27 de setembro de 2019

ESQUECIMENTO NÃO É UMA PALAVRA BONITA

Nesta terceira publicação d’O Combatente da Estrela, do ano da graça de 2019, que corresponde ao número 116; no regresso generalizado das férias, passados os pontos nevrálgicos da greve dos motoristas de matérias perigosas, e ainda a manterem-se alguns incêndios a devastar este País, mas já com os estudantes que vão entrar pela primeira vez para as universidades a verem confirmadas  muitas das entradas a contento das suas opções, na expetativa das eleições para as legislativas já à porta; deixamos ainda memória do bom comportamento dos nossos atletas nas provas internacionais a ganharem medalhas que vão do ouro e prata ao bronze, e  também a seleção nacional de todos nós a transmitir-nos alegria e esperança no desfraldar garbosamente da bandeira nacional.
Este órgão trimestral do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes continua a chegar às mãos de muitos leitores e é patente, também em muitos, o desejo que chegue às suas caixas de correio, tornando-se incómoda uma reclamação de não recebimento.
Continua este Núcleo com as suas atividades programadas e a Sede, mesmo neste período de veraneio, a ter visitas de associados, numa exemplaridade para outras instituições ou coletividades que se salvam geralmente com a existência do bar, para alguém poder marcar o ponto.
Os tempos já não são como os de outrora, em que o associativismo marcava uma maior presença de associados, então mercê da falta de oportunidades que hoje existem já a partir de casa, mas sente-se ainda, apesar dos meios da modernidade onde as vias tecnológicas marcam a sua incondicional diferença, que o contacto humano gera a necessidade da sobrevivência.
As memórias dos antigos combatentes continuam ainda bem vivas nas conversas e na escrita, assim como as lamentações por quem sofreu na pele e no espírito os danos resultantes duma guerra para onde muitos foram lançados sem vontade alguma da sua participação.
E é nestes Núcleos da Liga dos Combatentes que reconhecemos como a generalidade da juventude das gerações de 40 a 60 do pretérito século foram atirados para as feras.
Então vamos entrar na falta de lembrança, de memória, omissão, falha, lapso, desprezo, perda de sensibilidade, abandono, adormecimento, indiferença, olvido, ou o que queiram atribuir ao ato ou efeito de esquecer, que dá força ao título deste editorial.
Muito bem a propósito, o Presidente da Liga dos Combatentes, tenente-general Joaquim Chito Rodrigues lamentou e constatou o facto de ninguém falar sobre os problemas dos antigos combatentes na pré-campanha para as legislativas de 6 de outubro. Ele mesmo chamou à atenção para a necessidade de o Governo publicar o Estatuto dos Antigos Combatentes. Este documento chegou a ter uma versão inicial nesta legislatura, mas acabou por ser novamente adiado. E referiu: “Queremos um estatuto que dignifique o combatente e que reconheça aos antigos combatentes o direito a apoios económicos e sociais”.
O que é certo é que na recolha de opiniões junto dos combatentes foi reconhecido por todos os partidos que era necessário incluir medidas nesse estatuto. O próprio Presidente da República tem afirmado a necessidade de que o Governo publique o Estatuto dos Antigos Combatentes.
Mas também é certo e verdade que o esquecimento é uma palavra negra para os antigos combatentes, fartos de esperar.
E por que não lembrar na descolonização todos quantos foram soldados guineenses e doutras colónias, que serviram Portugal de 61 a 74, deixados para trás após o 25 de Abril, vindo a ser executados em praça pública?
Enfim, a história está feita de muitas outras terríveis estórias, mas não completa, e dos que regressaram à Metrópole de então, muitos com mazelas incuráveis, o esquecimento não é palavra vã. Ele existe e há que fazer com que seja eliminado na salvaguarda dos interesses dos Antigos Combatentes.

(In "O Combatente da Estrela" , n.º 116, de outubro de 2019)

18 de setembro de 2019

LOUCOS NA CASA COMUM


Se há alguma coisa que me leva à repugnância são as passagens da história dos escravos de todo o mundo que ainda hoje, em pleno século XXI, persiste nalgumas partes incivilizadas do planeta.

No Código Negro francês, promulgado por Luís XIV em 1685, no seu artigo 44 declarava os negros como móveis para efeitos de seguro, de tal forma que se a escrava engravidasse não era crime considerado de ofensa à pessoa, mas sim à propriedade, e os donos das escravas começavam a entrar em acordos com os imputados autores, deles recebendo uma soma que os absolvia das penas. Eram frequentes as compras de escravas grávidas por uma razão algo insólita: o adquirente comprava previsivelmente dois escravos pelo preço de um!

No século I d. C., o louco Nero (Nero Cláudio César Augusto Germânico, nascido com o nome Lúcio Domício Enobarbo), jovem imperador, teve o seu reinado associado à tirania e à extravagância. Recordado ainda por uma série de execuções sistemáticas, incluindo a da sua própria mãe, e sobretudo pela crença generalizada de que, enquanto Roma ardia, ele estaria compondo com a sua lira, além de ser um implacável perseguidor dos cristãos.

Recuando para o século II a.C., podemos, ao acaso, focarmos Delenda est Carthago (“Cartago deve ser destruída”), com Catão, o Velho, a inflamar seus compatriotas sobre a necessidade de iniciar o quanto antes a Terceira Guerra Púnica e a destruição total de Cartago. Naquela época, durante as sessões do Senado e fora delas, repetia no final aquela frase que o imortalizou para a história.

A nossa Casa Comum persiste, ainda hoje, em gravitar de muitos loucos que pretendem incutir a submissão a quem não obedecer aos seus propósitos de destruição.

Estão na vanguarda Donald Trump e Jair Bolsonaro. Este tem permitido a destruição da floresta Amazónia, a qual já arde há muitos dias. Bolsonaro bloqueou relevantes verbas para a proteção e conservação do maior pulmão do mundo. O Governo brasileiro tem atacado, sem precedentes, os povos indígenas da selva, com o fim de os destruir e lhes saquear as terras. As queimadas tiveram um acréscimo de 82% este ano! Estima-se em 20% o oxigénio que de lá vem.

Com um demente no poder do Brasil, se não meterem Bolsonaro numa camisa-de-forças, não sabemos até onde isto vai parar! Nos 130 anos de República, o Brasil já teve toda a espécie de presidentes. Mas Jair Bolsonaro está batendo todos os recordes do pior presidente de sempre. É o ódio ou desprezo por índios, gays, transexuais, feministas, crianças, professores, estudantes, cientistas, pesquisadores, artistas, jornalistas, pacifistas, imigrantes, deficientes mentais, dependentes químicos, presidiários, desaparecidos políticos, ambientalistas, veganos e pessoas oriundas do Nordeste do Brasil. Vive manifestando o seu apreço e a sua admiração por torturadores da ditadura militar, polícias corruptos que dominam e extorquem os habitantes das favelas, assassinos profissionais, fabricantes de armas, devastadores do ambiente, garimpeiros ilegais em terras indígenas.

Bolsonaro e Macron trocam insultos enquanto a Amazónia arde. Jair Bolsonaro chegou ao ponto de, no G7, ter feito comentários “desrespeitosos” sobre a idade da primeira-dama francesa, Brigitte, que é 24 anos mais velha que o marido.

Mas já antes bradava por terras de Cristóvão Colombo outro louco – Donald Trump, a brincar com a humanidade, rasgando acordos internacionais, como o acordo nuclear com a Rússia sobre a proibição de mísseis nucleares de curto e médio alcance, assinado em 1987; saída do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas; anunciou ainda a retirada dos Estados Unidos do Tratado Internacional de Comércio de Armas com a ONU, importante acordo, assinado por 130 países em 2013.

São alguns dos loucos da Casa Comum, colocados nos pedestais por outros insensatos, talvez loucos de mudança, sem medir as consequências de um tal ato de loucura na altura das suas decisões, democráticas ou não.


(In "Notícias da Covilhã", de 19-09-2019)

11 de setembro de 2019

NÃO BELISQUEM AS FÉRIAS


Escrevo esta crónica no último dia de agosto porquanto decidi continuar “a andar por aí”, e, por isso, numa “aliança” com amigos, surgiu um prolongamento de férias.

Faço assim uma paragem na arrumação do arquivo do meu escritório, onde milhares de recortes de jornais, apontamentos, recolhas antigas de documentação, tudo acumulado ao longo de mais de quatro décadas (mas arrumadinho…) levam o destino fatal, selecionando somente algumas preciosidades. A fatalidade do deitar fora vai, entretanto, servir de pequeno contributo para o Banco Alimentar, na sua recolha de papel.

Nesta de arrumações, a casualidade trouxe-me uma notícia da Visão, de 20.01.2017, que achei interessante: “A comida picante pode ser o segredo para uma vida saudável e mais longa”. Publicada numa rede social, logo aí encontrei amigos que, tal como eu, adoram este paladar e, sem ser necessário ler os papelinhos que os muitos “astrólogos” nos vão colocando nos para-brisas dos automóveis, oferecendo os seus serviços milagrosos, ficámos na esperança de andar por aí mais uns anitos…

Se os pardais já se sentem incomodados pela dificuldade em encontrar onde debicar, pelo norte, centro e sul, os javalis devastam campos e culturas. São notícias que, de certo modo nos vão atormentando, mesmo quem viaja.

Mas o que continua a chegar todos os dias aos vários meios de comunicação social, são as crises sociais, políticas e humanas.

Não faltam os sobejados disparates dos líderes americano e brasileiro para termos, como europeus, que gramar as tolices do novo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, com as suas mentiras até ao golpe final – aconteceu a 29 de agosto, com a anunciada suspensão do Parlamento inglês entre 10 de setembro e 14 de outubro, “nesta manifestação radical de como referendos com perguntas simples para questões complexas abrem o caminho a que líderes sem escrúpulos consigam levar a sua avante, de mentira em mentira, até à entorse democrática final”.

Efetivamente, foi no dia 23 de junho de 2016 que os eleitores do Reino Unido foram às urnas para responder à seguinte pergunta: “Deverá o Reino Unido permanecer como membro da União Europeia, ou deixar a União Europeia?”. As respostas possíveis eram “permanecer como membro da União Europeia” e “deixar a União Europeia”. Dos cerca de 46 milhões de eleitores, 72,2% foram votar; 51,9% dos votos foram na segunda opção. Desde então, a União Europeia entrou no “Brexit”.

Conforme Rui Tavares refere no “Público”, “esta johnsoniana suspensão do parlamento para forçar um ‘Brexit’ sem acordo é a mesma que fazer batota para ultrapassar a linha do golo”. É que Boris pôs a rainha a vandalizar a democracia com a decisão do primeiro-ministro britânico de suspender o Parlamento até à véspera do “Brexit” – para impedir a democracia parlamentar de funcionar. No ocaso do reinado de Isabel II é envolvida numa golpada institucional sem moral nem ética.

Isto faz-me lembrar, recuando para o ano 2008, em que no dia 19 de novembro, no tempo de el-rei D. Sócrates I de Portugal, a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite foi longe na ironia de querer explicar por que falham os governos, dizendo que mais vale suspender por uns meses a democracia para se poder fazer todas as reformas necessárias e só depois, então, repô.la. Discursava, como convidada, na Câmara de Comércio Luso-Americana, em Lisboa.

E, com o GPS das minhas memórias, temos o que vai pelo nosso retângulo à beira-mar plantado, com as eleições a aproximarem-se a passos largos.

Do insulto “geringonça”, saído das palavras inseridas no “Público” por Vasco Pulido Valente e aproveitadas no Parlamento por Paulo Portas, paradoxalmente iria transformar-se numa palavra acarinhada pelo país. Os medos e receios não se tornaram realidade, ficando apenas para assombrar os partidos de direita. Quatro anos depois, os portugueses, e não só, fazem um balanço positivo.

E porque tenho que ainda dar umas voltas, termino com uma homenagem para o povo timorense, nas comemorações dos 20 anos do referendo que lhe proporcionou sair das garras da Indonésia e ganhar a independência do seu país.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11-09-2019)

30 de agosto de 2019

TEORIA DAS PROBABILIDADES


Todos já ouvimos falar nos seguros de vida, nos planos de previdência, e num mundo ligado à proteção das pessoas e bens, tendo uma seguradora adotado o bonito slogan: “Pela Proteção dos Valores da Vida”.
Muitos de nós fomos obrigados a ter de efetuar contratos de seguro de vida no âmbito dos empréstimos à habitação, e não só, pelas entidades bancárias.
E como a morte está certa mas não se sabe quanto ela acontece, digamos mais concretamente a morte natural, não falando já na motivada por acidente, assim surgiu a necessidade de salvaguardar compromissos assumidos e a proteção de pessoas dependentes, minimizando os efeitos negativos da falta das que eram a alavanca ou suporte da vida familiar ou empresarial.
E é nesta vertente de risco puro, colocando de parte a que se reporta à constituição de um   pecúlio para o futuro, que mais se faz sentir um plano de previdência deste teor.
Pois bem, sobre parte deste assunto já me referi em maio passado sob o tema “A Proteção das Pessoas e Bens é Ancestral”, salientando que a intenção de proteger as mesmas do revés das suas vidas já vem da Antiguidade, podendo-se mencionar o IV milénio a.C., na Mesopotâmia.
Não vou aqui historiar vários casos porque haveria pano para mangas, mas tão só referir que tudo indica que no ano 582 a. C. houve um caso equivalente ao estabelecimento de uma pensão vitalícia. Quem se quiser dar ao trabalho de, na Bíblia, analisar uns versículos do 2.º Livro dos Reis, poderá verificar já a preocupação existente com o futuro das pessoas desamparadas.
Para que pudesse surgir o preço de um seguro (prémio) o mais justo possível para os tempos, os atuários tiveram que se socorrer da parte científica baseada em cálculos de probabilidades que vieram surgindo, ao longo dos séculos, por eminentes matemáticos.
Em quatro extenuantes anos de pesquisas que deram lugar à obra “O Documento Antigo – Uma Outra Forma de Ver os Seguros”, podemos então verificar que o cálculo das probabilidades, depois de convertido em teoria, foi uma das mais importantes descobertas na história das matemáticas, tendo tido uma significativa influência em muitos domínios.
Iniciado em meados do século XVI, o processo que iria conduzir à teoria das probabilidades continuou a desenvolver-se até à atualidade.
Segundo Lorraine Daston, muitos matemáticos argumentam que esta teoria só atingiu o seu estatuto pleno de ramo autónomo das matemáticas em 1933. No entanto, mesmo depois daquela data, continuaram a registar-se progressos no campo da matemática das probabilidades.
Nos primeiros tempos o cálculo das probabilidades foi inspirado exclusivamente pelos jogos de azar, mas as suas aplicações foram-se multiplicando, salientando-se a sua decisiva influência na modernização do seguro a partir do início do século XVIII.
Muitas foram as definições de probabilidades ao longo dos tempos, à medida que os conceitos e as técnicas foram evoluindo.
Seria interessante explanar aqui os vários cérebros que contribuíram em grande escala para a ciência das matemáticas mas tal é impossível. Assim, apenas alguns deles:
Pierre Léon Boutroux adotou a seguinte definição para a expressão matemática da probabilidade: “entende-se por probabilidade de um acontecimento a relação entre o número de casos favoráveis e o número total de casos possíveis”.
Pierre-Simon Laplace em 1812, à luz dos conhecimentos da altura referiu que “em experiências aleatórias com um espaço de resultados finito, de uma dada dimensão, em que todos os acontecimentos elementares são igualmente prováveis e incompatíveis e, se alguns desses acontecimentos são favoráveis à ocorrência de um determinado acontecimento, então a probabilidade de realização desse acontecimento é dada pelo quociente entre o número de casos favoráveis à ocorrência do acontecimento e o número de casos possíveis dessa experiência aleatória”.
Siméon-Denis Poisson surge com a definição: “a probabilidade de um acontecimento é a razão que temos de acreditar que ele terá lugar, ou que teve lugar”.
De facto, as probabilidades, que até cerca de 1750 foram inspiradas apenas pelos jogos de azar, acabaram depois por ter muitas aplicações, uma das quais, bastante relevante, foi a do seu emprego aos casos de justiça.
Lorraine Daston considera que “enquanto a probabilidade dos testemunhos teve claros antecedentes nos critérios judiciais aplicados nos tribunais, a probabilidade dos julgamentos foi uma aplicação sem precedentes na jurisprudência”.
Voltaire (pseudónimo de François-Marie Arouet), num ensaio sobre as probabilidades em caso de justiça, publicado em 1772, afirmou: “quase toda a vida humana gira sobre probabilidades”.
No que toca aos Gregos, apesar da enorme importância que tiveram na aritmética, Tales (624 – 546), Pitágoras (582 – 587), Aristóteles (364 – 322) e Arquimedes (287 – 212), a sua contribuição no domínio da análise combinatória passou bastante despercebida.
Foi sobretudo através dos Romanos que se deu conta da contribuição grega.
Pode considerar-se que as três datas que mais marcaram o processo de criação da teoria das probabilidades foram 1654, 1657 e 1713, respeitando as duas primeiras à criação dos fundamentos daquela teoria, por Pascal, Fermat e Huygens, enquanto a terceira assinala a formalização da própria teoria, com a publicação da obra de J. Bernoulli.
E vou terminar com a enumeração de alguns dos cientistas que deram lugar a esta teoria das probabilidades: Pierre de Montmort, Nicolaus (I) Bernoulli, Abraham de Moivre, Edmond Halley (com a sua Tábua de Halley, divulgada em 1693, considerada a origem da ciência atuarial).
Boas Férias!


(In "O Olhanense", de 01-09-2019)

14 de agosto de 2019

NÓS E OS INGLESES


Neste período da silly season, com o verão convidativo para um descanso, uma oportunidade de partilhar com amigos ou familiares momentos de distração, traz-nos também, por vezes, falta de alguma inspiração.
As televisões secam-nos com repetições de notícias de incêndios, aqueles casos de violência doméstica, e outros fastidiosos acontecimentos.
Os jornais são uma fonte abundante de informação. Os bons jornais, onde radicam homens da sapiência, deleitam-nos com a sua opinião emanada da história real dos acontecimentos, mas também como pensadores. Quando assim acontece, é um fascínio.
E é ainda nos regionais onde vamos encontrar a particularidade do meio que a todos envolve, na proximidade de se poder fazer sentir o bem ou mal-estar das nossas vidas.
Já a notícia sensacionalista é verberada num ou outro jornal, que acaba por ser sobejamente conhecido, ainda que muitas vezes a própria novidade só se tenha dela conhecimento por via desse órgão; no entanto surge carregada de nuvens de negativismo.
Desde imemoriais tempos tivemos ligação com os ingleses, nos bons e maus momentos. São conhecidas as expressões: “Pontualidade britânica” , “Sair à inglesa” (que, deste costume inglês, daria mais tarde lugar à expressão “Sair à francesa”), ou “Para inglês ver”
O caso do “Brexit”, com o desentendimento entre a União Europeia e Theresa May, e agora o novo líder britânico, Boris Johnson, ocupam grande espaço nos telejornais e nas páginas dos diários.
Os ventos sopram forte por este planeta fora, e nós, europeus, vemo-nos também numa miragem de outros ventos agitados, como este.
Em 23 de julho, a comunicação social noticiava que Portugal e o Reino Unido celebraram três acordos para a ciência, na data da comemoração dos 650 anos da aliança luso-britânica.
Durante esta aliança com mais de seis séculos, Portugal e Inglaterra estiveram lado a lado nos bons momentos, mas também em situações antagónicas.
Recordemos uma pequena viagem pelo passado das relações luso-britânicas, já que “nenhum país estrangeiro não lusófono teve tanta relevância para a História de Portugal como o Reino Unido e os seus antecessores Grã-Bretanha e Inglaterra – três maneiras de designar, na parte que nos respeita, a mesma realidade”.
Em 1147, guerreiros ingleses a caminho da Palestina, na II Cruzada, ajudaram D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa aos mouros. Em 1189, cruzados ingleses também ajudaram D. Sancho I a conquistar Silves aos mouros. Em 1308, Eduardo VII, da Inglaterra, celebra com Portugal um novo tratado de comércio, que reitera e reforça o de 1294.
Em 1372, o rei D. Fernando de Portugal e representantes de Henrique III, de Inglaterra assinam em Tagilde, perto de Guimarães, um tratado de aliança entre os dois países, “para sempre, por mar e por terra, contra D. Henrique, que ora se chama rei de Castela, e contra D. Pedro, rei de Aragão”. Este tratado continua hoje em vigor e é o mais antigo do mundo.
Em 1383, D. João I faz acionar a aliança inglesa e pede auxílio militar contra Castela a Ricardo II, o qual acedeu e recrutou os arqueiros para esse efeito. Estes participaram em Portugal na Batalha de Aljubarrota, ao lado das forças de D. João I e do condestável D. Nuno Álvares Pereira, contra os invasores castelhanos, os seus aliados franceses, e a maior parte da nobreza portuguesa, esta liderada por Juan I de Castela.
Em 1386, o Tratado de Windsor firma, em termos de “amizade perpétua”, a aliança anglo-portuguesa. Em 1387, D. João I de Portugal casa-se com Filipa de Lencastre (Philippa of Lancaster), que será a mãe da “Ínclita Geração”. Em 1429, a Inglaterra pede frequentemente auxílio a Portugal e nobres portugueses combatem a seu lado.
Em 1580, Filipe II de Espanha torna-se também rei de Portugal e o nosso país passa a ser visto como inimigo pelos ingleses, em guerra com a Espanha.
Em 1806, o imperador francês Napoleão Bonaparte decreta o Bloqueio Continental, que proíbe os outros países de manterem relações comerciais com o Reino Unido. Portugal fica “entalado” entre o poderio francês e a ligação à Grã-Bretanha. Em 1808, o general Arthur Wellesley desembarca em Portugal com tropas britânicas e, organizando um exército anglo-luso, inicia a guerra vitoriosa contra os franceses.
Também o futebol entraria em Portugal por influência inglesa. Em 1875, Henry Hilton, que estuda em Londres mas passa as férias na quinta dos pais, na Madeira, leva uma bola para a ilha e introduz o futebol em território português.
Em 1890, o Reino Unido envia a Portugal um ultimato obrigando o velho aliado a deixar de reivindicar a posse dos territórios africanos entre Angola e Moçambique, representado no “Mapa Cor-de-Rosa”. A enorme reação popular antibritânica em Portugal é uma das causas da implantação da República. Em 1898, aproveitando a crise financeira em que Portugal está mergulhado, o Reino Unido e a Alemanha assinam a convenção de Londres, que propõe a partilha das colónias portuguesas de África. No entanto, no ano seguinte, o rei português D. Carlos consegue induzir o governo britânico a assinar um acordo que ratifica o tratado de 1661, garantindo a integridade dos domínios coloniais.
Muito haveria a dizer sobre as relações ancestrais entre ingleses e portugueses, mas o espaço não o permite, no entanto, a amizade entre os dois povos foi muito maior, e em 1957 a rainha Isabel II efetuou a sua primeira visita a Portugal. Fiquemos por aqui.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 14-08-2019)

17 de julho de 2019

MEMÓRIAS DA SERRA DA ESTRELA DE TODOS OS TEMPOS


Da Covilhã medieval, fabricante de burel, à Covilhã de hoje, produtora dos mais finos tecidos de lã, há uma obra admirável, cimentada por sucessivas gerações de gente laboriosa e empreendedora. Pensamos que em Portugal não há outra indústria que possa competir em antiguidade como a de lanifícios. O visitante, na sua deslocação à Serra da Estrela, tem como porta principal a Covilhã, onde pode apreciar a cozinha regional e deliciar-se com a sua paisagem, através dos vários miradouros.
O escritor Ferreira de Castro contribuiu com a sua obra – “A Lã e a Neve” –, para a história da indústria têxtil, pelos relatos e descrições da laboração nas fábricas da Covilhã. Ele observou o caráter dissemelhante da sociedade urbana e da sociedade rural, no que diz respeito à introdução das inovações, as quais chegaram primeiro à cidade do que à vila ou aldeia.
Gilberto Freire, no seu livro “Aventura e Rotina”, refere que atravessando a Serra da Estrela se lembra, guloso como era, que “é daqui o leite de que se faz o queijo chamado da Serra. Que na Serra da Estrela há séculos que o homem cria ovelhas dentro da mesma doce rotina. Não só ovelhas como as menos poéticas, mas igualmente úteis e boas cabras que também dão leite”.
Já o “Notícias da Covilhã” (NC) de 24-10-1980, sobre o queijo da serra em que o caráter artesanal do seu fabrico é garantia da sua boa (e tradicional) qualidade, referia a terminar o texto: “Rendemos homenagem aos pastores e às pastoras que na Serra suportam o frio, o vento e a neve, para que nas casas aquecidas da Beira, do País e até do estrangeiro, seja saboreado o queijo”.
Podíamos ainda falar do Pastor da Serra, na opinião de L. de Mendonça e Costa (1849-1922), no seu Manual do Viajante em Portugal: “O pastor da Estrela, tipo ético admirável de resistência física, é, porventura, o direto representante dos antigos lusitanos. Isolado de todo o convívio humano, tem por únicos companheiros o cão e o gado, para os meses de estio, pelas cristas das montanhas, ou no fundo dos vales”.
Mas já José Domingos, da Lusa, no NC de 11-09-1987, referindo-se então ao Parque Nacional da Serra da Estrela, que ainda é o maior, dizia: “Montanhas graníticas, vales cortados por glaciares, castelos, história e o homem constituem o Parque Natural da Serra da Estrela, o maior existente em Portugal. Cerca de 98 mil hectares de área dispersa pelos concelhos da Guarda, Manteigas, Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Covilhã e Oliveira do Hospital constituem este parque natural. As montanhas variam aqui entre os 650 e os 2000 metros de altitude, num sucedâneo de vales e covões, cortados por cursos de água que formam o maior centro hidrológico do País. Porém, são o Mondego, Zêzere e Alva que mais condicionam a vida das gentes serranas, sendo os principais rios que descem as montanhas, cuja constituição varia entre o granito e o xisto.”
Muitas memórias serranas podiam, e deviam ser referidas, mas o espaço é curto. Deliciem-se, por exemplo, com a descrição da Serra da Estrela, por Ferreira de Castro, no seu livro “A Lã e a Neve”: “Belo monstro de xisto e de granito, com terra a encher-lhe os ocos do esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse morder o Sol”.
Mas também na descrição dos relatórios da “Expedição Científica à Serra da Estrela”, pela Sociedade de Geografia de Lisboa, realizada em agosto de 1881: “Se de dia e a distância ninguém observa os Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido, imagine-se o que nós sentiríamos às 10 da noite ao vermo-nos presos no cume do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira, eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos. Aqui, onde a natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir infinitamente pequeno.”
A Serra da Estrela sempre foi um lugar de encanto e deslumbramento, que o digam, por exemplo os visitantes que participaram no III Congresso Nacional de Bombeiros (onde também estiveram franceses), realizado na Covilhã nos dias 21 a 25 de julho de 1932, com o presidente da direção dos BVC, José de Carvalho Nunes Tavares, Comandante Jerónimo Monteiro Ranito; o  Presidente da Comissão Administrativa da  Câmara Municipal, Dr. Francisco Xavier de Almeida Garrett, e  o Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Tenente França Borges.
Por último, apreciem no horizonte, a junção dos Cântaros Gordo, Magro e Raso, numa visão bonita duma panorâmica de perceção visual, mais parecendo uma gigante mulher deitada.

(In "Notícias da Covilhã", de 18-07-2019)

10 de julho de 2019

TEMPO DAS FESTAS, DOS EXAMES E DOS INCÊNDIOS


Ora bem, com muito gosto cá estamos a partilhar com os estimados associados e os leitores em geral mais um número d’ “O Combatente da Estrela”, no início do verão, época do ano mais agradável para a generalidade das gentes deste recanto mais ocidental da Europa, e não só.
Desde o último número até agora, esta instituição em movimento continuou a desenvolver várias atividades entretanto programadas, destacando-se o Dia do Combatente na Covilhã, em 9 de abril; as comemorações do 93.º Aniversário do Núcleo, em 19 de maio; e a 13ª. Peregrinação do Núcleo a Fátima, no dia 16 de junho.
Para muitos de nós tem-nos sido reservado aquele espaço de tempo em que é necessário, no exercício de “motoristas” dos nossos netos, irmos buscá-los à porta das escolas, quer sejam do ensino básico, do preparatório ou do secundário; e, depois, para as atividades extras: basquetebol, natação, música, ginástica, futebol, línguas estrangeiras com incidência no inglês, e por aí fora.
Quem é que haveria de dizer que do nosso tempo escolar, em que nada disto era possível, na similaridade com a idade dos nossos netos, a futurologia se encarregaria das fontes da modernidade, duma expansão galopante do desenvolvimento a nível mundial?!
Junho é o mês das festas populares, e os estudantes têm de saber adaptar-se ao tempo das mesmas com a coordenação do seu tempo de estudo na preparação para os exames que se aproximam.
Começou, logo no dia 1 de junho, com o Dia Mundial da Criança, para no dia 10 de junho se celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Chegaria, entretanto, o primeiro dos santos populares, Dia de Santo António a 13 de junho (para mim uma data mítica culturalmente, como sempre venho assinalando), com um interregno para o Dia do Corpo de Deus, assinalado no dia 20 e, em 21 de junho, a entrada do verão. O São João a 24 de junho e por último o São Pedro a 29 de junho.
Mas, atenção, os cotas também têm o seu dia, e eis que a 26 de julho é o Dia Mundial dos Avós.
Depois do frenesim para alguns dos muitos jovens e também dos menos jovens estudantes, passada a época dos exames, vem o descanso merecido de agosto, com alguns dias tórridos contrabalançando com outros em que, segundo o ditado, em “agosto dá o frio pelo rosto”.
Pois é, só que de permeio nestes meses mais quentes surgem as habituais e lamentáveis calamidades dos incêndios florestais que dizimam uma das principais riquezas nacionais e, incrivelmente, até vidas humanas têm sido ceifadas e a sofreram o terror desta grande desgraça.
No dia em que escrevo este texto, o País, através da Comunicação Social, recorda os dois anos em que ocorreu o grande Incêndio florestal de Pedrógão Grande, em 17 de junho de 2017, que causou 64 mortos e cerca de 200 desalojados.
Não ficaria por aqui, e em 15 de outubro daquele mesmo ano foram registados, num só dia, 523 incêndios, que causaram 50 mortos e cerca de 70 feridos. Este foi considerado o pior dia de incêndios de sempre em Portugal. Os piores foram registados na região Centro e Norte, nomeadamente Viseu (distrito mais fustigado) e Coimbra, chegando a entrar dentro de diversas cidades, vilas e aldeias, acabando por destruir dezenas de casas e indústrias.
Já no ano 2018 há a registar, entre outros, um grande incêndio na Serra de Monchique, no dia 3 de agosto, que durou até ao dia 17, consumindo mais uns bons milhares de hectares de floresta, quando no ano anterior se haviam consumido nas chamas, só até outubro, mais de 440 mil hectares de floresta e povoamentos.
Esperemos que este ano a situação seja menos preocupante para o País, que é o mesmo que dizer para todos nós, e para os Bombeiros portugueses.
A este propósito, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, vai comemorar no dia 23 de junho o seu 144º. Aniversário da sua fundação, associação gloriosa para a qual tive a honra de escrever a sua história em livro, já lá vai uma década e meia. Como o tempo passa…
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(In "O Combatente da Estrela", n.º 115, Julho 2019)

O ZÉ POVINHO


Segundo Saramago, “o grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente”, e assim também a desmesurada benevolência, a desregulação, o facilitismo e a confiança exacerbada, levam muitas vezes às situações de constante indignação na imprensa e redes sociais, e a vozearia nos canais televisivos, e não só, com o tema, num ano de todos os perigos, como tem vindo a acontecer, no caminho da corrupção. Procura-se depois o enferrujamento de provas, para que no desiderato daquilo que terá sido considerado mais fácil, não se venha levantar o véu da oxidação e levar à indesejada luz da verdade.
Todos os partidos se envolvem nesta maldita teia, onde muitos dos seus apaniguados caem na tentação de também provar a maçã de Eva. E, em vez de tentar repudiar os seus “traidores” procuram antes encapotar o descaminho em que se envolveram, nalgumas desculpabilizações saloias, algumas mesmo hilariantes.
Perdendo-se já o rescaldo das últimas eleições europeias, não deixa, no entanto, de, perante os números da abstenção, ver que a sua grande dimensão esmaga qualquer resultado, por mais vitórias ou derrotas que sejam anunciadas.
Nunca tivemos um período tão longo de paz na Europa. Talvez por isso a displicência, o deixa andar, o que se lixem as eleições porque são todos iguais, levam a este pensamento de mandar às malvas qualquer ato eleitoral.
A corrupção crónica continua a arrastar-se pelos meios bancários e autárquicos e apesar de inúmeros exemplos, ela grassa em todos os cantos e recantos deste Portugal desencantado. Esta epidemia parece estender-se por toda a parte, enquanto nos vamos questionando, tristemente, sob o tema que foi o 10 de junho – os desígnios da Nação.
Mereciam ser recordados os programas de humor na RTP, da autoria de César de Oliveira e de Melo Pereira,  com os falecidos protagonistas Camilo de Oliveira e Ivone Silva – “Sabadabadu” – onde, entre os sketches mais conhecidos, ficou a canção “Ai Agostinho, Ai Agostinha”, interpretando os papeis de embriagados, cantando uma cantiga com uma letra atenta à situação do país de então, corriam os anos de 1981 e 1982.
Mas se recuarmos para 1975, também poderíamos recordar “Nicolau no País das Maravilhas”, no célebre programa de humor que deu a conhecer o Sr. Feliz (Nicolau Breyner) e o Sr. Contente (Herman José), em que Nicolau dá a conhecer um outro artista em início de carreira, Herman José, passando os dois a formar a célebre dupla, “Sr. Feliz e Sr. Contente”, onde, nesta rábula, a dupla encantava o público com o seu “diga à gente, diga à gente, como vai este país…”
É indubitável que as pessoas sentem que a independência da Justiça face ao poder executivo deve ser aumentada e não diminuída. Que um Ministério Público constrangido politicamente tem efeitos desastrosos, e é inaceitável tal conduta. É óbvio que todos reconhecem o desprestígio atual da classe política portuguesa. E, neste contexto, os grandes problemas que se levantam no combate à corrupção. Assim, há que haver a máxima atenção por todos os partidos no sentido de não consentirem a aprovação de leis que venham desvirtuar o sentido da democracia.
Recentemente fomos confrontados pela comunicação social com a notícia de que o Grupo de Estados contra a Corrupção (Greco), criado em 1999 pelo Conselho da Europa para acompanhar o cumprimento dos padrões anticorrupção estabelecidos por este organismo está desiludido com Portugal. Segundo o Relatório de Conformidade, conforme informação no Público de 28 de junho, agora tornado público, mas, no entanto, aprovado em dezembro de 2017, Portugal, das 15 recomendações que lhe tinham sido feitas com a necessidade de reforçar a sua capacidade de prevenção e de combate à corrupção, desta vez, com respeito, especificamente, aos nossos deputados, juízes e procuradores, só deu cabal cumprimento a uma delas. Estes peritos estiveram no nosso país em meados de 2015, contactaram com numerosas pessoas e instituições e formularam recomendações que Portugal ignorou.
Segundo o Greco, o nosso país preocupa-se pouco com a prevenção da corrupção, com os conflitos de interesses e com a capacidade de decisões. E os resultados estão, há muito, à vista de todos. No entanto, no dia seguinte, o Greco veio a reconhecer algum esforço anticorrupção e melhorou a nota de Portugal, informando: “O Greco conclui, por conseguinte, que o atual nível muito baixo de cumprimento das recomendações continua a ser ‘globalmente insatisfatório’”.
Por isso mesmo, Joana Marques Vidal destacou na comunicação social, recentemente, “redes de corrupção e compadrio, nas áreas da contratação pública” que se disseminam entre vários organismos de ministérios e autarquias.
E, no meio desta amálgama de situações graves, quem paga as favas é o Zé Povinho, que, muitas vezes já se marimba para tudo o que lhe querem enfiar, através do seu manguito – Toma!... E, vai desta, “albarde-se o burro à vontade do dono!”. “Escola não a tens, porque te podia fazer mal o puxar muito pela cabeça nos estudos, e lá diz o ditado que ‘antes burro vivo’, como tu estás, ‘do que doutor morto’, como tão frequentemente se tem visto”.
E o nosso Zé Povinho continua, numa de desabafo: “Para continuares a gozar o sumo bem da liberdade que te outorgamos, tu não tens que ter senão o pequeno incómodo de pagar tudo o que isto custa, e de dar vivas do estilo, sempre que a ocasião se ofereça, ao príncipe, à real família e às instituições que vigem à sua custa”. (1)
“Finalmente, sempre que precisares do que quer que seja, trata de o ganhar, porque ninguém já te dá nada. Adeus, Zezinho! Vai-te com Nossa Senhora!”.
E com o Zé Povinho terminamos esta crónica, porque ele é imortal. Ora submisso, com uma canga às costas feito burro de carga e vexado pelos poderosos, ora irreverente, fazendo o “manguito” a quem o queira enganar, tornando-se o ícone mais representativo do português. O símbolo de um povo triste e subserviente que a espaços – mas só a espaços – é capaz de um gesto de revolta. É o retrato concreto da nação que somos, entalada entre a admiração basbaque e a indignação passiva, entre temíveis passados e futuros desesperados.
Que o Governo esteja atento ao que Rafael Bordalo Pinheiro criou na figura do Zé Povinho, há mais de um século, e que continua atual, para que ele mesmo, e/ou os futuros não vejam cada vez mais o seu “manguito”.

João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(1(1)      In “Álbum das Glórias”, de Rafael Bordalo Pinheiro.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 10-07-2019)

19 de junho de 2019

A AMIZADE É UMA FESTA E EXPANDE-SE

Muitos encontros de amigos. Alguns, efémeros, outros eternizados. A idade, na caminhada das nossas vidas, não vai de parar, não se eclipsa, vai acrescentando tempo ao tempo.  Tantos a querer subir o Evereste, outros a preferirem as reminiscências extraídas do baú das suas memórias, dum tempo que o vento levou. Muitas memórias ficam. Por vezes quando menos se espera, surge alguém com o papel amarelecido das décadas das suas vidas. Daqui para a frente talvez se comece a pensar mais nos lustros que ainda possam restar. É giro! As horas prolongam-se. Perdemos a conta ao tempo.
O dia de Santo António é mítico. Com o Pedro Batista preparávamos o nosso habitual evento, que foi novamente sublinhado, com o título dado há década e meia – A Amizade é uma Festa – resultante do Homem de grande visão, lá para as bandas de Lisboa, em pleno espaço dum hotel repleto de ansiosos por conhecer os destinos das suas vidas profissionais, já que “santos da porta não fazem milagres”. Parte do grupo, os “apóstolos” escolhidos, memorizaram com o seu “pastor”, numa esplêndida quinta do Tortosendo, acontecimentos da vida que a todos uniu. Falou-se do passado, mas também dos dias de hoje e das perspetivas do amanhã.
As estórias da história do então livro publicado foi tema que não se deixou por mãos alheias, documento importante a correr todo o País. E, de facto, o postal das memórias, lá singularizava “Da CONFIANÇA à PROMESSA, para a CONCRETIZAÇÃO, dirigida ao ÊXITO”, com as datas e fotos assinaladas dos locais e intervenientes, terminando “E porque a Amizade é uma Festa!”
Inevitável é a despedida com uma esperança de que para o ano continua, se Deus quiser.
Conforme o título dado ao texto, a amizade expande-se. Falei no Pedro Batista, antigo Colega da atividade que abracei durante quatro décadas. Tomávamos um cafezinho numa esplanada do sul da Cidade. À mesma mesa estava outro amigo, Sérgio Gaspar Saraiva, companheiro da escrita neste periódico. Era o dia 11 de junho do ano da graça em curso. Esperávamos o seu primo, Arnaldo Saraiva, natural de Casegas, professor universitário, investigador científico e literário, ensaísta, cronista e poeta, doutorado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Também leitor de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade da Califórnia e professor convidado da Universidade de Paris (Sorbonne Nouvelle), tendo feito estudos superiores no Rio de Janeiro. Também colaborador da RTP e da Antena 1 e de várias publicações portuguesas e estrangeiras. Foi ainda distinguido com o Prémio Seiva (2017) na área das Letras.
A sua chegada para se sentar à nossa mesa tinha um fim em vista, singelo, carinhoso, afável, aproveitando uma breve pausa da sua viagem do Porto com destino ao Fundão onde tinha uma sua intervenção cultural. Daí que, depois, se vieram juntar ao grupo outros dois amigos: Fernando Paulouro Neves e Jorge Torrão. É que, a propósito dum texto publicado no Jornal do Fundão, sobre Casegas, onde eu vivi os primeiros anos de vida enquanto meu Pai ali exerceu a atividade de professor primário, nos distantes anos de 1945 a 1948, e vindo a saber que também fora professor do antigo Diretor do Notícias da Covilhã, Dr. José de Almeida Geraldes, quis memorizar algumas facetas daquela vivência entre professor e alunos. Assim, reconheceu perfeitamente, por uma foto daquele tempo, a figura do também seu antigo professor, José Martins Nunes.
E, se neste tempo ideal, o ditado mais se apropria ao de que “as palavras são como as cerejas”, só o compromisso que tinha já reduzido ao tempo que lhe restava para almoçar, o Professor Doutor Arnaldo Saraiva não ficou mais tempo, e, assim, de facto, a amizade é uma festa. Acabou por conhecer o filho do seu primeiro professor, e deu um abraço a um antigo colega do Seminário, assim como a outro seu conterrâneo, e outros mais que se juntavam, incluindo um grupo de antigas professoras que, do outro lado o avistando, algumas, suas antigas colegas da Universidade, o vieram cumprimentar. Uma delas, Maria do Céu Brás, antiga professora, sua conterrânea, portanto, caseguense, foi uma delas.

(In "Notícias da Covilhã", de  20-06-2019)

14 de junho de 2019

FOLHEANDO O NOTÍCIAS DA COVILHÃ


Estive lá no dia 24 de maio, na reinauguração das instalações na Rua Jornal Notícias da Covilhã, 65, donde o NC nunca deveria ter saído.
Efetivamente, não podia deixar de aceitar honroso convite do semanário onde, ao longo dos tempos, nele fui deixando algumas linhas escritas. E também a bondade dos seus Colaboradores em darem a conhecer algumas das minhas publicações e iniciativas.
Já lia o Notícias da Covilhã desde muito jovem, na então Biblioteca Municipal, ao Jardim Público, em cujo cabeçalho surgia como diretor o Padre José de Andrade, então também pároco de Nossa Senhora da Conceição (São Francisco) e a grande alma para a construção do Centro Cultural e Social da Covilhã.
Mas é em 29 de dezembro de 1963, que o meu saudoso amigo Cónego Dr. António Mendes Fernandes, passa a assumir a direção deste Semanário.
A caminho do final do ano 1964, trabalhando eu ali perto, como administrativo na Câmara Municipal, me desloquei à Rua de Santa Maria, 65 (nome com que então era designada esta rua) para entregar um meu primeiro artigo para publicação, se assim entendessem. E o mesmo foi acolhido, com a simpatia do Sr. Alfredo Nunes Pereira, da redação do Jornal.
Sob o título “A Covilhã precisa dum Museu”, pois não havia qualquer museu na cidade digno desse nome, viria a ser publicado em 14 de novembro desse ano, com uma nota final: “N.R.: Consoante pode ler na entrevista concedida a este jornal pelo Senhor Presidente da Câmara, logo que o novo Liceu esteja construído, ficará livre o prédio onde atualmente funciona na Rua Combatentes da Grande Guerra. Para aí passarão a Secção de Finanças e no prédio onde atualmente está instalada será o futuro Museu”.
Mas não seria assim tão depressa e, dentre outros registos sobre a cidade, que ia enviando, e seriam publicados, escolho a gazetilha ao “Soldado Desconhecido”, fruto de vandalismo que ao longo dos tempos foi tendo (“O Soldado Desconhecido”: ‘(…) partiram o cano à espingarda…’- 1965; “Espada, precisa-se” – 1991; ou “A réplica da espada de Nuno Álvares” – 2008).
Mas aos nossos 18 anos, também a então minha namorada, Maria Odete, seria objeto das páginas deste Semanário, pela sua ação no movimento operário católico. Em 15-01-1965: “Assembleia das Organizações Operárias (da Ação Católica, (…) Maria Odete, como jocista, usando da palavra, focando as lições da Quadra do Natal para a vida dos trabalhadores (…)”.
No mesmo ano, março de 1965, registava como preocupação “Para quando a conclusão da Avenida Salazar?...”; voltava à carga em 1983, com “Melhoramentos na Av. 25 de Abril”; e, em 1997, “o Elevador no Ramal de S. João de Malta”, qual mote para a construção do funicular?
Se em 1970 era noticiado o meu casamento com a Maria Odete, neste Semanário; já em 1972, com “Uma sóbria profissão: o Funcionalismo Público”, em tempos de ditadura, deixou pelos corredores da Câmara Municipal e da Repartição de Finanças, algum sussurro malicioso de quem queria ver a continuidade da conversa, à responsabilidade de quem se meteu na “embrulhada”, entre medos da censura.
1990 era o tempo de começar a falar dos Leões da Serra: “Sporting da Covilhã em naufrágio: Cidade exige um clube da I Divisão”, tema que se iria desenvolver por vários anos, não só com a publicação das quatro obras sobre esta coletividade serrana, como também no encalce de tudo o que favorecesse o clube de todos os covilhanenses e beirões, como “Memórias de um Clube e de uma Cidade” – 1998, data em que é comunicado pelo Notícias da Covilhã (NC) – 25-12-1998: “’Notícias da Covilhã’, passa a ser nome de rua. A partir de janeiro de 1999, data em que o NC completa 87 anos, a rua onde está instalado passa a chamar-se ‘Rua Jornal Notícias da Covilhã’”. Ainda sobre o Sporting Clube da Covilhã (SCC): “Sporting Clube da Covilhã – Terceira Divisão nunca mais!” – 1994; “Os Timoneiros do SCC na Primeira Divisão” – 1997”; “Memórias Esquecidas” – 2001; “Os 82 anos dos Leões da Serra” – 2005, entre muitos outros, salientando alguns dos que passaram para além do mundo dos vivos.
À Biblioteca Municipal foram dedicados vários textos: “Biblioteca Municipal: 82 Anos de História” – 1999; e, mais recentemente, sobre o seu Centenário.
Agradeço terem-me concedido o espaço de uma página inteira, entre outros: “A Escola Industrial mais antiga do País completou 110 anos da sua fundação” – 1994; “ Os 830 Anos do 1.º Foral da Covilhã” – 2016; “A Expedição Científica à Serra da Estrela foi há 135 anos” – 2016; “Padroeira da Covilhã” – 2016; “As Conferências de São Vicente de Paulo na Diocese da Guarda” – 2017.
Tive o prazer de, neste Semanário, evocar figuras covilhanenses ou que à Covilhã se dedicaram de corpo e alma: Padre José Domingues Carreto, António Santos Taborda, Maria Ivone Manteigueiro Vairinho, Cónego José Geraldes, Ernesto Cruz, Dr. José Ranito Baltazar, Dr. Manuel de Castro Martins, Alexandre Aibéo, entre muitos outros.
Também várias coletividades tiveram o espaço das minhas memórias no NC. Outros assuntos mais candentes na sua oportunidade tiveram leitores atentos: “Responsáveis pela Irresponsabilidade” – 1998; “Quando o peão ‘atropela’ o veículo” – 1999; “Uma nódoa no fato de gala” – 1998; “A Quinta das Celebridades” – 2004; “O Polvo” – 2005; “Assembleia de ratos” – 2005; “Da promiscuidade à corrupção” – 2006; “Fugitivos” – 2008, e muitos outros até aos dias de hoje.
Se tive o prazer de escrever sobre as gentes covilhanenses ou à mesma radicadas (“Os Grandes Covilhanenses” – 2007; “O Repolho” – 2007; “A Mulher na Sociedade Covilhanense” – 2008; “O Homem que nasceu para as flores” – 2009; “A Vocação e a Causa – 50 anos (Padre Fernando Brito) – 2009); também outros temas me traziam alegria quando alguém se aproximava de mim, me telefonava ou enviava mensagens,  fazendo referência às crónicas publicadas com interesse nas mesmas. E outros, que há muito não nos víamos, aquando dum encontro, referiam-me: “Bom, eu não o vejo pessoalmente mas vejo-o com regularidade no Notícias da Covilhã…”. E isto a partir das então “Crónicas da Rua Direita”, iniciadas em abril de 2003.
Teria muito ainda para contar, mas vou só dar registo das referências às efemérides do NC: “Nove décadas de ‘braço dado’ com os interesses da cidade” – 2003; “Mais perto do centenário” – 2006; “A caminho do centenário” – 2009; “NC em frente” – 2010; “Quase nos 100 anos” – 2011; “O Jornal e o direito de opinar” – 2013; “Diretores de um jornal” – 2014.
Os meus sentimentos de gratidão e alegria pelo Notícias da Covilhã, excedem-se no atrevimento de ocupar este precioso espaço, na menção de alguns títulos escritos neste Semanário, gotejo de muitos mais, que de outros periódicos, com textos diferentes, aqui não têm cabimento.
Parabéns, mais uma vez, ao NC e um fraternal abraço aos estimados obreiros do mesmo.

João de Jesus Nunes                                                                                           jjnunes6200@gmail.com

12 de junho de 2019

A DOR DE CABEÇA OU DE BARRIGA DOS EXAMES


Não era este o tema que tinha inicialmente previsto para a crónica desta semana. Mas, recordando o acompanhamento que tivemos com os filhos até ao ensino universitário e já com os netos a viverem os momentos do secundário e até mesmo o superior, ficam as marcas das reminiscências dos avós que já passaram a fasquia dos 70 anos.
Os tempos doutrora são incomparáveis aos dias de hoje, em todos os aspetos, desde o habitacional ao social, para não referir outros básicos, como o económico.
Se bem que com exceções como manda a regra, pelo menos para quem se embrenha nos meios solidários, os jovens de hoje não têm razão para não disputarem os valores da vida no empenhamento do saber até à opção vocacional.
As famílias já não são iletradas, embora se vão dando alguns pontapés na gramática. Certo é que os hábitos de leitura são escassos e falar de cultura é dum enfado confrangedor para muitas das pessoas, onde os jornais desportivos são os apelativos e o sensacionalismo do Correio da Manhã não deixa de atrair.
Hoje já não existe uma casa de habitação sem uma casa de banho, o que não acontecia no meu tempo de estudante, duma forma generalizada. Surgida a época dos exames, com o calor dentro das casas, agravadas pelo sarilho da barulheira de quem tinha mais irmãos, restava-nos pegar nos livros pela manhazinha e procurar uma sombra, só ou acompanhado, para aí ser o local mais sossegado e inspirador para o estudo, as revisões da matéria para as várias disciplinas. Era no Jardim Municipal, nas escadas ou bancos do Monumento de Nossa Senhora da Conceição, algumas sombras de oliveiras da então Avenida Salazar (hoje Avenida 25 de Abril), antes de se terem lá erguido algumas vivendas, e por aí fora. Não menos agradável era o ambiente acolhedor da antiga Biblioteca Municipal, ao Jardim. E não havia automóveis para a deslocação, mas tão só o caminhar com os livros debaixo do braço.
Certo é que, ainda que paradoxalmente, havia um pouco mais de propiciação para se estudar (nessa altura em que decorar era a forma de ensino adequada ao tempo), já que não havia os meios de hoje que são objeto de distração mesmo em tempo de estudo: televisão, telemóveis, redes sociais, e por aí fora…
Não havia dinheiro para uma merenda quotidiana, um sumo ou um gelado do Cardona, pelo que, na rua, a água duma fonte era bendita.
E os cérebros lá se tinham de esforçar sem o combustível necessário para o manter saudável. Ainda me recordo de, neste tempo então mais abundante de fruta, as mãezinhas se preocupavam em fazer um esforço adicional à aquisição das novidades, como os figos, as cerejas ou outra cobiçada, “porque se estava na altura dos exames” e havia que não deixar chegar algum fastio. Cérebros com carburante reforçado…
Se a Física e a Química, o Direito Comercial e a Economia Política eram as disciplinas que mais me levavam a retirar-me para uma concentração no estudo, não me posso esquecer que, duma transição do mesmo curso, que frequentava durante o dia, para o noturno, que obrigava a mais um ano, e por forma a não ficar deste modo com uma disciplina em atraso, vi-me forçado a esse então famigerado exame de transição, ter que gramar, durante todas as férias do verão, ao invés de aliviar a carga, estudar o Segundo Volume da História Universal, sem explicadores, naquela de “seja o que Deus quiser”. E, vai daí, a matéria dessa disciplina de um ano letivo completo marrei-a em dois meses!...
Pois é, levo com o exame de História e também com outro de Francês, que, para esse efeito de transição penso que eram só provas orais, e, por obra e graça do Divino Espírito Santo, saí-me bem perante o júri constituído pelos falecidos professores Drª. Maria Irene Portela e Dr. José de Oliveira Dias. Corria o ano da graça de 1963.
Arrumavam-se os livros e cadernos numa pasta, onde não havia secretárias em casa como nos dias de hoje, mormente quando há vários irmãos. Não se folheavam fotocópias nem havia marcadores fluorescentes ou post-it coloridos, porque não havia mesmo (os professores utilizavam os stencils da Escola para os testes).
Querer tirar dúvidas com um colega ao telefone não era viável pois quase nenhum tinha este aparelho (só em casas mais abastadas) e, telemóvel, ainda era inexistente, a léguas de distância. Quando muito, ia-se a pé e batia-se à porta do colega, o qual, por vezes, morava longe. Era uma carga de nervos quando parecia que já todos estavam mais adiantados no estudo ou, então, que todos estavam mais desesperados do que eu.
Para o exame final, volvidos três anos, lá combinámos, com o Manuel José Torrão, o falecido Tomé, do BNU, que foi viver para Abrantes, irmos trocar impressões e estudar para casa do então genro do José Vicente Milhano, por sua sugestão, mas que vivia longe, lá para as bandas do Campos Melo. Já tarde, esgotados, depois de um dia de trabalho e perto da meia-noite, vinha-me pôr a casa no seu Citroen boca de sapo.
É que, os nossos professores de Contabilidade, em final de ano, foram forçados a interromper as aulas. Primeiro, foi o Dr. Fernando Carneiro, que era chamado pela segunda vez para o serviço militar, para depois ser mobilizado para o Ultramar; depois foi um professor novo que teve igual sorte, pelo que, quase em vésperas do último exame – Aptidão Profissional – vem salvar a contenda o Dr. Duarte Simões. Do júri constava então também o industrial de lanifícios, Dr. Fernando Lopes Alçada.
Nessa altura eu fumava e o cinto das calças já reduzia mais um furo.
Agora pergunto a mim próprio, por que me deu na real gana de lembrar pecados velhos, ou algo nostálgico, em vez de falar no desplante de Joe Berardo; que em 45 anos, cinco Presidentes da República Portuguesa entregaram 9477 comendas; que a “coisa” pode piorar, segundo a versão de Rui Rio; que foi há 100 anos que Einstein se tornou uma popstar; que a Europa está sem ilusões; ou a doença do capitalismo; a ignóbil farsa do SIRESP; ou que surge a interrogação se a Theresa May não será o mal menor?
Bom, tudo isto seria diferente, mas não era a mesma coisa, pois não?

(In Jornal fórum Covilhã", de 12-06-2019)

5 de junho de 2019

ENTRE AS PÁGINAS ROMANESCAS DE UM LIVRO E O JORNAL “O OLHANENSE”


A primeira pausa após o almoço daquela sexta-feira. (1)
- Bom, meus caríssimos amigos e companheiros destas jornadas seguradoras, tenho a comunicar-vos uma notícia que ontem chegou a minha casa, que já poderia ser transmitida durante o almoço, mas custou-me imenso, até parece que se me travou a língua!... – Disse o Benedito. E manteve-se durante algum silêncio.
Todos ficaram atónitos, tanto mais que ninguém deduziu que viria a anunciar o nascimento do primeiro filho, face à idade do casal… Mas esperavam que alguém se pronunciasse, olhando uns para os outros.
Outros pensaram: aqui há gato!...
Até que o Benedito continuou:
- A Sónia recebeu um convite para passar a ser a maestrina de duas bandas filarmónicas algarvias, entre as quais a Banda Musical de Tavira, onde eu estive algum tempo no serviço militar…  Certamente a nossa vida vai mudar de Leiria para terras algarvias…  Pensamos nós!...
- Então qual é o problema? – disse o Rosas. E acrescentou: Primeiro a vossa vida, e depois o grupo Tertuliano. Paciência!...
- Claro que sim!... opinou também a Faustina. – É pena que ainda há pouco tempo começámos a integrar esta tertúlia que está a ser interessantíssima, mas a vida é mesmo assim!...
- Então para que não percamos mais tempo, vamos continuar com os nossos trabalhinhos – disse o Benedito – e depois já desenvolvo mais a conversa a meu respeito.
Na segunda pausa após o almoço desta sexta-feira, já a tornar-se de certo modo agitada, o Benedito tenta acalmar os companheiros tertulianos:
- Ora bem, na sequência do que vos transmiti há pouco, só lá para junho é que vou deixar Leiria, até porque ainda temos de acertar pormenores com o trabalho da Sónia, e a nossa deslocação para lá. Portanto, até lá ainda podemos fazer muita coisa…
No Algarve, para além da Sociedade da Banda Musical de Tavira, também foi abordada pela Banda Filarmónica Moncarachense 1.º de Dezembro e pela Banda Musical Castromarinense.
Disse o Rosas: - Alguém há de tomar a liderança do grupo para prosseguir com outro tema cultural. Pelo menos, ficaram as raízes do que tem sido desenvolvido ao longo pouco mais de uma semana!
- Não vai morrer, não senhor!... Deixemos lá o amigo Benedito e a Sónia resolverem a sua vida! – disse o Pedro. – Não esqueçais que as viagens estão de pé!...
Chegou finalmente aquela quinta-feira, dia 4 de maio do ano da graça de 2017. Bem cedo, ainda não eram nove horas e já começavam a chegar os primeiros tertulianos à Adega Regional.
Numa breve pausa, a Milu, que gosta muito de história, avançou com a pergunta:
- Não foi em 4 de agosto de 1578 que se deu a Batalha de Alcácer Quibir?
- Sei que foi em 1578, mas não me recordo da data completa… Mas porquê? – Resposta e pergunta da Sónia.
- É que me chamou à atenção o facto de o Benedito ter referido há pouco que… deixa cá ver…o cargo de escrivão de seguros foi criado por carta régia de D. João III, datada de outubro de 1579. Ora bem… mas a outra… ah! Já sei… disse que a criação do cargo de corretor de seguros coube a D. Sebastião, por carta régia de fevereiro de 1578. Logo, seriam seis meses antes de perder a vida naquela maldita batalha!... – Respondeu a Milu.
- Pois bem, hoje terminamos definitivamente esta tertúlia sob o tema que viemos a desenvolver – referiu o Benedito. Já combinei com a Sónia para que a viagem projetada para o Algarve, de dois dias, com uma pernoita, para celebrar o encerramento desta tertúlia, ainda que efémera, será no hotel Vila Gale Ampalius, em Vilamoura. Estivemos indecisos entre este e o Dom Pedro Martins..., escolhemos o primeiro porque está localizado a poucos metros da Praia da Marina e da Marina de Vila Moura.
Depois, as refeições logo se verão, uma vez que vamos visitar várias localidades do Algarve. É no dia 27 de maio, às 7h30 da manhã, sábado, porque o Benedito no dia 25 tem o já agendado encontro de futebol de Veteranos entre o Sport Clube Leiria e Marrazes e o Grupo Recreativo Amigos da Paz/Pousos.
- Então vamos juntar-nos no mesmo local – Jardim Luís de Camões? – perguntou o Licínio.
Depois de algumas trocas de impressões sobre o Algarve onde, uns há muito tempo que lá não iam, outros que estiveram lá o ano passado, e outros, como o Benedito e o Marques, estiveram durante a recruta no CISMI, em Tavira (o Benedito), e a especialidade (o Marques), chegou finalmente o ansiado dia. Eram oito horas e iniciaram a viagem a caminho do Algarve, destino Vilamoura, sendo feito algumas paragens pelo caminho. As máquinas fotográficas foram então substituídas pelos smartphones, pelo que se iam tirando umas fotos pelas paragens durante o trajeto. Eram aproximadamente 368 Km. Seguiram pela A1 e quando na IC 10 viram a placa Algarve/Évora/Coruche/Almeirim, saíram em Almeirim na tentativa de irem comer a sopa de pedra. A muito custo lá conseguiram uma mesa. Acautelaram-se nas bebidas…
Uma pequena paragem na área de serviço de Alcácer do Sal e aí se direcionaram a caminho de Vilamoura. Ao passarem por Poço de Boliqueime e Fonte de Boliqueime alguns lembraram-se que Boliqueime é a terra de Cavaco Silva.
Chegados ao hotel, depois do check-in e de tudo arrumado, foi altura de darem uma voltinha pelas cidades mais próximas…  Foram até Portimão, ficando o passeio pela marina de Vilamoura para a noite.
- Está ali um café – apontou o Alberto Ferreira. Entraram então no Café Casa Inglesa. O Rosas comprou o jornal O Olhanense, onde vinha sempre uma crónica do antigo camarada da Covilhã, do RAL 4, que estava à venda à porta do Café Nacional.
- Bom, meus amigos!... Está na hora de jantar, ou vocês não querem jantar?
- Sugeria que fossemos a Albufeira porque lá há animação à noite – disse o Pedro. Todos concordaram.
Entraram no Café Ameixial. Cá fora, quatro mexicanos tocavam os seus instrumentos exóticos. Depois, entraram numa esplanada e ali, ao ar livre, perto dum palco onde atuavam alguns artistas populares, jantaram. Quase todos preferiram um robalo escalado, exceto a Milu e o Pedro que optaram por cavala.
Ainda passaram pelo Café Pastelaria Riviera, tendo recolhido a Vilamoura.
- Amanhã podemos almoçar aqui no Restaurante do Chino e do Figo!... – disse o Rosas, apontando para o letreiro “Café Figo e China Lda”, ainda com muita gente.
Tomado o pequeno-almoço no hotel, quiseram ainda entrar no Café do Chino, e aí decidirem aproveitar o tempo, visitando outras cidades algarvias. Deram um salto a Lagos, entraram no Café Taquelim, e a Sónia quis comprar uns bolos vistos no Café Mildoces.
- Bom, agora voltamos para trás – disse o Rosas. E lá passaram novamente por Portimão, viram a Praia da Rocha  e a direção agora Faro, Olhão e Tavira.
A próxima viagem para uma visita turística foi a cidade de Faro, capital do Algarve. Uma pausa no Café Aliança, para umas minis pois as gargantas já estavam a precisar. A Milu e a Anabela beberam água natural sem gás, já que as restantes companheiras optaram por sumos frescos.
O Pedro perguntou onde era o Café Pastelaria Gardy pois estivera lá, como empregado de mesa, um seu antigo camarada do Ultramar.
Em Faro não houve grandes demoras, já que agora estavam na peugada de Olhão, Chegados a Olhão, logo encontraram onde matar a sede – Café Chaminé. Havia também que descansar as pernas.
Deram umas voltas pela cidade e entraram no Café O Pátio onde consumiram algumas bebidas.
Entretanto, o Benedito ouviu de dois compadres, em voz baixa, mas ali perto da mesa onde se encontrava – assim se chamavam um ao outro… –, a leitura de um artigo que vinha no jornal O Olhanense e que dizia assim: “O Lameiro do Chão Verde”. (2)
- Bom, meus amigos, vamos a Tavira porque eu já lá fico e vocês têm de regressar ainda a Leiria!... – Ordenou o Benedito.
Todos se ergueram mais rápido, entraram nos respetivos automóveis e… rumo a Tavira, onde o Marques começou logo por dizer que gostava de matar saudades, passando na ponte antiga sobre o Rio Gilão.
- Não te lembras das salinas, onde nos levavam para os exercícios, que saíamos de lá cheios de lama, e depois quando chegávamos ao quartel para tomar banho cortavam a água e ficávamos todos sujos? Tínhamos de nos desenrascar… que era ação psicológica!... – continuou a insistir o Marques, que agora queria ir ver o CISMI e a Atalaia.
Bom, dirigiram-se ao CISMI – Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria (que agora mudou o nome para Regimento de Infantaria n.º 1), também conhecido como Quartel da Atalaia. Pediram autorização de passar da porta de armas, acompanhado por um militar que estava de serviço. Ainda existe a G3 que o militar deixou que nela pegassem. Bom, o Campo da Atalaia, onde se fazia a instrução militar, esse já lá não estava, foi aí construída uma urbanização.
Entretanto, recordando algumas pessoas castiças, que acompanhavam os instruendos do CSM durante a instrução militar, para vender refrigerantes, a UCAL, chocolates ou bolachas, nos intervalos (como a Ti Almerinda), o Marques, mais uma vez, recordou e disse:
- Gostaria de vos ler um artigo do meu ex-camarada da Covilhã, durante o tempo em que esteve aqui. E, puxando pelo smartphone, pesquisou e passou a ler: “Boliqueime”.
E foi o regresso a Leiria.

(1)     In “O Documento Antigo – Uma Outra Forma e Ver os Seguros”, de João de Jesus Nunes
(2)     “O Lameiro do Chão Verde”, por Goreti Costa, in ‘O Olhanense’, de 15-04-2018.

(In Jornal "O Olhanense", de 01-06-2019)

22 de maio de 2019

A PROTEÇÃO DAS PESSOAS E BENS É ANCESTRAL


Pegando num trabalho de muita pesquisa apresentado o ano passado, com base na vertente profissional que, entretanto, desenvolvera durante quatro décadas, e para dissipar algumas dúvidas sobre a longevidade das preocupações pelo bem-estar das pessoas, e seus familiares, ao longo dos séculos, mormente aquando de revés nas suas vidas, quero aproveitar para dele respigar algumas partes bíblicas ou de leis emergentes na Antiguidade.
Sobre este tema me referi também neste mesmo espaço, há um ano, sob o título “A Usura e a Igreja”.
Vejamos: No IV milénio a. C. já os mercadores da Mesopotâmia percorriam longas distâncias com fins comerciais. Para obviar os riscos das enormes viagens organizavam-se em caravanas, nas quais se integravam também guias, escoltas, sacerdotes e auxiliares em elevado número.
Entre os séculos XIII e XII a. C., Moisés prescreve que a nação de Israel contribua periodicamente com uma parte do seu produto para os levitas, os estrangeiros, as viúvas e os órfãos.
Os fenícios de Tiro que construíram o Templo e o Palácio de Jerusalém, no tempo do rei Salomão, entre 970 a 930 a.C., organizaram-se também para fazer face às adversidades ocorridas no seu trabalho.
Tudo indica que no ano 582 a. C., houve um caso equivalente ao estabelecimento de uma pensão vitalícia. De facto, pode ler-se na Bíblia: “No trigésimo sétimo ano do cativeiro de Joiaquin, rei de Judá, no vigésimo sétimo dia do décimo segundo mês, Evil-Merodac, rei da Babilónia, no primeiro ano do seu reinado, fez mercê a Joiaquin, rei de Judá, e libertou-o. Falou-lhe benevolamente, e deu-lhe um trono mais elevado que os dos reis que estavam com ele na Babilónia, tirou-lhe as vestes de prisioneiro e, até ao fim da sua vida, Joiaquin comeu à mesa do rei. O seu sustento foi-lhe assegurado pelo rei, durante toda a sua vida, dia após dia”.
Certo é que com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, provoca o desaparecimento das bens estruturadas instituições públicas romanas de solidariedade social.
O Talmud da Babilónia refere também uma forma de solidariedade ligada às viagens marítimas nos seguintes termos: “Os navegadores podem acordar entre si que, se um deles perde o seu navio, ser-lhe-á construído um outro. Se um deles perde o seu navio por sua culpa, não há obrigação de lhe dar outro. Se ele o perdeu por ir a uma distância onde os navios não vão normalmente, não há obrigação de lhe construir um outro”.
Já no Código de Hamurabi se dispunha no seu número 48: “Se alguém tiver uma dívida, e se o deus Adad inundou o terreno, se uma inundação o levou, ou se, por falta de água, a cevada não cresceu no terreno, não terá que entregar a cevada ao credor: molhará a tábua (de argila, destruindo as convenções ali escritas) e, portanto, não entregará os juros devidos por aquele ano”.
Reportando-nos à cobrança de impostos, vemos como no tempo de Jesus eram vistos os funcionários romanos, sendo conhecido o caso de Zaqueu que subiu para um sicómoro para ver passar Jesus e se arrependeu da sua conduta profissional. As leis romanas admitiam o mutum, mas trataram diferencialmente a questão do juro. Enquanto a lei Genucia (342 a. C.) o proibia, a lei Duilia Menenia (357 a. C.) mantinha o direito ao juro sem fixar limitações. Já a Lei da Doze Tábuas (450 a. C.) limitou o juro máximo dos empréstimos a 12% ao ano. No entanto, houve mesmo épocas em que os especuladores romanos chegaram a cobrar de juros 48% ao ano. Marcus Julius Brutus, 84 a 42 a.C., líder político militar romano, um dos assassinos de Júlio César, foi um dos prestamistas que emprestava a este juro.
Os astrágalos, os dados, assim como os sorteios e outros meios aleatórios eram também usados para sondar a vontade de Deus quando havia que tomar uma decisão importante. Exemplos destes rituais encontram-se nos livros do Antigo Testamento.
No livro de Números, cap. 33, nº 54, está escrito: “E por sortes herdareis a terra, segundo as vossas famílias; aos muitos multiplicareis a herança, e aos poucos diminuireis a herança; conforme a sorte sair a alguém, ali a possuirá; segundo as tribos de vossos pais recebereis as heranças”.
No livro Provérbios, cap. 16, nº 33 refere-se que “a sorte se lança no regaço, mas o Senhor procede toda a determinação”.
Diga-se de passagem, que estas práticas tiveram a desaprovação dos teólogos desde Santo Agostinho precisamente porque tais expedientes “forçavam Deus a opor-se à sorte”.
Nos tempos que correm, para proteção dos trabalhadores, foi instituído o salário mínimo nacional, mas, por outro lado, não foi criada legislação para que o salário máximo não suba para os céus, numa analogia com os juros atrás referidos da especulação romana de então.

(In "Notícias da Covilhã", de 23-05-2019)