31 de julho de 2026

CENTENÁRIO DO NÚCLEO DA COVILHÃ DA LIGA DOS COMBATENTES Cem anos ao Serviço dos Combatentes e de Portugal

 O Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes assinalou, ao longo dos últimos meses, o seu Centenário, culminando as comemorações com a sessão de encerramento realizada no passado dia 31 de maio. Trata-se de uma data de particular significado para todos quantos, ao longo de um século, contribuíram para a afirmação e continuidade de uma instituição que tem sabido honrar a memória dos Combatentes, apoiar os seus associados e servir a comunidade.

Fundado há cem anos, o Núcleo da Covilhã acompanhou diversas gerações de portugueses que, em diferentes épocas e circunstâncias, responderam ao chamamento da Pátria. Desde os antigos Combatentes da Grande Guerra aos que serviram em diversos teatros de operações ao longo do século XX, passando pelos militares que participaram em missões internacionais de paz, todos encontraram na Liga dos Combatentes um espaço de solidariedade, camaradagem e reconhecimento.

Merece especial destaque a geração dos Combatentes do Ultramar, cuja participação no conflito que marcou profundamente a sociedade portuguesa durante mais de uma década deixou memórias, experiências e sacrifícios que importa preservar. Muitos desses homens encontraram no Núcleo da Covilhã um espaço de convívio, apoio mútuo e valorização do seu percurso de vida, contribuindo, por sua vez, para o fortalecimento da instituição e para a transmissão dos valores da camaradagem e da solidariedade às gerações mais jovens.

As comemorações do Centenário constituíram uma oportunidade privilegiada para recordar a história do Núcleo, homenagear os seus dirigentes, colaboradores e associados, bem como aqueles que ao longo dos anos, dedicaram o seu esforço e disponibilidade à causa dos Combatentes. Foi igualmente ocasião para evocar os que já partiram, mas cuja memória permanece viva no património humano e institucional que ajudaram a construir.

Ao celebrar 100 anos de existência, o Núcleo da Covilhã reafirmou os valores que orientam a Liga dos Combatentes desde a sua fundação, a solidariedade, a fraternidade, a defesa da dignidade dos antigos Combatentes e o culto da memória daqueles que tombaram ao serviço de Portugal. Estes princípios continuam atuais e constituem um importante legado para as novas gerações.

O programa comemorativo desenvolveu-se através de diversas iniciativas de carácter institucional, cultural e evocativo, envolvendo associados, e diversas entidades civis e religiosas, autarquias, organizações parceiras e a população em geral. A elevada participação verificada ao longo das comemorações demonstrou o prestígio que o Núcleo da Covilhã continua a merecer na sociedade beirã e o reconhecimento pelo trabalho que desenvolve.

A sessão de encerramento, realizada em 31 de maio, representou o culminar de um percurso comemorativo marcado pela dignidade, pelo respeito e pela gratidão. Mais do que recordar o passado, este momento permitiu projetar o futuro, reforçando o compromisso de continuar a servir os Combatentes e as suas famílias, preservando simultaneamente a memória histórica daqueles que contribuíram para a defesa dos mais elevados interesses nacionais.

O Centenário não constitui apenas um marco cronológico. É, sobretudo, o testemunho da capacidade de resistência, adaptação e renovação de uma instituição que soube atravessar diferentes épocas sem perder a sua identidade nem a sua missão. Cem anos depois, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes permanece fiel aos seus objetivos fundacionais, prosseguindo uma ação que alia a memória ao serviço, a tradição à modernidade e o respeito pelo passado à construção do futuro.

Neste momento de celebração, é justo expressar uma palavra de reconhecimento a todos os dirigentes, funcionários, colaboradores, associados e amigos do Núcleo que, ao longo destes cem anos, contribuíram para a sua afirmação. Graças ao seu empenho, dedicação e espírito de missão, foi possível chegar a esta data histórica com a certeza de que a obra realizada honra o passado e inspira confiança no futuro.

De realçar as três intervenções do Presidente da Direção Central da Liga dos Combatentes, Tenente-General Joaquim Chito Rodrigues, durante esta sessão de encerramento, fortemente enraizadas nas preocupações que afetam os antigos Combatentes. Referiu, nomeadamente, o caso da sede do Núcleo da Covilhã, cujos terrenos foram doados pela edilidade e posteriormente assumidos pela Câmara Municipal para outras finalidades, bem como todo o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em defesa dos antigos Combatentes, cujas causas mereceram a melhor atenção e apoio dos presentes.

Encerradas as comemorações do Centenário, permanece viva a responsabilidade de continuar a servir os Combatentes, preservando os valores que estiveram na origem da Liga e transmitindo às gerações vindouras o exemplo daqueles que, em tempos difíceis, colocaram o dever, a honra e o serviço de Portugal acima dos seus interesses pessoais.

Cem anos depois, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes continua de pé, fiel à sua história e preparado para enfrentar os desafios do futuro.

No que concerne à sua história, a obra “Os 100 anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes – 1926 – 2026”, edição deste Núcleo, por várias razões, não foi ainda possível proceder à sua apresentação, encontrando-se agora prevista para setembro ou outubro.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, n.º 143-JUL/2026)

 


 

22 de julho de 2026

O FIM DA IDADE MÉDIA E O INÍCIO DA IDADE MODERNA


 

Entre as datas apontadas para assinalar o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna, a que tradicionalmente tem sido mais referida é a de 29 de maio de 1453, devido ao simbolismo associado ao fim do Império Romano do Oriente, marcado pela conquista de Constantinopla (atual Istambul) pelos turcos.

Todavia, a adoção desta data para demarcar as duas épocas não nos parece a mais adequada para assinalar o início da transição da Medievalidade para a Modernidade, uma vez que o que restava do velho Império Romano já tinha perdido grande parte da sua relevância histórica. Por isso, em vez de escolher qualquer outra data ou acontecimento igualmente apontados para esse efeito, entendemos que essa demarcação deve situar-se no início dos Descobrimentos Portugueses, em 1420.

Com efeito, foi este processo histórico que constituiu o fator decisivo para assinalar, simbolicamente, o início da Idade Moderna. Segundo este critério, os Descobrimentos assumem um significado ímpar, por terem desencadeado uma profunda transformação estrutural que marcou o arranque da nova era.

Na sequência do início da expansão portuguesa em Marrocos, em 1415, começaram, a partir de 1420, as missões marítimas que deram origem aos Descobrimentos. Embora inicialmente parecessem modestas, vieram a revelar-se de enorme alcance histórico. É, por isso, no tempo dos Descobrimentos que consideramos ter começado uma nova época. Neste sentido, recorde-se o pensamento do genial cronista português Fernão Lopes, que, já em 1443, afirmava que durante o reinado de D. João I, se iniciara “uma sétima idade, na qual se levantou outro mundo novo e nova geração de gentes”.

A Idade Moderna começou, assim, a ser protagonizada por portugueses entre os quais sobressai o Infante D. Henrique, cuja determinação, visão e espírito de iniciativa contribuíram decisivamente para o arranque da nova era da História da Humanidade.

Pode, por isso, afirmar-se que os Descobrimentos constituíram uma verdadeira revolução histórica que marcou, entre 1420 e 1521, a transição da Idade Média para a Idade Moderna.

A opção por esta revolução, iniciada pelos portugueses e posteriormente continuada pelos espanhóis, como referência para assinalar a mudança de épocas, fundamenta-se no facto de ter proporcionado um conhecimento do mundo até então sem precedentes e desencadeado profundas transformações em todos os níveis da civilização. Foi esse processo que deu origem a uma primeira mundialização, precursora da atual globalização.

 

João e Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-07-2026)

3 de julho de 2026

EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DE PORTUGAL





 

Segundo as notícias que nos chegaram, a população portuguesa aumentou para 11,4 milhões de residentes, dos quais 14% são estrangeiros. Portugal é, contudo, um país mais envelhecido e com mais imigrantes do que revelam os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística. A idade mediana da população residente em Portugal subiu para 45,8 anos.

Chamou-nos a atenção o facto de, ao tempo do nosso rei D. João III, que faleceu em 11 de junho de 1557, terem morrido todos os seus nove filhos legítimos, tendo a sucessão recaído no seu neto, D. Sebastião. Nessa época, o Reino de Portugal teria entre 1 milhão e 1,2 milhões de habitantes. Durante o reinado de D. João III, a população cresceu moderadamente, beneficiando de um período relativamente estável e da expansão económica associada ao comércio ultramarino.

Esse crescimento foi, contudo, limitado pela elevada mortalidade, por surtos de peste, pelas crises de abastecimento e pela emigração para os territórios ultramarinos, nomeadamente para o Brasil, a Índia e diversas praças portuguesas em África e no Oriente.

A esperança média de vida era reduzida, situando-se entre 30 e 35 anos à nascença, embora aqueles que ultrapassavam a infância pudessem viver bastante mais tempo.

A grande maioria da população (mais de 90%) residia em áreas rurais e vivia da agricultura.

As maiores cidades do reino (estimativas)

Por volta de meados do século XVI:

. Lisboa: entre 90 000 e 120 000 habitantes, sendo uma das maiores cidades da Europa.

. Porto: cerca de 15 000 a 20 000 habitantes.

. Évora: cerca de 12 000 a 18 000 habitantes.

. Coimbra: aproximadamente 10 000 a 15 000 habitantes.

Comparação com a atualidade

. 1557: cerca de 1 milhão de habitantes.

. Portugal atual: cerca de 10,5 milhões de habitantes.

Isto significa que a população portuguesa multiplicou-se aproximadamente por dez desde a morte de D. João III, embora esse crescimento tenha sido muito desigual ao longo dos séculos, com períodos de forte emigração e de estagnação demográfica.

Mas, curiosamente, fazemos uma retrospetiva da evolução da população portuguesa desde o reinado de D. Afonso Henriques até à atualidade, indicando os valores estimados para cada século e os principais acontecimentos que influenciaram o crescimento demográfico.

A demografia portuguesa anterior ao século XIX só pode ser conhecida através de estimativas, uma vez que os primeiros recenseamentos modernos apenas começaram em 1864. Ainda assim, os estudos de historiadores e demógrafos permitem traçar uma evolução bastante credível

 

Evolução da população de Portugal

Época                                                    População estimada              Contexto histórico

Fundação do Reino

(c. 1143)                                                       700 000 – 900 000                     Reino essencialmente agrícola,

                                                                                                                                    ainda em plena Reconquista.                    

Reinado de D. Dinis

(1279-1325)                                                 900 000 – 1 000 000                Crescimento agrícola, fundação

                                                                                                                                    de numerosas vilas e incentivo

                                                                                                                                    ao povoamento.

Antes da Peste Negra

(1348)                                                          1000 000 – 1 100 000                  A população atingia um dos seus

                                                                                                                                     máximos medievais.

Final do século XIV                                 700 000 – 800 000                      A peste, as guerras e as fomes

                                                                                                                                      provocaram forte declínio

                                                                                                                                      demográfico.

Reinado de D. Manuel I                       Cerca de 1000 000                       Recuperação económica e início

                                                                                                                                       da expansão marítima.

Morte de D. João III                            1 000 000 – 1 200 000                      Lisboa torna-se uma das maiores

                                                                                                                                       cidades europeias graças ao

                                                                                                                                         comércio ultramarino.

União Ibérica (1580)                         Cerca de 1 100 000                            População relativamente estável.

Restauração (1640)                         1 200 000 – 1 300 000                       Crescimento lento devido às

                                                                                                                                        guerras e epidemias.

Reinado de D. João V                      Cerca de 2 000 000                           Prosperidade associada ao ouro do

                                                                                                                                      Brasil e melhoria das condições

                                                                                                                                      económicas.

Reinado de D. Maria I

(c. 1790)                                               2 800 000 – 3 000 000                       Forte crescimento natural.

Primeiro recenseamento

(1864)                                                      Cerca de 4 200 000                        Primeiro valor estatístico rigoroso.

1900                                                                      5 423 000                              Crescimento contínuo apesar da

                                                                                                                                   emigração.

1950                                                                      8 441 000                              Recuperação após as dificuldades

                                                                                                                                         da primeira metade do século XX.

1981                                                                       9 833 000                                   Urbanização acelerada.

2001                                                                      10 356 000                                 Crescimento impulsionado também

                                                                                                                                     pela imigração.          

2021                                                                   10 344 000                                Estabilização e envelhecimento

                                                                                                                                     demográfico.

2025 (estimativa)                                     Cerca de 10 600 000               Crescimento moderado devido ao

                                                                                                                                      saldo migratório positivo.

Alguns momentos marcantes

Séculos XII e XIII

A Reconquista permitiu a ocupação de novas terras. Os reis portugueses promoveram a fundação de concelhos, concederam forais e incentivaram a agricultura.

Século XIV

A Peste Negra matou provavelmente entre um terço e metade da população portuguesa. Poucos acontecimentos tiveram um impacto tão profundo na história demográfica do país.

Séculos XV e XVI

A expansão marítima trouxe riqueza e prestígio, mas também levou muitos portugueses a partir para África, Ásia e, mais tarde, para o Brasil. Apesar dessa emigração, a população continuou a crescer lentamente.

Século XVIII

Foi um período de forte crescimento. O ouro brasileiro impulsionou a economia e a população aproximou-se dos três milhões de habitantes.

Século XIX

Com o primeiro recenseamento de 1864 passou a ser possível conhecer com rigor a população portuguesa.

Como evoluiu Lisboa?

A cidade de Lisboa é um bom exemplo do crescimento do país:

. Cerca de 20 000 habitantes em 1300.

. Entre 50 000 e 60 000 por volta de 1500.

. Entre 90 000 e 120 000 no tempo de D. João III, figurando entre as maiores cidades da Europa.

. Aproximadamente 190 000 em 1801.

. Mais de 500 000 no início do século XX.

 

Uma curiosidade histórica

Quando D. João III faleceu, em 1557, o reino de Portugal tinha cerca de 1,1 milhão de habitantes. Contudo, a Monarquia Portuguesa governava um império espalhado por quatro continentes, com milhões de súbditos não europeus em África, na Ásia e na América. Assim, embora Portugal continental fosse um país relativamente pequeno em população, exercia influência sobre um dos maiores impérios marítimos da época.

Bibliografia: História de Portugal, coordenada por José Mattoso; estudos demográficos de A. H. Oliveira Marques.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 02-07-2026)

 

 

 

 

2 de julho de 2026

QUANDO O PEÃO “ATROPELA” O VEÍCULO


 Desta vez, deu-me para recuperar um texto que publiquei no semanário Notícias da Covilhã, em 02-04-1999, e cujo conteúdo continua muito atual.

Certos hábitos, originados pelo stress quotidiano, levam-nos, enquanto peões, a atravessar as ruas fora dos locais próprios e, muitas vezes, sem respeitar os sinais dos semáforos.

Nas nossas ruas, mormente na Covilhã, muitas delas antigas e estreitas, é frequente ver estudantes que, na sua jovialidade e sobretudo quando circulam em grupo, parecem fazer ouvidos moucos aos veículos que transitam, obrigando os condutores, por vezes, a recorrer à buzina.

Alguns automobilistas, quando assumem o papel de peões, esquecem essa dualidade de posições e atravessam lentamente nas passadeiras.

Poucos(as) mas com mais dose de atrevimento fazem dessas passagens, de uma banda para a outra, como que um passeio, e na sua mente certamente estará: “Aguenta, se quiseres, que agora passo eu”.

Em alguns casos, os peões iniciam a travessia quando os veículos já se encontram muito próximos da passadeira, o que, além de incorreto, é manifestamente perigoso.

E a travessia nas estradas, em horários de transportes coletivos urbanos, e para as freguesias do concelho, principalmente em horas de ponta, para apanhar o autocarro, mormente quando já se chega atrasado! É mais uma vez o imperar da inconsciência de alguns peões, que não acautelam devidamente a travessia da estrada, pois, se esta se percorre rapidamente, também num ápice pode surgir um acidente fatal.

Seria incorreto se não afirmasse que todos nós temos, em maior ou menor grau, o hábito em procurar a facilidade, dando uma fugidinha pelos sítios mais curtos, ou quando o vermelho para peões persiste e não se avizinha nenhum veículo, o que é certo é que esses atrevimentos, geralmente consentidos pelos agentes reguladores de trânsito, como é óbvio da circunstância, podem-nos trazer dissabores e contratempos.

No Diário de Notícias de há dias vinha uma reportagem sob o título ‘Peões perigosos provocam acidentes. PSP não tem agentes suficientes para multar os cidadãos que não utilizam as ‘zebras’ da cidade’. ‘O peão é um dos grandes atores dos acidentes de viação em Lisboa. O lisboeta é muito inconsciente. Sabe muitas das leis que o obrigam, mas parece pensar que as leis de trânsito que a ele se referem não são para cumprir. A dificuldade que um agente que está a regularizar o trânsito tem de eleger um peão, daqueles muitos que prevaricam, para identificar, pois eles são tantos!

O preenchimento do auto exige a identificação total do peão e o agente vai estar ali um bom quarto de hora, ou mais, ao mesmo tempo que outros peões vão prevaricando’.

No pretérito ano, o total de acidentes de viação em Lisboa atingiu 21 193, com 78 mortos, tendo sido 32 por atropelamento, além de 1006 acidentes por travessia de peões.

Além dos danos corporais que o peão pode sofrer, pode também ser responsável por danos materiais, e também corporais, que ocasionar a terceiros, se lhe for atribuída culpabilidade, no âmbito do Código Civil Português.

Já não é a primeira vez que isso acontece.

Em tempos, uma Seguradora teve de pagar os prejuízos materiais que o seu cliente, no Ramo Responsabilidade Civil Familiar, originou a um táxi, em Lisboa, passando nas ‘zebras’ quando o vermelho do semáforo se encontrava ativo. Ao ‘atropelar’ o táxi, e devido ao impacto do embate que, inclusive, projetou o peão sobre o capot e veio a ter danos naquela viatura, foi responsável por este ato que lhe poderia ter trazido maiores complicações.

É bem certo o ditado: ‘Devagar que tenho pressa’”.

Outro caso, cuja responsabilidade se desconhece, ocorreu também com um cidadão covilhanense, natural duma freguesia rural. Piloto aviador de profissão e sem qualquer percalço registado na sua carreira, acabaria tragicamente por falecer vítima de atropelamento por um automóvel, em Castelo Branco.

Bibliografia: Texto publicado no jornal Notícias da Covilhã, em 02-04-1999, posteriormente incluído na obra O Documento Antigo – Uma Outra Forma de Ver os Seguros em 2018.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-07-2026)

18 de junho de 2026

TASCAS E CAFÉS E AS SOPAS DE CAVALO CANSADO

 

Lá vai o tempo em que, na cidade da Covilhã e nas aldeias e vilas que a circundavam, havia uma taberna a cada esquina ou em locais privilegiados. Ali estava a tasca para retemperar o corpo ávido ou para servir de ponto de encontro entre amigos ou colegas de profissão para a conversa do dia. Em redor de uns petiscos, servia para o desembuchar das amarguras da vida. Isto verificava-se mais no meio rural, sendo que, na urbe, eram mais acolhedoras as prolongadas rodadas que pareciam não ter fim.

Quando poucos utilizavam o automóvel, nesses tempos das décadas de 50 e 60, percorriam-se, por vezes a pé, longas distâncias para ir ao futebol ou acompanhar um funeral, quando ainda existia a carreta puxada a braços de homens. No regresso, em ambos os casos, a tasca era convite para afogar as mágoas ou celebrar vitórias.

Os cafés, estabelecimentos mais afamados, reuniam grupos de amigos para ouvir o relato de futebol na rádio, numa época em que a televisão ainda não chegara a Portugal, o que apenas aconteceu por volta de meados do século XX. Recordo, então, o habitual comentador de futebol da RTP, Alves dos Santos.

“Vai um copinho de três?” Dê um só trago. Este ritual não falhava em qualquer taberna que se prezasse, a qualquer hora do dia. Mas o por que razão tinha este nome? Segundo um antigo dono de uma taberna, antigamente havia um copo que custava três tostões e, para o distinguir do de dois tostões, ficou conhecido como “copo de três”.

Atualmente, os copos de três são outros, de vidro mais fino, porque, diz a etiqueta, “aí o vinho sabe melhor”.

Por 40 cêntimos, um copo de vinho especial (13 graus) “mata o bicho” a muita gente. Note-se que nos reportamos a 2002…

 Mas, se os mais novos já não têm o hábito de afogar as mágoas na castiça “taça de vinho”, importa saber que esta não era uma modalidade exclusiva dos solitários que passavam pelas tascas tentando enganar o tempo.

Quem não se lembra das “sopas de cavalo cansado”? Estas sopas foram, durante muito tempo, sinónimo de pobreza.

Mistela de fatias ou migalhas de pão ou de broa embebidas em vinho tinto quente açucarado, por vezes polvilhado com canela, esta massa alcoólica era dada às crianças logo pela manhã.  Como dieta alimentar, acreditava-se que era o melhor remédio para dar força aos músculos. Nas zonas mais pobres de Portugal, ao longo dos séculos, foi essa a condenação: à falta de leite para as crianças, dava-se vinho.

E eram sopas de cavalo cansado porque, nos tempos em que o equídeo era a condição sine qua non dos transportes, o animal cansava-se e, mesmo se não existisse cavalo de muda para o substituir ao fim de uma ou duas tiradas, recuperava as forças. Sendo revigorante para o gado cansado, por que não haveria o vinho de servir também para habilitar as crianças a tornarem-se adultas mais cedo, nessas aldeias e casas pobres das serranias onde o leite raramente chegava?

O mapa do analfabetismo coincide com o mapa da enogastronomia. É o caso das sopas de cavalo cansado, aqui e além promovidas e elogiadas como comida tradicional de referência, figurando até em folhetos promocionais das riquezas da região quando, paradoxalmente, simbolizam a extrema pobreza.

Assim foi em Vieiro (Vila Flor), no Casteleiro (Sabugal) ou em Abiúl (Pombal), terras que reclamam a excelência desses ligeiros, mas nefastos, vapores vínicos pelos quais gerações foram sendo irreversivelmente alcoolizadas.

Do cante alentejano e da taberna, Joaquim Pulga opina que um povo que tende a deslembrar a memória deixa de possuir alimento para os vindouros. Não é por acaso, quando a vida não corre sobre trilhos, que se diz: “Vou ali afogar as mágoas”. Num copo de vinho. Vem isto a propósito da ligação umbilical entre o cante e a taberna. É o copo de vinho que se bebe de um trago. É a mão que alcança o pão e a azeitona. É o cigarro que calmamente se fuma. É a roda de companheiros ao balcão da taberna.

Foi aqui e mormente nos cafés que estabeleci amizades e aprendi a maldizer, onde tive o direito de discutir o relativo e o absoluto, onde com reverência acabei por saber e fazer, onde alcancei dos prazeres do vinho e do petisco.

Quanto aos comes, tenho uma desmedida fé nos poderes alquímicos dos taberneiros.

Mas a taberna também é um espaço de produção e transmissão de memória. Assim como pode servir de pretexto à exploração da história local, porque o tema das tabernas                             não se esgota no espaço da própria taberna.

Com a colaboração do amigo Carlos Mota, recordamos muitas das tabernas que existiram na Covilhã e arredores. Quanto às que ainda subsistem, para além da sobejamente conhecida Taberna do Zé Ministro, destacam-se as mais recentes: Taberna A Laranjinha, Epicentro Covilhã, Porta 32 Petisqueira e Meet Bar.

 Muitas outras já desapareceram: O 49, O Petronilho. O Maia, Cova Funda, Primeiro de Janeiro, Zé dos Tremoços, Zé Maria, O 22, Mariana, A Gata, A Fanfam, O Benjamim, Sete, Os Tonhos, Os Compadres, O Mariano, O Fazendeiro, O Janota, O Felisberto, O Meia-Celamim, O Manuel Jacinto, O Ervilha, O Gaiola, O Matos, O Mário, O Parrana, O Papagaio, o Retiro, O Morgado, O Gavinhos, Quadras Soltas, entre outras.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “O Olhanense”, de 15-06-2026)

11 de junho de 2026

O PÃO QUE O DIABO AMASSOU


 

Com repercussão em algumas crónicas inseridas neste semanário Jornal Fórum Covilhã, por conceituados cronistas que sabem o que dizem no que concerne à sua vivência enquanto meninos e moços, inspirou-me a memória de algumas narrativas que já trouxe para a ribalta deste espaço jornalístico e que se encontravam numa certa hibernação.

O talvez tenha sido o meu saudável vício de não conseguir parar de escrever. São mais de seis décadas, desde a escrita manuscrita, datilografada ou computadorizada.

Teresa Inácio Neves, no número de 28 de maio, com a sua lucidez de escrita de fino traço, fala-nos de um eventual tio que garantia, no seu tempo (dele), que a vida era uma epopeia nas dificuldades que atravessavam, caminhando vários quilómetros a pé para a escola e para o trabalho.

Considerados uma geração mimada e privilegiada, somos, dizem eles, mais complexos, mas a verdade é que agora carregamos outros fardos que, na altura, nem sequer tinham nome.

Ser adulto no século XXI é, como refere Teresa Neves, se bem entendi, pertencer a uma daquelas gerações híbridas – a geração “ponte”. Se é um facto que crescemos sem telemóveis e com a tecnologia a entrar nas nossas vidas a conta-gotas, leva-me aos tempos nostálgicos em que cada inovação era algo quase sobrenatural e ainda não tínhamos chegado à inteligência artificial.

Toda a narrativa de Teresa Inácio Neves é uma lição de memórias para os dias de hoje.

Já os “Meninos de Ontem”, de António Rebordão, habituou-nos a uma realidade que vai acontecendo por este mundo de ingratos, no mesmo número, a que já aludi deste semanário, e onde refere “O que era a vida há 75 anos – Relatos Verídicos”.

Também eu nasci numa situação de fortes dificuldades económicas, no ano de 1946, quando não havia água corrente, eletricidade nem gás. O saneamento era também inexistente. Faziam-se os despejos para uma estrumeira que depois servia para fertilizar as pequenas hortas e quintas existentes. Éramos seis irmãos.

À água iam as mulheres à mina, de cântaro à cabeça. No regresso, ficava junto a uma cantareira, de onde se tirava a água para beber e para a cozinha, com um copo de alumínio.

As louças eram esfregadas com sabão macaco ou rosa, sendo que o chão, em madeira de pinho, quando necessário, era esfregado com sabão amarelo.

Os cães, gatos e aves de capoeira andavam livremente na rua, enquanto os coelhos se recolhiam nas coelheiras e os suínos nos currais, alimentados com viandas adicionadas de farelos. No ar, sobrevoavam-nos os pombos e pombas que, mal viam deitar-lhes o milho, não receavam vir até junto de nós.

Matar uma galinha ou um coelho só acontecia em dias de festa ou quando alguma visita, geralmente familiares, nos fazia uma surpresa.

Nós comíamos pão de segunda, por sermos muitos. Quando a avó saía da fábrica, juntava as filhas e os netos para tomar o chá, com aquele pão de quartos ou regueifa da D. Celeste, juntamente com queijo queimoso.

Meu pai, para além de trabalhar na antiga Biblioteca Municipal, ao jardim, entrando às 16 horas e saindo às 23, jantava o farnel que trazia de casa. À noite, fosse verão ou inverno, com vento ou chuva, lá ia carregado, a pé, até à Pousadinha, sem luz, pelos caminhos de terra batida, a partir do Lameirão. Só quando algum carro passava por nós, vindo da Aldeia do Carvalho, nos encandeava com as luzes no máximo, tínhamos alguns momentos sem escuridão.

Nasci na Pousadinha, em casa, com a ajuda da “parteira caseira”, D. Lucinda. Minha avó e a Senhora Maria, mãe de uma das minhas tias, aquando da parição, vinham para ajudar a tratar da pequenada.

A minha irmã Rita Fátima e eu éramos os mais velhos. Começaram a surgir os primos. O João Manuel, filho do tio Manuel e da tia Albertina, faleceu ainda bebé. O mesmo destino levou a Carolina Fátima, filha dos meus tios António e Irene.

Era hábito, no dia do funeral, os familiares do falecido, fazerem uma fila na rua, a partir da porta onde se encontrava o féretro, porque não cabiam em casa, recebendo os sentidos pêsames. Assim aconteceu com o meu avô João de Brito e também com aqueles pequenos primos.

O meu irmão António, ainda adolescente, criava-me problemas ao ficar junto de mim porquanto levava o assunto para a risada, em pleno momento de luto:

– Olha o nariz daquele!

– Olha aquele manco!

Mas a fisionomia daquele que surgia a estender a mão sem a ponta dos dedos não permitiu que a risada fosse contida. O António, meu irmão, mais não fez do que se agachar, simulando que estava a atar os atacadores dos sapatos. Mesmo assim, faziam-lhe sinal para se levantar.

Fiz com o meu pai a primeira classe. Assim como me preparou para a Primeira Comunhão, na Aldeia do Carvalho, com o Padre Pita, que tinha uma mota.

Também alguns adultos que pretendiam aproveitar o programa da Campanha Nacional de Educação de Adultos, para completarem a 4ª. classe, combinavam com o meu pai, conhecido professor Martins, na Pousadinha, um tempinho de manhã até às 15 horas, altura em que se deslocava a pé para a biblioteca.

Passámos a residir na Covilhã. Foi então que deixámos de calcorrear aqueles quilómetros, de verão ou de inverno, depois de o meu pai terminar o horário de trabalho na Biblioteca Municipal, ao jardim, às 23 horas.

Depois de acabar os estudos na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, tive o meu primeiro emprego na Câmara Municipal da Covilhã. Concorri ao pessoal maior vitalício e fui chamado para o serviço militar obrigatório.

Depois de ter terminado o Curso de Sargentos Milicianos, tive a sorte de não ser chamado para a Guerra do Ultramar, onde o meu irmão não teve a mesma sorte, pois foi para a Guiné. Procurei novos rumos de vida. Depois de ter concorrido para o BNU e de ter ficado aprovado com boa classificação, optei por passar a ser emigrante no meu próprio país. Assim aconteceu o tempo que vivi no Soito, do concelho do Sabugal. Deixei o salto para a Companhia Europeia de Seguros e, daqui, mais tarde, passei a trabalhar de conta própria.

Eram os tempos em que ainda não havia telemóveis. Muitas vezes, quando regressava de reuniões de trabalho em Lisboa, ainda sem ter sido construída a A23, e se passava pelas antigas estradas que iam dar ao cruzamento de Coruche, seguindo depois para  Mora,  Couço, Infantado, Ponte de Sor, Gavião e Arez, apressava a viagem para chegar ao início das curvas de Nisa para Vila Velha de Ródão, na esperança de ainda encontrar, já alta noite, um café ou uma taberna abertos onde houvesse uma cabine telefónica que me permitisse fazer uma chamada interurbana.  

 – Vem devagar! Eu não me deito enquanto não chegares!

Depois de passar por tormentas, por vezes com superiores que não olhavam a meios para atingir os seus fins, dediquei-me totalmente à escrita pro bono e à solidariedade, até aos dias de hoje, enquanto as minhas capacidades cognitivas mo permitirem.

Os amigos não pararam de aumentar. E as recordações de outrora também, mesmo aquelas em que comemos o pão que o diabo amassou.

Hoje, para além dos nefastos problemas de saúde que nos afetam enquanto octogenários, somos uma família feliz.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 11-06-2026)

 

28 de maio de 2026

A ENTREGA DO CORREIO PELOS SERVIÇOS DOS CTT



 

Desde longa data ouvimos falar, em determinados momentos, sobre a melhor profissão, a profissão mais antiga ou a profissão mais desejada. Mas poucas vezes se fala naquela que envolve a criação de muitos problemas, em virtude de o seu trabalho revelar menos eficácia.

Certamente que já compreenderam que estamos a falar do serviço de distribuição dos CTT. De quando em vez, lá surge uma queixa, mais no meio rural que na urbe, sobre o atraso de correspondência, mormente dos jornais.

Infelizmente, essa ineficácia verifica-se assiduamente na Rua Mateus Fernandes, na Covilhã,

Não chegam as muitas reclamações apresentadas aos carteiros, porquanto há, na generalidade, uma desculpa.

Nestas últimas semanas, chegou-se ao desplante de um semanário que tem assinatura paga atempadamente não ser depositado na minha caixa do correio durante várias semanas.

Apesar da boa vontade do editor do jornal em me enviar outro, preferi ir à banca e adquiri-lo, uma vez que gosto de notícias frescas.

O distribuidor, talvez perturbado pela reclamação que teria chegado ao seu serviço, veio informar-me, caricatamente, que os jornais deveriam ficar pendurados no cimo da caixa do correio. Informei-o que chego a meter a mão no interior da caixa, que é pequena, e nada disto aconteceu, insinuando assim que os jornais estariam na caixa do correio. Como era possível todos lá se encontrarem?!

Agora é um quinzenário que deixou de me ser colocado na caixa do correio, também com a assinatura atempadamente liquidada. Como o editor garantiu que tinham enviado todos os jornais aos destinatários, fui confirmar se na Biblioteca Municipal da Covilhã lá estava. De facto, estava…  Só o meu é que não recebi.

Um problema com que alguns moradores se debatem há anos, não obstante a Rua Mateus Fernandes, na Covilhã, estar bem situada e sem obstáculos.

Será que não pode haver uma chamada de atenção para os irresponsáveis por tal conduta?

Espero que esta publicação possa agitar as mentes dos causadores destes problemas.

João de Jesus Nunes

Covilhã

jjnunes6200@gmail.com

 

 

A ENTREGA DO CORREIO



 

Desde longa data ouvimos falar, em determinados momentos, sobre a melhor profissão, a profissão mais antiga ou a profissão mais desejada. Mas poucas vezes se fala naquela que envolve a criação de muitos problemas, em virtude de o seu trabalho revelar menos eficácia.

Certamente que já compreenderam que estamos a falar do serviço de distribuição dos CTT. De quando em vez, lá surge uma queixa, mais no meio rural que na urbe, sobre o atraso de correspondência, mormente dos jornais.

Infelizmente, essa ineficácia verifica-se assiduamente na Rua Mateus Fernandes, na Covilhã,

Não chegam as muitas reclamações apresentadas aos carteiros, porquanto há, na generalidade, uma desculpa.

Nestas últimas semanas, chegou-se ao desplante de um semanário que tem assinatura paga atempadamente não ser depositado na minha caixa do correio durante várias semanas.

Apesar da boa vontade do editor do jornal em me enviar outro, preferi ir à banca e adquiri-lo, uma vez que gosto de notícias frescas.

O distribuidor, talvez perturbado pela reclamação que teria chegado ao seu serviço, veio informar-me, caricatamente, que os jornais deveriam ficar pendurados no cimo da caixa do correio. Informei-o que chego a meter a mão no interior da caixa, que é pequena, e nada disto aconteceu, insinuando assim que os jornais estariam na caixa do correio. Como era possível todos lá se encontrarem?!

Agora é um quinzenário que deixou de me ser colocado na caixa do correio, também com a assinatura atempadamente liquidada. Como o editor garantiu que tinham enviado todos os jornais aos destinatários, fui confirmar se na Biblioteca Municipal da Covilhã lá estava. De facto, estava…  Só o meu é que não recebi.

Um problema com que alguns moradores se debatem há anos, não obstante a Rua Mateus Fernandes, na Covilhã, estar bem situada e sem obstáculos.

Será que não pode haver uma chamada de atenção para os irresponsáveis por tal conduta?

Espero que esta publicação possa agitar as mentes dos causadores destes problemas.

João de Jesus Nunes

Covilhã

jjnunes6200@gmail.com