11 de abril de 2019

FILHOS DA MADRUGADA


Na senda do entusiasmo que temos vindo a atingir em crescendo com a nossa publicação trimestral, foi solicitado na última Assembleia Geral deste Núcleo da Covilhã, realizada no dia 9 de março, que se mantivessem os quatro números anuais d’ O Combatente da Estrela, já que é o elo de ligação com os muitos Associados radicados por todo o País.
Esta Assembleia Geral viu aprovado por unanimidade o relatório das atividades do ano 2018 e o plano de atividades para 2019, salientando-se com muito apreço o trabalho da atual Direção do Núcleo, pois que o ano de 2018 foi um ano pleno de atividades, onde sobressaíram as evocações do Centenário do Armistício.
Vem à presença dos leitores este número, no mês de abril, ano em que se comemoram 45 anos do 25 de Abril, dia em que quase todos nós, então ainda revestidos da nossa juventude, sentimos o coração a palpitar de alegria, acordados de um sonho que parecia uma utopia.
Pena é que os ideais do Movimento dos Capitães viessem ao longo de todos estes anos a ser adulterados e gerado em muitos de nós dúvidas, indignações e perplexidades sobre atuações em várias vertentes como, por exemplo, onde pondera a lentidão da justiça, e a sua aplicação. Muitos se têm aproveitado da democracia para se envolverem no locupletamento, à descarada, por vezes provindo de figuras das quais nem pensávamos que por elas passasse tal conduta. Não olhando a meios para atingir os seus fins, numa onda de populismo como agora é a palavra do momento político.
E foi a Revolução dos Cravos, ainda que feita de pétalas de virtudes e defeitos, que veio terminar com a Guerra nas Colónias – a Guerra do Ultramar – para onde muitos de nós por lá passámos, e, daí, a vivência profunda dos variadíssimos Núcleos da Liga dos Combatentes.
Se muito já se falou, é bom que os atuais antigos Combatentes, e não só, deixem para os novos, e os vindouros, as memórias destes tempos, para que odeiem as guerras e se insuflam nos projetos pela paz.
Aqui reproduzo as primeiras notícias sobre o início desta Revolução do 25 de Abril, e as figuras que emergiram como filhos daquela madrugada, que tiveram a coragem de enfrentar o perigo, naquela altura em que eu tinha 28 anos, recordando essa célebre quinta-feira de redobradas atenções.
Às quatro e tal da manhã daquele dia de quinta-feira o Rádio Clube Português (RCP) acaba de transmitir o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA), o que motivou que não mais conseguisse dormir quem o ouviu, tal como o fotógrafo Alfredo Cunha, do jornal O Século, que foi quem obteve as primeiras fotografias deste acontecimento, em Lisboa. Às seis da manhã de 25 de Abril toca a campainha do jornalista Adelino Gomes, então com 29 anos e secretário da redação da revista Seara Nova, pensando que ia ser preso pela PIDE, quando a mulher o informou do acontecimento. Às três horas e doze minutos, o RCP tinha pouca gente, dois técnicos de som e Joaquim Furtado, que preparava o noticiário das quatro. Oito militares entraram na estação. Objetivo: instalar ali o Posto de Comando do MFA. Só nessa altura Joaquim Furtado tomou conhecimento da existência de um movimento. Saiu do gabinete e no primeiro momento que encontrou apropriado perguntou a um dos militares, que lhe disse, de forma muito breve, mas muito clara, que se tratava de um golpe militar para depor o governo, fazer eleições livres, libertar os presos políticos, acabar com a PIDE, com a censura e com a guerra. Deu-lhe em síntese o programa do MFA.
Às quatro e vinte e seis, e não às quatro como previa o plano militar de operações devido a um atraso na tomada do Aeroporto de Lisboa, a voz segura de Joaquim Furtado anuncia: “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais devem conservar-se com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal, para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo. Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando que acorram aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração, que se deseja, sinceramente, desnecessária”.
E foi assim que outro filho da madrugada, o médico João Camilo, interno do Hospital de São José, respondeu ao apelo do MFA.
Quem também não esqueceu este dia foi Helena Pato, na altura com 35 anos, dirigente estudantil, dirigente da CDE, sindicalista e fundadora do Movimento Democrático das Mulheres, porque tinha o seu marido de então, José Manuel Tengarinha, preso em Caxias. Tinha uma visita marcada para a cadeia às onze da manhã do dia 25 de Abril, mas cerca das quatro horas toca-lhe o telefone, e é o jornalista do Diário de Lisboa que lhe comunica que estavam em curso movimentações militares para derrubar o regime, que iniciavam uma revolução e uma das primeiras coisas que iriam fazer era libertar o marido e os restantes presos políticos.
Na primeira conferência de imprensa de Salgueiro Maia, o jornalista Adelino Gomes disse-lhe: “Não desconhece que a GNR está muito bem armada, pois não?”, ao que o capitão responde: “Temos todas as viaturas do Exército do nosso lado”. E há uma voz que diz. “E temos o povo”. Era o alferes Carlos Beato, que foi presidente da Câmara de Grândola.
E foi o desenrolar de muitos outros filhos da madrugada que não cabem neste texto. Ficam as memórias.


(In "O Combatente da Estrela", nº. 114, de março de 2019)

9 de abril de 2019

O 25 DE ABRIL – QUANDO O JORNALISMO SAIU À RUA


No próximo dia 21 inicia-se a Páscoa para, na mesma semana, encontrarmos uma data marcante nas vidas de todos nós, mesmo daqueles que não passaram pelos satânicos tempos da ditadura.
Inolvidável para quem sofreu na pele ou no sacrifício diário de ter de penar para manter um emprego de salários miseráveis (que se lembrem os da função pública de então), de comer e calar, suportar as situações de uma neurose ao não se poder expressar livremente.
Dos jornalistas, dos comentadores, dos cronistas, os seus textos não eram publicados sem a aprovação dos censores.
Foi quase meio século de um assassino lápis azul, que obrigava muitos jornalistas a um relato insípido, de metáforas e eufemismos.
Tudo era proibido, tudo era tabu. Se havia alguns mais criativos arriscavam-se nas entrelinhas.
Era até ridículo o que não podia revelar-se. Fake news já existiam nesse tempo, ainda que muito bem dissimuladas, mormente durante a guerra colonial. Este neologismo de notícias falsas que hoje é usado para referir notícias fabricadas, passava por vezes pelo que acontecia, e como aconteciam as mortes dos combatentes das guerras nas colónias, sempre numa perspetiva de evitar maiores responsabilidades dos governantes deste país então desgraçado.
E isso não evitou que o primeiro dia do fim do império surgisse em 15 de março de 1961, em Angola, com bandos armados da UPA a destruírem fazendas e vilas e a assassinarem dois mil colonos portugueses. Foi o início de uma tragédia imensa, que abriu caminho para 14 anos de guerra. A Índia já havia caído. E era preciso defender África.
Mas dizer a verdade era assumir que no país havia descontentamento social, era pôr em causa o regime.
Recordemos um caso curioso, para fugir à censura, o que relatou o jornal República, naquela segunda-feira de 18 de março de 1974, aproveitando a derrota do F. C. Porto na sua deslocação ao Estádio de Alvalade para, de uma forma brilhante, iludir a censura prévia e comentar a revolta das Caldas da Rainha.
Sporting 2, Porto, 0. Os muitos nortenhos que no fim de semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos pela derrota. O adversário da capital, mais bem organizado e apetrechado (sobretudo bem informado de sua estratégia), contando ainda com uma assistência fiel, fez abortar os intentos dos homens do Norte. Mas, parafraseando o que em tempos dissera um astuto comandante, ‘perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra…’”.
O que é certo e verdade é que dez dias depois, em 28 de março de 1974, foi a última “Conversa em Família” de Marcelo Caetano, na RTP.
Mas, felizmente, no dia 24 de abril de 1974, às 22 horas e 55 minutos, os Emissores Associados de Lisboa transmitiam a canção “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, primeiro sinal do Movimento das Forças Armadas (MFA), confirmando que tudo corria bem e se iniciava, assim, uma nova era com o derrube do Governo e da ditadura, no dia seguinte, 25 de Abril de 1974.
Como terá sido a transição para a livre expressão? Como foi fazer jornalismo com liberdade, pela primeira vez? E poder dar gritos de repugnância pela Censura e Exame Prévio?
O que é certo é que a tiragem de jornais disparou. Mas, dado o hábito, dizem alguns jornalistas desse tempo, mormente do República, Diário de Lisboa e Jornal de Notícias, que não foi fácil, nos primeiros tempos, escrever sem a barreira da censura. Foi um tempo quase de aprendizagem e de excessos.
Mas já o primeiro texto sem censura do jornalista Fernando Correia foi escrito na cadeia de Caxias, dias antes de ser libertado. Tinha sido detido pela PIDE a 18 de abril de 1974. Como se sabe, os presos de Caxias só poucos dias depois foram libertados. O derrube do fascismo estava praticamente consumados mas os presos de Caxias, apesar de já estarem informados do êxito do golpe, permaneciam ainda encarcerados.
O mês de abril de 1974, já lá vão 45 anos, apanhou o alferes miliciano Ribeiro Cardoso longe de casa. Havia sido mobilizado para Moçambique e colocado em Lourenço Marques. Diz que nessa altura só escrevia para a família – e quanto a jornais, apenas era visita regular da delegação do Notícias da Beira. Porém, de repente, com o ar da liberdade voltou ao ativo, começando de imediato a ser correspondente anónimo (não assinava, pois, era militar…) do Diário de Lisboa. Realça que era uma “coisa” estranha mas excitante: escrevia no quartel, à mão e à pressa, e ia a correr aos CTT, onde numa operadora batia o texto no telex, com ele ao lado a “traduzir” os seus gatafunhos. Era uma sensação fantástica pressentir que dali a pouco tempo os seus textos, livres como a gaivota da canção, circulariam por Lisboa dando conta de uma realidade distante e desconhecida.
E hoje, como vai o jornalismo, nesta senda de falsas notícias e o pós-verdade, onde os verdadeiros profissionais desta nobre atividade tantas vezes se sentem defraudados pela incompreensão dos tribunais? Entre excessos e realidades. Entre o que “hoje é verdade e amanhã é mentira”.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 09-04-2019)

3 de abril de 2019

AS TASCAS


Ainda numa retrospetiva do que a inspiração me levou a ocupar espaço no meu último livro, que desenvolve a história da temática seguradora ao longo de diversas tertúlias, em várias partes do País, mormente na Covilhã, Leiria narra-as na Tasca da Ti Gracinda. (1) Ali o Benedito informa o Rosas ter casado com a maestrina das bandas dos Pousos e dos Marrazes, com a palestra iniciada no dia 3 de abril do ano da graça de 2018.
Pois é, das tabernas de outros tempos, havia cascas de tremoços e amendoins no chão. Copos de três. Eduardinho. Ginjinha. Capilé. Havia tabernas que o usavam para fazer o famoso “branco velho” que era uma mistura de vinho branco banal com esse licor ou, em alternativa, com Eduardinho e que se vendia muito logo pela manhã.
Havia peixe frito. Petingas. Jaquinzinhos. Raia. Carapaus e chicharro, com ou sem escabeche. Iscas de fígado, chouriço.
- Sai um traçado, ó puto!
“Tinha onze anos quando, nas férias comecei a servir copos de dois e copos de três, traçados, jeropigas, ginjinhas com e sem elas, bagaços, medronhos, gasosas, laranjadas e feijoadas crispalhadas, mão de vaca com grão, carapaus grelhados, iscas, etc., etc. Eu sei lá quantas coisas se vendiam na taberna do meu saudoso padrinho Rui de Turquel no Campo dos Mártires da Pátria em Lisboa”. (2)
São ainda memórias das tabernas de outros tempos, como conta o Rosas, naquele início da década de 70, bêbados, loucos e doutores eram todos do contra. E a PIDE, então já DGS, não se metia.
E, neste âmbito, no meu penúltimo livrinho, reporto-me à malfadada PIDE, por intermédio da FNAT a não deixar o amigo Rui Pavillon (3) integrar uma lista para os órgãos dirigentes do Estrela de São Pedro “por fazer parte de um grupo de indivíduos que, nas últimas eleições para a Presidência da República, fizeram propaganda a favor do candidato independente General Humberto Delgado”.
E tudo isto se contava nas tascas.
Já o João Viriato, iniciou a “Tertúlia de Lisboa”, que coordenou, no dia 30 de abril, há um ano, uma segunda-feira, na Adega da Tia Matilde, na Rua da Beneficência, em Lisboa, logo passando para a Casa da Covilhã, na Rua do Benformoso (4) para acabar, em beleza, com todos os grupos tertulianos, no dia 13 de junho de 2018, com o encerramento pelo Presidente da Direção, Manuel Vaz Rodrigues.
Pois é, há mais de vinte anos, à mesa de uma taberna que já não existe, em Coimbra, com o objetivo de proteger estes símbolos de identidade coimbrã, estudar as histórias das tabernas e conhecer um pouco mais dos intelectuais que as frequentavam, nasceu a LATA – Liga dos Amigos das Tabernas Antigas. No livro “In Illo Tempore”, de Trindade Coelho, o autor fala dos tempos que viveu em Coimbra e da vida na cidade. Fala também das tabernas. Bom, mas a LATA tem como objetivo de defesa daqueles espaços como locais de socialização e de encontro ao longo dos séculos.
As tabernas são o lugar das últimas e mais raras experiências de sociabilidade, exame crítico ou evasão.
Apagados que sejam os sinais de decadência ou de falta de higiene, quere-se que a taberna mantenha as caraterísticas portuguesas, a fim de que possa readquirir o espírito e o prestígio, a poesia, o pensamento, e a graça.
E, depois, até podem vir a caldeirada, o feijão-frade, a meia-desfeita, as canjas e os caldos verdes, o rancho, o pé de porco, o salpicão, as iscas, os escabeches, a dobrada, as migas e as sopas de pedra, as pataniscas de bacalhau e os ovos verdes, tudo regado com bom vinho.
“A Igreja sempre condenou estes pontos de encontro, chamando-lhes centros de luxúria e do demónio. E quem não perdoava às tabernas eram os escritores mais pios que, louvando o vinho, atacavam esses lugares velados e escuros onde o homem abandonado, oprimido ou infeliz, tantas e tantas vezes descarregava a sua angústia e as suas misérias e fraquezas.”
Gil Vicente deixou a maior das homenagens às tabernas e ao vinho do Porto com o Pranto da Maria Parda. Garcia de Resende, no seu Cancioneiro Geral, recolheu também curiosos apontamentos. Mas já o romântico Almeida Garrett, nas suas Viagens na Minha Terra, exprime uma certa repugnância pelas tabernas, onde tomava sempre limonadas, exaltando muito embora o vinho de Carcavelos ou do Cartaxo. E Junqueiro exclamava, heroico e musical, que neste país há ótimos bordéis e excelentes vinhos.
Do que fui passando a história seguradora desde a Antiguidade até aos dias de hoje, foi ainda pelos cafés, restaurantes, e tascas leirienses, imaginando à porta, o loureiro e o saco de água para “assustar” as moscas. Lá dentro, os banquinhos de madeira, ou corridos, as mesas, os mochos, e as pipas ainda de madeira.
E foi nesta senda que, recordando-me ainda dos tempos de meus tios maternos na Pousadinha, e de meu sogro na Covilhã, que há dias fui meter conversa com o Carlos Manuel Rente Calheiros, ainda um jovem de 60 anos, atual proprietário da Taberna do Zé Ministro, junto à Igreja de São João de Malta, na Covilhã. Está à frente deste estabelecimento, sobejamente conhecido da cidade laneira e região, numa zona de grande movimento e central da Covilhã, desde março de 1982.
Porquê, Carlos, chamar-se a Tasca do Zé Ministro?
E logo a resposta do amável proprietário: “Esta tasca foi dantes chamada a Tasca do Carrilho, que se lhe seguiu na aquisição o António Caetano, mais conhecido pelo ‘Bota Cá’. Meu pai, José Calheiros da Trindade, que anteriormente teve um estabelecimento destes na Rua do Jardim, a Santa Maria, acabou por adquirir o trespasse desta taberna, no ano de 1957, por 64 contos. Era uma pipa de massa para a altura. O pessoal que a frequentava, e trabalhava nas oficinas da Garagem de São João, ao lhes soar aos ouvidos este preço, afirmaram, “Eh! Pá! Passaram a tasca do António por 64 contos!... Deve ser algum Ministro!...”
E assim ficou o nome, até aos dias de hoje – a Tasca do Zé Ministro.
João de Jesus Nunes



(1), (2), (4) In “O Documento Antigo – Uma Outra Forma de Ver os Seguros”.
(3) In “Breve Resenha do Centro de Recreio Popular Estrela Desportiva de São Pedro”


(In "Notícias da Covilhã", de 04-04-2019)

27 de março de 2019

O SISMO DE PORTUGAL DE 1969 FOI HÁ 50 ANOS


Entre o alfa e o ómega das nossas vidas sempre houve, e haverá, acontecimentos marcantes. Os da minha geração não deixarão de recordar o susto por que todos passámos, de norte a sul do país, naquele dia 28 de fevereiro do ano da graça de 1969.
As zonas mais atingidas foram o sul de Portugal e região de Lisboa. O sismo atingiu a magnitude de 8,0 na escala de Richter e viria a ocasionar 13 mortos, na sua maioria por efeitos cardíacos.
Cada qual tem a sua história para contar como sentiu este sismo, porquanto quase todos deram conta, quase todos digo eu.
Encontrava-me a cumprir serviço militar obrigatório no Regimento de Artilharia Ligeira nº 4, em Leiria, onde tirara a especialidade e aí acabara por ser colocado após terminar o Curso de Sargentos Milicianos.
Estava de serviço de Sargento de Dia, e, como habitualmente, no sorteio das rondas a efetuar durante a noite, calhavam-me horas altas. Desta vez fui sortudo para o período da meia-noite e meia às duas e trinta da madrugada.
De regresso ao quartel, vindo da rua, sozinho, da ronda à zona de aquartelamento de uns obuses obsoletos, a cerca de um quilómetro do quartel, na antiga estrada que vai para a Marinha Grande, tentei acordar o colega que me substituía na próxima ronda a fim de lhe entregar a pistola parabellum. Ao mesmo tempo descalçava as botas e preparava-me para me meter na cama.
Eram 2 e 40 da madrugada. Num ápice sinto um ruído estranho como que de uma fortíssima ventania se tratasse, tudo a abanar e as portas guarda-vento da caserna onde nos encontrávamos bateram com grande violência umas contra as outras. Num instinto, gritei: É um tremor de terra!... Peguei nas botas e na arma e fugi, descalço, para fora da caserna. Enquanto descia as escadas de cimento do antigo convento que era o RAL 4, já alguns soldados e outros militares, uns meio vestidos, outros com cobertores nas costas, ou até em cuecas, também faziam o mesmo. Eram pouco mais de meia dúzia os primeiros a chegar à parada.
Passados os primeiros momentos do susto, e conversando com o oficial de dia, também assustado, na parada, voltámos aos aposentos de cada um, mas de imediato o comandante da unidade dava ordens para que fossem evacuados todos os militares das casernas pois que poderia haver réplicas do sismo.
Era uma sexta-feira. Os militares que podiam ir de fim de semana à hora do almoço, foram autorizados a partir de imediato para as suas terras, logo a seguir ao pequeno almoço, aí pelas 8 horas da manhã, em vez de vaguearem pela parada.
Mas eu tinha então voltado à caserna. O colega que me substituía, ainda assarapantado, sentado na cama, perguntava: Mas o que é que aconteceu?
Fiquei revoltado: “Ó meu basbaque, levanta-te e foge para a rua como os outros, não vês que há um tremor de terra!?”.
Ainda não havia telemóveis, nem sequer a existência da Internet. As chamadas telefónicas eram interurbanas, e nos correios havia muita gente a querer telefonar. O sismo havia provocado alarme e pânico entre a população, cortes nas telecomunicações e no fornecimento de energia elétrica.
Lá consegui um contacto telefónico, tardiamente, para a minha namorada, hoje a minha mulher, através duma chamada diferida nos CTT, já que ainda pouca gente possuía telefone nas suas casas. E os telegramas não conseguiam ser expedidos. Tudo era moroso. Os contactos geralmente faziam-se por carta. Longe dos tempos de hoje. Sosseguei-os e fiquei mais tranquilo. Só haviam caído umas ameias do castelo de Leiria, que se encontrava sediado a poucos metros do quartel.
E eu não podia ir de fim de semana porque, como éramos poucos, no dia seguinte já estava escalado para acompanhar alguns soldados ao Mosteiro da Batalha, para a guarda de honra ao túmulo do Soldado Desconhecido, serviço alternado mensalmente entre as duas unidades militares de Leiria – RAL 4 e RI 7.
Como atrás referi, nessa altura ainda não existiam as novas tecnologias, nem mesmo algumas que já estão ficando obsoletas, como o fax. Ainda era o tempo do papel químico e do papel parafinado, usado para tirar cópias com um duplicador, depois de nele se ter escrito – o estêncil – com que se escreviam as ordens de serviço, em substituição das fotocopiadoras, que surgiriam mais tarde. Os telemóveis estavam a décadas do seu tempo, e nem sequer sabíamos o que era um computador. Existiam as máquinas de escrever, no tempo da dactilografia, e era exatamente esse serviço de que me encarregaram de ministrar aos soldados-recrutas que para ali iam tirar a especialidade de escriturário.
Entre a bruma das memórias podemos encontrar, ao longo dos tempos, variadíssimos sismos em Portugal, uns mais graves que outros, desde a Antiguidade até aos anos mais próximos.
Refiro alguns dos principais:
- Sismo de Lisboa, no ano de 1356, com a magnitude de 8,5;
- Sismo de Lisboa, no ano de 1531, com a magnitude de 7,0 – 7,5, tendo ocasionado 30.000 mortos;
- Sismo de Lisboa, no dia 1 de novembro de 1755, às 9,30, com a magnitude de 8,7 – 9, tendo ocasionado 90.000 mortos;
- Sismo em Benavente e Salvaterra de Magos, no dia 23 de abril de 1909, às 17,05, na magnitude de 6,3, tendo ocasionado 42 mortos e 75 feridos.
Depois do sismo de 1969, felizmente só temos a lamentar o sismo dos Açores de 1980, no dia 1 de janeiro, às 15,42, na escala de 7,2, tendo ocasionado 73 mortos; e em 31 de julho de 1998, em Arraiolos, às 10,27, na escala de 4,1, sem vítimas mortais.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-03-2019)

12 de março de 2019

O UMBIGUISMO


Sendo o mês de março aquele em que vim ao mundo, e talvez o facto de eu ter nascido já no período da primavera, me leva a desprezar algum pessimismo deixado das invernias. Ou seja, mais dos tempos que passaram de muitos egocentrismos. E passa a um otimismo primaveril proveniente da adição de muitas amizades.
Esta crónica estava mais direcionada para o período carnavalesco, a época do ano de que menos gosto, mas acaba por sair já em período quaresmal, pois que nem sempre as vontades podem ser satisfeitas.
Vejamos o caráter internacionalista do povo português quando se viu embrenhado em tantas greves, com os governantes a verem-se gregos, em vez de terem um problema intricado; alguns estudantes confrontados com o ranking das escolas, se não compreendiam alguma coisa, preferiram optar por dizer que “aquilo” é chinês; e já um agricultor a consultar O Borda d’Água se referia que trabalhava como um mouro, em vez de trabalhar de manhã à noite.
Duma exposição inédita em Nova Iorque explorando o design moderno da América Latina, em vez de uma invenção moderna alguém disse que era uma americanice. Se se é expressivo no falar depressa, logo se lembram de dizer que fala como um espanhol.
Aquela família que tem uma vivenda, uma casa de férias e um Mercedes, em vez de viver com luxo, vive à grande e à francesa. Mas aquele que se vestiu de fato e gravata para uma apresentação, a fim de causar boa impressão, é apelidado de que é só para inglês ver.
Nas feiras e mercados, ao regatear-se um preço, pode ser-se apelidado de que é pior que um cigano. Mas também os há de mãos fechadas, agarrados ao dinheiro, passando bem no apelido de que é pior que um judeu. Pior, pior, é quando se vê alguém a divertir demasiado pois que na mente de alguns logo surge a ideia de que está a gozar que nem um preto.
Já lá vai o tempo, quando se via alguém com um fato claro vestido, alguns ficavam a murmurar entre si: parece um brasileiro. Uma loura alta e bonita? Nalguns pensantes, logo a ideia: parece uma autêntica sueca. Poderá estar na hora dum café, um café curtinho, que outros preferem chamar-lhe uma italiana.
Nos tempos que correm, já não se vêm muito os horários a serem cumpridos, ou seja, aquela pontualidade britânica.
Vejamos tão só, por exemplo, um militar bem fardado, que logo surge um olhar atento a dizer que parece um soldado alemão. E se uma máquina funciona bem? Resposta na ponta da língua: É como um relógio suíço.
E quando alguma coisa corre mal? Diz-se que é “à portuguesa”. Se Fernando Pessa ainda fosse vivo, diria: E esta, hein!
Tendo em conta que umbiguismo é uma criação da forma vernácula umbigo, no sentido de dar demasiada importância para si próprio, egoísta, Pedro Mexia referiu, há uns anos, que essa “cicatriz abdominal, saliente ou reentrante, no ponto em que o cordão umbilical se prendia ao  indivíduo durante a sua vida fetal, é a única prova documental dessa ideia fascinante mas incompreensível de termos vivido meses dentro de alguém. É um elemento anatómico sem utilidade nenhuma, que só existe como resquício, sejam umbigos bem cortados, em orifício, ou umbigos saídos”.
Desde que nos anos 40 Álvaro Cunhal acusou José Régio de escrever para o umbigo que essa tem sido a ofensa máxima: umbiguista. Mas eu não estou convencido de que a metáfora seja a mais adequada pois há coisas mais íntimas que o umbigo, que, sendo este uma cicatriz, a gente em geral não gosta de o mostrar. Pois bem, o umbigo enche-se de cotão, que é desagradável.
Então, aí está, o umbiguista não está necessariamente a exibir o seu umbigo, mas a mostrar o lixo acumulado. E lá tem razão Pedro Mexia em dizer que “o umbiguista é aquele que pretende mostrar coisas pessoais e acaba a mostrar coisas desagradáveis”.
Bom, na próxima semana, dia 20 de março, entra a primavera, e já se vão vendo umas rapariguinhas de ventre elástico mostrando o umbigo, num doce exibicionismo. Mas os demais umbigos, literais e metafóricos, são um desafio, um desatino, um desaforo.
Um dos meus favoritos escritores e cronistas, o saudoso Eduardo Prado Coelho, falava há 15 anos sobre “O umbigo dos sonhos”: “As calças femininas descem vertiginosamente abaixo da cintura, deixando por vezes entrever uma peça mais íntima de roupa. Se se trata de figuras de grande elegância, o efeito da beleza é incontestável. Nos casos mais prudentes, há uma zona do corpo que ora aparece coberta, ora se descobre ousadamente”.
Sempre pensei que com os rigores do inverno se fizessem restringir as peças de vestuário, como as camisolas, que deixam ver o umbigo, mas nos dias que correm, a transgressão é ocultá-lo. O umbigo venceu o inverno. Mas por que falar do inverno se estamos a entrar na primavera?
Como referi, este texto era destinado para a época carnavalesca, que findou há poucos dias, e o tema de todos os umbigos não se pode descrever. Há o umbigo simples, sem outros atavios, convicto de que por si só suscitará os olhares, dependendo da beleza da personagem. É um umbigo sem problemas nem contradições que escapou da neurose, que evita a psicose, que não tem quaisquer marcas maníaco-depressivas. Há um segundo tipo de umbigo que se redobra num discreto “piercing”. Aqui, o corpo entrega-se aos sinais, começa a escrever-se a si próprio. O “piercing” é o começo de um processo de artificialização. Uma variação do “piercing” é a tatuagem. Estas correspondem a uma panóplia de motivos, tudo servindo para criar o que outrora era um motivo de atração e hoje é uma banalidade, que só ganha algum relevo por contígua ou envolvente do umbigo.
Bem dizia Freud, o umbigo é o lugar onde deixamos de ver para passarmos para o reverso da visão: inscrição corporal do inconsciente, ali onde a noite é cada vez mais noite e o dia cada vez menos dia.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 12-03-2019)

28 de fevereiro de 2019

CONSELHO CENTRAL DA GUARDA QUATRO CONFERÊNCIAS CENTENÁRIAS INTEGRAM O CONSELHO DE ZONA DA COVILHÃ


Realizou-se no dia 2 de fevereiro (sábado), na Covilhã, a Assembleia Geral deste Conselho de Zona, com os Vicentinos que na mesma participaram a proporcionar um diálogo muito interessante face aos temas apresentados.
Efetivamente, foram pontos de discussão e reflexão sobre a atuação que se tem vindo a desenvolver face aos muitos problemas na temática da Caridade com a assistência ao cada vez maior número de casos que chegam a todas as Conferências.
Estiveram representadas todas as Conferências deste Conselho de Zona: Nossa Senhora da Conceição, Santa Maria, São Pedro, São Martinho e S. José (Penedos Altos), Canhoso, Tortosendo e Santo André, da Boidobra.
As dificuldades emergem à porta de muitos necessitados, cada vez mais na sociedade de hoje, na vertente de inúmeros casos, que outrora não existiam, mas que são provenientes dos novos tempos, e que para cada caso foram dados exemplos de atuação no âmbito do espírito da Caridade.
As dificuldades em conseguir reunir maior número de Vicentinos, muitos deles já com muitos anos nas Conferências, onde os jovens têm dificuldade em se afirmar, foi também uma preocupação sentida.
As várias Conferências Vicentinas do Conselho de Zona da Covilhã desdobram-se na assistência em várias locais, muitos deles bem distantes do local da sua Conferência. E há os casos de estudantes universitários, oriundos das antigas Colónias, a estudar na Universidade da Beira Interior, bem como alguns de pobreza envergonhada.
Surgiu em 2018 a novel Conferência de Santo André, da Boidobra, cujos órgãos tomaram posse em novembro. Embora estejam com grande entusiasmo, encontram-se a dar os primeiros passos, o que é uma esperança para poderem vir a tomar conta duma zona bastante carenciada.
De salientar que, na Diocese da Guarda, é no Conselho de Zona da Covilhã que se mantêm ainda em atividade, cada vez mais envolvidas nas suas variadas tarefas em prol dos muitos necessitados que chegam com frequência a cada Conferência, as já centenárias Conferências Vicentinas, a saber:
- Conferência de Santa Maria Maior, na Covilhã, fundada em 12 de novembro de 1899;
- Conferência de Nossa Senhora da Conceição, na Covilhã, fundada em 19 de março de 1903;
- Conferência de São Pedro, na Covilhã, fundada em 29 de junho de 1905;
- Conferência de São Martinho, da Covilhã, fundada em 19 de fevereiro de 1911.
O Conselho de Zona da Covilhã, então na altura designado Conselho Particular, foi fundado em 03 de dezembro de 1910. Este Conselho no início ia encontrando dificuldades na coordenação das Conferências a que a ele estavam ligadas porquanto tinham poucos membros ativos para tão grande ação. Foi organizado em 25 de fevereiro de 1921, dependendo do Conselho Central do Porto, pelo que nessa altura o Conselho da Covilhã, por sugestão do Prelado, reuniu as Conferências da Covilhã numa só, com a designação de Conferência da Covilhã. E, na Guarda, a Conferência da Guarda. Mas tal não deu resultado e, assim, a partir de 1923 voltaram a passar a funcionar separadamente.
A Conferência mais antiga da Covilhã – Santa Maria Maior, fundada em 1899 – deu origem à criação do Lar de São José (na altura designado Albergue dos Pobres), fundado em 1900. Dois anos após a sua abertura, em 10 de junho de 1902, conseguiu esta Conferência a vinda das Irmãzinhas dos Pobres para cuidar do Albergue. Há muitos anos que partiram.
João de Jesus Nunes

(In "Boletim Português da Sociedade de São Vicente de Paulo, Ano 113, Nº. 2, Fevereiro 2019)




27 de fevereiro de 2019

UM EMPRESÁRIO DE SUCESSO


Tarde de segunda-feira, 21 de janeiro. No Café do Celso há amenas conversas. Os petiscos, para todos os gostos, vão-se distribuindo pelas mesas. Conforme os apetites. Ao lado do José Augusto está uma mesa com um simpático senhor, também com o seu petisco, que, a pouco e pouco se vai integrando no nosso diálogo.
Diz-nos então que aos onze anos começou a amassar pão à mão. Os filhos não quiseram continuar os estudos e preferiram seguir as pisadas do pai, no intuito de ganharem dinheiro por conta própria. Tinham grande ambição. Também muito dinamismo. Como o pai.
Desconhecíamos aquele senhor, ainda que sejamos covilhanenses de gema. Mas logo o Celso nos lembra que se trata do senhor António Dias Santos, ilustre empresário de panificação.
E o entusiasmo do Sr. António em contar a sua história raia-lhe os olhos. Dá gosto ouvi-lo. Setenta e seis anos já conta no seu tempo de vida. Natural de S. Vicente da Beira.
Chegou a ter cinco patrões num mês. Face à sua garra, mudou facilmente de emprego, no âmbito da mesma atividade – a panificação. Mas também trabalhou de sol a sol, in illo tempore.
Em S. Vicente da Beira acaba por ficar quase sozinho a trabalhar, aos 15 anos, somente com o patrão e um aprendiz. Já toma conta da padaria.
Dali vem para a Covilhã, exatamente no dia em que completa 18 anos de idade. Chega ao Manuel dos vinhos que se situavam por detrás das antigas instalações da PSP, a S. Silvestre, mas aqui para trabalhar na construção civil a fim de se preparar a abertura daquela casa. Foram dois meses.
Conhecedor das suas excelentes tarefas na panificação, o Sr. António Tavares chama-o para a firma Tavares & Matias (padaria) durante um ano, então sediada em S. Martinho, perto do Oriental. Surge-lhe, entretanto, uma formação em S. Pedro de Sintra, a cargo do Estado. António Dias Santos diz-nos que “vim de lá um homem”.
Mas a sua vontade em fazer mais e mais, leva-o a empregar-se na padaria de João da Fonseca Mimoso (Marroca), onde está durante 22 anos, como encarregado de fabrico.
É presidente do Sindicato de Panificação durante 12 anos, sendo que, no dia 25 de Abril de 1974 está a negociar um Contrato de Trabalho no então Ministério das Corporações e Indústria.
Pensa então em trabalhar de conta própria, seguindo a vida empresarial. Em 1982 adquire a Padaria Abreu. O Sr. António Dias ao tomar esta decisão é devido ao facto de os filhos terem chumbado nos estudos e quererem ir estudar à noite para irem trabalhar. O pai faz-lhes a vontade. O trabalho e estudo deles acaba porque passam a trabalhar com o pai, na empresa que, entretanto, criam, com muito trabalho e alma, sempre a progredir.
Nesta altura, possui a Padaria Dias & Pereira, Lda, no Parque Industrial do Tortosendo, sendo constituída por cinco sócios, todos familiares (O Sr. Dias, a esposa e os três filhos) e tem já 40 trabalhadores.
Participam em vários programas televisivos (TVI, CMTV, SIC e RTP), por via de terem ganho vários prémios, conforme a comunicação social, incluindo a regional, deu conta.
Ganham os seguintes prémios nacionais do “Melhor Pão Natural de Portugal”:
- 2017 – 1.º lugar: Regueifa Tradicional da Beira Baixa;
- 2018 – 1.º lugar: Centeio Natural Crocante.
Na categoria de “O Melhor Bolo-Rei de Portugal” ganham em 2018, o 1.º lugar, com o “Bolo Rainha”, Medalha de Ouro.
Também ganham prémios com “O Bolo Rei” (normal) e “Bolo-Rei Escangalhado”.
Um empresário de sucesso, como exemplo para os tempos que correm.
António Dias Santos pensa abrir uma nova casa na Covilhã.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-02-2019)

13 de fevereiro de 2019

CORRUPTOMANIA

Ainda não existe uma definição para a palavra em título mas o sentido é intuitivo. Pensara em não me referir mais a este assunto depois de sobre ele me ter debruçado por outras ocasiões (2014 e 2018). Mas o facto de surgirem no tempo das nossas vidas tantos casos, um sopro de vontade atira-me para o foco de que somos confrontados no dia a dia.
A diversidade de casos é uma peculiaridade dos portugueses. O dos elementos que constituíram aquela tropa-fandanga de Tancos ainda continua vivo na mente de todos nós. Como tantos outros. A saga das meias verdades e das ocultações não mais teve fim. O logro da descoberta das armas entrará para a antologia das operações mais perigosas do nosso Exército em defesa da soberania nacional deste século. O prestígio desta secular instituição ficou abalado.
Deambulando por aí fora, foi o encontro de oportunidades na esperteza dos iluminados pela ambição do enriquecimento fácil. Na falácia encontrada em favoráveis ocasiões de dar a volta ao texto. Que isto de solidariedade, obras de misericórdia, sentir o sofrimento alheio também é ocasião de, ao invés de meter a mão na massa, se pode fazer com que a massa chegue à mão. E aí tivemos os incêndios, com a utilização fraudulenta dos fundos para a reconstrução de Pedrógão Grande. Imaginar que tantas pessoas que estavam a enfrentar a maior tragédia portuguesa de décadas, tendo motivado um movimento de solidariedade sem precedentes por todo o país, viram rapidamente transformar o terrível sofrimento na mais repugnante ganância. É duma revolta imensa.
É indubitável que a partidocracia destrói a democracia, conforme refere o Presidente da Frente Cívica, Paulo de Morais. “O principal objetivo dos maiores partidos portugueses é manterem-se na esfera do poder, partilhar negócios do Estado com os grupos económicos de que são instrumento e garantir emprego aos muitos milhares de apaniguados, os militantes partidários e seus familiares”. Os dirigentes partidários distribuem benesses pelas empresas que financiam e para as quais vão mais tarde trabalhar. Além de negócios, os partidos garantem a sobrevivência económica dos seus apoiantes através da distribuição de milhares de empregos. É na administração central. É nas autarquias. É nas empresas municipais e institutos públicos. Transformaram-se assim na maior agência de emprego do país. E, depois, é ver nos canais de televisão comentadores facciosos, a censurar todo o discurso contraditório.
E temos a Caixa Geral de Depósitos (CGD), um dos temas da atualidade. Os seus gestores aprovaram, entre 2000 e 2015, financiamentos de centenas de milhões de euros apesar dos riscos identificados pelos diretores das operações. O diagnóstico foi feito pela consultora EY na auditoria independente à gestão da CGD. Identificou perdas de mais de mil milhões de euros para as contas desta instituição, só até 2015. Em causa estão de facto decisões tomadas contra o parecer técnico da Direção Global de Risco (DGR) da CGD, reveladas pela auditoria da EY, cuja versão preliminar foi divulgada pela ex-deputada do Bloco de Esquerda, Joana Amaral Dias, na CMTV, citada por vários órgãos da comunicação social. Os financiamentos de elevados montantes destacam-se nas perdas relacionadas com a Artlant, Quinta do Lago e Birchview, para além de problemas com a concessão de empréstimos à Investifino, Finpro, sociedade de investimento de Américo Amorim e Banif, bem como às sociedades de Joe Berardo, entre a Fundação Berardo e a Metalgest. Neste grupo de grandes devedores, os financiamentos ascenderam a mil milhões de euros, com perdas de 580 milhões de euros.
Vários crimes já estarão prescritos. Cada ano de silenciamento contribuiu para que mais atos de gestão danosa também prescrevessem, ficando de fora da alçada da justiça. De tal forma que este país mais parece uma república das bananas.
A CGD, banco que tem a confiança de um número elevado de portugueses, mormente os funcionários públicos, foi gerida sem qualquer noção de honra. E quem teve nas mãos o seu destino revelou uma total e indigna ausência de responsabilidade.
Neste estado mórbido, quem e quantos irão responder civil e criminalmente pela ruína da Caixa Geral de Depósitos, onde os portugueses tiveram de enterrar cinco mil milhões de euros dos seus sangrentos impostos?
Ficamos por aqui.
E, para que tudo não seja um mar turbulento, temos a entronizada Cristina Ferreira, mais parecendo uma Marilyn Monroe, que, iniciada na TVI se rendeu finalmente ao namoro da SIC, por via dum contrato milionário, cujo nome já se transformou numa marca, mas ainda longe dum Cristiano Ronaldo. Até o Presidente da República lhe telefonou, entrando em direto na estreia do seu programam na SIC, para lhe desejar felicidades, provocando uma onda de indignação, que a apresentadora não compreendeu por ter visto o gesto como um “miminho”.


(In "Notícias da Covilhã", de 14-02-2019)

12 de fevereiro de 2019

O MUNDO D´HOJE PARECE UM PAGODE


Por vezes falta-nos a inspiração. Mas o bichinho da escrita perdura. Escrever não é fácil. Como disse o escritor francês Olivier Rolin, “escrever é fazer com que o tempo que conhecemos não morra”. Aí está. Então eu continuo a escrever.
Entre o sonho e a realidade vai uma distância. Só cada um a pode quantificar. Em 17 de outubro do ano transato foram divulgados os dados a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Na altura de comparar os países em matéria de pobreza e exclusão social, Portugal surge em 11º. Lugar. Consta de uma lista de 26 Estados para os quais estão disponíveis dados relativos a 2017. Ou seja, cerca de um quarto da população portuguesa (23,3%) está “em risco de pobreza ou exclusão”. Na União Europeia (UE) a percentagem média de pessoas nessa situação é de 22,5%. Ainda que a UE, como um todo, e Portugal, em particular, tenham menos pessoas em risco do que em 2008. Mas, no entanto, há em Portugal 3000 sem-abrigo. Estamos no século XXI.
Na lamentável prática da pedofilia, por todo o mundo, não basta pedir desculpa. A divulgação de mais casos de abuso sexual de menores na Igreja Católica, com a informação de que a hierarquia encobriu os abusos, surgem os obrigatórios pedidos de desculpa. Assim aconteceu nas dioceses da Pensilvânia, nos EUA, na qual mais de 300 padres foram acusados de crimes praticados contra mais de um milhar de vítimas, ou em Washington, que levou à demissão de um arcebispo. E também em Boston, no Chile, na Irlanda, etc. O Papa Francisco reforçou ainda mais esse pedido de desculpas. Escreveu uma carta na qual admitiu “vergonha e arrependimento”. E o mesmo acrescenta que “nunca será suficiente o que se fizer para pedir perdão e procurar reparar o dano causado”. E o escândalo nunca se aproximara tanto da hierarquia católica, ao surgir a condenação do cardeal George Pell, condenado por abusos sexuais na Austrália em 2018, o homem que era o terceiro na hierarquia da Igreja Católica, responsável pelas finanças da Santa Sé. Foi afastado do Conselho de Cardeais pelo Papa e neste ano enfrenta outro julgamento por crimes idênticos.
Estes homens parece não sentirem qualquer bafejo de revolta dos seus semelhantes e quase que vivem num autêntico pagode.
Que dizer então, noutra vertente, onde cabe melhor o pagode, a manifestação na Dinamarca, ocorrida no verão passado, contra a lei que proíbe o véu islâmico? Centenas de dinamarquesas, algumas de niqab (lenço muçulmano), outras de burqa, que as cobria por completo, juntaram-se em Copenhaga para protestar contra a entrada em vigor da nova lei que proíbe o uso do véu que cubra o rosto. Acusaram o Governo de violar o direito de as mulheres vestirem o que quiserem.
Continuando na UE temos a crise dos três M: May, Macron e Merkel, líderes das três grandes potências da União Europeia. Estão em apuros. A poucos meses das eleições para o Parlamento Europeu, florescem populismos e nacionalismos pela Europa, com a primeira-ministra do Reino Unido, o presidente de França e a chanceler da Alemanha a enfrentarem crises internas que enfraquecem a sua liderança e, por arrastamento, o processo de integração da U.E. A primeira tem para resolver o dossiê do Brexit. O segundo chegou ao poder com intenções de reformas centristas e a sociedade civil obrigou-o a recuar. A terceira, que durante a crise da Constituição Europeia e da zona euro foi a líder de ferro que manteve unidos os europeus, perdeu os alemães ao deixar entrar, de forma desordenada, mais de um milhão de refugiados no país. Theresa May, de 62 anos, sucedeu a David Cameron após a vitória do Brexit. Emmanuel Macron tem 41 anos e é o presidente francês mais jovem de sempre.
O Ocidente está em decadência mas o declínio da UE não é inevitável. Há 30 anos, a entrada na “Europa” representava para os portugueses a liberdade, a abertura cultural, a democracia, a prosperidade. A Europa atual está esquecida das suas antigas promessas de paz e solidariedade. É uma Europa que parece não saber o que quer nem para onde vai. Ao ponto a que chegou o pagode. A Europa enfrenta uma crise migratória alimentada por discursos de ódio. A Europa está rodeada de crises e passou a ser ela própria a crise.
E, assim, com a crise dos três pilares que sustentam a UE vamos assistindo ao pagode. O “Brexit” e Trump são duas faces da mesma moeda. Segundo Vasco Pulido Valente, in Público, “O ‘Brexit’ é o resultado de uma conspiração de Putin, que envolve, pelo menos, o Facebook e a Cambridge Analytica, e também uma inexplicável loucura da aristocracia inglesa”.
Num manifesto de 30 patriotas europeus é referido o seguinte: “Hoje, com urgência, temos de fazer soar o alarme contra os incendiários de almas e espíritos que, de Paris a Roma, passando por Barcelona, Budapeste, Dresden, Viena ou Varsóvia, brincam com o fogo das nossas liberdades”.
Já não vamos falar muito no triste caso da situação da Venezuela, que corre suas desgraças face ao ditador Nicolás Maduro. No momento em que concluo este texto, passa no meu computador a informação do JN online, direto, de que Portugal reconhece e apoia legitimidade de Guiadó: “Augusto Santos Silva confirmou, esta segunda-feira (04-12-2019), que Portugal reconhece Guaidó como presidente interino da Venezuela, apelando a eleições presidenciais.” A Venezuela vive um impasse político que só pode ser resolvido com uma transição pacífica. Não pode ser confrontação interna nem intervenção externa. Deve ser com eleições presidenciais. Mas aproveitamos para uma boa notícia: construção de pontes entre Portugal e o Japão. O Acordo de Parceria Económica entre a União Europeia e o Japão vai proporcionar um impulso económico vital tanto à UE como a Portugal.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 12-02-2019)

31 de janeiro de 2019

CASEGAS, ONDE NÃO NASCI MAS VIVI DE TENRA IDADE


Foi com muito prazer que li as duas páginas de memórias do professor doutor Arnaldo Saraiva, no número de 10 de janeiro do Jornal do Fundão, sob o título “A imponente igreja de Casegas e a sua desconhecida história”.
É que me levou a uma situação nostálgica, ainda que tivesse há uns anos atrás passado várias vezes por esta bonita freguesia do concelho da Covilhã, em serviço profissional, conhecendo então algumas das simpáticas gentes caseguenses, para além de se terem gerado amizades.
Há 72 anos vivi nessa freguesia durante dois anos, por força do magistério primário então exercido por meu pai, José Martins Nunes (hoje teria 107 anos), natural de Bogas de Baixo, que ali fora colocado no ano letivo de 1945/1946, onde esteve três anos seguidos no 2.º lugar masculino, então recentemente criado. No 1.º e 3.º anos lecionou a 1ª e 3ª classes, e no 2.º ano a 2ª e 4ª classes, tendo todos os alunos por ele propostos a exame ficado aprovados.
Extraio das memórias que deixou escritas, alguns apontamentos sobre Casegas: “E tenho como recordação do meu trabalho em Casegas o facto de terem sido meus alunos três padres: José Gaspar Pires, António Costa e Silva, que são jesuítas e José de Almeida Geraldes que é secular e se encontra a trabalhar no Centro Cultural da Covilhã”. O Cónego Geraldes foi ainda diretor do Notícias da Covilhã até ao seu falecimento.
Recorrendo agora ao livro do amigo caseguense, licendiado Sérgio Gaspar Saraiva, sob o título “CASEGAS, Minha Terra, Minha Gente”, não pude deixar de me reportar a extratos das memórias de meu pai, estas relativas a um passeio que lhe proporcionei a Casegas, no dia 22 de maio de 1983: “Casegas, terra de gratas recordações onde estive durante três anos letivos a exercer o magistério primário, e onde já tinha ido depois disso. A primeira vez, à festa da celebração da primeira missa do meu antigo aluno, padre José de Almeida Geraldes, e a segunda vez, também à festa da celebração da primeira missa (lá) do meu antigo aluno José Gaspar Pires, que é jesuíta. Ao chegar lá dirigi-me à linda e rica igreja paroquial para visitar o nosso maior Amigo e Benfeitor e também o pároco padre António Nicolau Lopes, o qual não consegui encontrar, e por isso não o vi. Fomos ver o exterior da antiga Capela das Almas, hoje parece que é considerada monumento nacional; e a frente da casa onde residi durante os três anos que lá trabalhei e o exterior da minha antiga sala de aula – a escola. Recordei quem depois das aulas dava pequenos passeios com os nossos primeiros dois filhos que eram pequeninos e levava pela mão e íamos à igreja e à ribeira e nesta eles, Rita Fátima e João, brincavam atirando miolinhos e pedrinhas para os peixinhos virem ao cimo da água”.
Ainda sobre o interessante livro de Sérgio Gaspar Saraiva, nas págs. 53 e 54 – “As Couvadas” – levou-me a recordar em 23/12/2005, num periódico desta região, um texto que escrevi sob o título “As Certezas deste Natal”, então a parte inicial sobre Casegas: “Uma ‘couvada’, em Casegas, reuniu cerca de setenta convidados, no dia 16, onde César, e o filho, fortaleceram amizades num ambiente de tradição natalícia. No lagar, junto ao rio, numa noite gélida, uma grande panela, repleta de couves, bacalhau e batatas, tudo bem regado com azeite, aquecia nossas almas, onde não faltou bom vinho, chouriça e outras coisas mais. Aumentaram os amigos. Afinal, quem redige estas linhas, carcalhense por nascimento, poderia ter as suas origens em Casegas. O professor Octávio, e a mulher, Mariana; o padre Nicolau, o Zeca Craveiro e a mulher, professora Agostinha, ainda sugeriram aos progenitores do meu irmão para ele ali nascer. Vivíamos junto ao cruzeiro e o pai dava aulas na primária. Não querendo ali ficar, lá foi a bagagem no dorso de uma égua; e a família num carro de bois, atravessando a ribeira até ao Ourondo, onde pernoitaram em casa de familiares; depois foi tomar a camioneta para Aldeia do Carvalho. Como eram as acessibilidades e os tempos de outrora!... para já não falar das dificuldades de outra natureza, com a escassez de recursos materiais e financeiros, no final da II Grande Guerra!”.

(In "Jornal do Fundão", de 31.01.2019)

23 de janeiro de 2019

LIBERDADE DE EXPRESSÃO (II)


Em junho de 2006 tive o ensejo de me referir a este assunto numa publicação. As oportunidades de se sublinhar este tema têm vindo de novo a surgir. Nos media e nas redes sociais, tais têm acontecido. Entre outras, recordo em 2015 a grande manifestação em Paris (domingo, 11 de janeiro) com mais de um milhão de pessoas, de vários países, que ali desfilaram, incluindo 50 chefes de Estado de todo o mundo, sob o massacre do Charlie Hebdo, atentado terrorista que atingiu o jornal satírico francês, com aquele nome, ocorrido no dia 7 daquele mês e ano. O mundo tremeu, mas, sem medo, a França reagiu contra os homens do diabolismo e eliminou-os. Estava em jogo a liberdade de expressão e o forte combate ao terrorismo.
Tem sido tema corrente o caso do debate que se criou em torno do convite da TVI a Mário Machado, um indivíduo sinistro, praticante e defensor da violência racista. Das longas e inflamadas discussões públicas a propósito desta entrevista é preocupante o que dizem alguns dos autoproclamados defensores do regime democrático. Os que defendem que todos têm direito a expressar-se, mesmo os criminosos, fascistas, homofóbicos e racistas.
É bom recordar o artigo 46.º da Constituição da República Portuguesa, que, no seu ponto quatro refere o seguinte: “Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares fora do Estado ou das Forças Armadas, nem organizações que perfilhem a ideologia fascista.”
A TVI ao ceder os seus écrans a Mário Machado ultrapassou aquele risco que nos indica o limite da tolerância em relação ao pluralismo e à liberdade de opiniões. Conforme escreve Manuel Carvalho num seu editorial do Público, “Mário Machado tem direito à saudade do salazarismo e, desde que se abstenha de fazer a apologia da violência ou da violação da lei, pode defender a sua sinistra opinião. Mas uma televisão que professa a responsabilidade de informar e os princípios que dão forma a uma sociedade aberta e democrática não lhe deve dar palco a pretexto da liberdade de expressão para que possa amplificar o seu reles exemplo”.
O que é certo e verdade é que, face à inexistência de um perigo extremista imediato em Portugal, alguns jornalistas e políticos parecem empenhar-se para que apareça.
E não foi apenas a TVI a única a cometer este erro mas também todos aqueles que vierem defender que figuras como o referido Mário Machado podem e devem ter voz. Os arautos da liberdade de expressão certamente se esqueceram dos tempos em que a não havia.
O criminoso condenado por atos de violência e racismo apresentado num programa televisivo de grande audiência, não pode ser visto como um exercício de liberdade de expressão, como se esta não tivesse fronteiras de decência e sensatez.
De facto, o ano de 2019 começou de forma insólita com o convite da TVI a este criminoso fascista, no dia 3 da janeiro, para discutir “a necessidade de um novo Salazar” com os ouvintes e animadores do programa, passando-se então a falar bastante de liberdade de expressão.
A causa deste grande erro foi a cultura do vale tudo em nome das audiências. Não se tratou de escolher entre liberdade de expressão e censura, mas entre a democracia e o ódio racial. Numa sociedade decente, o direito à dignidade está acima ao direito à liberdade de violentar. Esta é a baliza ética do limite da liberdade de expressão.
Recordemos o passado sobre a liberdade de expressão. Terá esta começado com o ilustre filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga, Sócrates (469 a.C. a 399 a.C.)? Mas também uma referência à fundação da liberdade de expressão em Inglaterra surge, já depois de Cristo, uma data – 1215, aquando da assinatura da Magna Carta, por imposição de nobres rebeldes ao rei D. João. Três séculos depois, em 1516, Erasmo de Roterdão escreve “A Educação de um Príncipe Perfeito” em que referia: “Num estado livre, também as línguas devem ser livres”.
Entre outras abordagens, em 1644, o poeta John Milton escreve o panfleto “Aeropagítica”, onde argumenta contra restrições à liberdade de imprensa, e assim refere: “O que destrói um bom livro, mata a própria razão”. Em 1689, na Grã-Bretanha, Jaime II é derrubado e a Declaração de Direitos concede “liberdade de expressão no Parlamento”.
Em 1770, uma carta de Voltaire a um sacerdote dizia: “Detesto o que o senhor escreve, mas daria a minha vida para tornar possível que continuasse a escrever”. Em 1789, a Declaração dos Direitos do Homem, documento fundamental da Revolução Francesa, consagra a liberdade de expressão. Em 1791, a Primeira Emenda da Declaração de Direitos dos Estados Unidos da América garante quatro liberdades: de religião, expressão, imprensa e reunião.
Muito mais haveria para dizer sobre a liberdade de expressão, mas terminamos com a aprovação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, pela qual os países membros ficam obrigados a promover os direitos humanos, cívicos, económicos e sociais, incluindo as liberdades de expressão e religião.

(In "Notícias da Covilhã", de 24/01/2019)


15 de janeiro de 2019

MAS… O ANO 2019

Entramos em 2019 com esta conjunção adversativa, que também pode ser um advérbio e até um substantivo masculino.
Estranho, mas estranho mesmo, é termos no nosso Parlamento um partido político que em vez de se preocupar com o que é mais importante no país, levanta o véu do seu (des)contentamento com algumas “vozes de burro que não chegam ao céu” censurando os termos linguísticos, culturais e populares porque, mesmo no novo ano se há-de continuar a “atirar o pau ao gato” nas canções infantis, e aquele senhor das ideias PANtásticas vai mesmo que “tirar o cavalinho da chuva”…
Mas é certo que o primeiro Ministro e seus arautos, não querendo “fazer figura de urso” lá vão cedendo à geringonça já que a oposição se tem visto forçada a “engolir alguns sapos”.
Naquele círculo, por vezes até nos parece ver andar por ali alguns “feitos baratas tontas”, e como de “gato escaldado de água fria tem medo” é preciso ronha para “verter lágrimas de crocodilo”, para encontrar uma solução, algumas vezes, mas mesmo algumas vezes, tendo que “agarrar o touro pelos cornos”, para se descobrir na peta de que “a galinha da minha vizinha é melhor que a minha”. Como tudo na vida, “os cães ladram e a caravana passa”, e, assim, até prefiro alimentar “um burro a pão-de-ló” do que ouvir estes PANfanáticos, pelo que vou continuar a “pisar o rabo ao gato” enquanto a “porca torce o rabo”.
Já que “a pensar morreu um burro”, e, como fico com “a pulga atrás da orelha”, sim, essa “pulga maldita que ou chora ou grita”, vou estar atento a este 2019.
Disse um dia Júlio Isidro: “Não sejamos imbecis. Não sejamos demasiado tolerantes. Não sejamos sofredores calados. A humanidade só melhora com a ação de cada um dos humanos”.
Mas, (lá está outra vez o incómodo mas), estamos a caminho de 45 anos de passagem de um grande sonho que se chamou Abril. Passaram mais de quatro décadas e de súbito os portugueses ficaram a saber, em pasmo, que são responsáveis de uma crise e que têm de a pagar. Disse-se então que as classes médias estavam a viver acima da média. E, de repente, verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros… a dívida soberana havia entrado no nosso vocabulário e passaria a invadir o dia a dia. Mas é que os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.
Os idosos, confusos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a alimentação. E ainda continuam a dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível. Muitas instituições de solidariedade, e a Igreja, na Caridade, fazem diariamente o milagre da multiplicação dos pães.
Parecem fake news, mas não o são: morrem mais velhos em solidão, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, com maridos, mulheres e filhos a mancharem-se de sangue; muitos dos sem abrigo têm cursos superiores (até na Covilhã isso se verifica) e milhares de licenciados estão desempregados, apesar do índice de desemprego ter baixado duma forma fulgente. Mas continuam a haver os meninos que têm de ir à escola nas férias para ter pequeno almoço e almoço, e, quando tal não acontece, por impossibilidade, lá terão que as instituições de solidariedade se substituir ao Estado.
Mas também há terras do interior sem centros de saúde, correios, finanças, ou tribunais, ou que lhes foram retirados; no entanto, os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.
Bom, e neste 2019, os romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, banqueiros ou amigos dos banqueiros, vão continuar a acabar em bem-estar… “penso eu de que…”
Com o novo modelo apresentado pelo partido não vencedor das últimas eleições mas que encontrou no seio democrático uma forma de fazer sair o país da afronta em que, mais uma vez, caímos (não foi para estes sustos que foi feito o 25 de Abril), e com um Presidente da República à altura da sua missão, contrastando com o desditoso seu antecessor, Portugal começou a respirar de algum alívio.
Mas o ano 2019 é considerado por muitos um ano perigoso, mesmo neste pacato país, onde o rastilho anda por aí, pois uma iniciativa política mal gerida pode acendê-lo. A desigualdade extrema é incompatível com o bom funcionamento da democracia.
Portugal tem vivido nos últimos anos num clima de relativa serenidade devido à política de devolução de rendimentos do Governo do PS, com a pobreza, apesar do que já foi referido, a diminuir e os indicadores de confiança a subir.
A percentagem de portugueses que confiam no Governo, segundo o Portal de Opinião Pública da Fundação Francisco Manuel dos Santos aumento de 15% em novembro de 2015 para 55% em março de 2018. A taxa de pobreza é atualmente de 18,3%, o que constitui uma melhoria face a anos anteriores, mas é ainda superior ao período antes da crise. Mais de 10% dos trabalhadores são pobres em Portugal. E somos um dos países mais desiguais da União Europeia.
Mário Centeno, nosso ministro das Finanças e simultaneamente ministro das Finanças da União Europeia, foi considerado o melhor ministro das Finanças do ano na Europa, para o Financial Times.
Em 2019 vamos ter eleições europeias em maio e legislativas em outubro. Será, portanto, um ano de debate democrático.
Esperemos que os receios para este ano se transformem em ambiente de paz, compreensão e responsabilidade para todos nós portugueses e também europeus.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 15-01-2019)

9 de janeiro de 2019

UM HOMEM, UMA MISSÃO


Conheci o padre Fernando bastante novo, após ter sido ordenado no dia 2 de agosto de 1959. Mas o saber quem de facto ele era foi em setembro desse ano, quando o bispo da Diocese o colocou na Covilhã, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, como coadjutor, aquela que hoje se encontra a paroquiar.
Na minha adolescência não percebia como este homem, humilde, numa inquietude com todo o mundo que o rodeava, procurava na dinâmica, que então não existia, a mudança de comportamentos, quando se vivia a perseguição política dos tempos da ditadura.
Tendo-lhe sido confiada a assistência diocesana aos movimentos operários (JOC e mais tarde a LOC), foi uma autêntica doação a esta causa durante 35 anos. Desde logo os jovens e os operários tinham no padre Fernando a ajuda pronta para o encontro de uma solução pacífica, que lhe valera grandes preocupações com a sua defesa face à perseguição política de então.
O Centro Cultural e Social da Covilhã abriu, entretanto, as suas portas e para ali se instalou a redação e tipografia do Notícias da Covilhã (NC), de que era diretor o pároco, padre José de Andrade.
É também aqui que o padre Fernando Brito dos Santos vai encontrar o seu pouso, até aos dias de hoje, numa constante dinâmica nas tarefas que lhe foram, entretanto, confiadas, já lá vão seis décadas.
Para além da sua excessiva humildade é adverso a qualquer homenagem que lhe queiram prestar, ainda que na mesma se veja forçado a estar presente. Assim aconteceu em 17-11-2001, quando os antigos e atuais elementos dos movimentos operários o homenagearam no Tortosendo, na sua substituição pelo novo assistente.
É no anonimato que sempre desempenhou e desempenha a sua ação em prol dos desprotegidos, fugindo aos projetos mediáticos que trazem notoriedade, tendo sido bastante sacrificado financeiramente com a situação que então existiu com o NC. Mesmo com a sua saúde abalada, já depois de ter sido operado ao coração, persiste em trabalhar.
É uma personalidade multifacetada, pois para além do já referido, foi professor de Moral nas Escolas Frei Heitor Pinto e Secundária Campos Melo, tendo-se dedicado com grande alma ao jornalismo. Em 1982 fez formação nesta área na Universidade Católica; foi chefe de redação do NC de 1979 a 1989, e, a partir desta data, acumulou com o cargo de diretor adjunto até ao falecimento do diretor, padre José Geraldes, que o substituiria como diretor até ser recentemente substituído pelo atual.
Foi um dos fundadores do Banco Alimentar. Em 02.08.2009 a paróquia fez-lhe uma sentida homenagem na comemoração das suas Bodas de Ouro Sacerdotais.
Em 12-10-2012 foi-lhe atribuída pela Câmara Municipal da Covilhã a Medalha de Mérito Municipal, categoria ouro, nas comemorações do 142.º Aniversário da elevação da Covilhã a Cidade. Em 02-12-2012 foi nomeado Cónego pelo bispo da Guarda, D. Manuel Felício.
Muito mais haveria a dizer deste homem da simplicidade e humildade, da cultura e protetor dos desprotegidos, mas o espaço não o permite.
João de Jesus Nunes

(In "Notícias da Covilhã", de  09-01-2019)

19 de dezembro de 2018

UM FINAL DE ANO AGITADO


Neste caminhar para o final do 18.º ano do século XXI da Era de Cristo, muitas coisas vêm acontecendo não só no retângulo mais ocidental da Europa como também neste mesmo Velho Continente.
Começando pelo nosso país, as greves não param. Há 47 pré-avisos até final do ano, sendo que 11 setores da função pública estão em greve com essa intenção de continuidade. Não haverá um único dia sem paralisações, refere a comunicação social.
Neste mês de dezembro o setor da saúde é o mais afetado, com os enfermeiros que iniciaram a greve em 22 de novembro e já ameaçaram a continuidade em janeiro, com milhares de cirurgias adiadas, apesar do apelo ao bom senso por vários responsáveis do país, entre os quais o Presidente da República. A Ordem dos Enfermeiros tem vindo a descredibilizar-se publicamente, suscitando uma compreensível repulsa da sociedade portuguesa. O seu Movimento Greve Cirúrgica – que esteve na base da greve, lançou um fundo aberto ao público que recolheu mais de 360 mil euros para compensar os colegas que aderiram à paralisação. E já criou uma nova plataforma pública de recolha de fundos para a designada “greve cirúrgica 2”, desta vez para recolher até 14 de janeiro, 400 mil euros num “fundo solidário” com vista a ajudar os profissionais que aderirem e ficarem sem salário durante o período de protesto, tendo já recolhido 6100 euros em quatro horas, segundo a comunicação social. Que triste notícia, se não for peta, dum setor que se diz estar ao lado dos doentes quando se borrifam para os mesmos. E lamentável é ainda quem lhes dá apoio nas ajudas pecuniárias. Isto é pessoal que não passou pelas ventas do salazarismo, onde muitos comiam o pão que o diabo amassou, e que não era o das visões dos diabos em cada esquina que Passos Coelho pressagiara. Mas certamente ele aí está “encarnado” nalguns agitadores sobejamente conhecidos.
É que ainda há memórias curtas dos tempos da troika em que muitos andavam caladinhos e, agora, nada receiam, há dinheiro a jorros para satisfazer de imediato todas as reivindicações. Até atividades profissionais como a dos juízes fazem greves, quando tanto estas como a proteção civil, bombeiros, polícias, militares e outras análogas, deveriam ser proibidas.
Reivindique-se, sim, através de armas como o voto maciço, os melhoramentos nas zonas onde a demografia é cada vez mais fragilizada como o nosso Interior Beirão, e procure-se que os muitos ladrões de Portugal sejam condenados e não saiam para fora das grades enquanto não ressarcirem o país dos valores com que se locupletaram.
Com estas condutas irresponsáveis de muitos, não olhando a meios para atingir os seus fins, estão a preparar um lindo Portugal, não fazendo nada de diferente para proporcionar uma sociedade de bem-estar aos cidadãos, neste Portugal dos nossos netos.
No dia 10 deste mês de dezembro comemoraram-se os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos que defende valores universais ainda por realizar em vários países. O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, defendeu que “a celebração deste 70º aniversário deveria ser uma ocasião para lançar um alerta vermelho”.
A outra parte da agitação deste final de ano já é de todos conhecida, desde os “coletes amarelos”, que têm saído à rua todos os sábados desde 17 de novembro, em Paris, com o presidente Macron em verdadeiros apuros para conter a fúria dos manifestantes reivindicadores; até Theresa May com o seu problema do Brexit, aquela primeira-ministra que se diz ter sete vidas mas com o seu “Brexit” na incubadora. Este não é mais do que, finalmente, o divórcio esperado e ansiado pelo Reino Unido e a União Europeia, e, assim, vão as crises desta mesma União Europeia.
Já os “coletes amarelos” exprimem a revolta da classe média empobrecida, da França periférica, que já não acredita na via eleitoral. Macron não é De Gaulle e não estamos em 1968, pois dizia um dos “coletes amarelos” nos primeiros dias de protestos que as “elites francesas se preocupam muito com o fim do mundo, mas o povo está preocupado é com o fim do mês”.
Termino esta crónica deste ano de 2018, citando a parte final da crónica de Vicente Jorge Silva, in Público de 9 de dezembro, sob o título “Lições europeias do terramoto francês: É por isso que o terramoto francês suscita tantos motivos de alerta e reflexão a uma Europa já em depressão profunda. Quem escapa agora ao contágio do que acontece em França? Quando se perde o controlo dos acontecimentos e não se sabe como recuperá-lo, o pior é, infelizmente, sempre possível. Eis também uma lição para nós, portugueses, nestes tempos de greves e reivindicações em cadeia”.
Um Santo Natal e um Feliz Ano 2019.

(In "Notícias da Covilhã", de 20-12-2018)

11 de dezembro de 2018

A CHINA COMEÇA A ASSUSTAR A UNIÃO EUROPEIA

Quase que se podia dizer que sai um (Reino Unido) e entra outro (China), embora não seja a mesma coisa.
A China serão os novos donos de Portugal, pelos vistos. Longe vão os tempos em que víamos as imagens das gentes chinesas vestidas todas de igual, cor cinza e o mesmo modelo de vestuário, com bolsos e botões salientes, de gola apertada onde a gravata era inexistente, e de boina ou boné na cabeça.  Era uma autêntica farda. Tornava-se fastidioso, e todo o mundo chinês utilizava a bicicleta como meio de transporte. Era o tempo de Mao Tsé-Tung.
Noutra vertente, parece que ainda estou a ver na RTP1, então a preto e branco, no dia 25 de outubro de 1971 (uma segunda-feira), os representantes da República da China, da altura, na ONU, que foram um dos seus fundadores, a saírem da Assembleia-Geral das Nações Unidas, expulsos, e revoltados, para darem lugar aos representantes da República Popular da China, oficialmente com esta designação desde 1949, por via duma resolução aprovada por aquela Assembleia Geral. Ainda hoje se mantêm as duas Chinas, geradoras de melindres entre países, como Portugal, porque não se pode agradar a Deus e ao diabo, como no caso que se desenvolve, a bom ritmo, nas decisões entre o nosso país e a República Popular da China. A outra chamava-se Formosa e é hoje Taiwan. A culpa foi de Mao.
Aqui um parêntesis. Para se falar da China tem que resultar numa recolha vasta de importantes informações históricas pois se trata dum dos países mais antigos, aproximadamente 2000 a.C. Era baseada em monarquias hereditárias, conhecidas como dinastias, que terminaram com a queda da dinastia Qing em 1911. Fundou-se então, neste ano, a República da China que governou o continente chinês até 1949. Em 1945 a república chinesa adquiriu Taiwan do Império do Japão, após o fim da Segunda Guerra Mundial.
O Partido Comunista assumiu-se vitorioso perante o Partido Nacionalista e estabeleceu a República Popular da China, em 1 de outubro de 1949, enquanto o Nacionalista mudou a sede do seu governo para Taipé.
As forças armadas têm um efetivo de 2,3 milhões de soldados – o Exército de Libertação Popular – que é a maior força militar do mundo, em termos de número de tropas. A liberdade política é ainda muito restrita. O que é certo e verdade é que há uma contradição na Constituição da República Popular da China (RPC) ao nela se afirmar que os “direitos fundamentais” dos cidadãos incluem a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o direito a um julgamento justo e à liberdade de religião, o sufrágio universal e o direito de propriedade, o que não conferem aos chineses proteção significativa, contra procedimentos penais do Estado. Recordam-se os Protestos na Praça da Paz Celestial (Tian’anmen), em 1976 e 1989, contra a repressão do regime chinês, que resultou em massacres. E tenha-se em atenção que a China executa mais pessoas do que qualquer outro país do mundo, respondendo por 72% do total mundial de execuções em 2009.
No entanto, a economia da República Popular da China é a segunda maior do mundo, sendo a nação com maior crescimento económico dos últimos 25 anos, com a média do crescimento do PIB em 10% por ano.
Este robusto crescimento económico, combinado com excelentes fatores internos como estabilidade política, grandes reservas em moeda estrangeira (a maior do mundo, com 818,9 biliões de dólares), mercado interno com grande potencial de crescimento, faz com que a China seja atualmente um dos melhores locais do mundo para investimentos estrangeiros, com uma avaliação de risco (Moody’s) A2, índice considerado excelente.
Desde a introdução de reformas económicas em 1978, a China tornou-se uma das economias de mais rápido crescimento no mundo, sendo o maior exportador e o terceiro maior importador de mercadorias do planeta.
É impressionante como conhecemos a China há umas décadas atrás e, face à industrialização, reduziu a taxa de pobreza de 53%, em 1981, para 8%, em 2001. Por isso é considerada uma superpotência emergente.
Pois cá tivemos a semana transata (dias 4 e 5 deste mês de dezembro), a visita a Portugal do 4.º  presidente chinês, Xi Jinping, sendo que a 1.ª visita dum presidente chinês se realizou em 1984 (de 16 a 19 de novembro), na pessoa de Li Xiannian; depois, a 2.ª em 1999 (26 e 27 de outubro), com Jiang Zemin; e a 3.ª  visita aconteceu em meados de novembro de 2010, com Hu Jintao, em condições muito diferentes das do atual presidente, pois nessa altura havia uma profunda crise europeia, mas foram investidos cerca de nove mil milhões de euros, pelo que a relação com a China é para continuar.
Portugal recebeu o presidente chinês para reforçar a cooperação entre os dois países. Efetivamente, com os “vistos gold”, o país abriu as portas ao espaço Schengen a mais de 4000 cidadãos chineses, como contrapartida de vários investimentos em território nacional. Nesta altura, o investimento direto estrangeiro da China atinge um total de 12 mil milhões de euros, abarcando setores desde a energia (Galp, REN, EDP) aos transportes (TAP), passando também pela área dos seguros (Fidelidade), saúde (Grupo Luz Saúde).
Tem sido argumentado de que os dois países têm 500 anos de conhecimento mútuo, incluindo uma transferência bem-sucedida da soberania de Macau. “Mas até onde Portugal deve ir na sua relação económica e política com a China para preservar a independência das suas decisões estratégicas e o estatuto de membro da União e da Nato?” Segundo o Coordenador do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Aveiro, Carlos Rodrigues, “a aquisição de empresas portuguesas permite um acesso a conhecimento e tecnologia a que, de outra forma, seria muito difícil aceder”. E Miguel Santos Neves, especialista nas relações Portugal-China, professor na UAL, refere que “a China visa utilizar esta forte influência sobre Portugal para enfraquecer a União Europeia (UE) e a sua posição negocial face a Pequim”.
A UE teme a entrada pujante da China e esta vê também a sua história de sucesso a ser colocada sob ameaça pela mudança de atitude de outras potências mundiais, principalmente os Estados Unidos perante o sucesso chinês. Sim, a China, de país essencialmente agrícola, passou a maior exportador do mundo e segunda maior economia mundial, com mais de 800 milhões de chineses a deixarem de estar em situação de pobreza extrema, o que representa um contributo de cerca de 70% para a redução total da pobreza no planeta.
E, assim, Portugal e a China assinaram um “memorando” muito europeu, cujas “relações deram mais 17 passos em frente”, sendo que o primeiro destes acordos é um memorando de entendimento da chamada “nova Rota da Seda”, que envolve uma vertente terrestre e outra marítima, com ênfase nas estruturas.
Já vai longo o texto, pelo que me despeço com os votos de um Santo Natal e um Feliz Ano 2019.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11-12-2018)