Lá vai o tempo em que, na cidade da Covilhã e nas aldeias e vilas que a circundavam,
havia uma taberna a cada esquina ou em locais privilegiados. Ali estava a tasca
para retemperar o corpo ávido ou para servir de ponto de encontro entre amigos ou
colegas de profissão para a conversa do dia. Em redor de uns petiscos, servia para
o desembuchar das amarguras da vida. Isto verificava-se mais no meio rural,
sendo que, na urbe, eram mais acolhedoras as prolongadas rodadas que pareciam
não ter fim.
Quando poucos utilizavam o automóvel, nesses tempos das décadas de 50 e
60, percorriam-se, por vezes a pé, longas distâncias para ir ao futebol ou
acompanhar um funeral, quando ainda existia a carreta puxada a braços de
homens. No regresso, em ambos os casos, a tasca era convite para afogar as
mágoas ou celebrar vitórias.
Os cafés, estabelecimentos mais afamados, reuniam grupos de amigos para
ouvir o relato de futebol na rádio, numa época em que a televisão ainda não chegara
a Portugal, o que apenas aconteceu por volta de meados do século XX. Recordo,
então, o habitual comentador de futebol da RTP, Alves dos Santos.
“Vai um copinho de três?” Dê um só trago. Este ritual não falhava em
qualquer taberna que se prezasse, a qualquer hora do dia. Mas o por que razão tinha
este nome? Segundo um antigo dono de uma taberna, antigamente havia um copo que
custava três tostões e, para o distinguir do de dois tostões, ficou conhecido
como “copo de três”.
Atualmente, os copos de três são outros, de vidro mais fino, porque, diz
a etiqueta, “aí o vinho sabe melhor”.
Por 40 cêntimos, um copo de vinho especial (13 graus) “mata o bicho” a
muita gente. Note-se que nos reportamos a 2002…
Mas, se os mais novos já não têm o
hábito de afogar as mágoas na castiça “taça de vinho”, importa saber que esta
não era uma modalidade exclusiva dos solitários que passavam pelas tascas
tentando enganar o tempo.
Quem não se lembra das “sopas de cavalo cansado”? Estas sopas foram,
durante muito tempo, sinónimo de pobreza.
Mistela de fatias ou migalhas de pão ou de broa embebidas em vinho tinto
quente açucarado, por vezes polvilhado com canela, esta massa alcoólica era
dada às crianças logo pela manhã. Como
dieta alimentar, acreditava-se que era o melhor remédio para dar força aos
músculos. Nas zonas mais pobres de Portugal, ao longo dos séculos, foi essa a
condenação: à falta de leite para as crianças, dava-se vinho.
E eram sopas de cavalo cansado porque, nos tempos em que o equídeo era a
condição sine qua non dos transportes, o animal cansava-se e, mesmo se
não existisse cavalo de muda para o substituir ao fim de uma ou duas tiradas,
recuperava as forças. Sendo revigorante para o gado cansado, por que não
haveria o vinho de servir também para habilitar as crianças a tornarem-se
adultas mais cedo, nessas aldeias e casas pobres das serranias onde o leite
raramente chegava?
O mapa do analfabetismo coincide com o mapa da enogastronomia. É o caso
das sopas de cavalo cansado, aqui e além promovidas e elogiadas como comida
tradicional de referência, figurando até em folhetos promocionais das riquezas
da região quando, paradoxalmente, simbolizam a extrema pobreza.
Assim foi em Vieiro (Vila Flor), no Casteleiro (Sabugal) ou em Abiúl
(Pombal), terras que reclamam a excelência desses ligeiros, mas nefastos, vapores
vínicos pelos quais gerações foram sendo irreversivelmente alcoolizadas.
Do cante alentejano e da taberna, Joaquim Pulga opina que um povo que
tende a deslembrar a memória deixa de possuir alimento para os vindouros. Não é
por acaso, quando a vida não corre sobre trilhos, que se diz: “Vou ali afogar
as mágoas”. Num copo de vinho. Vem isto a propósito da ligação umbilical entre
o cante e a taberna. É o copo de vinho que se bebe de um trago. É a mão que
alcança o pão e a azeitona. É o cigarro que calmamente se fuma. É a roda de
companheiros ao balcão da taberna.
Foi aqui e mormente nos cafés que estabeleci amizades e aprendi a
maldizer, onde tive o direito de discutir o relativo e o absoluto, onde com
reverência acabei por saber e fazer, onde alcancei dos prazeres do vinho e do
petisco.
Quanto aos comes, tenho uma desmedida fé nos poderes alquímicos dos
taberneiros.
Mas a taberna também é um espaço de produção e transmissão de memória.
Assim como pode servir de pretexto à exploração da história local, porque o
tema das tabernas
não se esgota no espaço da própria
taberna.
Com a colaboração do amigo Carlos Mota, recordamos muitas das tabernas
que existiram na Covilhã e arredores. Quanto às que ainda subsistem, para além
da sobejamente conhecida Taberna do Zé Ministro, destacam-se as mais recentes: Taberna
A Laranjinha, Epicentro Covilhã, Porta 32 Petisqueira e Meet Bar.
Muitas outras já desapareceram: O
49, O Petronilho. O Maia, Cova Funda, Primeiro de Janeiro, Zé dos Tremoços, Zé
Maria, O 22, Mariana, A Gata, A Fanfam, O Benjamim, Sete, Os Tonhos, Os
Compadres, O Mariano, O Fazendeiro, O Janota, O Felisberto, O Meia-Celamim, O
Manuel Jacinto, O Ervilha, O Gaiola, O Matos, O Mário, O Parrana, O Papagaio, o
Retiro, O Morgado, O Gavinhos, Quadras Soltas, entre outras.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”,
de 15-06-2026)
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