19 de fevereiro de 2026

A PERSISTÊNCIA DE UM LUTADOR DE CAUSAS


 

Nasci na cidade da Covilhã há já oito décadas. Desde muito cedo convivi com o cheiro do papel, entre jornais e livros, na Biblioteca Municipal. Esse ambiente marcou-me profundamente e permanece até hoje como uma memória viva, quase nostálgica, de um tempo em que a palavra escrita tinha um peso próprio e um ritmo diferente.

Fiz o meu percurso escolar antes do surgimento da Internet, essa revolução que viria a transformar o mundo e, de forma muito particular, a comunicação social. Ao longo da vida, acompanhei essa transformação, participando na publicação de livros e colaborando em vários jornais, alguns entretanto desaparecidos. Sou, como gosto de dizer, apenas um escrevinhador de crónicas e notícias, sobretudo na Beira Interior, mas sempre com uma avidez intacta pela escrita.

Dos muitos periódicos e revistas onde colaborei, ficaram amizades, cumplicidades intelectuais e um profundo respeito pelo jornalismo local, esse espaço onde se preserva a memória, se dá voz às comunidades e se constrói identidade.

Encontra-se atualmente no prelo a minha mais recente obra, “100 Anos do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes”, cuja apresentação está prevista para o próximo dia 23 de maio, sinal de que o trabalho ligado à palavra impressa continua a fazer parte do meu quotidiano.

Vivemos, porém, tempos difíceis para o papel. As novas tecnologias têm contribuído de forma decisiva para a migração da informação para o digital. A isto soma-se a decisão da VASP, empresa responsável pela distribuição de jornais e revistas em Portugal, que pondera abandonar rotas consideradas deficitárias, sobretudo em regiões mais envelhecidas e desertificadas. Esta realidade agrava o sentimento de exclusão de muitos leitores, em particular pessoas idosas, que não se revêm nem se sentem atraídas pelo consumo de informação online.

Trata-se, em muitos casos, de mais um golpe nos territórios esquecidos do Portugal interior e periférico.

É neste contexto que ganha pleno sentido o título desta crónica.

No prestigiado quinzenário O Olhanense, onde tenho a honra de escrever há mais de um quarto de século, encontrei sempre exemplo raro de persistência e dedicação. Ao longo dos seus sessenta e três anos de existência, este jornal nunca falhou com os seus leitores.   Sendo o único periódico da cidade, reúne colaboradores de áreas diversas, onde cabem a poesia, as estórias e a história de Olhão e da sua região.

Por isso mesmo, é confrangedor ouvir, da parte do seu principal dinamizador e diretor, um verdadeiro grito de alerta. A luta diária para manter o jornal vivo é árdua e solitária, E se O Olhanense acabar, dificilmente voltará a erguer-se.

Um jornal bem concebido, de leitura acessível e agradável de folhear, não deve desaparecer. Bastaria, muitas vezes, um gesto simples: a renovação ou adesão a uma assinatura anual. Será excessivo que um serrano venha junto dos algarvios fazer este apelo?

Sou colaborador do jornal, pro bono, como não poderia deixar de ser, mas sou também assinante, sempre com as quotas em dia. Faço-o por convicção.

Estou certo de que, não fosse a persistência desse verdadeiro lutador de causas chamado Mário Proença, o quinzenário já teria desaparecido. A ele se deve um ato de resistência cultural que importa reconhecer e apoiar.

Contribuir para a sobrevivência de O Olhanense é, nos dias que correm, um ato de justiça. Recomendo vivamente a leitura atenta da poesia publicada no último número, da autoria de Cátia Guerreiro, sob o título “Opostos de audição”, exemplo de qualidade que ainda vive nas páginas deste jornal.

Enquanto houver quem resista, o papel continuará a fazer sentido.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-02-2026)

 

14 de fevereiro de 2026

UM SÉCULO DEPOIS, OS MESMOS FANTASMAS


 

Nestes primeiros meses de 2026, vale a pena olhar para trás e revisitar alguns acontecimentos ocorridos há exatamente cem anos. Não por mero exercício de memória histórica, mas porque a História, quando ignorada, tem a inquietante tendência para se repetir.

Se tivéssemos dado ouvidos aos alertas da comunidade científica sobre a forma como estávamos a degradar o planeta e às consequências que daí adviriam, talvez hoje não estivéssemos a viver ciclos sucessivos de catástrofes naturais, nem verões que se transformam, quase inevitavelmente, em épocas de incêndios devastadores. A negligência coletiva cobra sempre um preço – e esse preço está agora à vista de todos.

Assinala-se este ano um século sobre o início do processo que conduziu ao chamado Estado Novo, com a ascensão do professor Oliveira Salazar. O ano de1926 abriu com um golpe militar que instaurou uma ditadura e que, mais tarde, daria origem a um regime autoritário de longa duração, após a I República – nascida em 1910 – ter sido marcada por instabilidade política, económica e social. O resultado foi um regime fechado, repressivo e avesso à liberdade, que só terminaria com o 25 de Abril de 1974.

Portugal não foi caso único. No país vizinho, Espanha, vivia-se também um período conturbado sobe a ditadura de Miguel Primo de Rivera, durante o reinado de Afonso XIII. O crescimento dos nacionalismos regionais, nomeadamente na Catalunha e no País Basco, e a incapacidade de resposta política acabariam por conduzir à Guerra Civil Espanhola e, em 1939, à ascensão de Francisco Franco. Instalava-se mais uma ditadura, que, à semelhança da portuguesa, se prolongaria por décadas.

Em Itália, Benito Mussolini consolidava o fascismo após a Marcha sobre Roma, em 1922, iniciando um regime autoritário com a complacência da monarquia. O fascismo italiano viria a servir de inspiração a outros regimes, num tempo em que a força se sobrepunha ao direito e a propaganda substituía o pensamento crítico.

Mussolini sonhava com a criação de um novo Império Romano, uma ambição que não é estranha a alguns líderes atuais, obcecados com grandezas passadas e expansões territoriais. O alinhamento com a Alemanha de Adolf Hitler selou destinos. A Alemanha esmagada pelas indemnizações da I Guerra Mundial, vivia mergulhada na hiperinflação, miséria e instabilidade social. Foi nesse terreno fértil de desespero e ressentimento que o Partido Nacional-Socialista cresceu, conduzindo o mundo a uma nova guerra global.

A França, por sua vez, ocupava a região do Ruhr, rica em carvão – a principal fonte de energia da época – tentando forçar o pagamento das reparações de guerra. Também aqui se demonstrou como a humilhação económica raramente gera estabilidade política.

Os Estados Unidos da América emergiam como potência dominante. A crise bolsistas de 1929 revelou, porém, os perigos da especulação descontrolada e da ilusão de prosperidade infinita. O colapso financeiro teve efeitos devastadores a nível mundial com falências, desemprego em massa e profundas fraturas sociais. Paradoxalmente, essa mesma capacidade produtiva viria depois a ser determinante na II Guerra Mundial e na reconstrução da Europa, através do Plano Marshall, consolidando os EUA como principal potência económica global.

 

Transportar os ensinamentos de há 100 anos para o presente não exige grande esforço. Mudam-se as fontes de energia, os discursos e os protagonistas, mas repetem-se os padrões: ambições expansionistas, fragilidade das instituições, ausência de lideranças responsáveis, corrida ao armamento e o enfraquecimento do multilateralismo.

Um século depois, ao entrarmos em 2026, regressam velhos receios: o avanço de regimes autoritários, a imposição de modelos económicos que limitam o livre comércio, o recurso a tarifas aduaneiras como arma política e as crescente ameaças à liberdade de escolha das sociedades. Ignorar estes sinais seria, mais uma vez, um erro histórico – e sabemos bem como esses erros costumam terminar.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-02-2026)

 

4 de fevereiro de 2026

OS TONHOS

 

OS TONHOS

O nosso Pelourinho de hoje – como o povo ainda lhe chama – já não é o mesmo de outros tempos. Está diferente. Tudo mudou. Resta saber se para melhor ou para pior.

Há factos que, pelo seu tipismo citadino, ficam na memória coletiva e se transmitem de geração em geração. Este é um deles.

Já não existe o coreto. Os quiosques modernizaram-se, como o Quiosque do Jardim. A Fonte das Três Bicas esteve durante muito tempo votada ao esquecimento, mas hoje encontra-se em local de boa visibilidade. Durante anos contrastou com outras fontes da cidade, marcadas pela tabuleta amaldiçoada: “Água imprópria para beber”.

Existia também o Arco da Cadeia, que era a porta da cidade. Eram outros tempos, em que a modernidade estava a léguas de distância.

Mas havia, sobretudo, os bancos do Pelourinho. Uns bancos que o tempo levou, onde certas pessoas repousavam as fadigas, conversavam ou marcavam encontros.

Era o caso dos “Tonhos do Pelourinho”, como o povo lhes chamava. Quem eram eles, na realidade?

Gente muito humilde, frequentemente desempregada, que se sentava pacientemente à espera de que alguma boa alma precisasse dos seus serviços. Assim angariavam algum dinheiro para o sustento próprio e das famílias.  

Havia entre eles um princípio sagrado: o “mata-bicho da manhã”. O primeiro dinheiro ganho por qualquer um revertia a favor de todos, para pagar o pequeno-almoço coletivo. Um verdadeiro humanismo social, cumprido religiosamente.

Entre os Tonhos sobressaía um: homem entroncado, que andava quase sempre descalço e possuía um rosto de traços macacados. Chamavam-lhe Nico. Embora bebesse um pouco, era, por natureza, um homem bom. Dizia-se até que descendia de antigos judeus da cidade. Morava na antiga Rua de São Paulo, numa casa que já não existe – hoje Rua Comendador Mendes Veiga, n.º 11.

Um vizinho, Fernando da Cruz, abastado comerciante de fazendas, tinha grande afeição por Nico, e dava-lhe roupa usada. Um dia ofereceu-lhe um fraque e umas calças às riscas, muito em uso na época. Também lhe davam sapatos, mas ele nunca os usava. Com sol, chuva ou neve, só descalço se sentia bem. Agradecia tudo, mas calçado não. Vestia as calças às riscas, envergava o fraque e lá ia, descalço, para os bancos do Pelourinho. Por onde passava, surgiam risadas, de que pouco se importava. Ingrato ou soberbo, nunca foi.

O povo passou então a chamá-lo Tonho Nico, ou simplesmente, Tonhico, figura central dos Tonhos do Pelourinho.

Em 1919 foi levada à cena, na Covilhã, a revista: No País da Guedelha, de Mário Quintela.  Foi grande êxito. Um dos atores, Jerónimo Monteiro Ranito, representou o pobre Nico: descalço, de calças às riscas e fraque. No seu desempenho cantava o Fado dos Bancos do Pelourinho, com poema de João Figueiredo e música de António Rodrigues Gomes – o fado da vida do próprio Nico, que toda a cidade decorou e cantou. O refrão dizia:

 

“Bancos antigos, amigos certos,

P’ros desgraçados, para os mendigos,

Sempre de braços abertos!

Ai!...

Lembra a minha alma vosso carinho.

Ai!... que saudades da vossa calma,

Ó bancos do Pelourinho!...”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-02-2026)