27 de fevereiro de 2019

UM EMPRESÁRIO DE SUCESSO


Tarde de segunda-feira, 21 de janeiro. No Café do Celso há amenas conversas. Os petiscos, para todos os gostos, vão-se distribuindo pelas mesas. Conforme os apetites. Ao lado do José Augusto está uma mesa com um simpático senhor, também com o seu petisco, que, a pouco e pouco se vai integrando no nosso diálogo.
Diz-nos então que aos onze anos começou a amassar pão à mão. Os filhos não quiseram continuar os estudos e preferiram seguir as pisadas do pai, no intuito de ganharem dinheiro por conta própria. Tinham grande ambição. Também muito dinamismo. Como o pai.
Desconhecíamos aquele senhor, ainda que sejamos covilhanenses de gema. Mas logo o Celso nos lembra que se trata do senhor António Dias Santos, ilustre empresário de panificação.
E o entusiasmo do Sr. António em contar a sua história raia-lhe os olhos. Dá gosto ouvi-lo. Setenta e seis anos já conta no seu tempo de vida. Natural de S. Vicente da Beira.
Chegou a ter cinco patrões num mês. Face à sua garra, mudou facilmente de emprego, no âmbito da mesma atividade – a panificação. Mas também trabalhou de sol a sol, in illo tempore.
Em S. Vicente da Beira acaba por ficar quase sozinho a trabalhar, aos 15 anos, somente com o patrão e um aprendiz. Já toma conta da padaria.
Dali vem para a Covilhã, exatamente no dia em que completa 18 anos de idade. Chega ao Manuel dos vinhos que se situavam por detrás das antigas instalações da PSP, a S. Silvestre, mas aqui para trabalhar na construção civil a fim de se preparar a abertura daquela casa. Foram dois meses.
Conhecedor das suas excelentes tarefas na panificação, o Sr. António Tavares chama-o para a firma Tavares & Matias (padaria) durante um ano, então sediada em S. Martinho, perto do Oriental. Surge-lhe, entretanto, uma formação em S. Pedro de Sintra, a cargo do Estado. António Dias Santos diz-nos que “vim de lá um homem”.
Mas a sua vontade em fazer mais e mais, leva-o a empregar-se na padaria de João da Fonseca Mimoso (Marroca), onde está durante 22 anos, como encarregado de fabrico.
É presidente do Sindicato de Panificação durante 12 anos, sendo que, no dia 25 de Abril de 1974 está a negociar um Contrato de Trabalho no então Ministério das Corporações e Indústria.
Pensa então em trabalhar de conta própria, seguindo a vida empresarial. Em 1982 adquire a Padaria Abreu. O Sr. António Dias ao tomar esta decisão é devido ao facto de os filhos terem chumbado nos estudos e quererem ir estudar à noite para irem trabalhar. O pai faz-lhes a vontade. O trabalho e estudo deles acaba porque passam a trabalhar com o pai, na empresa que, entretanto, criam, com muito trabalho e alma, sempre a progredir.
Nesta altura, possui a Padaria Dias & Pereira, Lda, no Parque Industrial do Tortosendo, sendo constituída por cinco sócios, todos familiares (O Sr. Dias, a esposa e os três filhos) e tem já 40 trabalhadores.
Participam em vários programas televisivos (TVI, CMTV, SIC e RTP), por via de terem ganho vários prémios, conforme a comunicação social, incluindo a regional, deu conta.
Ganham os seguintes prémios nacionais do “Melhor Pão Natural de Portugal”:
- 2017 – 1.º lugar: Regueifa Tradicional da Beira Baixa;
- 2018 – 1.º lugar: Centeio Natural Crocante.
Na categoria de “O Melhor Bolo-Rei de Portugal” ganham em 2018, o 1.º lugar, com o “Bolo Rainha”, Medalha de Ouro.
Também ganham prémios com “O Bolo Rei” (normal) e “Bolo-Rei Escangalhado”.
Um empresário de sucesso, como exemplo para os tempos que correm.
António Dias Santos pensa abrir uma nova casa na Covilhã.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-02-2019)

13 de fevereiro de 2019

CORRUPTOMANIA

Ainda não existe uma definição para a palavra em título mas o sentido é intuitivo. Pensara em não me referir mais a este assunto depois de sobre ele me ter debruçado por outras ocasiões (2014 e 2018). Mas o facto de surgirem no tempo das nossas vidas tantos casos, um sopro de vontade atira-me para o foco de que somos confrontados no dia a dia.
A diversidade de casos é uma peculiaridade dos portugueses. O dos elementos que constituíram aquela tropa-fandanga de Tancos ainda continua vivo na mente de todos nós. Como tantos outros. A saga das meias verdades e das ocultações não mais teve fim. O logro da descoberta das armas entrará para a antologia das operações mais perigosas do nosso Exército em defesa da soberania nacional deste século. O prestígio desta secular instituição ficou abalado.
Deambulando por aí fora, foi o encontro de oportunidades na esperteza dos iluminados pela ambição do enriquecimento fácil. Na falácia encontrada em favoráveis ocasiões de dar a volta ao texto. Que isto de solidariedade, obras de misericórdia, sentir o sofrimento alheio também é ocasião de, ao invés de meter a mão na massa, se pode fazer com que a massa chegue à mão. E aí tivemos os incêndios, com a utilização fraudulenta dos fundos para a reconstrução de Pedrógão Grande. Imaginar que tantas pessoas que estavam a enfrentar a maior tragédia portuguesa de décadas, tendo motivado um movimento de solidariedade sem precedentes por todo o país, viram rapidamente transformar o terrível sofrimento na mais repugnante ganância. É duma revolta imensa.
É indubitável que a partidocracia destrói a democracia, conforme refere o Presidente da Frente Cívica, Paulo de Morais. “O principal objetivo dos maiores partidos portugueses é manterem-se na esfera do poder, partilhar negócios do Estado com os grupos económicos de que são instrumento e garantir emprego aos muitos milhares de apaniguados, os militantes partidários e seus familiares”. Os dirigentes partidários distribuem benesses pelas empresas que financiam e para as quais vão mais tarde trabalhar. Além de negócios, os partidos garantem a sobrevivência económica dos seus apoiantes através da distribuição de milhares de empregos. É na administração central. É nas autarquias. É nas empresas municipais e institutos públicos. Transformaram-se assim na maior agência de emprego do país. E, depois, é ver nos canais de televisão comentadores facciosos, a censurar todo o discurso contraditório.
E temos a Caixa Geral de Depósitos (CGD), um dos temas da atualidade. Os seus gestores aprovaram, entre 2000 e 2015, financiamentos de centenas de milhões de euros apesar dos riscos identificados pelos diretores das operações. O diagnóstico foi feito pela consultora EY na auditoria independente à gestão da CGD. Identificou perdas de mais de mil milhões de euros para as contas desta instituição, só até 2015. Em causa estão de facto decisões tomadas contra o parecer técnico da Direção Global de Risco (DGR) da CGD, reveladas pela auditoria da EY, cuja versão preliminar foi divulgada pela ex-deputada do Bloco de Esquerda, Joana Amaral Dias, na CMTV, citada por vários órgãos da comunicação social. Os financiamentos de elevados montantes destacam-se nas perdas relacionadas com a Artlant, Quinta do Lago e Birchview, para além de problemas com a concessão de empréstimos à Investifino, Finpro, sociedade de investimento de Américo Amorim e Banif, bem como às sociedades de Joe Berardo, entre a Fundação Berardo e a Metalgest. Neste grupo de grandes devedores, os financiamentos ascenderam a mil milhões de euros, com perdas de 580 milhões de euros.
Vários crimes já estarão prescritos. Cada ano de silenciamento contribuiu para que mais atos de gestão danosa também prescrevessem, ficando de fora da alçada da justiça. De tal forma que este país mais parece uma república das bananas.
A CGD, banco que tem a confiança de um número elevado de portugueses, mormente os funcionários públicos, foi gerida sem qualquer noção de honra. E quem teve nas mãos o seu destino revelou uma total e indigna ausência de responsabilidade.
Neste estado mórbido, quem e quantos irão responder civil e criminalmente pela ruína da Caixa Geral de Depósitos, onde os portugueses tiveram de enterrar cinco mil milhões de euros dos seus sangrentos impostos?
Ficamos por aqui.
E, para que tudo não seja um mar turbulento, temos a entronizada Cristina Ferreira, mais parecendo uma Marilyn Monroe, que, iniciada na TVI se rendeu finalmente ao namoro da SIC, por via dum contrato milionário, cujo nome já se transformou numa marca, mas ainda longe dum Cristiano Ronaldo. Até o Presidente da República lhe telefonou, entrando em direto na estreia do seu programam na SIC, para lhe desejar felicidades, provocando uma onda de indignação, que a apresentadora não compreendeu por ter visto o gesto como um “miminho”.


(In "Notícias da Covilhã", de 14-02-2019)

12 de fevereiro de 2019

O MUNDO D´HOJE PARECE UM PAGODE


Por vezes falta-nos a inspiração. Mas o bichinho da escrita perdura. Escrever não é fácil. Como disse o escritor francês Olivier Rolin, “escrever é fazer com que o tempo que conhecemos não morra”. Aí está. Então eu continuo a escrever.
Entre o sonho e a realidade vai uma distância. Só cada um a pode quantificar. Em 17 de outubro do ano transato foram divulgados os dados a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Na altura de comparar os países em matéria de pobreza e exclusão social, Portugal surge em 11º. Lugar. Consta de uma lista de 26 Estados para os quais estão disponíveis dados relativos a 2017. Ou seja, cerca de um quarto da população portuguesa (23,3%) está “em risco de pobreza ou exclusão”. Na União Europeia (UE) a percentagem média de pessoas nessa situação é de 22,5%. Ainda que a UE, como um todo, e Portugal, em particular, tenham menos pessoas em risco do que em 2008. Mas, no entanto, há em Portugal 3000 sem-abrigo. Estamos no século XXI.
Na lamentável prática da pedofilia, por todo o mundo, não basta pedir desculpa. A divulgação de mais casos de abuso sexual de menores na Igreja Católica, com a informação de que a hierarquia encobriu os abusos, surgem os obrigatórios pedidos de desculpa. Assim aconteceu nas dioceses da Pensilvânia, nos EUA, na qual mais de 300 padres foram acusados de crimes praticados contra mais de um milhar de vítimas, ou em Washington, que levou à demissão de um arcebispo. E também em Boston, no Chile, na Irlanda, etc. O Papa Francisco reforçou ainda mais esse pedido de desculpas. Escreveu uma carta na qual admitiu “vergonha e arrependimento”. E o mesmo acrescenta que “nunca será suficiente o que se fizer para pedir perdão e procurar reparar o dano causado”. E o escândalo nunca se aproximara tanto da hierarquia católica, ao surgir a condenação do cardeal George Pell, condenado por abusos sexuais na Austrália em 2018, o homem que era o terceiro na hierarquia da Igreja Católica, responsável pelas finanças da Santa Sé. Foi afastado do Conselho de Cardeais pelo Papa e neste ano enfrenta outro julgamento por crimes idênticos.
Estes homens parece não sentirem qualquer bafejo de revolta dos seus semelhantes e quase que vivem num autêntico pagode.
Que dizer então, noutra vertente, onde cabe melhor o pagode, a manifestação na Dinamarca, ocorrida no verão passado, contra a lei que proíbe o véu islâmico? Centenas de dinamarquesas, algumas de niqab (lenço muçulmano), outras de burqa, que as cobria por completo, juntaram-se em Copenhaga para protestar contra a entrada em vigor da nova lei que proíbe o uso do véu que cubra o rosto. Acusaram o Governo de violar o direito de as mulheres vestirem o que quiserem.
Continuando na UE temos a crise dos três M: May, Macron e Merkel, líderes das três grandes potências da União Europeia. Estão em apuros. A poucos meses das eleições para o Parlamento Europeu, florescem populismos e nacionalismos pela Europa, com a primeira-ministra do Reino Unido, o presidente de França e a chanceler da Alemanha a enfrentarem crises internas que enfraquecem a sua liderança e, por arrastamento, o processo de integração da U.E. A primeira tem para resolver o dossiê do Brexit. O segundo chegou ao poder com intenções de reformas centristas e a sociedade civil obrigou-o a recuar. A terceira, que durante a crise da Constituição Europeia e da zona euro foi a líder de ferro que manteve unidos os europeus, perdeu os alemães ao deixar entrar, de forma desordenada, mais de um milhão de refugiados no país. Theresa May, de 62 anos, sucedeu a David Cameron após a vitória do Brexit. Emmanuel Macron tem 41 anos e é o presidente francês mais jovem de sempre.
O Ocidente está em decadência mas o declínio da UE não é inevitável. Há 30 anos, a entrada na “Europa” representava para os portugueses a liberdade, a abertura cultural, a democracia, a prosperidade. A Europa atual está esquecida das suas antigas promessas de paz e solidariedade. É uma Europa que parece não saber o que quer nem para onde vai. Ao ponto a que chegou o pagode. A Europa enfrenta uma crise migratória alimentada por discursos de ódio. A Europa está rodeada de crises e passou a ser ela própria a crise.
E, assim, com a crise dos três pilares que sustentam a UE vamos assistindo ao pagode. O “Brexit” e Trump são duas faces da mesma moeda. Segundo Vasco Pulido Valente, in Público, “O ‘Brexit’ é o resultado de uma conspiração de Putin, que envolve, pelo menos, o Facebook e a Cambridge Analytica, e também uma inexplicável loucura da aristocracia inglesa”.
Num manifesto de 30 patriotas europeus é referido o seguinte: “Hoje, com urgência, temos de fazer soar o alarme contra os incendiários de almas e espíritos que, de Paris a Roma, passando por Barcelona, Budapeste, Dresden, Viena ou Varsóvia, brincam com o fogo das nossas liberdades”.
Já não vamos falar muito no triste caso da situação da Venezuela, que corre suas desgraças face ao ditador Nicolás Maduro. No momento em que concluo este texto, passa no meu computador a informação do JN online, direto, de que Portugal reconhece e apoia legitimidade de Guiadó: “Augusto Santos Silva confirmou, esta segunda-feira (04-12-2019), que Portugal reconhece Guaidó como presidente interino da Venezuela, apelando a eleições presidenciais.” A Venezuela vive um impasse político que só pode ser resolvido com uma transição pacífica. Não pode ser confrontação interna nem intervenção externa. Deve ser com eleições presidenciais. Mas aproveitamos para uma boa notícia: construção de pontes entre Portugal e o Japão. O Acordo de Parceria Económica entre a União Europeia e o Japão vai proporcionar um impulso económico vital tanto à UE como a Portugal.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 12-02-2019)

31 de janeiro de 2019

CASEGAS, ONDE NÃO NASCI MAS VIVI DE TENRA IDADE


Foi com muito prazer que li as duas páginas de memórias do professor doutor Arnaldo Saraiva, no número de 10 de janeiro do Jornal do Fundão, sob o título “A imponente igreja de Casegas e a sua desconhecida história”.
É que me levou a uma situação nostálgica, ainda que tivesse há uns anos atrás passado várias vezes por esta bonita freguesia do concelho da Covilhã, em serviço profissional, conhecendo então algumas das simpáticas gentes caseguenses, para além de se terem gerado amizades.
Há 72 anos vivi nessa freguesia durante dois anos, por força do magistério primário então exercido por meu pai, José Martins Nunes (hoje teria 107 anos), natural de Bogas de Baixo, que ali fora colocado no ano letivo de 1945/1946, onde esteve três anos seguidos no 2.º lugar masculino, então recentemente criado. No 1.º e 3.º anos lecionou a 1ª e 3ª classes, e no 2.º ano a 2ª e 4ª classes, tendo todos os alunos por ele propostos a exame ficado aprovados.
Extraio das memórias que deixou escritas, alguns apontamentos sobre Casegas: “E tenho como recordação do meu trabalho em Casegas o facto de terem sido meus alunos três padres: José Gaspar Pires, António Costa e Silva, que são jesuítas e José de Almeida Geraldes que é secular e se encontra a trabalhar no Centro Cultural da Covilhã”. O Cónego Geraldes foi ainda diretor do Notícias da Covilhã até ao seu falecimento.
Recorrendo agora ao livro do amigo caseguense, licendiado Sérgio Gaspar Saraiva, sob o título “CASEGAS, Minha Terra, Minha Gente”, não pude deixar de me reportar a extratos das memórias de meu pai, estas relativas a um passeio que lhe proporcionei a Casegas, no dia 22 de maio de 1983: “Casegas, terra de gratas recordações onde estive durante três anos letivos a exercer o magistério primário, e onde já tinha ido depois disso. A primeira vez, à festa da celebração da primeira missa do meu antigo aluno, padre José de Almeida Geraldes, e a segunda vez, também à festa da celebração da primeira missa (lá) do meu antigo aluno José Gaspar Pires, que é jesuíta. Ao chegar lá dirigi-me à linda e rica igreja paroquial para visitar o nosso maior Amigo e Benfeitor e também o pároco padre António Nicolau Lopes, o qual não consegui encontrar, e por isso não o vi. Fomos ver o exterior da antiga Capela das Almas, hoje parece que é considerada monumento nacional; e a frente da casa onde residi durante os três anos que lá trabalhei e o exterior da minha antiga sala de aula – a escola. Recordei quem depois das aulas dava pequenos passeios com os nossos primeiros dois filhos que eram pequeninos e levava pela mão e íamos à igreja e à ribeira e nesta eles, Rita Fátima e João, brincavam atirando miolinhos e pedrinhas para os peixinhos virem ao cimo da água”.
Ainda sobre o interessante livro de Sérgio Gaspar Saraiva, nas págs. 53 e 54 – “As Couvadas” – levou-me a recordar em 23/12/2005, num periódico desta região, um texto que escrevi sob o título “As Certezas deste Natal”, então a parte inicial sobre Casegas: “Uma ‘couvada’, em Casegas, reuniu cerca de setenta convidados, no dia 16, onde César, e o filho, fortaleceram amizades num ambiente de tradição natalícia. No lagar, junto ao rio, numa noite gélida, uma grande panela, repleta de couves, bacalhau e batatas, tudo bem regado com azeite, aquecia nossas almas, onde não faltou bom vinho, chouriça e outras coisas mais. Aumentaram os amigos. Afinal, quem redige estas linhas, carcalhense por nascimento, poderia ter as suas origens em Casegas. O professor Octávio, e a mulher, Mariana; o padre Nicolau, o Zeca Craveiro e a mulher, professora Agostinha, ainda sugeriram aos progenitores do meu irmão para ele ali nascer. Vivíamos junto ao cruzeiro e o pai dava aulas na primária. Não querendo ali ficar, lá foi a bagagem no dorso de uma égua; e a família num carro de bois, atravessando a ribeira até ao Ourondo, onde pernoitaram em casa de familiares; depois foi tomar a camioneta para Aldeia do Carvalho. Como eram as acessibilidades e os tempos de outrora!... para já não falar das dificuldades de outra natureza, com a escassez de recursos materiais e financeiros, no final da II Grande Guerra!”.

(In "Jornal do Fundão", de 31.01.2019)

23 de janeiro de 2019

LIBERDADE DE EXPRESSÃO (II)


Em junho de 2006 tive o ensejo de me referir a este assunto numa publicação. As oportunidades de se sublinhar este tema têm vindo de novo a surgir. Nos media e nas redes sociais, tais têm acontecido. Entre outras, recordo em 2015 a grande manifestação em Paris (domingo, 11 de janeiro) com mais de um milhão de pessoas, de vários países, que ali desfilaram, incluindo 50 chefes de Estado de todo o mundo, sob o massacre do Charlie Hebdo, atentado terrorista que atingiu o jornal satírico francês, com aquele nome, ocorrido no dia 7 daquele mês e ano. O mundo tremeu, mas, sem medo, a França reagiu contra os homens do diabolismo e eliminou-os. Estava em jogo a liberdade de expressão e o forte combate ao terrorismo.
Tem sido tema corrente o caso do debate que se criou em torno do convite da TVI a Mário Machado, um indivíduo sinistro, praticante e defensor da violência racista. Das longas e inflamadas discussões públicas a propósito desta entrevista é preocupante o que dizem alguns dos autoproclamados defensores do regime democrático. Os que defendem que todos têm direito a expressar-se, mesmo os criminosos, fascistas, homofóbicos e racistas.
É bom recordar o artigo 46.º da Constituição da República Portuguesa, que, no seu ponto quatro refere o seguinte: “Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares fora do Estado ou das Forças Armadas, nem organizações que perfilhem a ideologia fascista.”
A TVI ao ceder os seus écrans a Mário Machado ultrapassou aquele risco que nos indica o limite da tolerância em relação ao pluralismo e à liberdade de opiniões. Conforme escreve Manuel Carvalho num seu editorial do Público, “Mário Machado tem direito à saudade do salazarismo e, desde que se abstenha de fazer a apologia da violência ou da violação da lei, pode defender a sua sinistra opinião. Mas uma televisão que professa a responsabilidade de informar e os princípios que dão forma a uma sociedade aberta e democrática não lhe deve dar palco a pretexto da liberdade de expressão para que possa amplificar o seu reles exemplo”.
O que é certo e verdade é que, face à inexistência de um perigo extremista imediato em Portugal, alguns jornalistas e políticos parecem empenhar-se para que apareça.
E não foi apenas a TVI a única a cometer este erro mas também todos aqueles que vierem defender que figuras como o referido Mário Machado podem e devem ter voz. Os arautos da liberdade de expressão certamente se esqueceram dos tempos em que a não havia.
O criminoso condenado por atos de violência e racismo apresentado num programa televisivo de grande audiência, não pode ser visto como um exercício de liberdade de expressão, como se esta não tivesse fronteiras de decência e sensatez.
De facto, o ano de 2019 começou de forma insólita com o convite da TVI a este criminoso fascista, no dia 3 da janeiro, para discutir “a necessidade de um novo Salazar” com os ouvintes e animadores do programa, passando-se então a falar bastante de liberdade de expressão.
A causa deste grande erro foi a cultura do vale tudo em nome das audiências. Não se tratou de escolher entre liberdade de expressão e censura, mas entre a democracia e o ódio racial. Numa sociedade decente, o direito à dignidade está acima ao direito à liberdade de violentar. Esta é a baliza ética do limite da liberdade de expressão.
Recordemos o passado sobre a liberdade de expressão. Terá esta começado com o ilustre filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga, Sócrates (469 a.C. a 399 a.C.)? Mas também uma referência à fundação da liberdade de expressão em Inglaterra surge, já depois de Cristo, uma data – 1215, aquando da assinatura da Magna Carta, por imposição de nobres rebeldes ao rei D. João. Três séculos depois, em 1516, Erasmo de Roterdão escreve “A Educação de um Príncipe Perfeito” em que referia: “Num estado livre, também as línguas devem ser livres”.
Entre outras abordagens, em 1644, o poeta John Milton escreve o panfleto “Aeropagítica”, onde argumenta contra restrições à liberdade de imprensa, e assim refere: “O que destrói um bom livro, mata a própria razão”. Em 1689, na Grã-Bretanha, Jaime II é derrubado e a Declaração de Direitos concede “liberdade de expressão no Parlamento”.
Em 1770, uma carta de Voltaire a um sacerdote dizia: “Detesto o que o senhor escreve, mas daria a minha vida para tornar possível que continuasse a escrever”. Em 1789, a Declaração dos Direitos do Homem, documento fundamental da Revolução Francesa, consagra a liberdade de expressão. Em 1791, a Primeira Emenda da Declaração de Direitos dos Estados Unidos da América garante quatro liberdades: de religião, expressão, imprensa e reunião.
Muito mais haveria para dizer sobre a liberdade de expressão, mas terminamos com a aprovação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, pela qual os países membros ficam obrigados a promover os direitos humanos, cívicos, económicos e sociais, incluindo as liberdades de expressão e religião.

(In "Notícias da Covilhã", de 24/01/2019)


15 de janeiro de 2019

MAS… O ANO 2019

Entramos em 2019 com esta conjunção adversativa, que também pode ser um advérbio e até um substantivo masculino.
Estranho, mas estranho mesmo, é termos no nosso Parlamento um partido político que em vez de se preocupar com o que é mais importante no país, levanta o véu do seu (des)contentamento com algumas “vozes de burro que não chegam ao céu” censurando os termos linguísticos, culturais e populares porque, mesmo no novo ano se há-de continuar a “atirar o pau ao gato” nas canções infantis, e aquele senhor das ideias PANtásticas vai mesmo que “tirar o cavalinho da chuva”…
Mas é certo que o primeiro Ministro e seus arautos, não querendo “fazer figura de urso” lá vão cedendo à geringonça já que a oposição se tem visto forçada a “engolir alguns sapos”.
Naquele círculo, por vezes até nos parece ver andar por ali alguns “feitos baratas tontas”, e como de “gato escaldado de água fria tem medo” é preciso ronha para “verter lágrimas de crocodilo”, para encontrar uma solução, algumas vezes, mas mesmo algumas vezes, tendo que “agarrar o touro pelos cornos”, para se descobrir na peta de que “a galinha da minha vizinha é melhor que a minha”. Como tudo na vida, “os cães ladram e a caravana passa”, e, assim, até prefiro alimentar “um burro a pão-de-ló” do que ouvir estes PANfanáticos, pelo que vou continuar a “pisar o rabo ao gato” enquanto a “porca torce o rabo”.
Já que “a pensar morreu um burro”, e, como fico com “a pulga atrás da orelha”, sim, essa “pulga maldita que ou chora ou grita”, vou estar atento a este 2019.
Disse um dia Júlio Isidro: “Não sejamos imbecis. Não sejamos demasiado tolerantes. Não sejamos sofredores calados. A humanidade só melhora com a ação de cada um dos humanos”.
Mas, (lá está outra vez o incómodo mas), estamos a caminho de 45 anos de passagem de um grande sonho que se chamou Abril. Passaram mais de quatro décadas e de súbito os portugueses ficaram a saber, em pasmo, que são responsáveis de uma crise e que têm de a pagar. Disse-se então que as classes médias estavam a viver acima da média. E, de repente, verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros… a dívida soberana havia entrado no nosso vocabulário e passaria a invadir o dia a dia. Mas é que os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.
Os idosos, confusos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a alimentação. E ainda continuam a dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível. Muitas instituições de solidariedade, e a Igreja, na Caridade, fazem diariamente o milagre da multiplicação dos pães.
Parecem fake news, mas não o são: morrem mais velhos em solidão, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, com maridos, mulheres e filhos a mancharem-se de sangue; muitos dos sem abrigo têm cursos superiores (até na Covilhã isso se verifica) e milhares de licenciados estão desempregados, apesar do índice de desemprego ter baixado duma forma fulgente. Mas continuam a haver os meninos que têm de ir à escola nas férias para ter pequeno almoço e almoço, e, quando tal não acontece, por impossibilidade, lá terão que as instituições de solidariedade se substituir ao Estado.
Mas também há terras do interior sem centros de saúde, correios, finanças, ou tribunais, ou que lhes foram retirados; no entanto, os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.
Bom, e neste 2019, os romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, banqueiros ou amigos dos banqueiros, vão continuar a acabar em bem-estar… “penso eu de que…”
Com o novo modelo apresentado pelo partido não vencedor das últimas eleições mas que encontrou no seio democrático uma forma de fazer sair o país da afronta em que, mais uma vez, caímos (não foi para estes sustos que foi feito o 25 de Abril), e com um Presidente da República à altura da sua missão, contrastando com o desditoso seu antecessor, Portugal começou a respirar de algum alívio.
Mas o ano 2019 é considerado por muitos um ano perigoso, mesmo neste pacato país, onde o rastilho anda por aí, pois uma iniciativa política mal gerida pode acendê-lo. A desigualdade extrema é incompatível com o bom funcionamento da democracia.
Portugal tem vivido nos últimos anos num clima de relativa serenidade devido à política de devolução de rendimentos do Governo do PS, com a pobreza, apesar do que já foi referido, a diminuir e os indicadores de confiança a subir.
A percentagem de portugueses que confiam no Governo, segundo o Portal de Opinião Pública da Fundação Francisco Manuel dos Santos aumento de 15% em novembro de 2015 para 55% em março de 2018. A taxa de pobreza é atualmente de 18,3%, o que constitui uma melhoria face a anos anteriores, mas é ainda superior ao período antes da crise. Mais de 10% dos trabalhadores são pobres em Portugal. E somos um dos países mais desiguais da União Europeia.
Mário Centeno, nosso ministro das Finanças e simultaneamente ministro das Finanças da União Europeia, foi considerado o melhor ministro das Finanças do ano na Europa, para o Financial Times.
Em 2019 vamos ter eleições europeias em maio e legislativas em outubro. Será, portanto, um ano de debate democrático.
Esperemos que os receios para este ano se transformem em ambiente de paz, compreensão e responsabilidade para todos nós portugueses e também europeus.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 15-01-2019)

9 de janeiro de 2019

UM HOMEM, UMA MISSÃO


Conheci o padre Fernando bastante novo, após ter sido ordenado no dia 2 de agosto de 1959. Mas o saber quem de facto ele era foi em setembro desse ano, quando o bispo da Diocese o colocou na Covilhã, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, como coadjutor, aquela que hoje se encontra a paroquiar.
Na minha adolescência não percebia como este homem, humilde, numa inquietude com todo o mundo que o rodeava, procurava na dinâmica, que então não existia, a mudança de comportamentos, quando se vivia a perseguição política dos tempos da ditadura.
Tendo-lhe sido confiada a assistência diocesana aos movimentos operários (JOC e mais tarde a LOC), foi uma autêntica doação a esta causa durante 35 anos. Desde logo os jovens e os operários tinham no padre Fernando a ajuda pronta para o encontro de uma solução pacífica, que lhe valera grandes preocupações com a sua defesa face à perseguição política de então.
O Centro Cultural e Social da Covilhã abriu, entretanto, as suas portas e para ali se instalou a redação e tipografia do Notícias da Covilhã (NC), de que era diretor o pároco, padre José de Andrade.
É também aqui que o padre Fernando Brito dos Santos vai encontrar o seu pouso, até aos dias de hoje, numa constante dinâmica nas tarefas que lhe foram, entretanto, confiadas, já lá vão seis décadas.
Para além da sua excessiva humildade é adverso a qualquer homenagem que lhe queiram prestar, ainda que na mesma se veja forçado a estar presente. Assim aconteceu em 17-11-2001, quando os antigos e atuais elementos dos movimentos operários o homenagearam no Tortosendo, na sua substituição pelo novo assistente.
É no anonimato que sempre desempenhou e desempenha a sua ação em prol dos desprotegidos, fugindo aos projetos mediáticos que trazem notoriedade, tendo sido bastante sacrificado financeiramente com a situação que então existiu com o NC. Mesmo com a sua saúde abalada, já depois de ter sido operado ao coração, persiste em trabalhar.
É uma personalidade multifacetada, pois para além do já referido, foi professor de Moral nas Escolas Frei Heitor Pinto e Secundária Campos Melo, tendo-se dedicado com grande alma ao jornalismo. Em 1982 fez formação nesta área na Universidade Católica; foi chefe de redação do NC de 1979 a 1989, e, a partir desta data, acumulou com o cargo de diretor adjunto até ao falecimento do diretor, padre José Geraldes, que o substituiria como diretor até ser recentemente substituído pelo atual.
Foi um dos fundadores do Banco Alimentar. Em 02.08.2009 a paróquia fez-lhe uma sentida homenagem na comemoração das suas Bodas de Ouro Sacerdotais.
Em 12-10-2012 foi-lhe atribuída pela Câmara Municipal da Covilhã a Medalha de Mérito Municipal, categoria ouro, nas comemorações do 142.º Aniversário da elevação da Covilhã a Cidade. Em 02-12-2012 foi nomeado Cónego pelo bispo da Guarda, D. Manuel Felício.
Muito mais haveria a dizer deste homem da simplicidade e humildade, da cultura e protetor dos desprotegidos, mas o espaço não o permite.
João de Jesus Nunes

(In "Notícias da Covilhã", de  09-01-2019)

19 de dezembro de 2018

UM FINAL DE ANO AGITADO


Neste caminhar para o final do 18.º ano do século XXI da Era de Cristo, muitas coisas vêm acontecendo não só no retângulo mais ocidental da Europa como também neste mesmo Velho Continente.
Começando pelo nosso país, as greves não param. Há 47 pré-avisos até final do ano, sendo que 11 setores da função pública estão em greve com essa intenção de continuidade. Não haverá um único dia sem paralisações, refere a comunicação social.
Neste mês de dezembro o setor da saúde é o mais afetado, com os enfermeiros que iniciaram a greve em 22 de novembro e já ameaçaram a continuidade em janeiro, com milhares de cirurgias adiadas, apesar do apelo ao bom senso por vários responsáveis do país, entre os quais o Presidente da República. A Ordem dos Enfermeiros tem vindo a descredibilizar-se publicamente, suscitando uma compreensível repulsa da sociedade portuguesa. O seu Movimento Greve Cirúrgica – que esteve na base da greve, lançou um fundo aberto ao público que recolheu mais de 360 mil euros para compensar os colegas que aderiram à paralisação. E já criou uma nova plataforma pública de recolha de fundos para a designada “greve cirúrgica 2”, desta vez para recolher até 14 de janeiro, 400 mil euros num “fundo solidário” com vista a ajudar os profissionais que aderirem e ficarem sem salário durante o período de protesto, tendo já recolhido 6100 euros em quatro horas, segundo a comunicação social. Que triste notícia, se não for peta, dum setor que se diz estar ao lado dos doentes quando se borrifam para os mesmos. E lamentável é ainda quem lhes dá apoio nas ajudas pecuniárias. Isto é pessoal que não passou pelas ventas do salazarismo, onde muitos comiam o pão que o diabo amassou, e que não era o das visões dos diabos em cada esquina que Passos Coelho pressagiara. Mas certamente ele aí está “encarnado” nalguns agitadores sobejamente conhecidos.
É que ainda há memórias curtas dos tempos da troika em que muitos andavam caladinhos e, agora, nada receiam, há dinheiro a jorros para satisfazer de imediato todas as reivindicações. Até atividades profissionais como a dos juízes fazem greves, quando tanto estas como a proteção civil, bombeiros, polícias, militares e outras análogas, deveriam ser proibidas.
Reivindique-se, sim, através de armas como o voto maciço, os melhoramentos nas zonas onde a demografia é cada vez mais fragilizada como o nosso Interior Beirão, e procure-se que os muitos ladrões de Portugal sejam condenados e não saiam para fora das grades enquanto não ressarcirem o país dos valores com que se locupletaram.
Com estas condutas irresponsáveis de muitos, não olhando a meios para atingir os seus fins, estão a preparar um lindo Portugal, não fazendo nada de diferente para proporcionar uma sociedade de bem-estar aos cidadãos, neste Portugal dos nossos netos.
No dia 10 deste mês de dezembro comemoraram-se os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos que defende valores universais ainda por realizar em vários países. O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, defendeu que “a celebração deste 70º aniversário deveria ser uma ocasião para lançar um alerta vermelho”.
A outra parte da agitação deste final de ano já é de todos conhecida, desde os “coletes amarelos”, que têm saído à rua todos os sábados desde 17 de novembro, em Paris, com o presidente Macron em verdadeiros apuros para conter a fúria dos manifestantes reivindicadores; até Theresa May com o seu problema do Brexit, aquela primeira-ministra que se diz ter sete vidas mas com o seu “Brexit” na incubadora. Este não é mais do que, finalmente, o divórcio esperado e ansiado pelo Reino Unido e a União Europeia, e, assim, vão as crises desta mesma União Europeia.
Já os “coletes amarelos” exprimem a revolta da classe média empobrecida, da França periférica, que já não acredita na via eleitoral. Macron não é De Gaulle e não estamos em 1968, pois dizia um dos “coletes amarelos” nos primeiros dias de protestos que as “elites francesas se preocupam muito com o fim do mundo, mas o povo está preocupado é com o fim do mês”.
Termino esta crónica deste ano de 2018, citando a parte final da crónica de Vicente Jorge Silva, in Público de 9 de dezembro, sob o título “Lições europeias do terramoto francês: É por isso que o terramoto francês suscita tantos motivos de alerta e reflexão a uma Europa já em depressão profunda. Quem escapa agora ao contágio do que acontece em França? Quando se perde o controlo dos acontecimentos e não se sabe como recuperá-lo, o pior é, infelizmente, sempre possível. Eis também uma lição para nós, portugueses, nestes tempos de greves e reivindicações em cadeia”.
Um Santo Natal e um Feliz Ano 2019.

(In "Notícias da Covilhã", de 20-12-2018)

11 de dezembro de 2018

A CHINA COMEÇA A ASSUSTAR A UNIÃO EUROPEIA

Quase que se podia dizer que sai um (Reino Unido) e entra outro (China), embora não seja a mesma coisa.
A China serão os novos donos de Portugal, pelos vistos. Longe vão os tempos em que víamos as imagens das gentes chinesas vestidas todas de igual, cor cinza e o mesmo modelo de vestuário, com bolsos e botões salientes, de gola apertada onde a gravata era inexistente, e de boina ou boné na cabeça.  Era uma autêntica farda. Tornava-se fastidioso, e todo o mundo chinês utilizava a bicicleta como meio de transporte. Era o tempo de Mao Tsé-Tung.
Noutra vertente, parece que ainda estou a ver na RTP1, então a preto e branco, no dia 25 de outubro de 1971 (uma segunda-feira), os representantes da República da China, da altura, na ONU, que foram um dos seus fundadores, a saírem da Assembleia-Geral das Nações Unidas, expulsos, e revoltados, para darem lugar aos representantes da República Popular da China, oficialmente com esta designação desde 1949, por via duma resolução aprovada por aquela Assembleia Geral. Ainda hoje se mantêm as duas Chinas, geradoras de melindres entre países, como Portugal, porque não se pode agradar a Deus e ao diabo, como no caso que se desenvolve, a bom ritmo, nas decisões entre o nosso país e a República Popular da China. A outra chamava-se Formosa e é hoje Taiwan. A culpa foi de Mao.
Aqui um parêntesis. Para se falar da China tem que resultar numa recolha vasta de importantes informações históricas pois se trata dum dos países mais antigos, aproximadamente 2000 a.C. Era baseada em monarquias hereditárias, conhecidas como dinastias, que terminaram com a queda da dinastia Qing em 1911. Fundou-se então, neste ano, a República da China que governou o continente chinês até 1949. Em 1945 a república chinesa adquiriu Taiwan do Império do Japão, após o fim da Segunda Guerra Mundial.
O Partido Comunista assumiu-se vitorioso perante o Partido Nacionalista e estabeleceu a República Popular da China, em 1 de outubro de 1949, enquanto o Nacionalista mudou a sede do seu governo para Taipé.
As forças armadas têm um efetivo de 2,3 milhões de soldados – o Exército de Libertação Popular – que é a maior força militar do mundo, em termos de número de tropas. A liberdade política é ainda muito restrita. O que é certo e verdade é que há uma contradição na Constituição da República Popular da China (RPC) ao nela se afirmar que os “direitos fundamentais” dos cidadãos incluem a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o direito a um julgamento justo e à liberdade de religião, o sufrágio universal e o direito de propriedade, o que não conferem aos chineses proteção significativa, contra procedimentos penais do Estado. Recordam-se os Protestos na Praça da Paz Celestial (Tian’anmen), em 1976 e 1989, contra a repressão do regime chinês, que resultou em massacres. E tenha-se em atenção que a China executa mais pessoas do que qualquer outro país do mundo, respondendo por 72% do total mundial de execuções em 2009.
No entanto, a economia da República Popular da China é a segunda maior do mundo, sendo a nação com maior crescimento económico dos últimos 25 anos, com a média do crescimento do PIB em 10% por ano.
Este robusto crescimento económico, combinado com excelentes fatores internos como estabilidade política, grandes reservas em moeda estrangeira (a maior do mundo, com 818,9 biliões de dólares), mercado interno com grande potencial de crescimento, faz com que a China seja atualmente um dos melhores locais do mundo para investimentos estrangeiros, com uma avaliação de risco (Moody’s) A2, índice considerado excelente.
Desde a introdução de reformas económicas em 1978, a China tornou-se uma das economias de mais rápido crescimento no mundo, sendo o maior exportador e o terceiro maior importador de mercadorias do planeta.
É impressionante como conhecemos a China há umas décadas atrás e, face à industrialização, reduziu a taxa de pobreza de 53%, em 1981, para 8%, em 2001. Por isso é considerada uma superpotência emergente.
Pois cá tivemos a semana transata (dias 4 e 5 deste mês de dezembro), a visita a Portugal do 4.º  presidente chinês, Xi Jinping, sendo que a 1.ª visita dum presidente chinês se realizou em 1984 (de 16 a 19 de novembro), na pessoa de Li Xiannian; depois, a 2.ª em 1999 (26 e 27 de outubro), com Jiang Zemin; e a 3.ª  visita aconteceu em meados de novembro de 2010, com Hu Jintao, em condições muito diferentes das do atual presidente, pois nessa altura havia uma profunda crise europeia, mas foram investidos cerca de nove mil milhões de euros, pelo que a relação com a China é para continuar.
Portugal recebeu o presidente chinês para reforçar a cooperação entre os dois países. Efetivamente, com os “vistos gold”, o país abriu as portas ao espaço Schengen a mais de 4000 cidadãos chineses, como contrapartida de vários investimentos em território nacional. Nesta altura, o investimento direto estrangeiro da China atinge um total de 12 mil milhões de euros, abarcando setores desde a energia (Galp, REN, EDP) aos transportes (TAP), passando também pela área dos seguros (Fidelidade), saúde (Grupo Luz Saúde).
Tem sido argumentado de que os dois países têm 500 anos de conhecimento mútuo, incluindo uma transferência bem-sucedida da soberania de Macau. “Mas até onde Portugal deve ir na sua relação económica e política com a China para preservar a independência das suas decisões estratégicas e o estatuto de membro da União e da Nato?” Segundo o Coordenador do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Aveiro, Carlos Rodrigues, “a aquisição de empresas portuguesas permite um acesso a conhecimento e tecnologia a que, de outra forma, seria muito difícil aceder”. E Miguel Santos Neves, especialista nas relações Portugal-China, professor na UAL, refere que “a China visa utilizar esta forte influência sobre Portugal para enfraquecer a União Europeia (UE) e a sua posição negocial face a Pequim”.
A UE teme a entrada pujante da China e esta vê também a sua história de sucesso a ser colocada sob ameaça pela mudança de atitude de outras potências mundiais, principalmente os Estados Unidos perante o sucesso chinês. Sim, a China, de país essencialmente agrícola, passou a maior exportador do mundo e segunda maior economia mundial, com mais de 800 milhões de chineses a deixarem de estar em situação de pobreza extrema, o que representa um contributo de cerca de 70% para a redução total da pobreza no planeta.
E, assim, Portugal e a China assinaram um “memorando” muito europeu, cujas “relações deram mais 17 passos em frente”, sendo que o primeiro destes acordos é um memorando de entendimento da chamada “nova Rota da Seda”, que envolve uma vertente terrestre e outra marítima, com ênfase nas estruturas.
Já vai longo o texto, pelo que me despeço com os votos de um Santo Natal e um Feliz Ano 2019.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11-12-2018)

8 de dezembro de 2018

A CAMINHO DO CICLO DO NATAL


Este número d’O Combatente da Estrela vai sair na data em que se aproxima, a passos largos, o Natal.
Para as nossas crianças é a alegria das prendas, um período de férias mais prolongado para muitas outras, mas também o frenesim pelas notas escolares.
Para os jovens à procura de emprego, concluídos os seus cursos, licenciaturas, mestrados ou doutoramentos é a agitação para posteriormente poderem concorrer a esta ou aquela empresa, instituição ou estabelecimento de ensino, enviando currículos e mais currículos, cadastrarem-se no LinkedIn, e, alguns até, mandando o Brexit à fava, sonhando com recurso ao estrangeiro, mesmo na zona onde se constata a tentação ilusória e perigosa de repor fronteiras onde elas  deixaram de fazer sentido. Se para uns já existiam as dificuldades, para outros iniciam-se agora.
Para os reformados de menores posses, a esperança de que venha depressa o subsídio de Natal, agora que já não é por duodécimos.
Não falo de muitos dos abastados que são por vezes os que mais aferrolham preferindo chupar por um caroço, como sói dizer-se.
E há os verdadeiramente necessitados, alguns de pobreza envergonhada, que aguardam pelo bolo de Natal e um saco mais reforçado das instituições de solidariedade social. Ai se não fossem estas, como estaria este país?... Nesta Covilhã também há alguns sem-abrigo, lamentavelmente.
Depois existem os remediados, os da classe média, com predominância da baixa, para darem vida às atividades económicas, encherem de compras os hipermercados mormente neste período de Natal, integrarem as instituições e o associativismo no voluntariado de uma sã convivência, em vários domínios.
Se já durante o ano há os almoços e jantares comemorativos, nesta altura não falha, dias não são dias, são os jantares de Natal, por todos os recantos e com os seus encantos.
E venham de lá mais umas raspadinhas, que as há para todos os gostos, o euromilhões, e não esquecer a lotaria natalícia.
É também o desejado período de reunir as famílias, dar um abraço aos amigos que só por esta altura ocasionalmente se cruzam connosco, já que os habituais estão registados para as Boas-Festas. Amigos são amigos.
E a grande avalanche de aposentados, deste país envelhecido, mormente daqueles que já começam a pesar-lhes os anos, mas que não ficam parados a ver a banda passar, antes procuram manter as portas abertas duma associação, em movimento, por exemplo, ainda que com algumas interrupções momentâneas dos seus obreiros enquanto “motoristas” dos seus netos, mas com alegria, dão cartas na prossecução de tarefas, sem compensação, das quais algumas deveriam ser de obrigação do Estado.
Tenho vindo a falar sobre as pessoas, nos últimos números deste O Combatente da Estrela, e é neste âmbito que não posso descurar os sacrifícios por que muitos de nós, antigos Combatentes, passámos, alheios ao desconhecimento das últimas gerações, agora que se comemorou o centenário do Armistício da  Primeira Guerra Mundial, onde muitos jovens covilhanenses e da região beirã, para já não falar de milhares e milhares de jovens portugueses de então, vieram a deixar o mundo dos vivos, furados pelas balas do inimigo nas trincheiras.
Depois haveria de surgir uma outra, ainda pior, a Segunda Grande Guerra, em pouco mais de duas décadas.
E para nós, antigos Combatentes, chegaria a nossa vez, através das malditas guerras do Ultramar, guerras subversivas como os governantes de então a apelidavam. Muitos sofrem ainda o malfadado stress pós-traumático, tantas vezes aqui referido.
A Liga dos Combatentes, então criada, de cujo Núcleo da Covilhã, donde emergiu “O Combatente da Estrela”, não tem dado tréguas a várias ações em prol dos seus associados, e não só, em várias vertentes, tão sobejamente referidas neste órgão ao longo das suas páginas trimestrais.
As várias atividades desenvolvidas todos os anos, como no presente, são bem o testemunho duma casa acolhedora a todos os seus membros. E para isso, a atual Direção, que tomou posse em 27 de abril de 2018, é a continuadora do que acima foi referido, duma associação em movimento.
Sobre as guerras por que a nossa geração (os nascidos nos anos 30 a 50) passou, muitos em pleno teatro de guerra, vale a pena ler os testemunhos inseridos nos textos das pessoas que ainda têm paciência para recordar várias facetas desses terríveis tempos, e que aqui vamos registando, porque felizmente não pereceram.
Vale a pena também a atenção especial para o texto do antigo Combatente, Eduardo Tendeiro, que mencionamos na rubrica “Conte-nos a sua história”, ele um dos que integrou a guerra do Ultramar nos seus primórdios (foi meu professor em 1957/58, muito antes de ser chamado para o serviço militar obrigatório).
E, neste contexto, conforme foi referido no último número, jamais consigo aceitar a exuberância com que alguns apregoam aos sete ventos, mormente em atos públicos de apresentação das suas obras, que foram exilados deste país, porque não aceitavam as ideias ditatoriais do regime nem as guerras em que estava envolvido o país, quando, na verdade, foram tão só os fugitivos da Nação, tendo regressado após o 25 de Abril, incólumes, quando deveriam responder pelos seus atos pusilânimes de fugir à responsabilidade patriótica, ainda que com a mesma não concordassem. Em vez de se manterem caladinhos, surgem vitimizados e ufanos, sem coerência na sua razão de patriotismo.
Na esperança de continuarmos a prosseguir com o mesmo entusiasmo no próximo ano, desejamos a todos os Antigos Combatentes, Associados e suas Famílias, assim como aos prezados Leitores, um Santo Natal e um Feliz Ano 2019.


(In "O Combatente da Estrela", n.º 113, de dezembro de 2018)

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA JOSÉ EDUARDO SANTOS TENDEIRO


Desta vez trazemos a esta rubrica um antigo combatente, do início da guerra no Ultramar, natural de Elvas mas que se radicou na Covilhã, onde exerceu a sua atividade no ensino (depois de professor passou a inspetor) com que se aposentou.
Tem sido colaborador desta publicação, e também da revista “O Combatente”, já escreveu um livro sobre a sua passagem pelo Ultramar, cujo título “Danos Colaterais” integrou uma das atividades deste Núcleo, em 2017, com a sua apresentação na Biblioteca Municipal da Covilhã.


 Estive lá
 
  Fui um dos que tiveram a felicidade de voltar.     Outros ficaram, jazendo.

  Tive um início de serviço militar normal.
  Incorporado em  Abril de 1959, frequentei o CSM em Mafra, fazendo especialização em transmissões de infantaria, credenciado para a chefia de um centro cripto. Passei à disponibilidade em Março de 1961.
  Liberto da obrigação militar, casei e organizei a viva. Mas a vida organizada durou pouco.
  Chamado de novo às fileiras, foi-me ordenada a frequência do “Curso de Caçadores Especiais” no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE) em Lamego, de 17 de Julho a 2 de Agosto de 61 e posteriormente integrado no Batalhão de Caçadores Especiais nº357, na especialidade de transmissões da Companhia de Caçadores Especiais nº306, com destino a Angola, onde a situação era efervescente.
  Desembarquei em Luanda em 12 de Maio e no desfile feito na “Marginal”, o Batalhão foi recebido com flores lançadas das janelas dos edifícios. Éramos um acréscimo de segurança aos que temiam novas investidas dos “terroristas”.
  Recebidas viaturas, jipes e Unimogs novos e GMCs em bom estado, numa longa e extenuante marcha de 1035 quilómetros, atingimos o local indicado para o nosso estacionamento em 18 de Junho de 62.   Próximos da fronteira com o ex-Congo Belga, em pleno teatro de guerra,  construímos de raiz, com materiais recolhidos em sanzalas próximas ─ abandonadas─ o nosso estacionamento, baptizado Pangala, base das missões atribuídas: cortar linhas de movimentação  do IN ( o inimigo) e ocupação territorial.
  Sofremos o horror das minas que causaram  mortes ─ quatro─ e feridos graves evacuados.
  Morremos muitas vezes na incerteza do dia seguinte.
  Matámos na ânsia da retaliação, com o eco do grito de revolta de um corajoso missionário contra a exploração dos índios afirmando-os os verdadeiros senhores das suas terras e que “a nenhum título, nem o Papa nem o Rei de Espanha os podem privar desse direito!”
Talvez aqueles “terroristas”  sejam os verdadeiros senhores das suas terras e nem o Papa, nem o “rei” de Portugal, nem nós os possamos privar desse direito.

  Privações de água, de alimentos confeccionados e carências múltiplas assoberbaram-nos. Durante doze meses enfrentámos ainda as agruras de um clima pouco favorável em terreno desconhecido.
 Era a guerra.
  Na minha qualidade de responsável pelas comunicações rádio acresciam as queixas dos operacionais que, de noite, se viam  impossibilitados de usar os rádios distribuídos e, não raras vezes descarregavam em mim a sua frustração. Sucedia que nos tinham sido atribuídos emissores/receptores inapropriados. Funcionando em AM (amplitude modulada) e com reduzida potência, eram incapazes de vencer a estática que surgia com o pôr do sol. As operações nocturnas apeadas, desde o pôr ao nascer do sol, ficavam sem comunicações com a base. A despeito dessa certeza, sempre que havia uma acção nocturna, na “base” ─ a Companhia ─ havia uma escuta permanente tentando ouvir uma voz entre aqueles milhares de grilos em loucos desafios.
  Naquele tempo havia um único emissor/receptor capaz. Montado em viatura ou em estação o ANGRC-9, posteriormente dotado de um amplificador de sinal, cumpria a sua missão. Mas este aparelho dificilmente podia ser usado em patrulhas apeadas: eram necessários pelo menos dois militares para o transportarem, demorava muito tempo a ser preparado para operar e a sua utilização era penosa.
  Pesava ainda sobre mim o secretismo do conteúdo das mensagens recebidas que o operador cripto descodificava, eu conferia e assinava.

  Doze meses depois, trilhando o mesmo caminho, regressámos a Luanda onde ficámos “em prontidão” e guarnecendo pontos sensíveis da cidade.
  Deslocados posteriormente para o sul do rio Quanza, com a missão de zelar pela segurança das instalações petrolíferas de Cabo Ledo, com um pelotão deslocado na Muxima, em plena reserva de caça da Kissama, tivemos o merecido “Repouso do Guerreiro”.
  A 22 de Junho de 64, o Vera Cruz carregou-nos para a Metrópole com a tristeza de termos deixado para sempre quatro amigos no cemitério de S. Salvador do Congo.
   Mas a guerra não ficou lá: noites insones sob cacimbo cerrado,  tensão de uma deslocação em viatura num terreno possivelmente minado, sede mitigada com água suspeita, rações de combate odiadas, a dor raivosa de perder amigos, o desejo de retaliação, a incerteza do dia seguinte e de estarmos a fazer “o devido”, as recordações tenebrosas da guerra vieram connosco.
  Só o tempo vai limando esses “danos colaterais”.
J. Eduardo Tendeiro   (DEZ18)

NOTA: Por lapso, no n.º 112 desta publicação, o texto deste mesmo autor “Conversando”, foi assinado por “Eng.º Tendeiro”. Pede-se a vossa correcção.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 113, dezembro 2018)

MEMÓRIAS DA EXTINTA “ERNESTO CRUZ” NUM ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO








Esta é já a terceira vez que os antigos patrões da Ernesto Cruz quiseram confraternizar com os seus antigos trabalhadores, colaboradores com quem se irmanaram na recordação de muitos anos de trabalho em comum.
Recorde-se que a extinta empresa remontou a sua fundação a agosto de 1939 e a constituição de Ernesto Cruz & Cª surgiu em 1947. Foi iniciada pelos sócios Ernesto Cruz, António da Cunha Taborda, Fernando Lopes da Costa Alçada e Aníbal Mousaco Alçada. Teve então uma fase de desenvolvimento em grande ritmo, com cerca de 650 operários que se revezavam por turnos, passando para 614 em abril de 1974, altura em que já vinha a atravessar um período difícil, apesar de haver um excelente ambiente de trabalho. Houve então a necessidade de em 23 de outubro de 1974 ser pedida a intervenção estatal pela entidade patronal e pela Comissão de Trabalhadores, tendo esta chegado a realçar o facto de a empresa ser caso único no país onde a entidade patronal “não faz boicotes nem chantagens, antes pelo contrário, mostra-se aberta ao espírito de iniciativa dos trabalhadores”. Isto não evitou que o grupo de empresas Ernesto Cruz & Cª., Lda não acabasse por encerrar em 1990.
Em 6 de agosto de 1972 eram sócios: Fernando Lopes da Costa Alçada, Júlio Henrique Casaleiro Torres Cruz, Carlos Alberto Casaleiro Torres Cruz, Ernesto Henrique Casaleiro Torres Cruz, Maria Leonor Casaleiro Torres Cruz e Silva, José dos Santos Taborda, Francisco Manuel Pinheiro Alçada, João Carlos Pinheiro Alçada e Maria Leonor de Albergaria Pinheiro Alçada de Sousa Byrne.
O grande Homem desta empresa, e seu fundador, Ernesto Cruz, foi um visionário da indústria e grande vulto do principal clube da região – o Sporting da Covilhã (SCC) – onde foi presidente da Direção e levou, pela primeira vez, o clube à então Primeira Divisão Nacional, que nascera em 11 de novembro de 1906, e viria a falecer com 62 anos, em 6 de outubro de 1969, quando muito ainda se esperava desta grande figura covilhanense.
Entretanto, as instalações da empresa foram adquiridas pela UBI – Universidade da Beira Interior, onde se situa o Pólo das Ciências Sociais e Humanas, passando, muito justamente, a ser designado, em sua homenagem, Pólo Ernesto Cruz.
Por tudo isto, os sócios presentes neste almoço de confraternização, realizado num restaurante da cidade, no dia 16 de novembro, Carlos Alberto Casaleiro Torres Cruz (filho de Ernesto Cruz e atualmente o sócio n.º 1 do SCC) e Francisco Manuel Pinheiro Alçada, recolheram de todos bons momentos, sentindo-se “todos unidos num passado vivido com o mesmo objetivo, levarmos a empresa criada essencialmente por meu Pai a bom porto”, nas palavras do ex-sócio Carlos Cruz.
Neste almoço estiveram 62 participantes, onde se incluíam 15 familiares, ficando desde já decidido dar-lhe continuação no próximo ano.
É um exemplo para que outras extintas empresas possam relacionar laços de amizade no encontro de velhas memórias profissionais.


(In "Notícias da Covilhã" e "Jornal do Fundão", de 22/11/2018)

14 de novembro de 2018

OS 100 ANOS DA GRANDE GUERRA


Escrevo estas linhas exatamente no dia 11 de novembro, altura em que perfaz um centenário da assinatura do Armistício que pôs fim à Grande Guerra.
Jamais se pensaria que esta luta entre nações iria atingir tamanho morticínio em tanta gente, pessoas inocentes, que seriam forçadas a integrar contingentes para as frentes de batalha, em trincheiras, deste modo porquanto as táticas militares desenvolvidas antes da Primeira Guerra Mundial, esta que agora assinalamos o centenário do seu fim, não conseguiam acompanhar os avanços da tecnologia e se tornaram assim obsoletas. Tecnologia daqueles tempos em relação aos dias de hoje é como compararmos entre o dia e a noite.
Só que, desta Primeira Guerra Mundial, que é considerada por muitos historiadores como um marco no início do século XX, resultou em novas correlações de forças que se estabeleceram no mundo. Assim, foi o declínio da Europa e a ascensão dos Estados Unidos da América (EUA) à condição de principal potência mundial.
A Grande Guerra enfraqueceu a confiança da Europa em si própria. Os Estados Unidos viam-se já como diferentes e melhores que o resto do mundo. Esta guerra veio reforçar essa sua entendida superioridade.
Efetivamente, antes deste conflito, a Europa era o centro do mundo. Depois da guerra, esse centro foi para os Estados Unidos. A moeda de referência internacional deixou de ser a libra e passou a ser o dólar.
Neste dia 11 de novembro do ano da graça de 2018, líderes de todo o mundo reuniram-se em França para comemorar o Dia do Armistício.
Muito se contou, muito mais haveria a dizer sobre esta Guerra Mundial que seria a primeira para depois se despoletar uma Segunda Guerra Mundial, hecatombe de ainda piores proporções, em pouco mais de duas décadas. E para isso contribuíram as imposições ultrajantes do Tratado de Versalhes de 1919.
Desapareceram assim os impérios Alemão, Russo, Otomano e Austro-Húngaro e surgiu a criação de novos países na Europa e Médio Oriente. Vieram a perder a vida nesta Guerra Mundial, uma das maiores guerras da história, mais de nove milhões de combatentes, onde o grande sofrimento e a banalização da morte era uma evidência.
Portugal, escusadamente, também entrou nesta Grande Guerra, sem condições nem preparação militar, defrontando-se com as doenças, a fome e a degradação do equipamento militar. Participou neste primeiro conflito mundial ao lado dos Aliados, o que estava de acordo com as orientações da República, ainda recentemente instaurada. E isto aconteceu em março de 1916, quando a Inglaterra decidiu pedir ao Estado português o apresamento de todos os navios alemães e austro-húngaros presentes na costa lusitana. Esta atitude justificou a declaração oficial de guerra a Portugal pela Alemanha, em 9 de março daquele ano.
E, desta feita, em 1917, as primeiras tropas portuguesas, do Corpo Expedicionário Português, sob o comando do general Tamagnini de Abreu, seguiram para a Flandres, para essa lamentável guerra na Europa. Viria Portugal a envolver-se, depois, em combates em França, tendo a Inglaterra fornecido treinamento às tropas portuguesas, tal o estado em que elas iam.
Desta região beirã, e mormente da Covilhã, do Batalhão de Infantaria 21, também partiram jovens militares.
Os portugueses também tiveram grandes perdas, onde se incluíram militares desta região.
Alguns destacaram-se por atos de grande patriotismo em heroicas ações, como o soldado Aníbal Augusto Milhais, conhecido como o Soldado Milhões, o único militar português condecorado com a mais alta honraria nacional, a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, no campo de batalha em vez da habitual cerimónia pública em Lisboa.
Da Covilhã desde há muito se ouviu falar do soldado corneteiro José Antunes, conhecido por “Garri” que, em França, em plena guerra, com o seu apurado ouvido conseguiu captar os toques de clarim alemão que depois executava com grande perfeição. Desta forma, iludia o inimigo, pois fazia soar o toque de retirada, ou outro. Ter-lhe-á sido atribuída também a medalha daquela Ordem Militar. Isto vem referido em vários livros e jornais. Entretanto, numa posterior investigação de dois historiadores da Covilhã, que escreveram “A Covilhã e a Grande Guerra (1914-1918)” este nome não consta como tendo sido condecorado com esta insígnia. Como já faleceu e se desconhecem os familiares próximos, não há qualquer hipótese de recolher mais informações fidedignas, mantendo-se a possível lenda, já que a investigação foi feita com a existência de documentação autenticada.
Esperemos que este mundo global singra no caminho do entendimento e se eliminem logo à partida quaisquer tentativas de uma terceira guerra mundial.

(In "Notícias da Covilhã", de 15-11-2018)

13 de novembro de 2018

A WEB SUMMIT DO NOSSO CONTENTAMENTO


Os quatro dias deste importante evento já voaram. Foi uma lufada de vento. Nem tudo foi um perfume suave de fragância. Para além da participação de 1800 startups, 1200 oradores e perto de 70 mil participantes, número muito superior ao do transato ano, conforme a comunicação social noticiou, há que ter bem presente as palavras do presidente da República português: “O digital devia ser para a liberdade. Para abrir economias, sociedades, promover o diálogo e a tolerância, mas hoje em dia vemos o contrário em todo o mundo, vemos xenofobia, vemos intolerância, vemos racismo, vemos guerras comerciais, vemos fronteiras a fechar”.
Este evento teve ainda a participação do inventor da Web, Tim Berners-Lee e outros mui ilustres cérebros do digital, tendo sido bem frisado por Marcelo Rebelo de Sousa que “o digital não se pode esquecer do resto da sociedade”.
Importante mesmo foram os muitos avisos, para além dos já referidos, também, entre outros, o de Cristopher Wylie, programador britânico que denunciou o escândalo de dados do Facebook e da Cambridge Analytica, referindo, e muito bem, que “estamos a deixar-nos colonizar pelas empresas de tecnologia”, tratadas como “entidades divinas”. É que, de facto, para muitas pessoas, a confiança nas empresas de tecnologia sofreu danos, recordando-nos, por exemplo, os nossos dados pessoais roubados, num autêntico abuso. Mas isto daria pano para mangas…
O fundo de inovação social que o Governo apresentou é preciso que vá para a frente a fim de que sejam mesmo aproveitados o promover projetos nas áreas da educação, empregabilidade, igualdade do género e envelhecimento ativo, esperando também que a promessa do grupo Volkswagen para a abertura de um centro de desenvolvimento de software, em Lisboa, possa singrar.
Segundo o jornal Sol, foram percorridos 935 mil quilómetros, neste evento, em Lisboa, e consumidos 363 mil cafés, e, o jornal Público, que houve direito, noutras zonas de Lisboa, a copos de poncha e bolas-de-berlim, entre as ofertas. Tantos preciosismos para quê? Por acaso não falaram nos pastéis de Belém. Se isto fosse passado na mui nobre Cidade da Covilhã, teríamos que mencionar as cherovias.
Entre parêntesis, salientar, fora deste âmbito, os prémios para dois empreendedores da Covilhã, onde, entre vários, aqui instalados, acabam de vencer duas competições. A eCO2blocks, spin-off da Universidade da Beira Interior (UBI), venceu a final internacional da ClimateLauchpad, a mais importante competição mundial de ideias de negócio com base em tecnologias ambientalmente responsáveis. Foi uma ideia desenvolvida no Departamento de Engenharia Civil e Arquitetura (DECA), na pessoa do professor João Castro Gomes, e o estudante de doutoramento nesta área, Pedro Humbert. Neste concurso houve a participação de 135 concorrentes e isto aconteceu nos dias 1 e 2 de novembro, em Edimburgo, Escócia. Ganharam ainda o prémio Sistemas de Construção Sustentável. Este projeto empreendedor sugere que sejam utilizados produtos para a construção, como blocos, mas feitos a partir de resíduos, evitando assim o cimento e a utilização de água potável na respetiva produção que endurecem a absorver CO2. É propósito fazer com que este produto, que é amigo do ambiente, possa chegar ao mercado para revolucionar a construção.
Conforme já havia sido noticiado, também o empreendedor Pedro Pereira, sediado no Parkurbis-Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã, conquistou o prémio nacional TourismExplorers, através da startup Wicked-Cat. Assim, o representante da nossa Cidade da Covilhã, veio a vencer o projeto “Artist”, na grande final realizada no último dia do mês de outubro. Nesta segunda edição participaram 12 cidades portuguesas, entre as quais, como é óbvio, a Covilhã.
Após a Web Summit, e agora no nosso meio, a Universidade da Beira Interior (UBI) vai mostrar, durante dois dias, como chegar ao mercado de trabalho. Com a iniciativa “Olá Emprego! Start in UBI”, é seu objetivo promover o emprego, a formação e a internacionalização, com início no dia 13 de novembro, no pavilhão da ANIL. Trata-se de uma parceria entre a UBI, Câmara Municipal da Covilhã, Instituto de Emprego e Formação Profissional da Covilhã (IEFP) e a Associação Académica da UBI. Participarão cerca de 40 entidades ligada aos setores de emprego e formação.
Assim, os visitantes, até final, podem assistir a diversos painéis, com dedicação pela Relação entre a Escola e a Empresa, procura de emprego, empregabilidade e empreendedorismo, assim como a internacionalização.
Trata-se de uma importante vertente de conhecimentos.
Não vamos esmorecer por quaisquer tropeças que possam ainda vir a surgir pelo caminho, mas antes elevar o ânimo neste caminhar para a transformação do nosso país, e da nossa região, para que cada um não deixe de ter o seu emprego, com satisfação, neste aproximar a passos largos do final de mais um ano.


(In "fórum Covilhã", de 13-11-2018)