12 de junho de 2019

A DOR DE CABEÇA OU DE BARRIGA DOS EXAMES


Não era este o tema que tinha inicialmente previsto para a crónica desta semana. Mas, recordando o acompanhamento que tivemos com os filhos até ao ensino universitário e já com os netos a viverem os momentos do secundário e até mesmo o superior, ficam as marcas das reminiscências dos avós que já passaram a fasquia dos 70 anos.
Os tempos doutrora são incomparáveis aos dias de hoje, em todos os aspetos, desde o habitacional ao social, para não referir outros básicos, como o económico.
Se bem que com exceções como manda a regra, pelo menos para quem se embrenha nos meios solidários, os jovens de hoje não têm razão para não disputarem os valores da vida no empenhamento do saber até à opção vocacional.
As famílias já não são iletradas, embora se vão dando alguns pontapés na gramática. Certo é que os hábitos de leitura são escassos e falar de cultura é dum enfado confrangedor para muitas das pessoas, onde os jornais desportivos são os apelativos e o sensacionalismo do Correio da Manhã não deixa de atrair.
Hoje já não existe uma casa de habitação sem uma casa de banho, o que não acontecia no meu tempo de estudante, duma forma generalizada. Surgida a época dos exames, com o calor dentro das casas, agravadas pelo sarilho da barulheira de quem tinha mais irmãos, restava-nos pegar nos livros pela manhazinha e procurar uma sombra, só ou acompanhado, para aí ser o local mais sossegado e inspirador para o estudo, as revisões da matéria para as várias disciplinas. Era no Jardim Municipal, nas escadas ou bancos do Monumento de Nossa Senhora da Conceição, algumas sombras de oliveiras da então Avenida Salazar (hoje Avenida 25 de Abril), antes de se terem lá erguido algumas vivendas, e por aí fora. Não menos agradável era o ambiente acolhedor da antiga Biblioteca Municipal, ao Jardim. E não havia automóveis para a deslocação, mas tão só o caminhar com os livros debaixo do braço.
Certo é que, ainda que paradoxalmente, havia um pouco mais de propiciação para se estudar (nessa altura em que decorar era a forma de ensino adequada ao tempo), já que não havia os meios de hoje que são objeto de distração mesmo em tempo de estudo: televisão, telemóveis, redes sociais, e por aí fora…
Não havia dinheiro para uma merenda quotidiana, um sumo ou um gelado do Cardona, pelo que, na rua, a água duma fonte era bendita.
E os cérebros lá se tinham de esforçar sem o combustível necessário para o manter saudável. Ainda me recordo de, neste tempo então mais abundante de fruta, as mãezinhas se preocupavam em fazer um esforço adicional à aquisição das novidades, como os figos, as cerejas ou outra cobiçada, “porque se estava na altura dos exames” e havia que não deixar chegar algum fastio. Cérebros com carburante reforçado…
Se a Física e a Química, o Direito Comercial e a Economia Política eram as disciplinas que mais me levavam a retirar-me para uma concentração no estudo, não me posso esquecer que, duma transição do mesmo curso, que frequentava durante o dia, para o noturno, que obrigava a mais um ano, e por forma a não ficar deste modo com uma disciplina em atraso, vi-me forçado a esse então famigerado exame de transição, ter que gramar, durante todas as férias do verão, ao invés de aliviar a carga, estudar o Segundo Volume da História Universal, sem explicadores, naquela de “seja o que Deus quiser”. E, vai daí, a matéria dessa disciplina de um ano letivo completo marrei-a em dois meses!...
Pois é, levo com o exame de História e também com outro de Francês, que, para esse efeito de transição penso que eram só provas orais, e, por obra e graça do Divino Espírito Santo, saí-me bem perante o júri constituído pelos falecidos professores Drª. Maria Irene Portela e Dr. José de Oliveira Dias. Corria o ano da graça de 1963.
Arrumavam-se os livros e cadernos numa pasta, onde não havia secretárias em casa como nos dias de hoje, mormente quando há vários irmãos. Não se folheavam fotocópias nem havia marcadores fluorescentes ou post-it coloridos, porque não havia mesmo (os professores utilizavam os stencils da Escola para os testes).
Querer tirar dúvidas com um colega ao telefone não era viável pois quase nenhum tinha este aparelho (só em casas mais abastadas) e, telemóvel, ainda era inexistente, a léguas de distância. Quando muito, ia-se a pé e batia-se à porta do colega, o qual, por vezes, morava longe. Era uma carga de nervos quando parecia que já todos estavam mais adiantados no estudo ou, então, que todos estavam mais desesperados do que eu.
Para o exame final, volvidos três anos, lá combinámos, com o Manuel José Torrão, o falecido Tomé, do BNU, que foi viver para Abrantes, irmos trocar impressões e estudar para casa do então genro do José Vicente Milhano, por sua sugestão, mas que vivia longe, lá para as bandas do Campos Melo. Já tarde, esgotados, depois de um dia de trabalho e perto da meia-noite, vinha-me pôr a casa no seu Citroen boca de sapo.
É que, os nossos professores de Contabilidade, em final de ano, foram forçados a interromper as aulas. Primeiro, foi o Dr. Fernando Carneiro, que era chamado pela segunda vez para o serviço militar, para depois ser mobilizado para o Ultramar; depois foi um professor novo que teve igual sorte, pelo que, quase em vésperas do último exame – Aptidão Profissional – vem salvar a contenda o Dr. Duarte Simões. Do júri constava então também o industrial de lanifícios, Dr. Fernando Lopes Alçada.
Nessa altura eu fumava e o cinto das calças já reduzia mais um furo.
Agora pergunto a mim próprio, por que me deu na real gana de lembrar pecados velhos, ou algo nostálgico, em vez de falar no desplante de Joe Berardo; que em 45 anos, cinco Presidentes da República Portuguesa entregaram 9477 comendas; que a “coisa” pode piorar, segundo a versão de Rui Rio; que foi há 100 anos que Einstein se tornou uma popstar; que a Europa está sem ilusões; ou a doença do capitalismo; a ignóbil farsa do SIRESP; ou que surge a interrogação se a Theresa May não será o mal menor?
Bom, tudo isto seria diferente, mas não era a mesma coisa, pois não?

(In Jornal fórum Covilhã", de 12-06-2019)

5 de junho de 2019

ENTRE AS PÁGINAS ROMANESCAS DE UM LIVRO E O JORNAL “O OLHANENSE”


A primeira pausa após o almoço daquela sexta-feira. (1)
- Bom, meus caríssimos amigos e companheiros destas jornadas seguradoras, tenho a comunicar-vos uma notícia que ontem chegou a minha casa, que já poderia ser transmitida durante o almoço, mas custou-me imenso, até parece que se me travou a língua!... – Disse o Benedito. E manteve-se durante algum silêncio.
Todos ficaram atónitos, tanto mais que ninguém deduziu que viria a anunciar o nascimento do primeiro filho, face à idade do casal… Mas esperavam que alguém se pronunciasse, olhando uns para os outros.
Outros pensaram: aqui há gato!...
Até que o Benedito continuou:
- A Sónia recebeu um convite para passar a ser a maestrina de duas bandas filarmónicas algarvias, entre as quais a Banda Musical de Tavira, onde eu estive algum tempo no serviço militar…  Certamente a nossa vida vai mudar de Leiria para terras algarvias…  Pensamos nós!...
- Então qual é o problema? – disse o Rosas. E acrescentou: Primeiro a vossa vida, e depois o grupo Tertuliano. Paciência!...
- Claro que sim!... opinou também a Faustina. – É pena que ainda há pouco tempo começámos a integrar esta tertúlia que está a ser interessantíssima, mas a vida é mesmo assim!...
- Então para que não percamos mais tempo, vamos continuar com os nossos trabalhinhos – disse o Benedito – e depois já desenvolvo mais a conversa a meu respeito.
Na segunda pausa após o almoço desta sexta-feira, já a tornar-se de certo modo agitada, o Benedito tenta acalmar os companheiros tertulianos:
- Ora bem, na sequência do que vos transmiti há pouco, só lá para junho é que vou deixar Leiria, até porque ainda temos de acertar pormenores com o trabalho da Sónia, e a nossa deslocação para lá. Portanto, até lá ainda podemos fazer muita coisa…
No Algarve, para além da Sociedade da Banda Musical de Tavira, também foi abordada pela Banda Filarmónica Moncarachense 1.º de Dezembro e pela Banda Musical Castromarinense.
Disse o Rosas: - Alguém há de tomar a liderança do grupo para prosseguir com outro tema cultural. Pelo menos, ficaram as raízes do que tem sido desenvolvido ao longo pouco mais de uma semana!
- Não vai morrer, não senhor!... Deixemos lá o amigo Benedito e a Sónia resolverem a sua vida! – disse o Pedro. – Não esqueçais que as viagens estão de pé!...
Chegou finalmente aquela quinta-feira, dia 4 de maio do ano da graça de 2017. Bem cedo, ainda não eram nove horas e já começavam a chegar os primeiros tertulianos à Adega Regional.
Numa breve pausa, a Milu, que gosta muito de história, avançou com a pergunta:
- Não foi em 4 de agosto de 1578 que se deu a Batalha de Alcácer Quibir?
- Sei que foi em 1578, mas não me recordo da data completa… Mas porquê? – Resposta e pergunta da Sónia.
- É que me chamou à atenção o facto de o Benedito ter referido há pouco que… deixa cá ver…o cargo de escrivão de seguros foi criado por carta régia de D. João III, datada de outubro de 1579. Ora bem… mas a outra… ah! Já sei… disse que a criação do cargo de corretor de seguros coube a D. Sebastião, por carta régia de fevereiro de 1578. Logo, seriam seis meses antes de perder a vida naquela maldita batalha!... – Respondeu a Milu.
- Pois bem, hoje terminamos definitivamente esta tertúlia sob o tema que viemos a desenvolver – referiu o Benedito. Já combinei com a Sónia para que a viagem projetada para o Algarve, de dois dias, com uma pernoita, para celebrar o encerramento desta tertúlia, ainda que efémera, será no hotel Vila Gale Ampalius, em Vilamoura. Estivemos indecisos entre este e o Dom Pedro Martins..., escolhemos o primeiro porque está localizado a poucos metros da Praia da Marina e da Marina de Vila Moura.
Depois, as refeições logo se verão, uma vez que vamos visitar várias localidades do Algarve. É no dia 27 de maio, às 7h30 da manhã, sábado, porque o Benedito no dia 25 tem o já agendado encontro de futebol de Veteranos entre o Sport Clube Leiria e Marrazes e o Grupo Recreativo Amigos da Paz/Pousos.
- Então vamos juntar-nos no mesmo local – Jardim Luís de Camões? – perguntou o Licínio.
Depois de algumas trocas de impressões sobre o Algarve onde, uns há muito tempo que lá não iam, outros que estiveram lá o ano passado, e outros, como o Benedito e o Marques, estiveram durante a recruta no CISMI, em Tavira (o Benedito), e a especialidade (o Marques), chegou finalmente o ansiado dia. Eram oito horas e iniciaram a viagem a caminho do Algarve, destino Vilamoura, sendo feito algumas paragens pelo caminho. As máquinas fotográficas foram então substituídas pelos smartphones, pelo que se iam tirando umas fotos pelas paragens durante o trajeto. Eram aproximadamente 368 Km. Seguiram pela A1 e quando na IC 10 viram a placa Algarve/Évora/Coruche/Almeirim, saíram em Almeirim na tentativa de irem comer a sopa de pedra. A muito custo lá conseguiram uma mesa. Acautelaram-se nas bebidas…
Uma pequena paragem na área de serviço de Alcácer do Sal e aí se direcionaram a caminho de Vilamoura. Ao passarem por Poço de Boliqueime e Fonte de Boliqueime alguns lembraram-se que Boliqueime é a terra de Cavaco Silva.
Chegados ao hotel, depois do check-in e de tudo arrumado, foi altura de darem uma voltinha pelas cidades mais próximas…  Foram até Portimão, ficando o passeio pela marina de Vilamoura para a noite.
- Está ali um café – apontou o Alberto Ferreira. Entraram então no Café Casa Inglesa. O Rosas comprou o jornal O Olhanense, onde vinha sempre uma crónica do antigo camarada da Covilhã, do RAL 4, que estava à venda à porta do Café Nacional.
- Bom, meus amigos!... Está na hora de jantar, ou vocês não querem jantar?
- Sugeria que fossemos a Albufeira porque lá há animação à noite – disse o Pedro. Todos concordaram.
Entraram no Café Ameixial. Cá fora, quatro mexicanos tocavam os seus instrumentos exóticos. Depois, entraram numa esplanada e ali, ao ar livre, perto dum palco onde atuavam alguns artistas populares, jantaram. Quase todos preferiram um robalo escalado, exceto a Milu e o Pedro que optaram por cavala.
Ainda passaram pelo Café Pastelaria Riviera, tendo recolhido a Vilamoura.
- Amanhã podemos almoçar aqui no Restaurante do Chino e do Figo!... – disse o Rosas, apontando para o letreiro “Café Figo e China Lda”, ainda com muita gente.
Tomado o pequeno-almoço no hotel, quiseram ainda entrar no Café do Chino, e aí decidirem aproveitar o tempo, visitando outras cidades algarvias. Deram um salto a Lagos, entraram no Café Taquelim, e a Sónia quis comprar uns bolos vistos no Café Mildoces.
- Bom, agora voltamos para trás – disse o Rosas. E lá passaram novamente por Portimão, viram a Praia da Rocha  e a direção agora Faro, Olhão e Tavira.
A próxima viagem para uma visita turística foi a cidade de Faro, capital do Algarve. Uma pausa no Café Aliança, para umas minis pois as gargantas já estavam a precisar. A Milu e a Anabela beberam água natural sem gás, já que as restantes companheiras optaram por sumos frescos.
O Pedro perguntou onde era o Café Pastelaria Gardy pois estivera lá, como empregado de mesa, um seu antigo camarada do Ultramar.
Em Faro não houve grandes demoras, já que agora estavam na peugada de Olhão, Chegados a Olhão, logo encontraram onde matar a sede – Café Chaminé. Havia também que descansar as pernas.
Deram umas voltas pela cidade e entraram no Café O Pátio onde consumiram algumas bebidas.
Entretanto, o Benedito ouviu de dois compadres, em voz baixa, mas ali perto da mesa onde se encontrava – assim se chamavam um ao outro… –, a leitura de um artigo que vinha no jornal O Olhanense e que dizia assim: “O Lameiro do Chão Verde”. (2)
- Bom, meus amigos, vamos a Tavira porque eu já lá fico e vocês têm de regressar ainda a Leiria!... – Ordenou o Benedito.
Todos se ergueram mais rápido, entraram nos respetivos automóveis e… rumo a Tavira, onde o Marques começou logo por dizer que gostava de matar saudades, passando na ponte antiga sobre o Rio Gilão.
- Não te lembras das salinas, onde nos levavam para os exercícios, que saíamos de lá cheios de lama, e depois quando chegávamos ao quartel para tomar banho cortavam a água e ficávamos todos sujos? Tínhamos de nos desenrascar… que era ação psicológica!... – continuou a insistir o Marques, que agora queria ir ver o CISMI e a Atalaia.
Bom, dirigiram-se ao CISMI – Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria (que agora mudou o nome para Regimento de Infantaria n.º 1), também conhecido como Quartel da Atalaia. Pediram autorização de passar da porta de armas, acompanhado por um militar que estava de serviço. Ainda existe a G3 que o militar deixou que nela pegassem. Bom, o Campo da Atalaia, onde se fazia a instrução militar, esse já lá não estava, foi aí construída uma urbanização.
Entretanto, recordando algumas pessoas castiças, que acompanhavam os instruendos do CSM durante a instrução militar, para vender refrigerantes, a UCAL, chocolates ou bolachas, nos intervalos (como a Ti Almerinda), o Marques, mais uma vez, recordou e disse:
- Gostaria de vos ler um artigo do meu ex-camarada da Covilhã, durante o tempo em que esteve aqui. E, puxando pelo smartphone, pesquisou e passou a ler: “Boliqueime”.
E foi o regresso a Leiria.

(1)     In “O Documento Antigo – Uma Outra Forma e Ver os Seguros”, de João de Jesus Nunes
(2)     “O Lameiro do Chão Verde”, por Goreti Costa, in ‘O Olhanense’, de 15-04-2018.

(In Jornal "O Olhanense", de 01-06-2019)

22 de maio de 2019

A PROTEÇÃO DAS PESSOAS E BENS É ANCESTRAL


Pegando num trabalho de muita pesquisa apresentado o ano passado, com base na vertente profissional que, entretanto, desenvolvera durante quatro décadas, e para dissipar algumas dúvidas sobre a longevidade das preocupações pelo bem-estar das pessoas, e seus familiares, ao longo dos séculos, mormente aquando de revés nas suas vidas, quero aproveitar para dele respigar algumas partes bíblicas ou de leis emergentes na Antiguidade.
Sobre este tema me referi também neste mesmo espaço, há um ano, sob o título “A Usura e a Igreja”.
Vejamos: No IV milénio a. C. já os mercadores da Mesopotâmia percorriam longas distâncias com fins comerciais. Para obviar os riscos das enormes viagens organizavam-se em caravanas, nas quais se integravam também guias, escoltas, sacerdotes e auxiliares em elevado número.
Entre os séculos XIII e XII a. C., Moisés prescreve que a nação de Israel contribua periodicamente com uma parte do seu produto para os levitas, os estrangeiros, as viúvas e os órfãos.
Os fenícios de Tiro que construíram o Templo e o Palácio de Jerusalém, no tempo do rei Salomão, entre 970 a 930 a.C., organizaram-se também para fazer face às adversidades ocorridas no seu trabalho.
Tudo indica que no ano 582 a. C., houve um caso equivalente ao estabelecimento de uma pensão vitalícia. De facto, pode ler-se na Bíblia: “No trigésimo sétimo ano do cativeiro de Joiaquin, rei de Judá, no vigésimo sétimo dia do décimo segundo mês, Evil-Merodac, rei da Babilónia, no primeiro ano do seu reinado, fez mercê a Joiaquin, rei de Judá, e libertou-o. Falou-lhe benevolamente, e deu-lhe um trono mais elevado que os dos reis que estavam com ele na Babilónia, tirou-lhe as vestes de prisioneiro e, até ao fim da sua vida, Joiaquin comeu à mesa do rei. O seu sustento foi-lhe assegurado pelo rei, durante toda a sua vida, dia após dia”.
Certo é que com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, provoca o desaparecimento das bens estruturadas instituições públicas romanas de solidariedade social.
O Talmud da Babilónia refere também uma forma de solidariedade ligada às viagens marítimas nos seguintes termos: “Os navegadores podem acordar entre si que, se um deles perde o seu navio, ser-lhe-á construído um outro. Se um deles perde o seu navio por sua culpa, não há obrigação de lhe dar outro. Se ele o perdeu por ir a uma distância onde os navios não vão normalmente, não há obrigação de lhe construir um outro”.
Já no Código de Hamurabi se dispunha no seu número 48: “Se alguém tiver uma dívida, e se o deus Adad inundou o terreno, se uma inundação o levou, ou se, por falta de água, a cevada não cresceu no terreno, não terá que entregar a cevada ao credor: molhará a tábua (de argila, destruindo as convenções ali escritas) e, portanto, não entregará os juros devidos por aquele ano”.
Reportando-nos à cobrança de impostos, vemos como no tempo de Jesus eram vistos os funcionários romanos, sendo conhecido o caso de Zaqueu que subiu para um sicómoro para ver passar Jesus e se arrependeu da sua conduta profissional. As leis romanas admitiam o mutum, mas trataram diferencialmente a questão do juro. Enquanto a lei Genucia (342 a. C.) o proibia, a lei Duilia Menenia (357 a. C.) mantinha o direito ao juro sem fixar limitações. Já a Lei da Doze Tábuas (450 a. C.) limitou o juro máximo dos empréstimos a 12% ao ano. No entanto, houve mesmo épocas em que os especuladores romanos chegaram a cobrar de juros 48% ao ano. Marcus Julius Brutus, 84 a 42 a.C., líder político militar romano, um dos assassinos de Júlio César, foi um dos prestamistas que emprestava a este juro.
Os astrágalos, os dados, assim como os sorteios e outros meios aleatórios eram também usados para sondar a vontade de Deus quando havia que tomar uma decisão importante. Exemplos destes rituais encontram-se nos livros do Antigo Testamento.
No livro de Números, cap. 33, nº 54, está escrito: “E por sortes herdareis a terra, segundo as vossas famílias; aos muitos multiplicareis a herança, e aos poucos diminuireis a herança; conforme a sorte sair a alguém, ali a possuirá; segundo as tribos de vossos pais recebereis as heranças”.
No livro Provérbios, cap. 16, nº 33 refere-se que “a sorte se lança no regaço, mas o Senhor procede toda a determinação”.
Diga-se de passagem, que estas práticas tiveram a desaprovação dos teólogos desde Santo Agostinho precisamente porque tais expedientes “forçavam Deus a opor-se à sorte”.
Nos tempos que correm, para proteção dos trabalhadores, foi instituído o salário mínimo nacional, mas, por outro lado, não foi criada legislação para que o salário máximo não suba para os céus, numa analogia com os juros atrás referidos da especulação romana de então.

(In "Notícias da Covilhã", de 23-05-2019)

16 de maio de 2019

CINQUENTA E SEIS ANOS DE VIDA AO SERVIÇO DA REGIÃO ALGARVIA


Não é por demais exagerado continuar a falar na exemplaridade deste quinzenário, batizado de “O Olhanense”, que neste número completa cinquenta e seis primaveras.
E porquê?
 É que, manter o navio a flutuar em águas tranquilas, a ser capitaneado e a ter obreiros de voluntariado, não é fácil seguir a rota, algumas vezes contra ventos e marés.
Pode levar por vezes a alguma impaciência, ao desânimo, ao invés do lenitivo necessário no sentido do reconhecimento da justiça que merece quem dá do seu sem esperar nada, no desejo de jamais encontrar alguém a assobiar para o lado.
No entanto, a força de vontade desses voluntários, dotados daquele espírito de servir uma causa que lhes diz muito – o seu Clube do coração, a sua Cidade, a sua Região – leva-os a transcender do esforço que desenvolvem, algumas vezes em prejuízo da família, e das suas atividades que os sustentam, para a alma que os anima em ver erguida uma bandeira que tantos ajudaram a manter flutuando envaidecida da sua missão.
Um jornal não se faz sem apoios variados, que vai do financeiro (publicidade, assinaturas, aquisição de exemplares nas bancas) aos incentivos de quem nele trabalha, e, como no caso em apreço, voluntariamente, já que dos poderes públicos pouco, ou nada, se pode esperar.
Uma participação de colaboradores com notícias verdadeiras, entrevista a figuras destacadas na região, crónicas e artigos de opinião, é essencial, diversificados em vários campos, onde a vertente cultural deverá ter posição destacada, e banindo de vez as famigeradas fake news, hoje tão em voga, principalmente nas redes sociais.
Mas, para que tudo isto aconteça nas páginas de um periódico, até chegar ao domicílio do leitor assinante, ou da banca ou lugares públicos onde possa ser lido, dá lugar, tantas vezes a muito trabalho oculto, se bem que outro, na evidência das ações para que o mesmo se processe, é neste contexto muitas vezes de alguém que, como sói dizer-se, “faz das tripas coração”.
Alguns periódicos desapareceram fruto das intempéries do momento que atravessaram, pelo que se deve fazer jus à homenagem dos Homens que compõem este “navio” que se mantém em movimento.
É que “O Olhanense” não tem só a vertente desportiva mas insere variados temas interessantíssimos e verte para o panorama cultural a voz da região algarvia, como seu baluarte informativo e formativo.
O “O Olhanense” emparceira já com os principais jornais regionais do País.
Os meus parabéns aos prezados amigos José Isidoro Sousa e Mário Proença, respetivamente, Diretor e Diretor Adjunto, envolvendo neles todos quantos são verdadeiros obreiros deste quinzenário.

(In "O Olhanense", de 15-05-2019)

14 de maio de 2019

TODOS AO MOLHO


Depois da vitória de Pirro de Mário Nogueira, com a bandeira já desfraldada, surge um obstáculo no desenrolar do jogo, no campo político, pois que a disputa ainda não tinha terminado.
Alguns que rodeavam o clube dominante, aquele que tem incutido alguma dose de esperança pelos resultados obtidos, não só a contento dos adeptos mas também de outros expetantes, juntaram-se aos do clube adversário, num desvario de embriaguez, querendo também dar azo à sua alegria pela presunção da vitória já no horizonte.
Na minha ingenuidade política, nunca pensei que apaniguados de dois dos clubes representados naquele estádio – BE e PCP – aceitassem fazer o jogo da direita, dando as mãos a partidários de outros dois clubes, também ali presentes: PSD e CDS, para derrotarem o outro clube que jogava – GOVERNO do PS.
A vitória quase no papo, do treinador do clube dos PROFESSORES, com a adesão à cumplicidade naquele orgasmo, naquele êxtase de todos ao molho – onde é que isto já se viu?!  –, foi objeto de uma amnésia temporária de que o jogo tinha o VAR – o tal videoárbitro.
Pois é, lá vão ficar numa ansiedade, os adeptos lançados todos ao molho, dos quatro clubes referidos, e nenhum já vai sequer ficar com a bola do jogo.
Já não é a consagração par(a)lamentar do fanático “professor” Mário Nogueira como real ministro da Educação.
Assinalada a grande penalidade a favor do clube do GOVERNO do PS, é o volte-face. E aí acontece a vergonha dum PCP à rasca nas sondagens, o opróbrio do BE na deceção de tantos que o farão decair, na ignomínia dum PSD, à reacionária Cristas que nem com o joker do hipócrita Rui Rio conseguirá chegar a bom porto.
Alguns dos espetadores daquele nevrálgico jogo, disputado no estádio PAR(A)LAMENTAR, quiseram dar entrevistas aos vários órgãos da comunicação social:
Manuel Carvalho (in Público): - “A interminável farsa da carreira dos professores. O tema está a dar origem a um lamentável espetáculo que consiste em querer cativar a docência com bravatas políticas que são puro ilusionismo. No outono, quando o Governo precisava do seu apoio para aprovar o OE, o Bloco e o PCP não tiveram a coragem de impor a reivindicação dos docentes.”
João Miguel Tavares (in Público): - “António Costa está cheiinho de razão. O grande problema do PSD e do CDS é que António Costa sabe mais de política a dormir do que Rui Rio e Assunção Cristas. António Costa meteu no bolso a sua esquerda e a sua direita – basta ver a forma disparatada como todos os partidos reagiram à cartada do Governo, atropelando-se em péssimas justificações como se tivessem sido meninos traquinas apanhados com a mão na caixa de biscoitos. Todo este bouquet de palermice é de tal forma patético e desconchavado que António Costa e Mário Centeno devem ter saído na sexta à noite para beber uns copos e brindar à imbecilidade da oposição”.
Teresa Sousa (in Público): - “Como foi possível, em primeiro lugar, ao PSD dar um monumental tiro no pé? Como foi possível, em segundo lugar, à esquerda radical pôr em causa uma eventual continuação da ‘geringonça’ depois das legislativas? Aparentemente nada disto tem lógica, sobretudo perante uma reivindicação encabeçada pela figura que vence por longevidade e demagogia o concurso da irresponsabilidade sindical (e política) nacional – Mário Nogueira.”
Vicente Jorge Silva (in Público): “Bravo, António Costa! António Costa sentiu que chegara o momento de soltar o seu grito do Ipiranga, fosse qual fosse o preço a pagar por isso”.
Anabela Sousa Dantas (in Economia ao Minuto): “Mário Centeno afirmou esta sexta-feira, em entrevista à SIC, que o diploma em causa para a contabilização total de serviço dos professores é ‘irresponsável’ e foi feito escondendo despesa e ‘manhosamente’ atirando para o futuro o tempo a recuperar”.
Patrícia Martins Carvalho (in Notícias ao Minuto): - “A ‘primavera quente’ de Costa chega com ‘chantagem’ e ‘eleitoralismo’. Tudo parecia andar sobre rodas até às próximas eleições legislativas. Pelo caminho ficavam as Europeias – com poucas críticas entre os partidos da Esquerda – e o PSD de Rui Rio e o CDS de Assunção Cristas com uma imagem desgastada ainda colada ao período da troika e com uma capacidade argumentativa incapaz de ‘fazer cair’ a Geringonça.”
João Pedro Henriques (in dn.pt): - “Costa tira pressão de Marcelo e protege geringonça. Corda completamente esticada. ‘Não consigo compreender como partidos que fizeram acordo com o PS para que haja esta solução de governo, que têm aprovado propostas no âmbito desse acordo, que tiveram o PS a ceder em posições importantes para acolher as suas propostas, possam hoje pôr em causa a sustentabilidade desta solução, numa coligação negativa com as forças da direita”, dizia, quanto ao BE e ao PCP. E quanto ao PSD e CDS acrescentava: “Também não consigo perceber como partidos da direita, que estão sempre a agitar o fantasma da suposta bancarrota, possam alegremente aprovar uma medida que significa 800 milhões de euros anuais em despesa permanente”.
Pedro Marques Lopes (in dn.pt): - “Há uma classe profissional que tem um estatuto especial, uma espécie de casta com direitos superiores ao resto da maralha. Os professores acham que devem ser a única classe profissional que não sofreu com a crise que todos atravessamos e pagamos. (…) Que se amanhem, dirão em voz não muito baixa os professores. E, claro, o que conta é o tempo decorrido, tenham sido bons ou maus profissionais, já se sabe que esta classe, a quem compete avaliar, não admite ser avaliada”.
Mas as centrais sindicais CGTP e UGT vieram, prontamente, pedir tratamento igual para as outras carreiras da Função Pública que também estiveram congeladas, e a FESAP avisou que são várias.
Mas os professores esquecem-se que não são só eles os lesados, olvidam, por exemplo, que não é possível devolver os empregos aos trabalhadores que os perderam, não é possível voltar a pôr a funcionar as empresas que faliram por causa da crise, não é possível fazer regressar os que emigraram. Isto a não ser que os quatro partidos dos apoiantes do clube dos PROFESSORES, pensem também que os trabalhadores do setor privado são gente de segunda categoria e que nem vale a pena pensar como lhes pagar os sacrifícios. A não ser que se ponha em cima da mesa várias hipóteses: acabar com o Serviço Nacional de Saúde. A escola pública não porque estão lá os professores, mas abandonar as estradas e as vias férreas, e mandar o subsídio de desemprego às malvas. Nem era preciso pensar em apoios sociais, podendo-se promover o fim das forças armadas e de segurança. E, porque não? Vender a Beira Interior e o Alentejo à China. Talvez já fosse suficiente. Que acham?

(In "Jornal fórum Covilhã", de 14-05-2019)

11 de abril de 2019

FILHOS DA MADRUGADA


Na senda do entusiasmo que temos vindo a atingir em crescendo com a nossa publicação trimestral, foi solicitado na última Assembleia Geral deste Núcleo da Covilhã, realizada no dia 9 de março, que se mantivessem os quatro números anuais d’ O Combatente da Estrela, já que é o elo de ligação com os muitos Associados radicados por todo o País.
Esta Assembleia Geral viu aprovado por unanimidade o relatório das atividades do ano 2018 e o plano de atividades para 2019, salientando-se com muito apreço o trabalho da atual Direção do Núcleo, pois que o ano de 2018 foi um ano pleno de atividades, onde sobressaíram as evocações do Centenário do Armistício.
Vem à presença dos leitores este número, no mês de abril, ano em que se comemoram 45 anos do 25 de Abril, dia em que quase todos nós, então ainda revestidos da nossa juventude, sentimos o coração a palpitar de alegria, acordados de um sonho que parecia uma utopia.
Pena é que os ideais do Movimento dos Capitães viessem ao longo de todos estes anos a ser adulterados e gerado em muitos de nós dúvidas, indignações e perplexidades sobre atuações em várias vertentes como, por exemplo, onde pondera a lentidão da justiça, e a sua aplicação. Muitos se têm aproveitado da democracia para se envolverem no locupletamento, à descarada, por vezes provindo de figuras das quais nem pensávamos que por elas passasse tal conduta. Não olhando a meios para atingir os seus fins, numa onda de populismo como agora é a palavra do momento político.
E foi a Revolução dos Cravos, ainda que feita de pétalas de virtudes e defeitos, que veio terminar com a Guerra nas Colónias – a Guerra do Ultramar – para onde muitos de nós por lá passámos, e, daí, a vivência profunda dos variadíssimos Núcleos da Liga dos Combatentes.
Se muito já se falou, é bom que os atuais antigos Combatentes, e não só, deixem para os novos, e os vindouros, as memórias destes tempos, para que odeiem as guerras e se insuflam nos projetos pela paz.
Aqui reproduzo as primeiras notícias sobre o início desta Revolução do 25 de Abril, e as figuras que emergiram como filhos daquela madrugada, que tiveram a coragem de enfrentar o perigo, naquela altura em que eu tinha 28 anos, recordando essa célebre quinta-feira de redobradas atenções.
Às quatro e tal da manhã daquele dia de quinta-feira o Rádio Clube Português (RCP) acaba de transmitir o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA), o que motivou que não mais conseguisse dormir quem o ouviu, tal como o fotógrafo Alfredo Cunha, do jornal O Século, que foi quem obteve as primeiras fotografias deste acontecimento, em Lisboa. Às seis da manhã de 25 de Abril toca a campainha do jornalista Adelino Gomes, então com 29 anos e secretário da redação da revista Seara Nova, pensando que ia ser preso pela PIDE, quando a mulher o informou do acontecimento. Às três horas e doze minutos, o RCP tinha pouca gente, dois técnicos de som e Joaquim Furtado, que preparava o noticiário das quatro. Oito militares entraram na estação. Objetivo: instalar ali o Posto de Comando do MFA. Só nessa altura Joaquim Furtado tomou conhecimento da existência de um movimento. Saiu do gabinete e no primeiro momento que encontrou apropriado perguntou a um dos militares, que lhe disse, de forma muito breve, mas muito clara, que se tratava de um golpe militar para depor o governo, fazer eleições livres, libertar os presos políticos, acabar com a PIDE, com a censura e com a guerra. Deu-lhe em síntese o programa do MFA.
Às quatro e vinte e seis, e não às quatro como previa o plano militar de operações devido a um atraso na tomada do Aeroporto de Lisboa, a voz segura de Joaquim Furtado anuncia: “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais devem conservar-se com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal, para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo. Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando que acorram aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração, que se deseja, sinceramente, desnecessária”.
E foi assim que outro filho da madrugada, o médico João Camilo, interno do Hospital de São José, respondeu ao apelo do MFA.
Quem também não esqueceu este dia foi Helena Pato, na altura com 35 anos, dirigente estudantil, dirigente da CDE, sindicalista e fundadora do Movimento Democrático das Mulheres, porque tinha o seu marido de então, José Manuel Tengarinha, preso em Caxias. Tinha uma visita marcada para a cadeia às onze da manhã do dia 25 de Abril, mas cerca das quatro horas toca-lhe o telefone, e é o jornalista do Diário de Lisboa que lhe comunica que estavam em curso movimentações militares para derrubar o regime, que iniciavam uma revolução e uma das primeiras coisas que iriam fazer era libertar o marido e os restantes presos políticos.
Na primeira conferência de imprensa de Salgueiro Maia, o jornalista Adelino Gomes disse-lhe: “Não desconhece que a GNR está muito bem armada, pois não?”, ao que o capitão responde: “Temos todas as viaturas do Exército do nosso lado”. E há uma voz que diz. “E temos o povo”. Era o alferes Carlos Beato, que foi presidente da Câmara de Grândola.
E foi o desenrolar de muitos outros filhos da madrugada que não cabem neste texto. Ficam as memórias.


(In "O Combatente da Estrela", nº. 114, de março de 2019)

9 de abril de 2019

O 25 DE ABRIL – QUANDO O JORNALISMO SAIU À RUA


No próximo dia 21 inicia-se a Páscoa para, na mesma semana, encontrarmos uma data marcante nas vidas de todos nós, mesmo daqueles que não passaram pelos satânicos tempos da ditadura.
Inolvidável para quem sofreu na pele ou no sacrifício diário de ter de penar para manter um emprego de salários miseráveis (que se lembrem os da função pública de então), de comer e calar, suportar as situações de uma neurose ao não se poder expressar livremente.
Dos jornalistas, dos comentadores, dos cronistas, os seus textos não eram publicados sem a aprovação dos censores.
Foi quase meio século de um assassino lápis azul, que obrigava muitos jornalistas a um relato insípido, de metáforas e eufemismos.
Tudo era proibido, tudo era tabu. Se havia alguns mais criativos arriscavam-se nas entrelinhas.
Era até ridículo o que não podia revelar-se. Fake news já existiam nesse tempo, ainda que muito bem dissimuladas, mormente durante a guerra colonial. Este neologismo de notícias falsas que hoje é usado para referir notícias fabricadas, passava por vezes pelo que acontecia, e como aconteciam as mortes dos combatentes das guerras nas colónias, sempre numa perspetiva de evitar maiores responsabilidades dos governantes deste país então desgraçado.
E isso não evitou que o primeiro dia do fim do império surgisse em 15 de março de 1961, em Angola, com bandos armados da UPA a destruírem fazendas e vilas e a assassinarem dois mil colonos portugueses. Foi o início de uma tragédia imensa, que abriu caminho para 14 anos de guerra. A Índia já havia caído. E era preciso defender África.
Mas dizer a verdade era assumir que no país havia descontentamento social, era pôr em causa o regime.
Recordemos um caso curioso, para fugir à censura, o que relatou o jornal República, naquela segunda-feira de 18 de março de 1974, aproveitando a derrota do F. C. Porto na sua deslocação ao Estádio de Alvalade para, de uma forma brilhante, iludir a censura prévia e comentar a revolta das Caldas da Rainha.
Sporting 2, Porto, 0. Os muitos nortenhos que no fim de semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos pela derrota. O adversário da capital, mais bem organizado e apetrechado (sobretudo bem informado de sua estratégia), contando ainda com uma assistência fiel, fez abortar os intentos dos homens do Norte. Mas, parafraseando o que em tempos dissera um astuto comandante, ‘perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra…’”.
O que é certo e verdade é que dez dias depois, em 28 de março de 1974, foi a última “Conversa em Família” de Marcelo Caetano, na RTP.
Mas, felizmente, no dia 24 de abril de 1974, às 22 horas e 55 minutos, os Emissores Associados de Lisboa transmitiam a canção “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, primeiro sinal do Movimento das Forças Armadas (MFA), confirmando que tudo corria bem e se iniciava, assim, uma nova era com o derrube do Governo e da ditadura, no dia seguinte, 25 de Abril de 1974.
Como terá sido a transição para a livre expressão? Como foi fazer jornalismo com liberdade, pela primeira vez? E poder dar gritos de repugnância pela Censura e Exame Prévio?
O que é certo é que a tiragem de jornais disparou. Mas, dado o hábito, dizem alguns jornalistas desse tempo, mormente do República, Diário de Lisboa e Jornal de Notícias, que não foi fácil, nos primeiros tempos, escrever sem a barreira da censura. Foi um tempo quase de aprendizagem e de excessos.
Mas já o primeiro texto sem censura do jornalista Fernando Correia foi escrito na cadeia de Caxias, dias antes de ser libertado. Tinha sido detido pela PIDE a 18 de abril de 1974. Como se sabe, os presos de Caxias só poucos dias depois foram libertados. O derrube do fascismo estava praticamente consumados mas os presos de Caxias, apesar de já estarem informados do êxito do golpe, permaneciam ainda encarcerados.
O mês de abril de 1974, já lá vão 45 anos, apanhou o alferes miliciano Ribeiro Cardoso longe de casa. Havia sido mobilizado para Moçambique e colocado em Lourenço Marques. Diz que nessa altura só escrevia para a família – e quanto a jornais, apenas era visita regular da delegação do Notícias da Beira. Porém, de repente, com o ar da liberdade voltou ao ativo, começando de imediato a ser correspondente anónimo (não assinava, pois, era militar…) do Diário de Lisboa. Realça que era uma “coisa” estranha mas excitante: escrevia no quartel, à mão e à pressa, e ia a correr aos CTT, onde numa operadora batia o texto no telex, com ele ao lado a “traduzir” os seus gatafunhos. Era uma sensação fantástica pressentir que dali a pouco tempo os seus textos, livres como a gaivota da canção, circulariam por Lisboa dando conta de uma realidade distante e desconhecida.
E hoje, como vai o jornalismo, nesta senda de falsas notícias e o pós-verdade, onde os verdadeiros profissionais desta nobre atividade tantas vezes se sentem defraudados pela incompreensão dos tribunais? Entre excessos e realidades. Entre o que “hoje é verdade e amanhã é mentira”.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 09-04-2019)

3 de abril de 2019

AS TASCAS


Ainda numa retrospetiva do que a inspiração me levou a ocupar espaço no meu último livro, que desenvolve a história da temática seguradora ao longo de diversas tertúlias, em várias partes do País, mormente na Covilhã, Leiria narra-as na Tasca da Ti Gracinda. (1) Ali o Benedito informa o Rosas ter casado com a maestrina das bandas dos Pousos e dos Marrazes, com a palestra iniciada no dia 3 de abril do ano da graça de 2018.
Pois é, das tabernas de outros tempos, havia cascas de tremoços e amendoins no chão. Copos de três. Eduardinho. Ginjinha. Capilé. Havia tabernas que o usavam para fazer o famoso “branco velho” que era uma mistura de vinho branco banal com esse licor ou, em alternativa, com Eduardinho e que se vendia muito logo pela manhã.
Havia peixe frito. Petingas. Jaquinzinhos. Raia. Carapaus e chicharro, com ou sem escabeche. Iscas de fígado, chouriço.
- Sai um traçado, ó puto!
“Tinha onze anos quando, nas férias comecei a servir copos de dois e copos de três, traçados, jeropigas, ginjinhas com e sem elas, bagaços, medronhos, gasosas, laranjadas e feijoadas crispalhadas, mão de vaca com grão, carapaus grelhados, iscas, etc., etc. Eu sei lá quantas coisas se vendiam na taberna do meu saudoso padrinho Rui de Turquel no Campo dos Mártires da Pátria em Lisboa”. (2)
São ainda memórias das tabernas de outros tempos, como conta o Rosas, naquele início da década de 70, bêbados, loucos e doutores eram todos do contra. E a PIDE, então já DGS, não se metia.
E, neste âmbito, no meu penúltimo livrinho, reporto-me à malfadada PIDE, por intermédio da FNAT a não deixar o amigo Rui Pavillon (3) integrar uma lista para os órgãos dirigentes do Estrela de São Pedro “por fazer parte de um grupo de indivíduos que, nas últimas eleições para a Presidência da República, fizeram propaganda a favor do candidato independente General Humberto Delgado”.
E tudo isto se contava nas tascas.
Já o João Viriato, iniciou a “Tertúlia de Lisboa”, que coordenou, no dia 30 de abril, há um ano, uma segunda-feira, na Adega da Tia Matilde, na Rua da Beneficência, em Lisboa, logo passando para a Casa da Covilhã, na Rua do Benformoso (4) para acabar, em beleza, com todos os grupos tertulianos, no dia 13 de junho de 2018, com o encerramento pelo Presidente da Direção, Manuel Vaz Rodrigues.
Pois é, há mais de vinte anos, à mesa de uma taberna que já não existe, em Coimbra, com o objetivo de proteger estes símbolos de identidade coimbrã, estudar as histórias das tabernas e conhecer um pouco mais dos intelectuais que as frequentavam, nasceu a LATA – Liga dos Amigos das Tabernas Antigas. No livro “In Illo Tempore”, de Trindade Coelho, o autor fala dos tempos que viveu em Coimbra e da vida na cidade. Fala também das tabernas. Bom, mas a LATA tem como objetivo de defesa daqueles espaços como locais de socialização e de encontro ao longo dos séculos.
As tabernas são o lugar das últimas e mais raras experiências de sociabilidade, exame crítico ou evasão.
Apagados que sejam os sinais de decadência ou de falta de higiene, quere-se que a taberna mantenha as caraterísticas portuguesas, a fim de que possa readquirir o espírito e o prestígio, a poesia, o pensamento, e a graça.
E, depois, até podem vir a caldeirada, o feijão-frade, a meia-desfeita, as canjas e os caldos verdes, o rancho, o pé de porco, o salpicão, as iscas, os escabeches, a dobrada, as migas e as sopas de pedra, as pataniscas de bacalhau e os ovos verdes, tudo regado com bom vinho.
“A Igreja sempre condenou estes pontos de encontro, chamando-lhes centros de luxúria e do demónio. E quem não perdoava às tabernas eram os escritores mais pios que, louvando o vinho, atacavam esses lugares velados e escuros onde o homem abandonado, oprimido ou infeliz, tantas e tantas vezes descarregava a sua angústia e as suas misérias e fraquezas.”
Gil Vicente deixou a maior das homenagens às tabernas e ao vinho do Porto com o Pranto da Maria Parda. Garcia de Resende, no seu Cancioneiro Geral, recolheu também curiosos apontamentos. Mas já o romântico Almeida Garrett, nas suas Viagens na Minha Terra, exprime uma certa repugnância pelas tabernas, onde tomava sempre limonadas, exaltando muito embora o vinho de Carcavelos ou do Cartaxo. E Junqueiro exclamava, heroico e musical, que neste país há ótimos bordéis e excelentes vinhos.
Do que fui passando a história seguradora desde a Antiguidade até aos dias de hoje, foi ainda pelos cafés, restaurantes, e tascas leirienses, imaginando à porta, o loureiro e o saco de água para “assustar” as moscas. Lá dentro, os banquinhos de madeira, ou corridos, as mesas, os mochos, e as pipas ainda de madeira.
E foi nesta senda que, recordando-me ainda dos tempos de meus tios maternos na Pousadinha, e de meu sogro na Covilhã, que há dias fui meter conversa com o Carlos Manuel Rente Calheiros, ainda um jovem de 60 anos, atual proprietário da Taberna do Zé Ministro, junto à Igreja de São João de Malta, na Covilhã. Está à frente deste estabelecimento, sobejamente conhecido da cidade laneira e região, numa zona de grande movimento e central da Covilhã, desde março de 1982.
Porquê, Carlos, chamar-se a Tasca do Zé Ministro?
E logo a resposta do amável proprietário: “Esta tasca foi dantes chamada a Tasca do Carrilho, que se lhe seguiu na aquisição o António Caetano, mais conhecido pelo ‘Bota Cá’. Meu pai, José Calheiros da Trindade, que anteriormente teve um estabelecimento destes na Rua do Jardim, a Santa Maria, acabou por adquirir o trespasse desta taberna, no ano de 1957, por 64 contos. Era uma pipa de massa para a altura. O pessoal que a frequentava, e trabalhava nas oficinas da Garagem de São João, ao lhes soar aos ouvidos este preço, afirmaram, “Eh! Pá! Passaram a tasca do António por 64 contos!... Deve ser algum Ministro!...”
E assim ficou o nome, até aos dias de hoje – a Tasca do Zé Ministro.
João de Jesus Nunes



(1), (2), (4) In “O Documento Antigo – Uma Outra Forma de Ver os Seguros”.
(3) In “Breve Resenha do Centro de Recreio Popular Estrela Desportiva de São Pedro”


(In "Notícias da Covilhã", de 04-04-2019)

27 de março de 2019

O SISMO DE PORTUGAL DE 1969 FOI HÁ 50 ANOS


Entre o alfa e o ómega das nossas vidas sempre houve, e haverá, acontecimentos marcantes. Os da minha geração não deixarão de recordar o susto por que todos passámos, de norte a sul do país, naquele dia 28 de fevereiro do ano da graça de 1969.
As zonas mais atingidas foram o sul de Portugal e região de Lisboa. O sismo atingiu a magnitude de 8,0 na escala de Richter e viria a ocasionar 13 mortos, na sua maioria por efeitos cardíacos.
Cada qual tem a sua história para contar como sentiu este sismo, porquanto quase todos deram conta, quase todos digo eu.
Encontrava-me a cumprir serviço militar obrigatório no Regimento de Artilharia Ligeira nº 4, em Leiria, onde tirara a especialidade e aí acabara por ser colocado após terminar o Curso de Sargentos Milicianos.
Estava de serviço de Sargento de Dia, e, como habitualmente, no sorteio das rondas a efetuar durante a noite, calhavam-me horas altas. Desta vez fui sortudo para o período da meia-noite e meia às duas e trinta da madrugada.
De regresso ao quartel, vindo da rua, sozinho, da ronda à zona de aquartelamento de uns obuses obsoletos, a cerca de um quilómetro do quartel, na antiga estrada que vai para a Marinha Grande, tentei acordar o colega que me substituía na próxima ronda a fim de lhe entregar a pistola parabellum. Ao mesmo tempo descalçava as botas e preparava-me para me meter na cama.
Eram 2 e 40 da madrugada. Num ápice sinto um ruído estranho como que de uma fortíssima ventania se tratasse, tudo a abanar e as portas guarda-vento da caserna onde nos encontrávamos bateram com grande violência umas contra as outras. Num instinto, gritei: É um tremor de terra!... Peguei nas botas e na arma e fugi, descalço, para fora da caserna. Enquanto descia as escadas de cimento do antigo convento que era o RAL 4, já alguns soldados e outros militares, uns meio vestidos, outros com cobertores nas costas, ou até em cuecas, também faziam o mesmo. Eram pouco mais de meia dúzia os primeiros a chegar à parada.
Passados os primeiros momentos do susto, e conversando com o oficial de dia, também assustado, na parada, voltámos aos aposentos de cada um, mas de imediato o comandante da unidade dava ordens para que fossem evacuados todos os militares das casernas pois que poderia haver réplicas do sismo.
Era uma sexta-feira. Os militares que podiam ir de fim de semana à hora do almoço, foram autorizados a partir de imediato para as suas terras, logo a seguir ao pequeno almoço, aí pelas 8 horas da manhã, em vez de vaguearem pela parada.
Mas eu tinha então voltado à caserna. O colega que me substituía, ainda assarapantado, sentado na cama, perguntava: Mas o que é que aconteceu?
Fiquei revoltado: “Ó meu basbaque, levanta-te e foge para a rua como os outros, não vês que há um tremor de terra!?”.
Ainda não havia telemóveis, nem sequer a existência da Internet. As chamadas telefónicas eram interurbanas, e nos correios havia muita gente a querer telefonar. O sismo havia provocado alarme e pânico entre a população, cortes nas telecomunicações e no fornecimento de energia elétrica.
Lá consegui um contacto telefónico, tardiamente, para a minha namorada, hoje a minha mulher, através duma chamada diferida nos CTT, já que ainda pouca gente possuía telefone nas suas casas. E os telegramas não conseguiam ser expedidos. Tudo era moroso. Os contactos geralmente faziam-se por carta. Longe dos tempos de hoje. Sosseguei-os e fiquei mais tranquilo. Só haviam caído umas ameias do castelo de Leiria, que se encontrava sediado a poucos metros do quartel.
E eu não podia ir de fim de semana porque, como éramos poucos, no dia seguinte já estava escalado para acompanhar alguns soldados ao Mosteiro da Batalha, para a guarda de honra ao túmulo do Soldado Desconhecido, serviço alternado mensalmente entre as duas unidades militares de Leiria – RAL 4 e RI 7.
Como atrás referi, nessa altura ainda não existiam as novas tecnologias, nem mesmo algumas que já estão ficando obsoletas, como o fax. Ainda era o tempo do papel químico e do papel parafinado, usado para tirar cópias com um duplicador, depois de nele se ter escrito – o estêncil – com que se escreviam as ordens de serviço, em substituição das fotocopiadoras, que surgiriam mais tarde. Os telemóveis estavam a décadas do seu tempo, e nem sequer sabíamos o que era um computador. Existiam as máquinas de escrever, no tempo da dactilografia, e era exatamente esse serviço de que me encarregaram de ministrar aos soldados-recrutas que para ali iam tirar a especialidade de escriturário.
Entre a bruma das memórias podemos encontrar, ao longo dos tempos, variadíssimos sismos em Portugal, uns mais graves que outros, desde a Antiguidade até aos anos mais próximos.
Refiro alguns dos principais:
- Sismo de Lisboa, no ano de 1356, com a magnitude de 8,5;
- Sismo de Lisboa, no ano de 1531, com a magnitude de 7,0 – 7,5, tendo ocasionado 30.000 mortos;
- Sismo de Lisboa, no dia 1 de novembro de 1755, às 9,30, com a magnitude de 8,7 – 9, tendo ocasionado 90.000 mortos;
- Sismo em Benavente e Salvaterra de Magos, no dia 23 de abril de 1909, às 17,05, na magnitude de 6,3, tendo ocasionado 42 mortos e 75 feridos.
Depois do sismo de 1969, felizmente só temos a lamentar o sismo dos Açores de 1980, no dia 1 de janeiro, às 15,42, na escala de 7,2, tendo ocasionado 73 mortos; e em 31 de julho de 1998, em Arraiolos, às 10,27, na escala de 4,1, sem vítimas mortais.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-03-2019)

12 de março de 2019

O UMBIGUISMO


Sendo o mês de março aquele em que vim ao mundo, e talvez o facto de eu ter nascido já no período da primavera, me leva a desprezar algum pessimismo deixado das invernias. Ou seja, mais dos tempos que passaram de muitos egocentrismos. E passa a um otimismo primaveril proveniente da adição de muitas amizades.
Esta crónica estava mais direcionada para o período carnavalesco, a época do ano de que menos gosto, mas acaba por sair já em período quaresmal, pois que nem sempre as vontades podem ser satisfeitas.
Vejamos o caráter internacionalista do povo português quando se viu embrenhado em tantas greves, com os governantes a verem-se gregos, em vez de terem um problema intricado; alguns estudantes confrontados com o ranking das escolas, se não compreendiam alguma coisa, preferiram optar por dizer que “aquilo” é chinês; e já um agricultor a consultar O Borda d’Água se referia que trabalhava como um mouro, em vez de trabalhar de manhã à noite.
Duma exposição inédita em Nova Iorque explorando o design moderno da América Latina, em vez de uma invenção moderna alguém disse que era uma americanice. Se se é expressivo no falar depressa, logo se lembram de dizer que fala como um espanhol.
Aquela família que tem uma vivenda, uma casa de férias e um Mercedes, em vez de viver com luxo, vive à grande e à francesa. Mas aquele que se vestiu de fato e gravata para uma apresentação, a fim de causar boa impressão, é apelidado de que é só para inglês ver.
Nas feiras e mercados, ao regatear-se um preço, pode ser-se apelidado de que é pior que um cigano. Mas também os há de mãos fechadas, agarrados ao dinheiro, passando bem no apelido de que é pior que um judeu. Pior, pior, é quando se vê alguém a divertir demasiado pois que na mente de alguns logo surge a ideia de que está a gozar que nem um preto.
Já lá vai o tempo, quando se via alguém com um fato claro vestido, alguns ficavam a murmurar entre si: parece um brasileiro. Uma loura alta e bonita? Nalguns pensantes, logo a ideia: parece uma autêntica sueca. Poderá estar na hora dum café, um café curtinho, que outros preferem chamar-lhe uma italiana.
Nos tempos que correm, já não se vêm muito os horários a serem cumpridos, ou seja, aquela pontualidade britânica.
Vejamos tão só, por exemplo, um militar bem fardado, que logo surge um olhar atento a dizer que parece um soldado alemão. E se uma máquina funciona bem? Resposta na ponta da língua: É como um relógio suíço.
E quando alguma coisa corre mal? Diz-se que é “à portuguesa”. Se Fernando Pessa ainda fosse vivo, diria: E esta, hein!
Tendo em conta que umbiguismo é uma criação da forma vernácula umbigo, no sentido de dar demasiada importância para si próprio, egoísta, Pedro Mexia referiu, há uns anos, que essa “cicatriz abdominal, saliente ou reentrante, no ponto em que o cordão umbilical se prendia ao  indivíduo durante a sua vida fetal, é a única prova documental dessa ideia fascinante mas incompreensível de termos vivido meses dentro de alguém. É um elemento anatómico sem utilidade nenhuma, que só existe como resquício, sejam umbigos bem cortados, em orifício, ou umbigos saídos”.
Desde que nos anos 40 Álvaro Cunhal acusou José Régio de escrever para o umbigo que essa tem sido a ofensa máxima: umbiguista. Mas eu não estou convencido de que a metáfora seja a mais adequada pois há coisas mais íntimas que o umbigo, que, sendo este uma cicatriz, a gente em geral não gosta de o mostrar. Pois bem, o umbigo enche-se de cotão, que é desagradável.
Então, aí está, o umbiguista não está necessariamente a exibir o seu umbigo, mas a mostrar o lixo acumulado. E lá tem razão Pedro Mexia em dizer que “o umbiguista é aquele que pretende mostrar coisas pessoais e acaba a mostrar coisas desagradáveis”.
Bom, na próxima semana, dia 20 de março, entra a primavera, e já se vão vendo umas rapariguinhas de ventre elástico mostrando o umbigo, num doce exibicionismo. Mas os demais umbigos, literais e metafóricos, são um desafio, um desatino, um desaforo.
Um dos meus favoritos escritores e cronistas, o saudoso Eduardo Prado Coelho, falava há 15 anos sobre “O umbigo dos sonhos”: “As calças femininas descem vertiginosamente abaixo da cintura, deixando por vezes entrever uma peça mais íntima de roupa. Se se trata de figuras de grande elegância, o efeito da beleza é incontestável. Nos casos mais prudentes, há uma zona do corpo que ora aparece coberta, ora se descobre ousadamente”.
Sempre pensei que com os rigores do inverno se fizessem restringir as peças de vestuário, como as camisolas, que deixam ver o umbigo, mas nos dias que correm, a transgressão é ocultá-lo. O umbigo venceu o inverno. Mas por que falar do inverno se estamos a entrar na primavera?
Como referi, este texto era destinado para a época carnavalesca, que findou há poucos dias, e o tema de todos os umbigos não se pode descrever. Há o umbigo simples, sem outros atavios, convicto de que por si só suscitará os olhares, dependendo da beleza da personagem. É um umbigo sem problemas nem contradições que escapou da neurose, que evita a psicose, que não tem quaisquer marcas maníaco-depressivas. Há um segundo tipo de umbigo que se redobra num discreto “piercing”. Aqui, o corpo entrega-se aos sinais, começa a escrever-se a si próprio. O “piercing” é o começo de um processo de artificialização. Uma variação do “piercing” é a tatuagem. Estas correspondem a uma panóplia de motivos, tudo servindo para criar o que outrora era um motivo de atração e hoje é uma banalidade, que só ganha algum relevo por contígua ou envolvente do umbigo.
Bem dizia Freud, o umbigo é o lugar onde deixamos de ver para passarmos para o reverso da visão: inscrição corporal do inconsciente, ali onde a noite é cada vez mais noite e o dia cada vez menos dia.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 12-03-2019)

28 de fevereiro de 2019

CONSELHO CENTRAL DA GUARDA QUATRO CONFERÊNCIAS CENTENÁRIAS INTEGRAM O CONSELHO DE ZONA DA COVILHÃ


Realizou-se no dia 2 de fevereiro (sábado), na Covilhã, a Assembleia Geral deste Conselho de Zona, com os Vicentinos que na mesma participaram a proporcionar um diálogo muito interessante face aos temas apresentados.
Efetivamente, foram pontos de discussão e reflexão sobre a atuação que se tem vindo a desenvolver face aos muitos problemas na temática da Caridade com a assistência ao cada vez maior número de casos que chegam a todas as Conferências.
Estiveram representadas todas as Conferências deste Conselho de Zona: Nossa Senhora da Conceição, Santa Maria, São Pedro, São Martinho e S. José (Penedos Altos), Canhoso, Tortosendo e Santo André, da Boidobra.
As dificuldades emergem à porta de muitos necessitados, cada vez mais na sociedade de hoje, na vertente de inúmeros casos, que outrora não existiam, mas que são provenientes dos novos tempos, e que para cada caso foram dados exemplos de atuação no âmbito do espírito da Caridade.
As dificuldades em conseguir reunir maior número de Vicentinos, muitos deles já com muitos anos nas Conferências, onde os jovens têm dificuldade em se afirmar, foi também uma preocupação sentida.
As várias Conferências Vicentinas do Conselho de Zona da Covilhã desdobram-se na assistência em várias locais, muitos deles bem distantes do local da sua Conferência. E há os casos de estudantes universitários, oriundos das antigas Colónias, a estudar na Universidade da Beira Interior, bem como alguns de pobreza envergonhada.
Surgiu em 2018 a novel Conferência de Santo André, da Boidobra, cujos órgãos tomaram posse em novembro. Embora estejam com grande entusiasmo, encontram-se a dar os primeiros passos, o que é uma esperança para poderem vir a tomar conta duma zona bastante carenciada.
De salientar que, na Diocese da Guarda, é no Conselho de Zona da Covilhã que se mantêm ainda em atividade, cada vez mais envolvidas nas suas variadas tarefas em prol dos muitos necessitados que chegam com frequência a cada Conferência, as já centenárias Conferências Vicentinas, a saber:
- Conferência de Santa Maria Maior, na Covilhã, fundada em 12 de novembro de 1899;
- Conferência de Nossa Senhora da Conceição, na Covilhã, fundada em 19 de março de 1903;
- Conferência de São Pedro, na Covilhã, fundada em 29 de junho de 1905;
- Conferência de São Martinho, da Covilhã, fundada em 19 de fevereiro de 1911.
O Conselho de Zona da Covilhã, então na altura designado Conselho Particular, foi fundado em 03 de dezembro de 1910. Este Conselho no início ia encontrando dificuldades na coordenação das Conferências a que a ele estavam ligadas porquanto tinham poucos membros ativos para tão grande ação. Foi organizado em 25 de fevereiro de 1921, dependendo do Conselho Central do Porto, pelo que nessa altura o Conselho da Covilhã, por sugestão do Prelado, reuniu as Conferências da Covilhã numa só, com a designação de Conferência da Covilhã. E, na Guarda, a Conferência da Guarda. Mas tal não deu resultado e, assim, a partir de 1923 voltaram a passar a funcionar separadamente.
A Conferência mais antiga da Covilhã – Santa Maria Maior, fundada em 1899 – deu origem à criação do Lar de São José (na altura designado Albergue dos Pobres), fundado em 1900. Dois anos após a sua abertura, em 10 de junho de 1902, conseguiu esta Conferência a vinda das Irmãzinhas dos Pobres para cuidar do Albergue. Há muitos anos que partiram.
João de Jesus Nunes

(In "Boletim Português da Sociedade de São Vicente de Paulo, Ano 113, Nº. 2, Fevereiro 2019)




27 de fevereiro de 2019

UM EMPRESÁRIO DE SUCESSO


Tarde de segunda-feira, 21 de janeiro. No Café do Celso há amenas conversas. Os petiscos, para todos os gostos, vão-se distribuindo pelas mesas. Conforme os apetites. Ao lado do José Augusto está uma mesa com um simpático senhor, também com o seu petisco, que, a pouco e pouco se vai integrando no nosso diálogo.
Diz-nos então que aos onze anos começou a amassar pão à mão. Os filhos não quiseram continuar os estudos e preferiram seguir as pisadas do pai, no intuito de ganharem dinheiro por conta própria. Tinham grande ambição. Também muito dinamismo. Como o pai.
Desconhecíamos aquele senhor, ainda que sejamos covilhanenses de gema. Mas logo o Celso nos lembra que se trata do senhor António Dias Santos, ilustre empresário de panificação.
E o entusiasmo do Sr. António em contar a sua história raia-lhe os olhos. Dá gosto ouvi-lo. Setenta e seis anos já conta no seu tempo de vida. Natural de S. Vicente da Beira.
Chegou a ter cinco patrões num mês. Face à sua garra, mudou facilmente de emprego, no âmbito da mesma atividade – a panificação. Mas também trabalhou de sol a sol, in illo tempore.
Em S. Vicente da Beira acaba por ficar quase sozinho a trabalhar, aos 15 anos, somente com o patrão e um aprendiz. Já toma conta da padaria.
Dali vem para a Covilhã, exatamente no dia em que completa 18 anos de idade. Chega ao Manuel dos vinhos que se situavam por detrás das antigas instalações da PSP, a S. Silvestre, mas aqui para trabalhar na construção civil a fim de se preparar a abertura daquela casa. Foram dois meses.
Conhecedor das suas excelentes tarefas na panificação, o Sr. António Tavares chama-o para a firma Tavares & Matias (padaria) durante um ano, então sediada em S. Martinho, perto do Oriental. Surge-lhe, entretanto, uma formação em S. Pedro de Sintra, a cargo do Estado. António Dias Santos diz-nos que “vim de lá um homem”.
Mas a sua vontade em fazer mais e mais, leva-o a empregar-se na padaria de João da Fonseca Mimoso (Marroca), onde está durante 22 anos, como encarregado de fabrico.
É presidente do Sindicato de Panificação durante 12 anos, sendo que, no dia 25 de Abril de 1974 está a negociar um Contrato de Trabalho no então Ministério das Corporações e Indústria.
Pensa então em trabalhar de conta própria, seguindo a vida empresarial. Em 1982 adquire a Padaria Abreu. O Sr. António Dias ao tomar esta decisão é devido ao facto de os filhos terem chumbado nos estudos e quererem ir estudar à noite para irem trabalhar. O pai faz-lhes a vontade. O trabalho e estudo deles acaba porque passam a trabalhar com o pai, na empresa que, entretanto, criam, com muito trabalho e alma, sempre a progredir.
Nesta altura, possui a Padaria Dias & Pereira, Lda, no Parque Industrial do Tortosendo, sendo constituída por cinco sócios, todos familiares (O Sr. Dias, a esposa e os três filhos) e tem já 40 trabalhadores.
Participam em vários programas televisivos (TVI, CMTV, SIC e RTP), por via de terem ganho vários prémios, conforme a comunicação social, incluindo a regional, deu conta.
Ganham os seguintes prémios nacionais do “Melhor Pão Natural de Portugal”:
- 2017 – 1.º lugar: Regueifa Tradicional da Beira Baixa;
- 2018 – 1.º lugar: Centeio Natural Crocante.
Na categoria de “O Melhor Bolo-Rei de Portugal” ganham em 2018, o 1.º lugar, com o “Bolo Rainha”, Medalha de Ouro.
Também ganham prémios com “O Bolo Rei” (normal) e “Bolo-Rei Escangalhado”.
Um empresário de sucesso, como exemplo para os tempos que correm.
António Dias Santos pensa abrir uma nova casa na Covilhã.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-02-2019)

13 de fevereiro de 2019

CORRUPTOMANIA

Ainda não existe uma definição para a palavra em título mas o sentido é intuitivo. Pensara em não me referir mais a este assunto depois de sobre ele me ter debruçado por outras ocasiões (2014 e 2018). Mas o facto de surgirem no tempo das nossas vidas tantos casos, um sopro de vontade atira-me para o foco de que somos confrontados no dia a dia.
A diversidade de casos é uma peculiaridade dos portugueses. O dos elementos que constituíram aquela tropa-fandanga de Tancos ainda continua vivo na mente de todos nós. Como tantos outros. A saga das meias verdades e das ocultações não mais teve fim. O logro da descoberta das armas entrará para a antologia das operações mais perigosas do nosso Exército em defesa da soberania nacional deste século. O prestígio desta secular instituição ficou abalado.
Deambulando por aí fora, foi o encontro de oportunidades na esperteza dos iluminados pela ambição do enriquecimento fácil. Na falácia encontrada em favoráveis ocasiões de dar a volta ao texto. Que isto de solidariedade, obras de misericórdia, sentir o sofrimento alheio também é ocasião de, ao invés de meter a mão na massa, se pode fazer com que a massa chegue à mão. E aí tivemos os incêndios, com a utilização fraudulenta dos fundos para a reconstrução de Pedrógão Grande. Imaginar que tantas pessoas que estavam a enfrentar a maior tragédia portuguesa de décadas, tendo motivado um movimento de solidariedade sem precedentes por todo o país, viram rapidamente transformar o terrível sofrimento na mais repugnante ganância. É duma revolta imensa.
É indubitável que a partidocracia destrói a democracia, conforme refere o Presidente da Frente Cívica, Paulo de Morais. “O principal objetivo dos maiores partidos portugueses é manterem-se na esfera do poder, partilhar negócios do Estado com os grupos económicos de que são instrumento e garantir emprego aos muitos milhares de apaniguados, os militantes partidários e seus familiares”. Os dirigentes partidários distribuem benesses pelas empresas que financiam e para as quais vão mais tarde trabalhar. Além de negócios, os partidos garantem a sobrevivência económica dos seus apoiantes através da distribuição de milhares de empregos. É na administração central. É nas autarquias. É nas empresas municipais e institutos públicos. Transformaram-se assim na maior agência de emprego do país. E, depois, é ver nos canais de televisão comentadores facciosos, a censurar todo o discurso contraditório.
E temos a Caixa Geral de Depósitos (CGD), um dos temas da atualidade. Os seus gestores aprovaram, entre 2000 e 2015, financiamentos de centenas de milhões de euros apesar dos riscos identificados pelos diretores das operações. O diagnóstico foi feito pela consultora EY na auditoria independente à gestão da CGD. Identificou perdas de mais de mil milhões de euros para as contas desta instituição, só até 2015. Em causa estão de facto decisões tomadas contra o parecer técnico da Direção Global de Risco (DGR) da CGD, reveladas pela auditoria da EY, cuja versão preliminar foi divulgada pela ex-deputada do Bloco de Esquerda, Joana Amaral Dias, na CMTV, citada por vários órgãos da comunicação social. Os financiamentos de elevados montantes destacam-se nas perdas relacionadas com a Artlant, Quinta do Lago e Birchview, para além de problemas com a concessão de empréstimos à Investifino, Finpro, sociedade de investimento de Américo Amorim e Banif, bem como às sociedades de Joe Berardo, entre a Fundação Berardo e a Metalgest. Neste grupo de grandes devedores, os financiamentos ascenderam a mil milhões de euros, com perdas de 580 milhões de euros.
Vários crimes já estarão prescritos. Cada ano de silenciamento contribuiu para que mais atos de gestão danosa também prescrevessem, ficando de fora da alçada da justiça. De tal forma que este país mais parece uma república das bananas.
A CGD, banco que tem a confiança de um número elevado de portugueses, mormente os funcionários públicos, foi gerida sem qualquer noção de honra. E quem teve nas mãos o seu destino revelou uma total e indigna ausência de responsabilidade.
Neste estado mórbido, quem e quantos irão responder civil e criminalmente pela ruína da Caixa Geral de Depósitos, onde os portugueses tiveram de enterrar cinco mil milhões de euros dos seus sangrentos impostos?
Ficamos por aqui.
E, para que tudo não seja um mar turbulento, temos a entronizada Cristina Ferreira, mais parecendo uma Marilyn Monroe, que, iniciada na TVI se rendeu finalmente ao namoro da SIC, por via dum contrato milionário, cujo nome já se transformou numa marca, mas ainda longe dum Cristiano Ronaldo. Até o Presidente da República lhe telefonou, entrando em direto na estreia do seu programam na SIC, para lhe desejar felicidades, provocando uma onda de indignação, que a apresentadora não compreendeu por ter visto o gesto como um “miminho”.


(In "Notícias da Covilhã", de 14-02-2019)