18 de setembro de 2019

LOUCOS NA CASA COMUM


Se há alguma coisa que me leva à repugnância são as passagens da história dos escravos de todo o mundo que ainda hoje, em pleno século XXI, persiste nalgumas partes incivilizadas do planeta.

No Código Negro francês, promulgado por Luís XIV em 1685, no seu artigo 44 declarava os negros como móveis para efeitos de seguro, de tal forma que se a escrava engravidasse não era crime considerado de ofensa à pessoa, mas sim à propriedade, e os donos das escravas começavam a entrar em acordos com os imputados autores, deles recebendo uma soma que os absolvia das penas. Eram frequentes as compras de escravas grávidas por uma razão algo insólita: o adquirente comprava previsivelmente dois escravos pelo preço de um!

No século I d. C., o louco Nero (Nero Cláudio César Augusto Germânico, nascido com o nome Lúcio Domício Enobarbo), jovem imperador, teve o seu reinado associado à tirania e à extravagância. Recordado ainda por uma série de execuções sistemáticas, incluindo a da sua própria mãe, e sobretudo pela crença generalizada de que, enquanto Roma ardia, ele estaria compondo com a sua lira, além de ser um implacável perseguidor dos cristãos.

Recuando para o século II a.C., podemos, ao acaso, focarmos Delenda est Carthago (“Cartago deve ser destruída”), com Catão, o Velho, a inflamar seus compatriotas sobre a necessidade de iniciar o quanto antes a Terceira Guerra Púnica e a destruição total de Cartago. Naquela época, durante as sessões do Senado e fora delas, repetia no final aquela frase que o imortalizou para a história.

A nossa Casa Comum persiste, ainda hoje, em gravitar de muitos loucos que pretendem incutir a submissão a quem não obedecer aos seus propósitos de destruição.

Estão na vanguarda Donald Trump e Jair Bolsonaro. Este tem permitido a destruição da floresta Amazónia, a qual já arde há muitos dias. Bolsonaro bloqueou relevantes verbas para a proteção e conservação do maior pulmão do mundo. O Governo brasileiro tem atacado, sem precedentes, os povos indígenas da selva, com o fim de os destruir e lhes saquear as terras. As queimadas tiveram um acréscimo de 82% este ano! Estima-se em 20% o oxigénio que de lá vem.

Com um demente no poder do Brasil, se não meterem Bolsonaro numa camisa-de-forças, não sabemos até onde isto vai parar! Nos 130 anos de República, o Brasil já teve toda a espécie de presidentes. Mas Jair Bolsonaro está batendo todos os recordes do pior presidente de sempre. É o ódio ou desprezo por índios, gays, transexuais, feministas, crianças, professores, estudantes, cientistas, pesquisadores, artistas, jornalistas, pacifistas, imigrantes, deficientes mentais, dependentes químicos, presidiários, desaparecidos políticos, ambientalistas, veganos e pessoas oriundas do Nordeste do Brasil. Vive manifestando o seu apreço e a sua admiração por torturadores da ditadura militar, polícias corruptos que dominam e extorquem os habitantes das favelas, assassinos profissionais, fabricantes de armas, devastadores do ambiente, garimpeiros ilegais em terras indígenas.

Bolsonaro e Macron trocam insultos enquanto a Amazónia arde. Jair Bolsonaro chegou ao ponto de, no G7, ter feito comentários “desrespeitosos” sobre a idade da primeira-dama francesa, Brigitte, que é 24 anos mais velha que o marido.

Mas já antes bradava por terras de Cristóvão Colombo outro louco – Donald Trump, a brincar com a humanidade, rasgando acordos internacionais, como o acordo nuclear com a Rússia sobre a proibição de mísseis nucleares de curto e médio alcance, assinado em 1987; saída do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas; anunciou ainda a retirada dos Estados Unidos do Tratado Internacional de Comércio de Armas com a ONU, importante acordo, assinado por 130 países em 2013.

São alguns dos loucos da Casa Comum, colocados nos pedestais por outros insensatos, talvez loucos de mudança, sem medir as consequências de um tal ato de loucura na altura das suas decisões, democráticas ou não.


(In "Notícias da Covilhã", de 19-09-2019)

11 de setembro de 2019

NÃO BELISQUEM AS FÉRIAS


Escrevo esta crónica no último dia de agosto porquanto decidi continuar “a andar por aí”, e, por isso, numa “aliança” com amigos, surgiu um prolongamento de férias.

Faço assim uma paragem na arrumação do arquivo do meu escritório, onde milhares de recortes de jornais, apontamentos, recolhas antigas de documentação, tudo acumulado ao longo de mais de quatro décadas (mas arrumadinho…) levam o destino fatal, selecionando somente algumas preciosidades. A fatalidade do deitar fora vai, entretanto, servir de pequeno contributo para o Banco Alimentar, na sua recolha de papel.

Nesta de arrumações, a casualidade trouxe-me uma notícia da Visão, de 20.01.2017, que achei interessante: “A comida picante pode ser o segredo para uma vida saudável e mais longa”. Publicada numa rede social, logo aí encontrei amigos que, tal como eu, adoram este paladar e, sem ser necessário ler os papelinhos que os muitos “astrólogos” nos vão colocando nos para-brisas dos automóveis, oferecendo os seus serviços milagrosos, ficámos na esperança de andar por aí mais uns anitos…

Se os pardais já se sentem incomodados pela dificuldade em encontrar onde debicar, pelo norte, centro e sul, os javalis devastam campos e culturas. São notícias que, de certo modo nos vão atormentando, mesmo quem viaja.

Mas o que continua a chegar todos os dias aos vários meios de comunicação social, são as crises sociais, políticas e humanas.

Não faltam os sobejados disparates dos líderes americano e brasileiro para termos, como europeus, que gramar as tolices do novo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, com as suas mentiras até ao golpe final – aconteceu a 29 de agosto, com a anunciada suspensão do Parlamento inglês entre 10 de setembro e 14 de outubro, “nesta manifestação radical de como referendos com perguntas simples para questões complexas abrem o caminho a que líderes sem escrúpulos consigam levar a sua avante, de mentira em mentira, até à entorse democrática final”.

Efetivamente, foi no dia 23 de junho de 2016 que os eleitores do Reino Unido foram às urnas para responder à seguinte pergunta: “Deverá o Reino Unido permanecer como membro da União Europeia, ou deixar a União Europeia?”. As respostas possíveis eram “permanecer como membro da União Europeia” e “deixar a União Europeia”. Dos cerca de 46 milhões de eleitores, 72,2% foram votar; 51,9% dos votos foram na segunda opção. Desde então, a União Europeia entrou no “Brexit”.

Conforme Rui Tavares refere no “Público”, “esta johnsoniana suspensão do parlamento para forçar um ‘Brexit’ sem acordo é a mesma que fazer batota para ultrapassar a linha do golo”. É que Boris pôs a rainha a vandalizar a democracia com a decisão do primeiro-ministro britânico de suspender o Parlamento até à véspera do “Brexit” – para impedir a democracia parlamentar de funcionar. No ocaso do reinado de Isabel II é envolvida numa golpada institucional sem moral nem ética.

Isto faz-me lembrar, recuando para o ano 2008, em que no dia 19 de novembro, no tempo de el-rei D. Sócrates I de Portugal, a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite foi longe na ironia de querer explicar por que falham os governos, dizendo que mais vale suspender por uns meses a democracia para se poder fazer todas as reformas necessárias e só depois, então, repô.la. Discursava, como convidada, na Câmara de Comércio Luso-Americana, em Lisboa.

E, com o GPS das minhas memórias, temos o que vai pelo nosso retângulo à beira-mar plantado, com as eleições a aproximarem-se a passos largos.

Do insulto “geringonça”, saído das palavras inseridas no “Público” por Vasco Pulido Valente e aproveitadas no Parlamento por Paulo Portas, paradoxalmente iria transformar-se numa palavra acarinhada pelo país. Os medos e receios não se tornaram realidade, ficando apenas para assombrar os partidos de direita. Quatro anos depois, os portugueses, e não só, fazem um balanço positivo.

E porque tenho que ainda dar umas voltas, termino com uma homenagem para o povo timorense, nas comemorações dos 20 anos do referendo que lhe proporcionou sair das garras da Indonésia e ganhar a independência do seu país.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11-09-2019)

30 de agosto de 2019

TEORIA DAS PROBABILIDADES


Todos já ouvimos falar nos seguros de vida, nos planos de previdência, e num mundo ligado à proteção das pessoas e bens, tendo uma seguradora adotado o bonito slogan: “Pela Proteção dos Valores da Vida”.
Muitos de nós fomos obrigados a ter de efetuar contratos de seguro de vida no âmbito dos empréstimos à habitação, e não só, pelas entidades bancárias.
E como a morte está certa mas não se sabe quanto ela acontece, digamos mais concretamente a morte natural, não falando já na motivada por acidente, assim surgiu a necessidade de salvaguardar compromissos assumidos e a proteção de pessoas dependentes, minimizando os efeitos negativos da falta das que eram a alavanca ou suporte da vida familiar ou empresarial.
E é nesta vertente de risco puro, colocando de parte a que se reporta à constituição de um   pecúlio para o futuro, que mais se faz sentir um plano de previdência deste teor.
Pois bem, sobre parte deste assunto já me referi em maio passado sob o tema “A Proteção das Pessoas e Bens é Ancestral”, salientando que a intenção de proteger as mesmas do revés das suas vidas já vem da Antiguidade, podendo-se mencionar o IV milénio a.C., na Mesopotâmia.
Não vou aqui historiar vários casos porque haveria pano para mangas, mas tão só referir que tudo indica que no ano 582 a. C. houve um caso equivalente ao estabelecimento de uma pensão vitalícia. Quem se quiser dar ao trabalho de, na Bíblia, analisar uns versículos do 2.º Livro dos Reis, poderá verificar já a preocupação existente com o futuro das pessoas desamparadas.
Para que pudesse surgir o preço de um seguro (prémio) o mais justo possível para os tempos, os atuários tiveram que se socorrer da parte científica baseada em cálculos de probabilidades que vieram surgindo, ao longo dos séculos, por eminentes matemáticos.
Em quatro extenuantes anos de pesquisas que deram lugar à obra “O Documento Antigo – Uma Outra Forma de Ver os Seguros”, podemos então verificar que o cálculo das probabilidades, depois de convertido em teoria, foi uma das mais importantes descobertas na história das matemáticas, tendo tido uma significativa influência em muitos domínios.
Iniciado em meados do século XVI, o processo que iria conduzir à teoria das probabilidades continuou a desenvolver-se até à atualidade.
Segundo Lorraine Daston, muitos matemáticos argumentam que esta teoria só atingiu o seu estatuto pleno de ramo autónomo das matemáticas em 1933. No entanto, mesmo depois daquela data, continuaram a registar-se progressos no campo da matemática das probabilidades.
Nos primeiros tempos o cálculo das probabilidades foi inspirado exclusivamente pelos jogos de azar, mas as suas aplicações foram-se multiplicando, salientando-se a sua decisiva influência na modernização do seguro a partir do início do século XVIII.
Muitas foram as definições de probabilidades ao longo dos tempos, à medida que os conceitos e as técnicas foram evoluindo.
Seria interessante explanar aqui os vários cérebros que contribuíram em grande escala para a ciência das matemáticas mas tal é impossível. Assim, apenas alguns deles:
Pierre Léon Boutroux adotou a seguinte definição para a expressão matemática da probabilidade: “entende-se por probabilidade de um acontecimento a relação entre o número de casos favoráveis e o número total de casos possíveis”.
Pierre-Simon Laplace em 1812, à luz dos conhecimentos da altura referiu que “em experiências aleatórias com um espaço de resultados finito, de uma dada dimensão, em que todos os acontecimentos elementares são igualmente prováveis e incompatíveis e, se alguns desses acontecimentos são favoráveis à ocorrência de um determinado acontecimento, então a probabilidade de realização desse acontecimento é dada pelo quociente entre o número de casos favoráveis à ocorrência do acontecimento e o número de casos possíveis dessa experiência aleatória”.
Siméon-Denis Poisson surge com a definição: “a probabilidade de um acontecimento é a razão que temos de acreditar que ele terá lugar, ou que teve lugar”.
De facto, as probabilidades, que até cerca de 1750 foram inspiradas apenas pelos jogos de azar, acabaram depois por ter muitas aplicações, uma das quais, bastante relevante, foi a do seu emprego aos casos de justiça.
Lorraine Daston considera que “enquanto a probabilidade dos testemunhos teve claros antecedentes nos critérios judiciais aplicados nos tribunais, a probabilidade dos julgamentos foi uma aplicação sem precedentes na jurisprudência”.
Voltaire (pseudónimo de François-Marie Arouet), num ensaio sobre as probabilidades em caso de justiça, publicado em 1772, afirmou: “quase toda a vida humana gira sobre probabilidades”.
No que toca aos Gregos, apesar da enorme importância que tiveram na aritmética, Tales (624 – 546), Pitágoras (582 – 587), Aristóteles (364 – 322) e Arquimedes (287 – 212), a sua contribuição no domínio da análise combinatória passou bastante despercebida.
Foi sobretudo através dos Romanos que se deu conta da contribuição grega.
Pode considerar-se que as três datas que mais marcaram o processo de criação da teoria das probabilidades foram 1654, 1657 e 1713, respeitando as duas primeiras à criação dos fundamentos daquela teoria, por Pascal, Fermat e Huygens, enquanto a terceira assinala a formalização da própria teoria, com a publicação da obra de J. Bernoulli.
E vou terminar com a enumeração de alguns dos cientistas que deram lugar a esta teoria das probabilidades: Pierre de Montmort, Nicolaus (I) Bernoulli, Abraham de Moivre, Edmond Halley (com a sua Tábua de Halley, divulgada em 1693, considerada a origem da ciência atuarial).
Boas Férias!


(In "O Olhanense", de 01-09-2019)

14 de agosto de 2019

NÓS E OS INGLESES


Neste período da silly season, com o verão convidativo para um descanso, uma oportunidade de partilhar com amigos ou familiares momentos de distração, traz-nos também, por vezes, falta de alguma inspiração.
As televisões secam-nos com repetições de notícias de incêndios, aqueles casos de violência doméstica, e outros fastidiosos acontecimentos.
Os jornais são uma fonte abundante de informação. Os bons jornais, onde radicam homens da sapiência, deleitam-nos com a sua opinião emanada da história real dos acontecimentos, mas também como pensadores. Quando assim acontece, é um fascínio.
E é ainda nos regionais onde vamos encontrar a particularidade do meio que a todos envolve, na proximidade de se poder fazer sentir o bem ou mal-estar das nossas vidas.
Já a notícia sensacionalista é verberada num ou outro jornal, que acaba por ser sobejamente conhecido, ainda que muitas vezes a própria novidade só se tenha dela conhecimento por via desse órgão; no entanto surge carregada de nuvens de negativismo.
Desde imemoriais tempos tivemos ligação com os ingleses, nos bons e maus momentos. São conhecidas as expressões: “Pontualidade britânica” , “Sair à inglesa” (que, deste costume inglês, daria mais tarde lugar à expressão “Sair à francesa”), ou “Para inglês ver”
O caso do “Brexit”, com o desentendimento entre a União Europeia e Theresa May, e agora o novo líder britânico, Boris Johnson, ocupam grande espaço nos telejornais e nas páginas dos diários.
Os ventos sopram forte por este planeta fora, e nós, europeus, vemo-nos também numa miragem de outros ventos agitados, como este.
Em 23 de julho, a comunicação social noticiava que Portugal e o Reino Unido celebraram três acordos para a ciência, na data da comemoração dos 650 anos da aliança luso-britânica.
Durante esta aliança com mais de seis séculos, Portugal e Inglaterra estiveram lado a lado nos bons momentos, mas também em situações antagónicas.
Recordemos uma pequena viagem pelo passado das relações luso-britânicas, já que “nenhum país estrangeiro não lusófono teve tanta relevância para a História de Portugal como o Reino Unido e os seus antecessores Grã-Bretanha e Inglaterra – três maneiras de designar, na parte que nos respeita, a mesma realidade”.
Em 1147, guerreiros ingleses a caminho da Palestina, na II Cruzada, ajudaram D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa aos mouros. Em 1189, cruzados ingleses também ajudaram D. Sancho I a conquistar Silves aos mouros. Em 1308, Eduardo VII, da Inglaterra, celebra com Portugal um novo tratado de comércio, que reitera e reforça o de 1294.
Em 1372, o rei D. Fernando de Portugal e representantes de Henrique III, de Inglaterra assinam em Tagilde, perto de Guimarães, um tratado de aliança entre os dois países, “para sempre, por mar e por terra, contra D. Henrique, que ora se chama rei de Castela, e contra D. Pedro, rei de Aragão”. Este tratado continua hoje em vigor e é o mais antigo do mundo.
Em 1383, D. João I faz acionar a aliança inglesa e pede auxílio militar contra Castela a Ricardo II, o qual acedeu e recrutou os arqueiros para esse efeito. Estes participaram em Portugal na Batalha de Aljubarrota, ao lado das forças de D. João I e do condestável D. Nuno Álvares Pereira, contra os invasores castelhanos, os seus aliados franceses, e a maior parte da nobreza portuguesa, esta liderada por Juan I de Castela.
Em 1386, o Tratado de Windsor firma, em termos de “amizade perpétua”, a aliança anglo-portuguesa. Em 1387, D. João I de Portugal casa-se com Filipa de Lencastre (Philippa of Lancaster), que será a mãe da “Ínclita Geração”. Em 1429, a Inglaterra pede frequentemente auxílio a Portugal e nobres portugueses combatem a seu lado.
Em 1580, Filipe II de Espanha torna-se também rei de Portugal e o nosso país passa a ser visto como inimigo pelos ingleses, em guerra com a Espanha.
Em 1806, o imperador francês Napoleão Bonaparte decreta o Bloqueio Continental, que proíbe os outros países de manterem relações comerciais com o Reino Unido. Portugal fica “entalado” entre o poderio francês e a ligação à Grã-Bretanha. Em 1808, o general Arthur Wellesley desembarca em Portugal com tropas britânicas e, organizando um exército anglo-luso, inicia a guerra vitoriosa contra os franceses.
Também o futebol entraria em Portugal por influência inglesa. Em 1875, Henry Hilton, que estuda em Londres mas passa as férias na quinta dos pais, na Madeira, leva uma bola para a ilha e introduz o futebol em território português.
Em 1890, o Reino Unido envia a Portugal um ultimato obrigando o velho aliado a deixar de reivindicar a posse dos territórios africanos entre Angola e Moçambique, representado no “Mapa Cor-de-Rosa”. A enorme reação popular antibritânica em Portugal é uma das causas da implantação da República. Em 1898, aproveitando a crise financeira em que Portugal está mergulhado, o Reino Unido e a Alemanha assinam a convenção de Londres, que propõe a partilha das colónias portuguesas de África. No entanto, no ano seguinte, o rei português D. Carlos consegue induzir o governo britânico a assinar um acordo que ratifica o tratado de 1661, garantindo a integridade dos domínios coloniais.
Muito haveria a dizer sobre as relações ancestrais entre ingleses e portugueses, mas o espaço não o permite, no entanto, a amizade entre os dois povos foi muito maior, e em 1957 a rainha Isabel II efetuou a sua primeira visita a Portugal. Fiquemos por aqui.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 14-08-2019)

17 de julho de 2019

MEMÓRIAS DA SERRA DA ESTRELA DE TODOS OS TEMPOS


Da Covilhã medieval, fabricante de burel, à Covilhã de hoje, produtora dos mais finos tecidos de lã, há uma obra admirável, cimentada por sucessivas gerações de gente laboriosa e empreendedora. Pensamos que em Portugal não há outra indústria que possa competir em antiguidade como a de lanifícios. O visitante, na sua deslocação à Serra da Estrela, tem como porta principal a Covilhã, onde pode apreciar a cozinha regional e deliciar-se com a sua paisagem, através dos vários miradouros.
O escritor Ferreira de Castro contribuiu com a sua obra – “A Lã e a Neve” –, para a história da indústria têxtil, pelos relatos e descrições da laboração nas fábricas da Covilhã. Ele observou o caráter dissemelhante da sociedade urbana e da sociedade rural, no que diz respeito à introdução das inovações, as quais chegaram primeiro à cidade do que à vila ou aldeia.
Gilberto Freire, no seu livro “Aventura e Rotina”, refere que atravessando a Serra da Estrela se lembra, guloso como era, que “é daqui o leite de que se faz o queijo chamado da Serra. Que na Serra da Estrela há séculos que o homem cria ovelhas dentro da mesma doce rotina. Não só ovelhas como as menos poéticas, mas igualmente úteis e boas cabras que também dão leite”.
Já o “Notícias da Covilhã” (NC) de 24-10-1980, sobre o queijo da serra em que o caráter artesanal do seu fabrico é garantia da sua boa (e tradicional) qualidade, referia a terminar o texto: “Rendemos homenagem aos pastores e às pastoras que na Serra suportam o frio, o vento e a neve, para que nas casas aquecidas da Beira, do País e até do estrangeiro, seja saboreado o queijo”.
Podíamos ainda falar do Pastor da Serra, na opinião de L. de Mendonça e Costa (1849-1922), no seu Manual do Viajante em Portugal: “O pastor da Estrela, tipo ético admirável de resistência física, é, porventura, o direto representante dos antigos lusitanos. Isolado de todo o convívio humano, tem por únicos companheiros o cão e o gado, para os meses de estio, pelas cristas das montanhas, ou no fundo dos vales”.
Mas já José Domingos, da Lusa, no NC de 11-09-1987, referindo-se então ao Parque Nacional da Serra da Estrela, que ainda é o maior, dizia: “Montanhas graníticas, vales cortados por glaciares, castelos, história e o homem constituem o Parque Natural da Serra da Estrela, o maior existente em Portugal. Cerca de 98 mil hectares de área dispersa pelos concelhos da Guarda, Manteigas, Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Covilhã e Oliveira do Hospital constituem este parque natural. As montanhas variam aqui entre os 650 e os 2000 metros de altitude, num sucedâneo de vales e covões, cortados por cursos de água que formam o maior centro hidrológico do País. Porém, são o Mondego, Zêzere e Alva que mais condicionam a vida das gentes serranas, sendo os principais rios que descem as montanhas, cuja constituição varia entre o granito e o xisto.”
Muitas memórias serranas podiam, e deviam ser referidas, mas o espaço é curto. Deliciem-se, por exemplo, com a descrição da Serra da Estrela, por Ferreira de Castro, no seu livro “A Lã e a Neve”: “Belo monstro de xisto e de granito, com terra a encher-lhe os ocos do esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse morder o Sol”.
Mas também na descrição dos relatórios da “Expedição Científica à Serra da Estrela”, pela Sociedade de Geografia de Lisboa, realizada em agosto de 1881: “Se de dia e a distância ninguém observa os Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido, imagine-se o que nós sentiríamos às 10 da noite ao vermo-nos presos no cume do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira, eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos. Aqui, onde a natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir infinitamente pequeno.”
A Serra da Estrela sempre foi um lugar de encanto e deslumbramento, que o digam, por exemplo os visitantes que participaram no III Congresso Nacional de Bombeiros (onde também estiveram franceses), realizado na Covilhã nos dias 21 a 25 de julho de 1932, com o presidente da direção dos BVC, José de Carvalho Nunes Tavares, Comandante Jerónimo Monteiro Ranito; o  Presidente da Comissão Administrativa da  Câmara Municipal, Dr. Francisco Xavier de Almeida Garrett, e  o Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Tenente França Borges.
Por último, apreciem no horizonte, a junção dos Cântaros Gordo, Magro e Raso, numa visão bonita duma panorâmica de perceção visual, mais parecendo uma gigante mulher deitada.

(In "Notícias da Covilhã", de 18-07-2019)

10 de julho de 2019

TEMPO DAS FESTAS, DOS EXAMES E DOS INCÊNDIOS


Ora bem, com muito gosto cá estamos a partilhar com os estimados associados e os leitores em geral mais um número d’ “O Combatente da Estrela”, no início do verão, época do ano mais agradável para a generalidade das gentes deste recanto mais ocidental da Europa, e não só.
Desde o último número até agora, esta instituição em movimento continuou a desenvolver várias atividades entretanto programadas, destacando-se o Dia do Combatente na Covilhã, em 9 de abril; as comemorações do 93.º Aniversário do Núcleo, em 19 de maio; e a 13ª. Peregrinação do Núcleo a Fátima, no dia 16 de junho.
Para muitos de nós tem-nos sido reservado aquele espaço de tempo em que é necessário, no exercício de “motoristas” dos nossos netos, irmos buscá-los à porta das escolas, quer sejam do ensino básico, do preparatório ou do secundário; e, depois, para as atividades extras: basquetebol, natação, música, ginástica, futebol, línguas estrangeiras com incidência no inglês, e por aí fora.
Quem é que haveria de dizer que do nosso tempo escolar, em que nada disto era possível, na similaridade com a idade dos nossos netos, a futurologia se encarregaria das fontes da modernidade, duma expansão galopante do desenvolvimento a nível mundial?!
Junho é o mês das festas populares, e os estudantes têm de saber adaptar-se ao tempo das mesmas com a coordenação do seu tempo de estudo na preparação para os exames que se aproximam.
Começou, logo no dia 1 de junho, com o Dia Mundial da Criança, para no dia 10 de junho se celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Chegaria, entretanto, o primeiro dos santos populares, Dia de Santo António a 13 de junho (para mim uma data mítica culturalmente, como sempre venho assinalando), com um interregno para o Dia do Corpo de Deus, assinalado no dia 20 e, em 21 de junho, a entrada do verão. O São João a 24 de junho e por último o São Pedro a 29 de junho.
Mas, atenção, os cotas também têm o seu dia, e eis que a 26 de julho é o Dia Mundial dos Avós.
Depois do frenesim para alguns dos muitos jovens e também dos menos jovens estudantes, passada a época dos exames, vem o descanso merecido de agosto, com alguns dias tórridos contrabalançando com outros em que, segundo o ditado, em “agosto dá o frio pelo rosto”.
Pois é, só que de permeio nestes meses mais quentes surgem as habituais e lamentáveis calamidades dos incêndios florestais que dizimam uma das principais riquezas nacionais e, incrivelmente, até vidas humanas têm sido ceifadas e a sofreram o terror desta grande desgraça.
No dia em que escrevo este texto, o País, através da Comunicação Social, recorda os dois anos em que ocorreu o grande Incêndio florestal de Pedrógão Grande, em 17 de junho de 2017, que causou 64 mortos e cerca de 200 desalojados.
Não ficaria por aqui, e em 15 de outubro daquele mesmo ano foram registados, num só dia, 523 incêndios, que causaram 50 mortos e cerca de 70 feridos. Este foi considerado o pior dia de incêndios de sempre em Portugal. Os piores foram registados na região Centro e Norte, nomeadamente Viseu (distrito mais fustigado) e Coimbra, chegando a entrar dentro de diversas cidades, vilas e aldeias, acabando por destruir dezenas de casas e indústrias.
Já no ano 2018 há a registar, entre outros, um grande incêndio na Serra de Monchique, no dia 3 de agosto, que durou até ao dia 17, consumindo mais uns bons milhares de hectares de floresta, quando no ano anterior se haviam consumido nas chamas, só até outubro, mais de 440 mil hectares de floresta e povoamentos.
Esperemos que este ano a situação seja menos preocupante para o País, que é o mesmo que dizer para todos nós, e para os Bombeiros portugueses.
A este propósito, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, vai comemorar no dia 23 de junho o seu 144º. Aniversário da sua fundação, associação gloriosa para a qual tive a honra de escrever a sua história em livro, já lá vai uma década e meia. Como o tempo passa…
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(In "O Combatente da Estrela", n.º 115, Julho 2019)

O ZÉ POVINHO


Segundo Saramago, “o grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente”, e assim também a desmesurada benevolência, a desregulação, o facilitismo e a confiança exacerbada, levam muitas vezes às situações de constante indignação na imprensa e redes sociais, e a vozearia nos canais televisivos, e não só, com o tema, num ano de todos os perigos, como tem vindo a acontecer, no caminho da corrupção. Procura-se depois o enferrujamento de provas, para que no desiderato daquilo que terá sido considerado mais fácil, não se venha levantar o véu da oxidação e levar à indesejada luz da verdade.
Todos os partidos se envolvem nesta maldita teia, onde muitos dos seus apaniguados caem na tentação de também provar a maçã de Eva. E, em vez de tentar repudiar os seus “traidores” procuram antes encapotar o descaminho em que se envolveram, nalgumas desculpabilizações saloias, algumas mesmo hilariantes.
Perdendo-se já o rescaldo das últimas eleições europeias, não deixa, no entanto, de, perante os números da abstenção, ver que a sua grande dimensão esmaga qualquer resultado, por mais vitórias ou derrotas que sejam anunciadas.
Nunca tivemos um período tão longo de paz na Europa. Talvez por isso a displicência, o deixa andar, o que se lixem as eleições porque são todos iguais, levam a este pensamento de mandar às malvas qualquer ato eleitoral.
A corrupção crónica continua a arrastar-se pelos meios bancários e autárquicos e apesar de inúmeros exemplos, ela grassa em todos os cantos e recantos deste Portugal desencantado. Esta epidemia parece estender-se por toda a parte, enquanto nos vamos questionando, tristemente, sob o tema que foi o 10 de junho – os desígnios da Nação.
Mereciam ser recordados os programas de humor na RTP, da autoria de César de Oliveira e de Melo Pereira,  com os falecidos protagonistas Camilo de Oliveira e Ivone Silva – “Sabadabadu” – onde, entre os sketches mais conhecidos, ficou a canção “Ai Agostinho, Ai Agostinha”, interpretando os papeis de embriagados, cantando uma cantiga com uma letra atenta à situação do país de então, corriam os anos de 1981 e 1982.
Mas se recuarmos para 1975, também poderíamos recordar “Nicolau no País das Maravilhas”, no célebre programa de humor que deu a conhecer o Sr. Feliz (Nicolau Breyner) e o Sr. Contente (Herman José), em que Nicolau dá a conhecer um outro artista em início de carreira, Herman José, passando os dois a formar a célebre dupla, “Sr. Feliz e Sr. Contente”, onde, nesta rábula, a dupla encantava o público com o seu “diga à gente, diga à gente, como vai este país…”
É indubitável que as pessoas sentem que a independência da Justiça face ao poder executivo deve ser aumentada e não diminuída. Que um Ministério Público constrangido politicamente tem efeitos desastrosos, e é inaceitável tal conduta. É óbvio que todos reconhecem o desprestígio atual da classe política portuguesa. E, neste contexto, os grandes problemas que se levantam no combate à corrupção. Assim, há que haver a máxima atenção por todos os partidos no sentido de não consentirem a aprovação de leis que venham desvirtuar o sentido da democracia.
Recentemente fomos confrontados pela comunicação social com a notícia de que o Grupo de Estados contra a Corrupção (Greco), criado em 1999 pelo Conselho da Europa para acompanhar o cumprimento dos padrões anticorrupção estabelecidos por este organismo está desiludido com Portugal. Segundo o Relatório de Conformidade, conforme informação no Público de 28 de junho, agora tornado público, mas, no entanto, aprovado em dezembro de 2017, Portugal, das 15 recomendações que lhe tinham sido feitas com a necessidade de reforçar a sua capacidade de prevenção e de combate à corrupção, desta vez, com respeito, especificamente, aos nossos deputados, juízes e procuradores, só deu cabal cumprimento a uma delas. Estes peritos estiveram no nosso país em meados de 2015, contactaram com numerosas pessoas e instituições e formularam recomendações que Portugal ignorou.
Segundo o Greco, o nosso país preocupa-se pouco com a prevenção da corrupção, com os conflitos de interesses e com a capacidade de decisões. E os resultados estão, há muito, à vista de todos. No entanto, no dia seguinte, o Greco veio a reconhecer algum esforço anticorrupção e melhorou a nota de Portugal, informando: “O Greco conclui, por conseguinte, que o atual nível muito baixo de cumprimento das recomendações continua a ser ‘globalmente insatisfatório’”.
Por isso mesmo, Joana Marques Vidal destacou na comunicação social, recentemente, “redes de corrupção e compadrio, nas áreas da contratação pública” que se disseminam entre vários organismos de ministérios e autarquias.
E, no meio desta amálgama de situações graves, quem paga as favas é o Zé Povinho, que, muitas vezes já se marimba para tudo o que lhe querem enfiar, através do seu manguito – Toma!... E, vai desta, “albarde-se o burro à vontade do dono!”. “Escola não a tens, porque te podia fazer mal o puxar muito pela cabeça nos estudos, e lá diz o ditado que ‘antes burro vivo’, como tu estás, ‘do que doutor morto’, como tão frequentemente se tem visto”.
E o nosso Zé Povinho continua, numa de desabafo: “Para continuares a gozar o sumo bem da liberdade que te outorgamos, tu não tens que ter senão o pequeno incómodo de pagar tudo o que isto custa, e de dar vivas do estilo, sempre que a ocasião se ofereça, ao príncipe, à real família e às instituições que vigem à sua custa”. (1)
“Finalmente, sempre que precisares do que quer que seja, trata de o ganhar, porque ninguém já te dá nada. Adeus, Zezinho! Vai-te com Nossa Senhora!”.
E com o Zé Povinho terminamos esta crónica, porque ele é imortal. Ora submisso, com uma canga às costas feito burro de carga e vexado pelos poderosos, ora irreverente, fazendo o “manguito” a quem o queira enganar, tornando-se o ícone mais representativo do português. O símbolo de um povo triste e subserviente que a espaços – mas só a espaços – é capaz de um gesto de revolta. É o retrato concreto da nação que somos, entalada entre a admiração basbaque e a indignação passiva, entre temíveis passados e futuros desesperados.
Que o Governo esteja atento ao que Rafael Bordalo Pinheiro criou na figura do Zé Povinho, há mais de um século, e que continua atual, para que ele mesmo, e/ou os futuros não vejam cada vez mais o seu “manguito”.

João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(1(1)      In “Álbum das Glórias”, de Rafael Bordalo Pinheiro.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 10-07-2019)