Nestes primeiros meses de 2026, vale a pena olhar para trás e revisitar alguns
acontecimentos ocorridos há exatamente cem anos. Não por mero exercício de
memória histórica, mas porque a História, quando ignorada, tem a inquietante
tendência para se repetir.
Se tivéssemos dado ouvidos aos alertas da comunidade científica sobre a
forma como estávamos a degradar o planeta e às consequências que daí adviriam,
talvez hoje não estivéssemos a viver ciclos sucessivos de catástrofes naturais,
nem verões que se transformam, quase inevitavelmente, em épocas de incêndios
devastadores. A negligência coletiva cobra sempre um preço – e esse preço está
agora à vista de todos.
Assinala-se este ano um século sobre o início do processo que conduziu ao
chamado Estado Novo, com a ascensão do professor Oliveira Salazar. O ano de1926
abriu com um golpe militar que instaurou uma ditadura e que, mais tarde, daria
origem a um regime autoritário de longa duração, após a I República – nascida
em 1910 – ter sido marcada por instabilidade política, económica e social. O
resultado foi um regime fechado, repressivo e avesso à liberdade, que só terminaria
com o 25 de Abril de 1974.
Portugal não foi caso único. No país vizinho, Espanha, vivia-se também um
período conturbado sobe a ditadura de Miguel Primo de Rivera, durante o reinado
de Afonso XIII. O crescimento dos nacionalismos regionais, nomeadamente na
Catalunha e no País Basco, e a incapacidade de resposta política acabariam por
conduzir à Guerra Civil Espanhola e, em 1939, à ascensão de Francisco Franco.
Instalava-se mais uma ditadura, que, à semelhança da portuguesa, se prolongaria
por décadas.
Em Itália, Benito Mussolini consolidava o fascismo após a Marcha sobre
Roma, em 1922, iniciando um regime autoritário com a complacência da monarquia.
O fascismo italiano viria a servir de inspiração a outros regimes, num tempo em
que a força se sobrepunha ao direito e a propaganda substituía o pensamento
crítico.
Mussolini sonhava com a criação de um novo Império Romano, uma ambição
que não é estranha a alguns líderes atuais, obcecados com grandezas passadas e
expansões territoriais. O alinhamento com a Alemanha de Adolf Hitler selou
destinos. A Alemanha esmagada pelas indemnizações da I Guerra Mundial, vivia
mergulhada na hiperinflação, miséria e instabilidade social. Foi nesse terreno
fértil de desespero e ressentimento que o Partido Nacional-Socialista cresceu,
conduzindo o mundo a uma nova guerra global.
A França, por sua vez, ocupava a região do Ruhr, rica em carvão – a
principal fonte de energia da época – tentando forçar o pagamento das
reparações de guerra. Também aqui se demonstrou como a humilhação económica raramente
gera estabilidade política.
Os Estados Unidos da América emergiam como potência dominante. A crise
bolsistas de 1929 revelou, porém, os perigos da especulação descontrolada e da
ilusão de prosperidade infinita. O colapso financeiro teve efeitos devastadores
a nível mundial com falências, desemprego em massa e profundas fraturas
sociais. Paradoxalmente, essa mesma capacidade produtiva viria depois a ser
determinante na II Guerra Mundial e na reconstrução da Europa, através do Plano
Marshall, consolidando os EUA como principal potência económica global.
Transportar os ensinamentos de há 100 anos para o presente não exige
grande esforço. Mudam-se as fontes de energia, os discursos e os protagonistas,
mas repetem-se os padrões: ambições expansionistas, fragilidade das
instituições, ausência de lideranças responsáveis, corrida ao armamento e o
enfraquecimento do multilateralismo.
Um século depois, ao entrarmos em 2026, regressam velhos receios: o
avanço de regimes autoritários, a imposição de modelos económicos que limitam o
livre comércio, o recurso a tarifas aduaneiras como arma política e as
crescente ameaças à liberdade de escolha das sociedades. Ignorar estes sinais
seria, mais uma vez, um erro histórico – e sabemos bem como esses erros
costumam terminar.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum
Covilhã”, de 12-02-2026)










