Nasci na cidade da Covilhã há já oito décadas. Desde muito cedo convivi
com o cheiro do papel, entre jornais e livros, na Biblioteca Municipal. Esse
ambiente marcou-me profundamente e permanece até hoje como uma memória viva,
quase nostálgica, de um tempo em que a palavra escrita tinha um peso próprio e
um ritmo diferente.
Fiz o meu percurso escolar antes do surgimento da Internet, essa
revolução que viria a transformar o mundo e, de forma muito particular, a
comunicação social. Ao longo da vida, acompanhei essa transformação,
participando na publicação de livros e colaborando em vários jornais, alguns
entretanto desaparecidos. Sou, como gosto de dizer, apenas um escrevinhador de
crónicas e notícias, sobretudo na Beira Interior, mas sempre com uma avidez
intacta pela escrita.
Dos muitos periódicos e revistas onde colaborei, ficaram amizades, cumplicidades
intelectuais e um profundo respeito pelo jornalismo local, esse espaço onde se
preserva a memória, se dá voz às comunidades e se constrói identidade.
Encontra-se atualmente no prelo a minha mais recente obra, “100 Anos do
Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes”, cuja apresentação está prevista
para o próximo dia 23 de maio, sinal de que o trabalho ligado à palavra
impressa continua a fazer parte do meu quotidiano.
Vivemos, porém, tempos difíceis para o papel. As novas tecnologias têm contribuído
de forma decisiva para a migração da informação para o digital. A isto soma-se a
decisão da VASP, empresa responsável pela distribuição de jornais e revistas em
Portugal, que pondera abandonar rotas consideradas deficitárias, sobretudo em
regiões mais envelhecidas e desertificadas. Esta realidade agrava o sentimento
de exclusão de muitos leitores, em particular pessoas idosas, que não se revêm
nem se sentem atraídas pelo consumo de informação online.
Trata-se, em muitos casos, de mais um golpe nos territórios esquecidos do
Portugal interior e periférico.
É neste contexto que ganha pleno sentido o título desta crónica.
No prestigiado quinzenário O
Olhanense, onde tenho a honra de escrever há mais de um quarto de século, encontrei
sempre exemplo raro de persistência e dedicação. Ao longo dos seus sessenta e
três anos de existência, este jornal nunca falhou com os seus leitores. Sendo o
único periódico da cidade, reúne colaboradores de áreas diversas, onde cabem a
poesia, as estórias e a história de Olhão e da sua região.
Por isso mesmo, é confrangedor ouvir, da parte do seu principal
dinamizador e diretor, um verdadeiro grito de alerta. A luta diária para manter
o jornal vivo é árdua e solitária, E se O Olhanense acabar, dificilmente
voltará a erguer-se.
Um jornal bem concebido, de leitura acessível e agradável de folhear, não
deve desaparecer. Bastaria, muitas vezes, um gesto simples: a renovação ou
adesão a uma assinatura anual. Será excessivo que um serrano venha junto dos
algarvios fazer este apelo?
Sou colaborador do jornal, pro bono, como não poderia deixar de ser, mas
sou também assinante, sempre com as quotas em dia. Faço-o por convicção.
Estou certo de que, não fosse a persistência desse verdadeiro lutador de
causas chamado Mário Proença, o quinzenário já teria desaparecido. A ele se
deve um ato de resistência cultural que importa reconhecer e apoiar.
Contribuir para a sobrevivência de O Olhanense é, nos dias que
correm, um ato de justiça. Recomendo vivamente a leitura atenta da poesia publicada
no último número, da autoria de Cátia Guerreiro, sob o título “Opostos de
audição”, exemplo de qualidade que ainda vive nas páginas deste jornal.
Enquanto houver quem resista, o papel continuará a fazer sentido.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”,
de 15-02-2026)









