4 de março de 2026

MILAGRE DE TANCOS



 

Chamou-se “milagre” à preparação, em 1916, de camponeses maioritariamente analfabetos para a luta na guerra das trincheiras. Mas os taumaturgos deixaram muito a desejar.

Nada tem de sobrenatural, e se alguma graça o envolve é a involuntária ironia da designação.

A Alemanha tinha declarado guerra a Portugal em 9 de março de 1916. A decisão de Berlim não constituiu surpresa significativa, pois Portugal tudo fizera para que isso acontecesse, a começar pela “requisição” de todos os navios germânicos que se encontravam em portos nacionais – e eram mais de 70 os que, surpreendidos pela eclosão da guerra, aqui se tinham acolhido. O hastear da bandeira verde-rubra nesses navios fora “sugerido” pela Inglaterra, num memorando. Estes barcos, colocados ao serviço da causa dos Aliados (Inglaterra, França e Rússia) contra os Impérios Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia otomana) serviam de moeda de troca entre Lisboa e Londres, que reafirmava o compromisso de defender as nossas colónias das ambições germânicas.

Mas se Portugal já combatia em Angola e Moçambique contra forças provenientes das colónias alemãs vizinhas, a passagem ao estatuto de país beligerante não subentendia necessariamente que soldados nossos fossem combater numa das frentes principais da guerra. Os próprios aliados britânicos não estavam inicialmente interessados no envio de tropas portuguesas para a frente europeia, preferindo que Portugal se limitasse a não assumir neutralidade formal. No entanto, os soldados portugueses seguiriam mesmo para a frente ocidental, por decisão do Governo de Afonso Costa, logo sucedido por um Executivo multipartidário, chamado de “União Sagrada”. A República fora implantada poucos antes, em 1910. As novas autoridades, ainda numa relativa penumbra internacional, precisavam de um grande palco que lhes desse visibilidade. Adicionalmente, o provável triunfo dos Aliados colocaria o País entre os vencedores, com direito a assento na mesa das conversações de paz; ou seja, estava garantida a manutenção da posse das colónias.

Começaram então a ser mobilizados jovens camponeses de todo o País, na maioria analfabetos e sem outros horizontes para além dos que abrangia a vista da sua aldeia. Desconheciam os motivos pelos quais iriam combater. Transformar em soldados esses homens alheados da política internacional foi o que se chamou “milagre de Tancos”, numa referência ao campo de exercícios militares na zona de Abrantes para onde convergiram. Mas… terá o “milagre” merecido o nome que lhe deram?

Quando, em janeiro de 1917, os primeiros dos nossos desembarcaram em Brest, para daí seguirem de comboio até ao front, verificaram que a guerra para que tinham sido instruídos nada tinha que ver com a guerra em que iam combater. Os Ingleses descobriram com espanto que os seus aliados meridionais nunca tinham visto uma metralhadora Lewis, a arma que mais iriam usar nas trincheiras, e que as grandes peças de artilharia também lhes eram desconhecidas. Foi por isso necessário dar-lhes novamente instrução, em terras francesas.

O mito do “milagre de Tancos” cairia por terra na dramática madrugada de 9 de abril de 1918, quando o Corpo Expedicionário Português foi destroçado em La Lys. Os motins surgidos entre as tropas, fruto de impreparação técnica, injustiças sociais e falta de esclarecimento político, prenunciavam já a tragédia.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que alterou o mapa da Europa e o Médio Oriente, opôs o chamado Triplo Entendimento (Inglaterra, França, Rússia czarista e seus aliados) aos Impérios Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia) e terminou com a vitória dos primeiros. Até 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, ficou conhecida simplesmente como Grande Guerra.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-03-2026)

 

 

 

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