5 de maio de 2026

O 1.º de Maio no Estado Novo



 

Durante o período do Estado Novo em Portugal, o 1.º de Maio (Dia do Trabalhador) não era celebrado livremente como manifestação popular. O regime procurava esvaziar o seu significado político – historicamente associado ao movimento operário – e uma das estratégias recorrentes consistia na programação de eventos apelativos, como transmissões de futebol na Rádio e Televisão de Portugal (RTP), então ainda a preto e branco.

Embora não exista uma lista oficial consolidada dos jogos especificamente escolhidos para o 1.º de Maio, há registos e memórias consistentes de transmissões envolvendo os “três grandes”: SL Benfica, FC Porto e Sporting CP.

Podemos identificar alguns padrões. A Final da Taça de Portugal, frequentemente disputada em finais de maio, era muitas vezes integrada numa estratégia de forte promoção mediática. Em várias épocas, sobretudo nas décadas de 1960 e início de 1970, jogos decisivos ou clássicos do campeonato coincidiam com o feriado ou ocorriam em datas muito próximas.

Entre os exemplos mais citados, destacam-se:

- 1963 – Final da Taça de Portugal: Benfica vs Sporting

- 1969 (1 de maio) – Sporting vs Benfica, para o campeonato

- 1971 – Final da Taça: Benfica vs Sporting

- 1972 – Final da Taça: Sporting vs Vitória de Setúbal

- 1973 – Final da Taça: Sporting – vs Vitória de Setúbal

Para além destes casos, há referências a jogos importantes transmitidos no próprio dia ou em datas adjacentes, como:

- 1965 – Clássico Benfica vs Sporting, decisivo para o campeonato

- 1967 – FC Porto vs Benfica, no final de abril/início de maio

- 1970 – FC Porto vs Sporting, em período próximo do feriado

- 1973 – Benfica vs FC Porto, com grande destaque televisivo no dia 1 de maio

Estas transmissões concentravam a atenção pública num espetáculo desportivo altamente mobilizador. Num país onde clubes como o Benfica e o Sporting reuniam milhões de adeptos, um clássico televisivo levava famílias a permanecerem em casa ou a deslocarem-se aos cafés, reduzindo a probabilidade de mobilização social e reforçando uma imagem de normalidade e entretenimento.

O futebol funcionava, assim, como um eficaz “escape coletivo”.

Após a Revolução dos Cravos, o 1.º de Maio passou a ser celebrado livremente nas ruas, com grandes manifestações populares, deixando o futebol de desempenhar e sua função política indireta.

Historicamente, pode afirmar-se que existia uma intencionalidade na programação da RTP, privilegiando clássicos e jogos de elevada audiência. Nem sempre coincidiam exatamente com o dia 1, mas eram frequentemente colocados em datas próximas, cumprindo o mesmo objetivo.

A realidade demonstra que o regime utilizava o futebol como instrumento de distração, com alguma flexibilidade: jogos no próprio dia ou em torno do feriado, finais da Taça em maio e clássicos agendados para fins de semana contíguos.

Com base nestes padrões, é possível fazer uma reconstituição plausível da programação da RTP no dia 1 de maio de 1969

Evento central do dia

Sporting CP vs SL Benfica

Jogo da Primeira Divisão, no antigo Estádio de Alvalade, transmitido em direto pela RTP.

Este clássico terá sido o ponto alto da programação – um verdadeiro “evento nacional”, com início provável entre as 15h00 e as 16h00, mobilizando o país inteiro.

A grelha televisiva desse dia incluiria, provavelmente:

- Manhã e início da tarde: programas culturais e educativos, desenhos animados (ainda escassos) e magazines ligeiros

- Tarde: transmissão do jogo em direto

- Noite: Telejornal, sem referência a manifestações (proibidas), seguido de programas de entretenimento, como variedades, música ligeira ou teatro televisivo

Este exemplo ilustra bem a lógica do regime: evitar qualquer visibilidade do 1.º de Maio enquanto dia de luta operária e substituí-lo por conteúdos considerados “seguros”.

Em 1973, o Estado Novo encontrava-se já fragilizado. A guerra colonial prolongava-se, a contestação crescia e a tensão social era evidente. Ainda assim, o 1.º de Maio continuava sem liberdade de expressão pública e permanecia mediaticamente neutralizado.

Menos de um ano depois, dá-se a Revolução de Abril. O 1.º de Maio de 1974 transforma-se radicalmente com multidões a saírem à rua e a televisão a transmitir, pela primeira vez, manifestações populares livres.

Casei-me a 3 de maio de 1970, precisamente no período em que esta estratégia atingia o auge, com futebol, televisão e controlo político a cruzarem-se. Três anos depois, já se sentia que esse modelo se aproximava do limite.

Esta reflexão surge também por uma coincidência simbólica: “O Olhanense” sairá precisamente no dia 1 de maio, evocando estas memórias, e num momento em que o futebol continua a marcar o imaginário coletivo – como aconteceu recentemente no jogo entre FC Porto e Sporting CP, que apurou os “leões” para a final da Taça de Portugal, no Jamor.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01/05/2026)