19 de fevereiro de 2026

A PERSISTÊNCIA DE UM LUTADOR DE CAUSAS


 

Nasci na cidade da Covilhã há já oito décadas. Desde muito cedo convivi com o cheiro do papel, entre jornais e livros, na Biblioteca Municipal. Esse ambiente marcou-me profundamente e permanece até hoje como uma memória viva, quase nostálgica, de um tempo em que a palavra escrita tinha um peso próprio e um ritmo diferente.

Fiz o meu percurso escolar antes do surgimento da Internet, essa revolução que viria a transformar o mundo e, de forma muito particular, a comunicação social. Ao longo da vida, acompanhei essa transformação, participando na publicação de livros e colaborando em vários jornais, alguns entretanto desaparecidos. Sou, como gosto de dizer, apenas um escrevinhador de crónicas e notícias, sobretudo na Beira Interior, mas sempre com uma avidez intacta pela escrita.

Dos muitos periódicos e revistas onde colaborei, ficaram amizades, cumplicidades intelectuais e um profundo respeito pelo jornalismo local, esse espaço onde se preserva a memória, se dá voz às comunidades e se constrói identidade.

Encontra-se atualmente no prelo a minha mais recente obra, “100 Anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes”, cuja apresentação está prevista para o próximo dia 23 de maio, sinal de que o trabalho ligado à palavra impressa continua a fazer parte do meu quotidiano.

Vivemos, porém, tempos difíceis para o papel. As novas tecnologias têm contribuído de forma decisiva para a migração da informação para o digital. A isto soma-se a decisão da VASP, empresa responsável pela distribuição de jornais e revistas em Portugal, que pondera abandonar rotas consideradas deficitárias, sobretudo em regiões mais envelhecidas e desertificadas. Esta realidade agrava o sentimento de exclusão de muitos leitores, em particular pessoas idosas, que não se revêm nem se sentem atraídas pelo consumo de informação online.

Trata-se, em muitos casos, de mais um golpe nos territórios esquecidos do Portugal interior e periférico.

É neste contexto que ganha pleno sentido o título desta crónica.

No prestigiado quinzenário O Olhanense, onde tenho a honra de escrever há mais de um quarto de século, encontrei sempre exemplo raro de persistência e dedicação. Ao longo dos seus sessenta e três anos de existência, este jornal nunca falhou com os seus leitores.   Sendo o único periódico da cidade, reúne colaboradores de áreas diversas, onde cabem a poesia, as estórias e a história de Olhão e da sua região.

Por isso mesmo, é confrangedor ouvir, da parte do seu principal dinamizador e diretor, um verdadeiro grito de alerta. A luta diária para manter o jornal vivo é árdua e solitária, E se O Olhanense acabar, dificilmente voltará a erguer-se.

Um jornal bem concebido, de leitura acessível e agradável de folhear, não deve desaparecer. Bastaria, muitas vezes, um gesto simples: a renovação ou adesão a uma assinatura anual. Será excessivo que um serrano venha junto dos algarvios fazer este apelo?

Sou colaborador do jornal, pro bono, como não poderia deixar de ser, mas sou também assinante, sempre com as quotas em dia. Faço-o por convicção.

Estou certo de que, não fosse a persistência desse verdadeiro lutador de causas chamado Mário Proença, o quinzenário já teria desaparecido. A ele se deve um ato de resistência cultural que importa reconhecer e apoiar.

Contribuir para a sobrevivência de O Olhanense é, nos dias que correm, um ato de justiça. Recomendo vivamente a leitura atenta da poesia publicada no último número, da autoria de Cátia Guerreiro, sob o título “Opostos de audição”, exemplo de qualidade que ainda vive nas páginas deste jornal.

Enquanto houver quem resista, o papel continuará a fazer sentido.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-02-2026)

 

14 de fevereiro de 2026

UM SÉCULO DEPOIS, OS MESMOS FANTASMAS


 

Nestes primeiros meses de 2026, vale a pena olhar para trás e revisitar alguns acontecimentos ocorridos há exatamente cem anos. Não por mero exercício de memória histórica, mas porque a História, quando ignorada, tem a inquietante tendência para se repetir.

Se tivéssemos dado ouvidos aos alertas da comunidade científica sobre a forma como estávamos a degradar o planeta e às consequências que daí adviriam, talvez hoje não estivéssemos a viver ciclos sucessivos de catástrofes naturais, nem verões que se transformam, quase inevitavelmente, em épocas de incêndios devastadores. A negligência coletiva cobra sempre um preço – e esse preço está agora à vista de todos.

Assinala-se este ano um século sobre o início do processo que conduziu ao chamado Estado Novo, com a ascensão do professor Oliveira Salazar. O ano de1926 abriu com um golpe militar que instaurou uma ditadura e que, mais tarde, daria origem a um regime autoritário de longa duração, após a I República – nascida em 1910 – ter sido marcada por instabilidade política, económica e social. O resultado foi um regime fechado, repressivo e avesso à liberdade, que só terminaria com o 25 de Abril de 1974.

Portugal não foi caso único. No país vizinho, Espanha, vivia-se também um período conturbado sobe a ditadura de Miguel Primo de Rivera, durante o reinado de Afonso XIII. O crescimento dos nacionalismos regionais, nomeadamente na Catalunha e no País Basco, e a incapacidade de resposta política acabariam por conduzir à Guerra Civil Espanhola e, em 1939, à ascensão de Francisco Franco. Instalava-se mais uma ditadura, que, à semelhança da portuguesa, se prolongaria por décadas.

Em Itália, Benito Mussolini consolidava o fascismo após a Marcha sobre Roma, em 1922, iniciando um regime autoritário com a complacência da monarquia. O fascismo italiano viria a servir de inspiração a outros regimes, num tempo em que a força se sobrepunha ao direito e a propaganda substituía o pensamento crítico.

Mussolini sonhava com a criação de um novo Império Romano, uma ambição que não é estranha a alguns líderes atuais, obcecados com grandezas passadas e expansões territoriais. O alinhamento com a Alemanha de Adolf Hitler selou destinos. A Alemanha esmagada pelas indemnizações da I Guerra Mundial, vivia mergulhada na hiperinflação, miséria e instabilidade social. Foi nesse terreno fértil de desespero e ressentimento que o Partido Nacional-Socialista cresceu, conduzindo o mundo a uma nova guerra global.

A França, por sua vez, ocupava a região do Ruhr, rica em carvão – a principal fonte de energia da época – tentando forçar o pagamento das reparações de guerra. Também aqui se demonstrou como a humilhação económica raramente gera estabilidade política.

Os Estados Unidos da América emergiam como potência dominante. A crise bolsistas de 1929 revelou, porém, os perigos da especulação descontrolada e da ilusão de prosperidade infinita. O colapso financeiro teve efeitos devastadores a nível mundial com falências, desemprego em massa e profundas fraturas sociais. Paradoxalmente, essa mesma capacidade produtiva viria depois a ser determinante na II Guerra Mundial e na reconstrução da Europa, através do Plano Marshall, consolidando os EUA como principal potência económica global.

 

Transportar os ensinamentos de há 100 anos para o presente não exige grande esforço. Mudam-se as fontes de energia, os discursos e os protagonistas, mas repetem-se os padrões: ambições expansionistas, fragilidade das instituições, ausência de lideranças responsáveis, corrida ao armamento e o enfraquecimento do multilateralismo.

Um século depois, ao entrarmos em 2026, regressam velhos receios: o avanço de regimes autoritários, a imposição de modelos económicos que limitam o livre comércio, o recurso a tarifas aduaneiras como arma política e as crescente ameaças à liberdade de escolha das sociedades. Ignorar estes sinais seria, mais uma vez, um erro histórico – e sabemos bem como esses erros costumam terminar.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-02-2026)

 

4 de fevereiro de 2026

OS TONHOS

 

OS TONHOS

O nosso Pelourinho de hoje – como o povo ainda lhe chama – já não é o mesmo de outros tempos. Está diferente. Tudo mudou. Resta saber se para melhor ou para pior.

Há factos que, pelo seu tipismo citadino, ficam na memória coletiva e se transmitem de geração em geração. Este é um deles.

Já não existe o coreto. Os quiosques modernizaram-se, como o Quiosque do Jardim. A Fonte das Três Bicas esteve durante muito tempo votada ao esquecimento, mas hoje encontra-se em local de boa visibilidade. Durante anos contrastou com outras fontes da cidade, marcadas pela tabuleta amaldiçoada: “Água imprópria para beber”.

Existia também o Arco da Cadeia, que era a porta da cidade. Eram outros tempos, em que a modernidade estava a léguas de distância.

Mas havia, sobretudo, os bancos do Pelourinho. Uns bancos que o tempo levou, onde certas pessoas repousavam as fadigas, conversavam ou marcavam encontros.

Era o caso dos “Tonhos do Pelourinho”, como o povo lhes chamava. Quem eram eles, na realidade?

Gente muito humilde, frequentemente desempregada, que se sentava pacientemente à espera de que alguma boa alma precisasse dos seus serviços. Assim angariavam algum dinheiro para o sustento próprio e das famílias.  

Havia entre eles um princípio sagrado: o “mata-bicho da manhã”. O primeiro dinheiro ganho por qualquer um revertia a favor de todos, para pagar o pequeno-almoço coletivo. Um verdadeiro humanismo social, cumprido religiosamente.

Entre os Tonhos sobressaía um: homem entroncado, que andava quase sempre descalço e possuía um rosto de traços macacados. Chamavam-lhe Nico. Embora bebesse um pouco, era, por natureza, um homem bom. Dizia-se até que descendia de antigos judeus da cidade. Morava na antiga Rua de São Paulo, numa casa que já não existe – hoje Rua Comendador Mendes Veiga, n.º 11.

Um vizinho, Fernando da Cruz, abastado comerciante de fazendas, tinha grande afeição por Nico, e dava-lhe roupa usada. Um dia ofereceu-lhe um fraque e umas calças às riscas, muito em uso na época. Também lhe davam sapatos, mas ele nunca os usava. Com sol, chuva ou neve, só descalço se sentia bem. Agradecia tudo, mas calçado não. Vestia as calças às riscas, envergava o fraque e lá ia, descalço, para os bancos do Pelourinho. Por onde passava, surgiam risadas, de que pouco se importava. Ingrato ou soberbo, nunca foi.

O povo passou então a chamá-lo Tonho Nico, ou simplesmente, Tonhico, figura central dos Tonhos do Pelourinho.

Em 1919 foi levada à cena, na Covilhã, a revista: No País da Guedelha, de Mário Quintela.  Foi grande êxito. Um dos atores, Jerónimo Monteiro Ranito, representou o pobre Nico: descalço, de calças às riscas e fraque. No seu desempenho cantava o Fado dos Bancos do Pelourinho, com poema de João Figueiredo e música de António Rodrigues Gomes – o fado da vida do próprio Nico, que toda a cidade decorou e cantou. O refrão dizia:

 

“Bancos antigos, amigos certos,

P’ros desgraçados, para os mendigos,

Sempre de braços abertos!

Ai!...

Lembra a minha alma vosso carinho.

Ai!... que saudades da vossa calma,

Ó bancos do Pelourinho!...”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-02-2026)

 

 


21 de janeiro de 2026

“Montanha é Saúde: Memórias da Colónia Infantil da Serra”



 

Em 26 de outubro de 1934 tomou posse como comandante da Polícia de Segurança Pública da Covilhã o tenente João José Amaro, então com 40 anos de idade, natural de Alcongosta, do concelho do Fundão.

 Homem de vistas largas e profundo conhecedor da região, em especial da Serra da Estrela, o tenente Amaro idealizou a construção de uma colónia de férias para crianças, nas Penhas da Saúde. Se bem o pensou, melhor o concretizou, lançando-se com determinação na angariação de fundos para tão vultuoso empreendimento.

Nesse tempo, os pequenos delitos eram resolvidos na própria esquadra da PSP, pelo comandante, sendo aplicada ao infrator uma multa fixa 55$00. Daqui nasceu a célebre “volta dos 55”. Tudo ali poderia ser tolerado ou mesmo perdoado aos faltosos, exceto os 55$00, que iam inteirinhos para o fundo destinado à futura Colónia Infantil da Montanha.

Assim, bêbados que provocassem desacatos, lixo atirado à rua, vizinhos desavindos – todo um rol de pequenas infrações – acabava sujeito à temida “volta dos 55”. Conta-se que, para os lados de Santo António, um certo indivíduo resolveu um dia dar liberdade às suas galinhas, que invadiram a propriedade de um seu vizinho. Este, aproveitando a ocasião, abancou com uma delas.

Depois de discussão e mais discussão, o caso foi parar à esquadra. O tenente Amaro, homem arguto, ouviu atentamente os dois vizinhos e aplicou a sua peculiar justiça:

– “Tu, por teres roubado e comido uma galinha, pagas a multa de 55$00 (quando o valor da galinha rondaria os 10$00). E o senhor paga também 55$00, por não as saber guardar e as deixar andar pela rua!”

O empreendimento foi arrematado em abril de 1936, dando-se de imediato início às obras.

Atendendo a que, na época, o salário diário de um trabalhador rondava entre os 6$00 e os 15$00, percebe-se bem quão difícil era pagar a multa dos 55$00. Daí que o povo da Covilhã, quando tinha de ir à esquadra, para além da temida “volta dos 55”, passasse a chamar à Colónia, então em construção, a “Casa das Lágrimas”, tantas foram as vertidas para que as multas pudessem ser satisfeitas.

Além disso, a 24 de julho de 1938, com grande pompa e a presença das forças vivas da cidade – civis, militares e eclesiásticas – foi inaugurada a Colónia Infantil da Montanha. Fê-lo alegremente com um grupo de 111 crianças de ambos os sexos, constituindo o primeiro turno de 20 dias, dos três que anualmente se realizavam, terminando em setembro com o tradicional “Adeus, até pró ano!”.

A partir daí, as lágrimas continuaram a correr, agora pelas mães, devido à ausência de 20 dias dos seus filhos. Era vê-las nas madrugadas de domingo, serra acima, com o farnel às costas, para passarem o dia com os pequenos. Era bonito e saudável observar aquelas filas indianas, quer pelo atalho das Sete Fontes, quer pela Curva do Esse:  homens, mulheres e crianças, numa alegria contagiante, a caminho da Colónia.

Pior era o regresso! Lá vinham de novo as teimosas lágrimas de despedida, mas, agora eram apenas lágrimas de afeto familiar.

A Colónia Infantil da Montanha foi administrada pela PSP até 23 de outubro de 1942, data em que o Comando da Corporação a entregou à Câmara Municipal da Covilhã, em plena propriedade.

Importa referir que muitas pessoas abastadas da cidade contribuíram generosamente para o sustento das crianças durante a sua permanência, oferecendo batatas, azeite e outros géneros de primeira necessidade.

Apesar das grandes despesas da autarquia com a manutenção da “Casa das Lágrimas”, nunca se ouviu dizer, nas vereações desses tempos, que se acabasse com a Colónia. Estava provado que os 20 dias que as crianças do concelho passavam na Montanha lhes eram benéficos, tanto mental como fisicamente.

Mas, como diz o povo, “não há bem que sempre dure…”  Assim, em 18 de maio de 1976, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal da Covilhã, presidida pelo Sr. Luís Filipe Mesquita Nunes, vendeu o imóvel de utilidade pública ao Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis (FAOJ), pela quantia simbólica de 2.243.060$00, pouco mais de dois mil e duzentos contos.

Também eu, com cerca de 8 anos, o meu irmão mais novo, e a minha irmã mais velha estivemos nessa Colónia de Férias durante 20 dias. No entanto, a nostalgia de estar fora de casa falava mais alto. A Colónia era então gerida pela Câmara Municipal da Covilhã, sob a orientação das freiras que vinham de fora, como a conhecida superiora, irmã Maria. Mais tarde, já como funcionário da edilidade covilhanense, por várias vezes fiquei encarregado de ir contar as crianças e providenciar as necessidades que a irmã Maria solicitava para o bom funcionamento da Colónia.

Outros tempos.

Hoje, é a Pousada da Juventude.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “ O Olhanense”, de 15-01-2026)

16 de janeiro de 2026

CUIDAR DA MENTE AO LONGO DA VIDA

 

          • Dando continuidade a um trabalho dos neurologistas Belmira Nunes e Álvaro Machado,  apresentado neste Jornal, sob o tema “Quando a Memória Falha”, no início de novembro passado, trazemos ao seu conhecimento mais alguns pormenores interessantes que a todos deverá interessar.

O enigma do Alzheimer

Mais de cem anos após a sua descoberta, a Ciência ainda não identificou o mecanismo exato que provoca a doença de Alzheimer, nem os meios eficazes para a sua prevenção e tratamento.

Envelhecer, contudo, não significa perder autonomia cognitiva. É possível agir, individual e coletivamente, para proteger a mente – começando pelo reconhecimento dos fatores de risco que podemos modificar.

O que é a demência?

“Demência” não é sinónimo de Alzheimer.

O termo designa a perda de capacidades cognitivas funcionais anteriormente adquiridas, causada por uma degeneração do cérebro.

O cérebro adulto pesa entre 1,1 e 2 kg e contém cerca de 86 mil milhões de nerónios. Com a idade, é natural perder rapidez mental e capacidade de memorização, mas a aprendizagem e o raciocínio podem manter-se ativos por toda a vida.

A memória e o tempo

Platão, pela voz de Diotima de Mantineia, escreveu em O Banquete (384 a.C.):

“O esquecimento é a saída do conhecimento, e o estudo, fabricando de novo uma nova memória, salva o conhecimento”.

Séculos depois, a Neurociência confirmou essa sabedoria antiga. O esquecimento faz parte do ciclo da memória – mas, no Alzheimer, o processo torna-se irreversível e destrutivo.

As alterações cerebrais podem iniciar-se de 15 a 30 anos antes dos primeiros sintomas, o que dificulta o diagnóstico precoce. 

Fatores de risco e prevenção

Entre os principais fatores de risco destacam-se:

. Idade, hipertensão arterial, diabetes, obesidade, tabagismo e alcoolismo.

. Sedentarismo: a prática regular de exercício físico reduz o risco de demência.

. Má qualidade do sono: dormir menos de cinco horas por noite aumenta o risco.

. Isolamento social: Segundo os Censos de 2021, mais de um milhão de portugueses vivem sós – metade são idosos.

A presbiacusia (perda auditiva progressiva), a hipertensão e a diabetes mal controlada também se associam a maior vulnerabilidade cognitiva.

Cuidar da mente ao longo da vida

A alimentação equilibrada, o convívio social, a leitura e a curiosidade intelectual protegem o cérebro e a saúde mental.

Como afirma a psicóloga Catarina Ruas Antunes:

“Existe uma rede de (des)informação sobre a doença mental e temas que outrora foram tabu, mas que hoje fazem parte da narrativa do dia a dia.”

Sigmund Freud, no seu ensaio O Mal-Estar na Civilização, já associava a ansiedade moderna à repressão dos instintos e à repressão social – um diagnóstico que se mantém atual.

Viver com propósito

Envelhecemos todos de maneira diferente.

A genética pesa, mas os fatores ambientais e os hábitos de vida são decisivos. O envelhecimento saudável passa por manter o corpo ativo, a mente curiosa e os afetos próximos.

O dia 10 de outubro é o Dia Mundial da Saúde Mental. É oportunidade para  recordar que cuidar da mente é cuidar da vida – todos os dias, em todas as idades.

 

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 15-01-2026)

 


31 de dezembro de 2025

Quando a Covilhã Enfrentou os Templários: Um Conflito Esquecido da Idade Média Portuguesa

 

 Poucos episódios ilustram tão bem a complexidade da ocupação territorial medieval portuguesa como o conflito entre os concelhos da Covilhã e Castelo Branco, travado no início do século XIII. Este embate frequentemente ausente dos manuais de história, demonstra o choque entre dois modelos de poder: o municipalismo civil, representado pela Covilhã, e a autoridade militar-religiosa dos Templários, detentores de extensas propriedades no interior do país.

O ponto de partida reside nos limites concelhios definidos pelo foral concedido por D. Sancho I à Covilhã em 1186. Este foral não só reconhecia uma administração já existente como atribuía ao concelho vastos territórios que se estendiam da Serra da Estrela ao Tejo. A autonomia militar era também um traço caraterístico: o município organizava as suas próprias forças de defesa, suportadas pelos vizinhos.

Em contraste, Castelo Branco – cujo foral foi emitido pela ordem do Templo em 1213 – constituía uma estrutura dependente dos Templários. As forças militares do concelho eram comandadas pela rígida disciplina da Ordem, que expandia influência e território com base num poder quase autónomo face à Coroa.

As tensões tornaram-se inevitáveis. Os Templários começaram a ultrapassar limites, exigindo portagens aos habitantes da Covilhã em zonas estratégicas como as Portas de Ródão. As queixas acumularam-se e a pressão económica tornou-se insustentável. Perante estes abusos, a Covilhã decidiu mobilizar as suas hostes e enfrentar diretamente o poder templário.

O confronto deu-se a cerca de treze quilómetros de Castelo Branco, no local onde hoje se situa a Póvoa de Rio de Moinhos. O combate foi intenso e terminou com uma surpreendente vitória d as forças concelhia da Covilhã sobre os Templários, considerados uma das forças militares mais temidas da época.

A gravidade do conflito obrigou à intervenção arbitral. Em 1230, no Mosteiro de Santa Maria de Ozezar, foi lavrada uma sentença que confirmou a legitimidade da Covilhã na defesa dos seus direitos territoriais. O documento, preservado e publicado por Alexandre Herculano no século XIX, é hoje uma peça central para compreender o episódio.

Mais do que uma disputa local, o confronto revela uma dimensão política mais profunda: a afirmação dos concelhos portugueses como unidades de poder efetivo, capaz de enfrentar até ordens religioso-militares de grande influência. E demonstra a importância estratégica do interior do país no equilíbrio das forças entre a nobreza, as ordens militares e o poder régio.

O episódio, hoje quase esquecido, mostra que a história de Portugal não se faz apenas nos campos de batalha contra os mouros e castelhanos, mas também na afirmação dos seus concelhos, que foram, desde cedo um dos pilares da construção do país. A Covilhã, nesse capítulo, destacou-se como um exemplo de autonomia, coragem e defesa do bem-comum.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal do Fundão”, de 01-01-2026)

 

 

 


19 de dezembro de 2025


 

OLHANENSE E COVILHÃ PROCURAM RUMO EM CENÁRIO DE DECADÊNCIA



 

O futebol, tantas vezes chamado de Desporto-Rei, vive hoje um dos períodos mais paradoxais da sua história. Nunca foi tão global, tão mediático, tão omnipresente no quotidiano das pessoas; e, ao mesmo tempo, nunca esteve tão distante de muitas das suas raízes comunitárias, dos clubes que ergueram o desporto a partir da paixão local, do sacrifício voluntário, da identidade de bairro, vila ou cidade. Entre a “grande penalidade” que a modernidade lhe cobra e o “fora de jogo” em que tantas instituições tradicionais se veem colocadas, ergue-se um debate urgente: que futebol queremos preservar para o futuro?

O caso de dois clubes históricos – o Sporting Clube Olhanense e o Sporting Clube da Covilhã – ilustra, com uma clareza quase dolorosa, o descompasso entre o brilho do futebol-negócio e a sombra que se abate sobre o futebol regional e de tradição. Ambos viveram décadas de relevância competitiva, ambos são parte inseparável da memória desportiva das suas cidades e ambos, cada um à sua maneira, enfrentam processos de decadência que preocupam quem ainda acredita que o futebol é, acima de tudo, pertença das comunidades.

O Olhanense, terceiro campeão nacional da história do futebol português (08-06-1924), símbolo maior de uma cidade que sempre soube viver o desporto com intensidade, encontra-se há anos num ciclo de instabilidade competitiva, financeira e estrutural. O clube que já fez tremer gigantes e encantou públicos parece hoje navegar num mar revolto, que vinha incapaz de encontrar um rumo que devolva estabilidade e ambição. A distância entre o prestígio do passado e a fragilidade do presente gera frustração – não apenas entre adeptos, mas também entre todos os que reconhecem o papel cultural que este emblema representa para o Algarve e para o país.

Uma esperança renasceu com o desaparecimento da SAD e o ressurgimento do novo Sporting Clube Olhanense, aqui muito mercê da batuta do homem de vontade hercúlea que dá pelo nome de Manuel Cajuda, agora ao leme do clube algarvio.

A centenas de quilómetros, na encosta da Serra da Estrela, o Sporting Clube da Covilhã vive situação semelhante. Também ele clube histórico, habituado durante décadas a ser presença quase permanente nos campeonatos nacionais mais competitivos, enfrenta uma luta diária pela sobrevivência. A descida aos escalões inferiores não traduz apenas um resultado desportivo: espelha a dificuldade de um modelo de gestão e sustentabilidade que se tornou quase impossível para clubes com recursos limitados e comunidades envelhecidas ou dispersas. O “Leão da Serra”, tantas vezes orgulhoso representante de uma região inteira, vê-se agora obrigado a repensar a sua identidade e o seu futuro.

Estes dois exemplos não são exceções – são sintomas. Sintomas de um futebol que se desequilibrou, que abandonou parte do seu ecossistema natural, que deixou para trás clubes que, durante décadas, alimentaram o talento nacional, construíram estádios com o esforço da população e criaram gerações de adeptos para quem a camisola era quase uma extensão da própria alma. Hoje, com orçamentos que rivalizam com pequenas economias, muitos emblemas regionais vivem num permanente “fora de jogo”, lutando por espaço mediático, por apoios financeiros, por sócios e até, em casos extremos, pela própria existência.

Apesar de tudo, há um elemento que permanece intacto: a paixão. É ela que continua a levar adeptos ao Estádio José Arcanjo ou ao Santos Pinto; é ela que continua a convocar memórias de tardes gloriosas, de subidas dramáticas, de golos improváveis. É ela que impede que o futebol regional desapareça por completo. Mas a paixão, por si só, já não chaga. Hoje exige-se visão, profissionalização, compromisso municipal e empresarial, união associativa e, acima de tudo, coragem para reinventar modelos que há muito deixaram de responder às necessidades atuais.

O futebol português – e o futebol em geral – tem que reencontrar o equilíbrio. Não se trata de travar a evolução natural do desporto, nem de reclamar um regresso a tempos românticos que já não voltam. Trata-se de assegurar que o crescimento do topo não destrói a base; que a obsessão pelo lucro não elimina a identidade; que o brilho dos grandes palcos não apaga a luz dos pequenos estádios que, tantas vezes, são os primeiros lares de futuros campeões.

O Olhanense e o Covilhã, com todas as suas dificuldades, continuam vivos. E enquanto permanecerem vivos, há esperança. Há história, há comunidade, há herança. Mas é fundamental que esta esperança seja acompanhada de ação – não apenas por parte dos clubes, mas também dos poderes locais, dos agentes desportivos, das federações e de todos os que acreditam que o Desporto-Rei não pode ser apenas um negócio: tem de continuar a ser, também, uma cultura.

Entre a grande penalidade e o fora de jogo, o futebol português prepara-se para decidir o seu futuro. Que essa decisão não esqueça os clubes que ajudaram a construir a própria essência do jogo. Eles merecem mais do que nostalgia: merecem futuro.

Votos de um Natal pleno de Saúde e um Feliz Ano Novo em que a Esperança seja a realização dos sonhos que mais desejarem, refletidos na Família do Jornal O Olhanense e do Sporting Olhanense, Leitores e Amigos.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-12-2025)