27 de março de 2026

A República e a Igreja: ecos do conflito na Covilhã

 

A Implantação da República Portuguesa, a 5 de outubro de 1910, marcou o início de um período de forte tensão entre o novo regime republicano e a Igreja Católica. Esse período é frequentemente descrito como de acentuado anticlericalismo e de conflito entre o poder político e a religião.

Logo após a mudança de regime foram retomadas antigas leis pombalinas e liberais que proibiram a presença de congregações religiosas em Portugal. Os Jesuítas foram dos primeiros atingidos, sendo expulsos do país poucos dias depois da implantação da República, a 10 de outubro de 1910. Outras ordens religiosas seriam igualmente extintas e os seus bens confiscados pelo Estado.

Um momento decisivo foi a promulgação da Lei da Separação do Estado das Igrejas, assinada por Afonso de Costa a 20 de abril de 1911. Esta lei estabeleceu formalmente a separação entre o Estado e a Igreja, mas incluiu medidas consideradas hostis pelos meios católicos, como restrições ao culto público, limitações ao uso de vestes religiosas e interferências na administração de bens eclesiásticos.

Paralelamente, o novo regime promoveu uma forte política de laicização da sociedade: o ensino religioso foi retirado das escolas e símbolos religiosos, como o crucifixo, desapareceram das salas de aula.

Em vários pontos do país registaram-se também episódios de violência anticlerical, incluindo ataques a edifícios religiosos, destruição de imagens e restrições a manifestações públicas de fé, como o toque dos sinos.

Muitos republicanos, influenciados pelo positivismo e por correntes laicizantes, viam a Igreja como um dos pilares da monarquia e um obstáculo à modernização do país. A hierarquia católica reagiu com firmeza publicando uma pastoral coletiva contra a legislação de 1911, o que contribuiu para um clima que alguns contemporâneos designaram como verdadeira “guerra religiosa”.

Este ambiente de conflito apenas começou a atenuar-se durante o governo de Sidónio Pais, em 1917.

Também na Covilhã se sentiram os efeitos desta nova realidade política. Em 14 de agosto de 1911, a Comissão Municipal Administrativa dirigiu um pedido ao Governo para que fosse cedida ao município a Igreja de S. Tiago e a casa anexa, residência dos Jesuítas. No documento afirmava-se que a cidade, importante centro industrial então conhecida como “Manchester Portuguesa”, esperava finalmente ver atendidas as suas necessidades após décadas de abandono.

O pedido justificava-se com objetivos práticos: instalar nos edifícios serviços municipais e repartições públicas, evitando pagamento de rendas e dotando a cidade de instalações condignas.

Anos depois, segundo atas da Câmara Municipal de 30 de junho de 1913, a Comissão Administrativa tomou posse da igreja paroquial de São Pedro. O edifício seria posteriormente destinado à demolição, após publicação de editais convidando eventuais interessados a reclamar lápides funerárias ou a exumação de ossadas existentes no interior do templo.

Outros documentos da época revelam igualmente o ambiente de suspeição e vigilância que se vivia. Num ofício de 24 de abril de 1911, a Câmara comunicava ao Governo informações sobre uma mulher que regressara de Espanha após ter ido confessar-se e cumprimentar o conhecido Jesuíta Padre Cruz que esteve em S. Tiago, na Covilhã. O simples facto de transportar pequenas imagens religiosas levantou suspeitas de que pudessem transportar correspondência clandestina.

Estes episódios ilustram como as grandes transformações políticas nacionais tiveram reflexos concretos na vida local e no quotidiano das populações.

Recordo-me ainda de que, anos mais tarde, na antiga casa dos Jesuítas funcionou o Tribunal Judicial da Covilhã, onde acompanhei meu pai em algumas ocasiões para tratar de assuntos relacionados com os meus avós maternos.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 26-03-2026)


18 de março de 2026

A PRIMEIRA VIAGEM DE COMBOIO EM PORTUGAL


 

Foi muito atribulada a inauguração da via-férrea em Portugal, nesse já distante ano de 1856.

As senhoras usavam enormes decotes que lhes deixavam os ombros nus, saias de balão e totós no cabelo; os cavalheiros iam de casaca justa, calças de fantasia e cartola muito alta. Mas o dia da inauguração do transporte ferroviário em Portugal – esse romântico 28 de outubro de 1856 – ficou marcado por alguns percalços.

O troço pioneiro unia Lisboa (Santa Apolónia, então também chamada estação do Cais dos Soldados) ao Carregado. A locomotiva da composição festiva, que levava o rei D. Pedro V a bordo, avariou-se. No regresso do Carregado foram sendo deixadas carruagens de convidados pelo caminho, porque a máquina, adquirida em segunda mão, não tinha potência suficiente para as rebocar.

 À noite, andavam ainda lacaios pela linha, com archotes, à procura dos “náufragos” do progresso. As damas, tentando soerguer um pouco as saias com as mãos níveas, jamais esqueceriam o pesadelo.

Os inimigos do novo meio de transporte – e eram muitos, alguns deles insuspeitos, como Almeida Garrett – riam às gargalhadas. Mas ninguém podia negar a evidência: pretendia-se, dentro de pouco tempo, unir Lisboa ao Porto em cerca de 12 horas, quando, num tempo que não havia estradas dignas desse nome, uma viagem entre as duas principais cidades do país demorava cinco dias em liteira e um dia e meio na mala-posta, o nome correntemente dado à diligência.

Além disso, os assaltos levados a cabo por bandoleiros eram frequentes, razão pela qual muitas pessoas preferiam viajar de barco ao longo da costa.

Não obstante os azares inaugurais, o novo meio de transporte tornou-se, em breve, uma realidade de indiscutível valor económico e social, tanto em Portugal como no mundo, facilitando a deslocação de pessoas e bens e tornando a vida mais prática.

Portugal, como seria de prever, não foi dos primeiros países a dispor de comboio. O pioneiro foi a Inglaterra, onde as locomotivas começaram a apitar em 1825.

Escutemos agora algumas reações de figuras conhecidas à “revolução do comboio”.

Almeida Garrett, progressista em política, não entendeu bem o alcance do novo meio de transporte e, nas Viagens da Minha Terra, escreve: “Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal! Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode”.

Já Alexandre Herculano conseguiu ver para lá do imediato, ao considerar que a máquina a vapor é “um dom do céu, um instrumento do progresso legítimo (…) como o foram o arado, o navio, a imprensa”.

Pinheiro Chagas, por seu lado, constatou que “dantes o ronceiro ónibus ou a pacata diligência anunciavam que partiam às oito horas e partiam sempre às nove”, ao passo que “a locomotiva parte sempre à hora anunciada”.

Quanto a Ramalho Ortigão, reconheceu que a “locomotora” é uma “grande imagem do progresso, inquieta, ansiosa, arquejante como ele”.

Do que não restam dúvidas é que há uma História antes do comboio e outra depois do advento.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-03-2026)

 

13 de março de 2026

O ÚLTIMO COMBATE DO NAVIO-PATRULHA

Enquanto aguardo a apresentação do meu último livro – “100 anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes – 1926 – 2026”, prevista para o próximo mês de maio, embora com a obra já encerrada, continuo na minha pesquisa sobre mais acontecimentos deste período bélico.

Assim, numa consulta à obra de Luís Almeida Martins – “Histórias da História de Portugal” – deparei-me com o relato do último combate do navio-patrulha Augusto de Castilho.

Menos de um mês antes do armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, o conflito ainda fez correr sangue luso, numa ação que permanece no imaginário nacional.

O navio-patrulha de alto mar Augusto de Castilho partira de Lisboa na tarde de 8 de outubro de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Carvalho Araújo. A sua missão consistia em escoltar até à Madeira o vapor Beira. Faltava menos de um mês para terminar a guerra, mas os submarinos alemães continuavam a representar uma forte ameaça no Oceano Atlântico.

Chegados ao Funchal no dia 11, sem incidentes, os dois navios, o patrulha manteve-se ao largo em quarentena, devido à pneumónica que grassava em Lisboa. Entretanto, foi incumbido de escoltar até Ponta Delgada o vapor São Miguel, da Companhia Insulana de Navegação, com cerca de duas centenas de passageiros a bordo. Partiu logo dois dias depois da chegada, a 13.

Pouco depois das 6 horas da madrugada de 14 de outubro emergiu das águas o submarino alemão U – 139, comandado por Lothar von Arnault de la Perière – nada mais, nada menos do que o maior “às” dos submarinos de toda a História, com um impressionante palmarés de 194 navios e 453 716 toneladas de arqueação bruta afundados nas duas guerras mundiais.

La Perière abriu fogo sob o São Miguel, ao que Carvalho Araújo respondeu mandando lançar caixas de fumo na sua direção, criando assim uma barreira visual. Quando já não havia mais caixas de fumo, para proteger o São Miguel e os seus passageiros só restava ao Augusto de Castilho avançar resolutamente de encontro ao U – 139, expondo-se ao fogo do canhão da torreta e dando tempo ao vapor de passageiros para se afastar.

O combate, desesperado, arrastou-se por duas horas, fazendo vítimas do lado português. Ao fim desse tempo, o Augusto de Castilho, já sem munições, com as máquinas atingidas e a TSF danificada, estava irremediavelmente condenado. Quando apresentava a rendição, um último tiro dos alemães atingiu em cheio o primeiro-tenente Carvalho Araújo, que teve morte imediata.

Os 48 portugueses sobreviventes obtiveram autorização de La Perière para lançar ao mar um salva-vidas e um bote, onde se comprimiram. O submarino meteu então no fundo o Augusto de Castilho, levando consigo os corpos de Carvalho Araújo, envolto na bandeira verde-rubra, e dos restantes mortos em combate.

O salva-vidas alcançou, no dia 16, a ilha açoriana de Santa Maria, e o bote chegou, no dia 20, à ilha de São Miguel, no concelho do Nordeste.

Não foi este o único combate do Augusto de Castilho. A 23 de março de 1918 pusera em fuga um submarino alemão quando escoltava o vapor Luanda entre Lisboa e o Funchal. E,

a  21 de agosto do mesmo ano, abrira fogo com sucesso, sobre outro U – Boot, ao largo do Cabo Raso, em Cascais.

No início de 1917, a Alemanha declarou guerra submarina ilimitada no Atlântico, incluindo ataques a navios neutrais, como os do Brasil, tendo sido essa a causa direta da declaração de guerra por parte dos Estados Undos da América. Ao longo do conflito, cerca de metade da frota mercante britânica foi afundada pelo U – Boote.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-03-2026)


 

4 de março de 2026

MILAGRE DE TANCOS



 

Chamou-se “milagre” à preparação, em 1916, de camponeses maioritariamente analfabetos para a luta na guerra das trincheiras. Mas os taumaturgos deixaram muito a desejar.

Nada tem de sobrenatural, e se alguma graça o envolve é a involuntária ironia da designação.

A Alemanha tinha declarado guerra a Portugal em 9 de março de 1916. A decisão de Berlim não constituiu surpresa significativa, pois Portugal tudo fizera para que isso acontecesse, a começar pela “requisição” de todos os navios germânicos que se encontravam em portos nacionais – e eram mais de 70 os que, surpreendidos pela eclosão da guerra, aqui se tinham acolhido. O hastear da bandeira verde-rubra nesses navios fora “sugerido” pela Inglaterra, num memorando. Estes barcos, colocados ao serviço da causa dos Aliados (Inglaterra, França e Rússia) contra os Impérios Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia otomana) serviam de moeda de troca entre Lisboa e Londres, que reafirmava o compromisso de defender as nossas colónias das ambições germânicas.

Mas se Portugal já combatia em Angola e Moçambique contra forças provenientes das colónias alemãs vizinhas, a passagem ao estatuto de país beligerante não subentendia necessariamente que soldados nossos fossem combater numa das frentes principais da guerra. Os próprios aliados britânicos não estavam inicialmente interessados no envio de tropas portuguesas para a frente europeia, preferindo que Portugal se limitasse a não assumir neutralidade formal. No entanto, os soldados portugueses seguiriam mesmo para a frente ocidental, por decisão do Governo de Afonso Costa, logo sucedido por um Executivo multipartidário, chamado de “União Sagrada”. A República fora implantada poucos antes, em 1910. As novas autoridades, ainda numa relativa penumbra internacional, precisavam de um grande palco que lhes desse visibilidade. Adicionalmente, o provável triunfo dos Aliados colocaria o País entre os vencedores, com direito a assento na mesa das conversações de paz; ou seja, estava garantida a manutenção da posse das colónias.

Começaram então a ser mobilizados jovens camponeses de todo o País, na maioria analfabetos e sem outros horizontes para além dos que abrangia a vista da sua aldeia. Desconheciam os motivos pelos quais iriam combater. Transformar em soldados esses homens alheados da política internacional foi o que se chamou “milagre de Tancos”, numa referência ao campo de exercícios militares na zona de Abrantes para onde convergiram. Mas… terá o “milagre” merecido o nome que lhe deram?

Quando, em janeiro de 1917, os primeiros dos nossos desembarcaram em Brest, para daí seguirem de comboio até ao front, verificaram que a guerra para que tinham sido instruídos nada tinha que ver com a guerra em que iam combater. Os Ingleses descobriram com espanto que os seus aliados meridionais nunca tinham visto uma metralhadora Lewis, a arma que mais iriam usar nas trincheiras, e que as grandes peças de artilharia também lhes eram desconhecidas. Foi por isso necessário dar-lhes novamente instrução, em terras francesas.

O mito do “milagre de Tancos” cairia por terra na dramática madrugada de 9 de abril de 1918, quando o Corpo Expedicionário Português foi destroçado em La Lys. Os motins surgidos entre as tropas, fruto de impreparação técnica, injustiças sociais e falta de esclarecimento político, prenunciavam já a tragédia.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que alterou o mapa da Europa e o Médio Oriente, opôs o chamado Triplo Entendimento (Inglaterra, França, Rússia czarista e seus aliados) aos Impérios Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia) e terminou com a vitória dos primeiros. Até 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, ficou conhecida simplesmente como Grande Guerra.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-03-2026)