Com repercussão em algumas
crónicas inseridas neste semanário Jornal Fórum Covilhã, por
conceituados cronistas que sabem o que dizem no que concerne à sua vivência enquanto
meninos e moços, inspirou-me a memória de algumas narrativas que já trouxe para
a ribalta deste espaço jornalístico e que se encontravam numa certa hibernação.
O talvez tenha sido o meu
saudável vício de não conseguir parar de escrever. São mais de seis décadas,
desde a escrita manuscrita, datilografada ou computadorizada.
Teresa Inácio Neves, no número de
28 de maio, com a sua lucidez de escrita de fino traço, fala-nos de um eventual
tio que garantia, no seu tempo (dele), que a vida era uma epopeia nas
dificuldades que atravessavam, caminhando vários quilómetros a pé para a escola
e para o trabalho.
Considerados uma geração mimada e
privilegiada, somos, dizem eles, mais complexos, mas a verdade é que agora
carregamos outros fardos que, na altura, nem sequer tinham nome.
Ser adulto no século XXI é, como
refere Teresa Neves, se bem entendi, pertencer a uma daquelas gerações híbridas
– a geração “ponte”. Se é um facto que crescemos sem telemóveis e com a
tecnologia a entrar nas nossas vidas a conta-gotas, leva-me aos tempos
nostálgicos em que cada inovação era algo quase sobrenatural e ainda não
tínhamos chegado à inteligência artificial.
Toda a narrativa de Teresa Inácio
Neves é uma lição de memórias para os dias de hoje.
Já os “Meninos de Ontem”, de
António Rebordão, habituou-nos a uma realidade que vai acontecendo por este
mundo de ingratos, no mesmo número, a que já aludi deste semanário, e onde
refere “O que era a vida há 75 anos – Relatos Verídicos”.
Também eu nasci numa situação de
fortes dificuldades económicas, no ano de 1946, quando não havia água corrente,
eletricidade nem gás. O saneamento era também inexistente. Faziam-se os
despejos para uma estrumeira que depois servia para fertilizar as pequenas
hortas e quintas existentes. Éramos seis irmãos.
À água iam as mulheres à mina, de
cântaro à cabeça. No regresso, ficava junto a uma cantareira, de onde se tirava
a água para beber e para a cozinha, com um copo de alumínio.
As louças eram esfregadas com
sabão macaco ou rosa, sendo que o chão, em madeira de pinho, quando necessário,
era esfregado com sabão amarelo.
Os cães, gatos e aves de capoeira
andavam livremente na rua, enquanto os coelhos se recolhiam nas coelheiras e os
suínos nos currais, alimentados com viandas adicionadas de farelos. No ar,
sobrevoavam-nos os pombos e pombas que, mal viam deitar-lhes o milho, não
receavam vir até junto de nós.
Matar uma galinha ou um coelho só
acontecia em dias de festa ou quando alguma visita, geralmente familiares, nos
fazia uma surpresa.
Nós comíamos pão de segunda, por
sermos muitos. Quando a avó saía da fábrica, juntava as filhas e os netos para
tomar o chá, com aquele pão de quartos ou regueifa da D. Celeste, juntamente
com queijo queimoso.
Meu pai, para além de trabalhar
na antiga Biblioteca Municipal, ao jardim, entrando às 16 horas e saindo às 23,
jantava o farnel que trazia de casa. À noite, fosse verão ou inverno, com vento
ou chuva, lá ia carregado, a pé, até à Pousadinha, sem luz, pelos caminhos de
terra batida, a partir do Lameirão. Só quando algum carro passava por nós, vindo
da Aldeia do Carvalho, nos encandeava com as luzes no máximo, tínhamos alguns
momentos sem escuridão.
Nasci na Pousadinha, em casa, com
a ajuda da “parteira caseira”, D. Lucinda. Minha avó e a Senhora Maria, mãe de
uma das minhas tias, aquando da parição, vinham para ajudar a tratar da
pequenada.
A minha irmã Rita Fátima e eu
éramos os mais velhos. Começaram a surgir os primos. O João Manuel, filho do
tio Manuel e da tia Albertina, faleceu ainda bebé. O mesmo destino levou a
Carolina Fátima, filha dos meus tios António e Irene.
Era hábito, no dia do funeral, os
familiares do falecido, fazerem uma fila na rua, a partir da porta onde se
encontrava o féretro, porque não cabiam em casa, recebendo os sentidos pêsames.
Assim aconteceu com o meu avô João de Brito e também com aqueles pequenos
primos.
O meu irmão António, ainda adolescente,
criava-me problemas ao ficar junto de mim porquanto levava o assunto para a
risada, em pleno momento de luto:
– Olha o nariz daquele!
– Olha aquele manco!
Mas a fisionomia daquele que
surgia a estender a mão sem a ponta dos dedos não permitiu que a risada fosse
contida. O António, meu irmão, mais não fez do que se agachar, simulando que
estava a atar os atacadores dos sapatos. Mesmo assim, faziam-lhe sinal para se
levantar.
Fiz com o meu pai a primeira
classe. Assim como me preparou para a Primeira Comunhão, na Aldeia do Carvalho,
com o Padre Pita, que tinha uma mota.
Também alguns adultos que
pretendiam aproveitar o programa da Campanha Nacional de Educação de Adultos,
para completarem a 4ª. classe, combinavam com o meu pai, conhecido professor
Martins, na Pousadinha, um tempinho de manhã até às 15 horas, altura em que se
deslocava a pé para a biblioteca.
Passámos a residir na Covilhã.
Foi então que deixámos de calcorrear aqueles quilómetros, de verão ou de
inverno, depois de o meu pai terminar o horário de trabalho na Biblioteca
Municipal, ao jardim, às 23 horas.
Depois de acabar os estudos na
Escola Industrial e Comercial Campos Melo, tive o meu primeiro emprego na
Câmara Municipal da Covilhã. Concorri ao pessoal maior vitalício e fui chamado
para o serviço militar obrigatório.
Depois de ter terminado o Curso
de Sargentos Milicianos, tive a sorte de não ser chamado para a Guerra do
Ultramar, onde o meu irmão não teve a mesma sorte, pois foi para a Guiné.
Procurei novos rumos de vida. Depois de ter concorrido para o BNU e de ter
ficado aprovado com boa classificação, optei por passar a ser emigrante no meu
próprio país. Assim aconteceu o tempo que vivi no Soito, do concelho do
Sabugal. Deixei o salto para a Companhia Europeia de Seguros e, daqui, mais
tarde, passei a trabalhar de conta própria.
Eram os tempos em que ainda não
havia telemóveis. Muitas vezes, quando regressava de reuniões de trabalho em
Lisboa, ainda sem ter sido construída a A23, e se passava pelas antigas
estradas que iam dar ao cruzamento de Coruche, seguindo depois para Mora, Couço,
Infantado, Ponte de Sor, Gavião e Arez, apressava a viagem para chegar ao
início das curvas de Nisa para Vila Velha de Ródão, na esperança de ainda
encontrar, já alta noite, um café ou uma taberna abertos onde houvesse uma
cabine telefónica que me permitisse fazer uma chamada interurbana.
– Vem devagar! Eu não me deito enquanto não
chegares!
Depois de passar por tormentas,
por vezes com superiores que não olhavam a meios para atingir os seus fins,
dediquei-me totalmente à escrita pro bono e à solidariedade, até aos dias de
hoje, enquanto as minhas capacidades cognitivas mo permitirem.
Os amigos não pararam de aumentar.
E as recordações de outrora também, mesmo aquelas em que comemos o pão que o
diabo amassou.
Hoje, para além dos nefastos
problemas de saúde que nos afetam enquanto octogenários, somos uma família
feliz.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de
11-06-2026)












