7 de maio de 2026

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA JOÃO RUI CALAIS FRADE

João Rui Calais Frade nasceu em Milanje, no distrito de Quelimane, em Moçambique, a 6 de março de 1952. Foi também naquela terra africana que iniciou os seus estudos, fazendo ali a instrução primária, hoje designada Ensino Básico.

Mais tarde viria para Portugal, então designado por Metrópole, para prosseguir a sua formação. Em Tomar frequentou, como aluno interno durante seis anos, o Colégio Nun’Álvares. Apesar da distância, havia já uma ligação à Covilhã, onde passava as férias em casa de familiares.

No 6.º ano regressou a Moçambique para concluir os estudos. A decisão tinha um motivo claro: cumprir o serviço militar obrigatório na sua terra natal e não noutras colónias. Tinha então apenas 17 anos.

Aos 20 anos seria incorporado no serviço militar. Corria o ano de 1972. A recruta iniciou-se em Lourenço Marques – hoje Maputo – a 2 de fevereiro de 1973.

Durante essa fase foi selecionado para os Comandos, como atirador, tendo frequentado o Curso de Comandos em Montepuez, na província de Cabo Delgado. Desempenhou frequentemente a função de rebenta-minas. Mais tarde seria promovido a aspirante a oficial miliciano e, aquando da mobilização para combate contra os guerrilheiros da Frelimo, ascenderia ao posto de alferes miliciano.

Recorda assim esse período da sua vida:

“A Guerra Colonial no Niassa (1964-1974) foi uma frente crítica no norte de Moçambique. Era uma guerra marcada pela guerrilha intensa, pelo uso de minas por parte da Frelimo e pelo isolamento de muitos aquartelamentos portugueses. A região de Vila Cabral – hoje Lichinga – e Marrupa foi palco de combates severos, enquanto a Frelimo criava zonas libertadas e as forças portuguesas enfrentavam um terreno difícil e ataques frequentes a viaturas.

As fotografias com helicópteros referem-se a uma operação helitransportada destinada a destruir bases da Frelimo no norte do Niassa. O abastecimento dos helicópteros foi feito no destacamento de Chipembe, pertencente à 2ª CCAÇ/BCAÇ19.

A fotografa da coluna reporta-se a mais um golpe de mão a uma base da Frelimo, partindo na frente da mesma o alferes João Frade, seguido do furriel Marto – já falecido – e o terceiro elemento da coluna é um carregador e guia, ex-guerrilheiro da Frelimo. Era prática comum que oficiais e sargentos tivessem o apoio de carregadores indígenas para o transporte de parte da sua bagagem e equipamentos pessoais durante as operações no mato.

Tive oportunidade de captar essas imagens porque, em finais de 1973, me encontrava a comandar esse aquartelamento.

Este posto avançado da companhia sediada em Nanlicha era o ponto de partida para muitas das operações realizadas pela densa mata em direção às bases da Frelimo. Os trilhos eram muitas vezes indicados por guias contratados, antigos elementos da Frelimo que se tinham juntado às nossas tropas.

Nos dois anos em que permaneci nesta companhia, além dos patrulhamentos em redor do aquartelamento e da escolta de viaturas civis e militares, participei em três operações especiais – golpes de mão – destinadas à destruição de bases da Frelimo. Tive ainda a sorte de detetar e detonar duas minas na picada.

Nanlicha era uma pequena povoação com aquartelamento situado na picada entre Marrupa e Mecula.

Recordo também um episódio particularmente trágico: em 23 de julho de 1973, um destacamento do Batalhão de Artilharia 3887 e da Companhia de Artilharia 3558, mobilizados pelo RAL3 (Évora), foi atingido por uma emboscada com fornilhos (minas) na zona da Serra da Mecula, provocando onze mortos e vários feridos.

A região de Mecula era estrategicamente muito importante no nordeste do Niassa, controlando passagens como a picada do Candulo para Marrupa.”

 Depois do 25 de Abril, o alferes miliciano João Frade passaria à disponibilidade em agosto de 1974.

Terminada a vida militar, fixou-se definitivamente na Covilhã. Na vida civil trabalhou como desenhador de máquinas na empresa SMIL, uma serralharia pertencente ao seu tio. Mais tarde viria a colaborar com o seu sogro, Júlio Afonso, como técnico de manutenção de máquinas.

Mas há também uma faceta mais artística na sua vida. João Frade tem um fascínio particular pelo desenho. Mostrou-me um álbum onde guarda numerosos trabalhos da sua autoria: vistas da Covilhã e paisagens da Serra da Estrela, executadas com grande minúcia em tinta-da-china e aguarela.

J. J. Nunes

 

(In “O Combatente da Estrela”, n.º 142, abril 2026)

 

 

 

 


 

EFEMÉRIDES DE NÚMEROS REDONDOS EM 2026

 

Vivemos tempos melancólicos e inquietantes. O nosso país e o mundo atravessam momentos difíceis, marcados por tempestades devastadoras que se sucedem umas às outras, depois de um estio prolongado e castigado por grandes incêndios.

E, para lá das nossas fronteiras, multiplicam-se conflitos que muitos já não hesitam em designar como uma espécie de “terceira guerra mundial aos pedaços”, espalhada por diversos pontos do globo e cujos ecos acabam por atingir toda a humanidade.

Talvez por isso mesmo valha a pena, de quando em quando, fazer uma pausa neste presente inquieto e olhar para a história. Recordar datas e acontecimentos que, vistos à distância, nos ajudam a compreender melhor o caminho coletivo que fomos percorrendo. Neste ano de 2026, não faltam efemérides de números redondos que merecem evocação.

Desde logo, assinala-se o Centenário do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, fundado em 16 de fevereiro de 1926. Ao longo destes cem anos, a instituição tem procurado honrar a memória de quantos conheceram as agruras da guerra, em particular os que participaram na Guerra das Colónias, conflito que marcou profundamente uma geração inteira de jovens portugueses e deixou, em muitos deles, cicatrizes físicas e psicológicas que o tempo nem sempre conseguiu apagar. As comemorações previstas procuram justamente preservar essa memória e dar a conhecer às novas gerações o papel desempenhado pelo Núcleo covilhanense.

No plano nacional, 2026 marca também os 50 anos da Constituição da República Portuguesa de 1976, a Lei Fundamental do regime democrático nascido após o 25 de Abril. Meio século depois da sua aprovação, permanece como a mais duradoura das constituições portuguesas, testemunho da consolidação de um sistema político assente na liberdade e na participação democrática.

Se recuarmos ainda mais no tempo, encontramos outra data simbólica: os 200 anos da Carta Constitucional de1826, outorgada por D. Pedro IV a partir do Brasil, onde fora aclamado imperador. Este diploma tornou-se a segunda Constituição portuguesa e a mais duradoura da nossa história constitucional, abrindo caminho às primeiras eleições cartistas realizadas nesse mesmo ano.

Também os caminhos de ferro têm a sua efeméride. Passaram 170 anos desde a inauguração da via-férrea em Portugal, ocorrida no já distante – e para muitos romântico – dia 28 de outubro de 1856, episódio marcante de um processo que, entre dificuldades técnicas e hesitações políticas, viria a transformar profundamente a mobilidade e o desenvolvimento do país.

No plano internacional, celebra-se uma data maior da história contemporânea: os 250 anos da Revolução Americana de 1776. Foi então que treze colónias britânicas da América do Norte se ergueram contra o domínio colonial e proclamaram a sua independência, dando origem aos Estados Unidos da América. Mais do que o nascimento de uma nova nação, esse movimento inaugurou uma nova ordem constitucional e política que influenciaria decisivamente o mundo moderno.

Essas treze colónias agrupavam-se em três grandes nações – Nova Inglaterra, Colónias do Centro e Colónias do Sul – e a sua afirmação política viria a alterar profundamente o curso da história mundial.

Por terras da Beira Baixa, há ainda outra efeméride digna de nota: os 80 anos da fundação do Jornal do Fundão, criado por António Paulouro, seu proprietário e primeiro diretor. Ao longo das décadas, este semanário afirmou-se como uma das mais prestigiadas vozes da imprensa regional portuguesa. Curiosamente – e permito-me aqui uma nota pessoal – nasci apenas dois meses depois do nascimento deste jornal.

Assim se vai fazendo a história: entre grandes acontecimentos mundiais e pequenas coincidências da vida de cada um. Recordar estas datas é também uma forma de reconhecer o caminho percorrido e de compreender melhor o tempo que nos cabe viver.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Combatente da Estrela”, n.º 142-abril 202

5 de maio de 2026

O 1.º de Maio no Estado Novo



 

Durante o período do Estado Novo em Portugal, o 1.º de Maio (Dia do Trabalhador) não era celebrado livremente como manifestação popular. O regime procurava esvaziar o seu significado político – historicamente associado ao movimento operário – e uma das estratégias recorrentes consistia na programação de eventos apelativos, como transmissões de futebol na Rádio e Televisão de Portugal (RTP), então ainda a preto e branco.

Embora não exista uma lista oficial consolidada dos jogos especificamente escolhidos para o 1.º de Maio, há registos e memórias consistentes de transmissões envolvendo os “três grandes”: SL Benfica, FC Porto e Sporting CP.

Podemos identificar alguns padrões. A Final da Taça de Portugal, frequentemente disputada em finais de maio, era muitas vezes integrada numa estratégia de forte promoção mediática. Em várias épocas, sobretudo nas décadas de 1960 e início de 1970, jogos decisivos ou clássicos do campeonato coincidiam com o feriado ou ocorriam em datas muito próximas.

Entre os exemplos mais citados, destacam-se:

- 1963 – Final da Taça de Portugal: Benfica vs Sporting

- 1969 (1 de maio) – Sporting vs Benfica, para o campeonato

- 1971 – Final da Taça: Benfica vs Sporting

- 1972 – Final da Taça: Sporting vs Vitória de Setúbal

- 1973 – Final da Taça: Sporting – vs Vitória de Setúbal

Para além destes casos, há referências a jogos importantes transmitidos no próprio dia ou em datas adjacentes, como:

- 1965 – Clássico Benfica vs Sporting, decisivo para o campeonato

- 1967 – FC Porto vs Benfica, no final de abril/início de maio

- 1970 – FC Porto vs Sporting, em período próximo do feriado

- 1973 – Benfica vs FC Porto, com grande destaque televisivo no dia 1 de maio

Estas transmissões concentravam a atenção pública num espetáculo desportivo altamente mobilizador. Num país onde clubes como o Benfica e o Sporting reuniam milhões de adeptos, um clássico televisivo levava famílias a permanecerem em casa ou a deslocarem-se aos cafés, reduzindo a probabilidade de mobilização social e reforçando uma imagem de normalidade e entretenimento.

O futebol funcionava, assim, como um eficaz “escape coletivo”.

Após a Revolução dos Cravos, o 1.º de Maio passou a ser celebrado livremente nas ruas, com grandes manifestações populares, deixando o futebol de desempenhar e sua função política indireta.

Historicamente, pode afirmar-se que existia uma intencionalidade na programação da RTP, privilegiando clássicos e jogos de elevada audiência. Nem sempre coincidiam exatamente com o dia 1, mas eram frequentemente colocados em datas próximas, cumprindo o mesmo objetivo.

A realidade demonstra que o regime utilizava o futebol como instrumento de distração, com alguma flexibilidade: jogos no próprio dia ou em torno do feriado, finais da Taça em maio e clássicos agendados para fins de semana contíguos.

Com base nestes padrões, é possível fazer uma reconstituição plausível da programação da RTP no dia 1 de maio de 1969

Evento central do dia

Sporting CP vs SL Benfica

Jogo da Primeira Divisão, no antigo Estádio de Alvalade, transmitido em direto pela RTP.

Este clássico terá sido o ponto alto da programação – um verdadeiro “evento nacional”, com início provável entre as 15h00 e as 16h00, mobilizando o país inteiro.

A grelha televisiva desse dia incluiria, provavelmente:

- Manhã e início da tarde: programas culturais e educativos, desenhos animados (ainda escassos) e magazines ligeiros

- Tarde: transmissão do jogo em direto

- Noite: Telejornal, sem referência a manifestações (proibidas), seguido de programas de entretenimento, como variedades, música ligeira ou teatro televisivo

Este exemplo ilustra bem a lógica do regime: evitar qualquer visibilidade do 1.º de Maio enquanto dia de luta operária e substituí-lo por conteúdos considerados “seguros”.

Em 1973, o Estado Novo encontrava-se já fragilizado. A guerra colonial prolongava-se, a contestação crescia e a tensão social era evidente. Ainda assim, o 1.º de Maio continuava sem liberdade de expressão pública e permanecia mediaticamente neutralizado.

Menos de um ano depois, dá-se a Revolução de Abril. O 1.º de Maio de 1974 transforma-se radicalmente com multidões a saírem à rua e a televisão a transmitir, pela primeira vez, manifestações populares livres.

Casei-me a 3 de maio de 1970, precisamente no período em que esta estratégia atingia o auge, com futebol, televisão e controlo político a cruzarem-se. Três anos depois, já se sentia que esse modelo se aproximava do limite.

Esta reflexão surge também por uma coincidência simbólica: “O Olhanense” sairá precisamente no dia 1 de maio, evocando estas memórias, e num momento em que o futebol continua a marcar o imaginário coletivo – como aconteceu recentemente no jogo entre FC Porto e Sporting CP, que apurou os “leões” para a final da Taça de Portugal, no Jamor.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01/05/2026)

21 de abril de 2026

O CIRCO ITINERANTE



 Porquanto já escrevi algumas vezes sobre o período que estamos a viver – a Páscoa –, tanto em jornais como em livros, e considerando que, quando os leitores lerem esta crónica, esse tempo já terá passado, resolvi mudar de assunto, ainda que apenas ocasionalmente – ou talvez não.

Isto porque, durante uma caminhada pelo denominado Complexo Desportivo da Covilhã – que, na verdade, pouco tem de complexo desportivo, face à sua degradação – surgiu-me a ideia de falar sobre o circo itinerante, ao observar a montagem do Circo Arena, com os seus enormes camiões.

Houve uma época (sobretudo até aos anos 80/90) em que os circos itinerantes eram presença quase garantida nas vilas e cidades, especialmente na primavera e no verão.

Recordo-me de, em miúdo, ver na Covilhã o Circo Arraiola Paramés, o Circo Mexicano, o Circo Alegria, entre outros que a memória já não retém. Os circos ambulantes continuam a existir, inclusive em Portugal. Numa breve pesquisa, constata-se que há várias companhias que percorrem o país ao longo do ano (como o Cardinali, Chen, Dallas, Mundial, entre outros) circulando por diferentes localidades.

A lógica de “montar e desmontar” continua a ser a base do circo tradicional itinerante. Em muitos casos, continuam a instalar-se em terrenos municipais, recintos de feiras ou zonas desportivas. Ou seja: o circo ambulante não desapareceu, mas deixou de ser tão omnipresente como outrora.

Então, o que mudou ao longo dos anos?

Verificaram-se várias transformações importantes. Desde logo, o fim quase total dos animais desde 2019. Portugal proibiu a utilização de animais selvagens em circos, com um período de transição até 2025. Esta medida alterou profundamente o modelo clássico (leões, elefantes, entre outros).

Atualmente, o foco incide sobretudo em acrobatas, ilusionismo, humor, espetáculos visuais, equilibrismo, palhaços e números de risco.

Podemos mesmo afirmar que surgiu o chamado “novo circo”, caraterizado por um estilo mais moderno, inspirado no teatro e na dança. Também em Portugal se verifica essa tendência – espetáculos mais cénicos, com componente musical e, por vezes, dirigidos a públicos adultos.

Regista-se igualmente, uma menor presença nas pequenas localidades, ao contrário do que acontecia antigamente, quando praticamente todas as vilas recebiam o circo.

Importa ainda referir que, atualmente, existem mais exigências burocráticas, nomeadamente ao nível de licenças, escassez de terrenos disponíveis e custos elevados, o que contribui para que os circos circulem menos ou permaneçam mais tempo nas grandes cidades.

Os circos continuam ativos, mas já não constituem um fenómeno massivo como no passado. Hoje, dividem-se essencialmente em dois universos o tradicional itinerante e o contemporâneo, associado a espetáculos urbanos e festivais. O circo continua, assim, a reinventar-se. Creio, aliás, que existem em Portugal projetos destinados a preservar a sua história e a adaptá-la ao futuro, tratando-se de uma arte com séculos de tradição.

Aproveito para inserir um breve excerto do meu livro “Da Montanha ao Vale – As Viagens de um Grupo de Tertulianos”, cuja 1ª edição foi publicada em maio de 2022, Capítulo XVI, pág. 107:

“‘O Circo Mexicano’ – Uma olhadela para a rua e a passagem de uma caravana do Circo Mexicano. O Zé do Megane coçou o bigode, elevou o pescoço e reparou que os camiões que faziam o transporte sinalizavam para estacionar. Eram cinco camiões, com os quatro piscas ligados.

Atrás, seguiam três carrinhas com roulottes atreladas. Das carrinhas saíram cinco raparigas, valentes mocetonas, provavelmente artistas, pelo seu ar sensual, e também quatro rapazes, igualmente robustos.

Sentaram-se e pediram sumos de laranja. Enquanto bebiam, fumavam. Os rapazes faziam o mesmo; apenas um bebia cerveja – talvez não fosse artista.

Os motoristas e restantes elementos de apoio ao circo chegaram depois e permaneceram ao balcão.

Entretanto, uma das raparigas, muito maquilhada, dirige-se ao grupo de tertulianos e oferece um bilhete a cada um, bem como um prospeto do espetáculo, que teria lugar ainda nessa noite, na Zona Industrial de Leça da Palmeira.

Agradecem e prometem marcar presença.

Como nem todos podiam ir, entregaram os bilhetes a colegas, para que as suas esposas pudessem assistir.  E, assim decidido, retomaram os trabalhos que vinham desenvolvendo.

Após essa breve interrupção protagonizada por elementos do circo, surgiu um novo intervalo. (…)”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-04-2026)

10 de abril de 2026

ENTRE A BRINCADEIRA E O ENGANO: O 1 DE ABRIL NUM TEMPO DE DESCONFIANÇA

Escrevo este texto precisamente no dia 1 de abril – o chamado “Dia das Mentiras”. A data persiste, mas já não é vivida com a leveza de outros tempos. Dir-se-ia que sobrevive, embora sob suspeita.

A tradição mantém-se em muitos países, com partidas, notícias humorísticas e pequenas provocações entre amigos, colegas ou até marcas. Durante séculos, este foi um dia em que o engano era aceite como jogo social – uma espécie de licença coletiva para brincar com a credulidade alheia.

Mas o mundo mudou – e o contexto também.

Hoje, o 1 de abril confronta-se com um problema que ultrapassa largamente a inocência das suas origens: a banalização da mentira. Num tempo marcado pela desinformação e pelas chamadas “fake news”, aquilo que antes era brincadeira pode facilmente confundir-se com manipulação. Não admira, por isso, que muitos órgãos da comunicação social e empresas tenham optado por maior prudência, evitando participar numa tradição que pode ser mal interpretada.

Pessoalmente, confesso que me revejo entre os que olham para este dia com alguma reserva. Não por rejeitar o humor ou ironia, mas porque o terreno em que assentam se tornou mais instável. A Internet e as redes sociais amplificam tudo: uma simples partida pode ganhar dimensão inesperada e transformar-se, em poucas horas, numa falsidade tomada por verdade.

O que está em causa não é o desaparecimento da tradição, mas a sua transformação. As grandes partidas públicas tornaram-se mais raras; persistem, sobretudo, as brincadeiras privadas, mais contidas e, idealmente, mais responsáveis. Há, felizmente, uma consciência crescente de que nem tudo é aceitável em nome do riso.

Será então, o Dia das Mentiras uma tradição em declínio? Talvez não. Mas é, seguramente, uma tradição em adaptação – menos ingénua, mais cautelosa, e inevitavelmente marcada pelo tempo em que vivemos.

A este propósito recordo que já abordei o tema da verdade e da mentira em diversos artigos publicados neste e noutros semanários, nos anos de 2016, 2017, 2021 e 2025. A questão, longe de se esgotar, ganha hoje novos contornos.

Mas como surgiu esta tradição?

Aponta-se frequentemente Catarina de Médicis como estando na sua origem, numa história que cruza calendário e costume. Em 1564, enquanto regente de França em nome de Carlos IX, determinou que o ano civil passaria a iniciar-se a 1 de janeiro. Até então, o início do ano era assinalado no primeiro dia de abril.

A alteração não foi imediatamente assimilada por todos. Muitos continuaram a celebrar o antigo início do ano, mantendo a troca de presentes e votos festivos em abril. Com o tempo, esses gestos passaram a ser vistos como deslocados – e, progressivamente, transformaram-se em ofertas simbólicas ou fictícias.

Assim nasceu uma tradição marcada pela ambiguidade: entre o que parece e o que é, entre o dito e o desmentido.

O 1 de abril adquiriu, desse modo, um carácter quase carnavalesco, em que o engenho de uns se mede pela credulidade de outros. A França, então centro de influência cultural, difundiu o costume por toda a Europa, deixando até hoje a expressão poisson d’Avril, associada ao signo de Peixes, que antecede a data no calendário zodiacal.

Também a natureza parece alinhar neste jogo de ambiguidades. Abril é, por tradição, um mês instável, em que o sol se esconde e reaparece caprichosamente. “Em abril, águas mil” – diz o povo, com a sabedoria de quem reconhece que nem tudo é o que parece.

Ao longo dos tempos, o 1 de abril inspirou inúmeras invenções, sobretudo no universo jornalístico. Houve épocas em que a criatividade se media pela capacidade de enganar – e pelo número de leitores que “enfiavam o barrete”.

Recordo, a esse propósito, uma iniciativa do Diário de Notícias, na edição de 1 de abril de 2000. Em vez de publicar uma falsa notícia, optou por apresentar factos verídicos ocorridos nessa data ao longo da história. Uma escolha feliz, que inverteu o sentido da tradição e mostrou que a realidade pode ser tão surpreendente quanto a ficção.

De facto, não faltam acontecimentos marcantes associados ao dia 1 de abril – alguns deles inicialmente recebidos com incredulidade. A verdade, por vezes, tem essa estranha capacidade de parecer improvável.

E reforço, sim, momentaneamente postos em dúvida pelos mais céticos, até à sua confirmação. Como se verá, a nudez forte da verdade impõe-se ao manto diáfano da fantasia, pois abundam os factos de grande importância histórica numa data em que tantos preferem recorrer à imaginação.

Eis alguns exemplos:

1572 – Início, na Holanda, da guerra da independência.

1876 – Aprovação, em Portugal, o Código do Processo Civil.

1923 – Renovação do acordo entre a administração portuguesa de Moçambique e o Governo da África do Sul para o recrutamento anual (trabalho forçado) de milhares de indígenas para as minas.

1937 – Entrada em vigor da Constituição indiana, com o Partido do Congresso a exigir a independência.

1945 – Início da invasão de Okinawa, no sul do Japão, pelas forças americanas.

1948 – Interferência da URSS no tráfego entre Berlim e a Alemanha Ocidental.

1950 – Transferência da Somalilândia britânica para a Itália; segunda explosão atómica francesa em Reganne.

1954 – Integração da Terra Nova no Canadá.

1962 – A Suíça rejeita, em referendo, armas atómicas.

1963 – Fim da greve de 114 dias dos jornais de Nova Iorque.

1964 – Golpe militar no Brasil, instaurando uma ditadura prolongada.

1973 – O Governo de Harold Wilson manifesta intenção de negociar a entrada do Reino Unido na CEE.

1974 – Reunião preparatória do movimento que conduziria ao 25 de Abril em Portugal.

1983 – Entrada em vigor da Convenção Europeia para a Proteção do Ambiente.

1986 – Abolição do papel selado em Portugal.

1997 – Portugal assume a presidência do Conselho de Segurança da ONU.

 2026 – A missão Ártemis II arrancou nesta quarta-feira de 1 de abril, na primeira viagem desde 1972 que levará humanos à órbitra da Lua. A missão americana serve como um ensaio para o transporte de humanos. Quatro astronautas são transportados dentro da cápsula Órion, que segue acoplada ao foguetão SLS.

Talvez resida aqui a maior ironia deste dia: numa data associada à mentira, abundam factos que nos recordam a força – e, por vezes a estranheza – da verdade.

E ficamos por aqui.

 

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 09-04-2026)

 

2 de abril de 2026

DOIS IRMÃOS MONARCAS TÃO DIFERENTES

 

D. Pedro V ficou na memória dos portugueses como o mais amado dos reis. Nasceu em 1837 e veio a falecer em 1861, vítima de febre tifoide. Reinou quando era ainda quase uma criança, entre os 16 e os 24 anos. No entanto, foi nesse período que o regime constitucional se consolidou, que muitas fortunas particulares nasceram e que a primeira linha férrea foi inaugurada.

Mas este jovem rei não se tornou querido apenas por se ter sentado no trono. Sorrindo timidamente, numa época de vacas gordas, ficou também no coração dos seus contemporâneos e na lembrança dos que se lhe seguiram por ter escolhido para sua mulher uma jovem alemã que agradou muito a todos: Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, ou simplesmente D. Estefânia. Conheceram-se quando ambos tinham 17 anos. Entre eles nasceu um forte afeto que durou, infelizmente, pouco mais de um ano.

Estefânia morreria não muito depois de ter chegado a Portugal. Foi vítima de difteria contraída no decorrer de uma visita a Vendas Novas. Nas cartas à família, a jovem alemã queixava-se da aridez do nosso clima, embora dissesse gostar muito de Sintra – onde passou uma prolongada lua de mel com D. Pedro – e de Mafra.

Dotada de sentimentos filantrópicos, fundou hospitais com o marido e dedicava-se muito a visitar doentes. O Hospital Pediátrico de D. Estefânia, fundado em 1877, recebeu esse nome em homenagem à mulher e única paixão de D. Pedro V.

O jovem viúvo, nos escassos dois anos que ainda viveu, seguiu-lhe os passos, sendo frequente vê-lo à cabeceira de internados durante uma epidemia de cólera. Talvez por isso viesse também a falecer bastante cedo.

Em matéria amorosa, seu irmão D. Luís foi o oposto. Parece ter gostado sinceramente da italiana Maria Pia de Saboia, com quem casou em 1862. Cumpriu a “tarefa” de assegurar a existência de herdeiros do trono, com o nascimento do sucessor, D. Carlos.

A Câmara Municipal da Covilhã promoveu festejos na então vila para assinalar este casamento. Alguns extratos das felicitações foram reproduzidos na ata de 29 de setembro de 1862:

“Senhor:

A Câmara Municipal da Vila Notável da Covilhã vem mui respeitosamente, e possuída do mais sincero júbilo, felicitar Vossa Majestade pelo faustíssimo consórcio que vai tomar Nossa Rainha, Sua Alteza a Sereníssima Senhora D. Maria Pia de Saboia.

(…) Poderia a nossa futura Rainha cingir coroa de mais dilatados domínios! Porém não encontraria hoje debaixo do sol um Soberano mais querido, e uma Nação onde o amor, a fidelidade e a dedicação por seus Monarcas tenham sido, e sejam, mais puras e acrisoladas. (…)

Deus guarde a preciosa vida de Vossa Majestade e faça com que este feliz enlace seja perene fonte de venturas para Vossa Majestade e seguro penhor de felicidade para todos os Portugueses.

Sala das Sessões da Câmara Municipal da Vila Notável de Covilhã, aos 25 de setembro de 1862”.

 

 

 Programa

1.º Convidaram-se por ofício todos os Presidentes e Vogais das Juntas de Paróquia das freguesias deste Concelho para, nos três dias referidos, mandarem repicar os sinos e fazer todas as manifestações, que mostrassem o seu regozijo.

2.º Convidaram-se para assistir à solenidade religiosa no dia 12: o Administrador do Concelho, com os Empregados seus subordinados; o Juiz de Direito desta Comarca, com os seus empregados; o Escrivão da Fazenda do Concelho, com os respetivos funcionários;  o Delegado do Procurador Régio nesta Comarca; o Tenente Coronel comandante da força militar, bem como a respetiva oficialidade; os Presidente e Vogais das Juntas de Paróquia da Vila; os Juízes Eleitos da mesma; o Juiz de Paz do distrito da Covilhã; a direção e membros da Associação Comercial Hermínia; a direção e membros da Associação dos Artistas e Classes Laboriosas Covilhanenses; a direção da Filarmónica Covilhanense; a direção dos Artistas; os Professores de Instrução Primária e de Gramática Latina; o Tesoureiro do Concelho; e o diretor de Pesos e Medidas (que nesta Vila se achava temporariamente).

3.º Convidou-se o Reverendo Pároco de Santa Maria para, no dia 12, pelas 10 horas da manhã, celebrar missa cantada e solene Te Deum na sua Igreja, tendo sido também prevenido de que se convidava o Reverendo Arcipreste para assistir com o Reverendo Corpo Eclesiástico à solenidade religiosa. (…)

5.º No dia 10, à noite, tocaram no largo do Pelourinho as duas filarmónicas, colocando-se uma à esquina do chafariz e outra em frente da Casa da Associação dos Artistas. (…) Às oito horas da noite estava completamente acesa uma iluminação de novecentas e nove lumes, que ocupava toda a frente meridional da Torre dos Paços do Concelho. (…)

8.º Às três horas da tarde, as cento e sessenta e cinco praças aqui destacadas tiveram um abundante jantar de sopa de macarrão, arroz, toucinho, vaca, pão de trigo, e um quartilho de vinho para cada praça. Este jantar foi dado pela Câmara Municipal, que para este efeito pôs à disposição do Senhor Tenente-Coronel comandante, a quantia de trinte e três mil réis. (…)”

Não tardou, no entanto, que D. Luís I trocasse o leito da esposa pelos de muitas outras mulheres, de variados estratos sociais. A saúde da jovem rainha não tardou a ressentir-se desse comportamento do marido.

D. Luís nada escondia e revelava considerar normal a coexistência de uma vida familiar com as suas aventuras galantes, como confidenciava ao seu amigo, o rei Óscar II da Suécia e Noruega.

Foi também por essa época, nos finais da década de 1860, que as ideias republicanas começaram a ganhar força em Portugal.

A imprensa atacava as cabeças coroadas como nunca o fizera. O comportamento amoroso do rei fornecia tema para largas críticas. Soube-se assim que D. Luís era vítima de chantagem de mulheres a quem escrevia cartas tórridas e que lhe extorquiam dinheiro em troca da sua devolução – felizmente para ele, ainda não existiam fotocópias nem digitalizações…

Contudo, popularidade teve-a, em quase todos os meios.

Foi também D. Luís I quem elevou a Covilhã à categoria de Cidade em 20 de outubro de 1870. A distinção reconheceu a sua importância industrial, populacional e económica, destacando-se na produção de lanifícios.

Biografia consultada:

“365 Dias com Histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins;

“História da Covilhã – Vida Política” (1800 a 1926), de Rui Delgado.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-04-2026)

 


27 de março de 2026

A República e a Igreja: ecos do conflito na Covilhã

 

A Implantação da República Portuguesa, a 5 de outubro de 1910, marcou o início de um período de forte tensão entre o novo regime republicano e a Igreja Católica. Esse período é frequentemente descrito como de acentuado anticlericalismo e de conflito entre o poder político e a religião.

Logo após a mudança de regime foram retomadas antigas leis pombalinas e liberais que proibiram a presença de congregações religiosas em Portugal. Os Jesuítas foram dos primeiros atingidos, sendo expulsos do país poucos dias depois da implantação da República, a 10 de outubro de 1910. Outras ordens religiosas seriam igualmente extintas e os seus bens confiscados pelo Estado.

Um momento decisivo foi a promulgação da Lei da Separação do Estado das Igrejas, assinada por Afonso de Costa a 20 de abril de 1911. Esta lei estabeleceu formalmente a separação entre o Estado e a Igreja, mas incluiu medidas consideradas hostis pelos meios católicos, como restrições ao culto público, limitações ao uso de vestes religiosas e interferências na administração de bens eclesiásticos.

Paralelamente, o novo regime promoveu uma forte política de laicização da sociedade: o ensino religioso foi retirado das escolas e símbolos religiosos, como o crucifixo, desapareceram das salas de aula.

Em vários pontos do país registaram-se também episódios de violência anticlerical, incluindo ataques a edifícios religiosos, destruição de imagens e restrições a manifestações públicas de fé, como o toque dos sinos.

Muitos republicanos, influenciados pelo positivismo e por correntes laicizantes, viam a Igreja como um dos pilares da monarquia e um obstáculo à modernização do país. A hierarquia católica reagiu com firmeza publicando uma pastoral coletiva contra a legislação de 1911, o que contribuiu para um clima que alguns contemporâneos designaram como verdadeira “guerra religiosa”.

Este ambiente de conflito apenas começou a atenuar-se durante o governo de Sidónio Pais, em 1917.

Também na Covilhã se sentiram os efeitos desta nova realidade política. Em 14 de agosto de 1911, a Comissão Municipal Administrativa dirigiu um pedido ao Governo para que fosse cedida ao município a Igreja de S. Tiago e a casa anexa, residência dos Jesuítas. No documento afirmava-se que a cidade, importante centro industrial então conhecida como “Manchester Portuguesa”, esperava finalmente ver atendidas as suas necessidades após décadas de abandono.

O pedido justificava-se com objetivos práticos: instalar nos edifícios serviços municipais e repartições públicas, evitando pagamento de rendas e dotando a cidade de instalações condignas.

Anos depois, segundo atas da Câmara Municipal de 30 de junho de 1913, a Comissão Administrativa tomou posse da igreja paroquial de São Pedro. O edifício seria posteriormente destinado à demolição, após publicação de editais convidando eventuais interessados a reclamar lápides funerárias ou a exumação de ossadas existentes no interior do templo.

Outros documentos da época revelam igualmente o ambiente de suspeição e vigilância que se vivia. Num ofício de 24 de abril de 1911, a Câmara comunicava ao Governo informações sobre uma mulher que regressara de Espanha após ter ido confessar-se e cumprimentar o conhecido Jesuíta Padre Cruz que esteve em S. Tiago, na Covilhã. O simples facto de transportar pequenas imagens religiosas levantou suspeitas de que pudessem transportar correspondência clandestina.

Estes episódios ilustram como as grandes transformações políticas nacionais tiveram reflexos concretos na vida local e no quotidiano das populações.

Recordo-me ainda de que, anos mais tarde, na antiga casa dos Jesuítas funcionou o Tribunal Judicial da Covilhã, onde acompanhei meu pai em algumas ocasiões para tratar de assuntos relacionados com os meus avós maternos.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 26-03-2026)


18 de março de 2026

A PRIMEIRA VIAGEM DE COMBOIO EM PORTUGAL


 

Foi muito atribulada a inauguração da via-férrea em Portugal, nesse já distante ano de 1856.

As senhoras usavam enormes decotes que lhes deixavam os ombros nus, saias de balão e totós no cabelo; os cavalheiros iam de casaca justa, calças de fantasia e cartola muito alta. Mas o dia da inauguração do transporte ferroviário em Portugal – esse romântico 28 de outubro de 1856 – ficou marcado por alguns percalços.

O troço pioneiro unia Lisboa (Santa Apolónia, então também chamada estação do Cais dos Soldados) ao Carregado. A locomotiva da composição festiva, que levava o rei D. Pedro V a bordo, avariou-se. No regresso do Carregado foram sendo deixadas carruagens de convidados pelo caminho, porque a máquina, adquirida em segunda mão, não tinha potência suficiente para as rebocar.

 À noite, andavam ainda lacaios pela linha, com archotes, à procura dos “náufragos” do progresso. As damas, tentando soerguer um pouco as saias com as mãos níveas, jamais esqueceriam o pesadelo.

Os inimigos do novo meio de transporte – e eram muitos, alguns deles insuspeitos, como Almeida Garrett – riam às gargalhadas. Mas ninguém podia negar a evidência: pretendia-se, dentro de pouco tempo, unir Lisboa ao Porto em cerca de 12 horas, quando, num tempo que não havia estradas dignas desse nome, uma viagem entre as duas principais cidades do país demorava cinco dias em liteira e um dia e meio na mala-posta, o nome correntemente dado à diligência.

Além disso, os assaltos levados a cabo por bandoleiros eram frequentes, razão pela qual muitas pessoas preferiam viajar de barco ao longo da costa.

Não obstante os azares inaugurais, o novo meio de transporte tornou-se, em breve, uma realidade de indiscutível valor económico e social, tanto em Portugal como no mundo, facilitando a deslocação de pessoas e bens e tornando a vida mais prática.

Portugal, como seria de prever, não foi dos primeiros países a dispor de comboio. O pioneiro foi a Inglaterra, onde as locomotivas começaram a apitar em 1825.

Escutemos agora algumas reações de figuras conhecidas à “revolução do comboio”.

Almeida Garrett, progressista em política, não entendeu bem o alcance do novo meio de transporte e, nas Viagens da Minha Terra, escreve: “Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal! Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode”.

Já Alexandre Herculano conseguiu ver para lá do imediato, ao considerar que a máquina a vapor é “um dom do céu, um instrumento do progresso legítimo (…) como o foram o arado, o navio, a imprensa”.

Pinheiro Chagas, por seu lado, constatou que “dantes o ronceiro ónibus ou a pacata diligência anunciavam que partiam às oito horas e partiam sempre às nove”, ao passo que “a locomotiva parte sempre à hora anunciada”.

Quanto a Ramalho Ortigão, reconheceu que a “locomotora” é uma “grande imagem do progresso, inquieta, ansiosa, arquejante como ele”.

Do que não restam dúvidas é que há uma História antes do comboio e outra depois do advento.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-03-2026)