11 de junho de 2026

O PÃO QUE O DIABO AMASSOU


 

Com repercussão em algumas crónicas inseridas neste semanário Jornal Fórum Covilhã, por conceituados cronistas que sabem o que dizem no que concerne à sua vivência enquanto meninos e moços, inspirou-me a memória de algumas narrativas que já trouxe para a ribalta deste espaço jornalístico e que se encontravam numa certa hibernação.

O talvez tenha sido o meu saudável vício de não conseguir parar de escrever. São mais de seis décadas, desde a escrita manuscrita, datilografada ou computadorizada.

Teresa Inácio Neves, no número de 28 de maio, com a sua lucidez de escrita de fino traço, fala-nos de um eventual tio que garantia, no seu tempo (dele), que a vida era uma epopeia nas dificuldades que atravessavam, caminhando vários quilómetros a pé para a escola e para o trabalho.

Considerados uma geração mimada e privilegiada, somos, dizem eles, mais complexos, mas a verdade é que agora carregamos outros fardos que, na altura, nem sequer tinham nome.

Ser adulto no século XXI é, como refere Teresa Neves, se bem entendi, pertencer a uma daquelas gerações híbridas – a geração “ponte”. Se é um facto que crescemos sem telemóveis e com a tecnologia a entrar nas nossas vidas a conta-gotas, leva-me aos tempos nostálgicos em que cada inovação era algo quase sobrenatural e ainda não tínhamos chegado à inteligência artificial.

Toda a narrativa de Teresa Inácio Neves é uma lição de memórias para os dias de hoje.

Já os “Meninos de Ontem”, de António Rebordão, habituou-nos a uma realidade que vai acontecendo por este mundo de ingratos, no mesmo número, a que já aludi deste semanário, e onde refere “O que era a vida há 75 anos – Relatos Verídicos”.

Também eu nasci numa situação de fortes dificuldades económicas, no ano de 1946, quando não havia água corrente, eletricidade nem gás. O saneamento era também inexistente. Faziam-se os despejos para uma estrumeira que depois servia para fertilizar as pequenas hortas e quintas existentes. Éramos seis irmãos.

À água iam as mulheres à mina, de cântaro à cabeça. No regresso, ficava junto a uma cantareira, de onde se tirava a água para beber e para a cozinha, com um copo de alumínio.

As louças eram esfregadas com sabão macaco ou rosa, sendo que o chão, em madeira de pinho, quando necessário, era esfregado com sabão amarelo.

Os cães, gatos e aves de capoeira andavam livremente na rua, enquanto os coelhos se recolhiam nas coelheiras e os suínos nos currais, alimentados com viandas adicionadas de farelos. No ar, sobrevoavam-nos os pombos e pombas que, mal viam deitar-lhes o milho, não receavam vir até junto de nós.

Matar uma galinha ou um coelho só acontecia em dias de festa ou quando alguma visita, geralmente familiares, nos fazia uma surpresa.

Nós comíamos pão de segunda, por sermos muitos. Quando a avó saía da fábrica, juntava as filhas e os netos para tomar o chá, com aquele pão de quartos ou regueifa da D. Celeste, juntamente com queijo queimoso.

Meu pai, para além de trabalhar na antiga Biblioteca Municipal, ao jardim, entrando às 16 horas e saindo às 23, jantava o farnel que trazia de casa. À noite, fosse verão ou inverno, com vento ou chuva, lá ia carregado, a pé, até à Pousadinha, sem luz, pelos caminhos de terra batida, a partir do Lameirão. Só quando algum carro passava por nós, vindo da Aldeia do Carvalho, nos encandeava com as luzes no máximo, tínhamos alguns momentos sem escuridão.

Nasci na Pousadinha, em casa, com a ajuda da “parteira caseira”, D. Lucinda. Minha avó e a Senhora Maria, mãe de uma das minhas tias, aquando da parição, vinham para ajudar a tratar da pequenada.

A minha irmã Rita Fátima e eu éramos os mais velhos. Começaram a surgir os primos. O João Manuel, filho do tio Manuel e da tia Albertina, faleceu ainda bebé. O mesmo destino levou a Carolina Fátima, filha dos meus tios António e Irene.

Era hábito, no dia do funeral, os familiares do falecido, fazerem uma fila na rua, a partir da porta onde se encontrava o féretro, porque não cabiam em casa, recebendo os sentidos pêsames. Assim aconteceu com o meu avô João de Brito e também com aqueles pequenos primos.

O meu irmão António, ainda adolescente, criava-me problemas ao ficar junto de mim porquanto levava o assunto para a risada, em pleno momento de luto:

– Olha o nariz daquele!

– Olha aquele manco!

Mas a fisionomia daquele que surgia a estender a mão sem a ponta dos dedos não permitiu que a risada fosse contida. O António, meu irmão, mais não fez do que se agachar, simulando que estava a atar os atacadores dos sapatos. Mesmo assim, faziam-lhe sinal para se levantar.

Fiz com o meu pai a primeira classe. Assim como me preparou para a Primeira Comunhão, na Aldeia do Carvalho, com o Padre Pita, que tinha uma mota.

Também alguns adultos que pretendiam aproveitar o programa da Campanha Nacional de Educação de Adultos, para completarem a 4ª. classe, combinavam com o meu pai, conhecido professor Martins, na Pousadinha, um tempinho de manhã até às 15 horas, altura em que se deslocava a pé para a biblioteca.

Passámos a residir na Covilhã. Foi então que deixámos de calcorrear aqueles quilómetros, de verão ou de inverno, depois de o meu pai terminar o horário de trabalho na Biblioteca Municipal, ao jardim, às 23 horas.

Depois de acabar os estudos na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, tive o meu primeiro emprego na Câmara Municipal da Covilhã. Concorri ao pessoal maior vitalício e fui chamado para o serviço militar obrigatório.

Depois de ter terminado o Curso de Sargentos Milicianos, tive a sorte de não ser chamado para a Guerra do Ultramar, onde o meu irmão não teve a mesma sorte, pois foi para a Guiné. Procurei novos rumos de vida. Depois de ter concorrido para o BNU e de ter ficado aprovado com boa classificação, optei por passar a ser emigrante no meu próprio país. Assim aconteceu o tempo que vivi no Soito, do concelho do Sabugal. Deixei o salto para a Companhia Europeia de Seguros e, daqui, mais tarde, passei a trabalhar de conta própria.

Eram os tempos em que ainda não havia telemóveis. Muitas vezes, quando regressava de reuniões de trabalho em Lisboa, ainda sem ter sido construída a A23, e se passava pelas antigas estradas que iam dar ao cruzamento de Coruche, seguindo depois para  Mora,  Couço, Infantado, Ponte de Sor, Gavião e Arez, apressava a viagem para chegar ao início das curvas de Nisa para Vila Velha de Ródão, na esperança de ainda encontrar, já alta noite, um café ou uma taberna abertos onde houvesse uma cabine telefónica que me permitisse fazer uma chamada interurbana.  

 – Vem devagar! Eu não me deito enquanto não chegares!

Depois de passar por tormentas, por vezes com superiores que não olhavam a meios para atingir os seus fins, dediquei-me totalmente à escrita pro bono e à solidariedade, até aos dias de hoje, enquanto as minhas capacidades cognitivas mo permitirem.

Os amigos não pararam de aumentar. E as recordações de outrora também, mesmo aquelas em que comemos o pão que o diabo amassou.

Hoje, para além dos nefastos problemas de saúde que nos afetam enquanto octogenários, somos uma família feliz.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 11-06-2026)

 

28 de maio de 2026

A ENTREGA DO CORREIO PELOS SERVIÇOS DOS CTT



 

Desde longa data ouvimos falar, em determinados momentos, sobre a melhor profissão, a profissão mais antiga ou a profissão mais desejada. Mas poucas vezes se fala naquela que envolve a criação de muitos problemas, em virtude de o seu trabalho revelar menos eficácia.

Certamente que já compreenderam que estamos a falar do serviço de distribuição dos CTT. De quando em vez, lá surge uma queixa, mais no meio rural que na urbe, sobre o atraso de correspondência, mormente dos jornais.

Infelizmente, essa ineficácia verifica-se assiduamente na Rua Mateus Fernandes, na Covilhã,

Não chegam as muitas reclamações apresentadas aos carteiros, porquanto há, na generalidade, uma desculpa.

Nestas últimas semanas, chegou-se ao desplante de um semanário que tem assinatura paga atempadamente não ser depositado na minha caixa do correio durante várias semanas.

Apesar da boa vontade do editor do jornal em me enviar outro, preferi ir à banca e adquiri-lo, uma vez que gosto de notícias frescas.

O distribuidor, talvez perturbado pela reclamação que teria chegado ao seu serviço, veio informar-me, caricatamente, que os jornais deveriam ficar pendurados no cimo da caixa do correio. Informei-o que chego a meter a mão no interior da caixa, que é pequena, e nada disto aconteceu, insinuando assim que os jornais estariam na caixa do correio. Como era possível todos lá se encontrarem?!

Agora é um quinzenário que deixou de me ser colocado na caixa do correio, também com a assinatura atempadamente liquidada. Como o editor garantiu que tinham enviado todos os jornais aos destinatários, fui confirmar se na Biblioteca Municipal da Covilhã lá estava. De facto, estava…  Só o meu é que não recebi.

Um problema com que alguns moradores se debatem há anos, não obstante a Rua Mateus Fernandes, na Covilhã, estar bem situada e sem obstáculos.

Será que não pode haver uma chamada de atenção para os irresponsáveis por tal conduta?

Espero que esta publicação possa agitar as mentes dos causadores destes problemas.

João de Jesus Nunes

Covilhã

jjnunes6200@gmail.com

 

 

A ENTREGA DO CORREIO



 

Desde longa data ouvimos falar, em determinados momentos, sobre a melhor profissão, a profissão mais antiga ou a profissão mais desejada. Mas poucas vezes se fala naquela que envolve a criação de muitos problemas, em virtude de o seu trabalho revelar menos eficácia.

Certamente que já compreenderam que estamos a falar do serviço de distribuição dos CTT. De quando em vez, lá surge uma queixa, mais no meio rural que na urbe, sobre o atraso de correspondência, mormente dos jornais.

Infelizmente, essa ineficácia verifica-se assiduamente na Rua Mateus Fernandes, na Covilhã,

Não chegam as muitas reclamações apresentadas aos carteiros, porquanto há, na generalidade, uma desculpa.

Nestas últimas semanas, chegou-se ao desplante de um semanário que tem assinatura paga atempadamente não ser depositado na minha caixa do correio durante várias semanas.

Apesar da boa vontade do editor do jornal em me enviar outro, preferi ir à banca e adquiri-lo, uma vez que gosto de notícias frescas.

O distribuidor, talvez perturbado pela reclamação que teria chegado ao seu serviço, veio informar-me, caricatamente, que os jornais deveriam ficar pendurados no cimo da caixa do correio. Informei-o que chego a meter a mão no interior da caixa, que é pequena, e nada disto aconteceu, insinuando assim que os jornais estariam na caixa do correio. Como era possível todos lá se encontrarem?!

Agora é um quinzenário que deixou de me ser colocado na caixa do correio, também com a assinatura atempadamente liquidada. Como o editor garantiu que tinham enviado todos os jornais aos destinatários, fui confirmar se na Biblioteca Municipal da Covilhã lá estava. De facto, estava…  Só o meu é que não recebi.

Um problema com que alguns moradores se debatem há anos, não obstante a Rua Mateus Fernandes, na Covilhã, estar bem situada e sem obstáculos.

Será que não pode haver uma chamada de atenção para os irresponsáveis por tal conduta?

Espero que esta publicação possa agitar as mentes dos causadores destes problemas.

João de Jesus Nunes

Covilhã

jjnunes6200@gmail.com

 

 

21 de maio de 2026

REIS DE PORTUGAL QUE CASARAM COM SÚBDITAS PORTUGUESAS


 

Ao longo da monarquia portuguesa, a regra foi clara: os casamentos régios serviam sobretudo como instrumentos diplomáticos, ligando Portugal a outras casas reais europeias. Por isso, alianças com princesas estrangeiras eram a norma. Ainda assim, há um pequeno grupo de exceções – apenas quatro reis que desposaram mulheres consideradas súbditas do reino.

Entre os 34 reis de Portugal, destacam-se quatro casos em que os matrimónios fugiram à lógica internacional e se enraizaram no próprio território.

1. D. Pedro I de Portugal e Inês de Castro

O caso mais célere – e trágico – da história portuguesa. Embora Inês de Castro fosse de origem galega, vivia em Portugal e estava integrada na corte, sendo considerada súbdita. Após a sua execução em 1355, ordenada por D. Afonso IV de Portugal, D. Pedro I de Portugal declarou que se haviam casado secretamente. Este episódio marcou profundamente o imaginário nacional, simbolizando amor e vingança.

2. D. Fernando I de Portugal e Leonor Teles

D. Fernando I de Portugal casou com Leonor Teles em circunstâncias controversas, pois ela já era casada. Este matrimónio gerou forte oposição política e social, contribuindo para a instabilidade que se seguiu à morte do rei e culminou na crise 1383 – 1385.

3. D. Afonso V de Portugal e Isabel de Coimbra

Neste caso, o casamento teve uma lógica interna: Isabel de Coimbra era filha do infante D. Pedro, Duque de Coimbra. A união reforçava laços dentro da própria dinastia de Aviz.

Apesar das tensões políticas que envolveram a família, o casamento foi reconhecido como legítimo e estável.

4. D. João II de Portugal e Leonor de Viseu

D. João II de Portugal casou com a sua prima, Leonor de Viseu, membro da alta nobreza portuguesa. Este matrimónio consolidou o poder dentro da família real e revelou-se politicamente prudente, acompanhando a estratégia centralizadora do monarca.

Estes quatro casos mostram que, embora raros, os casamentos com súbditas portuguesas ocorreram sobretudo em contextos de proximidades dinástica ou de forte envolvimento pessoal. Em contraste com a prática dominante – alianças internacionais –, estas uniões refletem momentos em que a política interna, ou mesmo os afetos, se sobrepuseram à diplomacia europeia.

Curiosidades históricas

Amor para além da morte

No caso de D. Pedro I de Portugal, a tradição conta que, após reconhecer o casamento com Inês de Castro, mandou coroar o seu cadáver como rainha. Embora este episódio seja debatido pelos historiadores, tornou-se um dos mais marcantes mitos da história nacional.

Um casamento que escandalizou o reino

A união de D. Fernando I de Portugal com Leonor Teles foi vista como um escândalo político e moral. A rainha tornou-se uma das figuras mais polémicas da monarquia portuguesa, frequentemente retratada como ambiciosa e manipuladora.

Uma rainha culta e inteligente

Isabel de Coimbra, esposa de D. Afonso V de Portugal, destacou-se pela sua educação e sentido político. Foi uma defensora da reconciliação após os conflitos entre o rei e o seu pai, o duque de Coimbra.

A “Rainha Perfeita”

Leonor de Viseu, mulher de D. João II de Portugal, ficou conhecida como a “Rainha Perfeita” pela sua ação caritativa. Fundou instituições de assistência, incluindo a célebre Santa Casa da Misericórdia.

Casar “dentro de casa” não era comum

Apesar destes exemplos, casar com súbditas era visto como politicamente menos vantajoso. Os casamentos reais eram, na maioria dos casos, autênticos “tratados diplomáticos”, ligando Portugal a reinos como Castela, França ou Inglaterra.

Parabéns a Você!!!

Os primeiros vão para o simpático e histórico Sporting Clube Olhanense, que completou 114 anos no dia 27 de abril, agora sob a batuta do amigo Manuel Cajuda, para quem vai um abraço.

No dia em que sair esta crónica, serão cumpridos 63 anos desde que este excelente periódico “O Olhanense” se mantém ininterruptamente em publicação – o que é obra! Parabéns, com votos de continuidade e sucesso, agora sob a égide do bom amigo Mário Proença, para quem vai também um forte abraço.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-05-2026)

7 de maio de 2026

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA JOÃO RUI CALAIS FRADE

João Rui Calais Frade nasceu em Milanje, no distrito de Quelimane, em Moçambique, a 6 de março de 1952. Foi também naquela terra africana que iniciou os seus estudos, fazendo ali a instrução primária, hoje designada Ensino Básico.

Mais tarde viria para Portugal, então designado por Metrópole, para prosseguir a sua formação. Em Tomar frequentou, como aluno interno durante seis anos, o Colégio Nun’Álvares. Apesar da distância, havia já uma ligação à Covilhã, onde passava as férias em casa de familiares.

No 6.º ano regressou a Moçambique para concluir os estudos. A decisão tinha um motivo claro: cumprir o serviço militar obrigatório na sua terra natal e não noutras colónias. Tinha então apenas 17 anos.

Aos 20 anos seria incorporado no serviço militar. Corria o ano de 1972. A recruta iniciou-se em Lourenço Marques – hoje Maputo – a 2 de fevereiro de 1973.

Durante essa fase foi selecionado para os Comandos, como atirador, tendo frequentado o Curso de Comandos em Montepuez, na província de Cabo Delgado. Desempenhou frequentemente a função de rebenta-minas. Mais tarde seria promovido a aspirante a oficial miliciano e, aquando da mobilização para combate contra os guerrilheiros da Frelimo, ascenderia ao posto de alferes miliciano.

Recorda assim esse período da sua vida:

“A Guerra Colonial no Niassa (1964-1974) foi uma frente crítica no norte de Moçambique. Era uma guerra marcada pela guerrilha intensa, pelo uso de minas por parte da Frelimo e pelo isolamento de muitos aquartelamentos portugueses. A região de Vila Cabral – hoje Lichinga – e Marrupa foi palco de combates severos, enquanto a Frelimo criava zonas libertadas e as forças portuguesas enfrentavam um terreno difícil e ataques frequentes a viaturas.

As fotografias com helicópteros referem-se a uma operação helitransportada destinada a destruir bases da Frelimo no norte do Niassa. O abastecimento dos helicópteros foi feito no destacamento de Chipembe, pertencente à 2ª CCAÇ/BCAÇ19.

A fotografa da coluna reporta-se a mais um golpe de mão a uma base da Frelimo, partindo na frente da mesma o alferes João Frade, seguido do furriel Marto – já falecido – e o terceiro elemento da coluna é um carregador e guia, ex-guerrilheiro da Frelimo. Era prática comum que oficiais e sargentos tivessem o apoio de carregadores indígenas para o transporte de parte da sua bagagem e equipamentos pessoais durante as operações no mato.

Tive oportunidade de captar essas imagens porque, em finais de 1973, me encontrava a comandar esse aquartelamento.

Este posto avançado da companhia sediada em Nanlicha era o ponto de partida para muitas das operações realizadas pela densa mata em direção às bases da Frelimo. Os trilhos eram muitas vezes indicados por guias contratados, antigos elementos da Frelimo que se tinham juntado às nossas tropas.

Nos dois anos em que permaneci nesta companhia, além dos patrulhamentos em redor do aquartelamento e da escolta de viaturas civis e militares, participei em três operações especiais – golpes de mão – destinadas à destruição de bases da Frelimo. Tive ainda a sorte de detetar e detonar duas minas na picada.

Nanlicha era uma pequena povoação com aquartelamento situado na picada entre Marrupa e Mecula.

Recordo também um episódio particularmente trágico: em 23 de julho de 1973, um destacamento do Batalhão de Artilharia 3887 e da Companhia de Artilharia 3558, mobilizados pelo RAL3 (Évora), foi atingido por uma emboscada com fornilhos (minas) na zona da Serra da Mecula, provocando onze mortos e vários feridos.

A região de Mecula era estrategicamente muito importante no nordeste do Niassa, controlando passagens como a picada do Candulo para Marrupa.”

 Depois do 25 de Abril, o alferes miliciano João Frade passaria à disponibilidade em agosto de 1974.

Terminada a vida militar, fixou-se definitivamente na Covilhã. Na vida civil trabalhou como desenhador de máquinas na empresa SMIL, uma serralharia pertencente ao seu tio. Mais tarde viria a colaborar com o seu sogro, Júlio Afonso, como técnico de manutenção de máquinas.

Mas há também uma faceta mais artística na sua vida. João Frade tem um fascínio particular pelo desenho. Mostrou-me um álbum onde guarda numerosos trabalhos da sua autoria: vistas da Covilhã e paisagens da Serra da Estrela, executadas com grande minúcia em tinta-da-china e aguarela.

J. J. Nunes

 

(In “O Combatente da Estrela”, n.º 142, abril 2026)

 

 

 

 


 

EFEMÉRIDES DE NÚMEROS REDONDOS EM 2026

 

Vivemos tempos melancólicos e inquietantes. O nosso país e o mundo atravessam momentos difíceis, marcados por tempestades devastadoras que se sucedem umas às outras, depois de um estio prolongado e castigado por grandes incêndios.

E, para lá das nossas fronteiras, multiplicam-se conflitos que muitos já não hesitam em designar como uma espécie de “terceira guerra mundial aos pedaços”, espalhada por diversos pontos do globo e cujos ecos acabam por atingir toda a humanidade.

Talvez por isso mesmo valha a pena, de quando em quando, fazer uma pausa neste presente inquieto e olhar para a história. Recordar datas e acontecimentos que, vistos à distância, nos ajudam a compreender melhor o caminho coletivo que fomos percorrendo. Neste ano de 2026, não faltam efemérides de números redondos que merecem evocação.

Desde logo, assinala-se o Centenário do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, fundado em 16 de fevereiro de 1926. Ao longo destes cem anos, a instituição tem procurado honrar a memória de quantos conheceram as agruras da guerra, em particular os que participaram na Guerra das Colónias, conflito que marcou profundamente uma geração inteira de jovens portugueses e deixou, em muitos deles, cicatrizes físicas e psicológicas que o tempo nem sempre conseguiu apagar. As comemorações previstas procuram justamente preservar essa memória e dar a conhecer às novas gerações o papel desempenhado pelo Núcleo covilhanense.

No plano nacional, 2026 marca também os 50 anos da Constituição da República Portuguesa de 1976, a Lei Fundamental do regime democrático nascido após o 25 de Abril. Meio século depois da sua aprovação, permanece como a mais duradoura das constituições portuguesas, testemunho da consolidação de um sistema político assente na liberdade e na participação democrática.

Se recuarmos ainda mais no tempo, encontramos outra data simbólica: os 200 anos da Carta Constitucional de1826, outorgada por D. Pedro IV a partir do Brasil, onde fora aclamado imperador. Este diploma tornou-se a segunda Constituição portuguesa e a mais duradoura da nossa história constitucional, abrindo caminho às primeiras eleições cartistas realizadas nesse mesmo ano.

Também os caminhos de ferro têm a sua efeméride. Passaram 170 anos desde a inauguração da via-férrea em Portugal, ocorrida no já distante – e para muitos romântico – dia 28 de outubro de 1856, episódio marcante de um processo que, entre dificuldades técnicas e hesitações políticas, viria a transformar profundamente a mobilidade e o desenvolvimento do país.

No plano internacional, celebra-se uma data maior da história contemporânea: os 250 anos da Revolução Americana de 1776. Foi então que treze colónias britânicas da América do Norte se ergueram contra o domínio colonial e proclamaram a sua independência, dando origem aos Estados Unidos da América. Mais do que o nascimento de uma nova nação, esse movimento inaugurou uma nova ordem constitucional e política que influenciaria decisivamente o mundo moderno.

Essas treze colónias agrupavam-se em três grandes nações – Nova Inglaterra, Colónias do Centro e Colónias do Sul – e a sua afirmação política viria a alterar profundamente o curso da história mundial.

Por terras da Beira Baixa, há ainda outra efeméride digna de nota: os 80 anos da fundação do Jornal do Fundão, criado por António Paulouro, seu proprietário e primeiro diretor. Ao longo das décadas, este semanário afirmou-se como uma das mais prestigiadas vozes da imprensa regional portuguesa. Curiosamente – e permito-me aqui uma nota pessoal – nasci apenas dois meses depois do nascimento deste jornal.

Assim se vai fazendo a história: entre grandes acontecimentos mundiais e pequenas coincidências da vida de cada um. Recordar estas datas é também uma forma de reconhecer o caminho percorrido e de compreender melhor o tempo que nos cabe viver.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Combatente da Estrela”, n.º 142-abril 202

5 de maio de 2026

O 1.º de Maio no Estado Novo



 

Durante o período do Estado Novo em Portugal, o 1.º de Maio (Dia do Trabalhador) não era celebrado livremente como manifestação popular. O regime procurava esvaziar o seu significado político – historicamente associado ao movimento operário – e uma das estratégias recorrentes consistia na programação de eventos apelativos, como transmissões de futebol na Rádio e Televisão de Portugal (RTP), então ainda a preto e branco.

Embora não exista uma lista oficial consolidada dos jogos especificamente escolhidos para o 1.º de Maio, há registos e memórias consistentes de transmissões envolvendo os “três grandes”: SL Benfica, FC Porto e Sporting CP.

Podemos identificar alguns padrões. A Final da Taça de Portugal, frequentemente disputada em finais de maio, era muitas vezes integrada numa estratégia de forte promoção mediática. Em várias épocas, sobretudo nas décadas de 1960 e início de 1970, jogos decisivos ou clássicos do campeonato coincidiam com o feriado ou ocorriam em datas muito próximas.

Entre os exemplos mais citados, destacam-se:

- 1963 – Final da Taça de Portugal: Benfica vs Sporting

- 1969 (1 de maio) – Sporting vs Benfica, para o campeonato

- 1971 – Final da Taça: Benfica vs Sporting

- 1972 – Final da Taça: Sporting vs Vitória de Setúbal

- 1973 – Final da Taça: Sporting – vs Vitória de Setúbal

Para além destes casos, há referências a jogos importantes transmitidos no próprio dia ou em datas adjacentes, como:

- 1965 – Clássico Benfica vs Sporting, decisivo para o campeonato

- 1967 – FC Porto vs Benfica, no final de abril/início de maio

- 1970 – FC Porto vs Sporting, em período próximo do feriado

- 1973 – Benfica vs FC Porto, com grande destaque televisivo no dia 1 de maio

Estas transmissões concentravam a atenção pública num espetáculo desportivo altamente mobilizador. Num país onde clubes como o Benfica e o Sporting reuniam milhões de adeptos, um clássico televisivo levava famílias a permanecerem em casa ou a deslocarem-se aos cafés, reduzindo a probabilidade de mobilização social e reforçando uma imagem de normalidade e entretenimento.

O futebol funcionava, assim, como um eficaz “escape coletivo”.

Após a Revolução dos Cravos, o 1.º de Maio passou a ser celebrado livremente nas ruas, com grandes manifestações populares, deixando o futebol de desempenhar e sua função política indireta.

Historicamente, pode afirmar-se que existia uma intencionalidade na programação da RTP, privilegiando clássicos e jogos de elevada audiência. Nem sempre coincidiam exatamente com o dia 1, mas eram frequentemente colocados em datas próximas, cumprindo o mesmo objetivo.

A realidade demonstra que o regime utilizava o futebol como instrumento de distração, com alguma flexibilidade: jogos no próprio dia ou em torno do feriado, finais da Taça em maio e clássicos agendados para fins de semana contíguos.

Com base nestes padrões, é possível fazer uma reconstituição plausível da programação da RTP no dia 1 de maio de 1969

Evento central do dia

Sporting CP vs SL Benfica

Jogo da Primeira Divisão, no antigo Estádio de Alvalade, transmitido em direto pela RTP.

Este clássico terá sido o ponto alto da programação – um verdadeiro “evento nacional”, com início provável entre as 15h00 e as 16h00, mobilizando o país inteiro.

A grelha televisiva desse dia incluiria, provavelmente:

- Manhã e início da tarde: programas culturais e educativos, desenhos animados (ainda escassos) e magazines ligeiros

- Tarde: transmissão do jogo em direto

- Noite: Telejornal, sem referência a manifestações (proibidas), seguido de programas de entretenimento, como variedades, música ligeira ou teatro televisivo

Este exemplo ilustra bem a lógica do regime: evitar qualquer visibilidade do 1.º de Maio enquanto dia de luta operária e substituí-lo por conteúdos considerados “seguros”.

Em 1973, o Estado Novo encontrava-se já fragilizado. A guerra colonial prolongava-se, a contestação crescia e a tensão social era evidente. Ainda assim, o 1.º de Maio continuava sem liberdade de expressão pública e permanecia mediaticamente neutralizado.

Menos de um ano depois, dá-se a Revolução de Abril. O 1.º de Maio de 1974 transforma-se radicalmente com multidões a saírem à rua e a televisão a transmitir, pela primeira vez, manifestações populares livres.

Casei-me a 3 de maio de 1970, precisamente no período em que esta estratégia atingia o auge, com futebol, televisão e controlo político a cruzarem-se. Três anos depois, já se sentia que esse modelo se aproximava do limite.

Esta reflexão surge também por uma coincidência simbólica: “O Olhanense” sairá precisamente no dia 1 de maio, evocando estas memórias, e num momento em que o futebol continua a marcar o imaginário coletivo – como aconteceu recentemente no jogo entre FC Porto e Sporting CP, que apurou os “leões” para a final da Taça de Portugal, no Jamor.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01/05/2026)

21 de abril de 2026

O CIRCO ITINERANTE



 Porquanto já escrevi algumas vezes sobre o período que estamos a viver – a Páscoa –, tanto em jornais como em livros, e considerando que, quando os leitores lerem esta crónica, esse tempo já terá passado, resolvi mudar de assunto, ainda que apenas ocasionalmente – ou talvez não.

Isto porque, durante uma caminhada pelo denominado Complexo Desportivo da Covilhã – que, na verdade, pouco tem de complexo desportivo, face à sua degradação – surgiu-me a ideia de falar sobre o circo itinerante, ao observar a montagem do Circo Arena, com os seus enormes camiões.

Houve uma época (sobretudo até aos anos 80/90) em que os circos itinerantes eram presença quase garantida nas vilas e cidades, especialmente na primavera e no verão.

Recordo-me de, em miúdo, ver na Covilhã o Circo Arraiola Paramés, o Circo Mexicano, o Circo Alegria, entre outros que a memória já não retém. Os circos ambulantes continuam a existir, inclusive em Portugal. Numa breve pesquisa, constata-se que há várias companhias que percorrem o país ao longo do ano (como o Cardinali, Chen, Dallas, Mundial, entre outros) circulando por diferentes localidades.

A lógica de “montar e desmontar” continua a ser a base do circo tradicional itinerante. Em muitos casos, continuam a instalar-se em terrenos municipais, recintos de feiras ou zonas desportivas. Ou seja: o circo ambulante não desapareceu, mas deixou de ser tão omnipresente como outrora.

Então, o que mudou ao longo dos anos?

Verificaram-se várias transformações importantes. Desde logo, o fim quase total dos animais desde 2019. Portugal proibiu a utilização de animais selvagens em circos, com um período de transição até 2025. Esta medida alterou profundamente o modelo clássico (leões, elefantes, entre outros).

Atualmente, o foco incide sobretudo em acrobatas, ilusionismo, humor, espetáculos visuais, equilibrismo, palhaços e números de risco.

Podemos mesmo afirmar que surgiu o chamado “novo circo”, caraterizado por um estilo mais moderno, inspirado no teatro e na dança. Também em Portugal se verifica essa tendência – espetáculos mais cénicos, com componente musical e, por vezes, dirigidos a públicos adultos.

Regista-se igualmente, uma menor presença nas pequenas localidades, ao contrário do que acontecia antigamente, quando praticamente todas as vilas recebiam o circo.

Importa ainda referir que, atualmente, existem mais exigências burocráticas, nomeadamente ao nível de licenças, escassez de terrenos disponíveis e custos elevados, o que contribui para que os circos circulem menos ou permaneçam mais tempo nas grandes cidades.

Os circos continuam ativos, mas já não constituem um fenómeno massivo como no passado. Hoje, dividem-se essencialmente em dois universos o tradicional itinerante e o contemporâneo, associado a espetáculos urbanos e festivais. O circo continua, assim, a reinventar-se. Creio, aliás, que existem em Portugal projetos destinados a preservar a sua história e a adaptá-la ao futuro, tratando-se de uma arte com séculos de tradição.

Aproveito para inserir um breve excerto do meu livro “Da Montanha ao Vale – As Viagens de um Grupo de Tertulianos”, cuja 1ª edição foi publicada em maio de 2022, Capítulo XVI, pág. 107:

“‘O Circo Mexicano’ – Uma olhadela para a rua e a passagem de uma caravana do Circo Mexicano. O Zé do Megane coçou o bigode, elevou o pescoço e reparou que os camiões que faziam o transporte sinalizavam para estacionar. Eram cinco camiões, com os quatro piscas ligados.

Atrás, seguiam três carrinhas com roulottes atreladas. Das carrinhas saíram cinco raparigas, valentes mocetonas, provavelmente artistas, pelo seu ar sensual, e também quatro rapazes, igualmente robustos.

Sentaram-se e pediram sumos de laranja. Enquanto bebiam, fumavam. Os rapazes faziam o mesmo; apenas um bebia cerveja – talvez não fosse artista.

Os motoristas e restantes elementos de apoio ao circo chegaram depois e permaneceram ao balcão.

Entretanto, uma das raparigas, muito maquilhada, dirige-se ao grupo de tertulianos e oferece um bilhete a cada um, bem como um prospeto do espetáculo, que teria lugar ainda nessa noite, na Zona Industrial de Leça da Palmeira.

Agradecem e prometem marcar presença.

Como nem todos podiam ir, entregaram os bilhetes a colegas, para que as suas esposas pudessem assistir.  E, assim decidido, retomaram os trabalhos que vinham desenvolvendo.

Após essa breve interrupção protagonizada por elementos do circo, surgiu um novo intervalo. (…)”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-04-2026)

10 de abril de 2026

ENTRE A BRINCADEIRA E O ENGANO: O 1 DE ABRIL NUM TEMPO DE DESCONFIANÇA

Escrevo este texto precisamente no dia 1 de abril – o chamado “Dia das Mentiras”. A data persiste, mas já não é vivida com a leveza de outros tempos. Dir-se-ia que sobrevive, embora sob suspeita.

A tradição mantém-se em muitos países, com partidas, notícias humorísticas e pequenas provocações entre amigos, colegas ou até marcas. Durante séculos, este foi um dia em que o engano era aceite como jogo social – uma espécie de licença coletiva para brincar com a credulidade alheia.

Mas o mundo mudou – e o contexto também.

Hoje, o 1 de abril confronta-se com um problema que ultrapassa largamente a inocência das suas origens: a banalização da mentira. Num tempo marcado pela desinformação e pelas chamadas “fake news”, aquilo que antes era brincadeira pode facilmente confundir-se com manipulação. Não admira, por isso, que muitos órgãos da comunicação social e empresas tenham optado por maior prudência, evitando participar numa tradição que pode ser mal interpretada.

Pessoalmente, confesso que me revejo entre os que olham para este dia com alguma reserva. Não por rejeitar o humor ou ironia, mas porque o terreno em que assentam se tornou mais instável. A Internet e as redes sociais amplificam tudo: uma simples partida pode ganhar dimensão inesperada e transformar-se, em poucas horas, numa falsidade tomada por verdade.

O que está em causa não é o desaparecimento da tradição, mas a sua transformação. As grandes partidas públicas tornaram-se mais raras; persistem, sobretudo, as brincadeiras privadas, mais contidas e, idealmente, mais responsáveis. Há, felizmente, uma consciência crescente de que nem tudo é aceitável em nome do riso.

Será então, o Dia das Mentiras uma tradição em declínio? Talvez não. Mas é, seguramente, uma tradição em adaptação – menos ingénua, mais cautelosa, e inevitavelmente marcada pelo tempo em que vivemos.

A este propósito recordo que já abordei o tema da verdade e da mentira em diversos artigos publicados neste e noutros semanários, nos anos de 2016, 2017, 2021 e 2025. A questão, longe de se esgotar, ganha hoje novos contornos.

Mas como surgiu esta tradição?

Aponta-se frequentemente Catarina de Médicis como estando na sua origem, numa história que cruza calendário e costume. Em 1564, enquanto regente de França em nome de Carlos IX, determinou que o ano civil passaria a iniciar-se a 1 de janeiro. Até então, o início do ano era assinalado no primeiro dia de abril.

A alteração não foi imediatamente assimilada por todos. Muitos continuaram a celebrar o antigo início do ano, mantendo a troca de presentes e votos festivos em abril. Com o tempo, esses gestos passaram a ser vistos como deslocados – e, progressivamente, transformaram-se em ofertas simbólicas ou fictícias.

Assim nasceu uma tradição marcada pela ambiguidade: entre o que parece e o que é, entre o dito e o desmentido.

O 1 de abril adquiriu, desse modo, um carácter quase carnavalesco, em que o engenho de uns se mede pela credulidade de outros. A França, então centro de influência cultural, difundiu o costume por toda a Europa, deixando até hoje a expressão poisson d’Avril, associada ao signo de Peixes, que antecede a data no calendário zodiacal.

Também a natureza parece alinhar neste jogo de ambiguidades. Abril é, por tradição, um mês instável, em que o sol se esconde e reaparece caprichosamente. “Em abril, águas mil” – diz o povo, com a sabedoria de quem reconhece que nem tudo é o que parece.

Ao longo dos tempos, o 1 de abril inspirou inúmeras invenções, sobretudo no universo jornalístico. Houve épocas em que a criatividade se media pela capacidade de enganar – e pelo número de leitores que “enfiavam o barrete”.

Recordo, a esse propósito, uma iniciativa do Diário de Notícias, na edição de 1 de abril de 2000. Em vez de publicar uma falsa notícia, optou por apresentar factos verídicos ocorridos nessa data ao longo da história. Uma escolha feliz, que inverteu o sentido da tradição e mostrou que a realidade pode ser tão surpreendente quanto a ficção.

De facto, não faltam acontecimentos marcantes associados ao dia 1 de abril – alguns deles inicialmente recebidos com incredulidade. A verdade, por vezes, tem essa estranha capacidade de parecer improvável.

E reforço, sim, momentaneamente postos em dúvida pelos mais céticos, até à sua confirmação. Como se verá, a nudez forte da verdade impõe-se ao manto diáfano da fantasia, pois abundam os factos de grande importância histórica numa data em que tantos preferem recorrer à imaginação.

Eis alguns exemplos:

1572 – Início, na Holanda, da guerra da independência.

1876 – Aprovação, em Portugal, o Código do Processo Civil.

1923 – Renovação do acordo entre a administração portuguesa de Moçambique e o Governo da África do Sul para o recrutamento anual (trabalho forçado) de milhares de indígenas para as minas.

1937 – Entrada em vigor da Constituição indiana, com o Partido do Congresso a exigir a independência.

1945 – Início da invasão de Okinawa, no sul do Japão, pelas forças americanas.

1948 – Interferência da URSS no tráfego entre Berlim e a Alemanha Ocidental.

1950 – Transferência da Somalilândia britânica para a Itália; segunda explosão atómica francesa em Reganne.

1954 – Integração da Terra Nova no Canadá.

1962 – A Suíça rejeita, em referendo, armas atómicas.

1963 – Fim da greve de 114 dias dos jornais de Nova Iorque.

1964 – Golpe militar no Brasil, instaurando uma ditadura prolongada.

1973 – O Governo de Harold Wilson manifesta intenção de negociar a entrada do Reino Unido na CEE.

1974 – Reunião preparatória do movimento que conduziria ao 25 de Abril em Portugal.

1983 – Entrada em vigor da Convenção Europeia para a Proteção do Ambiente.

1986 – Abolição do papel selado em Portugal.

1997 – Portugal assume a presidência do Conselho de Segurança da ONU.

 2026 – A missão Ártemis II arrancou nesta quarta-feira de 1 de abril, na primeira viagem desde 1972 que levará humanos à órbitra da Lua. A missão americana serve como um ensaio para o transporte de humanos. Quatro astronautas são transportados dentro da cápsula Órion, que segue acoplada ao foguetão SLS.

Talvez resida aqui a maior ironia deste dia: numa data associada à mentira, abundam factos que nos recordam a força – e, por vezes a estranheza – da verdade.

E ficamos por aqui.

 

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 09-04-2026)