21 de abril de 2026

O CIRCO ITINERANTE



 Porquanto já escrevi algumas vezes sobre o período que estamos a viver – a Páscoa –, tanto em jornais como em livros, e considerando que, quando os leitores lerem esta crónica, esse tempo já terá passado, resolvi mudar de assunto, ainda que apenas ocasionalmente – ou talvez não.

Isto porque, durante uma caminhada pelo denominado Complexo Desportivo da Covilhã – que, na verdade, pouco tem de complexo desportivo, face à sua degradação – surgiu-me a ideia de falar sobre o circo itinerante, ao observar a montagem do Circo Arena, com os seus enormes camiões.

Houve uma época (sobretudo até aos anos 80/90) em que os circos itinerantes eram presença quase garantida nas vilas e cidades, especialmente na primavera e no verão.

Recordo-me de, em miúdo, ver na Covilhã o Circo Arraiola Paramés, o Circo Mexicano, o Circo Alegria, entre outros que a memória já não retém. Os circos ambulantes continuam a existir, inclusive em Portugal. Numa breve pesquisa, constata-se que há várias companhias que percorrem o país ao longo do ano (como o Cardinali, Chen, Dallas, Mundial, entre outros) circulando por diferentes localidades.

A lógica de “montar e desmontar” continua a ser a base do circo tradicional itinerante. Em muitos casos, continuam a instalar-se em terrenos municipais, recintos de feiras ou zonas desportivas. Ou seja: o circo ambulante não desapareceu, mas deixou de ser tão omnipresente como outrora.

Então, o que mudou ao longo dos anos?

Verificaram-se várias transformações importantes. Desde logo, o fim quase total dos animais desde 2019. Portugal proibiu a utilização de animais selvagens em circos, com um período de transição até 2025. Esta medida alterou profundamente o modelo clássico (leões, elefantes, entre outros).

Atualmente, o foco incide sobretudo em acrobatas, ilusionismo, humor, espetáculos visuais, equilibrismo, palhaços e números de risco.

Podemos mesmo afirmar que surgiu o chamado “novo circo”, caraterizado por um estilo mais moderno, inspirado no teatro e na dança. Também em Portugal se verifica essa tendência – espetáculos mais cénicos, com componente musical e, por vezes, dirigidos a públicos adultos.

Regista-se igualmente, uma menor presença nas pequenas localidades, ao contrário do que acontecia antigamente, quando praticamente todas as vilas recebiam o circo.

Importa ainda referir que, atualmente, existem mais exigências burocráticas, nomeadamente ao nível de licenças, escassez de terrenos disponíveis e custos elevados, o que contribui para que os circos circulem menos ou permaneçam mais tempo nas grandes cidades.

Os circos continuam ativos, mas já não constituem um fenómeno massivo como no passado. Hoje, dividem-se essencialmente em dois universos o tradicional itinerante e o contemporâneo, associado a espetáculos urbanos e festivais. O circo continua, assim, a reinventar-se. Creio, aliás, que existem em Portugal projetos destinados a preservar a sua história e a adaptá-la ao futuro, tratando-se de uma arte com séculos de tradição.

Aproveito para inserir um breve excerto do meu livro “Da Montanha ao Vale – As Viagens de um Grupo de Tertulianos”, cuja 1ª edição foi publicada em maio de 2022, Capítulo XVI, pág. 107:

“‘O Circo Mexicano’ – Uma olhadela para a rua e a passagem de uma caravana do Circo Mexicano. O Zé do Megane coçou o bigode, elevou o pescoço e reparou que os camiões que faziam o transporte sinalizavam para estacionar. Eram cinco camiões, com os quatro piscas ligados.

Atrás, seguiam três carrinhas com roulottes atreladas. Das carrinhas saíram cinco raparigas, valentes mocetonas, provavelmente artistas, pelo seu ar sensual, e também quatro rapazes, igualmente robustos.

Sentaram-se e pediram sumos de laranja. Enquanto bebiam, fumavam. Os rapazes faziam o mesmo; apenas um bebia cerveja – talvez não fosse artista.

Os motoristas e restantes elementos de apoio ao circo chegaram depois e permaneceram ao balcão.

Entretanto, uma das raparigas, muito maquilhada, dirige-se ao grupo de tertulianos e oferece um bilhete a cada um, bem como um prospeto do espetáculo, que teria lugar ainda nessa noite, na Zona Industrial de Leça da Palmeira.

Agradecem e prometem marcar presença.

Como nem todos podiam ir, entregaram os bilhetes a colegas, para que as suas esposas pudessem assistir.  E, assim decidido, retomaram os trabalhos que vinham desenvolvendo.

Após essa breve interrupção protagonizada por elementos do circo, surgiu um novo intervalo. (…)”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-04-2026)

10 de abril de 2026

ENTRE A BRINCADEIRA E O ENGANO: O 1 DE ABRIL NUM TEMPO DE DESCONFIANÇA

Escrevo este texto precisamente no dia 1 de abril – o chamado “Dia das Mentiras”. A data persiste, mas já não é vivida com a leveza de outros tempos. Dir-se-ia que sobrevive, embora sob suspeita.

A tradição mantém-se em muitos países, com partidas, notícias humorísticas e pequenas provocações entre amigos, colegas ou até marcas. Durante séculos, este foi um dia em que o engano era aceite como jogo social – uma espécie de licença coletiva para brincar com a credulidade alheia.

Mas o mundo mudou – e o contexto também.

Hoje, o 1 de abril confronta-se com um problema que ultrapassa largamente a inocência das suas origens: a banalização da mentira. Num tempo marcado pela desinformação e pelas chamadas “fake news”, aquilo que antes era brincadeira pode facilmente confundir-se com manipulação. Não admira, por isso, que muitos órgãos da comunicação social e empresas tenham optado por maior prudência, evitando participar numa tradição que pode ser mal interpretada.

Pessoalmente, confesso que me revejo entre os que olham para este dia com alguma reserva. Não por rejeitar o humor ou ironia, mas porque o terreno em que assentam se tornou mais instável. A Internet e as redes sociais amplificam tudo: uma simples partida pode ganhar dimensão inesperada e transformar-se, em poucas horas, numa falsidade tomada por verdade.

O que está em causa não é o desaparecimento da tradição, mas a sua transformação. As grandes partidas públicas tornaram-se mais raras; persistem, sobretudo, as brincadeiras privadas, mais contidas e, idealmente, mais responsáveis. Há, felizmente, uma consciência crescente de que nem tudo é aceitável em nome do riso.

Será então, o Dia das Mentiras uma tradição em declínio? Talvez não. Mas é, seguramente, uma tradição em adaptação – menos ingénua, mais cautelosa, e inevitavelmente marcada pelo tempo em que vivemos.

A este propósito recordo que já abordei o tema da verdade e da mentira em diversos artigos publicados neste e noutros semanários, nos anos de 2016, 2017, 2021 e 2025. A questão, longe de se esgotar, ganha hoje novos contornos.

Mas como surgiu esta tradição?

Aponta-se frequentemente Catarina de Médicis como estando na sua origem, numa história que cruza calendário e costume. Em 1564, enquanto regente de França em nome de Carlos IX, determinou que o ano civil passaria a iniciar-se a 1 de janeiro. Até então, o início do ano era assinalado no primeiro dia de abril.

A alteração não foi imediatamente assimilada por todos. Muitos continuaram a celebrar o antigo início do ano, mantendo a troca de presentes e votos festivos em abril. Com o tempo, esses gestos passaram a ser vistos como deslocados – e, progressivamente, transformaram-se em ofertas simbólicas ou fictícias.

Assim nasceu uma tradição marcada pela ambiguidade: entre o que parece e o que é, entre o dito e o desmentido.

O 1 de abril adquiriu, desse modo, um carácter quase carnavalesco, em que o engenho de uns se mede pela credulidade de outros. A França, então centro de influência cultural, difundiu o costume por toda a Europa, deixando até hoje a expressão poisson d’Avril, associada ao signo de Peixes, que antecede a data no calendário zodiacal.

Também a natureza parece alinhar neste jogo de ambiguidades. Abril é, por tradição, um mês instável, em que o sol se esconde e reaparece caprichosamente. “Em abril, águas mil” – diz o povo, com a sabedoria de quem reconhece que nem tudo é o que parece.

Ao longo dos tempos, o 1 de abril inspirou inúmeras invenções, sobretudo no universo jornalístico. Houve épocas em que a criatividade se media pela capacidade de enganar – e pelo número de leitores que “enfiavam o barrete”.

Recordo, a esse propósito, uma iniciativa do Diário de Notícias, na edição de 1 de abril de 2000. Em vez de publicar uma falsa notícia, optou por apresentar factos verídicos ocorridos nessa data ao longo da história. Uma escolha feliz, que inverteu o sentido da tradição e mostrou que a realidade pode ser tão surpreendente quanto a ficção.

De facto, não faltam acontecimentos marcantes associados ao dia 1 de abril – alguns deles inicialmente recebidos com incredulidade. A verdade, por vezes, tem essa estranha capacidade de parecer improvável.

E reforço, sim, momentaneamente postos em dúvida pelos mais céticos, até à sua confirmação. Como se verá, a nudez forte da verdade impõe-se ao manto diáfano da fantasia, pois abundam os factos de grande importância histórica numa data em que tantos preferem recorrer à imaginação.

Eis alguns exemplos:

1572 – Início, na Holanda, da guerra da independência.

1876 – Aprovação, em Portugal, o Código do Processo Civil.

1923 – Renovação do acordo entre a administração portuguesa de Moçambique e o Governo da África do Sul para o recrutamento anual (trabalho forçado) de milhares de indígenas para as minas.

1937 – Entrada em vigor da Constituição indiana, com o Partido do Congresso a exigir a independência.

1945 – Início da invasão de Okinawa, no sul do Japão, pelas forças americanas.

1948 – Interferência da URSS no tráfego entre Berlim e a Alemanha Ocidental.

1950 – Transferência da Somalilândia britânica para a Itália; segunda explosão atómica francesa em Reganne.

1954 – Integração da Terra Nova no Canadá.

1962 – A Suíça rejeita, em referendo, armas atómicas.

1963 – Fim da greve de 114 dias dos jornais de Nova Iorque.

1964 – Golpe militar no Brasil, instaurando uma ditadura prolongada.

1973 – O Governo de Harold Wilson manifesta intenção de negociar a entrada do Reino Unido na CEE.

1974 – Reunião preparatória do movimento que conduziria ao 25 de Abril em Portugal.

1983 – Entrada em vigor da Convenção Europeia para a Proteção do Ambiente.

1986 – Abolição do papel selado em Portugal.

1997 – Portugal assume a presidência do Conselho de Segurança da ONU.

 2026 – A missão Ártemis II arrancou nesta quarta-feira de 1 de abril, na primeira viagem desde 1972 que levará humanos à órbitra da Lua. A missão americana serve como um ensaio para o transporte de humanos. Quatro astronautas são transportados dentro da cápsula Órion, que segue acoplada ao foguetão SLS.

Talvez resida aqui a maior ironia deste dia: numa data associada à mentira, abundam factos que nos recordam a força – e, por vezes a estranheza – da verdade.

E ficamos por aqui.

 

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 09-04-2026)

 

2 de abril de 2026

DOIS IRMÃOS MONARCAS TÃO DIFERENTES

 

D. Pedro V ficou na memória dos portugueses como o mais amado dos reis. Nasceu em 1837 e veio a falecer em 1861, vítima de febre tifoide. Reinou quando era ainda quase uma criança, entre os 16 e os 24 anos. No entanto, foi nesse período que o regime constitucional se consolidou, que muitas fortunas particulares nasceram e que a primeira linha férrea foi inaugurada.

Mas este jovem rei não se tornou querido apenas por se ter sentado no trono. Sorrindo timidamente, numa época de vacas gordas, ficou também no coração dos seus contemporâneos e na lembrança dos que se lhe seguiram por ter escolhido para sua mulher uma jovem alemã que agradou muito a todos: Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, ou simplesmente D. Estefânia. Conheceram-se quando ambos tinham 17 anos. Entre eles nasceu um forte afeto que durou, infelizmente, pouco mais de um ano.

Estefânia morreria não muito depois de ter chegado a Portugal. Foi vítima de difteria contraída no decorrer de uma visita a Vendas Novas. Nas cartas à família, a jovem alemã queixava-se da aridez do nosso clima, embora dissesse gostar muito de Sintra – onde passou uma prolongada lua de mel com D. Pedro – e de Mafra.

Dotada de sentimentos filantrópicos, fundou hospitais com o marido e dedicava-se muito a visitar doentes. O Hospital Pediátrico de D. Estefânia, fundado em 1877, recebeu esse nome em homenagem à mulher e única paixão de D. Pedro V.

O jovem viúvo, nos escassos dois anos que ainda viveu, seguiu-lhe os passos, sendo frequente vê-lo à cabeceira de internados durante uma epidemia de cólera. Talvez por isso viesse também a falecer bastante cedo.

Em matéria amorosa, seu irmão D. Luís foi o oposto. Parece ter gostado sinceramente da italiana Maria Pia de Saboia, com quem casou em 1862. Cumpriu a “tarefa” de assegurar a existência de herdeiros do trono, com o nascimento do sucessor, D. Carlos.

A Câmara Municipal da Covilhã promoveu festejos na então vila para assinalar este casamento. Alguns extratos das felicitações foram reproduzidos na ata de 29 de setembro de 1862:

“Senhor:

A Câmara Municipal da Vila Notável da Covilhã vem mui respeitosamente, e possuída do mais sincero júbilo, felicitar Vossa Majestade pelo faustíssimo consórcio que vai tomar Nossa Rainha, Sua Alteza a Sereníssima Senhora D. Maria Pia de Saboia.

(…) Poderia a nossa futura Rainha cingir coroa de mais dilatados domínios! Porém não encontraria hoje debaixo do sol um Soberano mais querido, e uma Nação onde o amor, a fidelidade e a dedicação por seus Monarcas tenham sido, e sejam, mais puras e acrisoladas. (…)

Deus guarde a preciosa vida de Vossa Majestade e faça com que este feliz enlace seja perene fonte de venturas para Vossa Majestade e seguro penhor de felicidade para todos os Portugueses.

Sala das Sessões da Câmara Municipal da Vila Notável de Covilhã, aos 25 de setembro de 1862”.

 

 

 Programa

1.º Convidaram-se por ofício todos os Presidentes e Vogais das Juntas de Paróquia das freguesias deste Concelho para, nos três dias referidos, mandarem repicar os sinos e fazer todas as manifestações, que mostrassem o seu regozijo.

2.º Convidaram-se para assistir à solenidade religiosa no dia 12: o Administrador do Concelho, com os Empregados seus subordinados; o Juiz de Direito desta Comarca, com os seus empregados; o Escrivão da Fazenda do Concelho, com os respetivos funcionários;  o Delegado do Procurador Régio nesta Comarca; o Tenente Coronel comandante da força militar, bem como a respetiva oficialidade; os Presidente e Vogais das Juntas de Paróquia da Vila; os Juízes Eleitos da mesma; o Juiz de Paz do distrito da Covilhã; a direção e membros da Associação Comercial Hermínia; a direção e membros da Associação dos Artistas e Classes Laboriosas Covilhanenses; a direção da Filarmónica Covilhanense; a direção dos Artistas; os Professores de Instrução Primária e de Gramática Latina; o Tesoureiro do Concelho; e o diretor de Pesos e Medidas (que nesta Vila se achava temporariamente).

3.º Convidou-se o Reverendo Pároco de Santa Maria para, no dia 12, pelas 10 horas da manhã, celebrar missa cantada e solene Te Deum na sua Igreja, tendo sido também prevenido de que se convidava o Reverendo Arcipreste para assistir com o Reverendo Corpo Eclesiástico à solenidade religiosa. (…)

5.º No dia 10, à noite, tocaram no largo do Pelourinho as duas filarmónicas, colocando-se uma à esquina do chafariz e outra em frente da Casa da Associação dos Artistas. (…) Às oito horas da noite estava completamente acesa uma iluminação de novecentas e nove lumes, que ocupava toda a frente meridional da Torre dos Paços do Concelho. (…)

8.º Às três horas da tarde, as cento e sessenta e cinco praças aqui destacadas tiveram um abundante jantar de sopa de macarrão, arroz, toucinho, vaca, pão de trigo, e um quartilho de vinho para cada praça. Este jantar foi dado pela Câmara Municipal, que para este efeito pôs à disposição do Senhor Tenente-Coronel comandante, a quantia de trinte e três mil réis. (…)”

Não tardou, no entanto, que D. Luís I trocasse o leito da esposa pelos de muitas outras mulheres, de variados estratos sociais. A saúde da jovem rainha não tardou a ressentir-se desse comportamento do marido.

D. Luís nada escondia e revelava considerar normal a coexistência de uma vida familiar com as suas aventuras galantes, como confidenciava ao seu amigo, o rei Óscar II da Suécia e Noruega.

Foi também por essa época, nos finais da década de 1860, que as ideias republicanas começaram a ganhar força em Portugal.

A imprensa atacava as cabeças coroadas como nunca o fizera. O comportamento amoroso do rei fornecia tema para largas críticas. Soube-se assim que D. Luís era vítima de chantagem de mulheres a quem escrevia cartas tórridas e que lhe extorquiam dinheiro em troca da sua devolução – felizmente para ele, ainda não existiam fotocópias nem digitalizações…

Contudo, popularidade teve-a, em quase todos os meios.

Foi também D. Luís I quem elevou a Covilhã à categoria de Cidade em 20 de outubro de 1870. A distinção reconheceu a sua importância industrial, populacional e económica, destacando-se na produção de lanifícios.

Biografia consultada:

“365 Dias com Histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins;

“História da Covilhã – Vida Política” (1800 a 1926), de Rui Delgado.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-04-2026)