Desta vez, deu-me para recuperar um texto que publiquei no semanário Notícias da Covilhã, em 02-04-1999, e cujo conteúdo continua muito atual.
Certos hábitos, originados pelo stress quotidiano, levam-nos, enquanto
peões, a atravessar as ruas fora dos locais próprios e, muitas vezes, sem
respeitar os sinais dos semáforos.
Nas nossas ruas, mormente na
Covilhã, muitas delas antigas e estreitas, é frequente ver estudantes que, na
sua jovialidade e sobretudo quando circulam em grupo, parecem fazer ouvidos moucos
aos veículos que transitam, obrigando os condutores, por vezes, a recorrer à
buzina.
Alguns automobilistas, quando assumem
o papel de peões, esquecem essa dualidade de posições e atravessam lentamente
nas passadeiras.
Poucos(as) mas com mais dose de
atrevimento fazem dessas passagens, de uma banda para a outra, como que um
passeio, e na sua mente certamente estará: “Aguenta, se quiseres, que agora passo
eu”.
Em alguns casos, os peões iniciam
a travessia quando os veículos já se encontram muito próximos da passadeira, o
que, além de incorreto, é manifestamente perigoso.
E a travessia nas estradas, em
horários de transportes coletivos urbanos, e para as freguesias do concelho,
principalmente em horas de ponta, para apanhar o autocarro, mormente quando já
se chega atrasado! É mais uma vez o imperar da inconsciência de alguns peões, que
não acautelam devidamente a travessia da estrada, pois, se esta se percorre
rapidamente, também num ápice pode surgir um acidente fatal.
Seria incorreto se não afirmasse que
todos nós temos, em maior ou menor grau, o hábito em procurar a facilidade,
dando uma fugidinha pelos sítios mais curtos, ou quando o vermelho para peões
persiste e não se avizinha nenhum veículo, o que é certo é que esses
atrevimentos, geralmente consentidos pelos agentes reguladores de trânsito,
como é óbvio da circunstância, podem-nos trazer dissabores e contratempos.
No Diário de Notícias de
há dias vinha uma reportagem sob o título ‘Peões perigosos provocam acidentes. PSP
não tem agentes suficientes para multar os cidadãos que não utilizam as
‘zebras’ da cidade’. ‘O peão é um dos grandes atores dos acidentes de viação em
Lisboa. O lisboeta é muito inconsciente. Sabe muitas das leis que o obrigam,
mas parece pensar que as leis de trânsito que a ele se referem não são para
cumprir. A dificuldade que um agente que está a regularizar o trânsito tem de
eleger um peão, daqueles muitos que prevaricam, para identificar, pois eles são
tantos!
O preenchimento do auto exige a
identificação total do peão e o agente vai estar ali um bom quarto de hora, ou
mais, ao mesmo tempo que outros peões vão prevaricando’.
No pretérito ano, o total de
acidentes de viação em Lisboa atingiu 21 193, com 78 mortos, tendo sido 32
por atropelamento, além de 1006 acidentes por travessia de peões.
Além dos danos corporais que o
peão pode sofrer, pode também ser responsável por danos materiais, e também
corporais, que ocasionar a terceiros, se lhe for atribuída culpabilidade, no
âmbito do Código Civil Português.
Já não é a primeira vez que isso acontece.
Em tempos, uma Seguradora teve de
pagar os prejuízos materiais que o seu cliente, no Ramo Responsabilidade Civil
Familiar, originou a um táxi, em Lisboa, passando nas ‘zebras’ quando o
vermelho do semáforo se encontrava ativo. Ao ‘atropelar’ o táxi, e devido ao
impacto do embate que, inclusive, projetou o peão sobre o capot e veio a
ter danos naquela viatura, foi responsável por este ato que lhe poderia ter
trazido maiores complicações.
É bem certo o ditado: ‘Devagar
que tenho pressa’”.
Outro caso, cuja responsabilidade
se desconhece, ocorreu também com um cidadão covilhanense, natural duma
freguesia rural. Piloto aviador de profissão e sem qualquer percalço registado
na sua carreira, acabaria tragicamente por falecer vítima de atropelamento por
um automóvel, em Castelo Branco.
Bibliografia: Texto publicado no
jornal Notícias da Covilhã, em 02-04-1999,
posteriormente incluído na obra O
Documento Antigo – Uma Outra Forma de Ver os Seguros em 2018.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”, de 01-07-2026)
