24 de julho de 2016

A DIMENSÃO DO ANTIGO INTERNACIONAL PORTUGUÊS, VICENTE LUCAS

Este texto foi iniciado no final do encontro entre as seleções do País de Gales e da Bélgica, com a vitória do primeiro, em 1 de julho, ficando assim a conhecer-se o adversário para a Seleção de Portugal, nas meias-finais do Campeonato Europeu de Futebol 2016, a realizar-se em França.
Foi, assim, a 4.ª vez que Portugal chegou às meias-finais (1984, 2000 e 2012 e 2016), sendo certo que no ano 2004 foi vice-campeão europeu, e, neste caso, passou uma 5.ª vez pelas meias-finais.
Mas, o que é certo e verdade é que, depois de muitas críticas, Portugal acabou por vencer o País de Gales por 2-0, passando, pela segunda vez na sua história, à final, desta vez com a França, que, entretanto, derrotara a Alemanha por aquele mesmo resultado.
Chegado o momento decisivo da final, no inolvidável domingo,10 de julho, Portugal acaba mesmo por se sagrar Campeão Europeu de Futebol, ao ganhar à França, em sua própria casa, por 1-0, golo de Éder, pela primeira vez na sua história, ficando assim assinalado este facto numa das páginas de ouro dos anais do desporto português
Sobre a génese deste Campeonato, considerando ter havido muitas oportunidades para a realização de jogos internacionais a nível de seleção, a Europa foi o último continente a desenvolver um campeonato para as suas Federações.
Somente em 1958 se começou a disputar o Campeonato da Europa, inicialmente com a designação de Taça Henri Delaunay, em homenagem ao seu fundador e principal ideólogo da prova. Foi o primeiro presidente da UEFA. Depois passou a designar-se de Taça da Europa das Nações. Em 1968 foi abandonada esta designação para a atual: Campeonato Europeu de Futebol. Inicialmente a prova funcionou de moldes diferentes.
Portugal integrou o Campeonato Europeu, pela primeira vez, em 21 de junho de 1959, com o primeiro jogo na Alemanha Oriental, onde ganhou por 2-0. Neste encontro jogaram dois irmãos: Sebastião da Fonseca Lucas, mais conhecido por Matateu, já falecido; e Vicente Lucas da Fonseca. Os golos de Portugal foram marcados por Matateu e Coluna. No segundo jogo, realizado no nosso país, em 28 de junho, Portugal ganhou à Alemanha Oriental por 3-2.
Vamos dar evidência à figura incontestável de VICENTE LUCAS, de seu nome completo Vicente da Fonseca Lucas, que nasceu em Moçambique em 24-09-1935. Veio para Portugal, envergando a camisola do Clube de Futebol “Os Belenenses”, ombreando com seu irmão, Matateu.
Estreou-se pela Seleção Portuguesa em 3 de junho de 1959, em Lisboa, frente à Escócia (1-0), tendo sido o seu último jogo, no Campeonato do Mundo de Futebol de 1966, em 23 de junho de 1966 (há cinquenta anos), em Liverpool, frente à Coreia do Norte (5-3). A sua posição em campo era a defesa e médio.
Pouco falador, bondoso, Vicente tornou-se numa das figuras mais queridas da história do futebol português. O seu estilo subtil e instintivo marcou uma época, tendo sido um defesa de categoria ímpar, de técnica apuradíssima e impressionante rapidez de movimentos. Na sua capacidade de antecipar os lances e os movimentos do adversário, chegava sempre primeiro às bolas em disputa, tendo alicerçado uma carreira que o Mundo apreciou.
Cinco anos depois de ter assinado pelo Belenenses, Vicente chegou à Seleção Nacional na qual não teve uma presença muito firme. Os confrontos com o Brasil, sobretudo aquela célebre vitória de abril de 1963, em Lisboa (1-0) criaram um facto inesquecível na vida do defesa central português: a forma como soube marcar Pelé, a grande estrela do futebol mundial, permitindo à imprensa rejubilar em manchete: “Vicente meteu Pelé no bolso”. Não admira, portanto, que das suas 20 internacionalizações, Vicente some 6 contra o Brasil.
Com 30 anos, parecia que Vicente iria ter mais 4 ou 5 épocas ao mais alto nível para dar ao seu clube – O Belenenses, e à Seleção Nacional Portuguesa, mas o fatal destino não permitiu que assim acontecesse. Logo no início da época seguinte, no fatídico dia 7 de outubro de 1966, um acidente de viação fez-lhe perder uma das vistas. O infortúnio atingira brutal e precocemente o fim da carreira de Vicente.
Em 22 de janeiro de 1967, uma vénia coletiva varreu o país desportivo, com jogos a decorrerem em 17 campos de norte a sul sob o mesmo denominador, e isto diz tudo sobre a dimensão de Vicente Lucas.
Recordo-me de também o Sporting da Covilhã se ter associado num desses encontros, com o Benfica de Castelo Branco, em Castelo Branco. Foi a justa homenagem ao grande Homem e Desportista, todos se unindo para mitigar o infortúnio de um jogador de eleição.
Recentemente, Vicente Lucas teve um novo irritante adversário. A recente amputação parcial da perna esquerda vai obrigar o antigo defesa/médio que brilhou no Mundial de 1966 “a um processo de recuperação que exige uma dose de empenho tão generosa como aquela que, durante anos a fio, derramou sobre o relvado. É mais um revés num corpo massacrado pelo azar que foi forçado a virar costas ao futebol demasiado cedo”, quando, em outubro desse ano de glória da seleção em Inglaterra, sofreu, como já referi, um acidente de viação que lhe inutilizou um olho.
E, assim terminamos este texto, da “Memória Redonda – Simplesmente Vicente”, como tão bem o interpretou o “Público”, de 6 de março de 2016.
As memórias dos dois irmãos, a jogar no Belenenses, e na Seleção Nacional, são diferentes, na verdade. No campo e fora dele. Matateu, mais imponente e extrovertido. Vicente, mais subtil e discreto. Matateu um predador de área. Vicente uma sombra permanente para os adversários.
É verdade que Vicente Lucas nunca se sagrou campeão nacional, mas conquistou algo bem mais valioso que um troféu: o respeito e a admiração de um povo.

Como Vicente Lucas, também os valorosos atletas que integraram a Seleção de Portugal, neste Campeonato Europeu de Futebol de 2016, são credores do respeito e admiração de todos nós.

(In "O Combatente da Estrela", de julho a setembro de 2016)

TAMBÉM SOMOS UMA CASA DE CULTURA

Chegámos ao verão ansiosamente esperado depois da inexistente primavera ter sido, neste ano da graça de dois mil e dezasseis, um indevido continuar do inverno, quase… Esperemos que tenha sido tão só um virar de página.
Assim, conforme anunciámos no anterior número d’O Combatente da Estrela, e como o atesta a reportagem inserta neste, as Comemorações dos noventa anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes revestiram-se de grande brilhantismo. Mais de duas centenas de pessoas participaram nos diversos atos das Comemorações que se concluíram com o almoço-convívio no Hotel das Penhas da Saúde.
Na sua grande maioria éramos conhecidos, amigos ou antigos companheiros de jornada, quer nos tempos saudosos da escolaridade, das várias atividades profissionais, muitos na indústria laneira, não só na Covilhã, quer por este país fora, e até além-fronteiras; e, como não podia deixar de ser, dos difíceis tempos da obrigatoriedade do serviço militar, em tempo de guerra nas Colónias, designadas na altura de Ultramar.
Diz-se que o tempo cura as feridas, mas a profundidade com que foram sulcadas em muitos casos, jamais desaparecem das mentes de cada um dos envolvidos nesses meandros da incompreensão por que foram tantos jovens lançados às feras. Alguns textos aqui reproduzidos pelos vários Colaboradores são disso testemunho real.
A juventude de hoje, que não se vê envolvida no serviço militar obrigatório, em tempo de paz (não fazia mal nenhum, nesta situação, antes pelo contrário) jamais se aperceberá do que foi a sua antecessora dos anos sessenta e setenta do século passado, ao ser retirada do seio da sua família, para ser enviada para as terras africanas, e não só, na incerteza do seu regresso, volvidos muitos meses, após terminarem os seus tempos de serviço, e poder ainda ser com vida.
Alguns familiares não aguentaram o choque inicial da partida dos seus filhos, como podem verificar no texto, em parte comovente, inserido neste número, na rubrica “Conte-nos a sua história”.
Mas agora, entre a diversidade de casos; uns que regressaram sem problemas de maior, ao invés, outros com deficiências na sua carne, incuráveis, mais ou menos acentuadas; um denominador comum a quase todos abrange com os problemas traumáticos gerados. Que nunca desaparecem. Para isso a Direção Central da Liga dos Combatentes disponibilizou aos Núcleos o acesso a consultas com psicólogas, aos antigos Combatentes e suas famílias, assim como outros apoios.
Para além dos sofredores no terreno militar, daqueles ex-territórios longínquos, ficaram outros (as) sofredores (as), na Terra-Mãe, que também, em muitíssimos casos, ainda estão a suportar na vivência em comum, as doenças das mentes, muitas vezes sem se terem muito bem apercebido da mudança de comportamentos que afetou o agregado familiar.
Será pois nesta compreensão; que é também uma união, uma força, um sentir, e também uma revolta, por que existe esta instituição, abarcando todas as classes sociais, que se irmanam neste grande elo de ligação – a força do dever cumprido – e, agora na tranquilidade do não perigo iminente; que podem encontrar aquele lenitivo, para a recordação das memórias dos tempos de medo, mas, também, no meio daqueles tempos conturbados, o que os seus olhos viram de deslumbramento geográfico, que só a incompreensão dos senhores da guerra, e dos que para ela nos atiraram, mancharam a paisagem com tinta de sangue.
Efetivamente, a história desses famigerados tempos de 1961 a 1974 vieram lançar um enorme e injusto castigo à juventude de então, mas “não houve tempo” de punir justamente os causadores de tanta maldade.
Poderia esta Instituição, que aliás foi criada com base nos Combatentes da Grande Guerra, e depois continuadora com os Combatentes do Ultramar, ser uma como tantas Instituições ou Coletividades que grassam por este Concelho, para já não falar do país, que não passam se não para manter em atividade um simples bar, ou, como agora está em voga, aproveitar um leque de viagens, que também despertam o espírito, e fazer alguns eventos normais ao longo do ano para preencher o espaço duma gerência.
Poderia também ser uma dessas muitas Instituições ou Coletividades em que o aspeto cultural é o de somenos importância, que isso é matéria enfadonha. Para saber as novidades, na mesa de leitura podem lá encontrar os jornais desportivos.
Felizmente que neste Núcleo da Liga dos Combatentes da Covilhã, os meses são preenchidos com várias atividades de vários âmbitos, onde a Cultura tem um papel de primordial importância.
É, pois, também uma Casa de Cultura.
Daí que as equipas diretivas encontram-se verdadeiramente empenhadas no prosseguimento desses objetivos que têm traçado.
Dá gosto assim trabalhar, porque todos os dias são convívios, cada qual ao seu gosto, cada qual à sua maneira, cada qual num fazedor de novos amigos!
É por isso, como sempre tenho dito, que a amizade é uma festa.
Neste contexto, a Direção do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, para além de ter prestado tributo a todos os antigos e atuais dirigentes, em ato simbólico de reunião num almoço-convívio, também se propôs recordá-los através duma brochura, ainda em preparação, para que as memórias de todos quantos passaram pelo dirigismo desta Instituição se perpetuem. Fazendo assim jus à memória de todos quantos ombrearam nas várias tarefas para manter de pé, e neste fervor, uma Instituição que é merecedora do respeito não só do Concelho e Cidade onde se encontra inserida, mas também do país.
O relato que vamos dando conta dos vários eventos, ao longo dos anos que se vão seguindo, assim o atesta.

Este espaço da escrita está cada vez a ficar-me mais reduzido, mas não posso terminar sem referir aqui um Amigo pessoal que precocemente nos deixou, o Dr. Rui Nunes Proença Delgado, que foi um dos fundadores d’O Combatente da Estrela. Um grande historiador sobre a Covilhã, onde deixou excelentes obras sobre a sua história, as quais tive o privilégio de lhas adquirir, todas autografadas. Aliás, eu era sempre um alvo por ele indicado para estar presente na apresentação das mesmas. E conversámos várias vezes sobre os livros e as crónicas.

(In "O Combatente da Estrela", de julho a setembro de 2016)

12 de julho de 2016

A SANÇÃO E O SANSÃO

Vão desaparecendo figuras carismáticas da vida artística portuguesa. O humor também faz parte do lenitivo de que tanto necessitamos nas nossas vidas; cujo pendor não chega aos taciturnos, que também os há. Aqueles que veem sempre o mundo todo do avesso. E que nada contribuem para o melhorar. Mas também há outros macambúzios que não aceitam críticas no vermelhão das suas vergonhas, arremessando as suas culpas para o abstrato, em ferroadas inventivas por falta de inércia a vários níveis. Que nem o momento eufórico do futebol nacional, a nível da Seleção de todos nós, os envolvem patrioticamente.
Mas, como diziam os que entretanto já partiram, Camilo de Oliveira (a semana passada, com 91 anos) e Ivone Silva, na canção “Ai Agostinho, Aí Agostinha”; do programa de humor “Sabadabadu”, que surgiu na RTP1 em 1981; de facto “Este país perdeu o tino. A armar ao fino, a armar ao fino. Este país é um colosso; está tudo grosso, está tudo grosso. Isto é que vai uma crise, isto é que vai uma crise!”.
Sentido de humor bastante atual, com os nossos governantes no palanque a tentarem rumar contra a União Europeia, esta na sua dualidade de injustiça e teimosia, pela pretensão de que sejam aplicadas sanções a Portugal, pelo défice excessivo em 0,2%. Já António Costa havia criticado a troika que impôs quatro anos de austeridade recordando que as instituições europeias não pouparam aplausos ao anterior executivo português, elogiado pelo FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, por ter sido um “bom aluno” e ter executado bem o programa de ajustamento.
E o primeiro-ministro e líder socialista não aceita que os elogios tenham ficado para o anterior Governo, que, “apesar de ter sido um aluno excecional, excedeu em 0,2% (360 milhões de euros) os limites do défice, nem que as instituições europeias, que co executaram o programa de ajustamento, queiram agora aplicar sanções a Portugal”. “Mas qual é a moralidade de quem andou a apoiar esse Governo para agora querer aplicar sanções?” Apontou os muitos sacrifícios que foram exigidos aos portugueses.
E a decisão das sanções que forem tomadas pela UE continuam a ser adiadas, à hora que escrevo esta crónica. Bruxelas hesita em sancionar, ou como encontrar uma sanção, tendo em conta que os Portugueses já não querem ser os Calimeros da Europa. A situação indefinida dos espanhóis também nos pode afetar, embora os problemas sejam deles. E é que agora, nesta talvez impensada fragilidade da UE (a fragmentação pelo menos já foi iniciada pelo Reino Unido), Bruxelas deve agir no sentido de que “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. Por isso, ansiosamente os governantes portugueses aguardam “serenamente” as decisões, como diz António Costa.
Sabemos que na Europa, os comissários, os ministros das Finanças, os líderes políticos e das instituições dividem-se entre os ortodoxos que defendem as penalizações, como inevitáveis; e aqueles que defendem uma maior flexibilidade das regras orçamentais europeias a fim de evitar as sanções. A decisão que for tomada sobre o futuro de Portugal e Espanha terá que nesse compromisso refletir sensibilidades diferentes, agradando a gregos e a troianos.
E querer impor sanções a Portugal e Espanha e não à França, porque “a França é a França”, como referiu Jean-Claude-Juncker, é o exemplo do que é a Europa de hoje, indiferente ao voto nacional, comportando-se de forma diferente conforme o tamanho dos países.
Pela parte que nos toca, foi com enorme alegria que vimos, e sentimos, uma “saudável sanção portuguesa” imposta à França, no domingo, 10 de julho, sagrando-se Portugal, pela primeira vez na história, Campeão Europeu de Futebol!
O Presidente da República destacou a unidade contra as sanções mas os partidos da direita criticam o Governo. Passos Coelho disse que o Governo atirou credibilidade do país “pela janela fora”. E o maior partido da oposição passa culpas de eventuais sanções para o PS. É inacreditável que numa altura em que aplicação de medidas corretivas a Portugal está ao rubro, o PSD venha dizer que, se estivesse no Governo, a história era outra. Mas qual história? A da continuidade do grassar da pobreza? E a antiga ministra das Finanças, Maria Luis Albuquerque, a referir que “Se eu fosse ministra, as sanções não se colocavam”.
Mas que isto de ministro de Finanças também se verificou a leviandade do alemão Wolfgang Schäuble, perdendo mais uma oportunidade de estar calado, pois que numa altura em que os mercados estão nervosos com as ondas de choque do “Brexit”, falou na possibilidade de Portugal ser alvo de um novo resgate, neste anúncio falso e incendiário. Depois, vendo o erro que cometeu, veio corrigir o que anteriormente tinha dito: “Os portugueses não o querem e não vão precisar dele (segundo resgate) se cumprirem as regras europeias”. Onde está a credibilidade deste senhor? E, como de humor já falei atrás, penso que não foi por causa destas palavras de Schäuble que os alemães perderam com a França, nas meias-finais do Campeonato Europeu de Futebol…
Este senhor todo-poderoso alemão faz recordar uma história bíblica – Sansão que liderou durante vinte anos, Israel, no tempo do domínio dos filisteus. Quando Sansão foi a Gaza, Dalila disse a Sansão: “Você me fez de boba; mentiu para mim! Agora conte-me, por favor, como você pode ser amarrado?”. Dalila receberia mil e cem moedas de prata se conseguisse saber donde provinha a força de Sansão.
Ora, será que a “Dadila” portuguesa, ex-ministra das Finanças, paga a peso de ouro e não de prata, pela Arrow, conseguiria saber o segredo da força do “Sansão” Schäuble, ainda que fosse pela quarta vez, que era cortar o cabelo do guerreiro para o enfraquecer? É que as famosas possíveis sanções a Portugal dizem respeito a três anos (2013 a 2015). Neste período Maria Luís Albuquerque foi ministra das Finanças. E por três vezes falhou as metas do défice. E, assim, no quarto ano, faz campanha contra o atual ministro das Finanças.

Aquele Sansão tinha força, mas estas sanções são uma farsa.

(In "fórum Covilhã", de 12-07-2016)

6 de julho de 2016

A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA FOI HÁ 135 ANOS

1 - As viagens de exploração portuguesas a África haviam-se iniciado a 7 de julho de 1877, com o trio Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto. A ideia partiu de Luciano Cordeiro, escritor, historiador, político e geógrafo português que, tendo desempenhado cargos governativos, dois anos antes havia fundado a Sociedade de Geografia de Lisboa (10 de novembro de 1875), com um grupo de 74 subscritores. O seu objetivo: promover e auxiliar o estudo e progresso das ciências geográficas e correlativas. Existia já um movimento europeu de exploração e colonização, direcionado para o continente africano.
Esta Sociedade surgiu tardia, na defesa da posição portuguesa em África, face ao forte surto expansionista europeu, com exploradores de todas as grandes potências europeias, lançados numa verdadeira rivalidade pela prospeção dos territórios.
Na Conferência de Berlim, realizada de 15 de novembro de 1884 a 26 de fevereiro de 1885, com o encontro de líderes europeus (Alemanha, Grã-Bretanha, França, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Estados Unidos, Suécia, Áustria-Hungria e Império Otomano), teve o objetivo de dividir África e definir arbitrariamente fronteiras. Nesta conferência Portugal apresentou um projeto – o célebre Mapa cor-de-rosa – que consistia em ligar Angola a Moçambique. Não obstante todos concordarem com o projeto, os ingleses roeram o acordo com Portugal e marimbaram-se para o Tratado de Windsor, assinado entre a Inglaterra e Portugal, em 1386. Cedemos. Foi o Ultimato Britânico a Portugal.
Oito anos antes os nossos exploradores iniciavam a sua expedição a África, tendo regressado, triunfalmente, em 1 de março de 1880, somente Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens.
2 Entretanto, em agosto de 1881, a Sociedade de Geografia de Lisboa promove e organiza a Expedição Científica à Serra da Estrela, durante quinze dias, com início no dia 1 de agosto, auxiliada pelo Governo e pela Junta Geral do Distrito da Guarda. Integrou esta expedição o médico, Dr. Sousa Martins, cujos esforços desenvolveu no sentido de chamar a atenção dos meios científicos e clínicos de então para as condições que esta região oferecia para o tratamento da tuberculose, que grassava na época. Surgiu assim o Sanatório Sousa Martins, na Guarda, inaugurado pelo Rei D. Carlos e Rainha D. Amélia, em 18 de maio de 1907. Mais tarde surgiu na Serra da Estrela o Sanatório dos Ferroviários, mandado construir pelos Caminhos-de-ferro, para tratamento da tuberculose dos seus funcionários. Demorou oito anos a construir (1928-1936).
Desta expedição resultou a elaboração de relatórios das várias secções científicas. O interesse do Dr. Sousa Martins na realização da expedição prendeu-se com a necessidade de conhecer a meteorologia e as condições sanitárias da região dada a importância então atribuída ao clima no tratamento da tuberculose pulmonar. Assim, em conjunto com Hermenegildo Capelo, que também integrou a expedição, requereu ao Governo a instalação de um posto meteorológico na Serra, e ele lá está, nas Penhas Douradas, desde janeiro de 1882.
De harmonia com o regulamento, “A expedição divide-se nas seguintes secções: a) seções de estudo: de agronomia e silvicultura; de antropologia, de arqueologia, de botânica, de etnografia, de geologia, de hidrografia (estudo das torrentes); de hidrologia mineromedicinal, de medicina, de meteorologia, de zoologia, de zootécnica; b) secções auxiliares: de trabalhos químicos, de trabalhos fotográficos; c) secções de serviço: de serviço médico de socorros aos membros da expedição que deles carecem; de serviço administrativo de secretaria, tesouraria, transportes, correio, rancho, etc.”. Foram 100 os elementos que a constituíram.
Como não é possível, por falta de espaço, enumerar muitos dos interessantes factos que ocorreram nesta expedição à Serra da Estrela, respiguei dos relatórios de algumas das secções, algo de curiosidades no que concerne a vários aspetos, como a aventura, o medo, as lendas, memorização de alguns nomes de sítios por que muitos de nós já passámos, ou ouvimos falar.
Certo é, que na secção de “Medicina – Subsecção de Hidrologia Mineromedicinal” se deu ênfase às águas termais sulfurosas das Caldas de Manteigas e de Unhais da Serra, e as respetivas fontes.
Na secção de “Arqueologia” fez-se evidência às estações pré-históricas (do tipo Citânia e de Sabroso), para, nos monumentos megalíticos, se realçarem as Antas, Sepulturas em rocha, Penedos com gravuras e Antinhas.
Já a secção de “Etnografia” é uma das mais recheadas de conteúdo histórico, na parte inerente às “Lendas da Serra da Estrela na Tradição Escrita”, onde a vida de Viriato é francamente em evidência. São ainda referidas as “Comunicações das lagoas com o mar, fluxo e refluxo, bramidos quando há tempestade”. Depois, nas “Interpretações locativas”, falou-se na origem possível de “Monte Hermínio”, sendo que “uma tradição que chegou aos nossos dias designa a Serra da Estrela o Hermínio Maior; a de Marvão, o Hermínio Menor”.~
E também o Malhão Grande ou Malhão da Estrela, nome dado ao ponto culminante da serra, designação que os pastores da localidade empregam. E cujo local se passou a chamar Torre, depois de colocada uma pirâmide, a qual foi mandada construir em 1806 pelo príncipe regente D. João. As aventuras dos expedicionários: “Se de dia e a distância ninguém observa os Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido, imagine-se o que nós sentiríamos às dez da noite aos vermo-nos presos no cume do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira, eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos! (…) Aqui, onde a natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir infinitamente pequeno. (…) Chegado a este ponto fomos descendo, recomendando-nos o pastor que não olhássemos para os lados por causa da vertigem do abismo e que descêssemos de costas, não deslocando nunca uma mão sem ter a outra firme e segura ao rochedo. Estivemos parados algum tempo sem poder prosseguir nem retroceder. Estávamos suspensos entre a vida e a morte! Causava horror olhar para os lados ou para a frente. Fitámos então a vista nas estrelas para não sentirmos a vertigem do abismo cavado a nossos pés. – Estão salvos, disse-nos o pastor, porque desceram de noite e não viram o precipício”.
Sendo a maior secção, aqui se falou dos Cântaros, Fontes e Lagoas dos Vales do Zêzere e do Alva (Chafariz del-Rei, Lagoa do Paxão, Lagoas dos Cântaros ou das Salgadeiras; Fonte de Paulo Martins; Fonte dos Perus, Lagoa Escura, Lagoa Comprida, Lagoa Redonda, Lagoa Seca, Lagoa das Favas); Rua dos Mercadores, Penhas Douradas, Agulha, Espinhaço de Cão, Covão, Nave, sendo certo que as palavras penedo, penedia, penhasco, rocha, rochedo, penha, etc., vulgarmente empregadas como sinónimos, têm todavia significações diversas, consagradas pelo uso da gente rude, algumas das quais coincidem com as que os respetivos termos são assinaladas na linguagem culta.
Por último, na secção de “Botânica” muita coisa foi dita que seria de grande fastio aqui enumerar, pois foram 716 espécies as mencionadas, com as suas localizações. Só referir que o Cervum, assim se denomina o nardus stricta, que atapeta uma grande parte do terreno dos planaltos; é uma erva muito rasteira e resistente. E também o nosso conhecido zimbro, juniperus communis.
As explorações botânicas na Serra da Estrela já haviam sido efetuadas, por várias vezes, ao longo do século XIX, sendo que a primeira expedição teve lugar em julho de 1798.

(In "Notícias da Covilhã", de 07-07-2016)