18 de dezembro de 2014

O CAMINHO FAZ-SE CAMINHANDO

Na continuidade de mais um número do Combatente da Estrela, o último deste ano da graça de dois mil e catorze, que vai findar, tempo que decorreu envolvido em sacrifícios que caíram sobre todos nós, vamos prosseguir o caminho de encontro ao interesse dos Associados.
E, como a metáfora que encima o título deste texto, caminharemos no sentido de dar voz aos antigos Combatentes, através das suas histórias de vida, memórias dum tempo que passou, e mesmo vivências dos tempos atuais, por vezes em hilariantes tertúlias de ocasião, a emergirem onde se juntam três ou quatro amigos, ou mais, no seu seio, ou provocados pela união em redor deste órgão que é a Liga dos Combatentes.
Muitos mais poderiam engrossar o número dos Associados da Liga, não só dentre todos quantos passaram pelas terras africanas em missão de fidelidade à Pátria, num tempo de obrigação militar, como mesmo qualquer cidadão que não tivesse sido objeto de mobilização. Também por cá se passaram histórias engraçadas que poderão ser contadas neste espaço que é o Combatente da Estrela.
Dá prazer ver hoje a união de tantos e tantos jovens de outrora, da funesta década de sessenta do século passado (sim, todos nós vivemos já em dois séculos), a reunir-nos não só na Covilhã, mas também em outras Ligas de Combatentes, por este País fora, memorizando os tenebrosos tempos da Guerra em África em que nos envolveram.
Se muitos podem agora celebrar com tranquilidade todo esse tempo passado, ainda que outros também tivessem seguido rumo à emigração, para se safarem da guerra, já milhares continuam a sofrer na carne e no espírito os nefastos efeitos da sua passagem pela luta nas antigas Colónias Portuguesas.
No último número fiz referência à enorme dor que sentiram as famílias, algumas com efeitos fatais, outras, dilaceradas com a perda dos seus jovens filhos, maridos ou irmãos.
Mas se esse luto entretanto passou, é pungente ver ainda mãos cheias de gente, incluindo as famílias que a rodeia, ainda a sofrer os efeitos psicológicos dos terrores da guerra. Uma juventude que regressou com vida mas que, na continuidade da sua vivência, agora com mais de 60 e 70 anos, não se consegue libertar duma terrível doença psicológica que os próprios não provocaram.
Valerão em parte alguns encontros com sociólogos, preparados para o efeito, mas que não passarão de um breve bálsamo.
E, por mais que se façam sentir estes problemas aos governantes de Portugal, o que é que os antigos Combatentes já usufruíram de palpável, no sentido de colmatar todo este sofrimento em que se viram envolvidos em carne para canhão?
Vamos continuar a persistir, e a lutar agora com as armas não-beligerantes, mas persuasivas, para os direitos a que cada um lhes assiste, na reparação dos efeitos maléficos ocasionados a quem ainda mantem esse enorme fardo como carraça impregnada no seu corpo.
E as tertúlias entre camaradas, e outros eventos próprios, são fazedoras de ambientes propícios a uma certa momentânea tranquilidade de espírito.
E é neste caminhar que a juventude de outrora, pelos sacrifícios que passou, ainda não chegou ao fim da viagem; e, embora a idade não perdoe e vá amolecendo o dinamismo e a vontade, continua a caminhar, ainda que em passos mais lentos, e calculados, naquele espírito, mesmo assim ainda jovem, de prosseguir, nestes dias turbulentos por que passa, e que se vão atravessando no caminho, para os quais já não existe qualquer surpresa, o sentido de que seja feita a justiça que a história um dia perpetuará.
Resta-nos desejar, a todos os Associados e suas Famílias, um Santo Natal e que o Novo Ano 2015 resplandeça daquela palavra bonita – a Esperança.

João de Jesus Nunes

(In "O Combatente da Estrela", n.º 97, de out 2014 a dezº 2014)

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