18 de março de 2026

A PRIMEIRA VIAGEM DE COMBOIO EM PORTUGAL


 

Foi muito atribulada a inauguração da via-férrea em Portugal, nesse já distante ano de 1856.

As senhoras usavam enormes decotes que lhes deixavam os ombros nus, saias de balão e totós no cabelo; os cavalheiros iam de casaca justa, calças de fantasia e cartola muito alta. Mas o dia da inauguração do transporte ferroviário em Portugal – esse romântico 28 de outubro de 1856 – ficou marcado por alguns percalços.

O troço pioneiro unia Lisboa (Santa Apolónia, então também chamada estação do Cais dos Soldados) ao Carregado. A locomotiva da composição festiva, que levava o rei D. Pedro V a bordo, avariou-se. No regresso do Carregado foram sendo deixadas carruagens de convidados pelo caminho, porque a máquina, adquirida em segunda mão, não tinha potência suficiente para as rebocar.

 À noite, andavam ainda lacaios pela linha, com archotes, à procura dos “náufragos” do progresso. As damas, tentando soerguer um pouco as saias com as mãos níveas, jamais esqueceriam o pesadelo.

Os inimigos do novo meio de transporte – e eram muitos, alguns deles insuspeitos, como Almeida Garrett – riam às gargalhadas. Mas ninguém podia negar a evidência: pretendia-se, dentro de pouco tempo, unir Lisboa ao Porto em cerca de 12 horas, quando, num tempo que não havia estradas dignas desse nome, uma viagem entre as duas principais cidades do país demorava cinco dias em liteira e um dia e meio na mala-posta, o nome correntemente dado à diligência.

Além disso, os assaltos levados a cabo por bandoleiros eram frequentes, razão pela qual muitas pessoas preferiam viajar de barco ao longo da costa.

Não obstante os azares inaugurais, o novo meio de transporte tornou-se, em breve, uma realidade de indiscutível valor económico e social, tanto em Portugal como no mundo, facilitando a deslocação de pessoas e bens e tornando a vida mais prática.

Portugal, como seria de prever, não foi dos primeiros países a dispor de comboio. O pioneiro foi a Inglaterra, onde as locomotivas começaram a apitar em 1825.

Escutemos agora algumas reações de figuras conhecidas à “revolução do comboio”.

Almeida Garrett, progressista em política, não entendeu bem o alcance do novo meio de transporte e, nas Viagens da Minha Terra, escreve: “Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal! Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode”.

Já Alexandre Herculano conseguiu ver para lá do imediato, ao considerar que a máquina a vapor é “um dom do céu, um instrumento do progresso legítimo (…) como o foram o arado, o navio, a imprensa”.

Pinheiro Chagas, por seu lado, constatou que “dantes o ronceiro ónibus ou a pacata diligência anunciavam que partiam às oito horas e partiam sempre às nove”, ao passo que “a locomotiva parte sempre à hora anunciada”.

Quanto a Ramalho Ortigão, reconheceu que a “locomotora” é uma “grande imagem do progresso, inquieta, ansiosa, arquejante como ele”.

Do que não restam dúvidas é que há uma História antes do comboio e outra depois do advento.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-03-2026)

 

Sem comentários: