27 de março de 2026

A República e a Igreja: ecos do conflito na Covilhã

 

A Implantação da República Portuguesa, a 5 de outubro de 1910, marcou o início de um período de forte tensão entre o novo regime republicano e a Igreja Católica. Esse período é frequentemente descrito como de acentuado anticlericalismo e de conflito entre o poder político e a religião.

Logo após a mudança de regime foram retomadas antigas leis pombalinas e liberais que proibiram a presença de congregações religiosas em Portugal. Os Jesuítas foram dos primeiros atingidos, sendo expulsos do país poucos dias depois da implantação da República, a 10 de outubro de 1910. Outras ordens religiosas seriam igualmente extintas e os seus bens confiscados pelo Estado.

Um momento decisivo foi a promulgação da Lei da Separação do Estado das Igrejas, assinada por Afonso de Costa a 20 de abril de 1911. Esta lei estabeleceu formalmente a separação entre o Estado e a Igreja, mas incluiu medidas consideradas hostis pelos meios católicos, como restrições ao culto público, limitações ao uso de vestes religiosas e interferências na administração de bens eclesiásticos.

Paralelamente, o novo regime promoveu uma forte política de laicização da sociedade: o ensino religioso foi retirado das escolas e símbolos religiosos, como o crucifixo, desapareceram das salas de aula.

Em vários pontos do país registaram-se também episódios de violência anticlerical, incluindo ataques a edifícios religiosos, destruição de imagens e restrições a manifestações públicas de fé, como o toque dos sinos.

Muitos republicanos, influenciados pelo positivismo e por correntes laicizantes, viam a Igreja como um dos pilares da monarquia e um obstáculo à modernização do país. A hierarquia católica reagiu com firmeza publicando uma pastoral coletiva contra a legislação de 1911, o que contribuiu para um clima que alguns contemporâneos designaram como verdadeira “guerra religiosa”.

Este ambiente de conflito apenas começou a atenuar-se durante o governo de Sidónio Pais, em 1917.

Também na Covilhã se sentiram os efeitos desta nova realidade política. Em 14 de agosto de 1911, a Comissão Municipal Administrativa dirigiu um pedido ao Governo para que fosse cedida ao município a Igreja de S. Tiago e a casa anexa, residência dos Jesuítas. No documento afirmava-se que a cidade, importante centro industrial então conhecida como “Manchester Portuguesa”, esperava finalmente ver atendidas as suas necessidades após décadas de abandono.

O pedido justificava-se com objetivos práticos: instalar nos edifícios serviços municipais e repartições públicas, evitando pagamento de rendas e dotando a cidade de instalações condignas.

Anos depois, segundo atas da Câmara Municipal de 30 de junho de 1913, a Comissão Administrativa tomou posse da igreja paroquial de São Pedro. O edifício seria posteriormente destinado à demolição, após publicação de editais convidando eventuais interessados a reclamar lápides funerárias ou a exumação de ossadas existentes no interior do templo.

Outros documentos da época revelam igualmente o ambiente de suspeição e vigilância que se vivia. Num ofício de 24 de abril de 1911, a Câmara comunicava ao Governo informações sobre uma mulher que regressara de Espanha após ter ido confessar-se e cumprimentar o conhecido Jesuíta Padre Cruz que esteve em S. Tiago, na Covilhã. O simples facto de transportar pequenas imagens religiosas levantou suspeitas de que pudessem transportar correspondência clandestina.

Estes episódios ilustram como as grandes transformações políticas nacionais tiveram reflexos concretos na vida local e no quotidiano das populações.

Recordo-me ainda de que, anos mais tarde, na antiga casa dos Jesuítas funcionou o Tribunal Judicial da Covilhã, onde acompanhei meu pai em algumas ocasiões para tratar de assuntos relacionados com os meus avós maternos.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 26-03-2026)


18 de março de 2026

A PRIMEIRA VIAGEM DE COMBOIO EM PORTUGAL


 

Foi muito atribulada a inauguração da via-férrea em Portugal, nesse já distante ano de 1856.

As senhoras usavam enormes decotes que lhes deixavam os ombros nus, saias de balão e totós no cabelo; os cavalheiros iam de casaca justa, calças de fantasia e cartola muito alta. Mas o dia da inauguração do transporte ferroviário em Portugal – esse romântico 28 de outubro de 1856 – ficou marcado por alguns percalços.

O troço pioneiro unia Lisboa (Santa Apolónia, então também chamada estação do Cais dos Soldados) ao Carregado. A locomotiva da composição festiva, que levava o rei D. Pedro V a bordo, avariou-se. No regresso do Carregado foram sendo deixadas carruagens de convidados pelo caminho, porque a máquina, adquirida em segunda mão, não tinha potência suficiente para as rebocar.

 À noite, andavam ainda lacaios pela linha, com archotes, à procura dos “náufragos” do progresso. As damas, tentando soerguer um pouco as saias com as mãos níveas, jamais esqueceriam o pesadelo.

Os inimigos do novo meio de transporte – e eram muitos, alguns deles insuspeitos, como Almeida Garrett – riam às gargalhadas. Mas ninguém podia negar a evidência: pretendia-se, dentro de pouco tempo, unir Lisboa ao Porto em cerca de 12 horas, quando, num tempo que não havia estradas dignas desse nome, uma viagem entre as duas principais cidades do país demorava cinco dias em liteira e um dia e meio na mala-posta, o nome correntemente dado à diligência.

Além disso, os assaltos levados a cabo por bandoleiros eram frequentes, razão pela qual muitas pessoas preferiam viajar de barco ao longo da costa.

Não obstante os azares inaugurais, o novo meio de transporte tornou-se, em breve, uma realidade de indiscutível valor económico e social, tanto em Portugal como no mundo, facilitando a deslocação de pessoas e bens e tornando a vida mais prática.

Portugal, como seria de prever, não foi dos primeiros países a dispor de comboio. O pioneiro foi a Inglaterra, onde as locomotivas começaram a apitar em 1825.

Escutemos agora algumas reações de figuras conhecidas à “revolução do comboio”.

Almeida Garrett, progressista em política, não entendeu bem o alcance do novo meio de transporte e, nas Viagens da Minha Terra, escreve: “Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal! Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode”.

Já Alexandre Herculano conseguiu ver para lá do imediato, ao considerar que a máquina a vapor é “um dom do céu, um instrumento do progresso legítimo (…) como o foram o arado, o navio, a imprensa”.

Pinheiro Chagas, por seu lado, constatou que “dantes o ronceiro ónibus ou a pacata diligência anunciavam que partiam às oito horas e partiam sempre às nove”, ao passo que “a locomotiva parte sempre à hora anunciada”.

Quanto a Ramalho Ortigão, reconheceu que a “locomotora” é uma “grande imagem do progresso, inquieta, ansiosa, arquejante como ele”.

Do que não restam dúvidas é que há uma História antes do comboio e outra depois do advento.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-03-2026)

 

13 de março de 2026

O ÚLTIMO COMBATE DO NAVIO-PATRULHA

Enquanto aguardo a apresentação do meu último livro – “100 anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes – 1926 – 2026”, prevista para o próximo mês de maio, embora com a obra já encerrada, continuo na minha pesquisa sobre mais acontecimentos deste período bélico.

Assim, numa consulta à obra de Luís Almeida Martins – “Histórias da História de Portugal” – deparei-me com o relato do último combate do navio-patrulha Augusto de Castilho.

Menos de um mês antes do armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, o conflito ainda fez correr sangue luso, numa ação que permanece no imaginário nacional.

O navio-patrulha de alto mar Augusto de Castilho partira de Lisboa na tarde de 8 de outubro de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Carvalho Araújo. A sua missão consistia em escoltar até à Madeira o vapor Beira. Faltava menos de um mês para terminar a guerra, mas os submarinos alemães continuavam a representar uma forte ameaça no Oceano Atlântico.

Chegados ao Funchal no dia 11, sem incidentes, os dois navios, o patrulha manteve-se ao largo em quarentena, devido à pneumónica que grassava em Lisboa. Entretanto, foi incumbido de escoltar até Ponta Delgada o vapor São Miguel, da Companhia Insulana de Navegação, com cerca de duas centenas de passageiros a bordo. Partiu logo dois dias depois da chegada, a 13.

Pouco depois das 6 horas da madrugada de 14 de outubro emergiu das águas o submarino alemão U – 139, comandado por Lothar von Arnault de la Perière – nada mais, nada menos do que o maior “às” dos submarinos de toda a História, com um impressionante palmarés de 194 navios e 453 716 toneladas de arqueação bruta afundados nas duas guerras mundiais.

La Perière abriu fogo sob o São Miguel, ao que Carvalho Araújo respondeu mandando lançar caixas de fumo na sua direção, criando assim uma barreira visual. Quando já não havia mais caixas de fumo, para proteger o São Miguel e os seus passageiros só restava ao Augusto de Castilho avançar resolutamente de encontro ao U – 139, expondo-se ao fogo do canhão da torreta e dando tempo ao vapor de passageiros para se afastar.

O combate, desesperado, arrastou-se por duas horas, fazendo vítimas do lado português. Ao fim desse tempo, o Augusto de Castilho, já sem munições, com as máquinas atingidas e a TSF danificada, estava irremediavelmente condenado. Quando apresentava a rendição, um último tiro dos alemães atingiu em cheio o primeiro-tenente Carvalho Araújo, que teve morte imediata.

Os 48 portugueses sobreviventes obtiveram autorização de La Perière para lançar ao mar um salva-vidas e um bote, onde se comprimiram. O submarino meteu então no fundo o Augusto de Castilho, levando consigo os corpos de Carvalho Araújo, envolto na bandeira verde-rubra, e dos restantes mortos em combate.

O salva-vidas alcançou, no dia 16, a ilha açoriana de Santa Maria, e o bote chegou, no dia 20, à ilha de São Miguel, no concelho do Nordeste.

Não foi este o único combate do Augusto de Castilho. A 23 de março de 1918 pusera em fuga um submarino alemão quando escoltava o vapor Luanda entre Lisboa e o Funchal. E,

a  21 de agosto do mesmo ano, abrira fogo com sucesso, sobre outro U – Boot, ao largo do Cabo Raso, em Cascais.

No início de 1917, a Alemanha declarou guerra submarina ilimitada no Atlântico, incluindo ataques a navios neutrais, como os do Brasil, tendo sido essa a causa direta da declaração de guerra por parte dos Estados Undos da América. Ao longo do conflito, cerca de metade da frota mercante britânica foi afundada pelo U – Boote.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-03-2026)


 

4 de março de 2026

MILAGRE DE TANCOS



 

Chamou-se “milagre” à preparação, em 1916, de camponeses maioritariamente analfabetos para a luta na guerra das trincheiras. Mas os taumaturgos deixaram muito a desejar.

Nada tem de sobrenatural, e se alguma graça o envolve é a involuntária ironia da designação.

A Alemanha tinha declarado guerra a Portugal em 9 de março de 1916. A decisão de Berlim não constituiu surpresa significativa, pois Portugal tudo fizera para que isso acontecesse, a começar pela “requisição” de todos os navios germânicos que se encontravam em portos nacionais – e eram mais de 70 os que, surpreendidos pela eclosão da guerra, aqui se tinham acolhido. O hastear da bandeira verde-rubra nesses navios fora “sugerido” pela Inglaterra, num memorando. Estes barcos, colocados ao serviço da causa dos Aliados (Inglaterra, França e Rússia) contra os Impérios Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia otomana) serviam de moeda de troca entre Lisboa e Londres, que reafirmava o compromisso de defender as nossas colónias das ambições germânicas.

Mas se Portugal já combatia em Angola e Moçambique contra forças provenientes das colónias alemãs vizinhas, a passagem ao estatuto de país beligerante não subentendia necessariamente que soldados nossos fossem combater numa das frentes principais da guerra. Os próprios aliados britânicos não estavam inicialmente interessados no envio de tropas portuguesas para a frente europeia, preferindo que Portugal se limitasse a não assumir neutralidade formal. No entanto, os soldados portugueses seguiriam mesmo para a frente ocidental, por decisão do Governo de Afonso Costa, logo sucedido por um Executivo multipartidário, chamado de “União Sagrada”. A República fora implantada poucos antes, em 1910. As novas autoridades, ainda numa relativa penumbra internacional, precisavam de um grande palco que lhes desse visibilidade. Adicionalmente, o provável triunfo dos Aliados colocaria o País entre os vencedores, com direito a assento na mesa das conversações de paz; ou seja, estava garantida a manutenção da posse das colónias.

Começaram então a ser mobilizados jovens camponeses de todo o País, na maioria analfabetos e sem outros horizontes para além dos que abrangia a vista da sua aldeia. Desconheciam os motivos pelos quais iriam combater. Transformar em soldados esses homens alheados da política internacional foi o que se chamou “milagre de Tancos”, numa referência ao campo de exercícios militares na zona de Abrantes para onde convergiram. Mas… terá o “milagre” merecido o nome que lhe deram?

Quando, em janeiro de 1917, os primeiros dos nossos desembarcaram em Brest, para daí seguirem de comboio até ao front, verificaram que a guerra para que tinham sido instruídos nada tinha que ver com a guerra em que iam combater. Os Ingleses descobriram com espanto que os seus aliados meridionais nunca tinham visto uma metralhadora Lewis, a arma que mais iriam usar nas trincheiras, e que as grandes peças de artilharia também lhes eram desconhecidas. Foi por isso necessário dar-lhes novamente instrução, em terras francesas.

O mito do “milagre de Tancos” cairia por terra na dramática madrugada de 9 de abril de 1918, quando o Corpo Expedicionário Português foi destroçado em La Lys. Os motins surgidos entre as tropas, fruto de impreparação técnica, injustiças sociais e falta de esclarecimento político, prenunciavam já a tragédia.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que alterou o mapa da Europa e o Médio Oriente, opôs o chamado Triplo Entendimento (Inglaterra, França, Rússia czarista e seus aliados) aos Impérios Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia) e terminou com a vitória dos primeiros. Até 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, ficou conhecida simplesmente como Grande Guerra.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-03-2026)

 

 

 

19 de fevereiro de 2026

A PERSISTÊNCIA DE UM LUTADOR DE CAUSAS


 

Nasci na cidade da Covilhã há já oito décadas. Desde muito cedo convivi com o cheiro do papel, entre jornais e livros, na Biblioteca Municipal. Esse ambiente marcou-me profundamente e permanece até hoje como uma memória viva, quase nostálgica, de um tempo em que a palavra escrita tinha um peso próprio e um ritmo diferente.

Fiz o meu percurso escolar antes do surgimento da Internet, essa revolução que viria a transformar o mundo e, de forma muito particular, a comunicação social. Ao longo da vida, acompanhei essa transformação, participando na publicação de livros e colaborando em vários jornais, alguns entretanto desaparecidos. Sou, como gosto de dizer, apenas um escrevinhador de crónicas e notícias, sobretudo na Beira Interior, mas sempre com uma avidez intacta pela escrita.

Dos muitos periódicos e revistas onde colaborei, ficaram amizades, cumplicidades intelectuais e um profundo respeito pelo jornalismo local, esse espaço onde se preserva a memória, se dá voz às comunidades e se constrói identidade.

Encontra-se atualmente no prelo a minha mais recente obra, “100 Anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes”, cuja apresentação está prevista para o próximo dia 23 de maio, sinal de que o trabalho ligado à palavra impressa continua a fazer parte do meu quotidiano.

Vivemos, porém, tempos difíceis para o papel. As novas tecnologias têm contribuído de forma decisiva para a migração da informação para o digital. A isto soma-se a decisão da VASP, empresa responsável pela distribuição de jornais e revistas em Portugal, que pondera abandonar rotas consideradas deficitárias, sobretudo em regiões mais envelhecidas e desertificadas. Esta realidade agrava o sentimento de exclusão de muitos leitores, em particular pessoas idosas, que não se revêm nem se sentem atraídas pelo consumo de informação online.

Trata-se, em muitos casos, de mais um golpe nos territórios esquecidos do Portugal interior e periférico.

É neste contexto que ganha pleno sentido o título desta crónica.

No prestigiado quinzenário O Olhanense, onde tenho a honra de escrever há mais de um quarto de século, encontrei sempre exemplo raro de persistência e dedicação. Ao longo dos seus sessenta e três anos de existência, este jornal nunca falhou com os seus leitores.   Sendo o único periódico da cidade, reúne colaboradores de áreas diversas, onde cabem a poesia, as estórias e a história de Olhão e da sua região.

Por isso mesmo, é confrangedor ouvir, da parte do seu principal dinamizador e diretor, um verdadeiro grito de alerta. A luta diária para manter o jornal vivo é árdua e solitária, E se O Olhanense acabar, dificilmente voltará a erguer-se.

Um jornal bem concebido, de leitura acessível e agradável de folhear, não deve desaparecer. Bastaria, muitas vezes, um gesto simples: a renovação ou adesão a uma assinatura anual. Será excessivo que um serrano venha junto dos algarvios fazer este apelo?

Sou colaborador do jornal, pro bono, como não poderia deixar de ser, mas sou também assinante, sempre com as quotas em dia. Faço-o por convicção.

Estou certo de que, não fosse a persistência desse verdadeiro lutador de causas chamado Mário Proença, o quinzenário já teria desaparecido. A ele se deve um ato de resistência cultural que importa reconhecer e apoiar.

Contribuir para a sobrevivência de O Olhanense é, nos dias que correm, um ato de justiça. Recomendo vivamente a leitura atenta da poesia publicada no último número, da autoria de Cátia Guerreiro, sob o título “Opostos de audição”, exemplo de qualidade que ainda vive nas páginas deste jornal.

Enquanto houver quem resista, o papel continuará a fazer sentido.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-02-2026)

 

14 de fevereiro de 2026

UM SÉCULO DEPOIS, OS MESMOS FANTASMAS


 

Nestes primeiros meses de 2026, vale a pena olhar para trás e revisitar alguns acontecimentos ocorridos há exatamente cem anos. Não por mero exercício de memória histórica, mas porque a História, quando ignorada, tem a inquietante tendência para se repetir.

Se tivéssemos dado ouvidos aos alertas da comunidade científica sobre a forma como estávamos a degradar o planeta e às consequências que daí adviriam, talvez hoje não estivéssemos a viver ciclos sucessivos de catástrofes naturais, nem verões que se transformam, quase inevitavelmente, em épocas de incêndios devastadores. A negligência coletiva cobra sempre um preço – e esse preço está agora à vista de todos.

Assinala-se este ano um século sobre o início do processo que conduziu ao chamado Estado Novo, com a ascensão do professor Oliveira Salazar. O ano de1926 abriu com um golpe militar que instaurou uma ditadura e que, mais tarde, daria origem a um regime autoritário de longa duração, após a I República – nascida em 1910 – ter sido marcada por instabilidade política, económica e social. O resultado foi um regime fechado, repressivo e avesso à liberdade, que só terminaria com o 25 de Abril de 1974.

Portugal não foi caso único. No país vizinho, Espanha, vivia-se também um período conturbado sobe a ditadura de Miguel Primo de Rivera, durante o reinado de Afonso XIII. O crescimento dos nacionalismos regionais, nomeadamente na Catalunha e no País Basco, e a incapacidade de resposta política acabariam por conduzir à Guerra Civil Espanhola e, em 1939, à ascensão de Francisco Franco. Instalava-se mais uma ditadura, que, à semelhança da portuguesa, se prolongaria por décadas.

Em Itália, Benito Mussolini consolidava o fascismo após a Marcha sobre Roma, em 1922, iniciando um regime autoritário com a complacência da monarquia. O fascismo italiano viria a servir de inspiração a outros regimes, num tempo em que a força se sobrepunha ao direito e a propaganda substituía o pensamento crítico.

Mussolini sonhava com a criação de um novo Império Romano, uma ambição que não é estranha a alguns líderes atuais, obcecados com grandezas passadas e expansões territoriais. O alinhamento com a Alemanha de Adolf Hitler selou destinos. A Alemanha esmagada pelas indemnizações da I Guerra Mundial, vivia mergulhada na hiperinflação, miséria e instabilidade social. Foi nesse terreno fértil de desespero e ressentimento que o Partido Nacional-Socialista cresceu, conduzindo o mundo a uma nova guerra global.

A França, por sua vez, ocupava a região do Ruhr, rica em carvão – a principal fonte de energia da época – tentando forçar o pagamento das reparações de guerra. Também aqui se demonstrou como a humilhação económica raramente gera estabilidade política.

Os Estados Unidos da América emergiam como potência dominante. A crise bolsistas de 1929 revelou, porém, os perigos da especulação descontrolada e da ilusão de prosperidade infinita. O colapso financeiro teve efeitos devastadores a nível mundial com falências, desemprego em massa e profundas fraturas sociais. Paradoxalmente, essa mesma capacidade produtiva viria depois a ser determinante na II Guerra Mundial e na reconstrução da Europa, através do Plano Marshall, consolidando os EUA como principal potência económica global.

 

Transportar os ensinamentos de há 100 anos para o presente não exige grande esforço. Mudam-se as fontes de energia, os discursos e os protagonistas, mas repetem-se os padrões: ambições expansionistas, fragilidade das instituições, ausência de lideranças responsáveis, corrida ao armamento e o enfraquecimento do multilateralismo.

Um século depois, ao entrarmos em 2026, regressam velhos receios: o avanço de regimes autoritários, a imposição de modelos económicos que limitam o livre comércio, o recurso a tarifas aduaneiras como arma política e as crescente ameaças à liberdade de escolha das sociedades. Ignorar estes sinais seria, mais uma vez, um erro histórico – e sabemos bem como esses erros costumam terminar.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-02-2026)

 

4 de fevereiro de 2026

OS TONHOS

 

OS TONHOS

O nosso Pelourinho de hoje – como o povo ainda lhe chama – já não é o mesmo de outros tempos. Está diferente. Tudo mudou. Resta saber se para melhor ou para pior.

Há factos que, pelo seu tipismo citadino, ficam na memória coletiva e se transmitem de geração em geração. Este é um deles.

Já não existe o coreto. Os quiosques modernizaram-se, como o Quiosque do Jardim. A Fonte das Três Bicas esteve durante muito tempo votada ao esquecimento, mas hoje encontra-se em local de boa visibilidade. Durante anos contrastou com outras fontes da cidade, marcadas pela tabuleta amaldiçoada: “Água imprópria para beber”.

Existia também o Arco da Cadeia, que era a porta da cidade. Eram outros tempos, em que a modernidade estava a léguas de distância.

Mas havia, sobretudo, os bancos do Pelourinho. Uns bancos que o tempo levou, onde certas pessoas repousavam as fadigas, conversavam ou marcavam encontros.

Era o caso dos “Tonhos do Pelourinho”, como o povo lhes chamava. Quem eram eles, na realidade?

Gente muito humilde, frequentemente desempregada, que se sentava pacientemente à espera de que alguma boa alma precisasse dos seus serviços. Assim angariavam algum dinheiro para o sustento próprio e das famílias.  

Havia entre eles um princípio sagrado: o “mata-bicho da manhã”. O primeiro dinheiro ganho por qualquer um revertia a favor de todos, para pagar o pequeno-almoço coletivo. Um verdadeiro humanismo social, cumprido religiosamente.

Entre os Tonhos sobressaía um: homem entroncado, que andava quase sempre descalço e possuía um rosto de traços macacados. Chamavam-lhe Nico. Embora bebesse um pouco, era, por natureza, um homem bom. Dizia-se até que descendia de antigos judeus da cidade. Morava na antiga Rua de São Paulo, numa casa que já não existe – hoje Rua Comendador Mendes Veiga, n.º 11.

Um vizinho, Fernando da Cruz, abastado comerciante de fazendas, tinha grande afeição por Nico, e dava-lhe roupa usada. Um dia ofereceu-lhe um fraque e umas calças às riscas, muito em uso na época. Também lhe davam sapatos, mas ele nunca os usava. Com sol, chuva ou neve, só descalço se sentia bem. Agradecia tudo, mas calçado não. Vestia as calças às riscas, envergava o fraque e lá ia, descalço, para os bancos do Pelourinho. Por onde passava, surgiam risadas, de que pouco se importava. Ingrato ou soberbo, nunca foi.

O povo passou então a chamá-lo Tonho Nico, ou simplesmente, Tonhico, figura central dos Tonhos do Pelourinho.

Em 1919 foi levada à cena, na Covilhã, a revista: No País da Guedelha, de Mário Quintela.  Foi grande êxito. Um dos atores, Jerónimo Monteiro Ranito, representou o pobre Nico: descalço, de calças às riscas e fraque. No seu desempenho cantava o Fado dos Bancos do Pelourinho, com poema de João Figueiredo e música de António Rodrigues Gomes – o fado da vida do próprio Nico, que toda a cidade decorou e cantou. O refrão dizia:

 

“Bancos antigos, amigos certos,

P’ros desgraçados, para os mendigos,

Sempre de braços abertos!

Ai!...

Lembra a minha alma vosso carinho.

Ai!... que saudades da vossa calma,

Ó bancos do Pelourinho!...”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-02-2026)