31 de outubro de 2012

ESTAMOS FEITOS!

Por mais que não desejemos, não nos livramos do tédio de temas, quase rituais, dos dias de hoje, onde a dona austeridade assentou trono real.
A vassalagem à mesma é de tal forma imposta pelos cavaleiros da triste figura que este povo, que foi e é de homens livres, quase que se sente de escravos, no purgatório dum rectangulozinho do Planeta, à beira-mar plantado. Povo que mais não terá que rebentar as correias férreas que a todos prende.
Mas não são precisas mais revoluções porque o povo, afinal, ele é já a própria revolução!
Então como se compreende que, após aquele “enorme” acontecimento que floriu, de cravos vermelhos, nas vestes dos nossos contentamentos; há quase quatro décadas, libertados de uma outra escravidão, de quase meio século; venha a surgir, entre sonhos e a realidade, um outro “enorme” evento, com o anúncio de sacrifícios e impostos, num cadeado duma configurada escravatura?
Os conhecimentos e as informações que nos chegam, nos dias de hoje, através das várias formas e meios de comunicação, não deixa de nos trazer perplexidades na forma de agir, para muitos; de trabalhar, para vários; na forma de como retaliar, para tantos; e, para outros, como fazer parar.
Agir contra as “enormes” pensões, salários, benesses e outros “direitos adquiridos” duma caterva de figurões: governantes, ex-governantes, banqueiros e ex-banqueiros, e muitos dos bem-falantes das televisões, incluindo jornalistas, que se deviam envergonhar de falar no povo e pelo povo, esse mesmo que ajudaram a amordaçar. Porque não impor um teto salarial, como na Suíça, e converter em impostos o remanescente?
Trabalhar com dignidade e apego sabendo que, na repartição de sacrifícios há, de facto, equidade.
Retaliar contra todos os que usam e abusam de subterfúgios para provocar fugas à justiça, morosidade nos julgamentos, mentiras com sucesso na vida política ou profissional.
Fazer parar esta onda de incompetentes, corruptos e novos-ricos. É assim tão difícil? Não se pára esta avalanche porque todos, ou quase todos, têm telhados de vidro.
E, quando já estão retirados da vida política ou das páginas dos jornais, lá surgem, de quando em vez, nas memórias, de que um dia foram reconhecidos como homens da corrupção encapotada, das fugas à justiça, do safarem-se, vivendo no firmamento.
Nesta pobre democracia, é altura de parar para pensar. No estado a que as coisas chegaram, certamente não irá haver outra oportunidade, ainda que pateticamente o Cardeal Patriarca de Lisboa diga que “não se resolve nada com grandes manifestações nem vindo para a rua a protestar”. Lembre-se, D. José Policarpo, que o Padre Américo, de quem se comemoram 125 anos do seu nascimento, dizia que não é possível pregar o Evangelho a barrigas vazias.
Neste país deprimido e com medo, numa autêntica guerra-fria de bancarrota, porque não levar à justiça, mas duma forma célere, todos quantos não souberam governar e nos trouxeram estas situações mórbidas, e dos inevitáveis sacrifícios, deste jaez? Desde Cavaco Silva, um dos culpados, a Durão Barroso (o fugitivo), Santana Lopes, Sócrates, Passos e Portas, entre outros! E não deixar escapar os turistas da política que, mesmo assim, por aí vagueiam, como é o caso peculiar de Dias Loureiro, para não falar de outros tantos, do domínio público.
Como é possível consentirmos em tanto descaramento? Somos, de facto, um País de brandos costumes, até quando? Sim, porque quando “o melhor povo do mundo” chama “gatuno” ao autor daquelas palavras, talvez seja mesmo melhor pensar duas ou três vezes.
Se seguíssemos o exemplo do General Ramalho Eanes que rejeitou vários privilégios a que tinha direito, certamente este País hoje falaria de outra maneira, mais feliz. E também não é o homem que muitos aplaudiram de “Soares é fixe” que tem méritos de exemplaridade.
Começamos a ser pobres em tudo, mesmo em opções na hora de eleger. Até fomos buscar uma equipa governativa da segunda divisão, treinada por um “mister” dos regionais!... Com um árbitro da troika a mostrar cartões amarelos e encarnados a torto e a direito. Assim, não vamos lá! Depois do “monstro” surgiu o “pântano”, daí um outro estigma – “a tanga”, e, agora “estamos tesos”, entre umas badaladas de “cigarras” e “formigas”. Contra uma equipa europeia para onde foram transferidos homens que ganhavam cá mais que os seus congéneres americanos; e, como reguladores, estiveram como o ceguinho; foi o descalabro bancário, sobejamente conhecido. Lá, numa porção desta Europa, de países do norte contra os do sul, são uns dos maiores da competência financeira. Até onde vamos?!
Precisamos de um “governo de salvação nacional de iniciativa presidencial”.
Mas, uma notícia poderá ser a esperança dos portugueses. O índice de produção do tomate em Portugal, por hectare, é o segundo melhor do Mundo, superado apenas pelo Estado norte-americano da Califórnia. A indústria transformadora de tomate exporta para 42 países e Portugal é, segundo a Associação de Industriais, o quinto maior exportador mundial, num setor que será responsável por 6500 postos de trabalho, diretos e indiretos. É caso para dizer: Senhores dos Governos de Portugal e da União Europeia, nós ainda temos tomates! 
 
(In Notícias da Covilhã, de 31 de Outubro de 2012)

20 de outubro de 2012

VERDADES INSOFISMÁVEIS

Pertenço a um pequeno número de vivos que integrou as fileiras da Conferência de S. Vicente de Paulo, pela mão de meu pai, conjuntamente com um irmão mais novo, na paróquia de S. Pedro da Covilhã, nos finais da década de cinquenta do século passado.
Sairia com a chamada para o serviço militar, então nos finais da década seguinte. Mas as atividades profissionais, o casamento e os filhos, para além de ter ido residir para outro concelho, e as dificuldades próprias duma vida stressante, levaram-me a um longo interregno fora desta vida de grande solidariedade; quiçá de alguma passividade com o mundo de dificuldades do meu próximo. Voltei há uns anos a esta instituição de grandiosíssimo mérito, por influência de confrades amigos, agora na paróquia da Conceição, da cidade da Covilhã; desta vez com minha mulher e por onde também já passou o meu filho e a nora.
O preâmbulo deste meu texto serve tão só para memorizar quão longos têm sido os caminhos das necessidades básicas de muita gente, cada vez mais com o sofrimento a trazer novidades, entre as quais a pobreza envergonhada, e não só, vertentes desta mesma pobreza que outrora não se verificavam.
Não é estranho para ninguém o que escrevo, pois de casos mais inverosímeis está o País cheio, onde, não fossem as ações das instituições privadas de solidariedade, como são as Conferências Vicentinas e o Banco Alimentar, esta Terra de Cristo já pertenceria a um terceiro mundo.
Num verdadeiro humanismo – aquilo que tantas vezes falta aos nossos governantes -  alguns dos Homens e Mulheres da solidariedade lançam-se num verdadeiro “Grito do Ipiranga”, na tentativa de encontrar soluções mínimas para resolver casos graves de saúde e emprego para uma figura que se chama “Ser Humano”, e, para quem escrevo, não é estranho o que, de formas heróicas, muitos se envolvem, pondo em risco a sua própria saúde e a dos seus que o rodeiam.
Dois casos verídicos se passaram, na exemplaridade de muitos outros, de forte vontade em ajudar o seu semelhante, numa das Conferências de S. Vicente de Paulo desta Cidade da Covilhã.
Para que um trabalhador precário se conseguisse deslocar para fora da cidade, na apanha de fruta, um destes homens de boa vontade, durante vários dias se deslocava ao Pelourinho, às cinco horas da manhã, para levar o trabalhador, graciosamente, para o local onde pudesse minimizar as suas frágeis economias familiares.
Outro dos homens de boa vontade, e sua esposa, conhecedores de um reformado, ainda não idoso, que vivia sozinho, abandonado, entregue à sua sorte, conseguiram ir a sua casa dar-lhe as refeições, de conta dos mesmos, o qual, muito fragilizado, já quase não engolia. Levaram-no a consultas hospitalares, no carro do casal, e a uma última na qual foi detetado encontrar-se gravemente doente, doença de morte, que viria a surgir. O homem de boa vontade, triste pelo acontecido a um ser humano mas paradoxalmente ledo pela sua caridade, intrinsecamente sentida, quando se dirige para o seu automóvel, à porta do hospital, toca o telemóvel, com o aviso do interior do hospital para que se dirigisse ao Centro Médico no sentido de ir fazer uma despistagem, pois o doente, que entretanto falecera, estava tuberculoso.
Anda agora este amigo do próximo envolto em preocupações, e seus familiares, até que todos os sintomas sejam debelados.
Destes atos de coragem, de verdadeiro amor e dedicação extrema a quem sofre, no corpo e no espírito, passam ao lado das preocupações dos nossos governantes.
Estes, são muitos dos heróis desconhecidos dos nossos tempos.
 
(In Notícias da Covilhã de 17.10.2012 e no Jornal Olhanense de 15.10.2012)