14 de outubro de 2020

150 ANOS DA CIDADE DA COVILHÃ, 110 ANOS DA IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA

 

Como a Covilhã viu a chegada da República ao País

 

Todos nós, face ao longevo das datas, temos conhecimento dos acontecimentos por via da história, a nossa história, dos nossos avós, num contexto de fazermos parte da integração da própria História de Portugal.

Numa quinta-feira do dia 20 de outubro de mil oitocentos e setenta, D. Luís I, monarca português, reconhecia a Covilhã com a sua elevação à condição de Cidade, por ser “uma das villas mais importante do reino pela sua população e riqueza”.

Falar de figuras proeminentes da história covilhanense, da sua génese e da sua indústria e laboriosa luta das gentes covilhanenses, dos grandes empreendimentos e dos imensos anseios, da cidade universitária de hoje, já muito foi dito ao longo de muitos momentos nestes tempos que vão passando, e se encontram nos seus anais.

Tal como no centenário da elevação da Covilhã a Cidade, acontecido a uma terça-feira também o mesmo surgirá no mesmo dia de semana, nos seus 150 anos.

Mas porque muito pouco se ouve falar da Implantação da República, ocorrida há 110 anos, trago à curiosidade de quem gosta das efemérides, as reações que surgiram na Cidade da Covilhã por força dos acontecimentos surgidos, alongando-me na retrospetiva do assassinato de D. Carlos I, cujo Regicídio ocorreu naquele sábado do primeiro dia de fevereiro de 1908.

Na reunião da Comissão Administrativa Municipal, realizada em 12/02/1908, presidida pelo Dr. João das Neves, e com a presença dos vogais, Dr. Alfredo Leal dos Santos Gascão, Guilhermino de Melo e Castro, José da Fonseca Teixeira e António Bernardo da Fonseca e Cunha, além do Administrador do Concelho, José Maria de Campos Mello, o vogal, Guilhermino de Mello e Castro propôs que se celebrassem solenes exéquias em sufrágio das almas de Sua Majestade o Senhor D. Carlos I, e de Sua Alteza o Príncipe Real, D. Luís Filippe.

Por proposta do vogal, Sr. Teixeira, deliberou a Comissão adquirir um retrato de Sua Majestade El-Rei D. Manuel II, para a sala das sessões. Foram recebidos telegramas de Suas Majestades El-Rei e das Rainhas D. Amélia e D. Maria Pia, agradecendo as condolências da Comissão.

“Aos seis dias do mês de Maio de mil novecentos e oito, pelas duas horas da tarde, nos Paços do Concelho e de regresso de solene Tedeum celebrado na Igreja de Santa Maria Maior desta cidade, a que todos os abaixo assinados assistiram em acção de graças pela aclamação de Sua Majestade El-Rei D. Manuel II, tendo feito a guarda de honra o Regimento de Infantaria 21, constituiu-se em sessão extraordinária e solene a Câmara Municipal da Covilhã, sob a presidência do Exmº. Senhor Dr. Luís Neves Alves Batista (…)”.

Sobre a Implantação da República em 5 de outubro de 1910:

11 de outubro de 1910 – “Nos Paços do Concelho, pelas duas horas da tarde, onde se reuniu muito povo e oficialidade do Infantaria 21, compareceu o cidadão Senhor António Firmo, que, assumindo a presidência da Assembleia leu um alvará do Exmº Governador Civil do distrito de 10 do corrente que nomeia a seguinte COMISSÃO para administrar os negócios deste município, em substituição da antiga CÂMARA MUNICIPAL. Presidente – António Firmo. Vogais efectivos – Júlio Henriques Nunes da Cruz, José Maria Rodrigues Garcia, João Alves da Silva, João da Silva Matos, Carmeno Supardo Bárbara, José Ferreira Bicho, Manuel d’Almeida Ribeiro, Luís Rodrigues Marques. Vogais substitutos – José Miraldes Tavares Cardona, Carlos Palhina, Manuel Olegário das Neves, João Paulo Rato, José Ferreira de Campos Dourado, José Ferreira Mendes de Castro, João António Moreira Leitão, José d’Almeida Teixeira, Manuel Lino Roseta (…)”.

Entretanto, já na reunião do dia anterior, o Presidente em exercício, José da Fonseca Teixeira disse “que tendo sido proclamada a República Portuguesa no dia 5 do corrente, na Capital, e sabendo por comunicação de seus colegas o desejo que tinham de aderir a este regime, justamente também nesta cidade, a República, convocara para esse fim uma sessão extraordinária, levando ao conhecimento do Exmº. Comandante Militar, no dia 8 do corrente, o desejo desta Corporação.

A Câmara, aprovando a resolução do Senhor Presidente, deliberou por unanimidade, interpretando o sentir de todos os munícipes do concelho, proclamar desde já, com toda a solenidade, a República Portuguesa; e com manifestação de regozijo ainda pelo advento de um regime de que tanto necessitava o país, a fim de resolver todos os problemas económicos e progresso para o seu desenvolvimento e bem-estar – levantar a sessão – dar feriado a todos os seus empregados e enviar ao Exmº. Presidente do Governo Provisório da República o seguinte telegrama: A Câmara Municipal da Covilhã, reunida em sessão extraordinária, interpretando o sentir unânime dos munícipes de todo o concelho, aderiu à proclamação da República Portuguesa, saúda e felicita o Governo Provisório e faz votos pela prosperidade da sua querida Pátria.

Pelo Senhor Vereador Dr. Alfredo Gascão, foi proposto e aprovado pela Câmara, retirar da sala das sessões o retrato do rei deposto, ficando em seu lugar o estandarte do município para ser substituído oportunamente pelo busto simbólico da República. Em seguida, foi também deliberado iluminar hoje o edifício dos Paços do Concelho, e que desta acta se envie cópia ao Exmº. Comandante Militar”.

José da Fonseca Teixeira foi sócio fundador dos Bombeiros Voluntários da Covilhã e nomeado Comandante da Corporação em 14/12/1886 e também Presidente da Direção. Foi ainda o primeiro Diretor da Escola Industrial Campos Melo e seu professor.

Nas Comemorações dos 150 anos da elevação da Covilhã a Cidade, votos do maior progresso em prol dos Covilhanenses de raiz e de coração. Parabéns à Covilhã!

(In "Notícias da Covilhã", de 15-10-2020)

 

QUANDO UM PRESIDENTE ENTRA COM A MONARQUIA E SAI COM A REPÚBLICA

 A data de 5 de outubro de 1910 foi há 110 anos. Os pontos nevrálgicos da passagem de testemunho forçado, da Monarquia para a República, passaram-se na Rotunda – a Praça Marquês de Pombal assim oficialmente denominada desde 1882, embora popularmente seja ainda hoje conhecida como Rotunda, tanto pela sua configuração pouco comum na época, como por esta denominação ter sido reforçada na memória dos lisboetas pelo nome de estação do Metropolitano de Lisboa, que durou desde a sua inauguração em 29 de dezembro de 1959 até 1998. Só a partir desta data, a estação, já com duas linhas diferentes, passou a denominar-se Marquês de Pombal.

O nome popular de Rotunda individualizou-se por então as Rotundas serem pouco frequentes. Passou também a fazer parte da história por ter sido o local de concentração dos Republicanos no 5 de outubro de 1910.

Efetivamente, o regime político que vigorou em Portugal entre 1143 e 1910 – a Monarquia – composto por quatro dinastias sucessivas (Borgonha ou Afonsina, Avis, Filipina e Bragança), teve os seus êxitos. Sobressaíram-se as grandes conquistas que alargaram o território do País, e os descobrimentos que contribuíram para a primeira globalização e de novos mundos. Mas também teve os seus fracassos. Estes trouxeram consequências desastrosas para Portugal. Salientaram-se assim a Batalha de Alcácer Quibir, as Invasões Francesas e o Ultimato Britânico de 1890. Desta feita os senhores britânicos desrespeitaram o “Mapa Cor-de-Rosa” como agora querem desrespeitar o Brexit. Também a subjugação do país aos interesses coloniais britânicos, os gastos da família real, o poder da Igreja, a instabilidade política e social; depois a ditadura do beirão João Franco (natural do Alcaide, Fundão), Presidente do Conselho de Ministros; e a aparente incapacidade de acompanhar a evolução dos tempos e de se adaptar à modernidade levou a um “inexorável processo de erosão da monarquia portuguesa” do qual os defensores da República souberam tirar o melhor proveito. Foi o Partido Republicano que se apresentava como o único que tinha um programa capaz de devolver ao país o prestígio perdido e colocar Portugal na senda do progresso.

Fazendo uma retrospetiva de períodos antecedentes, depois do regime absolutista até à segunda década do século XIX, grupos militares do Porto conseguem impor-se fortemente no Campo de Santo Ovídeo (atual Praça da República) no dia 24 de agosto de 1820 e, pacificamente, depois de uma missa campal, proclamaram solenemente o Manifesto aos portugueses, exigindo a convocação de Cortes para elaborar uma Constituição. Foi a base da ação e da vitória das forças liberais de D. Pedro, depois do desembarque dos bravos do Mindelo em julho de 1832. Esta Revolução de 1820 deu lugar à Constituição de 1822. Sobre este assunto já me havia referido num outro artigo.

Volvidos 70 anos da Revolução Liberal do Porto surge o Ultimato Britânico como atrás verificámos, e, no reinado de D. Carlos, a pronta cedência às exigências britânicas foi vista como uma humilhação nacional, iniciando-se um profundo movimento de descontentamento em relação ao monarca, à família real e à instituição da monarquia, vistos como responsáveis pelo alegado processo de decadência nacional. A situação agravou-se com a crise financeira ocorrida na última década do século XIX, quando as remessas dos emigrantes do Brasil caíram abruptamente. Os republicanos souberam aproveitar este descontentamento e iniciaram um crescimento e alargamento da sua base social de apoio que acabaria por culminar no derrube do regime.

Na cidade do Porto, no dia 31 de janeiro de 1891 registou-se um levantamento militar contra a monarquia constituído principalmente por sargentos e praças. Os revoltosos, que tinham como hino uma canção – A Portuguesa – tomaram os Paços do Concelho e proclamaram a implantação da República em Portugal. O movimento acabaria pouco depois por ser sufocado, resultando nalguns mortos e feridos e muitos deles condenados, sendo A Portuguesa proibida. Este símbolo nacional de Portugal nasceu como uma canção de cariz patriótico em resposta ao ultimato britânico que defendia o abandono das posições portuguesas em África no território compreendido estre as colónias de Moçambique e Angola. Daí que, ainda que sem autenticidade, se tenha considerado que a parte dos versos do hino “Pela pátria lutar! Contra os canhões marchar, marchar!” tivesse sido inicialmente “Contra os bretões, marchar, marchar!”. Foi a primeira grande ameaça sentida pelo regime monárquico. Apesar dos evidentes êxitos eleitorais alcançados pelo movimento republicano, o setor mais revolucionário do partido pedia a luta armada como melhor meio de tomar o poder a curto prazo. E assim, surge o regicídio de 1908, com o assassinato de D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe, tendo também morrido os regicidas Manuel Buíça, professor primário, e Alfredo Costa, empregado do comércio e editor.

Já no ano 1910, com o D. Manuel II à frente dos destinos de Portugal, a 3 de outubro deste ano estalou a revolta republicana que já se avizinhava no contexto da instabilidade política. Esta acabou por suceder graças à incapacidade de resposta do governo de Teixeira de Sousa, que não conseguiu reunir tropas que dominassem os cerca de duzentos revolucionários que na Rotunda resistiam de armas na mão.

Entretanto, encontrava-se de visita de Estado a Portugal o presidente brasileiro Hermes da Fonseca. Na véspera do 5 de outubro, com as tropas da guarnição da cidade de prevenção, o presidente brasileiro ofereceu a D. Manuel II um jantar em sua honra, tendo depois o monarca português recolhido ao Paço das Necessidades. As gentes em prol da República encontravam-se agitadas e não dormiam. Havia tiroteio aqui e ali. Até o almirante Cândido dos Reis se suicidou pensando que tudo falhara e a implantação da República não ia por diante. Entretanto, lá estava novamente a Rotunda, num aparente sossego que desalentava de tal maneira os revoltosos que os oficiais acharam melhor desistir. Mas a persistência de Machado dos Santos, ao assumir o comando, toma uma decisão que viria a ser fundamental para o sucesso da revolução. Entretanto, D. Manuel II recusou-se a partir mas viu-se obrigado a refugiar-se numa pequena casa no parque do palácio de onde conseguiu telefonar a Teixeira de Sousa. Foi aconselhado a chamar a Mafra as rainhas D. Amélia e D. Maria Pia que estavam nos Palácios da Pena e da Vila, em Sintra, preparando-se para seguir para o Porto para aí organizar a resistência. À noite do dia 4 a moral encontrava-se baixa entre as tropas monárquicas.

Às 9 horas da manhã, no edifício da Câmara Municipal de Lisboa, era proclamada a República por José Relvas, após o que foi nomeado um Governo Provisório.

D. Manuel II, com a família, via-se forçado a seguir para o exílio em Londres.

Em 1910, a grande maioria dos Estados europeus eram monarquias. Apenas a França, Suíça e San Marino eram repúblicas.

Como o presidente do Brasil, marechal Hermes da Fonseca, presenciou pessoalmente todo o processo de transição do regime, tendo chegado a Portugal em visita oficial quando o país ainda era uma monarquia e saída já na república, não foi de estranhar que tenha sido o Brasil o primeiro país a reconhecer de jure o novo regime político português.

(In "Jornal fórum Covilhã, de 14-10-2020)

2 de outubro de 2020

Jornal "O OLHANENSE" - Falando com o nosso colaborador João Nunes

 

Natural da Covilhã, João de Jesus Nunes é colaborador do nosso jornal vai para mais de vinte anos e, por esse facto, muitos nos questionam quem é este Homem que nos escreve da Região mais alta de Portugal, com a pontualidade de um relógio suíço. Aqui mantém uma rubrica de elevado interesse, muito apreciada pelos nossos leitores.

Para sabermos tudo isso e muito mais, já que a tecnologia assim nos permite, “conversámos” com este homem de letras que foi funcionário de uma Companhia de Seguros e depois empresário na atividade seguradora, e hoje, como passatempo, vai escrevendo para diversos periódicos de entre os quais o jornal “O Olhanense”.

Feita esta breve apresentação, “disparámos” a primeira pergunta:

 


Jornal “O Olhanense” (JO): - Apesar da nossa apresentação, diga-nos quem é verdadeiramente João de Jesus Nunes e como surgiu o gosto pela escrita.

João de Jesus Nunes (JN): - Em primeiro lugar quero agradecer o amável convite deste quinzenário, na pessoa do seu diretor adjunto e amigo Mário Proença. Nasci num lugar paradisíaco, a Pousadinha, pertencente à freguesia de Aldeia do Carvalho, hoje vila, do concelho da Covilhã, e que atualmente integra a União das Freguesias de Cantar-Galo e Vila do Carvalho. A minha génese provém de uma família simples e que foi repleta de dificuldades, como a maioria das pessoas da época, pós-II Guerra Mundial. Sou o segundo de seis irmãos, tendo já falecido duas irmãs. Paradoxalmente, o lugar, apesar de paradisíaco, não possuía na altura as infraestruturas necessárias para uma habitação condigna, entre as quais, eletricidade, água canalizada e saneamento. Um dos pecados do Estado Novo e dos seus séquitos autárquicos, por mais vontade que tivessem para alterar um estado mórbido desses tempos.

Depois, os iletrados eram de uma enorme percentagem, o que dificultava a convivência cultural, onde o ponto de reunião eram as tabernas, e, durante a semana, após o regresso das fábricas de lanifícios onde se empregava a maioria da população (mesmo ainda menores), aproveitavam as horas que sobravam dos tempos livres para tratar dos seus pequenos terrenos agrícolas.

JO: - Tendo nascido na Pousadinha, lugar paradisíaco mas de muitos iletrados à altura, como refere, quanto tempo lá viveu e como se sentiu nesse ambiente?

JN: - Ali vivi com os meus pais e irmãos, todos vindos ao mundo em casa, excetuando-se o mais novo que já viria a nascer na maternidade do hospital da Covilhã; os avós e tios até aos sete anos de idade, sendo que nós éramos os mais velhos de todos os primos que viriam a nascer. Fica-me na memória toda a paisagem envolvente em zona de pinhal, e, no horizonte, os casarios que identificávamos serem a Covilhã, a quatro quilómetros, e as freguesias rurais e de outros concelhos limítrofes, mais distantes. Não havendo ali energia elétrica, as noites de luar ajudavam um pouco as deslocações no escuro dos caminhos, onde surgiam muitos pirilampos; e as miríades de estrelas davam mais a nitidez da grandiosidade do Universo na pequenez do Planeta e, acima de tudo, de nós como humanos. Havia o sossego que contrastava, a poucos quilómetros, com o barulho ensurdecedor dos teares das fábricas de lanifícios.