15 de janeiro de 2020

RETROSPETIVA SÉCULO XX – ANOS 20 SÉCULO XXI


Bem-vindos. Já lá vão vinte anos do século XXI. Pela parte que me diz respeito, já me encontro na linha da frente daqueles que, felizmente, foram somando anos à vida neste mundo. Mas como no tempo da Volta a Portugal em Bicicleta, começo-me a aproximar do carro vassoura. No entanto, tento ainda pedalar, até que Deus queira.
Muito se tem falado sobre estas duas décadas que nos antecederam pelo que não vou ser repetitivo do que já escrevi para outros periódicos.
De certo modo é parecido o tempo de ontem com o de hoje. Paradoxalmente, ele é mesmo muito diferente. Mas as duas situações são causa de curiosidade renovada.
“Como será Portugal daqui a 20 anos? Um país independente ou uma colónia de dados?” Em parangonas é o título da edição do aniversário dos 155 anos do Diário de Notícias, de 28 de dezembro, número especial sobre o passado, o presente e o futuro, como no mesmo é referido. É sobre o futuro que aí vem muito próximo o potencial disruptivo da inteligência artificial e da bioengenharia, que se vai desenrolar ao longo destas próximas décadas.
Mas também é preciso ter presente a atenção que deve existir sobre boatos, falsidades, notícias que atropelam o rigor, mentiras tantas vezes repetidas que se tornam verdades em que muita gente acredita, conceito este, antigo, mas que agora ganhou nome moderno, e que dá pelo de fake news.
Ao entrar neste novo ano, favorecido por um certo lenitivo após compromissos que havia assumido e dos quais o sucesso aconteceu, acreditando que não só por ação pessoal mas também por ajuda divina, espero neste ano ter um grande evento, para os tempos que correm.
E, na continuidade das crónicas, terei todo o prazer em transpor muito do que me vai na alma, ao gosto dos leitores, conforme me tenho apercebido, sem descurar o presente, para as páginas dos periódicos que para tanto me dão essa oportunidade de ocupar algum espaço.  
Se muitos gostam da “fábrica da nostalgia” já outros, por vezes estranhamente desmemoriados, optam por fazer esquecer o passado. Gosto de falar num enovelar do passado com o presente, dirigido ao futuro.
E é nesta diversidade que se dá oportunidade a todos de se interessarem pelos periódicos, num país onde a leitura deixa muito a desejar, muito contribuindo o facilitismo das redes sociais que afasta cada vez mais os apaixonados pelo papel.
Na primeira metade do século XX corria o ano de 1946 e liderava o nosso País o general António Óscar de Fragoso Carmona, que, face à sua doença, havia sido substituído, interinamente, por António de Oliveira Salazar, na ditadura do Estado Novo, para depois regressar, vindo a falecer no exercício das suas funções.
Em França, nessa mesma época, a liderança foi de Charles de Gaulle/Félix Gouin/George Bidault/Léon Blum. Na Itália mandava Alcide de Gaspieri. No Reino Unido, Clement Attlee. Nos EUA liderava Harry S. Truman, que sucedera a Frankin Roosevelt. E o Papa, que é contestado pelos judeus, era Pio XII. Se em Espanha havia a liderança de Francisco Franco, já a Alemanha, após ter sido vencida da II Grande Guerra, era administrada pelas Forças Aliadas.
Nasci e contribuí para, nesse ano, atingir o número de 107 128 homens e uma população de 8 178 360 almas.
Neste mesmo ano, Winston Churchill (dirigente do Partido Conservador e Primeiro Ministro da Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial), num discurso em 5 de março, criticou violentamente a União Soviética, referindo-se à “cortina de ferro” que dividira a Europa em “povos livres” (a ocidente) e “povos dominados” (a leste). Tornava-se, desta forma, público o divórcio entre antigos aliados e o início da Guerra Fria. No dia 1 de maio desse ano, o Reino Unido preparava um plano para separar a Palestina em dois Estados independentes, um judeu e outro árabe, para, em 16 de outubro, terminar o julgamento por crimes de guerra celebrado em Nuremberga, Alemanha.
O Belenenses ganhou nesse ano, pela primeira e única vez, o Campeonato Nacional da Primeira Divisão e o Sporting vencia a Taça de Portugal.
Esperamos que nos próximos vinte anos não seja necessária a inteligência artificial mas a consciência humana para resolver, ou mesmo atenuar, as consequências nocivas do problema climático global.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 15-01-2020)

8 de janeiro de 2020

A TRANSIÇÃO

Chegámos ao final dum ano, e de uma década, de muitos acontecimentos, tanto de âmbito nacional como deste Planeta. Positivos uns, perspetivados em receios outros, com irresponsáveis ações de despreocupação de muita gente.
Líderes internacionais que não se entendem, num bradar aos céus de estúpidas condutas egocêntricas.
A responsabilidade que cabe a cada humano é enorme, mormente nos dias que correm. Ao longo das precedentes décadas, dum tempo que passa e não espera, sempre houve líderes que deixaram marcas de eficaz passagem à face da Terra, como de inoperacionalidade a que só o tempo consegue ditar as suas boas ou más memórias.
Num breve balanço desta década que agora termina, a segunda do século XXI, logo em abril de 2010 foi a vitória eleitoral de Viktor Orbán, na Hungria. Em 2011, Anders Breivik assassinou 69 jovens na ilha norueguesa de Utoya, depois de ter matado à bomba oito pessoas em Oslo. Movem-se extremas-direitas: Salvini, Le Pen, Trump. Se marcaram a década os atentados de Paris de 2015, já os de Nova Iorque, Madrid e Londres marcaram a anterior.
Nesta década, muitos portugueses voltaram a emigrar como não acontecia desde os tempos da Guerra Colonial. Uma pequena e dramática parte dos migrantes são os 22 milhões de refugiados registados pela ONU em todo o mundo. O Mediterrâneo transformou-se no maior cemitério mundial de migrantes (15,8 mil mortos desde 2014). Em França foi a agitação dos coletes amarelos (2018-2019) com as greves destes dias contra Macron.
Das seis greves gerais convocadas em Portugal em 45 anos, metade foram nesta década (2010, 2011 e 2013). Já em 2011, a Primavera Árabe foi um dos maiores movimentos simultâneos de contestação social e política da história, à escala internacional.
Termina, pois, uma década que começou com os efeitos devastadores da crise que abalou o coração do sistema financeiro mundial, transformando-se na Grande Recessão, que nasceu nos Estados Unidos com a crise do subprime (2007) e com a queda do Lehman Brothers (2008) tendo-se propagado em ondas de choque à escala global, atingindo com mais violência as economias ricas do Ocidente. Na segunda década do século XXI, entraram em cena novas e velhas correntes populistas e nacionalistas. À escala global, foi nesta década que nos países mais fragilizados, com a desigualdade incompreensível, a corrupção foi mais pungente.
Voltamo-nos para o nosso País. Conforme refere o jornalista Manuel Carvalho, o País continua à venda: “Mas depois da terrível destruição de riqueza nacional na era da troika e dos exemplos de incúria e dos abusos que destruíram a PT, que expurgaram a EDP de capital nacional ou entregaram a banca nacional ao capital espanhol ou angolano seria de esperar uma breve pausa para respirar. Não é isso que acontece”.
Vamos entrar nos anos 20. É uma década decisiva para o mundo, sobre tudo o que já sobejamente tem sido divulgado nos órgãos da comunicação social, e redes sociais, desde a crise climática à crise da democracia “sem esquecer as crises de regimes e modelos de sociedade que motivaram múltiplas rebeliões”, na opinião abalizada do jornalista Vicente Jorge Silva.
O que nos vai trazer 2020? Sem enumerar muitos casos, lembramos tão só, já em janeiro, o impeachment a Trump; as primárias no PSD, cujo 2019 foi o annus horribilis para a direita (PSD e CDS), no dia 11 de janeiro; o debate instrutório da Operação Marquês, de 27 a 31 de janeiro; o novo presidente do CDS, dias 25 e 26 de janeiro; o Brexit no dia 31 de janeiro; o novo líder da CGTP, no dia 2 de fevereiro; a abertura dos arquivos de Pio XII, pelo Vaticano, em 2 de março; o Festival Eurovisão da Canção, em Roterdão, de 12 a 16 de maio; a comemoração dos 75 anos da assinatura da Carta das Nações Unidas, a 26 de julho; início do Euro 2020, em 12 de julho; a reunião do G7, de 10 a 12 de julho; a quinta revisão do Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares, nos 75 anos dos bombardeamentos de Hiroxima e de Nagasaki, em 8 e 9 de agosto; os Jogos Olímpicos de Tóquio, com início em 24 de julho; a Expo do Dubai, em 20 de outubro; a Web Summit em Lisboa, de 2 a 5 de novembro; as Presidenciais nos EUA, no dia 3 de novembro; a Cimeira do Clima, em Glasgow, nos dias 19 e 20 de novembro; e em 31 de dezembro, o fim da concessão dos Correios, como serviço postal universal.

(In "Notícias da Covilhã", de 09 de janeiro de 2020)

20 de dezembro de 2019

NATAIS

Nesta quadra natalícia vamos ter oportunidade de fechar o ano 2019 com o último número desta publicação, como já vem sendo habitual. Fazemos uma reflexão de muitos natais que foram passados pelos antigos Combatentes, no teatro bélico, tenham eles sido provenientes da I Grande Guerra ou das Guerras Coloniais.
Sobre estes últimos, sentimos na proximidade a vivência desses dias de natais, melancólicos, duma nostalgia contida, lacrimejantes.
Felizmente que, para alguns, a sorte bafejou-os no âmbito das lutas entre irmãos em guerra, tendo ficado destacados em posições estratégicas de segurança. No entanto, sempre ficou a saudade da família na longitude dos mares, a anos de espera para o abraço da chegada feliz, quantos a ela tiveram a dita de o conseguir, pois não viria contemplar todos.
E porque estas guerras fratricidas terminaram com o 25 de Abril de 1974, a nossa reflexão insere-se no período compreendido entre 1914 e 1974, ou seja, de seis décadas.
São referências a alguns eventos surgidos nesta periodicidade.
Se nos reportarmos ao ano 1914, foi o início da I Guerra Mundial. As luzes do esplendor, que indicavam um futuro soberbo, foram subitamente apagadas, com o assassinato em Sarajevo, do herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Fernando. Este incidente mergulhou, sobretudo a Europa, numa guerra sem precedentes, que viria a convocar para a frente de combate, durante os quatro anos do conflito, cerca de 65 milhões de homens oriundos de mais de vinte países. Foram quatro natais vividos sob o fogo da I Guerra Mundial.
Em 1919 foi a revolta na América Latina, com a morte de Zapata. No México viveram-se natais de instabilidade, desde a demissão, em 1911, do governo absolutista de Porfírio Diaz. Solidifica-se o movimento do campesinato índio liderado por Emiliano Zapata, que faz da Terra e Liberdade palavras de ordem para o seu projeto de libertação. O então novo governo mexicano operou reformas agrárias e fez aprovar uma constituição socialista. O movimento Zapatista, porém, continuou insatisfeito e o conflito manteve-se. No Natal de 1919, o México chorava a morte de Emiliano Zapata – o primeiro herói da América Latina do século XX.
Em 1926 Portugal entrava na era da ditadura militar. Este golpe, que visava aniquilar a I República demoliberal, iniciou-se em Braga e depressa se estendeu às restantes cidades portuguesas. O Natal de 1926, em Portugal, foi o primeiro de muitos que viriam a constituir a época do Estado Novo.
O Natal de 1927 foi marcado pelo “Cantor de Jazz”. A primeira longa-metragem com palavras faladas estreou-se em Nova Iorque em 1927 e fez a delícia das plateias de todo o mundo. Estava, definitivamente, aberta a era da 7ª Maravilha do Mundo.
Em 1933, Adolf Hitler, com a vitória eleitoral dos nazis, é nomeado chanceler do Reich. Apostado em fazer emergir a Alemanha das imensas humilhações a que havia sido submetida, promete aos alemães obrigar o mundo a reconhecer a supremacia da raça germânica. No Natal de 1933, a maioria dos alemães acreditava na melhoria das condições de vida. Neste mesmo Natal, a maioria dos alemães estava longe de perceber o pesadelo que o novo chanceler iria representar para toda a humanidade.
Em 1941, a obsessão pela supremacia da raça ariana levou a anos sem fim de perseguição aos judeus. Nesse ano, quando ainda pairava no ar o espetro da I Guerra Mundial, Hitler ordenou a invasão da União Soviética, marcando o início da II Guerra Mundial. Os conflitos deram-se por terra, mar e ar e envolveram quase todos os continentes. Foram, sem dúvida, os natais mais tristes do século XX, sendo mesmo os de toda a história da humanidade.
Em 1944, seria o Dia D. As forças aliadas desembarcaram na costa da Normandia com uma única missão: acabar com o domínio nazi na Europa. Foram precisos 4 mil navios e 10 mil aviões para cumprir tal objetivo. O Natal de 1944 marcou, pois, o princípio do fim das ambições da supremacia ariana.
1945, a bomba atómica. Em Hiroshima, o exército americano deixou cair a primeira bomba atómica. Calcula-se que tenham morrido cerca de 100 mil pessoas e foram dezenas de milhares de mutilados. Três dias depois, uma bomba igual explodiu, por ordem dos americanos, em Nagasaki. Com a inevitável rendição do império do Sol Nascente e com o suicídio de Adolf Hitler, assinalou-se o fim da II Guerra Mundial.
O Natal de 1947 foi de glória para Portugal. A seleção nacional de hóquei em patins venceu, pela primeira vez, o campeonato do mundo. Um título reconquistado nos dois anos seguintes.
No Natal de 1948, o Mundo chorou a morte de Mohandas Gandhi, por assassínio – o homem que tudo fez para acabar com a intolerância religiosa, acabando por ser vítima dela.
Em 1959 foi a revolução cubana. Pela boca de Fidel de Castro saíram as palavras de ordem: “Pátria ou muerte. Venceremos.” No Natal deste ano o mundo assistiu ao virar de costas entre Cuba e os Estados Unidos, originando um conflito que perduraria durante muitos anos.
Em 1961, iríamos assistir à divisão da Alemanha. A construção de um muro que dividia a parte ocidental de Berlim, da parte comunista, com o objetivo de acabar com o êxodo de alemães de Leste para o Ocidente, fez com que o Natal de 1961 de numerosas famílias alemãs fosse vivido entre a revolta e a saudade dos familiares que ficaram para lá do muro da vergonha.
No ano de 1962 foi a estranha morte de Marilyn Monroe. A imagem do vento a soprar sobre ela ainda persiste na memória de todos nós. Marilyn Monroe é um dos mitos do século XX. Foi indubitavelmente uma das pessoas mais fotografadas. Entre Hollywood e Nova Iorque- Ela provocava o mundo. Entre homens da sua vida, dizem encontrar-se o então Presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Em 1962, a morte estranha de Marilyn foi, certamente, um dos temas de conversa da noite de Natal.
Já o Natal de 1963 foi de luto para os americanos que viram seu mais jovem Presidente, John Fitzgerald Kennedy, ser brutalmente assassinado, aquando de uma visita oficial a Dallas.
Em dezembro, no Natal de 1968, o mundo ainda pensava nos acontecimentos de maio em França. Foram noites de barricadas, manifestações e greves convocadas pelos estudantes, às quais se juntaram trabalhadores e a população em geral. A França paralisou. O general De Gaulle tremeu, mas não caiu e o mundo assistia, comovido, à força da união das vozes que gritavam contra as garras do capitalismo.
No Natal de 1969, o mundo ainda não acreditava. Neil Armstrong, a bordo da missão espacial Apolo II, chegava à Lua e, entre passinhos pequenos, protagonizou o maior passo da humanidade ao colocar a bandeira americana no solo lunar.
E chegávamos ao Natal de 1974, com a conquista da liberdade. O Movimento das Forças Armadas organizou um golpe de Estado em Portugal para pôr fim ao Estado Novo.  Marcelo Caetano foi afastado e iniciou-se a era da liberdade e democracia. Neste Natal, os portugueses estavam ainda completamente embriagados pelas comemorações do 1º de Maio, pelas sucessivas manifestações populares que a liberdade não só garantia, como também estimulava.
E assim terminou também a guerra nas Colónias, estas então designadas Províncias Ultramarinas. Já a guerra nas Colónias, entre os povos africanos, sob dominação portuguesa, chamava-se a Guerra do Ultramar.
Encontramo-nos, felizmente, neste Natal de 2019, em liberdade.
Votos de um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 117, de dezembro de 2019)

16 de dezembro de 2019

MINHAS MEMÓRIAS DE EQUIPAS HISTÓRICAS E SUAS VEDETAS


Vem este meu último texto do ano da graça de dois mil e dezanove, no conceituado Jornal O Olhanense; de que sinto enorme prazer em marcar presença ao longo de um quarto de século (como o tempo passa!...), transpondo da região beirã para a algarvia o meu espírito de serrano; dar lugar a algumas memórias duma vivência que foi ímpar em relação aos dias de hoje.
Foi assim que no já distante ano de 1992 recebi no meu escritório, num atendedor automático de chamadas, a voz algarvia de Augusto Ramos Teixeira, olhanense de gema, que já não se encontra no mundo dos vivos mas deixou marcas na coletividade olhanense, aquando da minha pesquisa de antigos atletas algarvios que passaram pelo meu clube da Terra – o Sporting Clube da Covilhã –, para um dos quatro livros que escrevi sobre o Clube, pois que  o Algarve havia sido um alfobre desses homens do futebol: Rita, Hélder, irmãos Cavém, Cabrita, Eminêncio, Palmeiro e outros mais.
Pela voz de Herculano Valente, também já desaparecido, dei então início à publicação de alguns textos, por vezes com dificuldade por falta de espaço, mas é na dinâmica de Mário Proença que, após eu ter ficado perplexo com aquele falecimento, me encoraja, até aos dias de hoje, no prosseguimento duma colaboração, ficando então um espaço quinzenal em “Ecos da Beira Serra”.
E, sem menosprezar os predecessores, longe de ferir qualquer suscetibilidade, o Jornal tomou um rumo de substancial melhoria, onde encontrei um espaço num emparceirar duma similaridade de gostos na memorização do que foram outros tempos.
Pena é que mais colaboradores não deem, com a sua escrita, mais voz ao jornal, aliviando assim muito do que, sozinho, se multiplica o Diretor Adjunto.
E foi por ver no número de 15 de novembro um resultado da 9ª jornada do Campeonato de Portugal – Olhanense, 5 Fabril do Barreio, 0 – que me recordei dos bons velhos tempos do Grupo Desportivo da CUF, que depois passou por Quimigal, e agora com a designação de Fabril do Barreiro.
Neste contexto, transpôs-me o meu pensamento para os tempos da juventude onde via jogar a CUF, o Lusitano de Évora, o Oriental, o Caldas, o Atlético, o Olhanense e o Sporting da Covilhã, na então designada I Divisão Nacional (hoje, I Liga).
E é nesse navegar que vou recordar alguns encontros da Divisão Maior do futebol português, cujos jogadores foram tantas vezes objeto de destaque nos relatos de futebol (dribles, potentes remates, grandes defesas, penaltis defendidos ou indefensáveis, golos, etc.) na Emissora Nacional, Rádio Clube Português ou Rádio Renascença, pelas vozes sobejamente conhecidas de Artur Agostinho, Carlos Cruz ou Nuno Brás, ou no único canal televisivo a preto e branco – RTP, pela voz do praticamente único comentador desportivo, à altura, Alves dos Santos.
Memorizando algumas equipas em que intervieram o Sporting Clube Olhanense (SCO) e o Sporting Clube da Covilhã (SCC), exclusivamente nas I e II Divisões Nacionais, com o objetivo de recordar alguns dos seus habituais jogadores, passo a indicar, sem mencionar os resultados desses encontros, já que o objetivo intencional é recordar as equipas e alguns dos seus valorosos jogadores:
Época 1948/49, na 3ª. Jornada, na Covilhã, as equipas alinharam da seguinte forma: SCC: António José; Roqui e Leopoldo; Fonseca da Silva, Pedro Costa e Fialho; Livramento, Martinho, Carlos Ferreira, Tomé e Noronha. SCO: Abraão, Rodrigues e Eminêncio; Acácio, Grazina e Loulé; Soares, Paulo, Cabrita, Salvador e Carmo.
Na 16ª Jornada, em Olhão, as equipas: SCO: Abraão, Rodrigues e Nogueira; Januário, Grazina e Loulé; Moreira, Joaquim Paulo, Soares, Salvador e Carmo. SCC: Ramalhoso, Roqui e Pedro Costa; Szabo, Fialho e Leopoldo; Livramento, Diamantino, José Pedro, Tomé e Martinho.
Época 1949/50, na 9.ª Jornada, em Olhão, as equipas: SCO: Abraão; Rodrigues, Nogueira e Loulé; Acácio e Grazina; Eusébio, Soares, Cabrita, João da Palma e Eminêncio. SCC: António José, Roqui, Pedro Costa e José Pedro; Diamantino e Fialho; Livramento, Martin, Simonyi, Tomé e Guedes.
Na 22ª. Jornada, na Covilhã, as equipas: SCC: António José, Roqui, José da Costa e José Pedro; Diamantino e Fialho; Carlos Ferreira, Martin, Simonyi, Tomé e Livramento. SCO: Abraão; Rodrigues, Nogueira e Loulé; Eusébio e Grazina; Soares, Joaquim Paulo, Cabrita, João da Palma e Eminêncio.
Época 1950/51, na 4ª. Jornada, na Covilhã, as equipas alinharam: SCC: António José; Eminêncio e Oliveira; Diamantino, Mário Reis e Fialho; Carlos Ferreira, Martin, Simonyi, Tomé e Livramento. SCO: Abraão; Rodrigues, Eusébio e Abreu; Nogueira e Grazina; Marques, Joaquim Paulo, Cabrita, João da Palma e João Manuel.
De notar que o jogador Eminêncio havia-se transferido do SCO para o SCC.
Na 17ª. Jornada, em Olhão, as equipas alinharam: SCO: Abraão; Rodrigues, Grazina e Acácio; Abreu e Cirilo; Machado, Soares, Vinício, Cabrita e Joaquim Paulo. SCC: António José; Roqui, Mário Reis e Oliveira; Diamantino e Fialho; Livramento, Martin, Simonyi, Tomé e Eminêncio.
Um parêntesis para fazer aqui uma breve referência à Época 1951/52, em que o Olhanense ficou no Campeonato Nacional da II Divisão, e, na 4ª. Jornada, no jogo com o Portalegrense, em Portalegre; assim como na 5ª Jornada, com o Farense, em Olhão, jogou na baliza o Rita e não jogou Cabrita.
Também em Évora, na 6ª Jornada, com o Lusitano do Évora (LEV), as equipas alinharam assim: LEV: Martelo; Polido, Vale e Soeiro; Madeira e Paulo; Domingo, Di Paola, Teixeira da Silva, Duarte e Hilário. SCO: Rita, Rodrigues, Tavares e Eusébio; Muñoz e Fernandes; Vinício, Soares, Curro, Paulo e Arménio.
Na 15ª. Jornada, em Olhão, as equipas alinharam: SCO: Rita, Tavares, Grazina e Eusébio; Januário e Fernando; Vinício, Soares, Curro, Joaquim Paulo e Arménio. LEV: Vital; Polido, Vale e Domingos; Madeira e Paulo; Pepe, Martinho, Teixeira da Silva, Duarte e Hilário.
Época 1953/54, ainda no Campeonato Nacional da II Divisão – Zona C., em Olhão. Na 4ª Jornada, com a CUF do Barreiro: SCO: Abraão, Graça, Tavares e João Manuel, Toupeiro e Fernandes; Coelho, Mourão, Vinício, Casaca e Pais. C.U.F.: Libânio; Matos, Carreira e Celestino; Orlando e Vale; Barriga, Vasques, Sérgio, Luís e André.
Na 15ª Jornada, no Barreiro: C.U.F.: Libânio, Matos e Celestino; Orlando, Carreira e João Vale; Sérgio, Vasques, Aureliano, Luís e André. SCO: Silvestre; Graça e João Manuel; Osvaldo, Tavares e Fernandes; Simões, Santiago, Vinício, Del Duca e Casaca.
Época 1957/58, Fase Final – Campeonato Nacional da II Divisão. Na Covilhã, as equipas alinharam da seguinte forma: SCC: Rita; Hélder, Lourenço e Couceiro; Lãzinha e Cabrita; Martin, Martinho, Tonho, Amílcar e Óscar Silva. SCO: Abade; Alfredo, Bento e Nunes; Poeira e Reina; Costa, Ângelo, Amândio, Parra e Sílvio.
Note-se que aqui já jogaram no SCC os atletas oriundos do SCO, donde se transferiram: Rita e Cabrita.
Época 1958/59, no Torneio de Competência para a I Divisão, com a CUF, na 2.ª Jornada, em Olhão, as equipas posicionaram-se assim: SCO: Abade; Alfredo, Rui e Reina; Madeira e Toupeiro; Ângelo, Parra, Campos, Gralho e Nuno. C.U.F.: José Maria; Durand, Palma e Abalroado; Oliveira e Vale; Rodrigues, Orlando, Bispo, Carlos Alberto e Uria.
Na 4.ª Jornada, em Olhão, com o Barreirense (BAR): SCO: Abade, Alfredo, Bento e Toupeiro; madeira e Reina; Vinício, Campos, Ângelo, Nuno e Parra. BAR: Bráulio; Faneca, Abrantes e Lança; Pinto e Artur; Madeira, Correia, José Augusto, Faia e Moyano.
Na 5ª Jornada, no Porto, com o Salgueiros (SAL), as equipas alinharam: SAL: Adelino; Geninho, Gonçalves e Chau; Branco e Lenine; Chico, Paraíba, Sampaio, Tai e Benje. SCO: Abade: Alfredo, Toupeiro e Bento; Madeira e Reina; Vinício, Ângelo, Parra, Gralho e Viegas.
Na 7ª Jornada, no Barreiro, com a C.U.F., as equipas: CUF: José Maria; José Luís, Palma e Durand; Carlos Alberto e Orlando; Gastão, Rodrigues, Oliveira, João Gomes e Uria. SCO: Abade; Alfredo, Rui e Bento; Madeira e Reina; Vinício, Ângelo, Campos, Cava e Nuno.
Época 1961/62, no Campeonato Nacional da I Divisão, logo na 1.ª Jornada, em Olhão, com o SCC, as equipas alinharam: SCO: Filhó (ex-Farense); Alfredo, Luciano e José Maria (ex-Farense); Madeira e Reina; Matias, Gralho, Campos, Mateus (ex-Caldas) e Armando (ex-Marinhense). SCC: Rita; Lourenço, Carlos Alberto (ex-Leixões) e Couceiro; Patiño e Lãzinha; Manteigueiro, Chacho, Adventino (ex- Lusitano), Adriano (ex-Boavista) e Palmeiro Antunes (ex-CUF).
Na 2.ª Jornada, em Coimbra, com a Académica (ACA), as equipas: ACA: Maló; Curado, Torres e Araújo; Moreira e Abreu; Rocha, Gaio, Chipenda, Miranda e Armando. SCO: Filhó; Alfredo, Luciano e Nunes; Reina e Rui; Matias, Madeira, Campos, Mateus e Armando.
Na 3.ª Jornada, em Olhão, com o Benfica (SLB): SCO: Filhó; Alfredo; Luciano e Nunes; Reina e Rui; Matias, Campos, Madeira, Mateus e Armando. SLB: Costa Pereira; Ângelo, Serra e Cruz; Neto e Cavém; José Augusto, Santana, Eusébio, Águas e Coluna.
Na 4.ª Jornada, em Évora, com o Lusitano de Évora: LEV: Vital; Piscas, Falé e Paixão; Sousa e Vicente; Adelino, Tonho, Walter, Miguel e José Pedro. SCO: Filhó; Alfredo, Luciano e Nunes; Reina e Rui; Matias, Campos, Madeira, Mateus e Armando.
Como se pode tornar algo fastidioso, para além do espaço que o não permite, tão só referir, para memória de muitos, as equipas adversárias do SCO. Assim, na 5ª Jornada, em Olhão, com o F. C. Porto, que alinhou: Américo; Virgílio, Festas e Mesquita; Ivan e Paula; Carlos Duarte, Ponto, Azumir, Hernani e Serafim.
Na 6.ª Jornada, com o Atlético, este alinhou: Pinho; Ferreira e Saturnino; Trenque, Luz e Inácio; Moreira, Carlos Alberto. Gomes, Peres e Palmeiro.
A 7ª Jornada foi com a CUF, e a 8ª Jornada com o Vitória de Guimarães, onde militavam os jogadores que formaram a seguinte equipa: Ramin; Freitas, Silveira e Daniel: Caiçara e Virgílio; Augusto Silva, Pedras, Amaro, Romeu e Nunes.
Na 9ª. Jornada coube a vez do Beira Mar, então com esta equipa: Bastos; Valente, Liberal e Moreira; Amândio e Evaristo; Miguel, Marçal, Garcia, Paulino e Azevedo.
À 10ª Jornada coube a vez do Sporting que se apresentou com a seguinte formação: Carvalho; Lino, Morato e Hilário; Pérides e Mendes; Hugo, Figueiredo, Diego, Geo e Morais.
Na 11ª. Jornada apresentou-se o Leixões com a seguinte equipa: Roldão; Rocha, Santana e Pacheco; Jacinto e Ventura; Chico, Osvaldo Silva, Oliveira, Ernesto e Gomes.
Na 12ª Jornada surgiria o Salgueiros; e na 13ª o Belenenses, que alinhou com José Pereira; Narciso, Pires e Rosendo; Vicente e Cordeiro, Iaúca, Matateu, Estêvão, Salvador e Peres.
Enfim, surgiria a última jornada da 1ª. volta (14ª) com o Sporting da Covilhã, na cidade serrana, numa altura efervescente para os Leões da Serra face a um castigo imposto pela FPF a cinco jogadores do SCC (Rita, Couceiro, Lanzinha, Chacho e Palmeiro Antunes), que, após reclamação ilibaram do mesmo o Lanzinha, no jogo com o Leixões, em Matosinhos, em janeiro de 1962, com o árbitro aveirense (interessado na manutenção do Beira Mar na I Divisão…), José Porfírio, de má memória. Assim, a equipa apresentou-se na Covilhã sem aqueles importantes jogadores para o clube, da seguinte forma: Alves Pereira; Patiño, Cavém e Lourenço; Lãzinha e Carlos Alberto; Manteigueiro, Adriano, Adventino, Chacho e Amilcar. E o Olhanense apresentou a seguinte formação: António Paulo; Rui, Luciano e Nunes; Madeira e Reina; Matias, Campos, Cardoso, Mateus e Armando. O encontro foi arbitrado pelo Dr. Décio de Freitas, de Lisboa.
Como eu, muitos de nós nos recordamos desses valorosos jogadores que passaram pelos vários campos do país, muitos deles de saudosa memória.
Votos de um Feliz Natal para todos quantos são obreiros do “nosso” quinzenário “O Olhanense”, para os leitores e também para a histórica coletividade olhanense, que um dia espero ainda ver de novo, entre os maiores do futebol português, emparceirando com o clube serrano. E que o Ano Novo traga as maiores venturas para todos.


(In "O Olhanense", de 15-12-2019)

11 de dezembro de 2019

CELEBRAR O NATAL AO RITMO DOS TEMPOS


No País, o seu sentido é generalizado. Mas poderá ser diferente noutros locais planetários. Embora pareça uma instituição imutável, o Natal foi sempre refletindo as diferentes épocas.
Este ano, antes da época natalícia, tivemos o anúncio da pretensão dos nossos governantes de passarmos a bater o record do (in)sucesso escolar, passando uma esponja pelos chumbos até ao 9.º ano. Uma “prenda de Natal”. De harmonia com uma avaliação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), cerca de 20% dos alunos com 15 anos não adquirem competências mínimas. Ao fim de dez anos de escolaridade, cerca de um quinto dos alunos portugueses continua a não as ter para resolver situações do dia-a-dia. Estes resultados foram mostrados pelo PISA. Paradoxalmente, Portugal é o único país da OCDE a “registar melhorias significativas no desempenho dos seus alunos a leitura, matemática e ciências ao longo da sua participação no PISA”, mostrando ligeiras quedas em áreas importantes como as ciências ou a literacia do português. Certo é que em 2018, cerca de 22% dos alunos com 15 anos consideravam que ler “é uma perda de tempo”.
Temos a 25ª Conferência das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, em Madrid, a arrancar sobre o signo da emergência, sendo que “É preciso fazer mais e mais depressa”, segundo disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. Será que vai ser um sucesso, após o choque Trump-Macron?
Outra Cimeira – da Nato –, em Londres, para celebrar os seus 70 anos, acabou por não fugir à turbulência que atingiu as relações transatlânticas desde a eleição de Trump, com Macron a declarar a “morte cerebral” da Aliança, e com os seus aliados europeus a não querem ouvir falar de tal coisa. Certo é que a NATO foi a mais forte e duradoura das alianças da história. Acabou sem história. Os aliados passaram por cima das divergências, e assinalaram estas sete décadas do evento com uma declaração de unidade e cooperação. Faz-se um interregno para novo embate em 2021, enquanto Macron passa a ver-se confrontado com uma greve geral na perspetiva de paralisar a França, neste dezembro explosivo.
 “Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei p’ra’qui chegar” –, da canção de José Mário Branco. Poder-se-ia aplicar à chegada a Lisboa da Greta Thunberg, de 16 anos, que passou 21 dias numa viagem atribulada, seguindo depois para a COP25, em Madrid, para pedir mais ação aos líderes mundiais contra a crise climática. Após 10 horas de comboio, chegaria na manhã do dia 6 de dezembro a Madrid, indo participar durante a tarde na Marcha pelo Clima. Não basta uma associação de moradores de Toledo oferecer à jovem ativista sueca um burro para viajar de Lisboa até Madrid, afirmando estar “conscientes da importância de sensibilizar o mundo sobre a situação ambiental”, sabendo-se que nunca emitimos tanto dióxido de carbono desde que há registo fidedignos, ou seja, no ano 1880. É preciso passar das palavras de boas intenções da Cimeira, aos atos. Greta Thunberg diz que lhe roubaram a infância e os seus sonhos, mas esqueceu-se que vive num dos países mais ricos do mundo, com devido acesso a educação, saúde e proteção social, em contraste com outras crianças de países africanos e de outras paragens, devastados pela fome e pelas guerras. Um fenómeno anterior mais semelhante a este é o da paquistanesa Malala Yousafzai, na causa da educação das meninas.
Aludindo ao título desta crónica, fica o memorizar de algumas décadas atrás. Anos 40, com o mundo em guerra. Não eram tempos alegres, os de Natal. O ambiente em Portugal não podia ser de grande animação, mesmo sem o país estar diretamente envolvido no conflito. Eram tempos de escassez, era preciso poupar, e qualquer sinal de ostentação no Natal só podia ser visto como de mau gosto. A década não permitia grandes euforias e o Natal era sobretudo ocasião, à boa maneira do Estado Novo, de mostrar caridade para com “os pobrezinhos”. As notícias da guerra enchiam os jornais. E a revista Eva do Natal fazia o seu sorteio anual de vários prémios de valor, iniciativa que a transformou numa verdadeira instituição nacional. Na noite de Natal de 1943, não houve ataques à Alemanha nem ataques alemães aos aliados. Em 1945, os portugueses – e o mundo – festejam finalmente o primeiro Natal sem guerra. Um acontecimento, surgido pela primeira vez em 1944, começava já a revelar-se como grande instituição que viria a ser. A iniciativa era do Diário de Notícias, o “Natal dos Hospitais”, realizado naquele ano no D. Estefânia, em Lisboa. Anos 50, o mundo está mais otimista. O Natal era a altura em que os perus desciam à cidade – e isto aconteceu até aos anos 70. A situação económica melhora. Aparecem nos jornais anúncios a voos das grandes companhias internacionais para a Suíça e Alemanha, ou até América do Sul e Próximo Oriente. Faz-se publicidade às máquinas fotográficas Kodak, a aspiradores, rádios, eletrodomésticos. O jornal Mundo Desportivo promove um concurso que tem como primeiro prémio uma Lambretta. E o regime decide eleger a “rapariga modelo”. Os bodos aos pobres continuam, as meninas nas escolas competem fazer o berço mais bonito para oferecer a uma família pobre que esteja à espera de mais um filho. E as grandes empresas – General Motors, Kodak, Shell, Sacor, Mobil Oil – oferecem festas de Natal aos filhos dos seus funcionários, todas elas com direito a notícia (e em muitos casos fotografia) nos jornais diários. Nas principais cidades do país, o Automóvel Clube de Portugal promove o Natal do Sinaleiro, em que os automobilistas deixam prendas junto dos polícias sinaleiros.
Sinal do novo clima de desanuviamento na Europa, os jornais referem a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, um passo para a União Europeia. Nos anos 60, o mundo acelerou. O nível de vida dos portugueses foi subindo gradualmente, mas muitas famílias ainda podiam ser descritas como “remediadas”. O dinheiro “ia dando”, mas para um dia “um bocadinho melhor” era preciso fazer algumas economias. Não é por acaso que em 1960 surge o Cabaz do Natal, uma iniciativa do Clube das Donas de Casa, que se torna um enorme sucesso. O mundo começa a mudar e um dos fatores dessa mudança era a televisão, que chegou a Portugal em 1957. O Natal dos Hospitais já conta com a colaboração da Radiotelevisão e da Philips portuguesa. Portugal parece mais aberto a esse mundo que lhe chega agora pela televisão. Os bancos começam a fazer publicidade nos jornais e aconselham a que se pague as compras de Natal em cheques. O mundo parece girar mais depressa. E, no entanto, Portugal continua a ser um país pobre e de emigrantes, que no Natal regressam para estar com as famílias. O ano de 1965 ficou marcado por uma enorme tragédia: perto de três dezenas de mortos e mais de uma centena de feridos no descarrilamento do Sud-Express.
 Em 1969, o homem vai à Lua. Anos 70, o (nosso) mundo mudou. Se abrirmos os jornais de dezembro de 1974, não temos dúvidas de que alguma coisa mudou em Portugal. Há circo, como em todos os natais, mas desta vez é o Circo do Povo, em frente à Fonte Luminosa, em Lisboa, e oferecido pelas Forças Armadas. Também o Circo Mariano faz publicar um comunicado em que agradece “a todas as entidades civis e militares e ao público em geral”                                                                                           a simpatia com que foi recebido na capital. E o Casino do Estoril para a noite de réveillon “Lili Ivanova, grande vedeta da canção da Bulgária”. Começam a surgir notícias sobre mais empresas que decidem pagar o subsídio de Natal.
Mas os anos 80, mais despreocupados e otimistas, vinham a caminho, e o Natal seria diferente – outra vez.
Sobre a consoada, Maria de Lourdes Modesto, uma das maiores divulgadoras da cozinha tradicional portuguesa, diz que, antigamente havia tantas mesas de Natal quantas as zonas do país. No Alentejo comia-se carne de porco ou até cação de coentrada. No Norte o bacalhau. Depois com o tempo e por força da influência da televisão, a ceia de Natal    dos portugueses foi ficando cada vez mais parecida. Naquele tempo dos anos 30, não havia Pai Natal, havia Menino Jesus.  O presépio era a coisa mais importante do Natal e os presentes, em qualquer classe social, não tinham nada a ver com o que existe agora. 
Segundo dizia Ramalho Ortigão, o verdadeiro Natal tradicionalista era o do Norte, o Natal minhoto. Aí o bacalhau é rei, aparecendo cozido ou em bolinhos. E também o polvo guisado.
Hoje, por todo o Portugal começou a comer-se bacalhau cozido com batatas, e couves, regado com azeite e vinagre, para além das rabanadas (em muitos locais chamadas “fatias douradas”) e as filhós.  No dia 25 é dia de peru, e os doces: farófias, lampreia de ovos, sonhos, sem esquecer o bolo-rei que chegou a Lisboa em 1869, através da Confeitaria Nacional. O bolo terá sido momentaneamente vítima da política, quando, depois do fim da Monarquia e com a instauração da República, alguns defenderam que ele teria de acabar. No entanto, os industriais de confeitaria deram-lhes a volta, continuando a fabricar o bolo-rei mas com outra designação, havendo quem lhe chamasse “ex-bolo-rei” ou “bolo de Natal” e “bolo de Ano Novo”. No entanto o bolo sobreviveu a esta crise e recuperou o seu nome. O bolo-rei espalhou-se pelo país, tal como o bacalhau. E o Natal dos portugueses é, à mesa, cada vez mais parecido.
Termino esta crónica do ano 2019 na reafirmação dos votos de parabéns e de longa vida ao Jornal fórum Covilhã, pelo seu 8º aniversário. Um órgão da comunicação social há muito reconhecido pela sua seriedade, isenção e comprometido com os valores e desenvolvimento da região beirã.
Boas Festas, com votos de um excelente Natal e um Feliz Ano Novo.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11-12-2019)

27 de novembro de 2019

GRITOS


Outono boreal a chegar ao fim. Este equinócio, agora de frio, chuva e vento, traz o cambiante das folhas amarelas no chão. E do vendedor de castanhas no Pelourinho. De vez em quando o arco-íris a emoldurar a Cidade.

Aproxima-se o solstício de inverno.

Entre estes momentos específicos, temos vindo a ouvir uma variedade de GRITOS. Coincidência. Um livro cai-me da estante ao resvalar do escadote. As suas folhas desnudam-se no “Grito do Ipiranga”. Acontecimento ocorrido a 7 de setembro de 1822 que simboliza a independência do Brasil – “Independência ou morte!”

“Order! Order!” – É o peculiar grito do speaker (presidente) da Câmara dos Comuns do Reino Unido, John Bercow, tornado uma personagem essencial para os milhões de pessoas em todo o mundo que descobriram o mistério do funcionamento do Parlamento britânico por causa do “Brexit”. Entrou há dias pela última vez em Westminster. Esteve dez anos no cargo, mas nos últimos três o seu grito de “Order” foi especialmente ouvido, tal a desordem nos espíritos causados pelo “Brexit”.

“Veneza está a afundar-se, é preciso salvar Veneza!” Gritos de alarme, como há bem pouco tempo ecoou em Itália repercutiu-se em todo o mundo. A Praça de São Marcos inundada. Há uns anos, em pleno verão estivemos lá sentados numa esplanada. Nesta praça tivemos que, num ápice, nos levantar, quando a água repentinamente surgira por debaixo das mesas e cadeiras e já nos começava a molhar os pés. Sempre foi assim, mas desta vez foi exagerado.

“Zero saiu da Internet e tomou as ruas”. Cerca de 13 mil agentes da PSP e militares da GNR participaram de forma pacífica na manifestação do dia 21 de novembro. O anónimo Movimento Zero passou a ter milhares de rostos e ocupou as ruas. Deixou de ser anónimo. No Marquês de Pombal venderam-se T-shirts do Movimento zero. Milhares vestiram-nas. “Zero, Zero, Zero…” foi a palavra de ordem gritada ao longo de toda a marcha. E, enquanto gritavam, levantavam os punhos, juntando o polegar com o indicador desenhando um zero. “Certamente que muitos dos manifestantes nem sequer sabiam que aquele gesto é também usado pela extrema-direita em muitos países do mundo. Em gritos e cartazes pretendiam os manifestantes sensibilizar a cidadania para a imensa panóplia de problemas das forças de segurança”. Aqui se posicionou o deputado da extrema direita, André Ventura. Lamentável, entre frustrações justas e as inaceitáveis apropriações.

Ao grito das gentes do Interior, aquele que fica fora de Lisboa, respondeu o Governo com três secretarias de Estado para fora da capital. Qual o critério para terem de ir umas e não outras secretarias, quando se verifica que como único e previsível critério será o da proximidade dos governantes dos locais escolhidos? Vai existir um verdadeiro plano de ação, ou é mais um faz de conta? Isto porque basta ter ouvido Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial. na sua expressão de que iria “gerir o declínio…” do Interior! Para afinal, fazer o quê desta parcela do território português? Está mais que visto que passará a ser “Tudo como dantes, Quartel General em Abrantes”.

Gritos dos Srs. H.  – Henrique Galvão e Humberto Delgado foram dois notáveis personagens da nossa história do século XX. Ambos haviam sido declarados apoiantes de Salazar e do Estado Novo, até meados do século passado. Paradoxalmente, ambos foram posteriormente profundamente seus inimigos.  O grito de “obviamente demito-o”, saído da boca de Humberto Delgado, referindo-se a Salazar, conduzi-lo-ia ao caminho da morte por assassínio.  Já o grito de Henrique Galvão, com o desvio do navio Santa Maria no mar das Caraíbas iria chamar, de novo, as atenções internacionais para a falta de liberdade no Portugal de Salazar. À frente deste audacioso golpe político estavam Galvão e Delgado…

Depois há outros gritos, como os de Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, ou dos secretários-gerais da CGTP e UGT.

Gritos suavíssimos – Para terminar este final de ano, mencionamos os gritos finlandeses com a chegada da Finlândia, pela primeira vez na sua história, desde a sua estreia em jogos internacionais, em 22 de outubro de 1911, pela sua passagem à fase final de uma grande prova – o Euro 2020.

Votos com gritos de Boas Festas de Natal.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-11-2019)

13 de novembro de 2019

O CHICO-ESPERTISMO DE JUAN SEBASTIÁN ELCANO

Com o português Fernão de Magalhães, que comandou a expedição da viagem que iria ser conhecida por circum-navegação, partiu numa das cinco naus, o espanhol Juan Sebastián Elcano, no dia 20 de setembro de 1519.
Nascido em Getaria, Guipúscoa no ano de 1476, quatro anos mais novo que o português, foi um explorador, navegador e marinheiro.
Tendo completado 23 anos, Sebastián Elcano passou a ser dono e capitão do seu próprio navio mas devido a problemas financeiros fugiu para Sevilha onde aprendeu a sua arte de navegação, tornando-se piloto.
Estabelecido em Sevilha tornou-se capitão de navio mercante. Após violar a lei espanhola ao entregar um navio a banqueiros genoveses como pagamento de uma dívida, Elcano procurou o perdão do rei D. Carlos I de Espanha, inscrevendo-se assim como oficial na expedição liderada por Fernão de Magalhães às Molucas.
Estávamos então na Idade Média, cujo comércio das especiarias era considerado de longe o mais rentável para a época pois que o mais pequeno volume de mercadoria garantia a maior margem de lucro. No século XV, um único saco de pimenta tinha mais valor que uma vida humana.
Da mesma forma que hoje grande parte da economia do mundo moderno se baseia no petróleo, grande parte da economia do mundo medieval firmava-se no comércio dos produtos do Oriente, mormente nas especiarias: cravo, canela, pimenta, malagueta, noz-moscada, mirra, incenso.
Se a Fernão de Magalhães lhe era recusado pelo monarca português, D. Manuel I, primeiro a indemnização pelo cavalo morto, depois a gratificação pelas feridas em combate, durante a escaramuça às portas de Azamor, que o deixara coxo o resto da vida; e o aumento da moradia; e também  de navegar para as Molucas; e por fim qualquer outro serviço, ele tornou-se para D. Manuel além dum fardo, um inútil. Também o covilhanense Ruy Faleiro tinha razões de queixa de D. Manuel, talvez por este lhe ter negado o posto de lente na Universidade de Coimbra. Tal não acontecia na conduta dos espanhóis para com Elcano.
Magalhães teve consigo um acompanhante e intérprete, Enrique de Malaca, um jovem escravo que havia adquirido, o qual viria a permanecer ao seu lado e ser-lhe fiel até à sua morte. Entretanto Juan Sebastián Elcano acabava por ser poupado por Fernão de Magalhães, depois daquele ter participado num motim falhado nas costas da Patagónia, contra Magalhães.
Ninguém sabia exatamente a dimensão do mundo, nem a sua morfologia, assim como as direções para o percorrer. Um dos grandes enigmas geográficos da Idade Média era a localização.
Depois do motim falhado, a nau San Antonio foi confiada a Juan Sebastián Elcano, não obstante ter procurado impedir que Magalhães concretizasse a sua ideia. Noutra altura, seria chamado como eleito pelo destino de concluir a obra de Fernão de Magalhães.
O mestre de armas Gomez de Espinosa havia sido o mais fiel apoiante de Magalhães e, a bordo do Trinidad viria a perecer ingloriamente, após sofrimentos, juntamente com os seus companheiros de desgraça, sendo esquecidos pela ingratidão da História. Juan Sebastián Elcano será imortalizado, precisamente o chico-esperto que quis impedir o feito de Magalhães e que se revoltou contra o seu almirante.
Poucos dias depois da batalha de Mactan, onde viria a ficar sem vida Fernão de Magalhães, o rei de Cebu, Humabon, e o escravo de Magalhães, Enrique, armam uma cilada aos principais oficiais da armada. Cada um com as suas razões, ambos se sentindo traídos e humilhados, sendo que Enrique tem motivos porque os oficiais da armada ameaçam mantê-lo em escravidão, apesar das ordens deixadas por Magalhães no seu testamento; e Humabon porque “estes europeus cristãos, declarando-se tocados pela graça do seu Deus e invulneráveis, convenceram-no a prestar-lhes vassalagem – e, afinal foram vencidos por um dos seus vassalos”.
Os dois conspiradores organizaram um jantar de homenagem e de despedida dos principais tripulantes da armada, que acabaria por se transformar num autêntico massacre.
Os sobreviventes decidiram abandonar a nau Concepción nas Filipinas já que não havia homens suficientes para manobrar três navios. A armada, agora reduzida à Trinidad e à Victoria, chegou às Molucas em novembro de 1521, seis meses depois dos trágicos acontecimentos ocorridos em Cebu. A nau Trinidad, necessitando de reparações urgentes não pode seguir viagem a tempo de aproveitar os ventos de monção.
Sebastián Elcano foi um dos poucos oficiais que se salvaram do massacre de Cebu. O covilhanense Ruy Faleiro, parceiro de Magalhães nos primeiros tempos, foi encarcerado mal entrou em Portugal. Só aquele que se ergueu contra Magalhães, Sebastián Elcano, arrebanhou todas as glórias aos que lhe foram fiéis, aos que morreram.
Quando, no dia 9 de julho de 1522 a extenuada nau Victoria se aproximou das ilhas de Cabo Verde, após cinco meses de uma viagem ininterrupta, já só com trinta e um espanhóis e três indígenas, Elcano, mais uma vez chico-esperto, decidiu arriscar e enganar os portugueses quanto à verdadeira identidade. Antes de enviar alguns homens a terra num batel, a fim de comprarem mantimentos, obrigou a tripulação a jurar solenemente que não dariam a entender aos portugueses, nem por uma palavra, que eles eram o que restava da frota de Magalhães e que regressavam da viagem à volta do mundo, sendo os marinheiros instruídos a contar uma peta. E a 6 de setembro de 1522 chegava ao fim o maior feito marítimo de todos os tempos.
Participantes da região beirã nesta viagem de circum-navegação: Afonso Gonçalves, da Guarda, despenseiro da Victoria. Desertou nas ilhas Marianas, onde foi morto em finais de agosto de 1522. Domingos Álvares, da Covilhã, grumete da Trinidad. Faleceu em 7 de junho de 1522.
Dos 18 sobreviventes que chegaram a Espanha havia um único português – Francisco Rodrigues – , marinheiro, nascido em 1482, que não sabia ler e afirmara inicialmente que era castelhano.
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Pesquisas: “MAGALHÃES o homem e o seu feitio”, de Stefan Zweig; “Nos Passos de Magalhães”, de Gonçalo Cadilhe; “A Viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses”, de José Manuel Garcia.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 13-11-2019)