8 de dezembro de 2018

MEMÓRIAS DA EXTINTA “ERNESTO CRUZ” NUM ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO








Esta é já a terceira vez que os antigos patrões da Ernesto Cruz quiseram confraternizar com os seus antigos trabalhadores, colaboradores com quem se irmanaram na recordação de muitos anos de trabalho em comum.
Recorde-se que a extinta empresa remontou a sua fundação a agosto de 1939 e a constituição de Ernesto Cruz & Cª surgiu em 1947. Foi iniciada pelos sócios Ernesto Cruz, António da Cunha Taborda, Fernando Lopes da Costa Alçada e Aníbal Mousaco Alçada. Teve então uma fase de desenvolvimento em grande ritmo, com cerca de 650 operários que se revezavam por turnos, passando para 614 em abril de 1974, altura em que já vinha a atravessar um período difícil, apesar de haver um excelente ambiente de trabalho. Houve então a necessidade de em 23 de outubro de 1974 ser pedida a intervenção estatal pela entidade patronal e pela Comissão de Trabalhadores, tendo esta chegado a realçar o facto de a empresa ser caso único no país onde a entidade patronal “não faz boicotes nem chantagens, antes pelo contrário, mostra-se aberta ao espírito de iniciativa dos trabalhadores”. Isto não evitou que o grupo de empresas Ernesto Cruz & Cª., Lda não acabasse por encerrar em 1990.
Em 6 de agosto de 1972 eram sócios: Fernando Lopes da Costa Alçada, Júlio Henrique Casaleiro Torres Cruz, Carlos Alberto Casaleiro Torres Cruz, Ernesto Henrique Casaleiro Torres Cruz, Maria Leonor Casaleiro Torres Cruz e Silva, José dos Santos Taborda, Francisco Manuel Pinheiro Alçada, João Carlos Pinheiro Alçada e Maria Leonor de Albergaria Pinheiro Alçada de Sousa Byrne.
O grande Homem desta empresa, e seu fundador, Ernesto Cruz, foi um visionário da indústria e grande vulto do principal clube da região – o Sporting da Covilhã (SCC) – onde foi presidente da Direção e levou, pela primeira vez, o clube à então Primeira Divisão Nacional, que nascera em 11 de novembro de 1906, e viria a falecer com 62 anos, em 6 de outubro de 1969, quando muito ainda se esperava desta grande figura covilhanense.
Entretanto, as instalações da empresa foram adquiridas pela UBI – Universidade da Beira Interior, onde se situa o Pólo das Ciências Sociais e Humanas, passando, muito justamente, a ser designado, em sua homenagem, Pólo Ernesto Cruz.
Por tudo isto, os sócios presentes neste almoço de confraternização, realizado num restaurante da cidade, no dia 16 de novembro, Carlos Alberto Casaleiro Torres Cruz (filho de Ernesto Cruz e atualmente o sócio n.º 1 do SCC) e Francisco Manuel Pinheiro Alçada, recolheram de todos bons momentos, sentindo-se “todos unidos num passado vivido com o mesmo objetivo, levarmos a empresa criada essencialmente por meu Pai a bom porto”, nas palavras do ex-sócio Carlos Cruz.
Neste almoço estiveram 62 participantes, onde se incluíam 15 familiares, ficando desde já decidido dar-lhe continuação no próximo ano.
É um exemplo para que outras extintas empresas possam relacionar laços de amizade no encontro de velhas memórias profissionais.


(In "Notícias da Covilhã" e "Jornal do Fundão", de 22/11/2018)

14 de novembro de 2018

OS 100 ANOS DA GRANDE GUERRA


Escrevo estas linhas exatamente no dia 11 de novembro, altura em que perfaz um centenário da assinatura do Armistício que pôs fim à Grande Guerra.
Jamais se pensaria que esta luta entre nações iria atingir tamanho morticínio em tanta gente, pessoas inocentes, que seriam forçadas a integrar contingentes para as frentes de batalha, em trincheiras, deste modo porquanto as táticas militares desenvolvidas antes da Primeira Guerra Mundial, esta que agora assinalamos o centenário do seu fim, não conseguiam acompanhar os avanços da tecnologia e se tornaram assim obsoletas. Tecnologia daqueles tempos em relação aos dias de hoje é como compararmos entre o dia e a noite.
Só que, desta Primeira Guerra Mundial, que é considerada por muitos historiadores como um marco no início do século XX, resultou em novas correlações de forças que se estabeleceram no mundo. Assim, foi o declínio da Europa e a ascensão dos Estados Unidos da América (EUA) à condição de principal potência mundial.
A Grande Guerra enfraqueceu a confiança da Europa em si própria. Os Estados Unidos viam-se já como diferentes e melhores que o resto do mundo. Esta guerra veio reforçar essa sua entendida superioridade.
Efetivamente, antes deste conflito, a Europa era o centro do mundo. Depois da guerra, esse centro foi para os Estados Unidos. A moeda de referência internacional deixou de ser a libra e passou a ser o dólar.
Neste dia 11 de novembro do ano da graça de 2018, líderes de todo o mundo reuniram-se em França para comemorar o Dia do Armistício.
Muito se contou, muito mais haveria a dizer sobre esta Guerra Mundial que seria a primeira para depois se despoletar uma Segunda Guerra Mundial, hecatombe de ainda piores proporções, em pouco mais de duas décadas. E para isso contribuíram as imposições ultrajantes do Tratado de Versalhes de 1919.
Desapareceram assim os impérios Alemão, Russo, Otomano e Austro-Húngaro e surgiu a criação de novos países na Europa e Médio Oriente. Vieram a perder a vida nesta Guerra Mundial, uma das maiores guerras da história, mais de nove milhões de combatentes, onde o grande sofrimento e a banalização da morte era uma evidência.
Portugal, escusadamente, também entrou nesta Grande Guerra, sem condições nem preparação militar, defrontando-se com as doenças, a fome e a degradação do equipamento militar. Participou neste primeiro conflito mundial ao lado dos Aliados, o que estava de acordo com as orientações da República, ainda recentemente instaurada. E isto aconteceu em março de 1916, quando a Inglaterra decidiu pedir ao Estado português o apresamento de todos os navios alemães e austro-húngaros presentes na costa lusitana. Esta atitude justificou a declaração oficial de guerra a Portugal pela Alemanha, em 9 de março daquele ano.
E, desta feita, em 1917, as primeiras tropas portuguesas, do Corpo Expedicionário Português, sob o comando do general Tamagnini de Abreu, seguiram para a Flandres, para essa lamentável guerra na Europa. Viria Portugal a envolver-se, depois, em combates em França, tendo a Inglaterra fornecido treinamento às tropas portuguesas, tal o estado em que elas iam.
Desta região beirã, e mormente da Covilhã, do Batalhão de Infantaria 21, também partiram jovens militares.
Os portugueses também tiveram grandes perdas, onde se incluíram militares desta região.
Alguns destacaram-se por atos de grande patriotismo em heroicas ações, como o soldado Aníbal Augusto Milhais, conhecido como o Soldado Milhões, o único militar português condecorado com a mais alta honraria nacional, a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, no campo de batalha em vez da habitual cerimónia pública em Lisboa.
Da Covilhã desde há muito se ouviu falar do soldado corneteiro José Antunes, conhecido por “Garri” que, em França, em plena guerra, com o seu apurado ouvido conseguiu captar os toques de clarim alemão que depois executava com grande perfeição. Desta forma, iludia o inimigo, pois fazia soar o toque de retirada, ou outro. Ter-lhe-á sido atribuída também a medalha daquela Ordem Militar. Isto vem referido em vários livros e jornais. Entretanto, numa posterior investigação de dois historiadores da Covilhã, que escreveram “A Covilhã e a Grande Guerra (1914-1918)” este nome não consta como tendo sido condecorado com esta insígnia. Como já faleceu e se desconhecem os familiares próximos, não há qualquer hipótese de recolher mais informações fidedignas, mantendo-se a possível lenda, já que a investigação foi feita com a existência de documentação autenticada.
Esperemos que este mundo global singra no caminho do entendimento e se eliminem logo à partida quaisquer tentativas de uma terceira guerra mundial.

(In "Notícias da Covilhã", de 15-11-2018)

13 de novembro de 2018

A WEB SUMMIT DO NOSSO CONTENTAMENTO


Os quatro dias deste importante evento já voaram. Foi uma lufada de vento. Nem tudo foi um perfume suave de fragância. Para além da participação de 1800 startups, 1200 oradores e perto de 70 mil participantes, número muito superior ao do transato ano, conforme a comunicação social noticiou, há que ter bem presente as palavras do presidente da República português: “O digital devia ser para a liberdade. Para abrir economias, sociedades, promover o diálogo e a tolerância, mas hoje em dia vemos o contrário em todo o mundo, vemos xenofobia, vemos intolerância, vemos racismo, vemos guerras comerciais, vemos fronteiras a fechar”.
Este evento teve ainda a participação do inventor da Web, Tim Berners-Lee e outros mui ilustres cérebros do digital, tendo sido bem frisado por Marcelo Rebelo de Sousa que “o digital não se pode esquecer do resto da sociedade”.
Importante mesmo foram os muitos avisos, para além dos já referidos, também, entre outros, o de Cristopher Wylie, programador britânico que denunciou o escândalo de dados do Facebook e da Cambridge Analytica, referindo, e muito bem, que “estamos a deixar-nos colonizar pelas empresas de tecnologia”, tratadas como “entidades divinas”. É que, de facto, para muitas pessoas, a confiança nas empresas de tecnologia sofreu danos, recordando-nos, por exemplo, os nossos dados pessoais roubados, num autêntico abuso. Mas isto daria pano para mangas…
O fundo de inovação social que o Governo apresentou é preciso que vá para a frente a fim de que sejam mesmo aproveitados o promover projetos nas áreas da educação, empregabilidade, igualdade do género e envelhecimento ativo, esperando também que a promessa do grupo Volkswagen para a abertura de um centro de desenvolvimento de software, em Lisboa, possa singrar.
Segundo o jornal Sol, foram percorridos 935 mil quilómetros, neste evento, em Lisboa, e consumidos 363 mil cafés, e, o jornal Público, que houve direito, noutras zonas de Lisboa, a copos de poncha e bolas-de-berlim, entre as ofertas. Tantos preciosismos para quê? Por acaso não falaram nos pastéis de Belém. Se isto fosse passado na mui nobre Cidade da Covilhã, teríamos que mencionar as cherovias.
Entre parêntesis, salientar, fora deste âmbito, os prémios para dois empreendedores da Covilhã, onde, entre vários, aqui instalados, acabam de vencer duas competições. A eCO2blocks, spin-off da Universidade da Beira Interior (UBI), venceu a final internacional da ClimateLauchpad, a mais importante competição mundial de ideias de negócio com base em tecnologias ambientalmente responsáveis. Foi uma ideia desenvolvida no Departamento de Engenharia Civil e Arquitetura (DECA), na pessoa do professor João Castro Gomes, e o estudante de doutoramento nesta área, Pedro Humbert. Neste concurso houve a participação de 135 concorrentes e isto aconteceu nos dias 1 e 2 de novembro, em Edimburgo, Escócia. Ganharam ainda o prémio Sistemas de Construção Sustentável. Este projeto empreendedor sugere que sejam utilizados produtos para a construção, como blocos, mas feitos a partir de resíduos, evitando assim o cimento e a utilização de água potável na respetiva produção que endurecem a absorver CO2. É propósito fazer com que este produto, que é amigo do ambiente, possa chegar ao mercado para revolucionar a construção.
Conforme já havia sido noticiado, também o empreendedor Pedro Pereira, sediado no Parkurbis-Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã, conquistou o prémio nacional TourismExplorers, através da startup Wicked-Cat. Assim, o representante da nossa Cidade da Covilhã, veio a vencer o projeto “Artist”, na grande final realizada no último dia do mês de outubro. Nesta segunda edição participaram 12 cidades portuguesas, entre as quais, como é óbvio, a Covilhã.
Após a Web Summit, e agora no nosso meio, a Universidade da Beira Interior (UBI) vai mostrar, durante dois dias, como chegar ao mercado de trabalho. Com a iniciativa “Olá Emprego! Start in UBI”, é seu objetivo promover o emprego, a formação e a internacionalização, com início no dia 13 de novembro, no pavilhão da ANIL. Trata-se de uma parceria entre a UBI, Câmara Municipal da Covilhã, Instituto de Emprego e Formação Profissional da Covilhã (IEFP) e a Associação Académica da UBI. Participarão cerca de 40 entidades ligada aos setores de emprego e formação.
Assim, os visitantes, até final, podem assistir a diversos painéis, com dedicação pela Relação entre a Escola e a Empresa, procura de emprego, empregabilidade e empreendedorismo, assim como a internacionalização.
Trata-se de uma importante vertente de conhecimentos.
Não vamos esmorecer por quaisquer tropeças que possam ainda vir a surgir pelo caminho, mas antes elevar o ânimo neste caminhar para a transformação do nosso país, e da nossa região, para que cada um não deixe de ter o seu emprego, com satisfação, neste aproximar a passos largos do final de mais um ano.


(In "fórum Covilhã", de 13-11-2018)

24 de outubro de 2018

2.º ENCONTRO DE ANTIGOS MORADORES DA RUA VASCO DA GAMA E DO SERRADO

Foram mais de uma centena, entre casais e aqueles que vinham sós. Foi no passado dia 13 de outubro. A um restaurante da Cidade, iam chegando muitos dos que já não se viam há décadas. E havia famílias daquela geração dos anos 40 do século passado, na sua maioria, em que eram muitos irmãos.
Vários encontros nostálgicos, tal como este, daqueles tempos da vivência entre vizinhos e amigos de outrora, da infância à juventude, se vêm despertando no emergir de novos encontros de amizade.
Estes vieram de vários pontos do País, tal como os irmãos Capelo radicados do Norte ao Algarve; o Galhano de Vila Franca de Xira; o Américo Ferreira e a irmã Gabriela, assim como a Maria José Duarte, de Lisboa, entre outros.
Foram sãos momentos de franco convívio, onde não faltou o fado na excelente voz de uma jovem.
A amizade, como sempre tenho dito, é uma festa. E quando ela perdura desde a infância e juventude, como em vários momentos foram recordados, independentemente das vicissitudes da vida, repercute-se de uma alegria redobrada.
É que, a partir dos anos 60 do mesmo século foi a irrevogável partida para outros pontos do retângulo português, e além-fronteiras, para as suas vidas profissionais e constituição de família.
De meninos e moços de outrora surgem agora já não como papás, mas com uma promoção superior, a de avós, neste ano da graça de 2018.
E assim se dissiparam alguns momentos que, parecendo hiperbólicos, mais não foram que resultantes da nostalgia de muitos de nós, todos no óbvio de mortais, mas procurando sempre um resquício de podermos abraçar os que ainda se mantêm no mundo dos vivos.
E o sol, antes do anunciado surgimento do furacão Leslie, disse-nos adeus até ao próximo encontro.

(In "fórum Covilhã", de 23-10-2018 e "Notícias da Covilhã", de  25-10-2018)

9 de outubro de 2018

OS CAVACOS DE CAVACO


Podia aqui voltar a falar de jornalismo, jornalistas e jornais, e da crise que atravessa este mar das letras, sejam elas por via do papel, ou pela online.
Ou, então, preambular sobre a Operação Marquês com o sorteio do juiz Ivo Rosa como escolha para a fase de instrução, na expressão da defesa de Sócrates, de que “finalmente há um juiz legal”.
Segundo o Público, “há quem considere este juiz um obstáculo por defender constantemente os direitos das pessoas investigadas, criando obstáculos às investigações”. Terá agora de se pôr a par dos 132 volumes e 903 apensos, que, tudo junto pesa mais de uma tonelada. E eu acrescento: de cavacos.
O ex-presidente Aníbal Cavaco – o Sr. Silva como uma vez lhe chamou Alberto João Jardim – emergiu duma interrupção prudencial, para sobressaltar as consciências dos governantes da “geringonça”.
Só que lançou cavacos para a fogueira, mas as faúlhas foram ter ao Presidente da República.
E é nesta investida do seu linguajar que a sua suspeição sobre o processo que conduziu à nomeação de Lucília Gago, em substituição, por termo de mandato, de Joana Marques Vidal, de Procuradora Geral da República, que lhe é endossada por Marcelo Rebelo de Sousa a resposta merecida: é que a decisão foi do Presidente da República e não do Governo de António Costa, com sentido de Estado.
Por isso, as “estranhíssimas” razões desta sua mexeriquice foi como sair-lhe o tiro pela culatra.
Efetivamente, Joana Marques Vidal cumpriu com competência e zelo o seu mandato, que ainda não terminou, e deu um “contributo decisivo” para a credibilização do Ministério Público, mas daí a que Cavaco considere que a sua não recondução é “a decisão mais estranha do mandato da ‘geringonça’”, que nem foi da sua responsabilidade, vai uma diferença muito grande.
Num ex-Presidente da República, como o Sr. Aníbal de Boliqueime foi, à profundidade das acusações é-lhe exigida, nesta especial condição, a ponderação das palavras, e não só quando ele a exigia aos outros. É preciso estar à altura do seu estatuto, como sempre o foram os seus antecessores. Como referiu Manuel Carvalho, in Público, “porque o que disse não corresponde à produção de uma qualquer ideia, à elaboração de uma crítica ou à sugestão de um caminho para o país: o que ele fez foi apenas insinuar que a não recondução de Joana Marques Vidal é consequência de ‘algo muito estranho’, tão estranho como um golpe de bastidores destinado a obstruir a Justiça e a proteger os poderosos”.
Pois é, se Cavaco vê no processo coisas “estranhíssimas”, deve revelá-las. E por que não recordar que foi Cavaco Silva, de Boliqueime, que nomeou Pinto Monteiro, o procurador da condescendência com as suspeitas dos então donos disto tudo?...
Meu Caro, Sr. Aníbal Cavaco Silva, ex-presidente de Portugal Continental, Açores, Madeira e Porto Santo, senhor da degustação do bolo-rei, e que nem um macaco a subir ao coqueiro em janeiro de 1990, de visita a São Tomé e Príncipe, se bem me lembro, na expressão, esta sim, saudosa de Vitorino Nemésio; termino esta minha crónica com excertos de Helena Sacadura Cabral, estes que valem mais ouvir que as narrativa de Vossa Excelência:
- “As criadas dos anos 70 passaram a ‘empregadas domésticas’ e preparam-se agora para receber a menção de ‘auxiliares de apoio doméstico’;
- De igual modo, extinguiram-se nas escolas os ‘contínuos’ que passaram todos a ‘auxiliares de ação educativa’ e agora são ‘assistentes operacionais’;
- Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por ‘delegados de informação médica’;
- E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em ‘técnicos de vendas’;
- O aborto eufemizou-se em ‘interrupção voluntária da gravidez’;
- Os operários fizeram-se de repente ‘colaboradores’;
- As fábricas, essas, vistas de dentro são ‘unidades produtivas’ e vistas da estranja são ‘centros de decisão nacionais’;
- O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo a ‘iliteracia’ galopante;
- Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.º classes, para não ferir a suscetibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes ‘Conforto’ e ‘Turística’;
- Aquietadas pela televisão, já não se veem por aí aos pinotes crianças irrequietas e ‘terroristas’; diz-se modernamente que têm um ‘comportamento disfuncional hiperativo’;
- Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado ‘invisual’. (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos – mas o ‘politicamente correto’ marimba-se para as regras gramaticais…).
- Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em ‘implementações’, ‘posturas pró-ativas’, ‘políticas fraturantes’ e outros barbarismos da linguagem.
E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a ‘correção política’ e o novo-riquismo linguístico.
Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma ‘politicamente correta’.
Hoje não se fala português… linguareja-se!”
Pois é, Sr. Aníbal Cavaco Silva, não é que o Senhor linguarejasse, mas, como sói dizer-se, e me perdoe por mor dos meus pecados: O Senhor meteu a pata na poça!...

(In " fórum Covilhã", de 09-10-2018)

4 de outubro de 2018

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA JOÃO FERNANDO ALMEIDA MOTA


Reiniciamos neste número, conforme já foi referido no editorial, várias estórias da história de antigos Combatentes, associados deste Núcleo, covilhanenses, de raiz ou de coração, que também se viram obrigados um dia a partirem para terras longínquas em missão de soberania, deixando as famílias em sobressalto porquanto jamais sabiam o desfecho duma guerra subversiva entre povos irmãos, na teimosia ditatorial dos senhores dos governos do Portugal de então.
Enquanto uns mais não podiam que aceitar as ordens de marcha para as colónias – então referidas como províncias ultramarinas – outros fugiam deste Portugal amordaçado, quer por via da emigração de “assalto” ou, então, por linhas subterfugias logo que se aproximava o serviço militar, surgindo após o 25 de Abril num apanágio ufano de exilados.
O personagem que hoje trazemos a esta página, é mais um dos milhares de Portugueses que, deste País, percorrido de lés a lés, quer seja de Melgaço lá bem no Norte, até à açoriana Rabo de Peixe, cumpriram a sua missão e hoje sentem, o que foi a nostalgia, e os medos, quando naquelas terras além-mar foram forçados a ir, mas também o terem muitos sentido na pele o stress pós-traumático, como uma ferida irreversível que o Estado português deixou, na incompreensão, num mundo de jovens, hoje septuagenários e octogenários, alguns numa autêntica psicose que quase destruiu a família.

O João Mota, covilhanense nascido em 15 de dezembro de 1951, até foi um dos bafejados pela sorte na guerra de Moçambique, como mais à frente o mesmo descreve.
Na Escola Secundária Campos Melo (na altura Escola Industrial e Comercial) obteve o curso de técnico de tecelagem e, assim, passou pela indústria de lanifícios, em várias empresas do concelho da Covilhã, durante 48 anos, vindo a aposentar-se em janeiro de 2016.
Com os amigos covilhanenses, Victor Bicho, Carlos Silva e Jorge Carvalho, o João Mota iniciara então o serviço militar, no dia 25 de abril de 1972 (quem diria que daí por dois anos, este dia e mês seria uma data assinalável na história de Portugal!...
), no Regimento de Infantaria n.º 7 - RI 7, em Leiria. Daqui partiu para o Regimento de Transmissões, no Porto, onde tirou a especialidade de operador cripto, até julho de 1972. Formou depois uma Companhia com vista à mobilização para Moçambique – CART 7255 –, em Torres Novas, no mês de novembro deste ano, embarcando no avião para Moçambique no dia 11 de janeiro de 1973.
Todo o tempo foi passado no aldeamento chamado “MUFA”, que fica a meio caminho entre Tete e Cahora Bassa (Cabora Bassa durante o período colonial português). Era um quartel em oito casas pré-fabricadas, deixado ao exército português por uma empresa italiana, que fez obras na zona relacionadas com linhas de alta tensão, vindas da barragem para a África do Sul.
O João Mota, passado pouco tempo da sua chegada ali, foi incumbido pelo capitão da sua Companhia, da tarefa de projetar filmes nos aquartelamentos próximos e também para a população de cor. Era a chamada “psico” a funcionar, que, por determinação do departamento de logística em Nampula, quartel general, decidiu que assim se realizasse. Para o efeito entregaram todo o material: máquinas de projetar, filmes antigos, pano branco, para os mesmos poderem ser vistos.
O João Mota, durante todo este tempo, era visto como o homem que trazia distração e boa disposição para o mato. Mensalmente tinha que enviar um relatório para Nampula sobre qual a impressão dos espetadores, e bem assim sugestões, para elevar a moral. E, para isso, visitava todas as semanas, as obras da barragem, de enorme grandiosidade.
Tendo sido esta a sua tarefa no Ultramar, João Mota disse-nos que não se pode queixar, tendo regressado à então Metrópole em 5 de dezembro de 1974, sem que tivesse havido qualquer baixa ou ferido na sua Companhia.
Sendo sócio do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes desde 1986, tem desempenhado vários cargos nos Corpos Gerentes desta instituição de grande mérito: Vogal da Direção, de 2014 a 2017; Secretário da Assembleia Geral, de 2015 a 2016, e atualmente Secretário da Direção.
E talvez porque a sua missão no Ultramar passou também por transmitir momentos de entretenimento, o João Mota é uma das personagens reais da ficcionada “Tertúlia Hotel Covilhã-Jardim”, a que é feita referência no editorial.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 112 - Outubro/2018", digital)

RECOMEÇAR

É este o título que dei ao texto para este número. Efetivamente, o dicionário dá vários exemplos e para este verbo transitivo e intransitivo, quer dizer “começar de novo ou ter recomeço o que se interrompeu”. Isto é, “continuar”.
“Se bem me lembro”, na recordação de Vitorino Nemésio, foi no n.º 95 deste jornal, de janeiro a maio de 2014 que, então como subdiretor, sugeri a criação de três páginas distintas (“Entrevista a um Combatente”, “Sobre Desporto” e “Conte-nos a sua História”, de um antigo Combatente).
A “Entrevista a um Combatente” acabaria depois por se fundir na página alusiva a “Conte-nos a sua História”.
Entretanto, um convite do então CEO da Liberty Seguros em Portugal, insistiu para que escrevesse a “História dos Seguros em Portugal”, isto no dia 13 de junho de 2014, um mês depois de ter assumido a tarefa de subdiretor de O Combatente da Estrela.
Aguentei tanto quanto pude, com as duas responsabilidades, até que em 2 de janeiro de 2017 coloquei o problema à Direção deste Núcleo da Liga dos Combatentes, da minha impossibilidade de manter as duas colunas que então me propusera executar, continuando no entanto com o editorial, já que nem eu calculava que daqui para a frente iriam surgir centenas de horas de trabalho para a concretização do livro a que dei o título “O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros”, referida no último número de “O Combatente da Estrela”.
Assim, o n.º 105, de janeiro a março de 2017 foi o último em que se mantiveram as referidas páginas, da minha responsabilidade, passando os posteriores números a ter inserida a página desportiva da responsabilidade do entusiasta pelo desporto citadino, Carlos Miguel Saraiva, mormente do Sporting Clube da Covilhã (SCC), de que eu já havia escrito quatro livros diferentes, e tive o prazer de prefaciar, e apresentar, a sua obra também sobre o SCC – “História do SCC” – tendo, para mim, a felicidade de ver alguém a dar continuidade, com assaz entusiasmo, ao maior clube da Beira Interior – o nosso SCC. Assim, o Miguel Saraiva tem-se encarregado, com muito mérito, dessa página n’O Combatente da Estrela.
Como já foi referido, sobre o livro que, com grande insistência me foi solicitado escrever, atrás referido, e para não faltar a um compromisso baseado na grande confiança em mim depositada, acabei por terminar o livro em 13 de junho passado, um trabalho de 896 páginas, comportando toda a história dos seguros desde a antiguidade até aos dias de hoje, em duas partes, conforme já referi, e, desta forma já inédito no mercado, reforcei esse ineditismo inserindo-lhe um cunho romanesco.
Na parte romanceada que originava pausas de ficcionadas tertúlias em vários pontos do País, com início em Valbom (Gondomar), Porto, Leiria, Algarve, Covilhã e Lisboa, foram inseridas várias personagens reais, na sua maioria covilhanenses, e outra fictícias, que se desenrolavam em estabelecimentos reais (confeitarias, cafés, tascas e restaurantes).
Dava assim oportunidade de falar sobre figuras e eventos históricos das localidades onde se desenvolviam as ficcionadas tertúlias. Por exemplo, na Covilhã, surgiram duas tertúlias: “Tertúlia Hotel Covilhã Jardim” e “Tertúlia do Celso”.

Na “Tertúlia Hotel Covilhã Jardim” tive o prazer de poder contar com personagens reais do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, entre os quais os amigos João Azevedo, João Mota, Victor Oliveira, José Matias, e ainda o João Petrucci.
A apresentação do livro, a cargo do novo CEO da Liberty Seguros em Portugal, Dr. Rogério Bicho, que ocorreu no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, foi um êxito e daqui extraímos uma foto com os elementos tertulianos, personagens reais deste Núcleo, para o livro “O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros”, onde estiveram presentes, e agradeço.
Assim, volvido mais de um ano e meio, volto à disponibilidade para recomeçar com a rubrica “Conte-nos a sua história”, que neste número se reporta ao antigo Combatente João Fernando Mota.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 112 Outubro/2018, digital)

3 de outubro de 2018

O ZÉ DO MEGANE


Como entrámos no Outono, o tempo de férias praticamente acabou, começaram as aulas depois dos protestos dos professores, e dos taxistas terem terminado os seus, contra a “lei Uber”, para além de outros acontecimentos que foram dando corpo à “silly season”, houve algum tempo para leitura.
Pela minha parte, coube-me o deleite de, após ter devorado dois livros, passar a folhear despreocupadamente aquele que escrevi e foi apresentado no passado dia 8 de setembro.
Os meus dedos levaram-me indiscriminadamente para as páginas 119 e 120, da parte romanesca, na tertúlia de Valbom, mas desta vez a ter lugar no Restaurante Margarida, em Leça da Palmeira:
“- Psssstt… - Chamou à atenção o Zé do Megane, para o que se estava a passar, ali bem perto, à porta do restaurante, mas bem fora dele.
Um grupo de cinco turistas visitava o Porto. A carrinha com o cicerone parou à porta. Eram três lindas moças e dois esguios rapazes.
Então dizia o cicerone: Aqui é Leça da Palmeira e o Porto é intitulado pelos ilustres da História de Portugal, como a ‘Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto’.
Os sorrisos das moças às explicações do cicerone faziam inveja a quem passava, tal a sua graciosidade, todas de calças de ganga, curtas, a denunciarem as formas do corpo, para além dos seus cabelos compridos e uma de rabo de cavalo.
Os dois rapazes daquele grupo turista, tanto como elas, procuravam dos seus telemóveis obter as melhores fotografias.
Ao recuarem para obterem uma melhor panorâmica – cuidado com os automóveis!... – dizia o cicerone – uma das moças pisa inadvertidamente um velho que ali passava, de jornal debaixo do braço, e ainda uma caixinha de bolos, que comprara na pastelaria para o aniversário da sua Maria que fazia 80 anos, e, na outra mão, uma bengalinha, que por graça e mor do senhor doutor, o aconselhara a andar assim mais seguro.
Da pisadela, susto do velho, um pouco mais de vento, jornal para o chão, e logo duas páginas centrais voam e se enrolam num automóvel que passava.
Corou e deixou-se de sorrisos a pequena enquanto as suas colegas se riam.
Um dos rapazes corre atrás das páginas do jornal que voaram quando obriga um ciclomotorista a travar bruscamente e a estatelar-se no chão. Para além das calças rotas (rotas já elas estavam quando as comprou com aqueles buracos…) nada mais aconteceu, depois de mirar a Famel Zundap que não ficara danificada.
O rapaz do motociclo, após ter recebido pedidos de desculpa, por lhe terem ocasionado aquele susto, do turista e seus companheiros de viagem, bem como o cicerone, lá seguiu o seu caminho, tanto mais que as três gaiatas também o haviam fascinado.
Entretanto, o velho, de sua graça, Joaquim, vendo todo este espetáculo, acaba por dizer: - ‘Deixe lá o jornal, minina, era só p’rá mor de m’entreter com a minha Maria que hoje faz 80 anos. O pior foram os bolos que ficaram esborraçados!... Não viu que o rapazinho a correr atirou-me com a caixa ao chão e pisou os bolos?’
Deste episódio, o Zé do Megane que, entretanto, fizera interromper os trabalhos, e os seus companheiros tertulianos acabaram por se juntar à porta, assistindo a tudo, teve pena da moça e do velho, e não é que lhes pede para entrarem, e dá indicações ao empregado para arranjar uma caixinha de bolos, enquanto o Damasceno acabou por ir comprar o Correia da Manhã, do qual algumas páginas tinham voado e ficado incompleto…
Entretanto, o Benedito, finório, diz para o sr. Joaquim: - Olhe lá, já viu que as páginas que voaram do jornal eram estas… e apontou para aquelas em que surgiam, desnudadas, algumas celebridades…
- Olhe, Sinhor! … Não sei a sua graça… - Respondeu o sr. Joaquim ao Benedito: ‘Noutros tempos, eu binha à cidade de barco rabelo… Ainda m’alembra dos carros de bois birem carregar pipas de beinho fino, dos nabios à bela subindo’ …
E enquanto lhe servem um copo de branco, que lhe ofereceram, adianta-se: - ‘Bote aí!’
Bom, as três mocinhas, os dois rapazes e o cicerone lá seguiram o seu caminho, muito agradecidos com tudo o que lhes fizeram, com muitos pedidos de desculpa, sem que antes o Benedito conseguisse a aceitação de uma selfie com elas.
O sr. Joaquim também já se preparava para partir, enquanto o empregado foi retirar de perto da porta, para o lixo, a caixa dos bolos esmagados, quando o Manuel lhe pergunta:
- Então, a sua Maria faz hoje 80 anos? Parabéns!
- E olhe que eu, oficialmente, casei três bezes. Isso mesmo, três bezes! – Respondeu o sr. Joaquim.
Bom, e aqui terminou o drama, que não chegou a acontecer.
- Vamos continuar com o nosso programa, malta, senão também podem voar os nossos papéis – Ordenou o Fernando Gonçalves.”
E muitas, muitas mais histórias entre facto-ficção foram escritas. Fica somente esta pequena abordagem para os muitos que são possuidores do livro.


(In "Notícias da Covilhã", de 04-10-2018)

11 de setembro de 2018

O VATICANO E O SEXO


Último domingo de agosto. Dirijo-me à banca dos jornais e, à minha frente, na fila, uma senhora não se despega das raspadinhas, e eu com o Público na mão para pagar, aguardo a minha vez.
Não jogo, por isso não conheço o jogo da raspadinha. Mas lá vou ouvindo, como hoje: “Dê-me 10 euros que tenho desta raspadinha, mais 10 euros desta, e com os 10 euros de ainda esta, dê-me uma Dardos, uma Dominó, uma Grande Sorte, uma Horóscopo, uma Mega Cofre, e uma Mini Pé-De-Meia.
- “Até que enfim, vai chegar a minha vez…”, presumi, quando a senhora, olhando para as raspadinhas expostas, diz: “-Olhe, dê-me também uma MasterMix”.
- “Aguenta, meu!...” E lá chegou a minha vez.
E o tema dos jornais não descola, e com razão, sobre a “nefasta Cúria Romana que Francisco não soube e/ou não pôde renovar de alto a baixo”, conforme relata Vicente Jorge Silva no Público de hoje, sob o título “Assombrados pelo sexo”.
Como crente, pessoa de fé e católico, há muito que me sinto incomodado com a ineficácia do Vaticano, sobre o mau exemplo, o crime, os escândalos ocultos e protegidos sobre a pedofilia e não só.
Como é possível que os últimos Papas (alguns até já foram canonizados) não tivessem conseguido acionar o chicote da expulsão (e não suspensão) de padres e bispos que não deveriam exercer esses múnus?
O resultado está à vista: cada vez se vê reduzir o número de católicos e da sua prática, como se verifica na Irlanda que era quase cem por cento católica.
Já nem o Papa Francisco, de quem tanto se esperava, consegue dar a volta ao texto. Pois como diz ainda Vicente Jorge Silva, “já não é possível mascarar por mais tempo a evidência de que a pedofilia constitui a expressão mais perversa da longa relação doentia da Igreja Católica com o sexo – e que, como tem sido lembrado por tantas vozes, o celibato dos padres constitui um dos fatores mais decisivos dessa doença.”
Este tema levaria a um longo debate, certamente não conclusivo, mas a pergunta, ou muitas perguntas, ficariam à espera de respostas, mas respostas de ação e não para ser mais do mesmo:
- Como é possível um padre, ou bispo, consciente dos atos em que se envolveu, como a pedofilia, poder continuar a exercer os atos de culto?
- Como é possível um bispo, conhecedor dos atos de pedofilia (aquele que agora está mais em foco) encobrir o crime ou o escândalo do sacerdote sob a sua jurisdição?
- Com que autoridade, um bispo ou um sacerdote, nestas situações, tem de, do púlpito, soltar vozes de incitamento à conversão, ao respeito pelo próximo, e sei lá que mais?
E será que esses padres e bispos têm consciência do pecado que eles próprios praticam e aos outros pedem para não cometer?
Não chegou o longo tempo da fábrica da morte em nome da fé, através do funesto Tribunal do Santo Ofício instalado em Portugal por bula de 23 de maio de 1536, depois de grande insistência junto do Papa Paulo III por parte de D. João III, que só viria a apagar-se no reinado de D. José I, por decerto de 1768?
Não estou aqui a discutir o sexo dos anjos, mas tão só um problema que é de todos, católicos ou não, gravíssimo, e sob os auspícios da Santa Madre Igreja, ou seja, na figura dos seus representantes.
Será que o pedir perdão do Papa Francisco, pelo que tem acontecido ao longos dos tempos chega?
E se destas palavras surge algum exagero, fruto da minha revolta face à ineficácia, passividade do clero dito sério, dito consciente, referido como exemplar no cumprimento dos seus deveres para que foi ungido (com muitas honrosas exceções) pergunto, dum mar de quesitos que era necessário terem respostas:
- Qual a conclusão, fidedigna, da morte do Papa João Paulo I, conhecido como o Papa do Sorriso”, que apenas foi Papa 33 dias, entre 26 de agosto de 1978 até à data da sua morte, em 28 de setembro de 1978? Não quis ser coroado, deixando de usar a tiara papal. Embora João Paulo i tenha sido encontrado morto por uma freira que trabalhava com ele e o acordava havia muitos anos, a versão oficial divulgada pelo Vaticano diz que o seu corpo teria sido encontrado por um padre, um dos seus secretários. Enfarte do miocárdio, embolia pulmonar, o fomento de várias teorias de conspiração pelo facto de estar a descobrir escândalos financeiros envolvendo o Vaticano, numa hipótese apontada, ou o envenenamento durante a noite, noutra especulação. Seja como for, nada ainda foi esclarecido.
- O caso da vida sexual de D. Carlos Azevedo, bispo católico, acusado de homossexualidade prática, atualmente em Roma, está envolvido em acusações de comportamentos impróprios. Já existe alguma decisão sobre este caso? Pois claro que não.
- Também na nossa Diocese da Guarda se passou um caso de pedofilia com o então vice-reitor do Seminário do Fundão, padre Luís Mendes, a cumprir dez anos de prisão efetiva, e sempre protegido por D. Manuel Felício, bispo da Guarda. Será que o padre condenado, após cumprir a pena, pode continuar a exercer a sua missão de sacerdote, celebrando a Eucaristia?
Sobre este assunto escrevi um texto em 12-12-2017, sob o título “Abominação ou Aceitação”.
Segundo o bispo emérito das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, “é necessária uma varredela na Cúria, afastando pessoas, quebrando o silêncio. A Cúria precisa de uma higienização muito profunda”.
Já o padre, professor e ensaísta, Anselmo Borges, diz “que não podemos andar eternamente a pedir desculpas. É preciso acabar de vez com este equívoco que é o celibato obrigatório dos padres”.
Também Isabel Allegro de Magalhães, professora catedrática e membro do Graal referiu: “Parece-me que ele (Papa Francisco) teve medo de ser drástico de mais, mas deveria tê-lo sido, nem que a Igreja tivesse ficado reduzida a dez padres”.

(In "fórum Covilhã", de 11-09-2018)

29 de agosto de 2018

A CAMINHO DE SETEMBRO


O mês de agosto deste ano veio tórrido e, contrastando com o ano anterior em que estava a ter uma época de incêndios mais pacífica, acabaria por surgir uma semana funesta com o incêndio de Monchique, a alterar tudo, para ao fim de uma semana passar a ser o maior incêndio do ano na Europa.  E outros foram surgindo, com menor dimensão, como os de Benespera e Seia.
Longe vão os tempos – aqueles dos candeeiros e fogareiros a petróleo, e, no inverno, braseiras de carvão ateadas a carqueja – em que não se via esta calamidade dos incêndios florestais.
Recordo apenas, desses tempos, quando tinha os meus vinte anos, e já depois de ter ido à inspeção militar, para cujo cumprimento do serviço militar obrigatório fiquei apurado, de ter ocorrido o grande incêndio da Serra de Sintra, de 6 a 12 de setembro de 1966, no qual morreram 25 militares do R.A.A.F. que operavam no local e foram surpreendidos e cercados pelas chamas.
Mas também na altura em que escrevo esta crónica recordo o incêndio do Chiado, ocorrido há precisamente 30 anos, no dia 25 de agosto de 1988, cujas chamas devoraram vários edifícios do Chiado e deixaram em ruínas aquela zona história de Lisboa em menos de cinco horas. Se Marina Tavares Dias, no Diário de Lisboa, dizia que “os prejuízos e as perdas para o património de Lisboa são apenas semelhantes às provocadas pelo terramoto de 1755”, eu atrever-me-ia  a compará-lo, numa fase inicial, ao dramático grande incêndio de Londres, ocorrido na madrugada do domingo 2 de setembro de 1666.
Nessa altura ainda se sentiam as quatro estações do ano bem definidas. Nos tempos que correm, face às alterações climatéricas, quase que já não damos pela Primavera e pelo Outono, passando quase só a existir três estações: Verão, Inverno e a estação dos caminhos-de-ferro…
Quase que se deixou de passar pelo período da silly season.
Mas já que Eduardo Sá, psicólogo clínico, psicanalista, professor e escritor desenvolveu na sua interessante crónica in Público, de 25-07-2018, o tema “São os homens que falam menos ou as mulheres que falam de mais? “, vai daí, perante umas férias neste oitavo mês do ano, com um casal amigo, onde o descanso se combinou com a distração, e a gastronomia a jeito de satisfazer o nosso palato, lançámos fora as tristezas e acolhemos mais os momentos de hilaridade.
Para evitar pensar no terror da efeméride que aí vem, do 11 de setembro de 2001 (mais um famigerado setembro…) preferi recordar a canção “Setembro” que Madalena Iglésias cantou em Barcelona, em 1966, no Festival do Mediterrâneo, e no qual se classificou em 2.º lugar.
“É que já tenho menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora, tenho por isso mais passado que futuro e já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não podendo fugir da minha mortalidade, quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade porque o essencial faz a vida valer a pena, isto, para nós, que já temos mais passado que futuro”. (adaptação do escritor Mário de Andrade).
E já que falei de tropa, o meu amigo Carlos tinha vindo de Moçambique, no cumprimento da sua missão naquele ano de 1969, conjuntamente com o seu camarada e amigo João Abelha. O Carlos estava então em Sacavém em casa de uns familiares, regressado do Ultramar há dois meses. Resolve ir visitar o seu amigo. Apanha um autocarro em Sacavém até Alenquer. Aqui, um táxi leva-o até Labrujeira. Pelo caminho, conversa com o taxista que desejou inteirar-se sobre o que é que o Carlos ali ia fazer.
- Venho ver um amigo que esteve comigo em Moçambique – o João Abelha.
O taxista conhecia o homem, que morava na Labrujeira. Aqui chegados, entram num café e o taxista informa o dono da amizade entre o seu cliente e o João Abelha.
- O João Abelha?! Grande amigalhaço! Respondeu de imediato o dono do estabelecimento. Quando soube que o Carlos era amigo dele não lhe deixou pagar a despesa e disponibilizou-se a levá-lo a casa. Durante o percurso, apareceram vários conterrâneos que conheciam o João Abelha e que o fizeram entrar nas adegas, convidando-o a beber do seu néctar. É amigo do João Abelha, não paga nada!
Com o dono do café chegam finalmente a casa do João Abelha, depois da gentinha querer saber o que o Carlos estava ali a fazer. Amigo do João Abelha?! Tem que entrar na minha adega e provar o vinho. A despesa que se fazia continuavam a não a deixar pagar ao amigo Carlos. Não, porque é amigo do João Abelha!
O Carlos lá teve que ficar uma noite em casa do amigo, já bem aviado da vinícola e depois lá partiu para a casa dos familiares em Sacavém.
Tempos duros em que a juventude fora lançada às feras por terras longínquas, muitas vezes sub-repticiamente para evitar alarmes que provocassem o palácio governamental salazarista e marcelista. Depois, claro, o grito aliviado naquela liberdade ainda que em tempo de ditadura.

(In "Notícias da Covilhã", de 30-08-2018)

14 de agosto de 2018

DIABOS MIRABOLANTES


Andam por aí diabos à solta. Não sei se são filhos do diabo que fora anunciado pelo antigo primeiro ministro, pois não me recordo de que tenha chegado a vir, a partir daquele célebre setembro de 2016. Nem saudades do homem da troça, na sua peculiar expressão da “palavra dada, palavra honrada”.  Mas isso são estórias de outras histórias que já estarão para além da Taprobana, pois que até ele se terá esquecido do que vice governava e, da palavra dada, foi palavra desonrada, na sua “irrevogável” demissão.

Paulo Portas que de feirante de beijocas passara ao número dois da governação ainda se quis apropriar da iniciativa com que quisera dar o cognome ao atual governo da Nação, plagiando Vasco Pulido Valente no título pejorativo do seu artigo de opinião inserido no Público de 31 de agosto de 2016 – “A geringonça” – , e que, ao invés, se tornava laudatório.

O que é certo e verdade é que os diabos à solta trouxeram o inferno no ano seguinte, com as duas grandes catástrofes dos incêndios de junho e outubro de 2017.

Depois foi o tempo das barragens secas, que por cá ocasionaram muitos barulhos, mas que o “dilúvio” veio rufar no seu tambor e torná-las repletas do precioso líquido.

Até ao momento em que escrevo este apontamento, não surgiram ainda, felizmente, preocupações lancinantes no nosso País, como o inferno transato. Desta vez os diabos emigraram e foram assoberbar paragens gregas e escandinavas. Quer dizer, o diabo internacionalizou-se, ou, melhor dito, tornou-se mais global.

O que é certo e verdade é que o inferno não se consegue extinguir. Umas vezes lá se vão conseguindo reduzir um pouco as suas chamas, mas outras vezes elas, se dominadas numa zona, logo surgem noutro local. Quer dizer que são as patas do diabo, quais tentáculos em brasa do polvo.

Nas duas últimas décadas do século XX, a primeira das duas décadas foi marcada pela conflitualidade e pela mudança de comportamentos na política e na sociedade, especialmente nas gerações mais novas, onde se verificou uma libertação de usos e costumes. No campo político e militar destacaram-se a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, que abriu o caminho à reunificação da Alemanha, formalizada em 3 de outubro de 1990; a guerra entre o Irão e o Iraque, assim como outros conflitos no Médio Oriente, a Guerra das Malvinas e os primeiros protesto políticos na China, com a manifestação da Praça Tiananmen em 1989. Quanto aos comportamentos sociais, recordam-se as novas excentricidades na moda, o heavy metal na música e o fascínio pelos mais variados tipos de modelos de novos produtos eletrónicos nos campos da comunicação e da informação, que levariam depois ao incremento da utilização das redes sociais para os mais variados fins. Esta década foi também marcada pelo surgimento de novos diabos, pelo colapso da economia japonesa, por uma estagnação da economia norte-americana (ainda nem se tinha ouvido falar em Donald Trump…) e da generalidade dos países da América Latina, por uma volatilidade dos mercados e um baixo crescimento do PIB na generalidade dos países.

Na década de 90 alteraram-se algumas tendências, com o colapso da União Soviética, o fim da Guerra Fria, o reforço da globalização e a consolidação da democracia. No entanto, nos novos flagelos emergiram, mais novos diabos, com destaque para novas formas de terrorismo, essencialmente “justificadas” por motivações religiosas, que perturbaram significativamente o longo período de paz vivido desde há muitos anos, e que criaram um clima de tensão considerável. De qualquer modo, a década de 90 pode considerar-se um período de prosperidade e de bem-estar em muitos países, com crises pontuais, por vezes atribuídas à globalização ou, pelo menos, a algumas das suas formas. Tem que se reconhecer que por força de políticas erradas de globalização, do recrudescimento do capitalismo selvagem e de determinadas atuações do domínio político, houve um aumento de ações de protesto e de reivindicação até então pouco vulgares, ou mesmo desconhecidas. Prosseguiram os fortes desenvolvimentos na tecnologia, na ciência e na investigação aplicada – particularmente na ciência médica para fazer face a novas doenças, ou agravamentos das existentes – e acentuou-se a polémica sobre a proteção do meio ambiente. Esta última, e algumas mudanças mais radicais nos hábitos da vida em sociedade, suscitaram também movimentos de contestação. No conjunto das duas décadas tem que se mencionar um clima de concorrência cerrada, especialmente no mundo dos negócios, uma série excessiva de catástrofes naturais e provocadas e o flagelo de novas doenças.

Nalguns países do Mundo Ocidental, de África e do Oriente, foi um período de considerável crescimento económico, apesar de na primeira parte da década a economia norte-americana pouco tenha crescido.

Em Portugal, a governação do Bloco Central foi muito dirigida nos anos 80 para a recuperação da economia e para a preparação da entrada do País na então CEE.

A caminho do final da segunda década do século XXI, já integrados na União Europeia, e com o aumento de muitos outros países, logo haveriam de surgir novos diabos, com a crise europeia de 2008, a intervenção da troika em Portugal e na Grécia, e um dos diabos a querer sair da União Europeia, a quem foi dado o nome de Brexit.

Ficamos por aqui para não nos endiabrarmos mais.
(In "fórum Covilhã", de 14/08/2018)

31 de julho de 2018

A CABRA, O PASTOR E O MONGE


A minha última crónica referiu-se aos cafés tradicionais nas cidades. E o café bebida como e quando surgiu nos estabelecimentos com a mesma designação? A lenda mais conhecida das suas origens reporta-se ao ano 575 em que um pastor etíope, de nome Kaldi, apercebeu-se que suas cabras ficavam mais espertas ao comer as folhas e frutos do cafeeiro. Não podiam conciliar o sono e ficavam em grande agitação. Estupefacto, decide provar os bagos vermelhos do arbusto e começou a sentir maior vivacidade. Um monge da região, informado sobre o facto, fez então uma infusão dos bagos para resistir ao sono enquanto orava. Teria acabado de inventar o café!

Existem várias datas apontadas. Mais certo será o local da origem – Etiópia – na localidade de Kaffa, não tendo, no entanto, esta palavra sido a génese de Café (Coffe em inglês). O Iémen seria um  centro de cultivo importante, de onde se propagou pelo resto do mundo árabe. Chega à Europa, onde por volta de 1570 o café é introduzido em Itália, na cidade de Veneza.

Na Inglaterra, em 1652, foi aberta a primeira casa de café da Europa Ocidental, seguindo-se a Itália dois anos depois. Em 1672 cabe a Paris inaugurar a sua primeira casa de café, e foi precisamente na França que, pela primeira vez, se adicionou o açúcar ao café, no ano de 1713.

Outras versões têm sido referidas para explicar o aparecimento do café, sempre envolvendo personagens ou povos árabes.

Embora diferindo as histórias e o grau de fantasia, todas são unânimes quanto               às qualidades excitantes do café e, em geral, situam a sua origem entre a Europa, o Iémen, e a Arábia, mais citada a Etiópia.  Já quanto à época da primeira utilização do café e de forma de preparar a bebida as opiniões são mais diversificadas.

Recordo que quando eu tinha 13 anos, o Imperador da Etiópia, Hailé Selassié, visitou Portugal entre os dias 26 e 31 de julho de 1959, tendo lido a notícia e visto uma foto no então Diário Popular, Diário de Notícias, e na revista Flama, sobre a visita e o descarregamento de umas toneladas de café, de um navio, oferta do Imperador da Etiópia, na sua visita a Portugal. Tínhamos então a velhinha Biblioteca Municipal, ao Jardim. Também recordo que o presidente da Câmara da Covilhã, Dr. José Ranito Baltazar, e membro da União Nacional, se deslocou a Lisboa para  oferecer uma prenda do Município (penso que uma tapeçaria) ao Imperador, tendo sido escritas umas palavras, num pergaminho, pelo falecido Matos Pombo, então administrativo dos Serviços Municipalizados da Covilhã. Mais tarde, o Dr. José Ranito Baltazar mandaria inutilizar a medalha que lhe oferecera o Imperador Hailé Selassié, revoltado pelo facto de a Etiópia ter votada na ONU contra o colonialismo português.

A partir de 1615 o café começou a ser saboreado no Continente Europeu, trazido por mercadores, principalmente italianos, nas suas frequentes viagens ao oriente. O hábito de tomar café, principalmente em Veneza, estava associado aos encontros sociais e á música que ocorriam nas alegres Botteghe Del Caffé. As cafeterias desenvolveram-se na Europa durante o século XVII, enquanto florescia o Iluminismo e se planejava a Revolução Francesa.

Bom, o café é atualmente a bebida preparada mais consumida no mundo, sendo servidas cerca de 400 bilhões de xícaras por ano. O tipo de café mais comum é o arábica, ocupando cerca de três quartos da produção mundial.

As dúvidas são menores quanto à primeira casa onde o café era servido publicamente. Consta que terá sido em Constantinopla onde dois mercadores sírios, Hakin e Shams, cerca de 1555, ali abriram dois estabelecimentos no bairro Tahtakale, próximo do bazar egípcio. Conforme referiu Lemaire, o primeiro café que existiu na Europa – ou mais precisamente na parte europeia do Império Otomano – foi em Belgrado, em 1552.  No entanto, o Kiva Han datado de 1475 deve ser realmente o mais antigo café de Constantinopla, e do mundo. Depois de Constantinopla e de Belgrado, os cafés iriam surgir um pouco por toda a Europa, a começar por Veneza e depois Inglaterra.

Os mercadores que negociavam com o Oriente foram naturalmente dos primeiros a trazer o café para a Europa Ocidental. Um deles, Daniel Edwards, tinha um criado, de nome Pasqua Rosée, que em 1652 abre o primeiro café em Londres.

Os cafés londrinos proliferaram rapidamente. Este rápido crescimento foi naturalmente devido ao crescente número de clientes que frequentavam os cafés pelas mais variadas razões. Se bem que houvesse algumas raras exceções, a esmagadora maioria destes clientes eram homens, que passavam bastantes horas em animadas conversas, recolhendo indicações e sabendo novidades que pudessem ser úteis aos seus negócios, ou simplesmente por pensarem que este convívio lhes favorecia o seu estatuto social.

É que além de lugares de convívio, os cafés londrinos tiveram um papel importante na criação de serviços sociais e económicos, tais como serviços privados de correios.

As pessoas que se queriam encontrar, em vez de perguntar onde moravam, era comum perguntar quais os cafés que frequentavam.

Os serviços de correios em Inglaterra começam por ser limitados à distribuição de mensagens oficiais, só sendo abertos ao público por Carlos I, em 1635. Os cafés eram ainda locais de leilões dos mais variados objetos, obras de arte, livros e mercadorias. Os cafés serviam, sobretudo, de locais onde trocavam informações e se emitiam panfletos e outros meios informativos. Os cafés serviam inclusivamente de lugares onde médicos davam consultas e onde se fazia publicidade de remédios para os mais variados males. Eram ainda centros onde se especulava sobre ciência, literatura e filosofia. Eram mesmo conhecidos pelas “universidades de um penny”, em alusão ao preço de uma chávena de café, em torno da qual se podiam passar horas de conversa que também eram, muitas vezes, horas de aprendizagem e fonte de cultura e, principalmente, onde se tratava de negócios. A maior parte das transações comerciais e das operações financeiras eram ali concluídas.

Foi este leque de funções que diferenciou os cafés londrinos dos seus congéneres de outros países.

(in "Notícias da Covilhã", de 02-08-2018; e "O Olhanense", de 01-08-2018)

12 de julho de 2018

O ÊXITO TAMBÉM DEPENDE DA CORAGEM


Se bem se recordam, no número anterior d’O Combatente da Estrela, escrevi que só com a alma que cada um infunde, dentro da sua missão, se pode chegar a bom porto, porque o caminho se faz caminhando. E, também, neste âmbito, assim a robustez de uma publicação.

A divulgação da notícia e dos textos de opinião, neste contexto, quer seja por via de um jornal, de um boletim ou de uma revista, terá que ter uma periodicidade no mínimo trimestral, para que possa ser constante elo de ligação entre os seus habituais leitores e os seus devotos associados, como no caso do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes. Aqui tem marcado os pontos máximos. Mais: essa forma de publicação terá que ser enviada graciosamente aos seus associados, pelo correio, no caso em papel; ou pela via online. Nesta vertente, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes exerce aqui a exemplaridade de uma das suas missões, com a nota máxima.

Quantas vezes encontro um antigo Colega da então Escola Industrial e Comercial Campos Melo, ou um antigo Camarada das várias unidades militares por onde passei, após décadas de desencontros, e, qual a minha admiração quando me dizem: “Eu vejo a tua cara com frequência!...” E à minha pergunta, se é da leitura dos jornais regionais, a resposta vem direcionada para “O Combatente da Estrela”.

Casos surgem em que existe uma publicação anual e só é entregue aos associados no dia do aniversário da instituição, ficando os restantes associados, residentes por este País fora, sem qualquer elo de ligação à mesma.

Outro pormenor de enorme atração em ser associado de uma instituição como o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes (e reporto-me a esta instituição porque é para o seu órgão de comunicação que escrevo) é o facto de tantas vezes, quando nos encontramos no dia a dia, geralmente já todos aposentados, podermos dizer ou perguntar: “Vou ali à Liga!” – “Foste à Liga?” – “Sabes se lá está Fulano na Liga?”. Isto significa também que uma instituição, com sede e onde há associados, exige a porta aberta. No caso deste Núcleo, lá vamos, dentro do horário afixado, sempre encontrando alguém, dirigentes e alguns associados, para a leitura de jornais diários, de periódicos regionais, de cá, e para além do concelho e do distrito. E alguma cavaqueira que vem sempre a propósito.

E se algum antigo Combatente passa para o outro lado da vida, ele surge no próximo número d’O Combatente da Estrela”. Mais uma missão cumprida: recordar os que partiram. Depois, as várias atividades exercidas na dinâmica do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes surgem, conforme sempre é divulgado, atempadamente, no espaço de três meses ou ainda menos.

Para isto é preciso ter aquela coragem de manter desfraldada a bandeira e não a desenrolar só anualmente em dia de festa.

Vou terminar estes pingos de reflexão, não esquecendo que sempre que um associado pretende contribuir para uma ação cultural, como, por exemplo, a apresentação de uma sua obra, geralmente alusiva à passagem pelas antigas Colónias, tem o empenho dos dirigentes do Núcleo para que a possa condignamente apresentar na Biblioteca Municipal.

Por vezes encontramos por aí sedes próprias, de portas fechadas aos associados, de instituições em pleno coração da cidade, onde se podiam fazer várias atividades para o público ver.

A minha especial satisfação neste número vai no sentido de, como associado, poder anunciar aos leitores e associados deste Núcleo, ter contribuído com a referida coragem para o êxito, já assumido por muitos, de uma publicação de grande envergadura, inédita a nível nacional, sobre a atividade seguradora.

Assim, espero que no dia 8 de setembro, pelas 15 horas, o Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã possa “ser invadido” com muitas presenças, vindas de vários pontos do País, para a apresentação do meu último livro “O Documento Antigo: uma outra forma de ver os seguros”.

E porquê realçar este trabalho, que iniciei em 2014 e me custou centenas de horas de trabalho, do qual rejeitei receber qualquer importância de direitos de autor?

É que, sendo um livro de aturadas investigações, destinado não só a estudiosos e a profissionais de seguros, é também para todos quantos têm a curiosidade de querer conhecer a génese dos seguros no mundo e no nosso País.  Foi, pela primeira vez, reunido num só volume de 888 páginas e, duma forma inédita, romanceado, partindo de duas partes: I – Os Seguros, da Antiguidade até ao Século XVIII; II – Os primórdios do Seguro em Portugal até aos nossos dias.

E é aqui que, na parte romanesca, estão ficcionadas várias tertúlias, iniciadas em Valbom, Gondomar e Porto, passando por Leiria, Algarve, e depois Covilhã, Castelo Branco e Lisboa.

Ao longo das tertúlias romanceadas que suportam as transcrições que dão corpo à obra, as personagens ficcionadas ou inspiradas em figuras reais desta cidade, atuam de forma a aligeirar a leitura do texto, criando um romance coerente e com final feliz contentes com o que aprenderam sobre a evolução dos seguros desde os seus primórdios.

Pois a Covilhã, com várias instituições e figuras citadinas, é referida ao longo dos vários capítulos do livro, no contexto romanesco, onde sobressaem muitas personagens reais, quase todas covilhanenses, nas várias tertúlias, entre as quais vários elementos do seio do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, e também da Casa da Covilhã em Lisboa.

A tal coragem partiu da iniciativa do então CEO e Administrador da Liberty Seguros em Portugal, Dr. José António de Sousa, que renunciou ao seu mandato em 31 de maio, depois o ter anunciado muito previamente, e que me solicitou este trabalho, sendo uma grande honra o seu prefácio. A apresentação do livro será efetuada pelo novo CEO e Administrador da Liberty em Portugal, Dr. Rogério Bicho, que igualmente honrará o autor.

Aqui deixo o apelo para quem puder e quiser estar presente, certamente não ficará desiludido.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 111, de julho de 2018)

11 de julho de 2018

SÍMBOLOS DAS CIDADES


A Pastelaria Suíça, um símbolo do Rossio e de Lisboa, vai fechar, perto de completar 100 anos. Sim, conforme foi comunicado pela Câmara Municipal de Lisboa, a histórica pastelaria da Baixa vai encerrar as portas. Foi aberta em 1922. Como ela já havia fechado o Café Chave de Ouro, célebre por Humberto Delgado lá ter dito o “obviamente demito-o”, referindo-se a Salazar.

Também por todo o País há e houve emblemáticos cafés, que foram verdadeiras referências nas cidades.

Na Covilhã tivemos os icónicos Café Montalto e Café Leitão. O Café Montalto foi inaugurado simultaneamente com o Teatro Cine da Covilhã, em 31 de maio de 1954. Local onde se reuniam os industriais de lanifícios e se faziam negócios, mas onde os operários não entravam para não se encontrarem com os patrões e porque não eram ali bem vistos. Constituído por três pisos: r/chão para o café propriamente dito, existindo na cave os bilhares e as máquinas de jogo. Por cima do café ficava o restaurante terminando em varandim, com vista para o café. Era, pois, o café dos senhores de altas posses, da alta e média burguesia. Aqui se vinham a formar grupos dependentes de negócios e interesses.

Já no Café Leitão, situado numa cave, reunia-se uma classe de menores posses, geralmente funcionários dos correios e camarários ou ligados ao operariado com algum sentido reivindicativo e com gosto pelos jogos de damas e outros existentes nos cafés.

A cultura singrava por aqui ao invés do Montalto onde era mais secundarizada e, geralmente se erguia na voz de José Vicente Milhano, ou então os homens ligados à organização da Feira Popular do Sporting.

Foi no Café Leitão que o escritor Ferreira de Castro começou a escrever “A Lã e a Neve”.

Tanto no Montanto como no Leitão era habitual ver-se o engraxador de sapatos e sempre havia o Leal para que não faltasse a leitura dos jornais que vinham fresquinhos do comboio.

Em paralelo com os célebres cafés covilhanenses, também em Évora existia (e ainda existe, se bem que algo transformado, mas mantendo algumas caraterísticas originais, como a porta giratória) o Café Arcada. Era de facto o café da tradição, situado na Praça de Giraldo. A sua abertura aconteceu em 14 de fevereiro de 1942 (uma dúzia de anos antes do Café Montalto da Covilhã). Era então considerado um dos melhores do País, com 100 mesas, tido como um acontecimento social de grande impacto no quotidiano citadino. Chegou a ter uma orquestra. Tinha dois pisos. Nos primeiros tempos o Arcada foi frequentado pela burguesia local, pequenos grupos de intelectuais, gente do reviralho, profissionais liberais e estudantes liceais. Os latifundiários e aos agricultores frequentavam o Café Camões, à Porta Nova. Mas com a perda de centralidade desta zona e o acrescido ganho de importância da Praça de Giraldo, estes passaram a tomar de assalto o Arcada às terças-feiras, dia do mercado semanal. Em plena praça e no interior do café se discutiam e apalavravam negócios, tendo ali chegado a funcionar uma informal bolsa de gado.

No seu romance “Aparição” o escritor Vergílio Ferreira relata bem o ambiente do Café Arcada quando nele entrou pela primeira vez em 1946: “… acabámos por marcar o encontro para o dia seguinte no Arcada sem que o Moura se lembrasse de que era uma terça-feira, ou seja dia de mercado. Com efeito, ao entrar no café, após o almoço, tive a surpresa de ver aquele vasto túnel apinhado de gente. O corredor atravancava-se de negociantes, porque era ali, entre bebidas, que se realizava o mercado da semana. A terça-feira era o “dia de porcos”, como soube mais tarde que lhe chamavam…”

O escritor Vergílio Ferreira ficou aliás com uma marca indelével do Arcada, pois foi ali que o seu colega e padrinho de casamento, Alberto Miranda, lhe pagou a boda, a qual consistiu num galão a cada um e bolos, conforme revelou.

Entretanto, com o passar do tempo, aos lavradores veio juntar-se uma corte de gente ligada ao mundo dos touros e ao marialvismo rural, composta por ganadeiros, toureiros e aprendizes, moços de forcados, apoderados, equitadores, aficionados e professores e alunos da Escola de Regentes Agrícolas. Com a subida do Lusitano à I Divisão em 1952 a fama do Café chegou a Lisboa. Os adeptos do Sporting, do Benfica e do Belenenses, do Vitória de Setúbal e do Barreirense, que aos milhares se deslocavam a Évora para apoiar as suas equipas, conheceram-no, apreciaram-no e dele fizeram grande propaganda na capital e arredores.

Ora, na cidade laneira também assim acontecia com o Sporting da Covilhã, e, na mesma altura, jogavam na I Divisão Nacional (hoje I Liga) ambos os clubes (Lusitano de Évora e Sporting da Covilhã: 1952/53 a 1956/57, ininterruptamente, e, depois, de 1958/59 a 1961/62).

Poderíamos ainda falar n’A Brasileira – lembram-se do slogan “O melhore café é o da Brasileira? – que esteve encerrado no Porto durante muito tempo. Inaugurado em 1903 passou por convulsões. Novamente ostenta o nome A Brasileira, e novamente voltou às origens.

O espaço não o permite pois gostaria de ainda poder falar no Lloyd’s Coffee House, de Londres, onde se iniciou o seguro marítimo e a génese, ou um dos fortes hábitos de tomar um café, juntamente com a concretização de negócios.

E, regressando ao nosso País, depois do Terramoto de 1755, em Lisboa, foram instalados em novos edifícios no Terreiro do Paço, no dia 1 de janeiro de 1769, a Casa dos Seguros juntamente com a Junta do Comércio, a Aula do Comércio, a Mesa do Bem-Comum dos Mercadores, a Assembleia dos Negociantes e a Casa do Café.

Os interessados sobre esta interessante vertente histórica sobre os cafés ligados à vida dos negócios poderão encontrá-la em livro já editado e a ser apresentado no dia 8 de setembro.

(In "Notícias da Covilhã", de 12-07-2018)