A Implantação da República Portuguesa,
a 5 de outubro de 1910, marcou o início de um período de forte tensão entre o
novo regime republicano e a Igreja Católica. Esse período é frequentemente
descrito como de acentuado anticlericalismo e de conflito entre o poder
político e a religião.Logo após a mudança de regime
foram retomadas antigas leis pombalinas e liberais que proibiram a presença de
congregações religiosas em Portugal. Os Jesuítas foram dos primeiros atingidos,
sendo expulsos do país poucos dias depois da implantação da República, a 10 de
outubro de 1910. Outras ordens religiosas seriam igualmente extintas e os seus
bens confiscados pelo Estado.
Um momento decisivo foi a promulgação da Lei da Separação do Estado das
Igrejas, assinada por Afonso de Costa a 20 de abril de 1911. Esta lei
estabeleceu formalmente a separação entre o Estado e a Igreja, mas incluiu
medidas consideradas hostis pelos meios católicos, como restrições ao culto
público, limitações ao uso de vestes religiosas e interferências na
administração de bens eclesiásticos.
Paralelamente, o novo regime promoveu uma forte política de laicização da
sociedade: o ensino religioso foi retirado das escolas e símbolos religiosos,
como o crucifixo, desapareceram das salas de aula.
Em vários pontos do país registaram-se também episódios de violência
anticlerical, incluindo ataques a edifícios religiosos, destruição de imagens e
restrições a manifestações públicas de fé, como o toque dos sinos.
Muitos republicanos, influenciados pelo positivismo e por correntes laicizantes,
viam a Igreja como um dos pilares da monarquia e um obstáculo à modernização do
país. A hierarquia católica reagiu com firmeza publicando uma pastoral coletiva
contra a legislação de 1911, o que contribuiu para um clima que alguns
contemporâneos designaram como verdadeira “guerra religiosa”.
Este ambiente de conflito apenas começou a atenuar-se durante o governo
de Sidónio Pais, em 1917.
Também na Covilhã se sentiram os efeitos desta nova realidade política.
Em 14 de agosto de 1911, a Comissão Municipal Administrativa dirigiu um pedido
ao Governo para que fosse cedida ao município a Igreja de S. Tiago e a casa
anexa, residência dos Jesuítas. No documento afirmava-se que a cidade,
importante centro industrial então conhecida como “Manchester Portuguesa”,
esperava finalmente ver atendidas as suas necessidades após décadas de
abandono.
O pedido justificava-se com objetivos práticos: instalar nos edifícios serviços
municipais e repartições públicas, evitando pagamento de rendas e dotando a
cidade de instalações condignas.
Anos depois, segundo atas da Câmara Municipal de 30 de junho de 1913, a
Comissão Administrativa tomou posse da igreja paroquial de São Pedro. O
edifício seria posteriormente destinado à demolição, após publicação de editais
convidando eventuais interessados a reclamar lápides funerárias ou a exumação
de ossadas existentes no interior do templo.
Outros documentos da época revelam igualmente o ambiente de suspeição e
vigilância que se vivia. Num ofício de 24 de abril de 1911, a Câmara comunicava
ao Governo informações sobre uma mulher que regressara de Espanha após ter ido
confessar-se e cumprimentar o conhecido Jesuíta Padre Cruz que esteve em S.
Tiago, na Covilhã. O simples facto de transportar pequenas imagens religiosas
levantou suspeitas de que pudessem transportar correspondência clandestina.
Estes episódios ilustram como as grandes transformações políticas
nacionais tiveram reflexos concretos na vida local e no quotidiano das
populações.
Recordo-me ainda de que, anos mais tarde, na antiga casa dos Jesuítas
funcionou o Tribunal Judicial da Covilhã, onde acompanhei meu pai em
algumas ocasiões para tratar de assuntos relacionados com os meus avós
maternos.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum
Covilhã”, de 26-03-2026)






