Chamou-se “milagre” à preparação,
em 1916, de camponeses maioritariamente analfabetos para a luta na guerra das
trincheiras. Mas os taumaturgos deixaram muito a desejar.
Nada tem de sobrenatural, e se
alguma graça o envolve é a involuntária ironia da designação.
A Alemanha tinha declarado guerra
a Portugal em 9 de março de 1916. A decisão de Berlim não constituiu surpresa
significativa, pois Portugal tudo fizera para que isso acontecesse, a começar
pela “requisição” de todos os navios germânicos que se encontravam em portos
nacionais – e eram mais de 70 os que, surpreendidos pela eclosão da guerra,
aqui se tinham acolhido. O hastear da bandeira verde-rubra nesses navios fora “sugerido”
pela Inglaterra, num memorando. Estes barcos, colocados ao serviço da causa dos
Aliados (Inglaterra, França e Rússia) contra os Impérios Centrais (Alemanha,
Áustria-Hungria e Turquia otomana) serviam de moeda de troca entre Lisboa e
Londres, que reafirmava o compromisso de defender as nossas colónias das ambições
germânicas.
Mas se Portugal já combatia em
Angola e Moçambique contra forças provenientes das colónias alemãs vizinhas, a
passagem ao estatuto de país beligerante não subentendia necessariamente que
soldados nossos fossem combater numa das frentes principais da guerra. Os
próprios aliados britânicos não estavam inicialmente interessados no envio de
tropas portuguesas para a frente europeia, preferindo que Portugal se limitasse
a não assumir neutralidade formal. No entanto, os soldados portugueses seguiriam
mesmo para a frente ocidental, por decisão do Governo de Afonso Costa, logo
sucedido por um Executivo multipartidário, chamado de “União Sagrada”. A
República fora implantada poucos antes, em 1910. As novas autoridades, ainda
numa relativa penumbra internacional, precisavam de um grande palco que lhes
desse visibilidade. Adicionalmente, o provável triunfo dos Aliados colocaria o
País entre os vencedores, com direito a assento na mesa das conversações de
paz; ou seja, estava garantida a manutenção da posse das colónias.
Começaram então a ser mobilizados
jovens camponeses de todo o País, na maioria analfabetos e sem outros
horizontes para além dos que abrangia a vista da sua aldeia. Desconheciam os
motivos pelos quais iriam combater. Transformar em soldados esses homens
alheados da política internacional foi o que se chamou “milagre de Tancos”,
numa referência ao campo de exercícios militares na zona de Abrantes para onde
convergiram. Mas… terá o “milagre” merecido o nome que lhe deram?
Quando, em janeiro de 1917, os
primeiros dos nossos desembarcaram em Brest, para daí seguirem de comboio até
ao front, verificaram que a guerra para que tinham sido instruídos nada
tinha que ver com a guerra em que iam combater. Os Ingleses descobriram com
espanto que os seus aliados meridionais nunca tinham visto uma metralhadora Lewis,
a arma que mais iriam usar nas trincheiras, e que as grandes peças de
artilharia também lhes eram desconhecidas. Foi por isso necessário dar-lhes
novamente instrução, em terras francesas.
O mito do “milagre de Tancos”
cairia por terra na dramática madrugada de 9 de abril de 1918, quando o Corpo
Expedicionário Português foi destroçado em La Lys. Os motins surgidos entre as
tropas, fruto de impreparação técnica, injustiças sociais e falta de
esclarecimento político, prenunciavam já a tragédia.
A Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), que alterou o mapa da Europa e o Médio Oriente, opôs o chamado Triplo
Entendimento (Inglaterra, França, Rússia czarista e seus aliados) aos Impérios
Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia) e terminou com a vitória dos
primeiros. Até 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, ficou conhecida
simplesmente como Grande Guerra.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”,
de 01-03-2026)


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