o cicerone: Aqui é Leça da Palmeira e o Porto é intitulado pelos ilustres da História de Portugal, como a ‘Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto’.
Os sorrisos das moças às explicações do cicerone faziam inveja a quem passava, tal a sua graciosidade, todas de calças de ganga, curtas, a denunciarem as formas do corpo, para além dos seus cabelos compridos e uma de rabo de cavalo.
Os dois rapazes daquele grupo turista, tanto como elas, procuravam dos seus telemóveis obter as melhores fotografias.
Ao recuarem para obterem uma melhor panorâmica – cuidado com os automóveis!... – dizia o cicerone – uma das moças pisa inadvertidamente um velho que ali passava, de jornal debaixo do braço, e ainda uma caixinha de bolos, que comprara na pastelaria para o aniversário da sua Maria que fazia 80 anos, e, na outra mão, uma bengalinha, que por graça e mor do senhor doutor, o aconselhara a andar assim mais seguro.
Da pisadela, susto do velho, um pouco mais de vento, jornal para o chão, e logo duas páginas centrais voam e se enrolam num automóvel que passava.
Corou e deixou-se de sorrisos a pequena enquanto as suas colegas se riam.
Um dos rapazes corre atrás das páginas do jornal que voaram quando obriga um ciclomotorista a travar bruscamente e a estatelar-se no chão. Para além das calças rotas (rotas já elas estavam quando as comprou com aqueles buracos…) nada mais aconteceu, depois de mirar a Famel Zundap que não ficara danificada.
O rapaz do motociclo, após ter recebido pedidos de desculpa, por lhe terem ocasionado aquele susto, do turista e seus companheiros de viagem, bem como o cicerone, lá seguiu o seu caminho, tanto mais que as três gaiatas também o haviam fascinado.
Entretanto, o velho, de sua graça, Joaquim, vendo todo este espetáculo, acaba por dizer: - ‘Deixe lá o jornal, minina, era só p’rá mor de m’entreter com a minha Maria que hoje faz 80 anos. O pior foram os bolos que ficaram esborraçados!... Não viu que o rapazinho a correr atirou-me com a caixa ao chão e pisou os bolos?’
Deste episódio, o Zé do Megane que, entretanto, fizera interromper os trabalhos, e os seus companheiros tertulianos acabaram por se juntar à porta, assistindo a tudo, teve pena da moça e do velho, e não é que lhes pede para entrarem, e dá indicações ao empregado para arranjar uma caixinha de bolos, enquanto o Damasceno acabou por ir comprar o Correia da Manhã, do qual algumas páginas tinham voado e ficado incompleto…
Entretanto, o Benedito, finório, diz para o sr. Joaquim: - Olhe lá, já viu que as páginas que voaram do jornal eram estas… e apontou para aquelas em que surgiam, desnudadas, algumas celebridades…
- Olhe, Sinhor! … Não sei a sua graça… - Respondeu o sr. Joaquim ao Benedito: ‘Noutros tempos, eu binha à cidade de barco rabelo… Ainda m’alembra dos carros de bois birem carregar pipas de beinho fino, dos nabios à bela subindo’ …
E enquanto lhe servem um copo de branco, que lhe ofereceram, adianta-se: - ‘Bote aí!’
Bom, as três mocinhas, os dois rapazes e o cicerone lá seguiram o seu caminho, muito agradecidos com tudo o que lhes fizeram, com muitos pedidos de desculpa, sem que antes o Benedito conseguisse a aceitação de uma selfie com elas.
O sr. Joaquim também já se preparava para partir, enquanto o empregado foi retirar de perto da porta, para o lixo, a caixa dos bolos esmagados, quando o Manuel lhe pergunta:
- Então, a sua Maria faz hoje 80 anos? Parabéns!
- E olhe que eu, oficialmente, casei três bezes. Isso mesmo, três bezes! – Respondeu o sr. Joaquim.
Bom, e aqui terminou o drama, que não chegou a acontecer.
- Vamos continuar com o nosso programa, malta, senão também podem voar os nossos papéis – Ordenou o Fernando Gonçalves.”
E muitas, muitas mais histórias entre facto-ficção foram escritas. Fica somente esta pequena abordagem para os muitos que são possuidores do livro.


(In "Notícias da Covilhã", de 04-10-2018)

11 de setembro de 2018

O VATICANO E O SEXO


Último domingo de agosto. Dirijo-me à banca dos jornais e, à minha frente, na fila, uma senhora não se despega das raspadinhas, e eu com o Público na mão para pagar, aguardo a minha vez.
Não jogo, por isso não conheço o jogo da raspadinha. Mas lá vou ouvindo, como hoje: “Dê-me 10 euros que tenho desta raspadinha, mais 10 euros desta, e com os 10 euros de ainda esta, dê-me uma Dardos, uma Dominó, uma Grande Sorte, uma Horóscopo, uma Mega Cofre, e uma Mini Pé-De-Meia.
- “Até que enfim, vai chegar a minha vez…”, presumi, quando a senhora, olhando para as raspadinhas expostas, diz: “-Olhe, dê-me também uma MasterMix”.
- “Aguenta, meu!...” E lá chegou a minha vez.
E o tema dos jornais não descola, e com razão, sobre a “nefasta Cúria Romana que Francisco não soube e/ou não pôde renovar de alto a baixo”, conforme relata Vicente Jorge Silva no Público de hoje, sob o título “Assombrados pelo sexo”.
Como crente, pessoa de fé e católico, há muito que me sinto incomodado com a ineficácia do Vaticano, sobre o mau exemplo, o crime, os escândalos ocultos e protegidos sobre a pedofilia e não só.
Como é possível que os últimos Papas (alguns até já foram canonizados) não tivessem conseguido acionar o chicote da expulsão (e não suspensão) de padres e bispos que não deveriam exercer esses múnus?
O resultado está à vista: cada vez se vê reduzir o número de católicos e da sua prática, como se verifica na Irlanda que era quase cem por cento católica.
Já nem o Papa Francisco, de quem tanto se esperava, consegue dar a volta ao texto. Pois como diz ainda Vicente Jorge Silva, “já não é possível mascarar por mais tempo a evidência de que a pedofilia constitui a expressão mais perversa da longa relação doentia da Igreja Católica com o sexo – e que, como tem sido lembrado por tantas vozes, o celibato dos padres constitui um dos fatores mais decisivos dessa doença.”
Este tema levaria a um longo debate, certamente não conclusivo, mas a pergunta, ou muitas perguntas, ficariam à espera de respostas, mas respostas de ação e não para ser mais do mesmo:
- Como é possível um padre, ou bispo, consciente dos atos em que se envolveu, como a pedofilia, poder continuar a exercer os atos de culto?
- Como é possível um bispo, conhecedor dos atos de pedofilia (aquele que agora está mais em foco) encobrir o crime ou o escândalo do sacerdote sob a sua jurisdição?
- Com que autoridade, um bispo ou um sacerdote, nestas situações, tem de, do púlpito, soltar vozes de incitamento à conversão, ao respeito pelo próximo, e sei lá que mais?
E será que esses padres e bispos têm consciência do pecado que eles próprios praticam e aos outros pedem para não cometer?
Não chegou o longo tempo da fábrica da morte em nome da fé, através do funesto Tribunal do Santo Ofício instalado em Portugal por bula de 23 de maio de 1536, depois de grande insistência junto do Papa Paulo III por parte de D. João III, que só viria a apagar-se no reinado de D. José I, por decerto de 1768?
Não estou aqui a discutir o sexo dos anjos, mas tão só um problema que é de todos, católicos ou não, gravíssimo, e sob os auspícios da Santa Madre Igreja, ou seja, na figura dos seus representantes.
Será que o pedir perdão do Papa Francisco, pelo que tem acontecido ao longos dos tempos chega?
E se destas palavras surge algum exagero, fruto da minha revolta face à ineficácia, passividade do clero dito sério, dito consciente, referido como exemplar no cumprimento dos seus deveres para que foi ungido (com muitas honrosas exceções) pergunto, dum mar de quesitos que era necessário terem respostas:
- Qual a conclusão, fidedigna, da morte do Papa João Paulo I, conhecido como o Papa do Sorriso”, que apenas foi Papa 33 dias, entre 26 de agosto de 1978 até à data da sua morte, em 28 de setembro de 1978? Não quis ser coroado, deixando de usar a tiara papal. Embora João Paulo i tenha sido encontrado morto por uma freira que trabalhava com ele e o acordava havia muitos anos, a versão oficial divulgada pelo Vaticano diz que o seu corpo teria sido encontrado por um padre, um dos seus secretários. Enfarte do miocárdio, embolia pulmonar, o fomento de várias teorias de conspiração pelo facto de estar a descobrir escândalos financeiros envolvendo o Vaticano, numa hipótese apontada, ou o envenenamento durante a noite, noutra especulação. Seja como for, nada ainda foi esclarecido.
- O caso da vida sexual de D. Carlos Azevedo, bispo católico, acusado de homossexualidade prática, atualmente em Roma, está envolvido em acusações de comportamentos impróprios. Já existe alguma decisão sobre este caso? Pois claro que não.
- Também na nossa Diocese da Guarda se passou um caso de pedofilia com o então vice-reitor do Seminário do Fundão, padre Luís Mendes, a cumprir dez anos de prisão efetiva, e sempre protegido por D. Manuel Felício, bispo da Guarda. Será que o padre condenado, após cumprir a pena, pode continuar a exercer a sua missão de sacerdote, celebrando a Eucaristia?
Sobre este assunto escrevi um texto em 12-12-2017, sob o título “Abominação ou Aceitação”.
Segundo o bispo emérito das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, “é necessária uma varredela na Cúria, afastando pessoas, quebrando o silêncio. A Cúria precisa de uma higienização muito profunda”.
Já o padre, professor e ensaísta, Anselmo Borges, diz “que não podemos andar eternamente a pedir desculpas. É preciso acabar de vez com este equívoco que é o celibato obrigatório dos padres”.
Também Isabel Allegro de Magalhães, professora catedrática e membro do Graal referiu: “Parece-me que ele (Papa Francisco) teve medo de ser drástico de mais, mas deveria tê-lo sido, nem que a Igreja tivesse ficado reduzida a dez padres”.

(In "fórum Covilhã", de 11-09-2018)

29 de agosto de 2018

A CAMINHO DE SETEMBRO


O mês de agosto deste ano veio tórrido e, contrastando com o ano anterior em que estava a ter uma época de incêndios mais pacífica, acabaria por surgir uma semana funesta com o incêndio de Monchique, a alterar tudo, para ao fim de uma semana passar a ser o maior incêndio do ano na Europa.  E outros foram surgindo, com menor dimensão, como os de Benespera e Seia.
Longe vão os tempos – aqueles dos candeeiros e fogareiros a petróleo, e, no inverno, braseiras de carvão ateadas a carqueja – em que não se via esta calamidade dos incêndios florestais.
Recordo apenas, desses tempos, quando tinha os meus vinte anos, e já depois de ter ido à inspeção militar, para cujo cumprimento do serviço militar obrigatório fiquei apurado, de ter ocorrido o grande incêndio da Serra de Sintra, de 6 a 12 de setembro de 1966, no qual morreram 25 militares do R.A.A.F. que operavam no local e foram surpreendidos e cercados pelas chamas.
Mas também na altura em que escrevo esta crónica recordo o incêndio do Chiado, ocorrido há precisamente 30 anos, no dia 25 de agosto de 1988, cujas chamas devoraram vários edifícios do Chiado e deixaram em ruínas aquela zona história de Lisboa em menos de cinco horas. Se Marina Tavares Dias, no Diário de Lisboa, dizia que “os prejuízos e as perdas para o património de Lisboa são apenas semelhantes às provocadas pelo terramoto de 1755”, eu atrever-me-ia  a compará-lo, numa fase inicial, ao dramático grande incêndio de Londres, ocorrido na madrugada do domingo 2 de setembro de 1666.
Nessa altura ainda se sentiam as quatro estações do ano bem definidas. Nos tempos que correm, face às alterações climatéricas, quase que já não damos pela Primavera e pelo Outono, passando quase só a existir três estações: Verão, Inverno e a estação dos caminhos-de-ferro…
Quase que se deixou de passar pelo período da silly season.
Mas já que Eduardo Sá, psicólogo clínico, psicanalista, professor e escritor desenvolveu na sua interessante crónica in Público, de 25-07-2018, o tema “São os homens que falam menos ou as mulheres que falam de mais? “, vai daí, perante umas férias neste oitavo mês do ano, com um casal amigo, onde o descanso se combinou com a distração, e a gastronomia a jeito de satisfazer o nosso palato, lançámos fora as tristezas e acolhemos mais os momentos de hilaridade.
Para evitar pensar no terror da efeméride que aí vem, do 11 de setembro de 2001 (mais um famigerado setembro…) preferi recordar a canção “Setembro” que Madalena Iglésias cantou em Barcelona, em 1966, no Festival do Mediterrâneo, e no qual se classificou em 2.º lugar.
“É que já tenho menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora, tenho por isso mais passado que futuro e já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não podendo fugir da minha mortalidade, quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade porque o essencial faz a vida valer a pena, isto, para nós, que já temos mais passado que futuro”. (adaptação do escritor Mário de Andrade).
E já que falei de tropa, o meu amigo Carlos tinha vindo de Moçambique, no cumprimento da sua missão naquele ano de 1969, conjuntamente com o seu camarada e amigo João Abelha. O Carlos estava então em Sacavém em casa de uns familiares, regressado do Ultramar há dois meses. Resolve ir visitar o seu amigo. Apanha um autocarro em Sacavém até Alenquer. Aqui, um táxi leva-o até Labrujeira. Pelo caminho, conversa com o taxista que desejou inteirar-se sobre o que é que o Carlos ali ia fazer.
- Venho ver um amigo que esteve comigo em Moçambique – o João Abelha.
O taxista conhecia o homem, que morava na Labrujeira. Aqui chegados, entram num café e o taxista informa o dono da amizade entre o seu cliente e o João Abelha.
- O João Abelha?! Grande amigalhaço! Respondeu de imediato o dono do estabelecimento. Quando soube que o Carlos era amigo dele não lhe deixou pagar a despesa e disponibilizou-se a levá-lo a casa. Durante o percurso, apareceram vários conterrâneos que conheciam o João Abelha e que o fizeram entrar nas adegas, convidando-o a beber do seu néctar. É amigo do João Abelha, não paga nada!
Com o dono do café chegam finalmente a casa do João Abelha, depois da gentinha querer saber o que o Carlos estava ali a fazer. Amigo do João Abelha?! Tem que entrar na minha adega e provar o vinho. A despesa que se fazia continuavam a não a deixar pagar ao amigo Carlos. Não, porque é amigo do João Abelha!
O Carlos lá teve que ficar uma noite em casa do amigo, já bem aviado da vinícola e depois lá partiu para a casa dos familiares em Sacavém.
Tempos duros em que a juventude fora lançada às feras por terras longínquas, muitas vezes sub-repticiamente para evitar alarmes que provocassem o palácio governamental salazarista e marcelista. Depois, claro, o grito aliviado naquela liberdade ainda que em tempo de ditadura.

(In "Notícias da Covilhã", de 30-08-2018)

14 de agosto de 2018

DIABOS MIRABOLANTES


Andam por aí diabos à solta. Não sei se são filhos do diabo que fora anunciado pelo antigo primeiro ministro, pois não me recordo de que tenha chegado a vir, a partir daquele célebre setembro de 2016. Nem saudades do homem da troça, na sua peculiar expressão da “palavra dada, palavra honrada”.  Mas isso são estórias de outras histórias que já estarão para além da Taprobana, pois que até ele se terá esquecido do que vice governava e, da palavra dada, foi palavra desonrada, na sua “irrevogável” demissão.

Paulo Portas que de feirante de beijocas passara ao número dois da governação ainda se quis apropriar da iniciativa com que quisera dar o cognome ao atual governo da Nação, plagiando Vasco Pulido Valente no título pejorativo do seu artigo de opinião inserido no Público de 31 de agosto de 2016 – “A geringonça” – , e que, ao invés, se tornava laudatório.

O que é certo e verdade é que os diabos à solta trouxeram o inferno no ano seguinte, com as duas grandes catástrofes dos incêndios de junho e outubro de 2017.

Depois foi o tempo das barragens secas, que por cá ocasionaram muitos barulhos, mas que o “dilúvio” veio rufar no seu tambor e torná-las repletas do precioso líquido.

Até ao momento em que escrevo este apontamento, não surgiram ainda, felizmente, preocupações lancinantes no nosso País, como o inferno transato. Desta vez os diabos emigraram e foram assoberbar paragens gregas e escandinavas. Quer dizer, o diabo internacionalizou-se, ou, melhor dito, tornou-se mais global.

O que é certo e verdade é que o inferno não se consegue extinguir. Umas vezes lá se vão conseguindo reduzir um pouco as suas chamas, mas outras vezes elas, se dominadas numa zona, logo surgem noutro local. Quer dizer que são as patas do diabo, quais tentáculos em brasa do polvo.

Nas duas últimas décadas do século XX, a primeira das duas décadas foi marcada pela conflitualidade e pela mudança de comportamentos na política e na sociedade, especialmente nas gerações mais novas, onde se verificou uma libertação de usos e costumes. No campo político e militar destacaram-se a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, que abriu o caminho à reunificação da Alemanha, formalizada em 3 de outubro de 1990; a guerra entre o Irão e o Iraque, assim como outros conflitos no Médio Oriente, a Guerra das Malvinas e os primeiros protesto políticos na China, com a manifestação da Praça Tiananmen em 1989. Quanto aos comportamentos sociais, recordam-se as novas excentricidades na moda, o heavy metal na música e o fascínio pelos mais variados tipos de modelos de novos produtos eletrónicos nos campos da comunicação e da informação, que levariam depois ao incremento da utilização das redes sociais para os mais variados fins. Esta década foi também marcada pelo surgimento de novos diabos, pelo colapso da economia japonesa, por uma estagnação da economia norte-americana (ainda nem se tinha ouvido falar em Donald Trump…) e da generalidade dos países da América Latina, por uma volatilidade dos mercados e um baixo crescimento do PIB na generalidade dos países.

Na década de 90 alteraram-se algumas tendências, com o colapso da União Soviética, o fim da Guerra Fria, o reforço da globalização e a consolidação da democracia. No entanto, nos novos flagelos emergiram, mais novos diabos, com destaque para novas formas de terrorismo, essencialmente “justificadas” por motivações religiosas, que perturbaram significativamente o longo período de paz vivido desde há muitos anos, e que criaram um clima de tensão considerável. De qualquer modo, a década de 90 pode considerar-se um período de prosperidade e de bem-estar em muitos países, com crises pontuais, por vezes atribuídas à globalização ou, pelo menos, a algumas das suas formas. Tem que se reconhecer que por força de políticas erradas de globalização, do recrudescimento do capitalismo selvagem e de determinadas atuações do domínio político, houve um aumento de ações de protesto e de reivindicação até então pouco vulgares, ou mesmo desconhecidas. Prosseguiram os fortes desenvolvimentos na tecnologia, na ciência e na investigação aplicada – particularmente na ciência médica para fazer face a novas doenças, ou agravamentos das existentes – e acentuou-se a polémica sobre a proteção do meio ambiente. Esta última, e algumas mudanças mais radicais nos hábitos da vida em sociedade, suscitaram também movimentos de contestação. No conjunto das duas décadas tem que se mencionar um clima de concorrência cerrada, especialmente no mundo dos negócios, uma série excessiva de catástrofes naturais e provocadas e o flagelo de novas doenças.

Nalguns países do Mundo Ocidental, de África e do Oriente, foi um período de considerável crescimento económico, apesar de na primeira parte da década a economia norte-americana pouco tenha crescido.

Em Portugal, a governação do Bloco Central foi muito dirigida nos anos 80 para a recuperação da economia e para a preparação da entrada do País na então CEE.

A caminho do final da segunda década do século XXI, já integrados na União Europeia, e com o aumento de muitos outros países, logo haveriam de surgir novos diabos, com a crise europeia de 2008, a intervenção da troika em Portugal e na Grécia, e um dos diabos a querer sair da União Europeia, a quem foi dado o nome de Brexit.

Ficamos por aqui para não nos endiabrarmos mais.
(In "fórum Covilhã", de 14/08/2018)

31 de julho de 2018

A CABRA, O PASTOR E O MONGE


A minha última crónica referiu-se aos cafés tradicionais nas cidades. E o café bebida como e quando surgiu nos estabelecimentos com a mesma designação? A lenda mais conhecida das suas origens reporta-se ao ano 575 em que um pastor etíope, de nome Kaldi, apercebeu-se que suas cabras ficavam mais espertas ao comer as folhas e frutos do cafeeiro. Não podiam conciliar o sono e ficavam em grande agitação. Estupefacto, decide provar os bagos vermelhos do arbusto e começou a sentir maior vivacidade. Um monge da região, informado sobre o facto, fez então uma infusão dos bagos para resistir ao sono enquanto orava. Teria acabado de inventar o café!

Existem várias datas apontadas. Mais certo será o local da origem – Etiópia – na localidade de Kaffa, não tendo, no entanto, esta palavra sido a génese de Café (Coffe em inglês). O Iémen seria um  centro de cultivo importante, de onde se propagou pelo resto do mundo árabe. Chega à Europa, onde por volta de 1570 o café é introduzido em Itália, na cidade de Veneza.

Na Inglaterra, em 1652, foi aberta a primeira casa de café da Europa Ocidental, seguindo-se a Itália dois anos depois. Em 1672 cabe a Paris inaugurar a sua primeira casa de café, e foi precisamente na França que, pela primeira vez, se adicionou o açúcar ao café, no ano de 1713.

Outras versões têm sido referidas para explicar o aparecimento do café, sempre envolvendo personagens ou povos árabes.

Embora diferindo as histórias e o grau de fantasia, todas são unânimes quanto               às qualidades excitantes do café e, em geral, situam a sua origem entre a Europa, o Iémen, e a Arábia, mais citada a Etiópia.  Já quanto à época da primeira utilização do café e de forma de preparar a bebida as opiniões são mais diversificadas.

Recordo que quando eu tinha 13 anos, o Imperador da Etiópia, Hailé Selassié, visitou Portugal entre os dias 26 e 31 de julho de 1959, tendo lido a notícia e visto uma foto no então Diário Popular, Diário de Notícias, e na revista Flama, sobre a visita e o descarregamento de umas toneladas de café, de um navio, oferta do Imperador da Etiópia, na sua visita a Portugal. Tínhamos então a velhinha Biblioteca Municipal, ao Jardim. Também recordo que o presidente da Câmara da Covilhã, Dr. José Ranito Baltazar, e membro da União Nacional, se deslocou a Lisboa para  oferecer uma prenda do Município (penso que uma tapeçaria) ao Imperador, tendo sido escritas umas palavras, num pergaminho, pelo falecido Matos Pombo, então administrativo dos Serviços Municipalizados da Covilhã. Mais tarde, o Dr. José Ranito Baltazar mandaria inutilizar a medalha que lhe oferecera o Imperador Hailé Selassié, revoltado pelo facto de a Etiópia ter votada na ONU contra o colonialismo português.

A partir de 1615 o café começou a ser saboreado no Continente Europeu, trazido por mercadores, principalmente italianos, nas suas frequentes viagens ao oriente. O hábito de tomar café, principalmente em Veneza, estava associado aos encontros sociais e á música que ocorriam nas alegres Botteghe Del Caffé. As cafeterias desenvolveram-se na Europa durante o século XVII, enquanto florescia o Iluminismo e se planejava a Revolução Francesa.

Bom, o café é atualmente a bebida preparada mais consumida no mundo, sendo servidas cerca de 400 bilhões de xícaras por ano. O tipo de café mais comum é o arábica, ocupando cerca de três quartos da produção mundial.

As dúvidas são menores quanto à primeira casa onde o café era servido publicamente. Consta que terá sido em Constantinopla onde dois mercadores sírios, Hakin e Shams, cerca de 1555, ali abriram dois estabelecimentos no bairro Tahtakale, próximo do bazar egípcio. Conforme referiu Lemaire, o primeiro café que existiu na Europa – ou mais precisamente na parte europeia do Império Otomano – foi em Belgrado, em 1552.  No entanto, o Kiva Han datado de 1475 deve ser realmente o mais antigo café de Constantinopla, e do mundo. Depois de Constantinopla e de Belgrado, os cafés iriam surgir um pouco por toda a Europa, a começar por Veneza e depois Inglaterra.

Os mercadores que negociavam com o Oriente foram naturalmente dos primeiros a trazer o café para a Europa Ocidental. Um deles, Daniel Edwards, tinha um criado, de nome Pasqua Rosée, que em 1652 abre o primeiro café em Londres.

Os cafés londrinos proliferaram rapidamente. Este rápido crescimento foi naturalmente devido ao crescente número de clientes que frequentavam os cafés pelas mais variadas razões. Se bem que houvesse algumas raras exceções, a esmagadora maioria destes clientes eram homens, que passavam bastantes horas em animadas conversas, recolhendo indicações e sabendo novidades que pudessem ser úteis aos seus negócios, ou simplesmente por pensarem que este convívio lhes favorecia o seu estatuto social.

É que além de lugares de convívio, os cafés londrinos tiveram um papel importante na criação de serviços sociais e económicos, tais como serviços privados de correios.

As pessoas que se queriam encontrar, em vez de perguntar onde moravam, era comum perguntar quais os cafés que frequentavam.

Os serviços de correios em Inglaterra começam por ser limitados à distribuição de mensagens oficiais, só sendo abertos ao público por Carlos I, em 1635. Os cafés eram ainda locais de leilões dos mais variados objetos, obras de arte, livros e mercadorias. Os cafés serviam, sobretudo, de locais onde trocavam informações e se emitiam panfletos e outros meios informativos. Os cafés serviam inclusivamente de lugares onde médicos davam consultas e onde se fazia publicidade de remédios para os mais variados males. Eram ainda centros onde se especulava sobre ciência, literatura e filosofia. Eram mesmo conhecidos pelas “universidades de um penny”, em alusão ao preço de uma chávena de café, em torno da qual se podiam passar horas de conversa que também eram, muitas vezes, horas de aprendizagem e fonte de cultura e, principalmente, onde se tratava de negócios. A maior parte das transações comerciais e das operações financeiras eram ali concluídas.

Foi este leque de funções que diferenciou os cafés londrinos dos seus congéneres de outros países.

(in "Notícias da Covilhã", de 02-08-2018; e "O Olhanense", de 01-08-2018)

12 de julho de 2018

O ÊXITO TAMBÉM DEPENDE DA CORAGEM


Se bem se recordam, no número anterior d’O Combatente da Estrela, escrevi que só com a alma que cada um infunde, dentro da sua missão, se pode chegar a bom porto, porque o caminho se faz caminhando. E, também, neste âmbito, assim a robustez de uma publicação.

A divulgação da notícia e dos textos de opinião, neste contexto, quer seja por via de um jornal, de um boletim ou de uma revista, terá que ter uma periodicidade no mínimo trimestral, para que possa ser constante elo de ligação entre os seus habituais leitores e os seus devotos associados, como no caso do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes. Aqui tem marcado os pontos máximos. Mais: essa forma de publicação terá que ser enviada graciosamente aos seus associados, pelo correio, no caso em papel; ou pela via online. Nesta vertente, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes exerce aqui a exemplaridade de uma das suas missões, com a nota máxima.

Quantas vezes encontro um antigo Colega da então Escola Industrial e Comercial Campos Melo, ou um antigo Camarada das várias unidades militares por onde passei, após décadas de desencontros, e, qual a minha admiração quando me dizem: “Eu vejo a tua cara com frequência!...” E à minha pergunta, se é da leitura dos jornais regionais, a resposta vem direcionada para “O Combatente da Estrela”.

Casos surgem em que existe uma publicação anual e só é entregue aos associados no dia do aniversário da instituição, ficando os restantes associados, residentes por este País fora, sem qualquer elo de ligação à mesma.

Outro pormenor de enorme atração em ser associado de uma instituição como o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes (e reporto-me a esta instituição porque é para o seu órgão de comunicação que escrevo) é o facto de tantas vezes, quando nos encontramos no dia a dia, geralmente já todos aposentados, podermos dizer ou perguntar: “Vou ali à Liga!” – “Foste à Liga?” – “Sabes se lá está Fulano na Liga?”. Isto significa também que uma instituição, com sede e onde há associados, exige a porta aberta. No caso deste Núcleo, lá vamos, dentro do horário afixado, sempre encontrando alguém, dirigentes e alguns associados, para a leitura de jornais diários, de periódicos regionais, de cá, e para além do concelho e do distrito. E alguma cavaqueira que vem sempre a propósito.

E se algum antigo Combatente passa para o outro lado da vida, ele surge no próximo número d’O Combatente da Estrela”. Mais uma missão cumprida: recordar os que partiram. Depois, as várias atividades exercidas na dinâmica do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes surgem, conforme sempre é divulgado, atempadamente, no espaço de três meses ou ainda menos.

Para isto é preciso ter aquela coragem de manter desfraldada a bandeira e não a desenrolar só anualmente em dia de festa.

Vou terminar estes pingos de reflexão, não esquecendo que sempre que um associado pretende contribuir para uma ação cultural, como, por exemplo, a apresentação de uma sua obra, geralmente alusiva à passagem pelas antigas Colónias, tem o empenho dos dirigentes do Núcleo para que a possa condignamente apresentar na Biblioteca Municipal.

Por vezes encontramos por aí sedes próprias, de portas fechadas aos associados, de instituições em pleno coração da cidade, onde se podiam fazer várias atividades para o público ver.

A minha especial satisfação neste número vai no sentido de, como associado, poder anunciar aos leitores e associados deste Núcleo, ter contribuído com a referida coragem para o êxito, já assumido por muitos, de uma publicação de grande envergadura, inédita a nível nacional, sobre a atividade seguradora.

Assim, espero que no dia 8 de setembro, pelas 15 horas, o Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã possa “ser invadido” com muitas presenças, vindas de vários pontos do País, para a apresentação do meu último livro “O Documento Antigo: uma outra forma de ver os seguros”.

E porquê realçar este trabalho, que iniciei em 2014 e me custou centenas de horas de trabalho, do qual rejeitei receber qualquer importância de direitos de autor?

É que, sendo um livro de aturadas investigações, destinado não só a estudiosos e a profissionais de seguros, é também para todos quantos têm a curiosidade de querer conhecer a génese dos seguros no mundo e no nosso País.  Foi, pela primeira vez, reunido num só volume de 888 páginas e, duma forma inédita, romanceado, partindo de duas partes: I – Os Seguros, da Antiguidade até ao Século XVIII; II – Os primórdios do Seguro em Portugal até aos nossos dias.

E é aqui que, na parte romanesca, estão ficcionadas várias tertúlias, iniciadas em Valbom, Gondomar e Porto, passando por Leiria, Algarve, e depois Covilhã, Castelo Branco e Lisboa.

Ao longo das tertúlias romanceadas que suportam as transcrições que dão corpo à obra, as personagens ficcionadas ou inspiradas em figuras reais desta cidade, atuam de forma a aligeirar a leitura do texto, criando um romance coerente e com final feliz contentes com o que aprenderam sobre a evolução dos seguros desde os seus primórdios.

Pois a Covilhã, com várias instituições e figuras citadinas, é referida ao longo dos vários capítulos do livro, no contexto romanesco, onde sobressaem muitas personagens reais, quase todas covilhanenses, nas várias tertúlias, entre as quais vários elementos do seio do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, e também da Casa da Covilhã em Lisboa.

A tal coragem partiu da iniciativa do então CEO e Administrador da Liberty Seguros em Portugal, Dr. José António de Sousa, que renunciou ao seu mandato em 31 de maio, depois o ter anunciado muito previamente, e que me solicitou este trabalho, sendo uma grande honra o seu prefácio. A apresentação do livro será efetuada pelo novo CEO e Administrador da Liberty em Portugal, Dr. Rogério Bicho, que igualmente honrará o autor.

Aqui deixo o apelo para quem puder e quiser estar presente, certamente não ficará desiludido.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 111, de julho de 2018)

11 de julho de 2018

SÍMBOLOS DAS CIDADES


A Pastelaria Suíça, um símbolo do Rossio e de Lisboa, vai fechar, perto de completar 100 anos. Sim, conforme foi comunicado pela Câmara Municipal de Lisboa, a histórica pastelaria da Baixa vai encerrar as portas. Foi aberta em 1922. Como ela já havia fechado o Café Chave de Ouro, célebre por Humberto Delgado lá ter dito o “obviamente demito-o”, referindo-se a Salazar.

Também por todo o País há e houve emblemáticos cafés, que foram verdadeiras referências nas cidades.

Na Covilhã tivemos os icónicos Café Montalto e Café Leitão. O Café Montalto foi inaugurado simultaneamente com o Teatro Cine da Covilhã, em 31 de maio de 1954. Local onde se reuniam os industriais de lanifícios e se faziam negócios, mas onde os operários não entravam para não se encontrarem com os patrões e porque não eram ali bem vistos. Constituído por três pisos: r/chão para o café propriamente dito, existindo na cave os bilhares e as máquinas de jogo. Por cima do café ficava o restaurante terminando em varandim, com vista para o café. Era, pois, o café dos senhores de altas posses, da alta e média burguesia. Aqui se vinham a formar grupos dependentes de negócios e interesses.

Já no Café Leitão, situado numa cave, reunia-se uma classe de menores posses, geralmente funcionários dos correios e camarários ou ligados ao operariado com algum sentido reivindicativo e com gosto pelos jogos de damas e outros existentes nos cafés.

A cultura singrava por aqui ao invés do Montalto onde era mais secundarizada e, geralmente se erguia na voz de José Vicente Milhano, ou então os homens ligados à organização da Feira Popular do Sporting.

Foi no Café Leitão que o escritor Ferreira de Castro começou a escrever “A Lã e a Neve”.

Tanto no Montanto como no Leitão era habitual ver-se o engraxador de sapatos e sempre havia o Leal para que não faltasse a leitura dos jornais que vinham fresquinhos do comboio.

Em paralelo com os célebres cafés covilhanenses, também em Évora existia (e ainda existe, se bem que algo transformado, mas mantendo algumas caraterísticas originais, como a porta giratória) o Café Arcada. Era de facto o café da tradição, situado na Praça de Giraldo. A sua abertura aconteceu em 14 de fevereiro de 1942 (uma dúzia de anos antes do Café Montalto da Covilhã). Era então considerado um dos melhores do País, com 100 mesas, tido como um acontecimento social de grande impacto no quotidiano citadino. Chegou a ter uma orquestra. Tinha dois pisos. Nos primeiros tempos o Arcada foi frequentado pela burguesia local, pequenos grupos de intelectuais, gente do reviralho, profissionais liberais e estudantes liceais. Os latifundiários e aos agricultores frequentavam o Café Camões, à Porta Nova. Mas com a perda de centralidade desta zona e o acrescido ganho de importância da Praça de Giraldo, estes passaram a tomar de assalto o Arcada às terças-feiras, dia do mercado semanal. Em plena praça e no interior do café se discutiam e apalavravam negócios, tendo ali chegado a funcionar uma informal bolsa de gado.

No seu romance “Aparição” o escritor Vergílio Ferreira relata bem o ambiente do Café Arcada quando nele entrou pela primeira vez em 1946: “… acabámos por marcar o encontro para o dia seguinte no Arcada sem que o Moura se lembrasse de que era uma terça-feira, ou seja dia de mercado. Com efeito, ao entrar no café, após o almoço, tive a surpresa de ver aquele vasto túnel apinhado de gente. O corredor atravancava-se de negociantes, porque era ali, entre bebidas, que se realizava o mercado da semana. A terça-feira era o “dia de porcos”, como soube mais tarde que lhe chamavam…”

O escritor Vergílio Ferreira ficou aliás com uma marca indelével do Arcada, pois foi ali que o seu colega e padrinho de casamento, Alberto Miranda, lhe pagou a boda, a qual consistiu num galão a cada um e bolos, conforme revelou.

Entretanto, com o passar do tempo, aos lavradores veio juntar-se uma corte de gente ligada ao mundo dos touros e ao marialvismo rural, composta por ganadeiros, toureiros e aprendizes, moços de forcados, apoderados, equitadores, aficionados e professores e alunos da Escola de Regentes Agrícolas. Com a subida do Lusitano à I Divisão em 1952 a fama do Café chegou a Lisboa. Os adeptos do Sporting, do Benfica e do Belenenses, do Vitória de Setúbal e do Barreirense, que aos milhares se deslocavam a Évora para apoiar as suas equipas, conheceram-no, apreciaram-no e dele fizeram grande propaganda na capital e arredores.

Ora, na cidade laneira também assim acontecia com o Sporting da Covilhã, e, na mesma altura, jogavam na I Divisão Nacional (hoje I Liga) ambos os clubes (Lusitano de Évora e Sporting da Covilhã: 1952/53 a 1956/57, ininterruptamente, e, depois, de 1958/59 a 1961/62).

Poderíamos ainda falar n’A Brasileira – lembram-se do slogan “O melhore café é o da Brasileira? – que esteve encerrado no Porto durante muito tempo. Inaugurado em 1903 passou por convulsões. Novamente ostenta o nome A Brasileira, e novamente voltou às origens.

O espaço não o permite pois gostaria de ainda poder falar no Lloyd’s Coffee House, de Londres, onde se iniciou o seguro marítimo e a génese, ou um dos fortes hábitos de tomar um café, juntamente com a concretização de negócios.

E, regressando ao nosso País, depois do Terramoto de 1755, em Lisboa, foram instalados em novos edifícios no Terreiro do Paço, no dia 1 de janeiro de 1769, a Casa dos Seguros juntamente com a Junta do Comércio, a Aula do Comércio, a Mesa do Bem-Comum dos Mercadores, a Assembleia dos Negociantes e a Casa do Café.

Os interessados sobre esta interessante vertente histórica sobre os cafés ligados à vida dos negócios poderão encontrá-la em livro já editado e a ser apresentado no dia 8 de setembro.

(In "Notícias da Covilhã", de 12-07-2018)


10 de julho de 2018

In "fórum Covilhã", de 10-07-2018



OS MAUS DA FITA


Lembram-se dos tempos dos filmes de “Charlot”, aquele vagabundo trapalhão, de calças largas, sapatos tortos, bengala e bigode aparado (o britânico Charles Spencer Chaplin), que nos deliciavam com frequência, no final da década de 50 e início da de 60 do século passado?

Pois era o tempo do cinema mudo em que os filmes tinham sempre uma personagem que dava o corpo a todas as maldades. O cinema cresceu, perdeu esta faceta ingénua das coisas, mas a expressão ficou sempre para designar os vilões, na personificação de todo o mal.

Vem o tema a propósito duma controvérsia gerada em abril passado sobre o Museu das Descobertas, que Fernando Medina, Presidente da Câmara de Lisboa, prometeu levar por diante aquando da sua campanha para a presidência da mesma.

Só que não há concordância com aquele nome por um grupo de mais de cem académicos, numa carta publicada pelo Expresso, vindo a crescer as vozes contrárias, referindo que, para os não europeus, a ideia de que foram “descobertos” é problemática: “Ter-se-ão os povos africanos, asiáticos e americanos, de histórias milenares, sentido ‘descobertos’ pelos portugueses?”

A face dos maus da fita vem depois de o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em visita de abril de 2017 efetuada ao Senegal, na ilha de Gorée, antigo entreposto nas rotas atlânticas do tráfico de escravos, “não ter reconhecido a longa e sinuosa história da responsabilidade portuguesa no comércio e escravização de africanos, nem as outras formas de opressão que em nome do país foram praticadas e legalmente sustentadas nas colónias africanas até à extinção do regime colonial português em 1974/75”. As declarações do Presidente português reavivaram o branqueamento da opressão colonial, cujo projeto colonial português era visto como “missão civilizadora”.

Embora o Presidente da República tenha dito que Portugal reconheceu injustiça da escravatura quando a aboliu em 1761, pelo Marquês de Pombal, e depois alargámos essa abolição mais tarde, no século XIX, não pediu perdão pela escravatura, como já o havia feito em 1992, o Papa São João Paulo II. Curiosidade é que à Ilha de Gorée foram os navegadores portugueses os primeiros a chegar em 1444, à qual deram o nome de Ilha da Palma. Calcula-se que pelo menos 12 milhões de escravos africanos tenham sido capturados e retirados do continente, ao longo do triste período do comércio negreiro.

Historiadores dos EUA dizem que Portugal deve pedir desculpa por tráfico de escravos, focando esse pedido de desculpas como reconhecimento das consequências, terminando com a criação de um museu ou de um centro de investigação. É que, segundo dizem, embora não ajudassem  os 5,8 milhões de africanos tornados escravos e embarcados em navios com a bandeira de Portugal, nem tão-pouco aqueles que foram mortos em guerras causadas por tráfico de escravos, e por aqueles que sofreram há centenas de anos, seria, contudo, um passo em frente para melhorar a relação hoje em dia entre pessoas com cores diferentes.

Entretanto, Matilde Sousa Franco, vem dizer que há quase quatro décadas defende a criação deste museu com o nome de Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, e não Museu das Descobertas, no nosso país, em que Portugal foi autor não só da primeira Globalização como, no século XXI, continua a destacar-se como “pioneiro” no diálogo intercultural.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os índios descobriram que havia outras pessoas sem serem eles. Assim, o historiador João Paulo Oliveira e Costa considera que a designação Museu dos Descobrimentos seria inadequada. “O processo dos Descobrimentos é historicamente curto, dura só até meados do século XVI, deixando assim de fora 90% do que foi a Expansão portuguesa, com os aspetos mais negros da Expansão em que está previsto um núcleo dedicado à escravatura”.

Os argumentos a favor dos termos “Descobrimentos”, “Descobertas” ou “Expansão” foram objeto de substituição apresentada como o espaço museológico vir a chamar-se “A Viagem”. O que é certo e verdade é que desde D. João V, pelo menos, que Portugal se apresenta ao mundo como país dos Descobrimentos.

Para muitos estão ainda em causa alguns dos aspetos mais negros da Expansão, e em resposta a toda a controvérsia, António Costa disse que “não temos de ter uma relação complexada com os Descobrimentos. É preciso é ‘descolonizar os Descobrimentos’”. É que também a escravatura “faz parte da nossa História e não pode, não tem como e não deve ser ignorada”.

Outra forma de denominar o futuro museu é Museu Portugal Global, na opinião de outros historiadores, porque Portugal é dos poucos países do Mundo que de forma decisiva contribuíram para a História da Humanidade. Tal aconteceu quando, na expressão de Camões, demos novos mundos ao Mundo.

O ilustre pensador Eduardo Lourenço declarou então que se não vê necessidade de “crucificar” o passado de Portugal, independentemente das consequências negativas, como a escravidão, pois que as descobertas tiveram na génese uma motivação “louvável” e quando tantos países da Europa cometeram “crueldades” muito maiores. “Fomos os mais pacíficos, dos povos do sul da Europa”.

Já Rui Tavares, in Público, refere que “quem era escravo em Portugal continuou a sê-lo e, pior ainda, continuou a gerar filhos escravos, até que o Marquês de Pombal publicou em 1773 uma ‘lei do ventre livre’ segundo a qual os filhos e filhas das escravas nasceriam livres.”

A abolição da escravatura em toda a jurisdição portuguesa verificou-se em 29 de abril de 1878, ou seja, há 140 anos, sendo certo que em 1930 ainda havia em Lisboa gente que tinha nascido escrava.

Sobre este assunto muito haveria que dizer, mas não cabe neste espaço, pelo que oportunamente surgirá em livro editado, a ser apresentado em 8 de setembro.

(In "fórum Covilhã", de 10-10-2018)

24 de junho de 2018

O DOCUMENTO ANTIGO: UMA OUTRA FORMA DE VER OS SEGUROS



O meu livro acima titulado vai ser apresentado no dia 8 de setembro no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, pelas 15 horas.

Trata-se de um trabalho de 888 páginas, romanceado, que conta as origens e toda a História do Seguro deste a Antiguidade até finais do Século XVII, na sua I Parte; e desde os Primórdios do Seguro em Portugal até aos dias de hoje, na II Parte.

É frequentemente intervalado com partes romanceadas em ficcionadas tertúlias de lugares comuns, reais, e que integram personagens reais geralmente covilhanenses e de ficção, desde Valbom, Gondomar, Porto, Leiria, Algarve, Covilhã, Castelo Branco e Lisboa, falando também, no seu contexto, de figuras e eventos da região.

O prefácio é do Dr. José António de Sousa e o livro será apresentado pelo atual CEO e Administrador da Liberty Seguros em Portugal, Dr. Rogério Bicho.





João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

13 de junho de 2018

NO EMARANHAR DE IDEIAS


São os telejornais, são as notícias em papel, são as inúmeras online que nos fustigam diariamente a cabeça. 

A prudência revela agora falta de ponderação. Foi assim substituída pela ousada exteriorização da ingenuidade, qual pacovice.

Assistimos constantemente às polémicas no seio dos senhores do futebol, com as suas espertezas arrivistas. E não há quem os tire de lá para fora porque os interesses instalados subsistem. Corroem o que de bom existia:  a salutar distração, a amizade clubística, o encontro de ideias, a vigorosa disputa no campo dentro do espírito Mens sana in corpore sano, lema agora substituído por “muitos milhões para as gestões de aldrabões”.

Ditadores e destruidores por um lado, com cenas de terror nos locais de trabalho; outros envoltos em acusações de vouchers, Operação Lex, E-Toupeira, é indubitável que assim cada vez mais se contribui para a apatia ao desporto e a ausência dos campos de futebol.

Nesta pandemia do futebol, parece que tudo serve de pretexto para encher televisões e as redes sociais.

As escassas notícias para além do futebol que ainda conseguem fazer-se ouvir são quase dissipadas. A fronteira que desapareceu entre canais noticiosos e desportivos tornou-se uma autêntica competição para ver quem mais fala da bola.

Recorde-se o que sucedeu com a conferência de imprensa de Bruno de Carvalho, com todos os canais noticiosos, durante largo tempo, à mesma hora, em direto, a ouvir “Sua Excelência”, que mais parecia o Papa ou Marcelo Rebelo de Sousa.

É por isso que José Pacheco Pereira, in Público de 9 de junho, diz que “o futebol é a coisa mais parecida com a máfia que existe em Portugal – ou melhor, é a nossa máfia lusitana”.

Para além-fronteiras temos Emmanuel Macron com a sua preocupação contra as fake news, a colocar os jornalistas em xeque. Arrancou assim em França o debate sobre as propostas de lei do Presidente para travar a propagação de informação manipulada, com a oposição a dizer que a liberdade de imprensa pode estar em risco. Terá servido de exemplo o seu homólogo americano Donald Trump.

Já na Irlanda do Norte tem a Amnistia Internacional a apoiar a campanha para mudar a lei do aborto que a considera “incompatível” com os direitos humanos. E por cá, neste País de brandos costumes, mas de modernos padrões de humanismo, não há interesse em transpor na mesma ideia, a anulação dessa lei? Certamente por isso a preocupação pela redução da natalidade não é assim tão evidente como os governantes apregoam.

Valha-nos ao menos não ter sido aprovada a lei a favor da eutanásia, com grande estranheza do voto contra do Partido Comunista.

Já agora que falei de “brandos costumes”, este mito criado pelo Estado Novo, e mais tarde reforçado pelo ex-primeiro-ministro almirante Pinheiro de Azevedo, no “Verão Quente” de 1975, quando, durante o discurso que proferiu na manifestação do Terreiro do Paço de apoio ao seu Governo, um petardo rebentou no meio dos manifestantes, e, no meio de gritos, correria, fumo por cima da multidão e algumas chamas, o almirante sem medo clamava: “É só fumaça”, “O povo é sereno”, a História e o próprio jornalismo têm desfeito este mito mostrando que desde os tempos longínquos que os portugueses praticaram atos e crimes horrendos, da Monarquia à República.

Só não se compreende por que é que sendo a corrupção o principal problema do país, os dados oficiais mostram que o número de processos sobre este flagelo é diminuto quando comparado com a perceção da corrupção obtida através dos media.

Deve haver milhões de barris a abarrotar de euros para os funcionários públicos, para os professores e polícias, que detêm, estes dois últimos, mais de duas dezenas de sindicatos, cada classe.

Razão tem João Miguel Tavares, in Público de 7 e 9 de junho, de contestar as progressões automáticas das carreiras dos professores, mantendo privilégios que “têm aos poucos vindo a roubar à profissão o prestígio, a autoridade e a simpatia que ela deveria ter junto da comunidade que é suposto servir”, tendo em conta que a progressão está estruturada em torno do tempo de serviço, daí o conflito entre o Governo e sindicatos. Isto tão só neste contexto de os professores aceitarem que bons e maus tenham progressões semelhantes. É certo que no meio disto há injustiças, com uns “escandalosamente mal pagos; outros escandalosamente bem pagos”.

Entretanto, o resultado da avaliação dos alunos foi desastroso, de que alguns professores são co-responsáveis. Em Matemática, o insucesso é generalizado: só 10% dos alunos conseguiram calcular a área de um polígono que envolvia a área de dois triângulos e dois retângulos. Setenta e dois por cento dos estudantes do 5.º ano não conseguira identificar o rio Mondego, e outras coisas mais.

Isto é a generalidade do nosso país, mas, como toda a regra tem exceção, aí vemos a Universidade da Beira Interior orgulhosamente a manter-se dentro das melhores 150 universidades do mundo, com menos de 50 primaveras, contra ventos e marés da injustiça que o Governo à mesma teima em manter o “subfinanciamento crónico”.
(In "Notícias da Covilhã", de 14-06-2018)



12 de junho de 2018

OS “MORTOS” QUE AINDA VIVEM


Não me estou a referir, como crente, à vida além-túmulo. Não estou a fazer referência à memória dos que partiram e que estão vivos na perenidade das nossas mentes, enquanto viventes deste planeta.

Não tenho a pretensão de fazer reviver a lenda de D. Sebastião, naquela que fora a falta de certezas sobre a sua real morte, o que na altura redundou desesperadamente na esperança de que o rei pudesse retornar ao trono de Portugal, numa manhã de nevoeiro. Aceito, contudo, que o covilhanense Aires Teles de Meneses, Alcaide-mor da Covilhã que serviu na Índia e acompanhou posteriormente D. Sebastião, na Batalha de Alcácer Quibir, onde ficou prisioneiro, tivesse sido resgatado e regressado à Covilhã, encontrando-se sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Mas também não posso deixar de manifestar a minha repulsa pelo facto de na altura em que escrevo esta crónica, tivesse sido objeto de um ato provocado por um vivo mas morto de espírito, aquando duma ação solidária de transporte de bens alimentícios do Banco Alimentar para uma instituição de Caridade, conjuntamente com mais dois colegas, ao ser abordado rispidamente e fora da habitual educação dos seus camaradas, polícias, com ar de excessiva autoridade para se fazer notar publicamente, quando terminávamos em correria o nosso trabalho voluntário, com a anuência e compreensão de dois ou três condutores à nossa retaguarda, que aguardavam com compreensão o términus do nosso trabalho. É que aquele vivo, mas morto de imaginação, certamente estaria com o estômago bem satisfeito enquanto nós, voluntariamente, procurávamos ir ao encontro de estômagos vazios. Ao invés desta sua conduta, já outros seus colegas, em situações similares, procuraram ajudar-nos na solução do trânsito.

No Público de 3 de junho, era dada a notícia de que o piloto russo desaparecido há 30 anos no Afeganistão, dado como morto, encontra-se ainda vivo e pretende regressar a casa. A aeronave havia sido derrubada durante a intervenção das tropas da ex-URSS no país, em 1987. É um facto que, por enquanto, não se sabe exatamente por que é que não deu sinais de vida durante estes anos. É, indubitavelmente, estranho!

Sobre os mortos da Primeira Grande Guerra e, depois da década de sessenta, no que diz respeito aos antigos Combatentes do Ultramar, houve casos insólitos de indivíduos dados como mortos e que, mais tarde, surgiram vivos. Recordo numa reportagem dum dos canais televisivos, um antigo combatente, numa das terras deste Portugal, a reclamar que ele estava ali vivo, era ele mesmo e não o que constava com o seu nome e datas de nascimento e falecimento,  na tabuleta duma sepultura que indicava. Erros da história. E os problemas com a rejeição das suas famílias, algumas já tendo reconstituído as mesmas com outros parceiros?!

Tenho um amigo que integra o nosso grupo de casais que se reúne frequentemente. Conforme contei em tempos, é um outro dos que fora dado como morto, mas que depois se verificou estar vivo. Aquando dum acidente de viação conjuntamente com outros colegas que se faziam transportar na mesma viatura, durante uma deslocação no tempo do serviço militar obrigatório, um grave acidente era noticiado nos jornais sobre a situação de três feridos graves e um morto, que era este nosso amigo. Já se encontrava na morgue para ser autopsiado quando o funcionário da mesma que ia recolher o considerado “cadáver” lhe vê cair o braço da mesa de pedra onde se encontrava depositado, dando sinal de vida. Afinal, descuidadamente, não havia um morto. O suposto morto estava vivo e é hoje um grande companheiro na nossa amizade.

Há tempos também nos foi dada indicação de uma pessoa que havia falecido. Todas as indicações recaiam nesse indivíduo. Qual o meu espanto quando consultava a necrologia num dos locais habituais, já próximo da noite, e, olhando para o lado, vejo essa pessoa, supostamente a encontrar na necrologia, sentada numas escadas, de telemóvel na mão…

Há, de facto, situações estranhas, mas sempre é bom o grito de alegria pelos vivos que “deixaram” de estar mortos.

É pena que hoje, por este nosso país, ainda nos deparemos não com mortos que felizmente “ressuscitaram”, só tendo surgido o acontecimento por lapsos profissionais ou de outra vertente qualquer, mas sim, sem surpresa a existência de muitos mortos-vivos.

(In "fórum Covilhã", de 12-06-2018)

1 de junho de 2018

In Quinzenário "O Olhanense", de 01-06-2018


UMA HONRA COLABORAR HÁ 25 ANOS COM O JORNAL “O OLHANENSE”


Por vezes as várias ocupações em trabalhos culturais que estão em fase carente e de alguma pressão para o seu término não me permitem olhar com uma atenção mais cuidada para os periódicos onde tenho o privilégio de poder opinar, como é o caso deste excelente jornal, superiormente dirigido por dois Amigos: o seu Diretor José Isidoro Silva Sousa e o Diretor Adjunto Mário Proença.

Por isso só hoje endereço os meus parabéns, não só ao Sporting Clube Olhanense pelas suas bonitas 106 primaveras, como também ao Jornal O Olhanense pelos seus 55 anos de vida plena de conteúdos que fazem inveja a muitas outras publicações análogas.

Como é que este serrano, nascido há 72 anos numa aldeia do concelho da Covilhã teve contacto e se inseriu, como “colaborador permanente” no Jornal O Olhanense?

Esse facto devo-o a um Amigo, que  não cheguei a conhecer pessoalmente e que já partiu para o outro lado da vida, Augusto Ramos Teixeira, quando, em 1993, me contactou telefonicamente a propósito dum pedido que coloquei nos jornais desportivos nacionais para a tentativa de localizar Velhas Glória do Sporting Clube da Covilhã, o que deu origem ao meu segundo livro sobre a história do clube serrano, donde viriam a surgir mais duas obras sobre o mesmo, e a prefaciar e apresentar a quinta de um autor Amigo, no pretérito ano.

Daí que, tendo conhecimento da existência deste quinzenário, o Amigo Augusto Teixeira me enviou um exemplar e o contacto com o falecido Diretor Honorário a Título Póstumo, Herculano Valente (ainda não era diretor) onde passei a, esporadicamente, ver publicados alguns dos textos enviados, e algumas referências à minha pessoa, na bondade daquele Homem.

Posteriormente, quando tive conhecimento do seu insólito falecimento, e que pensaria vir a terminar aqui as minhas linhas opinativas e informativas, fui agarrado pela mão incentivadora de Mário Proença para a continuidade, o que faço, com muita alegria, até aos dias de hoje, tanto mais que, a partir do momento em que este grande Senhor tomou aos ombros a responsabilidade do quinzenário, o que é certo e verdade é que o Jornal O Olhanense subiu muitos degraus na sua melhoria, o que dá gosto colaborar com o mesmo, principalmente para quem conhece os meandros de manter um periódico a circular regularmente.

Depois, o seu Diretor e meu prezado Amigo, José Isidoro Sousa, é o único que conheci pessoalmente num jantar de aniversário do meu clube serrano, que, casualmente, ficou com a esposa na minha mesa. Mais tarde conheci o Senhor Júlio Favinha.

Como desde os meus 17 anos tive contacto de escrever nos jornais, inclusive num boletim militar enquanto estive no serviço militar obrigatório, e, depois, mais assiduamente desde que me aposentei da minha atividade profissional, com regularidade em dois semanários e, trimestralmente, no órgão do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, de que fui subdiretor, geraram-se ainda mais raízes ligadas à escrita.

Em 2014 foi-me solicitado por um especial Amigo, CEO e Administrador da empresa que representei durante 40 anos, para escrever a história da atividade que então exercia, que é ancestral, levando a minha aventura de aceitar tal tarefa a vê-la agora já na mão do editor, romanceada, tendo passado algures pelo Algarve, pelo que também tem um bocadinho da colaboração do Amigo Mário Proença, a quem pedi algumas informações.

E é nesta veia de pensamento que mantenho acesa a chama da continuidade de transpor para o papel, a expressão do que sinto, do que penso, do que me rodeia, norteado sempre pela minha linha de pensamento, mas também na aceitação da opinião democrática dos outros.

E é neste contexto, que se consegue viajar pelo Portugal de todos nós, e pelo Mundo, através dos órgãos de comunicação social.

(In "O Olhanense", de 01-06-2018)



30 de maio de 2018

A USURA E A IGREJA


Embora na origem usura signifique juro, o seu conceito jurídico é mais alargado. Em direito, a usura “é um crime cometido por quem, com intuito de obter um benefício patrimonial, conseguir que outra pessoa se obrigue a conceder-lhe uma vantagem pecuniária desajustada à contraprestação, aproveitando-se da necessidade, inexperiência, incapacidade ou dependência dessa pessoa”.

Para quê estar a falar, mais uma vez, de corrupção, de fraude, de roubo ou de furto? Deixemos estes substantivos descansados, estas quatro palavras, das mais referidas na comunicação social, num fartar desta linguagem, que vai da política ao futebol, do ensino à religião, num etc. alongado. Deixemos esta desgraça! Que tal desgraça não passa de um euromilhões para muitos, como nos temos vindo a aperceber. Até parece já não se poder dar sentido a outras formas honesta de vivermos neste planeta.

São casos e mais casos só no nosso país, que não acontecem somente nas grandes urbes, mas também no nosso meio, no nosso distrito, no nosso concelho, na nossa cidade.

Mas vamos ao assunto que dá força ao título desta crónica.

O combate da usura não foi uma luta exclusiva da Igreja, mas as autoridades católicas foram, sem dúvida, as que mais persistentemente se opuseram à usura, que foi a maior preocupação da Igreja medieval no domínio económico.

A condenação da usura prolongou-se por muitos séculos. Ainda hoje, embora raramente, surgem iniciativas visando limitar juros e lucros.

A preocupação muito antiga de proibir ou limitar a remuneração (juro) do mutuante explica-se pela natureza particular dos empréstimos em tempos mais recuados, geralmente destinados a fazer face aos gastos entre duas colheitas. Se o juro não fosse limitado, os camponeses ficavam à mercê dos usurários que podiam, com as suas exigências, levar os mutuários ao extremo de se venderem como escravos para pagar dívidas.

A legitimidade ou ilegitimidade do juro é, portanto, assunto que vem desde a Antiguidade e que teve, aos longo dos séculos, oscilações e posições muito diferenciadas.

Os filósofos gregos começaram por se manifestar contra o juro. Aristófanes desaprova-o, Platão (428 a 347 a. C.) e Aristóteles (384 a 322 a. C.) consideram o juro contrário à natureza das coisas.

Os Romanos tomaram posições idênticas. Catão (234 a 149 a. C.) equipara o juro ao homicídio, Séneca (3 a. C. a 65) e Plutarco (35 a 120) condenaram igualmente o juro.

Mas as posições dos filósofos nem sempre foram as definidas nas leis ou as seguidas na prática corrente. Mais tarde, a Lei das Doze Tábuas (449 – 479 a. C.) limitou o juro máximo dos empréstimos a 12% ao ano. É que houve mesmo épocas em que os especuladores romanos chegaram a cobrar juros de 48% ao ano. Marcus Julius Brutus (84 a 42 a. C.), líder político militar romano, um dos assassinos de Júlio César, foi um dos prestamistas que emprestava a este juro.

Foi a Igreja que moveu uma luta mais persistente e mais continuada contra a usura. Para a Igreja, usura era toda a operação que implicava o pagamento de um juro. Assim sendo, o comércio e a banca, intimamente relacionados com o juro, eram atividades interditas, ficando os mercadores e os banqueiros sujeitos à excomunhão, o que na Idade Média era uma penalização muito mais temida pelos cristãos do que seria mais tarde.

A Igreja baseava a sua posição nas Escrituras, tando do Antigo como do Novo Testamento. Dos textos do Antigo Testamento: no Êxodo, cap. XXII,25; no Levítico, cap. XXV, 35 a 37; no Deuteronómio, cap. XXIII, 19 e 20. No Novo Testamento: Evangelho de S. Lucas, cap. VI, 34-35. Até ao século IV, os Doutores e Chefes da Igreja mantêm esta posição, considerando o juro contrário à misericórdia e ao humanismo. Daí em diante a situação vai mudar e o que começa a ser condenação nos Concílios de Arles (314), Niceia (325) e Elvira (305 ou 306) é apenas um juro cobrado por clérigos. Só a partir do Terceiro Concílio de Latrão (1170) e de Lyon (1274) é que a repreensão seria também aplicada aos leigos. A Igreja partia de dois pressupostos: um ligado à noção de tempo e outro ligado à profissão de comerciante.

Quanto ao primeiro, considerava a Igreja que sendo o tempo pertença de Deus não era suscetível de ser vendido. E como o juro era associado à ideia de venda do tempo, tinha de ser condenado. O segundo pressuposto estava relacionado com o conceito em que eram tidos os comerciantes. Os pensadores cristãos consideravam o comércio como associado à fraude e à avareza, causador da luxúria e potencial fonte de corrupção e de deterioração das boas maneiras e das virtudes, fonte de contacto com mercadores e estrangeiros.

Os jurisconsultos da época terão especulado acerca dos contornos do conceito de usura, permitindo depois chegar às soluções que justificaram uma flexibilização das posições da Igreja. Com uma nova expansão económica e, com ela, um maior desenvolvimento do comércio, começam a surgir interrogações quanto à doutrina da Igreja nesta matéria e fazem-se ouvir as primeiras vozes discordantes. Para essa flexibilização contribuíram também as opiniões de São Tomás de Aquino quanto à usura e aos comerciantes. O motivo que mais determinou a mudança de posições da Igreja foi que os mercadores a financiavam largamente quando disso havia necessidade. É assim que, a partir de determinada altura, vemos os mercadores a serem considerados pela Igreja como bons cristãos e a serem dispensados da Comunhão, do descanso dominical e do jejum, por imperativos de profissão.

A Igreja acabou, de facto, por tolerar a usura e mais tarde admiti-la desde que não houvesse excessos. A perseguição da usura ainda se estendeu por muitos anos.

(In "Notícias da Covilhã", de 31-05-2018)











8 de maio de 2018

“RIPA NA RAPAQUECA”


Neste mês de maio do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dezoito, como se escrevia nas atas municipais de outrora, já para além da Idade da Pedra e dos Metais, deu-me na tola de evocar expressões que, usadas pela minha avó materna, que partiu há muito quase centenária (o que hoje já não é novidade, mas naqueles tempos era), fazem momentos de humor entre amigos, quando sentados à mesa, principalmente de lautos apetites.
- “Anda côme, que isto não está ruim!”. Dizia a avó Rita. E, pelas bandas da Pousadinha algumas vezes a acompanhei ao curral (que isto de pocilga é mais para os tempos modernos) para “botar a vianda aos bácoros”, com o “Vaidoso” e o “Malhado” que eram também dos nossos melhores amigos, mas já esticaram o pernil, salvo seja, as patas, a contentarem-se com os dias de sol, descansando à sombra duma figueira, enquanto as galinhas e os marrecos aproveitavam o farelo que lhes davam para além do milho.  Cinco mil réis talvez não custasse um bácoro (e era preciso ver se não tinha grainha) mas o dinheiro não dava para tudo e era preciso pagar a décima, quando alguns também arrotavam com a taxa militar porque haviam ficado livres da tropa. Livraram-se, sim, porque até podiam ir parar a algum quartel longe da famelga que não fosse o Batalhão de Caçadores 2 da Covilhã, para já não falar dos desgraçados que foram obrigados a embarcar para a Índia, com Goa muito falada.
Eram os anos 50 da nossa era, mas do outro século. E entre “bota aí mais uma pinga que a comida não está somenos”, que isto de comeres e beberes é que nos dão vida, porque a própria vida são dois dias, havia por vezes aquele grito:
- “Esse bandido do Salazar é que é o culpado!...”. Lá levava um raspanete o atrevidote, que, um pouco mais avinagrado, lançava o bode expiatório da miserável féria que não dava sequer para comprar o milho painço para as pombas, quando até aos coelhos lhes chegou a malina.
E dizia o avisador cauteloso: - “Tu não sabes que por ter morrido o Carmona e lá estar o Craveiro Lopes, ainda há por aí muitos bufos?!... Ainda vais parar às grades!”
É que isto também não é para todos terem vivido em dois séculos.
E agora, já que os herdeiros bateram a bota, coube-nos a desgraça de termos de limpar o pinhal.
Mas, Ripa na Rapaqueca, porque fez agora treze anos, no dia 6 de maio, que faleceu o jornalista e locutor desportivo Jorge Perestrelo. Uma das figuras do jornalismo desportivo mais importantes da rádio portuguesa. São dele esta expressão que se tornou célebre, assim como “É disto que o meu povo gosta”, e “O que é isso, ó meu?” Relatou dois mil e um golos à boleia de gritos, de entusiasmo e de um ritmo que dava o dom de cativar todo e qualquer ouvido. Era aí, no golo, no momento em que o futebol celebra, que mais encantava. Como fez em 2004, no Estádio da Luz, quando viu Ricardo, um guarda-redes, a marcar a outro, ao da Inglaterra, quando a Seleção Nacional ganhou nos penáltis nos quartos de final do Europeu.
Jorge Perestrelo era assim mesmo: vivia e relatava tudo de alma cheia, como se de um adepto se tratasse. Fosse qual fosse a equipa. No dia anterior ao de se lhe calar definitivamente a sua voz, ainda estava de headphones na cabeça e de microfone na mão, a relatar, sem saber, o último golo da sua vida, o que Miguel Garcia marcou em Alkmaar, na Holanda, que apurou no último minuto o Sporting para a final da Taça UEFA. Aí, sim, não se cansou de gritar “Golo!”, antes de dizer “Te amo Sporting!”.
Usava a voz como um pincel para colorir o que via. Foi na SIC e na TSF onde passou largos anos da sua carreira, que celebrizou expressões como as atrás referidas. Quando via no relvado alguém a falhar um golo feito ou a fazer algum disparate, era comum questionar: “O que é isso ó meu?”, a que já aludimos.
Tinha um estilo emocionante, vibrante e muito alegre. A maneira de narrar o futebol, as palavras que inventou para descrever toda a emoção no futebol. E ainda se lhe conhecia mais esta expressão: “Eu com a minha barriguinha chegava e faturava”. Foram inúmeras as expressões evidenciando o seu fulgor.
Do 25 de Abril, do 1º de Maio e dos 50 anos de Maio de 68 já muito se falou. Voltamo-nos para política? Sobre os fantasmas do PS? Os venerandos José Sócrates, Manuel Pinho e quejandos que também participam na festa dos espertos?
Agora até temos a Coreia do Norte com a Coreia do Sul a procurarem a paz! Felizmente!... Que seja uma realidade!...
Mas desta vez não estou disposto a falar destes temas. Bonda! – Como dizia a minha avó, e Ripa na Rapaqueca!... como se expressava Jorge Perestrelo.
Entretanto, não posso deixar de me congratular com o facto do Papa Francisco ter nomeado bispo de Viseu, o padre António Luciano dos Santos Costa, que chegou a paroquiar na Covilhã e a exercer outras funções, pelo que formulo os melhores votos de sucessos pastorais, com muita pena de não passar a ser ele o Bispo da minha Diocese – a Guarda. O meu abraço amigo.




(In "fórum Covilhã", de 08-05-2018)