10 de novembro de 2015

QUIMERA APOCALÍTICA

Na altura em que escrevo esta crónica o País aguarda o desenrolar dos acontecimentos que presumivelmente irão resultar nos únicos onze dias de poder na administração do governo então empossado.
Uma considerável parte das gentes portuguesas pretende agora outro cambiante para dar forma diferente ao colorido do retângulo português: de Melgaço ao Funchal; de Seia a Rabo de Boi; ou de Miranda do Douro à Lage das Flores. Quer fugir daqueles tons escuros, pouco cinzentos, representados na tez daqueles que procuraram outro florir em terras da estranja. Foi assim que deu azo à diminuição da população portuguesa, pelo quinto ano consecutivo. Portugal é ainda o 12.º país do mundo com mais emigração, para além de ser a sexta população mais envelhecida do planeta.
E foram o “S. Pedro e o S. Paulo” do anterior famigerado governo que ainda deram uma mãozinha para que não houvesse na Europa outro país com mais emigrantes do que Portugal.
E para também continuarmos na vanguarda das necessidades, aí está Portugal com mais pobres do que em 1974.
Muito provável pouco tempo para um período governativo, sendo o pessoal da tenda constrangido a sair do seu conforto, naquele travo amargo de um Governo a prazo, do qual não rezará a História, já que o sistema político irá mudar o seu funcionamento e, talvez, algumas páginas da História possam registar tão só esta alteração.
Já não há interjeições que possam exprimir algum sentido de respeitabilidade pelo homem de Boliqueime, porque não dá para acreditar o que o representante máximo deste pedaço planetário mais ocidental da Europa está sendo de provocação. Se levarmos Cavaco a sério estamos a ir de encontro a uma crise constitucional prolongada. Ele ainda pensa como no tempo da Guerra Fria. A Maria que trate dele.
As tomadas de posição de Cavaco Silva – o Presidente da República para alguns portugueses –são monstruosas, aquando da indigitação de Passos Coelho como primeiro-ministro, aqui como ato perfeitamente normal; são também paradoxais face ao seu então discurso de tomada de posse, em que seria “o presidente de todos os portugueses”. De quais? Os do seu partido? São ainda de uma incoerência atroz, ele que dizia que “sabe o que faz e nunca se engana”. Efetivamente, afirmar que não se deveria aceitar que o BE e o PCP/PEV tenham uma participação plena nos governos de Portugal revela uma autêntica falta de cultura política e democrática.
É certo e verdade que aqueles partidos de esquerda, durante a campanha eleitoral privilegiaram como bombo da festa os socialistas, mas também haja a memória das decisões irrevogáveis, que se transformaram numa farsa de oportunismo, passando-se uma esponja sob a palavra dada de um mentiroso, que era conhecido pelo Paulinho das feiras. Mas Cavaco incitar os deputados socialistas à desobediência assenta no pressuposto que sonha com uma situação apocalítica.
Portugal pode mudar dentro de dias, e se tal funcionar bem, inaugurará uma nova era.
Mas voltando a Cavaco, aquele que prezava acima de tudo a estabilidade e as soluções de governo com apoio maioritário, agora já parece tomar como opção governos de minoria. Pois é, o importante mesmo é que o seu partido esteja presente. Total incoerência.
O homem que deveria dar o exemplo e foi um dos causadores “do estado a que isto chegou” faz gerar um alarmismo despropositado sobre a formação de um novo Governo de esquerda, apresentando essa decisão como aquela que nos pode conduzir ao fim dos tempos. E a agressividade com que a direita enfrenta qualquer desafio à sua dominação, leva a ferir a democracia. Esperemos que o caricato não surja nos ministros então empossados, ainda que por onze dias, telefonando para os seus familiares, como surgiu em 1987 com o famigerado Dias Loureiro, dizendo: “Pai, já sou ministro!”.
O discurso de Cavaco, lido no dia 22 de outubro, foi a afirmação de um verdadeiro golpe de Estado, tornando-se assim o pirómano, aquele que já era conhecido por atear fogos de instabilidade no país. Figuras importantes da vida política do País, e não só, consideraram “excessivas” as palavras de Cavaco na comunicação que fez ao país; outros que “foi o pior discurso de um Presidente da República desde 1974”; que não se “lembram, depois do PREC, de uma crise tão profunda e tão angustiante como esta que hoje vivemos”.
Pois é, o Sr. Silva, como uma vez um madeirense do seu partido lhe chamou, em demanda com ele, abriu precedentes com o gerar deste conflito mostrando como a comunicação do presidente, que deveria ser de todos os portugueses, está no limite do abuso e da usurpação de poderes.
Reconhecendo-se embora que o provável futuro governo de esquerda que se prepara para subir ao poder no dia 10 de novembro, é de poucas oportunidades e de muitos perigos, há que ter fé e esperança na mudança, já que o Presidente da República que muitos desejam vê-lo partir, não pode impor as suas convicções à soberania popular. Há que acreditar que o apocalipse vislumbrado por Cavaco não passou de uma indisposição como já lhe acontecera em público. Também é certo que, na falta de medicação atempada, tal indisposição só lhe passará quando outro o substituir. Que o tempo passe depressa!


(In "fórum Covilhã", de 10.11.2015)

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