Durante o período do Estado Novo
em Portugal, o 1.º de Maio (Dia do Trabalhador) não era celebrado livremente
como manifestação popular. O regime procurava esvaziar o seu significado
político – historicamente associado ao movimento operário – e uma das
estratégias recorrentes consistia na programação de eventos apelativos, como
transmissões de futebol na Rádio e Televisão de Portugal (RTP), então ainda a
preto e branco.
Embora não exista uma lista
oficial consolidada dos jogos especificamente escolhidos para o 1.º de Maio, há
registos e memórias consistentes de transmissões envolvendo os “três grandes”:
SL Benfica, FC Porto e Sporting CP.
Podemos identificar alguns
padrões. A Final da Taça de Portugal, frequentemente disputada em finais de maio,
era muitas vezes integrada numa estratégia de forte promoção mediática. Em
várias épocas, sobretudo nas décadas de 1960 e início de 1970, jogos decisivos
ou clássicos do campeonato coincidiam com o feriado ou ocorriam em datas muito
próximas.
Entre os exemplos mais citados,
destacam-se:
- 1963 – Final da Taça de
Portugal: Benfica vs Sporting
- 1969 (1 de maio) – Sporting vs
Benfica, para o campeonato
- 1971 – Final da Taça: Benfica
vs Sporting
- 1972 – Final da Taça: Sporting
vs Vitória de Setúbal
- 1973 – Final da Taça: Sporting
– vs Vitória de Setúbal
Para além destes casos, há
referências a jogos importantes transmitidos no próprio dia ou em datas
adjacentes, como:
- 1965 – Clássico Benfica vs
Sporting, decisivo para o campeonato
- 1967 – FC Porto vs Benfica, no
final de abril/início de maio
- 1970 – FC Porto vs Sporting, em
período próximo do feriado
- 1973 – Benfica vs FC Porto, com
grande destaque televisivo no dia 1 de maio
Estas transmissões concentravam a
atenção pública num espetáculo desportivo altamente mobilizador. Num país onde
clubes como o Benfica e o Sporting reuniam milhões de adeptos, um clássico
televisivo levava famílias a permanecerem em casa ou a deslocarem-se aos cafés,
reduzindo a probabilidade de mobilização social e reforçando uma imagem de
normalidade e entretenimento.
O futebol funcionava, assim, como
um eficaz “escape coletivo”.
Após a Revolução dos Cravos, o
1.º de Maio passou a ser celebrado livremente nas ruas, com grandes
manifestações populares, deixando o futebol de desempenhar e sua função política
indireta.
Historicamente, pode afirmar-se
que existia uma intencionalidade na programação da RTP, privilegiando clássicos
e jogos de elevada audiência. Nem sempre coincidiam exatamente com o dia 1, mas
eram frequentemente colocados em datas próximas, cumprindo o mesmo objetivo.
A realidade demonstra que o
regime utilizava o futebol como instrumento de distração, com alguma
flexibilidade: jogos no próprio dia ou em torno do feriado, finais da Taça em
maio e clássicos agendados para fins de semana contíguos.
Com base nestes padrões, é
possível fazer uma reconstituição plausível da programação da RTP no dia 1 de
maio de 1969
Evento central do dia
Sporting CP vs SL Benfica
Jogo da Primeira Divisão, no antigo Estádio de Alvalade,
transmitido em direto pela RTP.
Este clássico terá sido o ponto alto da programação – um
verdadeiro “evento nacional”, com início provável entre as 15h00 e as 16h00,
mobilizando o país inteiro.
A grelha televisiva desse dia incluiria, provavelmente:
- Manhã e início da tarde: programas culturais e educativos,
desenhos animados (ainda escassos) e magazines ligeiros
- Tarde: transmissão do jogo em direto
- Noite: Telejornal, sem referência a manifestações
(proibidas), seguido de programas de entretenimento, como variedades, música
ligeira ou teatro televisivo
Este exemplo ilustra bem a lógica do regime: evitar qualquer
visibilidade do 1.º de Maio enquanto dia de luta operária e substituí-lo por
conteúdos considerados “seguros”.
Em 1973, o Estado Novo encontrava-se já fragilizado. A
guerra colonial prolongava-se, a contestação crescia e a tensão social era
evidente. Ainda assim, o 1.º de Maio continuava sem liberdade de expressão
pública e permanecia mediaticamente neutralizado.
Menos de um ano depois, dá-se a Revolução de Abril. O 1.º de
Maio de 1974 transforma-se radicalmente com multidões a saírem à rua e a
televisão a transmitir, pela primeira vez, manifestações populares livres.
Casei-me a 3 de maio de 1970, precisamente
no período em que esta estratégia atingia o auge, com futebol, televisão e
controlo político a cruzarem-se. Três anos depois, já se sentia que esse modelo
se aproximava do limite.
Esta reflexão surge também por
uma coincidência simbólica: “O Olhanense” sairá precisamente no dia 1 de maio,
evocando estas memórias, e num momento em que o futebol continua a marcar o
imaginário coletivo – como aconteceu recentemente no jogo entre FC Porto e
Sporting CP, que apurou os “leões” para a final da Taça de Portugal, no Jamor.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”, de 01/05/2026)


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