D.
Pedro V ficou na memória dos portugueses como o mais amado dos reis. Nasceu em 1837
e veio a falecer em 1861, vítima de febre tifoide. Reinou quando era ainda quase
uma criança, entre os 16 e os 24 anos. No entanto, foi nesse período que o
regime constitucional se consolidou, que muitas fortunas particulares nasceram
e que a primeira linha férrea foi inaugurada.
Mas
este jovem rei não se tornou querido apenas por se ter sentado no trono. Sorrindo
timidamente, numa época de vacas gordas, ficou também no coração dos seus
contemporâneos e na lembrança dos que se lhe seguiram por ter escolhido para
sua mulher uma jovem alemã que agradou muito a todos: Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen,
ou simplesmente D. Estefânia. Conheceram-se quando ambos tinham 17 anos. Entre
eles nasceu um forte afeto que durou, infelizmente, pouco mais de um ano.
Estefânia
morreria não muito depois de ter chegado a Portugal. Foi vítima de difteria contraída
no decorrer de uma visita a Vendas Novas. Nas cartas à família, a jovem alemã queixava-se
da aridez do nosso clima, embora dissesse gostar muito de Sintra – onde passou
uma prolongada lua de mel com D. Pedro – e de Mafra.
Dotada
de sentimentos filantrópicos, fundou hospitais com o marido e dedicava-se muito
a visitar doentes. O Hospital Pediátrico de D. Estefânia, fundado em 1877, recebeu
esse nome em homenagem à mulher e única paixão de D. Pedro V.
O
jovem viúvo, nos escassos dois anos que ainda viveu, seguiu-lhe os passos, sendo
frequente vê-lo à cabeceira de internados durante uma epidemia de cólera. Talvez
por isso viesse também a falecer bastante cedo.
Em
matéria amorosa, seu irmão D. Luís foi o oposto. Parece ter gostado
sinceramente da italiana Maria Pia de Saboia, com quem casou em 1862. Cumpriu a
“tarefa” de assegurar a existência de herdeiros do trono, com o nascimento do
sucessor, D. Carlos.
A
Câmara Municipal da Covilhã promoveu festejos na então vila para assinalar este
casamento. Alguns extratos das felicitações foram reproduzidos na ata de 29 de
setembro de 1862:
“Senhor:
A
Câmara Municipal da Vila Notável da Covilhã vem mui respeitosamente, e possuída
do mais sincero júbilo, felicitar Vossa Majestade pelo faustíssimo consórcio
que vai tomar Nossa Rainha, Sua Alteza a Sereníssima Senhora D. Maria Pia de
Saboia.
(…) Poderia
a nossa futura Rainha cingir coroa de mais dilatados domínios! Porém não
encontraria hoje debaixo do sol um Soberano mais querido, e uma Nação onde o
amor, a fidelidade e a dedicação por seus Monarcas tenham sido, e sejam, mais
puras e acrisoladas. (…)
Deus
guarde a preciosa vida de Vossa Majestade e faça com que este feliz enlace seja
perene fonte de venturas para Vossa Majestade e seguro penhor de felicidade para
todos os Portugueses.
Sala
das Sessões da Câmara Municipal da Vila Notável de Covilhã, aos 25 de setembro
de 1862”.
Programa
1.º Convidaram-se
por ofício todos os Presidentes e Vogais das Juntas de Paróquia das freguesias
deste Concelho para, nos três dias referidos, mandarem repicar os sinos e fazer
todas as manifestações, que mostrassem o seu regozijo.
2.º Convidaram-se
para assistir à solenidade religiosa no dia 12: o Administrador do Concelho,
com os Empregados seus subordinados; o Juiz de Direito desta Comarca, com os
seus empregados; o Escrivão da Fazenda do Concelho, com os respetivos
funcionários; o Delegado do Procurador
Régio nesta Comarca; o Tenente Coronel comandante da força militar, bem como a
respetiva oficialidade; os Presidente e Vogais das Juntas de Paróquia da Vila;
os Juízes Eleitos da mesma; o Juiz de Paz do distrito da Covilhã; a direção e membros
da Associação Comercial Hermínia; a direção e membros da Associação dos
Artistas e Classes Laboriosas Covilhanenses; a direção da Filarmónica
Covilhanense; a direção dos Artistas; os Professores de Instrução Primária e de
Gramática Latina; o Tesoureiro do Concelho; e o diretor de Pesos e Medidas (que
nesta Vila se achava temporariamente).
3.º Convidou-se
o Reverendo Pároco de Santa Maria para, no dia 12, pelas 10 horas da manhã,
celebrar missa cantada e solene Te Deum na sua Igreja, tendo sido também
prevenido de que se convidava o Reverendo Arcipreste para assistir com o
Reverendo Corpo Eclesiástico à solenidade religiosa. (…)
5.º
No dia 10, à noite, tocaram no largo do Pelourinho as duas filarmónicas,
colocando-se uma à esquina do chafariz e outra em frente da Casa da Associação
dos Artistas. (…) Às oito horas da noite estava completamente acesa uma
iluminação de novecentas e nove lumes, que ocupava toda a frente meridional da
Torre dos Paços do Concelho. (…)
8.º
Às três horas da tarde, as cento e sessenta e cinco praças aqui destacadas
tiveram um abundante jantar de sopa de macarrão, arroz, toucinho, vaca, pão de trigo,
e um quartilho de vinho para cada praça. Este jantar foi dado pela Câmara
Municipal, que para este efeito pôs à disposição do Senhor Tenente-Coronel comandante,
a quantia de trinte e três mil réis. (…)”
Não
tardou, no entanto, que D. Luís I trocasse o leito da esposa pelos de muitas
outras mulheres, de variados estratos sociais. A saúde da jovem rainha não
tardou a ressentir-se desse comportamento do marido.
D.
Luís nada escondia e revelava considerar normal a coexistência de uma vida
familiar com as suas aventuras galantes, como confidenciava ao seu amigo, o rei
Óscar II da Suécia e Noruega.
Foi
também por essa época, nos finais da década de 1860, que as ideias republicanas
começaram a ganhar força em Portugal.
A imprensa atacava as cabeças
coroadas como nunca o fizera. O comportamento amoroso do rei fornecia tema para
largas críticas. Soube-se assim que D. Luís era vítima de chantagem de mulheres
a quem escrevia cartas tórridas e que lhe extorquiam dinheiro em troca da sua
devolução – felizmente para ele, ainda não existiam fotocópias nem digitalizações…
Contudo, popularidade teve-a, em quase
todos os meios.
Foi também D. Luís I quem elevou a
Covilhã à categoria de Cidade em 20 de outubro de 1870. A distinção reconheceu
a sua importância industrial, populacional e económica, destacando-se na
produção de lanifícios.
Biografia consultada:
“365 Dias com Histórias da
História de Portugal”, de Luís Almeida Martins;
“História da Covilhã – Vida
Política” (1800 a 1926), de Rui Delgado.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”, de 01-04-2026)








