
Assim, numa consulta à obra de Luís
Almeida Martins – “Histórias da História
de Portugal” – deparei-me com o
relato do último combate do navio-patrulha Augusto de Castilho.
Menos de um mês antes do armistício que pôs fim à Primeira Guerra
Mundial, o conflito ainda fez correr sangue luso, numa ação que permanece no
imaginário nacional.
O navio-patrulha de alto mar Augusto
de Castilho partira de Lisboa na
tarde de 8 de outubro de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Carvalho
Araújo. A sua missão consistia em escoltar até à Madeira o vapor Beira. Faltava menos de um mês para terminar a guerra, mas os submarinos
alemães continuavam a representar uma forte ameaça no Oceano Atlântico.
Chegados ao Funchal no dia 11, sem incidentes, os dois navios, o
patrulha manteve-se ao largo em quarentena, devido à pneumónica que grassava em
Lisboa. Entretanto, foi incumbido de escoltar até Ponta Delgada o vapor São Miguel, da Companhia Insulana de Navegação, com cerca de duas centenas de
passageiros a bordo. Partiu logo dois dias depois da chegada, a 13.
Pouco depois das 6 horas da madrugada de 14 de outubro emergiu das
águas o submarino alemão U – 139, comandado por Lothar von Arnault de la
Perière – nada mais, nada menos do que o maior “às” dos submarinos de toda a
História, com um impressionante palmarés de 194 navios e 453 716 toneladas
de arqueação bruta afundados nas duas guerras mundiais.
La Perière abriu fogo sob o São
Miguel, ao que Carvalho Araújo
respondeu mandando lançar caixas de fumo na sua direção, criando assim uma
barreira visual. Quando já não havia mais caixas de fumo, para proteger o São Miguel e os seus passageiros só restava ao Augusto de Castilho avançar
resolutamente de encontro ao U –
139, expondo-se ao fogo do canhão
da torreta e dando tempo ao vapor de passageiros para se afastar.
O combate, desesperado, arrastou-se por duas horas, fazendo vítimas do
lado português. Ao fim desse tempo, o Augusto de Castilho, já
sem munições, com as máquinas atingidas e a TSF danificada, estava
irremediavelmente condenado. Quando apresentava a rendição, um último tiro dos
alemães atingiu em cheio o primeiro-tenente Carvalho Araújo, que teve morte
imediata.
Os 48 portugueses sobreviventes obtiveram autorização de La Perière para
lançar ao mar um salva-vidas e um bote, onde se comprimiram. O submarino meteu
então no fundo o Augusto de
Castilho, levando consigo os
corpos de Carvalho Araújo, envolto na bandeira verde-rubra, e dos restantes mortos
em combate.
O salva-vidas alcançou, no dia 16, a ilha açoriana de Santa Maria, e o
bote chegou, no dia 20, à ilha de São Miguel, no concelho do Nordeste.
Não foi este o único combate do Augusto de Castilho. A 23
de março de 1918 pusera em fuga um submarino alemão quando escoltava o vapor Luanda entre Lisboa e o Funchal. E,
a 21 de agosto do mesmo ano,
abrira fogo com sucesso, sobre outro U
– Boot, ao largo do Cabo Raso, em
Cascais.
No início de 1917, a Alemanha declarou guerra submarina ilimitada no
Atlântico, incluindo ataques a navios neutrais, como os do Brasil, tendo sido
essa a causa direta da declaração de guerra por parte dos Estados Undos da
América. Ao longo do conflito, cerca de metade da frota mercante britânica foi
afundada pelo U – Boote.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-03-2026)







