O fenómeno turístico desenvolveu-se a partir das grandes exposições e deve muito àquela que foi a mais paradigmática, realizada em Londres, em 1851, na qual podemos encontrar um dos sinais mais evidentes do verdadeiro início da globalização.
Todavia, o homem sempre viajou
por vários motivos, designadamente os recreativos, que constituem uma das
essências da deslocação turística. Para que esta pudesse existir, era necessário
haver segurança, tanto nos meios de transporte como no alojamento e na
alimentação, nos lugares de passagem e de destino.
O turismo é, pois, uma realidade que
se consolidou no Ocidente com a expansão da linha férrea e o desenvolvimento de
estabelecimentos dotados de melhores condições, designadamente as sanitárias.
Na sua forma moderna, a viagem por diversão e cultura afirmava-se, em meios
como a Covilhã, sobretudo em meados do século XX.
A Expedição Científica à Serra
da Estrela, realizada em agosto de 1881 pela Sociedade de Geografia de
Lisboa, constituiu um momento decisivo para o conhecimento científico da
região. A expedição estudou a Serra sob múltiplas perspetivas e contribuiu para
chamar a atenção para as suas potencialidades climáticas, médicas, hidrológicas
e turísticas.
Pouco depois, a região seria
também atingida por epidemias, entre as quais a da varíola de 1883. Tal
circunstância, associada às dificuldades económicas e às grandes convulsões que
marcaram as primeiras décadas do século XX, não favoreceu um aproveitamento
turístico precoce da Serra da Estrela.
Entretanto, a construção de
estradas e o desenvolvimento de alguns empreendimentos contribuíram para uma
progressiva valorização da Serra como destino turístico.
A Covilhã, embora não tivesse
assumido inicialmente o mesmo protagonismo de Gouveia e Manteigas, passou a
beneficiar do novo enquadramento legislativo do turismo. A Lei n.º 1152, de 23
de abril de 1921, criou as Comissões de Iniciativa destinadas a promover o
desenvolvimento das estâncias, legislação que seria posteriormente
regulamentada e desenvolvida nos anos seguintes.
Em 1929, encontrava-se já
constituída a Comissão de Turismo da Covilhã, que se articulava com outras
estruturas congéneres da região na procura de projetos de desenvolvimento
turístico.
A Serra transformava-se, então,
num espaço procurado por uma burguesia portuguesa cada vez mais interessada no
turismo de montanha, no clima e nas atividades de lazer.
Em 1941, a Panorama, Revista
Portuguesa de Arte e Turismo, no seu número 4, de setembro, anunciava o Grande
Hotel Covilhanense, o Serra da Estrela Hotel e a Pensão Campos, indicando
diárias entre 20 e 140 escudos – valores então muito elevados para a região. A
mesma publicação apresentava itinerários turísticos a partir da Covilhã e
explorava a neve como um dos grandes atrativos da Serra.
Entretanto, desenvolviam-se na
Covilhã novos empreendimentos ligados à hotelaria e à restauração,
destacando-se a ação empresarial de Artur de Almeida Campos, figura de
grande importância no desenvolvimento da atividade hoteleira e de restauração
da região.
A sua atividade viria a
estender-se por diversos estabelecimentos na Covilhã, no Fundão, em Castelo
Branco e noutras localidades, contribuindo para a criação de uma verdadeira
rede regional de restauração e hotelaria.
Em 1939, pertencia-lhe o
Café-Restaurante Central, dotado com uma secção de 20 quartos. Em finais de
março de 1942, promovia o Neve-Hotel, tendo contado com a visita de António
Ferro. O Solar da Covilhã abria nos finais de 1944 pela mão do mesmo empresário.
Esta figura tinha vindo do Fajão, das terras de devoção a Nossa Senhora do
Montalto e lançou a primeira rede hoteleira digna do nome na região de Castelo
Branco, pelo Fundão, à Covilhã e à Serra, fundando e gerindo estabelecimentos
como o Café Avis de Castelo Branco, o Cine do Fundão, o Montalto da Covilhã e a
Pensão Residencial Neve, na Covilhã, as estalagens da Neve, no Fundão, e do
Pastor, nas Penhas da Saúde, e outros negócios. Em 1938, residia na Covilhã e
era solicitado a colaborar no progresso da mesma.
O tema da neve assumia,
entretanto, uma importância crescente, também graças à divulgação literária da
Serra. Neste contexto, merece especial referência Ferreira de Castro, cujo
romance A Lã e a Neve, publicado em 1947, colocou a Covilhã e a Serra da
Estrela no centro de uma das mais importantes obras da literatura portuguesa do
século XX.
Não é, por isso, surpreendente que, em 1949, os municípios serranos
procurassem dar um novo impulso à valorização turística da região.
Nesse ano, a Panorama noticiava uma reunião realizada na Pousada
de São Lourenço, nas Penhas Douradas, com a presença dos presidentes das
Câmaras Municipais da Covilhã, Manteigas, Gouveia e Seia e das comissões de
turismo dos dois primeiros concelhos. Foram então discutidos os problemas
relacionados com a valorização turística da Serra e a criação das condições
necessárias ao seu aproveitamento hoteleiro e desportivo.
A publicação refere ainda que, concluídos os estudos, se previa a
participação dos municípios servidos pela estrada de circunvalação da Serra e a
organização de uma empresa concessionária destinada à exploração industrial do
turismo da Serra da Estrela.
Além da neve, a montanha e a saúde constituem outros importantes fatores
de atração. As águas termais de Unhais da Serra e, mais tarde, as termas de
Monfortinho, contribuíam para diversificar a oferta turística regional. Também
a exploração mineira da Panasqueira despertava curiosidade e atraía visitantes.
Entretanto, o turismo religioso sofreria a forte concorrência de Fátima,
que se afirmava como o grande centro nacional de peregrinação e turismo
religioso de massas.
Na Covilhã, a Comissão Municipal de Turismo desenvolvia igualmente ações
de promoção da cidade e da Serra. A existência de material de propaganda
turística da Comissão, incluindo documentação de meados do século XX, confirma
a crescente preocupação em promover conjuntamente a Covilhã e a Serra da
Estrela.
A importância económica do turismo viria posteriormente a crescer no
conjunto da economia concelhia.
Um estudo realizado em 2008, através de um inquérito a 205 visitantes da
Covilhã, permitiu conhecer melhor os comportamentos e as caraterísticas da
procura turística. A maioria dos visitantes inquiridos deslocava-se em
automóvel próprio, representando este meio de transporte 73,66% das respostas.
Os visitantes procuravam sobretudo o lazer e as férias, valorizando o
património histórico e cultural, os monumentos, os museus, os centros
históricos, as áreas protegidas, as compras e o desporto. A deslocação em
família assumia também particular importância.
A história mostra, assim, que a vocação turística da Covilhã e da Serra
da Estrela não nasceu de um momento isolado. Foi sendo construída ao longo de mais
de um século, através da ciência, da medicina, das estradas, da hotelaria, da
literatura, da neve, das termas, do património e, sobretudo, da capacidade
empreendedora de sucessivas gerações.
A Covilhã e a Serra continuam, por isso, a ter no turismo um dos seus
mais importantes fatores de valorização económica, cultural e territorial.
(Bibliografia consultada: “A Covilhã Industrial e
Universitária”, by António dos Santos Pereira, Coordenação de Elisa Calado
Pinheiro e Maria da Graça Vicente)
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 30-09-2026)










