OS TONHOS
O nosso Pelourinho de hoje – como o povo ainda lhe chama – já não é o
mesmo de outros tempos. Está diferente. Tudo mudou. Resta saber se para melhor
ou para pior.
Há factos que, pelo seu tipismo citadino, ficam na memória coletiva e se
transmitem de geração em geração. Este é um deles.
Já não existe o coreto. Os quiosques modernizaram-se, como o Quiosque do
Jardim. A Fonte das Três Bicas esteve durante muito tempo votada ao
esquecimento, mas hoje encontra-se em local de boa visibilidade. Durante anos
contrastou com outras fontes da cidade, marcadas pela tabuleta amaldiçoada:
“Água imprópria para beber”.
Existia também o Arco da Cadeia, que era a porta da cidade. Eram outros
tempos, em que a modernidade estava a léguas de distância.
Mas havia, sobretudo, os bancos do Pelourinho. Uns bancos que o tempo
levou, onde certas pessoas repousavam as fadigas, conversavam ou marcavam
encontros.
Era o caso dos “Tonhos do
Pelourinho”, como o povo lhes
chamava. Quem eram eles, na realidade?
Gente muito humilde, frequentemente desempregada, que se sentava
pacientemente à espera de que alguma boa alma precisasse dos seus serviços.
Assim angariavam algum dinheiro para o sustento próprio e das famílias.
Havia entre eles um princípio sagrado: o “mata-bicho da manhã”. O
primeiro dinheiro ganho por qualquer um revertia a favor de todos, para pagar o
pequeno-almoço coletivo. Um verdadeiro humanismo social, cumprido
religiosamente.
Entre os Tonhos sobressaía um: homem entroncado, que andava quase sempre descalço
e possuía um rosto de traços macacados. Chamavam-lhe Nico. Embora bebesse um
pouco, era, por natureza, um homem bom. Dizia-se até que descendia de antigos
judeus da cidade. Morava na antiga Rua de São Paulo, numa casa que já não
existe – hoje Rua Comendador Mendes Veiga, n.º 11.
Um vizinho, Fernando da Cruz, abastado comerciante de fazendas, tinha
grande afeição por Nico, e dava-lhe roupa usada. Um dia ofereceu-lhe um fraque e
umas calças às riscas, muito em uso na época. Também lhe davam sapatos, mas ele
nunca os usava. Com sol, chuva ou neve, só descalço se sentia bem. Agradecia
tudo, mas calçado não. Vestia as calças às riscas, envergava o fraque e lá ia, descalço,
para os bancos do Pelourinho. Por onde passava, surgiam risadas, de que pouco
se importava. Ingrato ou soberbo, nunca foi.
O povo passou então a chamá-lo Tonho Nico, ou
simplesmente, Tonhico, figura central dos Tonhos do Pelourinho.
Em 1919 foi levada à cena, na Covilhã, a revista: No País da Guedelha,
de Mário Quintela. Foi grande êxito. Um
dos atores, Jerónimo Monteiro Ranito, representou o pobre Nico: descalço, de calças
às riscas e fraque. No seu desempenho cantava o Fado dos Bancos do
Pelourinho, com poema de João
Figueiredo e música de António Rodrigues Gomes – o fado da vida do próprio
Nico, que toda a cidade decorou e cantou. O refrão dizia:
“Bancos antigos, amigos certos,
P’ros desgraçados, para os mendigos,
Sempre de braços abertos!
Ai!...
Lembra a minha alma vosso carinho.
Ai!... que saudades da vossa calma,
Ó bancos do Pelourinho!...”
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”,
de 01-02-2026)

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